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sábado, agosto 01, 2026

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



 

Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi, semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme, percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman. Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só, cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim, sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais ver.


Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jenny Holzer: Como você se resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente externo como estranho... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Acho que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas de alegria... Veja mais aqui & aqui.

 

A MÃO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \ esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.

Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima – 1961-2026).

 

CONJUNÇÕES & DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos, seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano – 1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade, sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de 1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta... A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre: as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo. [...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (Farrar, Straus and Giroux, 2021), da filósofa e escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de Oxford.

 

A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS

[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo [...].

Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de  Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


ASCENSO FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros, bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.

 


LITERATURA DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas, violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino, ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta manifestação da poética nordestina. Confira aqui.

 


ANCESTRALIDADE NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.


 

A ARTE DE EVANDRO NICOLAU – Destaque para a arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto, nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.

 


DIÁRIO DOS ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.


 


terça-feira, novembro 01, 2022

ALDA MERINI, ELIANE BRUM, ILONA GUITAR & ATELIÊ VIRTUAL

 

 Ao som do Prelude nº 1, de Heitor Villa-Lobos, na interpretação da violonista polonesa Ilona Guitar.

 

TRÍPTICO DQP: - Quando o Sol e os escombros... - Ufa! Uma e outra vez flui o rio pro mar. Já era tempo ouvia Primo Levi: A intolerância tende a censurar, e a censura promove a ignorância dos argumentos dos outros e, portanto, a própria intolerância: um círculo vicioso e rígido que é difícil de quebrar... E isso doía na quebrada dos últimos anos, como aquele verso do Georg Trakl: A neve negra que escorre dos telhados; / Um dedo vermelho mergulha em sua testa / Flocos azuis afundam no quarto vazio, / Estes são os espelhos mortos dos amantes... Impossivel ignorar que antes foi o golpe e depois emergiu a caquistocracia: os sobressaltos tudo outra vez e batiam cabeça como se o perigo não passasse nem tão cedo– o que esperar de Fabos-cabeças-de-fósforos se eles são irredutíveis no Fecamepa? E com eles a pandemia: estúpidos por conta própria com as suas ucronias pelos alto-falantes, tão inquietante quanto claustrofóbicos, do desagradável ao intolerável - qual calibre da guilhotina e as reprises de pólvora, a bofetada sem revide. E conseguem manter com suas baforadas o ar fétido do mundo a franzir o cenho à careta do que desagradavam porque odeiam aflato e vagido, quando pararão de se debater, ninguém sabe – e entre eles, desde que não fizessem às claras e nem assustassem as crianças. Ora, ora. Nem todo mundo é carrasco, nem todo mundo é só do contra porque verdugo e antipático são quase senão os mesmos. Só conseguia ouvir ao meu lado a Eliane Brum: Há realidades que só a ficção suporta... Não adiem os começos, porque o fim já está dado... Era como se só restasse pedir demissão da humanidade, chovendo por dentro entre o sombrio e a existência, os corpos e a morte. A torcida era para que aparecesse um vaqueiro bom pra botar essa boiada espalhada no seu devido curral. Entretons e eutopias, eu me dizia: a vida é necessária como toda arte é política. Graças! Agora parece podermos respirar um pouco mais aliviado porque esta cidade não pertence a ninguém, nem a bandeira é só para energúmenos. Caminho longo pela frente, ainda bem que a estrela brilhou com teor de remissão e alumiando a estrada. Lavei a alma. Prossigamos, enquanto o Sol e os escombros...

 


Ateliê Virtual – A ideia foi do Rubens Cunha Lima, sugestão logo acatada por todos, até pra encampar bloco carnavalesco num desfile geral – troça essa que faria questão de compor mais um frevo! Vambora. Logo a Cibele Carneiro tomou as rédeas das providências e foi arrumando tudinho enquanto sapecava artes. Não demorou muito e lá estávamos todos prontos para trocar ideias. De chapa o Ricardo Aidar trouxe a arte do centenário Pierre Soulages e desafiou a gente pruma pesquisa aprofundada a respeito - – afora mostrar dois quadros de sua autoria que me trouxeram de volta a Intromissão do verbo. A Solange Pinheiro não ficou de fora e me sugeriu logo o Vik Muniz, enquanto a inquieta Márcia Gebara arrumava uma Feira de Livros duma escola. E todas as quintas desde as instruções dos adoráveis professores Renata Sant'Anna de Godoy Pereira, Evandro Nicolau & Maria Angela Serri Francoio. Daí deu-se a organização do nosso ateliê. E eu que não passava dum caçula desenhador, logo me vi parceiro na empreitada. Simbora com aquela sensação do Paul Celan entre o complexo e o complicado: A poesia é uma espécie de regresso a casa... Havia terra dentro deles, e eles cavaram... Eles me curaram em pedaços. E o que de bom vai adiante, rumbora!

 


Hic et Nunc... - Curiosamente ocorrera comigo o que foi narrado um dia por Middleton: Alguém se aproximou para me entregar um folheto e uma recomendação: não é pra qualquer um. Sim? Reiterou: Só para pessoas especiais. Intrigado, abri o comunicado. Atento, descobri: lá estava inscrita oferta de serviços funerários. Hem? Ao levantar as vistas para indagar a respeito, não havia ninguém: será a trama do xadrez dele? Fiquei só com o distante eco dos antepassados revividos que emergiam no meio das ruas. Era como se me chamassem pelo nome e eu sabia: a tragédia na geral. Mas a mim que haviam tumultuado. Sei que tudo é para ser experimentado: diferentes cotidianos, o aqui dentro e o lá fora. O bom foi a surpresa de Alda Merini: Estamos com fome de ternura, em um mundo onde tudo é abundante que somos pobres desse sentimento que é como uma carícia para o nosso coração que precisamos desses pequenos gestos. Faça-nos sentir boa ternura é um amor desinteressado e generoso, que não pede mais nada para ser entendido e apreciado... O que me deu agora ou depois, respirar fundo o pó da estrada: sempre o inesperado, como se eu dissesse noutro tempo verbal: não há nada melhor, nem há outra escolha. Amanhã já é outro, feliz de quem vive e possa morrer em paz. Não é de hoje, só agora vale mais. Até mais ver.


 

Outro dia mexendo em uma livraria, estarrecido encontrei a cartilha Caminho Suave, a mesma em que fui alfabetizado quarenta e tantos anos atrás. Alguma coisa está errada. As crianças mudaram muito nesses anos, enquanto a educação deu pequenos passos adiante. Pequenos passos mais voltados para a estatística, que para o conteúdo. O futuro será péssimo, pois daqui a 10 anos entre essas crianças que chegam a 5ª série sem saber ler e escrever, estarão os futuros educadores...

Trecho extraído da apresentação da obra Domínio público – literatura em quadrinhos (Funcultura, 2006), do arquiteto, editor e presidente do Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil (IMAG), Gualberto Costa. Veja mais Educação & Livroterapia aqui & aqui.




 


quinta-feira, junho 11, 2020

PRIMO LEVI, GERTRUDE STEIN, RICARDO RANGEL & FRANCISCO BRENNAND



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: SOLIDÃO, HORROR & DESGOVERNO - Todo dia varando o pedaço azul da imensidão que me cabe no fluxo incessante dos devires, vou à varanda e é tempo chuvoso, o inverno se avizinha. Logo imagino neste tempo ter de volta aquele de luta pela redemocratização do meu país. Tempo difícil de negrume e a minha gente se esqueceu daquela lição. Deu-me a sensação de Yasunari Kawabata: Talvez o sentimento do mal tivesse ficado anestesiado, confundido com costumes e ordens sociais. Parece mesmo, a nossa democracia é uma jovem sujeita às ilusões das lábias cavernosas dos poderosos dominantes, nossas frágeis instituições sucumbem com facilidade ao poder econômico e os sabidos acham pouco e fraudam até as cotas das universidades. Pois é, com a luta da Carta Cidadã não deu para vaticinar o futuro demolindo o passado, voltamos para a estaca zero. Vou para outra. DOIS: OS VENCEDORES QUE SE CUIDEM – A história oficial sempre foi contada pelos e para os vencedores. Somente a eles dominantes que tripudiaram para se eternizarem, o elogio no poder de ditar o que ficaria para a posteridade. Hoje o que a gente vê de patrimônio histórico e nomes de praças e ruas com o que eles mandaram e desmandaram dão na desfaçatez e indignação. A história haverá de ser reescrita e, ao que parece, já começou: muitos livros, documentários, narrativas, ficções e depoimentos precisam ser levados em consideração. Que os historiadores tomem coragem – alguns já deram o pontapé! Para tanto, no Fecamepa dou meus pitacos nesse sentido e com uma farta referência no final, coisa de doido. Mas para não ficar nessa aguada e tediosa angústia quarentenada, melhor os versos do Espelho de Geraldo Carneiro: do outro lado um estranho / faz simulações como se fosse / um demônio familiar / é sempre noite, um assassino sonha / com mulheres assassinadas em série / sob as palmeiras de Malibu / o mundo é só uma ficção plausível / a imagem que baila ao rés-da-lâmina / é um último e improvável vestígio / da existência de Deus / o resto são ecos de outras faces / gestos de espanto e despedida / a música dos relógios, a morte. De repente a catarse nos sinalize um paraíso qualquer por insinuação. TRÊS: MUDANDO DE CONVERSA PELAS DOIDICES - Gente, que tolidade é esta, hem? A patetada ministerial tesloucou ou é o fanatismo disparatado que está vingando na onda coisada, ou as duas coisas mesmo, só sendo. Haja patacoada: para o da saúde o norte/nordeste está no Polo Ártico; para o da área ambiental, boiadas passam pro desmatamento e tome queimada amazônica; para a doida dos direitos, Jesus na goiabeira quer prender os do contra e cassar os que morreram caçados; pro energúmeno da educação, ditadura nas universidades para gestão privada e desaprendizagens online; pro da economia, enriquecer os ricos e promessas de esmolas para os pobres; isso tudo afora afrontas antidemocráticas, arengas nas relações internacionais e aposta nas sandices de enxofre e alho para combater a pandemia. Olhando direitinho, do fundo do poço não dá pra ver luz nenhuma no fim do túnel: o Planalto pirou e nem se sabe para onde vamos. Como o Brasil está num mata-burro, estou aqui com caraminholas no juízo e ouvindo Vygotsky repetir: O saber que não vem da experiência não é realmente saber. Através dos outros, nos tornamos nós mesmos. E o que tem a ver isso com aquilo? Acho que estou variando, será que a disparatada contagia como a pandemia? Eita! Tenho que tomar tino, vai lá que seja contagioso mesmo, hem? Até mais ver que vou ali e volta já, tá? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A semente de Auschwitz não deveria voltar a germinar; mas a violência está perto, à nossa volta, e há uma violência que é filha da violência. Existem vínculos subterrâneos entre a violência das duas guerras mundiais e a violência que presenciamos [...]. Trecho extraído da obra Entrevistas y consersaciones (Península, 1998), do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui e aqui.

CONTANDO OS VESTIDOS DELA, DE GERTRUDE STEIN
[...] PARTE I - ATO I Quando eles não me viram. Eu vi eles de novo. Eu não gostei. ATO II Eu conto os vestidos dela de novo. ATO III Você pode desenhar um vestido. ATO IV Em um minuto. [...] PARTE XXXVII - ATO I Conta os vestidos dela. ATO II Coleciona os vestidos dela ATO III Limpa os vestidos dela. ATO IV Eis o sistema. [...] PARTE XXXVIII - ATO I Ela poliu a mesa. ATO II Conta os vestidos dela novamente. ATO III Quando você pode vir. ATO IV Quando você pode vir. [...] PARTE XXXI - ATO I Reflita mais. ATO II Eu quero mesmo um jardim. ATO III Você quer. ATO IV E roupas. ATO V Eu não menciono roupas. ATO VI Não você não mencionou mas eu mencionei. ATO VII É eu sei disso. [...].
CONTANDO OS VESTIDOS DELA – Trechos extraídos da peça teatral Contando os vestidos dela (7 Letras, 2001), da escritora, dramaturga e feminista estadunidense Gertrude Stein (1874-1946). Esta obra é parte dos estudos realizados pela tese de doutoramento sobre a temática Aqui há uma margem - teatro e exílio em Gertrude Stein (UFRJ, 2007), da professora e pesquisadora Inês Cardoso Martins Moreira, que é graduada em Artes Cênicas – Teatro pela UFRJ. Veja mais aqui.

A ARTE DE RICARDO RANGEL
Temos um país sentado.
RICARDO RANGEL – A arte do fotógrafo e fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel (1924-2009), que teve durante sua carreira muitas obras proibidas e destruídas pelos censores portugueses que não foram exibidas até à independência de Moçambique, em 1975, por ser frequente alvo da polícia secreta, a PIDE. Sobre ele o longa-metragem documentário Ricardo Rangel - Ferro em Brasa (2009), do realizador Licínio Azevedo, desatacando-o como símbolo vivo da geração que no fim dos anos 1940, iniciou as primeiras denúncias contra a situação colonial, enquanto fotografava e revelava a desumanidade e a crueldade do colonialismo, até o fim da guerra civil pós-independência. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
 
A arte do escultor, ceramista e artista plástico Francisco Brennand (1927-2019). Veja mais aqui.
&
A música da saudosa cantora e compositora Selma do Coco (1935-2015) aqui.
A obra do poeta e enciclopedista Artur Griz aqui, aqui e aqui.
A arte da artista visual Juliana Lapa aqui.
Organismo, de Jeorge Pereira & Bianca Joy Porte aqui.
Memória da Cena Pernambucana aqui.
&
São Caetano aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, outubro 16, 2017

PRIMO LEVI, ALTHUSER, OSCAR WILDE, FERNANDA MONTENGRO, SÉRGIO AUGUSTO DE ANDRADE, NEUZA PARANHOS, APOLLONIA SAINTCLAIR & PADRE BIDÃO

OS MILAGRES DO PADRE BIDIÃO - Muito se tem falado a respeito dos milagres praticados pelo Padre Bidião. Eu mesmo nunca vi um sequer, mas que falam, falam. E muito! Pois bem. Certo dia o pároco adentra meu escritório e me pede uma bebida. Qual? Pode ser uísque mesmo, vá. Abri a portinhola da estante, peguei um copo e um litro do uísque que dispunha, coloquei sobre a mesa e me levantei para ir buscar gelo no frigobar. Precisa não, vou tomar caubói mesmo, podexá. Retornei e ele me fez pegar outro copo pra mim. Vamos brindar! Brindar o quê, padre? Seguinte: você é escritor e eu estou meio enganchado com o meu Evangelho, preciso de você para concluí-lo, acertado? Padre, ora, o senhor dispõe de gente da melhor cepa, não precisa de mim reles contador de história pra isso, ainda não sou escritor gabaritado para uma empreitada dessas, é muita responsabilidade. Deixe de conversa mole, vá, encha o copo, vamos brindar e virar duma vez. Assim fiz. Brindamos, vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou! Pronto, engoli seco, minha garganta queimou. O da batina nem careta fez. Outra, vamos lá. O mesmo ritual. Viramos e ele após ingerir a segunda dose, me puxou mais pra perto e me disse: Preciso de você antes do livro. Como assim? Seguinte: quando falei com Deus pela primeira vez, pedi poderes para curar as pessoas. Ele então me mandou pro Tibet e, chegando lá, disse que eu fosse pra Shangri-lá. Três meses enclausurado, curso intensivo, aprendi. Voltei ao mundo e consegui curar gente de todo tipo, botar cego pra enxergar, mudo pra falar, aleijado andar, enfim, tudo me era possível nisso. Porém, nunca consegui ressuscitar ninguém. Invoquei Deus e disse: Quero ressuscitar as pessoas. Jesus fazia isso, eu também quero fazer. Quero ressuscitar as pessoas, desencantar as árvores encantadas, os pássaros amaldiçoados, tudo que for possível para tonar a vida das pessoas e de todos os seres de volta ao normal. Deus então me disse: Você tem que encontrar Gô-noêno-hôdi. Vixe! E onde é que eu acho esse? Você tem que ir lá pras bandas do sul matogrossense , procurar a tribo Cadiuéu. Quando encontrar a tribo, encontrará quem estou falando. Está certo. Só tem um detalhe. Qual, Deus? Não aceite nada que ele lhe der nem olhe pra filha dele, está ouvindo? Não posso aceitar nada que ele me oferecer nem posso olhar pra filha dele. Isso mesmo. Posso perguntar por quê? Não, apenas faça o que eu mando e pronto! Certo, vou anotar isso pra não esquecer. Daí preciso de você antes do livro. Pra quê? Pra ir comigo. Ora. Ora, nada, já que você vai ser o escritor do meu Evangelho, terá de ir comigo pro Amazonas. Oxe, padre! Ora, cadê seus clones? Não importa, você será o escritor, tem que viajar comigo para poder saber tudo que faço. Além do mais, tem que me lembrar do que Deus me disse: eu não posso olhar pro... sei lá mais o nome... como é mesmo? Gô-noêno-hôdi. Isso, tá vendo? Você já aprendeu. Então, vamos tomar outra talagada desse uísque e vamos embora. Mas, padre. Mas, nada, vamos lá: virando? Slept! Isso é que é uísque bom. Agora vamos. E saímos, ele amontou no disco voador e fomos pro Amazonas. Chegando lá: Onde é que fica a tribo dos Cadiuéu? Ah, é só ir direto aqui que vai bater lá. Seguimos o indicado, uns cento e cinqüenta quilômetros depois, avistamos uma tribo. Ele aterrissou e perguntou pros assustados índios: É aqui a tribo Cadiuéu? É, sim. Onde mora Gô-noêno-hôdi? Ah, é naquela casa ali. Ainda bem que é perto, vamos. Chegando lá. Ô de casa? Sim? É você que é Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou o cabelo dele. Ele mora lá naquela casa lá longe, está vendo? Estou. Vamos lá. E lá, ao sermos atendidos pelo morador, o padre perguntou: É você Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou a testa dele. Ele mora lá naquela casa na colina, está vendo? Estou. Vamos lá. E fomos. Ao chegarmos: É você Gô-noêno-hôdi? Não, sou o nariz dele! Ele mora lá naquela casa ali na beira do rio, está vendo? Estou. Vamos lá. E assim fomos de casa em casa. Já tínhamos passado pela casa do queixo dele, do pescoço dele, da mão direita dele, da mão esquerda dele, do bucho dele, do umbigo dele, das catotas dele, do rego da bunda, das costas, dos colhões dele, do furico dele, da bimba dele, das coxas, pernas, andamos que só a má notícia, horas sem descanso, enfim, quando chegamos nos pés dele, um chulé da porra, foi aí que o último disse: Ah, ele mora aí em frente, pode ir que ele está lá. Aí ele se virou, bateu palmas e de lá dentro uma voz grave e potente disse: Pode entrar. Quem é? Sou padre Bidião. Ah, pode sentar. E o seu amigo? Ah, é o escritor que acompanha as minhas façanhas para concluir o meu Evangelho. Ah, tá.  Ele, então, acendeu um cachimbo: Quer uma cachimbada? Não, obrigado. Não me faça desfeita, dê uma cachimbada! Não, obrigado. Então, vamos fumar um pascaio do bom. Vamos, dê uma tragada aí no meu pascaio. Não, obrigado, não fumo. Vamos, padre, tome uma tragada que você vai ver estrelas e o céu todo, vamos! Não, obrigado. Hummmm. Você é esperto, já sei quem mandou você aqui. Diga o que quer! Quero ressuscitar as pessoas! Como? As pessoas quando morrerem, eu quero chegar nelas e ressuscitá-las! Ah, sim. Ô minha filha, traga aquele pente especial. A filha veio, o padre baixou a cabeça, olhos no chão e bateu no meu joelho para não vê-la: Está lembrado? Estou padre. Não olhe pra ela! A moça veio, entregou o pente ao padre. Ele de olhos baixos permaneceu: Obrigado. Quando ela saiu, ele agradeceu ao Gô-noêno-hôdi. O que você quer mais? Ah, quero desencantar todas as coisas encantadas, árvores, pássaros, rios, tudo! Ah, você quer desencantar tudo? Sim. Ô minha filha, traga aquela resina especial que mandei você guardar. A moça reapareceu, baixamos as vistas, ela entregou a resina ao padre Bidião e agradecemos. Certo, Gô-noêno-hôdi, obrigado. Mas tem uma coisa! Diga, padre. Como eu sei que está me dando as coisas certas? Vamos fazer um teste? Vamos. Ô minha filha, mande buscar aquele morto que morreu agorinha lá na esquina. A moça foi, daqui a pouco volta com vários índios trazendo um homem morto. Pronto, aí está o morto, penteie o cabelo dele pra testar. O padre foi, penteou os cabelos do defunto e logo ele abriu os olhos e os índios pularam de alegria. Está satisfeito, Bidião? E como eu sei que vou poder desencantar as coisas? Tá certo. Ô minha filha, mande buscar aquela pedra grande que está lá no meio da rodagem que quero ela aqui agora. A moça saiu, daí a pouco, voltou com um bocado de índio carregando uma enorme pedra. Pronto, está aí, passe a resina para ver o que acontece. O padre levantou-se, passou a resina e a pedra começou a se mexer, virou uma árvore que cresceu, cresceu tanto no meio da sala que arrombou o teto não parando de crescer até sumir lá nas alturas da nuvem. Pronto, Bidião, está satisfeito? Agora estou. Muito obrigado, agora preciso cumprir minhas missões. Inté mais ver. Inté. Quando saímos, ouvimos Gô-noêno-hôdi rgitar: Ô minha filha, corra atrás do padre e entregue isso a ele. Aí corremos mais, pé na bunda da poeira levantar atrás, a moça gritando, a gente mais depressa, ela mais ainda, até que o padre tropicou e viu o pé da moça: Pronto, fodeu. Ela, então, disse: Todo mundo que olha pra mim me deixa grávida e morre. E como desfaço isso? Você só se salvará se fizer amor comigo. Oxe! É mesmo? É. De verdade? É. Então, peraí. Virou-se pra mim, agora fodeu Maria-preá, vai mais pra lá que vou emprenhar de verdade essa moça lindíssima, não se vire, nem veja, viu? Certo, padre, mande ver. Aí ele foi se chegando à moça, levantou a batina, encostou-la numa árvore e mandou ferro nela, no maior gemido de ais e uis, dela gritar, berrar, se esfolar e gozar ruidosamente, dele cair duro no chão. Nessa hora corri pra socorrê-lo. Estou bem, estou bem. Foi um gozo da porra. Agora ela está prenha de verdade. É, agora você tem que morar comigo. Sim, vou morar, só que agora vou cumprir minhas missões, final do mês estarei aqui pra gente se casar de verdade e criar nossa prole. Está certo. Assim, entramos no disco voador, ele me deixou em casa e perguntei: Agora o senhor vai cumprir suas missões, boa sorte! Nada, agora não, vou voltar lá, dou outra peiada na linda cadiuéu pra depois cumprir as misssões. E assim foi. Ele ressuscitava e corria na tribo, trepava e voltava; desencantava um, retornava lá pra índia adorada, dava bimbada nela e retomava com as missões, indo e vindo, de instante em instante, a ponto de parar sobre o meu telhado e gritar: Ô meu escritor! Quando eu enjoar da indiazinha linda, eu venho aqui pra você trabalhar no meu Evangelho viu? Faz tempo que ele não aparece, deve estar salvando muita gente e se aproveitando pra dar uma sapecada boa na sua nova paixão. (Recriada a partir da lenda Gô-noêno-hôdi, extraída da obra Religião e mitologia cadiuéu (SPI, 1950), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Various pianoworks & Concerto Armorial n 2, op. 98; da cantora e compositora Leila Pinheiro: Meu segredo mais sincero, Leila Pinheiro do Brasil & álbum com seus grandes sucessos; do cantor, compositor, maestro e arranjador Francis Hime: Concerto para violão Modinha, Concerto para violão Ponteio, Fantasia para harpa e orquestra e Sinfonia para o Rio de Janeiro de São Sebastião; e da cantora Clara Redig interpretando Embarcação, Frevo nº 2 do Recife, Valsa Rancho, O amor e a rosa, Trocando em miúdos & Preconceito. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAFalta sexo. As pessoas têm levado tudo tão a sério que a maioria já se esqueceu como o cinema talvez tenha sido inventado simplesmente para que possamos assistir melhor – e mais vezes – a nossos wet dreams prediletos. Será que o máximo que merecemos é brincar de vestir Halle Barry de Mulher Gato? Por favor. Trecho do artigo Sexo (Bravo, out/2004), do jornalista Sérgio Augusto de Andrade. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO PÚBLICA - [...] até uma criança sabe que se uma formação social não reproduz as condições da produção ao mesmo tempo em que produz não conseguirá sobreviver um ano que seja. A condição última da produção é, portanto a reprodução das condições da produção. Trecho extraído da obra Aparelhos ideológicos de Estado (Graal, 1998), do filósofo francês Louis Althuser (1918-1990), que na sua obra Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado (Presença 1970), reafirma que: [...] Designamos por Aparelhos Ideológicos de Estado um certo numero de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas...(a ordem pela qual as enunciamos não tem qualquer significado particular): O AIE religioso (o sistema das diferentes Igrejas), o AIE escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e particulares), o AIE familiar, o AIE jurídico, o AIE político (o sistema político de que fazem parte os diferentes partidos), o AIE sindical, o AIE da informação (imprensa, rádio-televisão, etc.) [...] Ora, é através da aprendizagem de alguns saberes práticos (savoir-faire) envolvidos na inculcação massiva da ideologia da classe dominante, que são em grande parte reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista, isto é, as relações de explorados com exploradores e de exploradores com explorados. Os mecanismos que reproduzem este resultado vital para o regime capitalista são naturalmente envolvidos e dissimulados por uma ideologia da Escola universalmente reinante, visto que é uma das formas essenciais da ideologia burguesa dominante: uma ideologia que representa a Escola como um meio neutro [...]. Veja mais aqui e aqui.

DE PROFUNDIS - [...] Chamamos a época em que vivemos de utilitária, mas a verdade é que não sabemos usar praticamente nenhuma das coisas de que dispomos. Esquecemos que a água limpa, o fogo purifica e que a Terra é a mãe de todos nós. Em consequência, nossa arte é da lua e brinca com as sombras, enquanto que a arte grega é do sol e trata diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há pureza nas forças mais elementares e quero voltar a elas e viver em sua presença. Todos os julgamentos julgam a nossa vida, assim como todas as sentenças são sentenças de morte – e eu já fui julgado três vezes. Na primeira, saí do banco dos réus para a prisão, na segunda para retornar à prisão, na terceira para passar ainda dois anos no cárcere. A sociedade, tal como a fizemos, não tem nenhum espaço para me oferecer, mas a natureza cuja doce chuva cai tanto sobre o justo quanto sobre o injusto terá covas nos rochedos onde poderei ocultar-me e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Ela encherá a noite de estrelas para que eu possa caminhar na escuridão sem tropeçar e fará com que o vento apague as minhas pegadas para que ninguém possa ferir-me. Ela me purificará em suas águas claras e curará meus males com suas ervas amargas [...]. Trecho extraído da obra De profundis & outros escritos do cárcere (L&PM, 1982), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui, aqui e aqui.

É ISTO UM HOMEM? – [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]. Trechos extraídos da obra É isto o homem (Rocco, 1988) do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui.

A FOME & SUAS CONSEQUENCIAS - [...] Minha alma desceu fuindo no buraco negro de seus olhos. Eu e meus convidadeos. Eu e minha falta de assentos. Eu e minhas aspirinas. Nos meus quarenta em madeira de lei, escondida selva onde ninguém pudesse tocar. Tomaram a voltar. A cada visita, meu coração se aquietava vendo-os entrar sem licença, mas submissos. Uma noite tentei perceber se ficavam nos mesmos lugares. Não havia como, eram muito parecidos e se confundiam em uma só entidade, mas sabia, sem que ninguém tivesse me avisado. Jamais lhes dirigir a palavra, nem procurar em seus olhos sinais de humaniadde. Deveria fechar o corpo, precaver a alma, andar como um domador entre feras. Via em um conta uma mulher a enterrar bebês, outra a entregar os filhos em orfanatos. Adiante, um enforcado, um tuberculoso, um suicida, uma desonrada. E a companhia vinha espumando ódio. Indignada, nos meus quarenta anos em madeira de lei sem regra, eu mal dava conta das aspirinas. Quanto mais da marca do vinho [...]. Trecho do conto A fome (Cult, janeiro 2003), da escitora, jornalista e tradutora Neuza Paranhos.

A ARTE DE FERNANDA MONTENEGRO
Todo dia é dia da atriz Fernanda Montengro. Veja mais aqui.


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A arte & a entrevista de Clara Redig aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
INK IS MY BLOOD, APOLLONIA SAINTCLAIR
Imagens da trilogia Ink is my blood (Tinta é o meu sangue) publicada da artista, ilustradora e desenhista erótica Apollonia Saintclair. Veja mais aquiaqui.
  

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...