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quinta-feira, junho 11, 2020

PRIMO LEVI, GERTRUDE STEIN, RICARDO RANGEL & FRANCISCO BRENNAND



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: SOLIDÃO, HORROR & DESGOVERNO - Todo dia varando o pedaço azul da imensidão que me cabe no fluxo incessante dos devires, vou à varanda e é tempo chuvoso, o inverno se avizinha. Logo imagino neste tempo ter de volta aquele de luta pela redemocratização do meu país. Tempo difícil de negrume e a minha gente se esqueceu daquela lição. Deu-me a sensação de Yasunari Kawabata: Talvez o sentimento do mal tivesse ficado anestesiado, confundido com costumes e ordens sociais. Parece mesmo, a nossa democracia é uma jovem sujeita às ilusões das lábias cavernosas dos poderosos dominantes, nossas frágeis instituições sucumbem com facilidade ao poder econômico e os sabidos acham pouco e fraudam até as cotas das universidades. Pois é, com a luta da Carta Cidadã não deu para vaticinar o futuro demolindo o passado, voltamos para a estaca zero. Vou para outra. DOIS: OS VENCEDORES QUE SE CUIDEM – A história oficial sempre foi contada pelos e para os vencedores. Somente a eles dominantes que tripudiaram para se eternizarem, o elogio no poder de ditar o que ficaria para a posteridade. Hoje o que a gente vê de patrimônio histórico e nomes de praças e ruas com o que eles mandaram e desmandaram dão na desfaçatez e indignação. A história haverá de ser reescrita e, ao que parece, já começou: muitos livros, documentários, narrativas, ficções e depoimentos precisam ser levados em consideração. Que os historiadores tomem coragem – alguns já deram o pontapé! Para tanto, no Fecamepa dou meus pitacos nesse sentido e com uma farta referência no final, coisa de doido. Mas para não ficar nessa aguada e tediosa angústia quarentenada, melhor os versos do Espelho de Geraldo Carneiro: do outro lado um estranho / faz simulações como se fosse / um demônio familiar / é sempre noite, um assassino sonha / com mulheres assassinadas em série / sob as palmeiras de Malibu / o mundo é só uma ficção plausível / a imagem que baila ao rés-da-lâmina / é um último e improvável vestígio / da existência de Deus / o resto são ecos de outras faces / gestos de espanto e despedida / a música dos relógios, a morte. De repente a catarse nos sinalize um paraíso qualquer por insinuação. TRÊS: MUDANDO DE CONVERSA PELAS DOIDICES - Gente, que tolidade é esta, hem? A patetada ministerial tesloucou ou é o fanatismo disparatado que está vingando na onda coisada, ou as duas coisas mesmo, só sendo. Haja patacoada: para o da saúde o norte/nordeste está no Polo Ártico; para o da área ambiental, boiadas passam pro desmatamento e tome queimada amazônica; para a doida dos direitos, Jesus na goiabeira quer prender os do contra e cassar os que morreram caçados; pro energúmeno da educação, ditadura nas universidades para gestão privada e desaprendizagens online; pro da economia, enriquecer os ricos e promessas de esmolas para os pobres; isso tudo afora afrontas antidemocráticas, arengas nas relações internacionais e aposta nas sandices de enxofre e alho para combater a pandemia. Olhando direitinho, do fundo do poço não dá pra ver luz nenhuma no fim do túnel: o Planalto pirou e nem se sabe para onde vamos. Como o Brasil está num mata-burro, estou aqui com caraminholas no juízo e ouvindo Vygotsky repetir: O saber que não vem da experiência não é realmente saber. Através dos outros, nos tornamos nós mesmos. E o que tem a ver isso com aquilo? Acho que estou variando, será que a disparatada contagia como a pandemia? Eita! Tenho que tomar tino, vai lá que seja contagioso mesmo, hem? Até mais ver que vou ali e volta já, tá? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A semente de Auschwitz não deveria voltar a germinar; mas a violência está perto, à nossa volta, e há uma violência que é filha da violência. Existem vínculos subterrâneos entre a violência das duas guerras mundiais e a violência que presenciamos [...]. Trecho extraído da obra Entrevistas y consersaciones (Península, 1998), do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui e aqui.

CONTANDO OS VESTIDOS DELA, DE GERTRUDE STEIN
[...] PARTE I - ATO I Quando eles não me viram. Eu vi eles de novo. Eu não gostei. ATO II Eu conto os vestidos dela de novo. ATO III Você pode desenhar um vestido. ATO IV Em um minuto. [...] PARTE XXXVII - ATO I Conta os vestidos dela. ATO II Coleciona os vestidos dela ATO III Limpa os vestidos dela. ATO IV Eis o sistema. [...] PARTE XXXVIII - ATO I Ela poliu a mesa. ATO II Conta os vestidos dela novamente. ATO III Quando você pode vir. ATO IV Quando você pode vir. [...] PARTE XXXI - ATO I Reflita mais. ATO II Eu quero mesmo um jardim. ATO III Você quer. ATO IV E roupas. ATO V Eu não menciono roupas. ATO VI Não você não mencionou mas eu mencionei. ATO VII É eu sei disso. [...].
CONTANDO OS VESTIDOS DELA – Trechos extraídos da peça teatral Contando os vestidos dela (7 Letras, 2001), da escritora, dramaturga e feminista estadunidense Gertrude Stein (1874-1946). Esta obra é parte dos estudos realizados pela tese de doutoramento sobre a temática Aqui há uma margem - teatro e exílio em Gertrude Stein (UFRJ, 2007), da professora e pesquisadora Inês Cardoso Martins Moreira, que é graduada em Artes Cênicas – Teatro pela UFRJ. Veja mais aqui.

A ARTE DE RICARDO RANGEL
Temos um país sentado.
RICARDO RANGEL – A arte do fotógrafo e fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel (1924-2009), que teve durante sua carreira muitas obras proibidas e destruídas pelos censores portugueses que não foram exibidas até à independência de Moçambique, em 1975, por ser frequente alvo da polícia secreta, a PIDE. Sobre ele o longa-metragem documentário Ricardo Rangel - Ferro em Brasa (2009), do realizador Licínio Azevedo, desatacando-o como símbolo vivo da geração que no fim dos anos 1940, iniciou as primeiras denúncias contra a situação colonial, enquanto fotografava e revelava a desumanidade e a crueldade do colonialismo, até o fim da guerra civil pós-independência. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
 
A arte do escultor, ceramista e artista plástico Francisco Brennand (1927-2019). Veja mais aqui.
&
A música da saudosa cantora e compositora Selma do Coco (1935-2015) aqui.
A obra do poeta e enciclopedista Artur Griz aqui, aqui e aqui.
A arte da artista visual Juliana Lapa aqui.
Organismo, de Jeorge Pereira & Bianca Joy Porte aqui.
Memória da Cena Pernambucana aqui.
&
São Caetano aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

terça-feira, junho 11, 2019

GERALDO CARNEIRO, OSWALD SPENGLER, ANTHONY DONALDSON, VOLAVÉRUNT & A SANTA DE ALAGOINHANDUBA


A SANTA DE ALAGOINHANDUBA! - Em Alagoinhanduba havia sempre o inusitado. Certa feita, um casal errante: a mãe com o bucho pela boca, o pai tímido maltrapilho. Fugiam não se sabe do quê, procuravam por um parente distante de décadas, famintos, desterrados. A agonia do parto se deu ali mesmo, numa esquina movimentada, muitos socorreram. Coincidências acontecem, coisas da vida: o parente sumido testemunhava tudo e nem sabia, só depois de muito choro e desespero. Compungido, os levou para sua casa, amparo emergencial. O tempo passa e a recém-nascida torna-se uma linda menina, encantada com o mundo, os seres e as coisas, cresce aos olhos de todos. Nem adolescente ainda, já parecia moça vistosa, chamava atenção seu jeito terno, suas carnes bem distribuídas, sua beleza hipnotizante. Moça de riso fácil, ternura acentuada, disposta sempre ao cuidado maternal com quem quer que fosse e precisasse. Não eram poucos os que dela requisitavam atenção, logo se viu encurralada, quarto trancado, estuprada pelo tio, sua primeira tragédia. Punida por ser dada, logo foi imediatamente encaminhada para o convento de freiras. Lá a sua primeira clausura. Por sua afetuosa emanação, tornou-se logo professora a encantar alunos, pais e comunidade. Dedicada às suas preces e afazeres, uma chama secreta emergia do seu ser, ardia, refulgia, vicejava. Em suas mãos o domínio do secreto. Ao passo que realizava com afinco suas atividades, não escapava das investigações alheias: corpulenta, era cortejada por carrancudos e aventureiros, cobiçada pelos homens endinheirados, cercada por reprovações, até ser abusada pelo pároco, a segunda condenação. Reclusa por sua sina, preferia cuidar dos pobres e enfermos, pois, a graça de quem tivesse o seu toque, logo era curado, quando não salvo das agruras da vida. Isso também era percebido por seus algozes e carrascos que a queriam exclusiva. Distanciada do mundo, manteve-se no seu recolhimento até um dia, quase enlouquecida pela incompreensão de todos, sair nua em via pública, recuperando a visão de cegos, o silêncio de mudos, curando aleijões e estigmas. Um alvoroço. Por conta disso, ganhou notoriedade a santa nua, e uma imagem única feita por artesão: uma pequena estátua de braços abertos, com sua formosura e bondade. Proibida, reprimida, aprisionada por atentado ao pudor público: seu corpo foi violado e ela abusada por muitos no cárcere. Reprovada, banida, excomungada por ser a tentação em pessoa, não se sabe como, ela conseguiu fugir do cativeiro para nunca mais ser vista, apenas de ouvir falar: vivia escondida não se sabe ao certo o paradeiro, a cuidar dos que se perdiam ou procuravam a solução para seus problemas, os que sofriam de sede ou fome, os que procuravam paz, os que morriam de emboscada, os cansados, insepultos e miseráveis, os acolhia até completo restabelecimento. Certo dia ouviu-se a noticia de que ela fora encontrada nua, seviciada, morta, esquartejada, numa sexta feira santa. A imagem dela, a única, sumiu ou foi roubada, ninguém sabe, era o desejo dos inimigos, o temor dos fanáticos. Anos se passaram, décadas mais tarde, encontraram a pequena escultura dela enterrada numa terra distante e foram anunciados vários milagres: quem a tocasse ficava feliz demais, curado de qualquer enfermidade, salvo das profundas do inferno, ou prosperava na vida. Uma romaria, todos os dias, em fila: a santa obra milagres até agora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Uma cultura morre, quando essa alma tiver realizado a soma das suas possibilidades,  sob a forma de povos, línguas, dogmas, artes, Estado, ciências, e em seguida retornar à espiritualidade primordial. [...] Natureza é a forma sob a qual o homem das culturas elevadas confere unidade e significado às impressões imediatas dos seus sentidos. História é a forma sob a qual a sua imaginação procura compreender a existência viva do Universo, com relação à sua própria vida, a fim de conferir a esta uma realidade mais profunda. […] Que ocorrerá, porém, quando toda uma cultura, quando a consciência que uma nação inteira tiver de si mesma, provierem de tal espírito não histórico? Como se lhe afigurarão a realidade, o mundo, a vida? [...].
Trechos extraídos da obra A decadência do ocidente: esboço de uma morfologia da História Universal (Zahar, 1964), do historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936). Veja mais aqui.

VOLAVÉRUNT
O premiado drama histórico Volavérunt (1999), dirigido pelo cineasta e roteirista espanhol Bigas Luna (1946-2013) e baseado na obra homônima do escritor uruguaio Antonio Larreta (1922-2015), contando a história da mulher mais rica e liberada de seu tempo, a duquesa de Alba, que oferece uma festa para inaugurar o seu novo palácio e que tem, entre os convidados, o pintor e gravador espanhol Francesco de Goya (1746-1828), quando na manhã seguinte ocorre um assassinato misterioso. Destaque para atuação da atriz espanhola Penélope Cruz Sanchez. Veja mais aquiaqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e pintor britânico Anthony Donaldson, um dos criadores do movimento Pop Art. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE GERALDO CARNEIRO
De noite, na rua, em frente ao parque
A minha solidão é sua
Decerto sei que você vaga em qualquer parte
Sob essa vaga lua
De noite, na rua, em frente ao parque
A minha solidão é sua
Decerto sei que você vaga em qualquer parte
Sob essa vaga lua
A noite esconde as cicatrizes
Esconde as carícias e os maltratos
A noite esconde as cicatrizes
Esconde as carícias e os maltratos
De noite alguém decerto lhe ampara
Por onde hoje você anda
Mas sem olhar sua ciranda louca
Daquele jeito que lhe desmascara
De noite alguém decerto lhe ampara
Por onde hoje você anda
Mas sem olhar sua ciranda louca
Daquele jeito que lhe desmascara
A noite esconde as cicatrizes
Esconde as carícias e os maltratos
A noite esconde as cicatrizes
Esconde as carícias e os maltratos
Agora, bêbada, você estremece
Como se ainda não soubesse
Em frente à porta desse bar
Em que embarca sob essa vaga lua
E a luz da lua apura a nitidez da marca
Mais nua, mais clara, mais crua
Poema Mais Clara, Mais Crua do premiado poeta, letrista e roteirista mineiro radicado no Rio de Janeiro, Geraldo Carneiro, ocupante da cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras e parceiro musical de grandes nomes da música, tais como Egberto Gismonti, Astor Piazzola, Wagner Tiso, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Francis Hime, entre outros. O poema em referência foi musicado e recebeu o título de Palhaço (álbum Circense – ECM, 1980), por Egberto Gismonti. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, outubro 10, 2016

FROMM, POE, GREENAWAY, FELLINI, EUCLIDES DA CUNHA & ZÉ CELSO, MAYA BEISER, MARTHA GRAHAM, GERALDO CARNEIRO, NIETZSCHE, RIOPELLE, MILHAZES, CLÉSINGER, GARRIDO, BESNARD & ASTECAS


INEDITORIAL: DE PERTO NINGUÉM É MESMO NORMAL! - Salve, salve, gentamiga! De perto ninguém é normal meeeeeesmo! De noite ainda dá pra tapiar: toda gata é parda e qualquer trubufu vira miss da hora – feito as fotos que o povo posta nos perfis das redes sociais, maior lindura! Quem, qual Ulisses, nunca já foi enfeitiçado pelo canto mavioso de sereias descoladas pelos descaminhos prazerosos tarde da noite, hem? Quando vai ver, tête-à-tête, vixe! Basta a primeira fresta da claridade pra se ver agarrado com Urutau que deixa ecoando no quengo o seu sinistro canto: foi, foi, foi, foi. A certidão da lasqueira: merda feita, culpa peita. Lascou, feito visita de mais de três dias: chatura braba. Por educação não dá nem pro pé na bunda e correr da raia; fica e vai descobrindo outras particularidades nada simpáticas. Aí finda genuflexo pelamordedeus abrir um buraco no chão e se socar dentro. Adianta nada! Primeiro, não existe mulher feia, no máximo descuidada ou mal ajambrada – qualquer banho de loja e fica nos trinques, evidentemente, porque se Deus criou algo para rivalizar consigo mesmo, com o Sol, as estrelas, o infinito e todas as maravilhas do mundo, esse ser é a mulher. Anote e aprenda. E, segundo, não adianta apelar pra pena de morte porque aí vira suicídio e não tem a menor graça. Está lembrado daquela cena do Foucault? O condenado, um cavalo amarrado em cada membro, assim: um em cada braço, outros em cada perna e um apertado no gogó, cada um para direções opostas, um pipoco e eles partem cada qual pro seu lado, deixando o desgraçado só os trapos arrastado pelo chão, devidamente esquartejado. Viu? Talqualmente. Mas como hoje é dia da Saúde Mental, preze pela sua e leve a sério. Afinal, endoidecer faz parte, desendoidecer vez em quando, melhor ainda! E vamos aprumar pras novidades do dia: na edição de hoje destaque pra arte do pintor e escultor Jean-Paul Riopelle, O coração do homem de Erich Fromm, a civilização dos Astecas, A carta roubada de Edgar Allan Poe, o cinema de Peter Greenaway homenageando Federico Fellini, a entrevista de Geraldo Carneiro, a Gaia Ciência de Nietzsche, a música de Maya Beiser, a coreógrafa Martha Grahan, a escultura de Auguste Clésinger, Os sertões de Euclides e de José Celso Martinez Corrêa, a fotografia de Luiz Garrido, Congresso de Psicologia do Vale do São Francisco, a pintura de Paul-Albert Besnard & a croniqueta As mil faces do disfarce. Vamos aprumar a conversa & veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A poesia nossa de cada dia, Mario de Andrade, Gerardo Mello Mourão, Jacques Tati, Camille Saint-Saëns, Empédocles de Agrigento, Jeremy Lipking, Ismael Nery & Maria Claudia Maciel aqui.

E mais:
Tolinho & Bestinha, Giuseppe Verdi, Nora Roberts, Harold Pinter, Franco Zeffirelli, Maria Teresa Horta, Charles Knight, Ed Wood, Richard Senoner, Dolores Fuller, Neuropsicologia & aprendizagem aqui.
Big Shit BÔbras: quando deram um jorge e depois uma júlia num encontro de quarto grau com um ET - a reaparição do padre Bidão! (será?!) aqui.
O contrato social de Rousseau aqui.
Tolinha & Bestinha: Quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
As trelas do Doro: escambau aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a adversidade aperta, o biltre bota o rabinho entre as pernas aqui.

DESTAQUE: 
Arte do pintor e escultor canadense Jean-Paul Riopelle (1923-2002). Veja mais aqui.

AS MIL FACES DO DISFARCE (Imagem: da artista plástica Beatriz Milhazes)– A face em prantos, mil disfarces ruindo nas lágrimas. Novas poses, máscaras de nunca antes. Tantas revelações emergem noutras muitas mentiras, um passo além do tempo: erros, avanços, recuos, giro de pião. Refaz-se, está na hora de encarar a vida, sai enchendo o mundo de pernas. Pros outros, ah, só simpatia de campeão, firmeza de tronco inarredável, retidão inexorável, amigo de todas as horas. Assim o dia: caras e bocas. Ao entardecer, o suplício. De noite, o retorno à míngua particular. Sozinho, no escuro se espreme. Resolve definitivamente encarar o espelho - fica de cabelo em pé e contata: pior que Dorian Gray. Não sustenta o olhar à sua própria efígie. Dá um passo atrás e ousa levantar os olhos, buscando forças pro inevitável: dar de cara consigo mesmo. Impossível esquivar-se. E repele, nega-se a si mesmo, jamais ver-se a si próprio. Cabisbaixo ouve Os homens ocos de Eliot e deplora. O Poema em linha reta de Pessoa, o seu libelo. Não, nega tudo, nega-se. E se debate, reprimindo-se, imolando-se até a autocomiseração. Reduzido a nada, cinzas de si, chega, junta os cacos dentro da alma e tenta se reerguer. É hora de reagir e vai pra rua espantar seus demônios, expulsá-los aos ventos. Sua dor ficou na porta aberta esquecida e a esmo descarrila até se assustar com um jovem que dá uma tapa carburando as ideias na beira da praia enluarada. Revolve seu ódio, reprime, prende e humilha, até deixá-lo recluso e incomunicável. Estufa o peito de moralista que demoniza a maconha, a putaria, a roubalheira, as folganças irresponsáveis, a incredulidade sarcástica e a propensão inata à maldade. Por desassombro põe a mão sobre a Bíblia, faz o sinal da cruz e segue pra primeira igreja, ajoelhado devoto por exaltadas orações, pedindo perdões pra livrar-se dos castigos e segue de alma lavada pra impor sua justiça a todo mundo, enretando tudo o que, a seu devido ver e achar, está desenretado. Aparentemente apaziguado segue adiante. Perambula na madrugada e o dia amanhece no trabalho. Quando se dá conta está às voltas com o que sempre foi: inventa pinóias, propaga boatos, arma cruzetas, aplica embuste, incrimina o alheio e surrupia o tomado fácil. Punhos fechados no tórax, a vida nos bolsos: um Alexander DeLarge reincidente que auto-absolvido de todas as culpas, circula impune ao som da nona de Beethoven a se glorificar lavando a alma. Ao espelho, nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
 
UMA MÚSICA: 
Curtindo o álbum Almost Human (eOne Music, 2006), da violoncelista, cantora & produtora israelense Maya Beiser.

O CORAÇÃO DO HOMEM & SAÚDE MENTAL - [...] a ciência criou um novo objeto para o narcisismo - a técnica. O orgulho narcisista do homem em ser o criador de um mundo de coisas dantes não-sonhado, o descobridor do rádio, televisão, força atômica, viagem espacial, e até em ser o destruidor potencial do globo inteiro, deu-lhe um novo objeto para o auto engrandecimento narcisista. [...]  A saúde mental se caracteriza pela capacidade de amar e criar, pela libertação dos vínculos incestuosos com o clã e o solo, por uma sensação de identidade baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das capacidades próprias, pela captação da realidade interior e exterior, isto é, pelo desenvolvimento da objetividade e da razão.Trecho extraído da obra O coração do homem: seu gênio para o bem e para o mal (Guanabara, 1981), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagens: a arte da dançarina e coreógrafa estadunidense Martha Graham (1894-1991). Veja mais aqui.

PERNSAMENTO DO DIA: Apesar das maravilhas que lhes ocasionava Topilzin, os Toltecas se recusavam a adora Quetzalcoatl, pelo menos como deus único. Temiam as terríveis represálias do sanguinário Tezcatlipoca, seu deus tradicional, sedento de sangue humano dos sacrifícios que Ce Acatl Topilzin Querzalcoatl lhe recusava havia tanto tempo. A preocupação se apoderou deles de tal maneira, que começaram a conspirar contra seu encantador príncipe-deus. Durante esse tempo, Tezcatlipoca se aliava a dois outros deuses do mal e multiplicava, os sortilégios para forçar Topilzin a deixar Tula. Chega mesmo a entrar na câmara obscura do templo onde o jovem príncipe-deus estava em oração. Ele estendeu um espelho mágico que inventara. Olhando-se nele, Topilzin Quetzalcoatl viu um abominável velho enrugado e teve medo: - Se os meus me vêem assim, fugirão. Para acalmá-lo apareceu a divindade maléfica Coyotlinahual (feiticeiro-coiote): - Vou te ajudar a parecer diferente – diz-lhe ele. E o disfarça com uma máscara, de tintura vermelha e penas. Durante esse tempo, o terceiro deus mau Ilhuimecal preparou, em sua caldeirinha infernal, um grande pirão de tomates, pimentão, cebolas, chile, milho e feijão. Misturou tudo num vaso de barro, acrescentando mel selvagem com pulque, álcool terrivelmente embriagador. Convidado a jantar pelos três deuses, Quetzalcoatl, por delicadeza, provou o pirão, decidido, no entanto, a não beber. Apenas o prato estava de tal maneira picante, que não pôde comer. Molhando o dedo na bebida, passou-o sobre os lábios irritados. Depois, com os quatro dedos, repetiu a operação. A seguir usando a mão em concha, bebeu avidamente... Levantou-se, dançou e eufórico pediu: - Vão procurar minha irmã, a adorável Quetzalpetlatl (Trança de Penas), para que bebamos juntos... quando despertou, muito mais tarde, sua irmã repousava despida a seu lado, cabelos despenteados... Quetzalcoatl, horrorizado, compreendeu que, durante a embriaguez, perdera sua castidade e com ela sua dignidade sacerdotal. Trecho extraído da obra A civilização dos astecas (Otto Pierres, 1975), do jornalista e escritor francês Jean Marcilly. Veja mais aqui.


Imagens: a arte do escultor e pintor francês Auguste Clésinger (1814-1883).

A CARTA ROUBADA - [...] O mundo material – prosseguiu Dupin – contem muitas analogias estritas com o imaterial e, desse modo, um certo matiz de verdade foi dado ao dogma retório, a fim de que a metáfora, ou símile, pudesse dar vigor a um argumento, bem como embelezar uma descrição. [...] Há um jogo de enigmas – replicou ele – que se faz sobre um mapa. [...] lançara mão do compreensível e sagaz expediente de não tentar escondê-la de modo algum. [...] uma carta solitária [...] numa letra diminuta, feminina, ao próprio ministro. [...] apanhei o documento, meti-o no bolso e o substituí por um fac-símile (quanto ao que se referia ao aspecto exterior) preparado cuidadosamente em minha casa, imitando facilmente a inicial “D” por meio de um selo feito de miolo de pão. [...] O pretenso lunático era um homem que estava a meu serviço. [...] rumo à sua própria ruína política. Sua queda será tão precipitada quanto desastrada. [...] Fácil é a descida para o inferno... um projeto tão funesto, se não é digno de Atrée, é digno de Thyest. [...]. Trechos do conto A carta roubada, extraído da obra Histórias extraordinárias (Abril, 1978), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui e aqui.

OS SERTÕES - Um dos mais controversos espetáculos teatrais das últimas décadas, foi o premiadíssimo Os Sertões, baseado na clássica obra do escritor Euclides da Cunha (1866-1909), do não menos ousado e aclamado ator, dramaturgo e diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa. O espetáculo possui duração de 30 horas, dividido nas peças A Terra, O Homem 1, O Homem 2, A Luta 1 e A Luta 2, e foi realizado em comemoração aos 50 anos de criação do legendário Teatro Oficina. O projeto foi amadurecido pelo dramaturgo durante mais de duas décadas, sendo concluído em 2001, para realizar uma temporada nos mais diversos palcos brasileiros. As cinco peças teatrais de Os Sertões foram ganhadoras do Prêmio Shell (2002), Prêmio Bravo Prime de Cultura (2005) e Prêmio Shell (2005), nas mais diversas categorias. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

8½ WOMEN – O filme 8½ Women (1999), do cineasta do cineasta e artista multimídia britânico Peter Greenaway, é uma homenagem direta às mulheres dos filmes do cineasta e artista plástico italiano Federico Fellini (1920-1993), apresentando uma cena em que pai e filho discutem as fêmeas enquanto assistem ao filme. Esse ótimo filme conta a história de um pai e filho que são bilionários, donos de cassinos luxuosos no Japão, que contratam oito mulheres para servirem de acompanhantes ou supostas esposas. Durante o enredo, num mundo de requintada estranheza, eles passam a descobrir como melhor se relacionarem com elas em suas diferentes e bizarras características. Um ótimo filme como toda obra do cineasta que merece aplausos de pé. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagens: a arte do premiado fotógrafo Luiz Garrido.

AGENDA: I CONGRESO DE PSICOLOGIA DO VALE DO SÃO FRANCISCO – Acontecerá no dia 31 de outubro e 2 de novembro, no Complexo Multieventos da Univasf, campus Juazeiro-BA, com apoio da Univasf e do Conselho Federal de Psicologia (CFP), o I Congresso de Psicologia do Vale do São Francisco, sobre a temática A prática da psicologia no Vale do São Francisco: aspectos teóricos, éticos e políticos, com o objetivo de integrar os conhecimentos das abordagens teórico-metodologicas da Psicologia e das suas diversas áreas de atuação. No evento será discutido a respeito dos atuais desafios da formação, da pesquisa e da atuação do psicólogo na região, possibilitando a participação de estudantes, profissionais e de áreas afins, com relação aos saberes construídos e as possíveis transformações do cenário regional. Informações pelo fone (87)2101-6868 ou pelo mail congrepsidovale2016@gmail.com. Veja mais aqui e aqui.


ENTREVISTA: GERALDO CARNEIRO – Alguns anos atrás, quando eu estava na condição de editor do Guia de Poesia do Projeto SobreSites – O diferencial humano (RJ), tive a oportunidade de entrevistar o poeta, letrista e roteirista mineiro radicado no Rio de Janeiro, Geraldo Carneiro, parceiro musical de grandes nomes da música, tais como Egberto Gismonti, Astor Piazzola, Wagner Tiso, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Francis Hime, entre outros. Confira a entrevista aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Um novo ideal corre à nossa frente, um ideal estranho, tentador, rico de perigos, ao qual não gostaríamos de persuadir ninguém, porque a ninguém concederíamos tão facilmente o direito a ele: o ideal de um espírito que joga ingenuamente, isto é, sem querer e por transbordante plenitude e potencialidade, com tudo o que até agora se chamou sagrado, bom, intocável, divino; para o qual o mais alto, em que o povo encontra legitimamente sua medida de valor, já significaria perigo, declínio, rebaixamento ou, no mínimo, descaso, cegueira, esquecimento temporário de si; o ideal de um bem-estar e bem-querer humano-sobre-humano, que muitas vezes parecerá inumano, quando, por exemplo, se põe ao lado de toda seriedade terrestre até agora, ao lado de toda espécie de solenidade em gesto, palavra, tom, olhar, moral e tarefa, como sua mais corporal, sua involuntária paródia - e com o qual somente, a despeito de tudo isso, começa talvez a grande seriedade, com o qual é posto o verdadeiro ponto de interrogação, o destino da alma muda de rumo, a tragédia começa...
Trecho extraído do Livro V – “O andarilho” fala - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nu, do pintor e gravurista francês Paul-Albert Besnard (1849-1934).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...