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terça-feira, janeiro 30, 2024

SUSAN GREENFIELD, GERTRUDE STEIN, MEG CABOT & MANUEL BANDEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum É frevo, meu bem! (Aple Music, 2011), Esse é o meu carnaval (Tratore, 2007) e o DVD Pernambuco para o Mundo (Tratore, 2014), da cantora Nena Queiroga, considerada a Rainha do Carnaval pernambucano. Veja mais aqui.

 

RUBRICA DE CRONÓTOPO... – Se não tivesse o coração amando, eu não seria nada. Se não soubesse o dia o que seria a noite, não valeria a vida. Pensando bem, ainda há pouco era um menino da beira do rio e, já mal dobrara algumas poucas esquinas, nem via direito o tanto que passou. Era como se já fosse março e perdesse quantos dias e meses, se tudo o mais esqueci nas últimas três ou quatro décadas, quantos motivos teria senão a pilhéria pronta. Ontem mesmo pelas três da tarde ou sei lá se tanto, tivera um susto ao esbarrar com a Simone Weil: As soluções não são fáceis de conceber... Todos os pecados são tentativas de preencher vazios... Nem dois segundos sequer bastaram, quandei fé já passava das nove da noite e o cochilo. Foi então que pude ver os urubus como verdadeiros túmulos povoando o dia no meu momento crepuscular. Do outro lado, nada mais que esfaimados e furibundos na festa da minha febre noturna e quem morreu de espanto ninguém acreditava. É tão Brasil quanto imoral, que importa. Dizia-me Sarah Kane: Depois de ter percebido que a vida é muito cruel, a única resposta é viver com tanta humanidade, humor e liberdade que puder... Eles vão me amar por aquilo que me destrói... Não sei quantos milênios atravessei, se quadras percorri de A a Z e lá estava eu tão longe quanto o país das trinta e seis mil vontades, no cercado mágico de Maurois. Como quem não conseguia decorar O corvo e a raposa de La Fontaine, sabia lá se sonhos ou loucura, andava dez vezes mais. E parecia nem ter saído do lugar, como se arrastasse pelas areias que davam pro mar do Tempo Perdido, uma sujeira espessa com perfume de rosas. E, apesar disso, ali ainda não era março, mas foi onde apenas uma mulher não tinha nem nunca teve problema algum. Fui ver de perto e era a belíssima moira Aisa: Ô cabra andejo, para quieto! Ela, pra quem não sabe Átropos, inamovível, inflexiva, dizia ser uma das sobreviventes daquele voo 370 desaparecido da Malasya Air Line. Como podia? Nem atinava nada direito, azucrinava muito o cricrilar persistente de grilos machos, coisa mais chata! Então, virou-se pra mim informando ser ali o País do Presente de Poe – de Pym of Nantucket, na verdade - e esqueci quem era e o que fazer. Cá com meus botões: se não era o Triângulo das Bermudas, estava no meio do maior quebra-cabeça. Então me sussurrou Ada Negri: Não há momento que não pese sobre nós o poder de todos os tempos... Aí celebrei: abençoada seja pelos cotovelos no tumulto dos dias, terra de água acima, fogo de vento abaixo. Cada um a sua vida. Se sabia onde pisava, não poderia jamais esquecer das esquinas e pedras falsas. Tudo poderia acontecer. Então pisei devagar, os mortos agradeceram...’Ainda não era e deslembrei, assim mesmo, perdendo a raiz. Não precisava mais de ontem nem amanhã, vivia agora. Até mais ver.

 

QUATRO POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

UMA ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA - Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa \ Encanto extremo. \ Botina extra. \ Encanto extremo. \ O mais doce sorvete. \ Páginas épocas página épocas página épocas.

ÍNFIMA VELHA ESTRELA - Ínfima velha estrela. \ Fluída sempre. \ Foste um triste percentual. \ Faz um dia de sol. \ Vigia ou água. \ Tão logo a lua ou um pesado velho assédio.

ENTRE - Entre um lugar e um uma bala de açúcar existe uma estreita trilha a pé que mostra mais subida que qualquer coisa, tão mais real que o significado de um chamado um travesseiro uma coisa completa como aquilo. Uma virgem uma completa virgem é julgada feita e assim entre curvas e esboços e estações reais e mais dos óculos e um perfeito arranjo sem precedente entre duas senhoras e leves resfriados não há bosque de cetim brilhando.

UMA SOMBRINHA DESFECHADA - Qual era a utilidade de não deixá-la lá onde ela ficaria pendurada qual era a utilidade se não havia chance de nunca tê-la visto aqui e mostrar que ela era bonita e certa a forma de mostra-la. A lição é ensinar que ela se mostra assim, que ela se mostra assim e que nada mais, que não há nada a mais, que não há mais que se fazer com ela e assim tanto quanto existe lá bastante motivo para se fazer uma troca.

Poemas da escritora e feminista estadunidense Gertrude Stein (1874-1946). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui,

 

ABANDONO - […] Na verdade, o termo “perdoar e esquecer” não faz sentido para mim. Perdoar nos permite parar de pensar em um problema, o que nem sempre é saudável. Mas se esquecermos, não aprendemos com nossos erros. E isso pode ser mortal [...]. Trecho da obra Abandon (Point, 2011), da escritora e roteirista estadunidense Meg Cabot, que na obra Ninth Key (Turtleback, 2004) expressa: […] Posso estar morto há cento e cinquenta anos, Susannah,... mas isso não significa que não sei como as pessoas dizem boa noite. E geralmente, quando as pessoas dizem boa noite, elas guardam a língua para si mesmas. [...]. E na obra Twilight (Avon, 2005) evidencia que: [...] O que é um mediador, você pergunta? Ah, uma pessoa que atua como elo de ligação entre os vivos e os mortos. Ei, espere um minuto... o que você está fazendo com essa camisa de força? [...], afora nos contemplar com frases lapidares: Escreva o tipo de história que você gostaria de ler. As pessoas lhe darão todo tipo de conselho sobre como escrever, mas se você não estiver escrevendo algo que goste, ninguém mais vai gostar. Você não é uma nota de cem dólares, nem todo mundo vai gostar de você. Se você ama alguma coisa, liberte-a. Se fosse para ser, ele voltará para você. Veja mais aqui e aqui.

 

A TECNOLOGIA É NOSSA ESCRAVA, NÃO NOSSA MESTRA - O ambiente digital está alterando nosso cérebro de forma inédita. O primeiro é o impacto das redes sociais na identidade e nos relacionamentos. O segundo é o impacto dos videogames na atenção, agressividade e dependência. E o terceiro é sobre o impacto dos programas de busca no modo como diferenciamos informação de conhecimento, como aprendemos de verdade. É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos, mas certamente há cada vez mais evidências sobre aspectos positivos e negativos. Agora, só porque vemos um aumento de QI em quem joga videogames não quer dizer que haja um aumento de criatividade ou capacidade de escrita. Também se sabe, por alguns estudos, e por exames de imagem, que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina. Também sabemos que, em casos extremos, nos quais as pessoas gastam até 10 horas por dia na frente da tela, existe uma forte correlação com anormalidades em exames cerebrais. Como costumamos dizer, uma andorinha só não faz verão. Então é importante fazer mais estudos. Isto não é definitivo, em se tratando de ciência nada é definitivo, por isso é importante começar a fazer pesquisa básica porque, até agora, está claro que coisas boas e coisas ruins estão acontecendo de um modo que não haviam acontecido em gerações passadas. É um desafio, mas o que temos que fazer é tentar pensar em maneiras, não tentar negar a tecnologia. Nós podemos, na nossa sociedade maravilhosa, com toda essa tecnologia, com todas as oportunidades que temos, dar aos nossos filhos um mundo tridimensional interessante para viver. A partir disso eu infiro que as pessoas estão construindo uma identidade no ciberespaço que em boa parte é formada pela visão das outras pessoas. Eu acho interessante essa tendência de que mesmo que você sinta-se muito importante, muito conectada, você se sente insegura, tenha baixa autoestima, sinta-se constantemente inadequada. Eu acho que precisamos olhar para as estatísticas em vez de apenas levar em conta as impressões pessoais ou os meios de comunicação. De acordo com as estatísticas, os chamados nativos digitais, gente que nasceu após 1990, apresentam níveis de uso alarmantes. Trechos extraídos da entrevista da revista Fronteiras (2018) concedida pela neurocientista britânica Susan Greenfield. Veja mais aqui.

 

LIBERTINAGEM & ESTRELA DA MANHÃ, DE MANUEL BANDEIRA

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. \ Eu tomo alegria!

Trecho do poema Não sei dançar, extraído da obra Libertinagem & Estrela da Manhã (Nova Fronteira, 2000), do poeta, tradutor, crítico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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quarta-feira, setembro 13, 2023

SVETLANA ALEXIEVITCH, NIDIA MARINA VÁSQUEZ, HAROLD BLOOM & BALDRAMES DE BAUDELAIRE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Hommage à Nadia Boulanger (2005) e Depuis 1904 J'enseigne La Musique (Hughs Desailes, 1973), destacando as pelas Trois pièces pour piano: Pièce No 1 in D-Minor (1914), Désespérance (1902), Poème d'amour (1907) e Fantaisie pour piano et orchestre (1912), da compositora e educadora francesa Nadia Boulanger (1887-1979). Veja mais aqui.

 

OUTRESTÓRIA DE NOIT&DIAS... - No meio do caminho havia outra pessoa e como tenho a mania de falar sozinho por arrebetados noit&dias com suas mortalhas indesejáveis, queixas longínquas e chagas incuráveis, sem data nem mapa, não me dei conta logo. Ali eu me via na poça pelos descampados da solidão assombrosa e a viver do jeito que podia e desse – era diante do espelho que eu controlava o inimigo aos ditirambos avulsos para exaurir o porvir convulso pelos introitos de rebotalhos – o poeta não para de sonhar jamais, porque os mortos não mais amam, embora tenham sido e serão sempre. Foi então que ela apareceu-me Sigrid Undset: Todos os meus dias desejei igualmente percorrer o caminho certo e seguir meu próprio caminho errante... Ninguém e nada pode nos prejudicar, criança, exceto aquilo que tememos e amamos... Ante minha solidão e dela o dentro e o fora e o que ardia nada impropriamente espreitava porque a lua se escondeu em mercúrio e se aproximava de marte, igualmente eu perdido numa encruzilhada. Ela me falou dos analectos de Confúcio: a arte da arquearia sem disputa nem ou eu ou ela. Curvou-se porque era eu o seu oponente e mutuamente emergiu o convite para bebericarmos a festa dos ninguéns – havia de retificar o coração com o arco e a flecha deloutra na prática de construir a humanidade. Nem tão lacônico disse-lhe que não seria jamais servo da ambição alheia nem da minha, e não pedi ajuda para minha pobre alma, corvo Poe; nem perguntei se alguém me entendia, James Joyce; nem fiquei num quarto de hotel, O’Neil; nem amei tantas coisas e pessoas, Tolstoi. E digo mais: não pedi que afastassem as pastilhas de Lewis Carol, nem dormi o sono de Byron, nem senti o frio de Truman Capote. E mesmo que quisesse não me serviriam uma taça de champanhe, Tchekhov. Ela, então, caminhou Emily Dickinson pelo nevoeiro que aumentava e quantas vezes não me vi sozinho no topo do Chomolugma: nenhuma autocompaixão no meu périplo, porque mesmo que olhos não vissem os sentidos desconheceriam. Poderia ser diferente, quantas escolhas no caminho para o autoconhecimento profundo entre sambaquis que apareceram no Orbe Dourado do Alaska, o inacessível à palma da mão. Era ela agora Grazia Deledda: Todos mudamos, de um dia para o outro, através de evoluções lentas e inconscientes, vencidos por aquela inelutável lei do tempo que agora deixa de apagar o que escreveu ontem nas misteriosas mesas do coração humano... Talvez eu seja mesmo um caso incurável e precise sempre retornar ao local de nenhuma saudade, só porque lá não há mais amizade nem preciso procurar por mim nem ninguém, porque fora de prumo e esquadro entre nomes infames sem que nada possa desacreditar, porque nunca aprendi a arte da fuga, deveria ter ido há mais tempo sem ter nem pra onde. Ela agora Selma Lagerlöf: Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar... A alegria é a dor que se dissimula - à face da Terra só existe a dor... Bem dito. Tudo fiz do que não foi feito nem será – se eu tivesse o mar seria outro. Até agora nada, sou apenas um bêbado solitário sem nome e faço o que posso: sincero consigo e mutuamente com todos - a boca mandarim ao ouvido. E a noit&dia seguinte olhava a lua sem distância. Num dar de olhos ela me deu o favor de seu amparo, um talismã ao anoitecer para que no sonho dela eu sonhasse. E suas asas multicores roçaram minha face e seus beijos eram santo remédio fulgurante para que eu pudesse entrar no frescor de seu corpo em festa toda vida com a fúria de sua fome de mulher. Dali não perdi nenhum de seus passos, mas a vida é a vida, não outra coisa. E como se eu tivesse sido aniquilado por um raio numa causa perdida, mais que apenas grato eu pude viver mais que o merecido e ela me deu. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ISTO NÃO É UM PAPEL: Há várias coisas aqui que são impossíveis de ver: \ um corpo etérico matéria escura, hologramas a serem deduzidos. \ Uma visão sem olhos, espéculo da minha mão esquerda. \ Tiro o pó das páginas em branco, \ Eu não tenho ideia de onde eles vão parar depois do tiro perolado isso sai dos meus dedos. \ Isto não é um papel, e se for, será exposto ao esquecimento, \ à poeira contínua que assenta nos meus olhos e muda de rumo.

REGISTRO: Aqui está meu corpo, movido pelo sopro do tempo. \ Aqui a tentativa das palavras, e a memória do centro cerziu tudo: \ para o estrangeiro, esquecido para a memória ao sublime e ao profano, \ para o bando ao qual eu pertencia antes de andar sobre dois membros. \ Se eu não fosse mestiço se não tivessem me negado as línguas originais das minhas avós \ Eu saberia o que fazer com um kipu nas mãos ou com uma roda medicinal em locais sagrados. \ Eu saberia pronunciar meu nome em Nahuatl ou Quechua. \ Uma irmã me lê tarô e reconheço a reflexão fragmentada de vários continentes \ no meu sangue o eco de canções e histórias tão diferentes, \ em uma mancha de pigmento tecido na pele. \ As cicatrizes são tão antigas que caem umas sobre as outras. \ Multidões em meus poros eles cabem em um pôr do sol, batida após batida, códice após códice.

Poemas da poeta e artista visual costariquenha Nidia Marina González Vásquez.

 

VOZES DE CHERNOBYL - [...] A morte é a coisa mais justa do mundo. Ninguém nunca saiu dessa. A terra leva a todos - os gentis, os cruéis, os pecadores. Fora isso, não há justiça na terra. [...] Existe algo mais assustador do que as pessoas? [...] Não tenho medo de Deus. Tenho medo do homem. [...] Venha pegar suas maçãs! Maçãs de Chernobyl!’ Alguém lhe disse para não anunciar isso, ninguém as compraria. ‘Não se preocupe!’ ela diz. ‘Eles compram de qualquer maneira. Alguns precisam deles para a sogra, outros para o chefe. [...] Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa, que na nossa vida o medo tome o lugar do amor. [...] A realidade sempre me atraiu como um ímã, me torturou e hipnotizou, e eu queria capturá-la no papel. Então me apropriei imediatamente desse gênero de vozes e confissões humanas reais, evidências de testemunhas e documentos. É assim que ouço e vejo o mundo – como um coro de vozes individuais e uma colagem de detalhes do quotidiano. Desta forma, todo o meu potencial mental e emocional é plenamente realizado. Desta forma posso ser simultaneamente escritor, repórter, sociólogo, psicólogo e pregador [...] Chernobyl é como a guerra de todas as guerras. Não há onde se esconder. Nem no subsolo, nem debaixo d'água, nem no ar. [...] Mostre-me um romance de fantasia sobre Chernobyl – não existe nenhum! Porque a realidade é mais fantástica. [...] Muitas vezes ficamos em silêncio. Não gritamos e não reclamamos. Somos pacientes, como sempre. Porque ainda não temos as palavras. Temos medo de falar sobre isso. Não sabemos como. Não é uma experiência comum e as questões que levanta não são comuns. O mundo foi dividido em dois: há nós, os Chernobylites, e depois há vocês, os outros. Você percebeu? Ninguém aqui aponta que são russos, bielorrussos ou ucranianos. Todos nós nos chamamos de Chernobylitas. "Somos de Chernobyl." "Eu sou um Chernobylita." Como se este fosse um povo separado. Uma nova nação. [...] O homem convive com a morte, mas não entende o que ela é. [...]. Trechos extraídos da obra Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster (Picador, 2006), da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievitch, Prêmio Nobel de Literatura de 2015 e autora de frases lapidares, tais como: Não há heróis na guerra. Assim que uma pessoa pega uma arma, ela não pode mais ser boa. Ela não vai conseguir. A morte é a coisa mais imparcial do mundo.

 

ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA - [...] A Influência Poética quando envolve dois poetas autênticos, fortes procede sempre por uma desleitura do poeta anterior, um ato de correção criativa que é, na verdade, e necessariamente, uma interpretação distorcida. A história das influências poéticas produtivas, que é a história da tradição central da poesia do Ocidente a partir da Renascença, é uma história da angústia e da caricatura autoprotetora, da distorção, do revisionismo voluntarioso e perverso, sem o que a poesia moderna, como tal, não poderia existir [...] Nenhum poeta moderno é um poeta da unidade, seja qual for sua crença professada. Poetas modernos são necessariamente e miseravelmente dualistas, porque essa miséria, essa pobreza é o ponto de partida de sua arte [...] Pode causar estranheza que opiniões de peso sejam encontradas em obras de poetas, e não de filósofos. A razão é que os poetas escrevem por meio do entusiasmo e da imaginação; existem em nós sementes do conhecimento, assim como há fogo na pedra; essas sementes são extraídas pelos filósofos por um esforço racional, mas os poetas as arrancam a golpes de imaginação, o que lhes confere um brilho redobrado [...] Já está na hora de abandonarmos o projeto fracassado de compreender qualquer poema como uma entidade isolada. Chegou a hora de nos lançarmos à tentativa de aprender a ler todo poema como a interpretação deliberadamente equivocada que um poeta, como poeta, constrói em relação a algum poema precursor, ou à poesia em geral [...] O desvio, ou clinamen entre o poeta forte e seu Progenitor Poético é executado pelo próprio ente do poeta posterior, e a verdadeira história da poesia moderna seria, assim, o registro acurado desses desvios revisionários [...] Só é propriedade do poeta aquilo que for capaz de nomear pela primeira vez [...] Uma vez que a poesia (como o trabalho do sonho) é mesmo regressiva e arcaica, e uma vez que o precursor não será nunca integrado ao superego (o Outro que nos rege), mas sim a uma parcela do id, a desleitura é natural para o efebo. Mesmo o trabalho do sonho é uma mensagem. ou uma tradução, e portanto uma forma de comunicação, mas um poema é uma comunicação deliberadamente distorcida, estropiada. É uma destradução dos precursores. A despeito de todos os seus esforços, um poema será sempre uma díade, e não uma mônada, mas uma díade que se rebela permanentemente contra o terror de uma comunicação unilateral [...] Todo poeta está preso numa relação dialética (transferência, repetição, erro, comunicação) com outro poeta ou outros poetas [...] A crítica aristotélica, ou retórica, ou fenomenológica, ou estruturalista é sempre redutora: o poema é reduzido a idéias, imagens, objetos ou fonemas [...] Todo poema é o desvirtuamento de um poema-pai. Um poema não é a superação de uma angústia, mas a própria angústia [...] Interpretação não existe: só existe a desinterpretação, e toda crítica é uma poesia em prosa [...] Poesia é angústia da influência, é desapropriação, é uma perversão disciplinada. Poesia é desentendimento, mal-compreensão, mésalliance [...] Cada poema é uma evasão não só de outro poema, mas também de si mesmo; o que equivale a dizer que todo poema é uma interpretação desvirtuada do que poderia ter sido [...] Minha tese, aqui, que aliás me desagrada, é a de que em sua askesis purificadora o poeta forte só tem consciência de si mesmo e daquele Outro que deve, afinal, destruir: seu precursor, que a esta altura bem pode ser uma figura imaginária ou composta, mas que continua a ser formado por poemas, poemas reais do passado, que não se deixam esquecer. Porque clinamen e tessera se esforçam para corrigir ou complementar os mortos, kenosis e demonização laboram para reprimir a memória dos mortos, mas a askesis é o embate propriamente dito, uma luta-até-a-morte com os mortos [...]. O artista é um Édipo cego, que não sabia que a esfinge era sua musa. [...] Trechos extraídos da obra A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia (Imago, 1991), do professor e crítico literário estadunidense Harold Bloom (1930-2019), que em outra obra Como e porque ler (Objetiva, 1998), assinala que: [...] Recorro, novamente, a Emerson para definir o quarto princípio da leitura: Para ler bem é preciso ser inventor. O que, para Emerson, seria “leitura criativa” foi por mim chamado de “leitura equivocada”, expressão que levou meus adversários a crer que eu sofresse de dislexia. O fracasso, ou o branco, que tais indivíduos veem quando se deparam com um poema está em seus próprios olhos. Autoconfiança não é dom, mas o Renascimento da mente, o que só ocorre após anos de muita leitura. [...] Já na obra Poesia e repressão: o revisionismo de Blake a Stevens (Imago, 1994), ele expressa que: [...] O que o gnóstico sabe, o que ele conhece, é sua própria subjetividade e nessa autoconsciência procura a liberdade, que chama de “salvação”, o que pragmaticamente parece ser a liberação da angústia de ser influenciado pelo Deus judaico, a Lei bíblica ou a natureza. Os gnósticos estão próximos, por temperamento, tanto dos primitivos mágicos de Vico quanto dos poetas pós-iluministas; sua luta com as palavras que os separavam de sua própria palavra foi essencialmente a mesma de qualquer criador tardio contra seu precursor. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

BALDRAMES DE BAUDELAIRE

Entrou o poema em contato \ com fagulhas (amanhecendo) \ e amianto criminoso. E morreu. \ O poema vai às estrelas \ se o poeta parar de sonhar. \ Com medidas de som \ e aritméticas do verbo. \ As ondas cósmicas desaguam \ no pensamento humano...

Trecho do poema Insubstancial, extraído da obra Baldrames de Baudelaire – poética não recomendada para leitores avulsos ou, mesmo, até convulsos (CriaArt, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo, organização e seleção do professor e poeta Admmauro Gommes. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



terça-feira, fevereiro 02, 2021

NIETZSCHE, JUNG, STANISŁAW SZUKALSKI, TIAGO AMORIM & JOSÉ DURÁN Y DURÁN

 

 

TRÍPTICO DQC: OUROBOROS, ETERNO RETORNO – Ao som do concerto para harpa e sinfonietta La mirada del Ouroboros (2017), do compositor colombiano Felipe Tovar-Henao, conductor: Juan David Osorio. - Era noite na janela e eis diante de mim a gigantesca serpente Jörmungandr de Midgårdsormen, acompanhado da sua também gigante esposa Angurboda. Não, não estava sonhando, estava atônito e cônscio, afastei-me. Depositaram na janela um volume e uma gravura. Fitaram firme nos meus olhos, apontaram para o volume e acenaram por despedida, voando na noite. Ao me recompor identifiquei a gravura do poeta alemão Gabriel Rollenhagen (1583-1619), na qual havia a inscrição: Finis Ab Origine Pendet -, ou seja, O Fim depende do Início. Abri o volume no qual estava o título de Edda - Gylfaginning e Skáldskaparmál (Createspace Independent, 2014), do poeta islandês Snorri Sturluson (1178-1241), com os Codex Spsaliensis (U), Codex Wormianus (W), Codez Tajectinus (T), Codex Regius (R) e na última parte o Háttatal com as métricas poéticas. Fiquei intrigado, Ouroboros. Símbolo este que já vira em publicações com referências aos egípcios, druidas e indianos, gregos e chineses. Entre os astecas, o deus Quetzacoatl é representado em algumas figuras nessa forma. E isto porque tanto os maias quanto os astecas possuíam uma visão cíclica do tempo. O seu significado, entre os egípcios, correspondia à ressurreição de Rá sob a forma de Sol. Para os alquímicos era o alimento do fogo com fogo até sua extinção para se obter a essência de todas as coisas, divindindo o um em dois para conter em si mesmo o três e o quatro: é um fogo que consome tudo, que abre e fecha todas as coisas, conforme expresso tanto na obra Uraltes Chymisches Werk (1760 - Kessinger, 2009) de Rabbi Abrahami Eleazaris, como na Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry: First Three Degrees (Martino Fine, 2011), do escritor estadunidense Albert Pike (1809-1891), simbolizando a criação do universo. Já na fantasia The Worm Ouroboros (Dover, 2006), do escritor inglês Eric Rücker Eddison (1882-1945), é um símbolo que está na história que termina no mesmo lugar em que começa e a repetição permeia a obra, evidenciando que os personagens não percebem sentido às suas vidas sem o grande conflito, desejando que assim continue e seu desejo é realizado. Este símbolo levou-me à expressão Hen to pan, que em grego quer dizer o Todo ou o Um, o Tudo, que segundo a obra Dao De Jing (Hedra, 2014), do filósofo chinês Lao Zi ou Lao-Tze, consta a respeito da expressão: Milhares de coisas nascem e crescem, e vejo como voltam às suas origens, sendo este regresso, portanto, o cumprimento do destino. Ideia esta que se aproxima da teoria Hen Kai Pan de Giordano Bruno e Espinosa, no idealismo Fichte e na filosofia de Schelling. A esse respeito recolhi de Carl Gustav Jung tratar-se da mandala básica da alquimia, um trabalho individual do ser humano por si próprio, ou seja: assim como a serpente se alimenta dela mesma, o homem deve trabalhar ele mesmo para crescer. Evidente que me levou à ideia de eterno retorno encontrada em Empédocles, ao Panta Rhei de Heráclito do eterno devir, ao livro 6 da Eneida de Virgilio, ao Kalachakra do budismo tântrico representando a roda do tempo, afora as ideias de roda da vida e da existência, perpétuo retorno, espiral da evolução, dança sagrada de morte e reconstrução, e o processo de criação contínua, inevitavelmente levando-me ao pensamento de Nietzsche: Meu consolo é que tudo o que foi é eterno: o mar os traz de volta. O que para Camus seria o Mito de Sísifo o absurdo da vida. Não, não era sonho, era eu enredado na vida, o meu ouroboros.

 


DOIS: BRASIL HIPERBÓLICO – Recitando Navio Negreiro, VI, de Castro Alves: Existe um povo que a bandeira empresta... Ao som dos acordes de Capitão, de Joyce & Fernando Brant, com Chico Buarque: Brasil, quem é que seria o dono da Amazônia... - Um convite, a empreitada. Então, cumpro em parte: não para apresentar José Durán y Durán - onde já se viu um chué apresentador cheio dos bafos feito eu, para falar sobre um apresentado de prestígio? Generosidade do autor, só sendo. Não abri da parada, sei meu lugar, meu depoimento sobre, nada mais. Vamos lá: foi lá pela segunda metade dos anos de 1970 – sou péssimo com datas, meu calendário é a maior confusão, escusas -, pelas mãos do bispo Acácio, no Colégio Diocesano, que conheci Durán pessoalmente. Era, a partir de então aluno dele e, depois, vizinho no Santa Rosa. Oriundo da Espanha, em uma visita que lhe fiz de boas-vindas, me presenteou logo o livro La rebelión de las masas (Espasa Calpe, 1964), do filósofo José Ortega y Gaset, e a Antologia poética (Salvat, 1969), do poeta espanhol Antonio Machado. Um presentaço duplo que tanto li, reli, traduzi e publiquei no meu blog Tataritaritatá, trechos e poemas de cada um deles. A partir disso, conversávamos quase todos os finais de semana, o que levou ele a arregimentar um bocado de gente para reuniões aos sábados, nascendo assim as Noites da Cultura Palmarense. Foram nestes encontros que nasceram ideias para uma infinidade de coisas, pois lá estavam Teles Junior & Grucalp, Juarez Correya, Javanci Bispo, Eliseu Pereira, João Costa, Paulo Profeta, Manuel Bentevi, Felipe Maldaner, Givanilton Mendes, como também a meninada de arteiros atiçados feito eu, Mauricinho Melo Junior, Elita Afonso, Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Ângelo Meyer, Valter Portela, Leonilda Silva, Sandra Lustosa, Roberto Quental, Betania Pinheiro, Pica-pau, Jucimar Mazinho, o pianista Sérgio David, Luiz Barreto, Célio Carneirinho, Gulú, João Lins – tomara não tenha esquecido ninguém, o ruim é que a memória falha e a gente passa papel feio -, e muitos outros adolescentes e nem tanto, que pegavam aprumado em tons, versos, cores & traços, todos comandados pela maestria dele, com a sua incrível capacidade de administrar ególatras inflados, blocos do eu sozinho & outras doidices do solipsismo mais agudo. Destas noites surgiram três edições da publicação Nova Caiana e um caderno com a entrevista do poeta Raimundo Alves de Souza, o pai biológico de Vinicius de Morais. Afora isso, murais itinerantes com exposição de poemas e desenhos pelos colégios da cidade, jograis do Grêmio Cultural Castro Alves, melodramas e cantaraus na quadra do Colégio Diocesano e no auditório do Nossa Senhora de Lourdes, filmes e encenações nas tardes domingueiras do Clube Ferroviário, e por aí vai mais tocadas, meladas e muito converseiro. Parece pouco, mas não é. O melhor de tudo são as consequências: Revista A Região, Fundação de Hermilo, Edições Bagaço, Associação Teatral Palmarense (ATEP) que reunia 22 grupos amadores inscritos na regional Feteape; Bloco dos Artistas, Associação dos Violeiros de Palmares (Avitropal), Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata Sul (CODESUL), programa e zine Horagá, encarte Vozes do Una, Circo Itinerante, IV Feira de Música, encenação de peças teatrais (de Hermilo, Ângelo Meyer, Luiz Berto e o Contraste Natalino, com atores dos diversos grupos locais), isso tudo sem contar com um monte de tantas outras apresentações musicais, teatrais, pictóricas e poéticas que aconteciam aqui, ali, acolá e alhures. Pois bem. Os anos se passaram, Durán tomou rumo numa trajetória própria e seu voo solo deu no artista plástico que engrossou as fileiras do IbaValeUna, com participação nas edições do Pintando na Praça. Daí a membro da Academia Palmarense de Letras (APLE) e a exposição Encantos em Palmares, com lançamento do livro Encanto aos teus encantos (Inovação, 2018). E veio, em seguida, o livro Liberdade no Quilombo (Inovação, 2019) e a organização do volume Igualdade e desigualdade: reflexões em quarentena (Criart, 2020). Agora é a vez deste Brasil hiperbólico, com poemas que chegam logo invocando Rilke e Jayme Griz, para dar de chapa uma ideia ao leitor do que será mesmo mostrado em suas seis partes. Prest’enção! Na primeira, o Brasil honestidade, traz aquele exemplo humílimo de gente do povo, tipo Barruada: Tá bom, gente, basta! Na segunda, o Brasil esperança, aquele em que a cada segundo uma palavra do idioma morre asfixiada, fonemas e morfemas pranteiam, sintagmas sangram feridos, significados e significantes fenecem, como se a língua pátria não fosse nada além de paroxismos de blábláblás para uma gente muda e embotada num país autofágico de previdência imprevidente e outras anomalias impossíveis, e em que cada um sonha o país em “um sonho despido de sonhos”, um sonho só pesadelos. Na seguinte, o Brasil que se mata, a partir do mote de Frei Beto no meio das balas perdidas, das toneladas de tragédias, da guerra entre patrícios que não se identificam nem se reconhecem nos holocaustos das prisões amontoadas e fora delas, “um país derrotado pelo fogo” da ignorância e do ódio: “Quem mata se mata, homicida é suicida”. Depois, o Brasil de contrastes, emperrado pela burocracia com seus cães de guarda incompetentes, desqualificados e subservientes, manipulado por fantasmas que se fazem vigilantes do impostômetro e só a vergonha deslavada explode com base no óleo de peroba, no luxo do lixo, na boiada que passa goela adentro arrebentando legislações e esfíncteres. Logo após, o Brasil dos trastes e que é manipulado, partido, esticado, lavado na lama, enxaguado no charco deletério e metido numa camisa de força, às carteiradas para a imensa massa de manobra levada no fato de que “esperanças viram pragas”. Por fim, o Brasil desordem e retrocesso, contando as gramas que restaram dos farelos das riquezas e vícios, a corda de caranguejo puxando para todos os lados as comorbidades que surgem da ilegalidade e ajeitados, pelos que mandam com as milícias físicas e digitais a fabricarem barragens que jorram não se sabe nem como e onde está o dinheiro, até que se possa no meio desse fumaceiro todo, encontrar um único gesto de solidariedade que aparece como efígie inscrita numa nuvem: a Carta ao Povo de Deus. Enfim, disso tudo só posso dizer uma coisa: quem escreve poemas como Ecocídio, Verde Ouro, Pó-lítico, República Hackeada, Democracia Participativa, O capitão e os generais, Embarque Furtado, Indignação contra a Vale e Fogo no Hospital, entre outros tantos deste livro, distingue para a gente cenas ignoradas, como a de que aqui e agora tanto faz se é vida humana ou pedra, dá no mesmo, ao que parece; e que ficou tudo muito desumano, tocado, tangido, em chamas pelos raivosos sectários & seus temores escatológicos do ódio, enquanto a gente estertora porque no Brasil é sempre abril com sua nênia no coro das Querelas de Tapajós&Aldir: Do Brasil SOS ao Brasil! Ah, tem muito mais. Então, boa leitura.

 


TRÊS: DE AMOR E ARTE, A VIDA - Ela não veio e o Corvo Poe: Nunca mais! Tive que me refazer e exorcizar todos os demônios: estava contaminado com a vida dela em mim. E me vi na pele do escultor e pintor polonês Stanisław Szukalski (1893–1987), pintando e modelando seu corpo inesquecível, combinando elementos da art nouveau no meu classicismo retorcido: cubismo, futurismo e expressionismo. Era ela a razão da minha vida, ainda é. A vida passou e estou só, só suas imagens nas pinturas e esculturas. Tudo passou pouco importando se na adolescência inventei meu próprio alfabeto na escola – o sistema educacional atrasado e conservador sempre fora um dos meus grandes problemas na vida – e, mesmo assim, pelo prodígio, fui admitido na Academia de Cracóvia. Vivi na extrema pobreza, passei dias sem me alimentar, perseguindo meu talento: Eu coloco Rodin em um bolso e Michelangelo no outro e ando em direção ao sol. Não me arrependo de ter jogado Montegals escada abaixo. Graças à vida Helena me salvou e pude retornar às mitologias eslavas, à tribo Piast e o paganismo, a autêntica vida do meu povo ressuscitado. E resolvi dar vida à Twórcownia, contra a imitação servil ocidental, e substituir Wawel por Duchtynia. Com a guerra, deixei tudo para trás e a minha obra destruída pela devastação nazista, levando-me a viver na pobreza e obscuridade, guardando as lembranças de Warta: Eles me consideram um herege, quando na verdade sou profundamente religioso, embora esta seja uma religião minha. Minha religião é o polonês. A minha terra sempre existiu em mim e existirá. Apenas ela não mais presente para meu eterno sofrimento. Por causa disso, a minha vida virou um filme, sou tão irreal quanto a presença dela na memória, tão real no meu coração. Até mais ver.

 

A ARTE DE TIAGO AMORIM



A arte do escultor, ceramista, gravador, pintor, desenhista e pesquisador Tiago Amorim - Sebastião Wilson Ferreira de Amorim, que mistura elementos da arte popular com figuras retiradas da natureza. Trabalhou em vários locais no estado de Pernambuco, incluindo Tracunhaém. Atualmente mora e tabalha em Olinda, PE. Veja mais aqui e aqui.


 


quarta-feira, novembro 18, 2020

FERNANDO PESSOA, MARGARET ATWOOD, TOULA LIMNAIOS, CHE GUEVARA, LULA CARDOSO AYRES & SANDRA FILARDI


  

TRÍPTICO DQC: JANELA DOS SONHOS - Curtindo Pepperland, song by George Martin from the album Yellow Submarine (1968), The Beatles. - À janela os meus sonhos são muitos e vãos no crepúsculo. Estou perdido e diante de um templo repleto de morcegos sobre a selva cerrada de mandrágoras e papoulas gigantescas. O acesso é difícil e se parece distanciar o tempo inteiro. As altas muralhas exibem todas as cores do arco-íris e duas fontes jorram junto aos portões. Onde estou não sei nem o que fazer diante deste espetáculo. Luciano de Samósata surgiu em meu socorro, esclarecendo ser essa a Ilha dos Sonhos. O templo é da deusa da Noite e os morcegos são os seus pássaros. Uma das fontes é a do Sono Eterno e, a outra, a Noite Profunda: nelas a nascente do rio Viajante Noturno. A partir disso mostrou-me as portas do campo da Indolência pelas quais escapam sonhos terríveis, homicidas e pecaminosos; outras, como as de chifre, dão para o mar por onde passam sonhos verdadeiros; das de marfim brotam apenas os falsos sonhos. Não consegui ver nenhum habitante, mas ele me falou que possuem diversos aspectos, alguns pequenos, feios e desagradáveis; outros têm asas ou rostos espantosos. Logo percebi que não só ele, como outros povoavam o meu momento, a exemplo de um passante que logo reconheci, Fernando Pessoa e me falou: Tenho em mim todos os sonhos do mundo. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Logo apareceu Goethe: Gosto daquele que sonha o impossível. Ao lado dele, Edgar Allan Poe: Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite. Em seguida, Marcel Proust: Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais. Mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la, embora vivê-la seja também sonhar. Por fim, Che Guevara: Sonha e serás livre de espírito... Luta e serás livre na vida. Noite movimentada enquanto me mantive sem pregar os olhos.

 


AO PÉ DA BANANEIRA – Imagem: art by Sandra Filardi - Ao som de Bananeira, de João Donato & Gilberto Gil, na voz belíssima de Bebel Gilberto: Bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / a maneira de ver / bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / isso é lá com você / será / no fundo do quintal / quintal do seu olhar / olhar do coração. – Despertei e era ela esvoaçante na manhã, cantarolava radiante. Surpreso por me encontrar à beira-mar, à sombra da Musa paradisíaca – Musaceae, a erva do paraíso, originária da região Indo-malaia e ela sim, sim, ela tagarelava sobre a pacoveira, dizendo disso e daquilo, de que não é uma árvore, é uma erva gigante! Como é? Há o mito birmanês do Pyng Hnget, de que ela foi a primeira fruta que o homem comeu por alimento. Foi? Uma lenda indiana dá conta de que os antigos sábios descansavam à sua sombra e comiam de seus frutos. Há o mito chinês da donzela espectral, que faz de tudo para salvar os amantes separados e que, ao final da empreitada, se torna uma bananeira. Nas histórias africanas ela está relacionada com fertilidade e parto, incluindo que o primeiro homem nasceu dela. Em Uganda enterra-se a placenta do recém-nascido ao pé da bananeira. Há a lenda tailandesa do Nang Tani, um espírito silvestre feminino dos bosques da lua cheia que vingam as mulheres abusadas e maltratadas e é um fantasma que habita nas bananeiras não comestíveis, mas que possuem propriedades mágicas e curativas. No sertão nordestino é corrente que aquele ou aquela que meter uma faca na bananeira no meio da noite dos festejos juninos, verá o nome do futuro noivo ou noiva, escrito com as letras tremidas do tanino, conforme registrado por Câmara Cascudo. E tem a maior! Qual? Ah, não sabe, né? Não. É que anoitecia e no percurso de um caminho deserto nas proximidades da Várzea, aqui no Recife, e lá se ouviam temíveis gemidos femininos. Como é? Um certo dia, alguém deu uma de bravo e resolveu tirar isso a limpo depois de tomar umas e outras. Espia, só. Lá chegando constatou entre temores e hostilidades que o tal gemido horripilante era produzido pela fricção das folhas da figueira-de-adão. Era? Sim, o vento fazia com que se esfregassem e geravam a horrorosa lamúria. Então, o bicado corajoso respirou fundo, puxou do facão e cortou a maior folha entre elas, levando-a como prêmio para todos. Foi uma festa vê-la virar picadinhos. Dali em diante ninguém mais temeria passar pela localidade. Só que de madrugada, mais que entupido da carraspana, resolveu o destemido ir pra casa. Chegando lá, se banhou e ao se deitar se viu enrolado pelo lençol por um braço de mulher cortado, tal como ocorreu com o corte na folha da pacobeira. Dizem que disso ele enlouqueceu narrando repetidas vezes a desventura do fato. Eita! A manhã foi curta e já é meio dia para o alvoroço dela.

 


A DANÇA DA TARDE - Ao som de Dança das Cabeças (ECM, 1977), de Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos - Ela entardeceu dançante e me falou Margaret Atwood ao arrebol: Na primavera, no final do dia, você deve cheirar a terra. Eu gostaria de ser o ar que habita você por apenas um momento. Eu gostaria de ser tão despercebida e necessária. E bailou rodopiante como se fosse a coreógrafa, performer e bailarina alemã Toula Limnaios, com seu sensual e transparente vestido encarnado. E seus pés pisaram os meus, suas pernas se enroscaram às minhas e me espremeu entre suas coxas; sua mão alcançou meu sexo aprumado ao seu, seu braço envolveu meu tórax, seus lábios às minhas faces, sua língua revolveu meus sonhos lúbricos, sua boca me tomou por inteiro, seu corpo é meu e ela dançava nua no meu coração, o nosso galope à beira-mar. E eu festejando nela Gonzaguinha: O galope só é bom quando é à beira-mar, o galope só é bom quando se pode amar... Até mais ver.

 

ASSOMBRAÇÕES & ARTES DE LULA CARDOSO AYRES

A arte do pintor vanguardista, desenhista, cenógrafo e programador visual Lula Cardoso Ayres (1910-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...