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quarta-feira, fevereiro 03, 2021

JAMES JOYCE, MOIRA SHEARER, TAVENER, MEG CABOT & A CABEÇA CAXINAUÁ

 

 

TRÍPTICO DQC: VOU ALI, VOLTO JÁ. INTÉ MAIS VER – Ao som de The Eternal Sun (Chester Music, 2007), do compositor britânico John Tavener (1944-2013), sobre o poema homônimo do poeta suíço Frithjof Schon (1907-1998), para o Riga Youth Choir Kamer. - Duas pernas, quantos caminhos, um tanto de vontade. Diz o ditado: cobra que não anda, não engole sapo. Mas a vida passa e não quero ficar, jamais. Só que agora voo. Pra lá, ou pracolá, tanto faz, zis estradas, direção da venta, o que der na veneta. Quem não tem para onde ir, arranja lugar. Aonde chegar, chegou. Vou com o verso de Georg Trakl: O solitário passa pela rua: é meia-noite e brilha o firmamento. Levanta-se o menino sonolento, seu vulto pardo se desfaz co’a lua. E na levada do Gonzaguinha: Muito que andar por aí... Do que aprendi, Simone Weil: O futuro é feito da mesma substância do presente. Outras lições no bisaco, mais a de Paul Auster: Ser artista é fracassar, como ninguém mais ousa fracassar, o fracasso é o seu mundo. A vida se transforma em morte e é como se essa morte tivesse possuído essa vida o tempo todo. Morte sem aviso. Em outras palavras: a vida para. E pode parar a qualquer momento. Como sou ninguém, tudo gira, a cabeça roda ao contrário, os ponteiros loucos: se ganhei ou perdi, pouco importa. Valho-me de James Joyce: Sou amanhã, ou noutro dia futuro, o que estabeleço hoje. Sou hoje o que estabeleci ontem ou noutro dia anterior. Os erros são os portais da descoberta. Agora vou, quando voltar aviso, se.

 


DOIS: A LUA, CABEÇA CAXINAUÁ ENCANTADA - Ao som de A lua (Renato Rocha), no álbum Vira virou (1980), do grupo MPB4: A lua / Quando ela roda / É nova / Crescente ou meia / A lua! / É cheia! / E quando ela roda / Minguante e meia / Depois é lua novamente / Diz / Quando ela roda... Depois é lua-nova / Mente quem diz / Que a lua é velha / Mente quem diz... – Quem é caxinauá, é Kaxinawá! É do Alto Juruá e Purus, do Vale do Javari. É huni kuin! Povo que anda de noite e homens de verdade, verdadeiros e que vão pelo Igarapé do Caucho, Katukina, Humaitá. Ashaninka, Carapanã, do Rio do Breu ao Peru. Lá vai um deles, não havia Sol ainda. Branco vê-lo passar e, na tocaia, prepara-se para a cruzeta, armado de facão. Enquanto isso, aquele da gente de Jaci não sabe o que se passa: Branco caçador de ouro, gente, tudo o mais, pronto para atacar às traições. Um golpe no escuro, a cabeça decepada no chão, o corpo treme e se mantém de pé. Às bordoadas, corpo estendido no chão estrebuchando. A cabeça, ah, a cabeça pálpebras batendo, os olhos brilhantes, boca abrindo e fechando. O malvado cortou uma tora de pau, aguçou, enfiou a cabeça índia lá e fincou no chão. E fugiu. Quem vinha ou quem ia, lá via a cabeça viva na estaca. Juntou gente para vê-la espetada no meio do caminho, decapitada. Quem terá feito isso? Ela refulgia pálida e todos temeram. Mas preferiram derrubar para que não amedrontasse mais ninguém. Ao cair ela começou a rolar seguindo os passos de todos que fugiam: Corra! A cabeça vem atrás da gente! Ao encostar à sombra de uma árvore, viu o assassino atrepado num galho. Ela começou a crescer e o homicida pulou e começou a correr, ela atrás, aonde ele ia, perseguia seus passos, até divisá-lo à beira de um penhasco. Ela então cresceu lívida, mágica, estonteante. E ao evoluir ocorreu um estrondo como se a Terra tivesse parido a Lua que iluminava a noite. Dos seus olhos surgiram estrelas e da sua boca um enorme raio anunciando o surgimento do Sol. Todos os dias no crepúsculo ela se encostava a Terra, permitindo até que se pudesse dar longos passeios pelo Universo, quando então depois de muitas e grandes voltas, tornava a se aproximar para que todos pudessem descer e retornassem aos seus lares. PS: Releitura livre do conto A lua, extraída da obra Rã-ixa hu-ni-ku: a língua dos caxinauás do Rio Ibuaçu, afluente do Muru (Rio de Janeiro, 1914- Unicamp, 2017), do historiador Capistrano de Abreu (1853-1927).

 


TRÊS: A DANÇA DA AUSÊNCIA DELA - Imagem: a arte da bailarina e atriz escocesa Moira Shearer King (1926-2006), ao som de La danse (1948), do compositor japonês Yasushi Akutagawa – A ausência dela e as lembranças. Era como se ali estivesse dançando nua e recitando um trecho de O diário da princesa (Galera; 2002), da escritora estadunidense Meg Cabot: Coragem não é a ausência do medo, mas a decisão de que algo é mais importante que o medo. O corajoso pode não viver para sempre, mas o cauteloso nunca vive plenamente. E eu ouvindo sua deliciosa voz me dizendo Ada Negri: A vida tem em cada batida do coração a tremenda medida da eternidade. Não há tempo que não pese sobre nós com o poder de todos os tempos. A cada amanhecer que rompe digo: É hoje: a cada dia que se põe digo: Será amanhã. É tudo muito real, desde ontem e para sempre, ela em mim. Até mais ver.

 

FOLCLORE PERNAMBUCANO



A obra Antologia Pernambucana de Folclore (Fundaj/Masssangana, 1988), em dois volumes organizados por Mario Souto Maior e Waldemar Valente, coletânea de contos com lendas e situações folclóricas registradas no universo pernambucano. Veja mais aqui e aqui.


 


quarta-feira, novembro 18, 2020

FERNANDO PESSOA, MARGARET ATWOOD, TOULA LIMNAIOS, CHE GUEVARA, LULA CARDOSO AYRES & SANDRA FILARDI


  

TRÍPTICO DQC: JANELA DOS SONHOS - Curtindo Pepperland, song by George Martin from the album Yellow Submarine (1968), The Beatles. - À janela os meus sonhos são muitos e vãos no crepúsculo. Estou perdido e diante de um templo repleto de morcegos sobre a selva cerrada de mandrágoras e papoulas gigantescas. O acesso é difícil e se parece distanciar o tempo inteiro. As altas muralhas exibem todas as cores do arco-íris e duas fontes jorram junto aos portões. Onde estou não sei nem o que fazer diante deste espetáculo. Luciano de Samósata surgiu em meu socorro, esclarecendo ser essa a Ilha dos Sonhos. O templo é da deusa da Noite e os morcegos são os seus pássaros. Uma das fontes é a do Sono Eterno e, a outra, a Noite Profunda: nelas a nascente do rio Viajante Noturno. A partir disso mostrou-me as portas do campo da Indolência pelas quais escapam sonhos terríveis, homicidas e pecaminosos; outras, como as de chifre, dão para o mar por onde passam sonhos verdadeiros; das de marfim brotam apenas os falsos sonhos. Não consegui ver nenhum habitante, mas ele me falou que possuem diversos aspectos, alguns pequenos, feios e desagradáveis; outros têm asas ou rostos espantosos. Logo percebi que não só ele, como outros povoavam o meu momento, a exemplo de um passante que logo reconheci, Fernando Pessoa e me falou: Tenho em mim todos os sonhos do mundo. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Logo apareceu Goethe: Gosto daquele que sonha o impossível. Ao lado dele, Edgar Allan Poe: Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite. Em seguida, Marcel Proust: Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais. Mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la, embora vivê-la seja também sonhar. Por fim, Che Guevara: Sonha e serás livre de espírito... Luta e serás livre na vida. Noite movimentada enquanto me mantive sem pregar os olhos.

 


AO PÉ DA BANANEIRA – Imagem: art by Sandra Filardi - Ao som de Bananeira, de João Donato & Gilberto Gil, na voz belíssima de Bebel Gilberto: Bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / a maneira de ver / bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / isso é lá com você / será / no fundo do quintal / quintal do seu olhar / olhar do coração. – Despertei e era ela esvoaçante na manhã, cantarolava radiante. Surpreso por me encontrar à beira-mar, à sombra da Musa paradisíaca – Musaceae, a erva do paraíso, originária da região Indo-malaia e ela sim, sim, ela tagarelava sobre a pacoveira, dizendo disso e daquilo, de que não é uma árvore, é uma erva gigante! Como é? Há o mito birmanês do Pyng Hnget, de que ela foi a primeira fruta que o homem comeu por alimento. Foi? Uma lenda indiana dá conta de que os antigos sábios descansavam à sua sombra e comiam de seus frutos. Há o mito chinês da donzela espectral, que faz de tudo para salvar os amantes separados e que, ao final da empreitada, se torna uma bananeira. Nas histórias africanas ela está relacionada com fertilidade e parto, incluindo que o primeiro homem nasceu dela. Em Uganda enterra-se a placenta do recém-nascido ao pé da bananeira. Há a lenda tailandesa do Nang Tani, um espírito silvestre feminino dos bosques da lua cheia que vingam as mulheres abusadas e maltratadas e é um fantasma que habita nas bananeiras não comestíveis, mas que possuem propriedades mágicas e curativas. No sertão nordestino é corrente que aquele ou aquela que meter uma faca na bananeira no meio da noite dos festejos juninos, verá o nome do futuro noivo ou noiva, escrito com as letras tremidas do tanino, conforme registrado por Câmara Cascudo. E tem a maior! Qual? Ah, não sabe, né? Não. É que anoitecia e no percurso de um caminho deserto nas proximidades da Várzea, aqui no Recife, e lá se ouviam temíveis gemidos femininos. Como é? Um certo dia, alguém deu uma de bravo e resolveu tirar isso a limpo depois de tomar umas e outras. Espia, só. Lá chegando constatou entre temores e hostilidades que o tal gemido horripilante era produzido pela fricção das folhas da figueira-de-adão. Era? Sim, o vento fazia com que se esfregassem e geravam a horrorosa lamúria. Então, o bicado corajoso respirou fundo, puxou do facão e cortou a maior folha entre elas, levando-a como prêmio para todos. Foi uma festa vê-la virar picadinhos. Dali em diante ninguém mais temeria passar pela localidade. Só que de madrugada, mais que entupido da carraspana, resolveu o destemido ir pra casa. Chegando lá, se banhou e ao se deitar se viu enrolado pelo lençol por um braço de mulher cortado, tal como ocorreu com o corte na folha da pacobeira. Dizem que disso ele enlouqueceu narrando repetidas vezes a desventura do fato. Eita! A manhã foi curta e já é meio dia para o alvoroço dela.

 


A DANÇA DA TARDE - Ao som de Dança das Cabeças (ECM, 1977), de Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos - Ela entardeceu dançante e me falou Margaret Atwood ao arrebol: Na primavera, no final do dia, você deve cheirar a terra. Eu gostaria de ser o ar que habita você por apenas um momento. Eu gostaria de ser tão despercebida e necessária. E bailou rodopiante como se fosse a coreógrafa, performer e bailarina alemã Toula Limnaios, com seu sensual e transparente vestido encarnado. E seus pés pisaram os meus, suas pernas se enroscaram às minhas e me espremeu entre suas coxas; sua mão alcançou meu sexo aprumado ao seu, seu braço envolveu meu tórax, seus lábios às minhas faces, sua língua revolveu meus sonhos lúbricos, sua boca me tomou por inteiro, seu corpo é meu e ela dançava nua no meu coração, o nosso galope à beira-mar. E eu festejando nela Gonzaguinha: O galope só é bom quando é à beira-mar, o galope só é bom quando se pode amar... Até mais ver.

 

ASSOMBRAÇÕES & ARTES DE LULA CARDOSO AYRES

A arte do pintor vanguardista, desenhista, cenógrafo e programador visual Lula Cardoso Ayres (1910-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


terça-feira, novembro 10, 2020

ÉDOUARD DUJARDIN, EMMANUELLE RIVA, HENRY VAN DYKE, TAMARA KVESITADZE, KURBAN SAID, NINON DE LENCLOS & ISA PONTUAL

 

TRÍPTICO DQC: VIDEVERVA, VIVAMOR - A vida retangular, meus dias à janela – manhãs, tardes e noites que se confundem pelas horas de claroscuros. Como eu queria as mãos no barro da terra, os pés pelas poças das calçadas, faces aos ventos, sabores de frutas maduras... O sonho recolhido na minha clausura. Remexo livros amontoados e monturos de coisas empilhadas pelos cantos. Entre os imprestáveis - presumo, como juntei tanta coisa, meu Deus, não sei mesmo -, uma lâmpada empoeirada: O que é isso? Não me lembro de tê-la adquirido, nem nunca a vi por perto. Curioso, tento remover a poeira e, com isso, uma fumaça emerge pelo bico: Será o gênio de Aladim? Não, não era: o escritor e dramaturgo francês Édouard Dujardin (1861-1949) lendo um trecho do seu livro Os loureiros estão cortados (Les Lauriers sont Coupés - Brejo, 2005): Um entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas, ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita, um vago entardecer… Pois sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam. Nem havia me dado conta e já anoitecia: O tempo passava e sequer percebia. Ele sorriu enquanto eu cantarolava Gonzaguinha: Vida, vida, vida! E seja do jeito que for! Mar, amar, amor!... Ouvi sua gargalhada, mas não era mais dele, era Friedrich Schiller: O amor só é conhecido por aquele que irremediavelmente persiste no amor. Sim, sim, sei. E desapareceu do mesmo jeito como aparecera. Senti falta dela, há dias não dava as caras por aqui. A ausência dói e o amor, aquela semente que brota nos lugares mais improváveis.

 


DO AMOR & CIRCUNSTÂNCIAS ADVERSAS - Imagens: do premiado drama Amour (Amor, 2012), escrito e dirigido por Michael Haneke, contando a história de um casal de idosos aposentados, em que Anne é submetida a uma cirurgia mal sucedida na carótida que a deixa com um lado do corpo paralisado, destacando a atriz protagonista. – Na parede oposta uma projeção do filme me fez esquecer a solidão da noite. Durante a assistência, a porta se abre e ela adentra com um poema da atriz símbolo do amor da Nouvelle vague e poeta francesa Emmanuelle Riva (Paulette Germaine Riva – 1927-2017): Seu nome vai para a cama / em minha boca / Quando eu acordar / você já esta ai / meu sorriso / está sob seus dedos / você me mantém à distância / Eu tenho um curativo / no sextante / o corpo está à deriva / indo para o tempo / são os editos / da noite / (a) doçura louca / da liberdade. Logo se aproximou com um beijo e achegou-se ao meu lado acompanhando a projeção até o final. Fitou-me firmemente e recitou o escritor estadunidense Henry van Dyke (1852-1933): Amar não é receber, mas dar. Não um sonho ávido de prazer nem a loucura do desejo: não, nada disso é amar! O amor é bondade, respeito, paz... é simplesmente viver. E cobriu de vida a minha solitária existência e noite interminável.

 


DO QUE É CAPAZ O AMOR – Imagem: Ali & Nino - Man and Woman (2007), da escultora e artista georgiana Tamara Kvesitadze. Ao som da suíte sinfônica Pantanal (1990), de Marcus Viana, com a Transfônica Orkestra, Sagrado Coração da Terra & Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob a regência do maestro Lincoln Andrade. – Ao amanhecer era ela a escritora francesa Ninon de Lenclos (1620-1705): Nunca tive outra idade senão a do coração. No amor, a economia dos sentimentos e dos prazeres é a única metafísica apreciável. O amor é a comédia na qual os atos são mais curtos e os intervalos mais compridos. Como, portanto, ocupar o tempo dos intervalos senão com a fantasia? E me convidou das cinco às nove da noite para um evento no seu salão literário, estabelecido no Hôtel de Sagonne, para a encenação da comédia histórica em um ato misturada com vaudevilles e criada em sua homenagem e com seu nome, pelo Henrion – Armand Henri Ragueneau de la Chaianay (1875-1958). Aconteceriam também no mesmo horário o sarau com versos que o físico, matemático, astrônomo e horologista neerlandês Christiaan Huygens (1629-1695) fez para ela: Ela tem cinco instrumentos pelos quais estou apaixonado: / os dois primeiros, as mãos; / os outros dois, seus olhos; / Para o mais belo de todos, / o quinto que resta, / você tem que ser arrojado e ágil; a leitura do romance Memórias de Ninon de Lenclos, Cortesana del Siglo XVII (1857 – Hachette Bnf, 2017), do escritor e jornalista francês Eugène de Mirecourt (Charles Jean-Baptiste Jacquot - 1812–1880); a exposição das séries em histórias de quadrinhos Les Sept viés de l’éperier (1983/1991) / Masquerouge (2009) / Le Fou du Roy (Glenat, 1998) / Ninon secrète (Glenat, 1992), todas do artista francês Patrick Cothias; e o lançamento do livro Ninon De Lenclos: mulher de pensamento, homem de sentimento (WMF Martins Fontes, 1990), da jornalista e crítica francesa France Roche (1921-2013). Seria uma noite de consagração e com muitas homenagens, todas para ela, nada mais que merecido. Ela estava fulgurantemente linda, um colosso em forma de gente de tão exultante e glamourosa. À saída, não dispensou mencionar o poeta, escritor e jornalista argentino José Hernández (1834-1886): A oportunidade é como ferro: devemos batê-lo enquanto estiver quente. Melhor do que aprender muito é aprender coisas boas. E fomos de mãos dadas para a efeméride pelas estradas da nossa fantasia. Ao término da função, caminhamos até o boulevard de Batumi, e enamorados, vivemos a história dos amantes (E.P., 1937), do escritor azerbaijano Kurban Said (1905-1942): eu, o muçulmano Ali; e, ela, Nino, a princesa cristã georgiana, separados pela invasão soviética. E ali nos amamos para que o universo fosse festa naquela noite até outro amanhecer em nós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ISA PONTUAL

A arte da artista plástica Isa Pontual. Veja mais aqui & aqui.


 

 


quarta-feira, dezembro 13, 2017

JUNG, BAUMAN, QUINTANA, GONZAGA, JOÃO CABRAL, DOROTHY IANNONE & ESCADA

UMA COISA DENTRO DA OUTRA – Imagem: Blue and wihte sunday morning, da artista estadunidense Dorothy Iannone. - Olá, gentamiga, um dia radiante de harmonia paratodos, salve, salve. As coisas parecem andar meio embaralhadas, de pernas pro ar, ou melhor, desgovernadas mesmo. É que entre uma coisa e outra, o que aparece é meio insólito, senão, paradoxal. Deveras, é só olhar direitinho que está duvidoso saber se o que é certo virou errado, ou se o direito e o justo são apenas acomodações negociadas. Tem muita bravata no ar. É que enquanto teimam em fazer da oportunidade do presente um passado não muito distante de infeliz condução, produzem um futuro no capricho dos interesses escusos. O noticiário quase não deixa qualquer entendimento que não seja a da discórdia, entender são outros quinhentos. O falso moralismo de plantão reinante imprmindo o retrocesso, e apenas para satisfação dos que pensam que sua condição egoísta, retrógrada e vaidosa é imperiosa e urgente, mostra, nada mais, nada menos, a mais cristalina das constatações de sectarismo raivoso de trogloditas da barbárie e cultores das trevas para a implementação do neofundamentalismo canceroso que alastra tenazmente entre nós. Esse despropósito confunde vida com conforto, arte com baboseira, artista com diletante, sinceridade com artifício, crença com intolerância. No entanto, apesar da insegurança impressa por estabanados arrumadinhos que se processas em todas as esferas da gestão governamental do nosso país, apesar da dubiedade de expressão entre cordados e conformados, e da escuridão no fim do túnel, a nós que nos foi concedido o poder de sermos seres pensantes, nos resta seguir, firme e serenamente, decodificando os acontecimentos e desfechos do momento atual. É preciso, antes de qualquer coisa, sabermos que não é apenas o umbigo o legítimo beneficiário das benesses existentes no mundo, muito menos o único detentor do poder de razão acima de quem quer que seja. O outro e os demais, senão todos, merecem também partilhar do direito de viver por serem legítimos ocupantes do planeta Terra. Vale dizer que nunca ouvi dizer que um cavalo, ou um cachorro, jacaré ou leão, ou o mais peçonhento dos seres ditos irracionais desse mundo, matasse ou vitimasse o outro da mesma espécie, só pra se apossar ou acumular aquilo que fosse o seu desejo sobre os demais. Isso nos leva a refletir acerca da evolução humana ao longo dos séculos e milênios, a avaliar o inventário da humanidade. A nós, de fato, nos resta entender que a humildade, gentileza e discernimento são atributos que nos distinguem como seres humanos, portanto, isso é o que nos faz distinguir no plano cósmico, qual a nossa missão e propósito na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o rei do baião Luiz Gonzaga (1912-1989) ao vivo & o show Gonzagão & Gonzaguinha: a vida do viajante ao vivo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – A força do livro reside em sua capacidade totalmente específica de ligar a biografia à história, o privado ao público, o individual ao social, os momentos vivenciados ao sentido da vida. Pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925- 2017). Veja mais aqui e aqui.

O SER HUMANO - [...] a cultura humana, enquanto produto natural de diferenciação, é uma máquina; primeiro que tudo, uma máquina técnica que utiliza condições naturais para transformar a energia física e química, mas também uma máquina psíquica que utiliza condições naturais para transformar libido. Da mesma forma que o homem conseguiu inventar uma turbina e, conduzindo o curso d’água para ela, transformar a energia cinética nela contida em eletricidade, capaz de múltiplas aplicações, assim também conseguiu, com a ajuda de um mecanismo psíquico, converter os instintos naturais – que, de outra maneira seguiriam sua tendência natural – outras dinâmicas que tornam possível a produção de trabalho. [...]. Trechos extraídos da obra Energia psíquica (Vozes, 2002), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui e aqui.

ESCADA -  O município de Escada teve seu povoamento povoamento iniciado a partir de uma aldeia de índios das tribos Potiguaras, Tabujarés e Mariquitos, fundado em época indeterminada, porém existentes em 1685, com a denominação de Aldeia de Nossa Senhora da Escada de Ipojuca. O nome "Escada" provém da capela erguida por missionários da Congregação do Oratório para catequese dos índios, que ficou conhecida como Nossa Senhora da Escada. O distrito foi criado pela Carta Régia de 27 de abril de 1786 e por Lei Municipal em 6 de março de 1893. A Lei Provincial nº 326, de 19 de abril de 1854, criou o município de Escada, com território desmembrado do município do Cabo de Santo Agostinho. A sede municipal foi elevada à cidade pela Lei Provincial nº 1.093, de 24 de maio de 1873. É formado pela Sede Administativa, distritos de Massuassu e Frexeiras. A rede hidrográfica da cidade tem o rio Sapucaji e em grande extensão na cidade o rio Ipojuca. Em Escada, o rio Ipojuca passa pela sua periferia, cruzando áreas próximas ao centro da cidade, onde se encontra a Ponte do Atalaia que faz e proporciona a ligação de bairros da cidade ao centro. Além da rica história e da beleza arquitetônica dos velhos engenhos, Escada tem atrativos naturais como Quedas d`água, nascentes de riachos, bicas, corredeiras e alguns resquícios da Mata Atlântica brasileira, isso sem contar com o artessanto local, a culinária típica e o movimentado calendário de festas populares da cidade que inclui as festas juninas. Veja mais aqui

NOSTALGIAS - Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico: “Acabaram-se os bondes amarelos!” Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros. Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo: “Acabaram-se as tias solteironas...” Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema. Têm ambos o mesmo ritmo. Causam ambos o mesmo nó na garganta que me impede de os continuar. Talvez o poema já esteja pronto... e ninguém notou. Nem eu! Porque ele próprio se completou, cada verso chorando no ombro do outro... e sem mesmo notar que eram decassílabos. Texto extraído da obra Porta giratória (Globo, 1988), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui, aqui e aqui.

FÁBULA DE UM ARQUITETO - A arquitetura como construir portas, / de abrir; ou como construir o aberto;/ construir, não como ilhar e prender,/ nem construir como fechar secretos;/ construir portas abertas, em portas; / casas exclusivamente portas e tecto./ O arquiteto: o que abre para o homem/ (tudo se sanearia desde casas abertas) / portas por-onde, jamais portas-contra;/ por onde, livres: ar luz razão certa. / Até que, tantos livres o amedrontando, / renegou dar a viver no claro e aberto./ Onde vãos de abrir, ele foi amurando/ opacos de fechar; onde vidro, concreto;/ até fechar o homem: na capela útero,/ com confortos de matriz, outra vez feto. Poemas extraídos da obra Poesias completas (José Olympio, 1986), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui, aqui e aqui.

TODO DIA É DIA DE LIVROS PRAS CRIANÇAS
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista estadunidense Dorothy Iannone.
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segunda-feira, setembro 25, 2017

FAULKNER, PIVA, BOURDIEU, FUREDI, LIA CHAIA, VITOR DA FONSECA, PALHAÇOS, SOCORRO DURÁN & AMANDA DUARTE

POETASTRO METE AS CATANAS SEM ENTENDER DO RISCADO – Imagem: Xilogravura de Amanda Duarte. - Nada dava certo mesmo pras bandas do Doro, tudo gorava de choco e ele nem se emendava: partia pra outra. Dessa vez abandonou a candidatura a presidente, queira mais saber não de política, isso é lá coisa prum sujeito como eu! Que se danem! E saiu vasculhando o que danado ele ia fazer da vida dagora em diante. Perambulando pela feira, ele deu de cara com dois repentistas glosando o maior mote. Ficou de mutuca e acompanhando tudo: vamos sapecar umas parcelas? Vamos de galope à beira-mar, compadre! Agora um desafio malcriado! Uma taboada pequena, uma carretilha, um quebra cabeça, um gabinete repetido, nove palavras por seis, língua d’Angola, dez de adivinhação, coqueiro da Bahia, martelo alagoano, desmancha, rojão pernambucano, trava-língua, ligeira, oitava, dez de queixo caído, quadrão perguntado, mourão voltado, gemedeira, e de pé quebrado, chega, vamos emborcar a viola! Ele prestou atenção em tudo perdendo a noção do tempo: oxe, esses cabras não cantam nada. Vou ser o melhor cantador, ah, se vou! E foi ver os preços das violas, não tinha um tostão furado; valeu-se de duas folhas de compensado e caiu no maior teitei: agora vou me danar no dedilhado da maior violada. Nessa hora chega Robimagaiver e ele ensaia pra ele: ah, se quer ser poeta, o doutor lá do banco disse que a melhor poesia é o soneto. Gostei do nome, vou ser sonetista! Danou-se! E castigou no blem blem desafinando a goela das tripas coração. Foi, então, que cometeu uns versos, logo se achou o pencó do trupé, lascando uns cordéis desajeitados, até cair nas graças dum abastado comerciante que apadrinhou sua empreitada: publicar um livro. Vixe! O bocó cresceu os olhos misturando rimas de nenhuma métrica, decorando tudo a dizer como improviso – na verdade o pior goteira, um meia-tigela. Foi se deparar com o embolado do coco: ah, vou ser o mais afamado coquista! Não deu outra: garranchou numa tuia de folhas de papel na maior das garatujas, juntou tudo e foi ter com o mecenas que empurrou o calhamaço pruma gráfica e, tempos depois do ajustado e aprazado, estava ele com o opúsculo embaixo do sovaco, pra cima e pra baixo, todo ancho e virado da breca! Topou com uns doutores que se diziam poetas e logo estava reunido com o tabelião, o tenente, o contador e outros embecados que recitavam seus plectros e loas como se vates de calibre, bardos da melhor cepa. Falaram duma academia que ele fez de tudo para participar. A exigência era a publicação de um livro, oxe, moleza pra ele, depositou o seu na hora, nem leram, muito menos abriram uma página só que fosse e já deram por acadêmico. Dia lá de reunião, intrometeu-se no meio, viu de tudo que foi zoada e já se imaginava desfilando sobre o tapete vermelho da fama: agora esse povinho terá de me bajular porque virei especial dos especiais, todos terão que lamber o solado dos meus pés. Ufanou-se, maior venta empinada, peito estufado com ar desprezo e indiferença para todos, do Afredo esconjurá-lo por cu doce: agora só todo metido com um deus no bucho, metido a cheio das pregas. Doro nem nem, nada lhe atingia o espinhaço pronto pra desancar o primeiro que lhe aparecesse, só nos compadrios com letrados, dado a ser tal qual beletrista de respeito. Já não cumprimentava mais ninguém, só os seus doutos achegados, mais nada: essa bugrada só merece desprezo! Não me misturo mais não com essa gentinha porqueira. Destá. Era chegada a hora prele se amostrar diante de todos na academia, cobravam-no uma apresentação e não se fez de rogado: abriu a caixa dos peitos e lascou mastigado torando aço, rompendo pé-de-parede como se cantasse ciência, fugia da mira no meio do trabalho feito, mas mantinha a toada própria no maior caqueado da obrigação repetida e enrolada, até rapar a violada, esperando a paga e aplausos. Maior burburinho inquietante, quando um lá se levantou: isso é lá desgraça de coisa que se apresente, homem? Não deu, maior opróbrio, rabinho entre as pernas, Doro escafedeu-se de nunca mais dar as caras. Diziam maldizentes: bem empregado praquele desinfeliz, todo castigo pra corno é pouco! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Coisa mais maior de grande, Moleque Gonzaguinha & Caminhos do Coração, do cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior – o Gonzaguinha (1945-1991); o Concerto para Violino de Bach, Chiacona Bertali & Elbo Telemann da violinista e maestro britânica Rachel Podger; Do samba e do jazz, The Man, Diamante verdadeiro e Sway com a atriz, locutora, escritora, cantora e compositora Bia Sion; e os poemas Quem transou com a Madonna no Brasil?, Nada vai apagar meu sorriso, Sexo em Moscou, 100 Vitrines & Picareta Cultural do poeta, ator e roteirista Mano Melo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

ERA DA INCERTEZA: TERAPIA & VULNERABILIDADE -  [...] A invasão do ethos terapêutico nas outras profissões e formas de autoridade é particularmente admirável na relação com seus antigos competidores – as instituições religiosas. Recentemente, o Arcebispo de Canterbury afirmou que a terapia está substituindo o cristianismo nos países do ocidente. De acordo com o Arcebispo Carey, “Cristo, o Salvador” está se transformando em “Cristo, o conselheiro” [...] A politização da emoção emergiu como um importante tema na vida política contemporânea. A intromissão no sentimento das pessoas se tornou institucionalizado sob o presente sistema de governança terapêutica. Há pouca oposição a essa tendência e dificilmente alguma preocupação com as potenciais implicações autoritárias de um sistema de governo que tem como objetivo dizer às pessoas como devem se sentir [...]. Trechos extraídos da obra Cultura da Terapia: cultivando a vulnerabilidade em uma Era de Incerteza (Routledge,2004), do sociólogo britânico Frank Furedi, defendendo que a terapia deixa de se referir a estados mentais exóticos e problemas atípicos para se tornar comum em situações do cotidiano e encarada como um ideologia com objetivos que proporcionem uma espécie de reencantamento da experiência subjetiva, suprindo a vivência emocional com um significado especial, uma vez que o “emocionalismo” ajuda a reconstruir uma forma de espiritualidade bastante inusitado.

CAPITAL SOCIAL –[...] O capital social é o conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento mútuos, ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como o conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis. [...] acumulação de capital cultural desde a mais tenra infância – pressuposto de uma apropriação rápida e sem esforço de todo tipo de capacidades úteis – só ocorre sem demora ou perda de tempo, naquelas famílias possuidoras de um capital cultural tão sólido que fazem com que todo o período de socialização seja, ao mesmo tempo, acumulação. Por consequência, a transmissão do capital cultural é, sem dúvida, a mais dissimulada forma de transmissão hereditária de capital. [...] Trechos de O capital social: notas provisórias, do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), extraído da obra Escritos de educação (Vozes, 1998), organizado por Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A EDUCAÇÃO, A FAMÍLIA E A ESCOLA - [...] Como a vida familiar se constitui na primeira escola de aprendizagem, os pais devem investir mais na interação mediatizada para tornar as crianças e os jovens socialmente mais hábeis. Também na escola os professores, por meio da mediatização, podem criar adultos mais solidários e mais aptos a responder aos desafios complexos da sociedade futura. Em síntese, se queremos uma sociedade mais solidária, a família e a escola tem de ser mediatizadoras. [...] Trecho da obra Pedagogia mediatizadada: transferências das estratégias para novas aprendizagens (Salesiana, 2002), do professor catedrático Vitor da Fonseca, defendendo que a mediatização é a chave do desenvolvimento social e cognitivo da espécie humana, tornando-se fundamental a aplicação da pedagogia mediatizada na família e na escola. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PALHAÇOS & PALHAÇADAS - [...] O Palhaço é a figura cômica por excelência. Ele é a mais enlouquecida expressão da comicidade: é tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem nenhum compromisso com qualquer aparência de realidade. O palhaço é comicidade pura. O palhaço não é um personagem exclusivo do circo. Foi no picadeiro que ele atingiu a plenitude e finalmente assumiu o papel de protagonista. Mas o nome palhaço surgiu muito antes do chamado circo moderno. Aliás, seria melhor dizer “os nomes”. Uma das grandes dificuldades que a maioria dos autores encontra ao estudar a origem dos palhaços está na profusão de nomes que essa figura assume em cada momento e lugar. Clown, grotesco, truão, bobo, excêntrico, tony, augusto, jogral, são apenas alguns dos nomes mais comuns que usamos para nos referir a essa figura louca, capaz de provocar gargalhadas ao primeiro olhar [...] Esse nosso personagem imaginário sobreviveu a todas as catástrofes naturais, inclusive às construídas pelos homens. Esteve presente nas batalhas, nas festas e nos rituais mais sagrados, sempre cumprindo o mesmo papel: provocar o riso. [...] O palhaço é o sacerdote da besteira, das inutilidades, da bobeira... Tudo o que não tem importância lhe interessa. É corriqueira a cena em que o palhaço vai fazer alguma coisa muito séria e importante - como, por exemplo, tocar uma peça de música clássica - e acaba nos entretendo com algum detalhe absolutamente insignificante. [...] Durante milênios e até nos dias de hoje valorizamos a sabedoria e a capacidade para vencer, seja lá o que isso signifique. Por isso, a apologia do trabalho, da moderação, do equilíbrio. Grandes valores, sem dúvida, mas a vida não é só isso: existe a farra, a festa, o prazer! E assim o homem vai vivendo, equilibrando-se entre os contrários, compreendendo a necessidade de “ganhar o pão com o suor do seu rosto”, mas criando mecanismos para escapar das pressões cotidianas, reagir aos exageros dos puritanos e se contrapor à tristeza e à violência do mundo. Millôr Fernandes complementou Aristóteles dizendo que “o homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é”. Pronto. A principal função do riso é nos recolocar diante da nossa mais pura essência: somos animais. Nem deuses nem semi-deuses, meras bestas tontas que comem, bebem, amam e lutam desesperadamente para sobreviver. A consciência disso é que nos faz únicos, humanos. [...] Palhaço não dá lição de moral, mas também não é amoral. Mas quem sabe a diferença? Quem conhece o limite? Acho que tudo depende do lado que escolhemos na vida e de compreender que, a todo instante, é como se um espelho aparecesse, o muro andasse, trocando os lados de lado. O que é justo num determinado momento ou situação pode ser muito injusto no momento seguinte. A Verdade nunca é absoluta, a bondade nem sempre é o melhor caminho, e por aí vão as coisas, exigindo atenção, sabedoria e um firme exercício de fidelidade aos princípios que norteiam a vida dos que escolhem ter princípios na vida. [...]. Trechos extraídos da obra Elogio da bobagem: palhaços no Brasil e no mundo (Família Bastos, 2005), da atriz, diretora de teatro e especialista em circo, Alice Viveiros de Castro.

ENQUANTO AGONIZO – [...] Foi Albert quem me contou o resto da história. Ele disse que a carroça estava parada na frente da loja de ferragens do Grummet, com as mulheres espalhadas pela rua com lenços presos ao nariz, e um bando de homens e rapazes de narizes grandes ao redor da carroça, ouvindo o xerife discutir com o homem. Era um homem alto e esguio sentado na carroça, dizendo que era uma rua pública e ele achava que tinha tanto direito como os outros, e o xerife lhe dizendo que ele teria que ir andando; as pessoas não agüentariam aquilo. Ela estava morta havia oito dias, Albert disse. Eles vinham de algum lugar lá no condado de Yoknapatawpha, tentando chegar a Jefferson com aquilo. Deve ter sido como um pedaço de queijo podre entrando num formigueiro, naquela carroça toda desconjuntada que Albert disse que o pessoal temia que de repente caísse aos pedaços antes que eles pudessem deixar a cidade, com aquele caixão feito em casa e outro sujeito com uma perna quebrada deitado num catre em cima do caixão, e o pai e um menino sentados e o xerife tentando fazê-los sair da cidade [...]. Trechos extraídos da obra Enquanto agonizo (L&PM, 2010), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS DE PARANOIA - A piedade: Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento / abatido na extrema paliçada / os professores falavam da vontade de dominar e da / luta pela vida / as senhoras católicas são piedosas / os comunistas são piedosos / os comerciantes são piedosos / só eu não sou piedoso / se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria / aos sábados à noite / eu seria um bom filho meus colegas me chamariam / cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio / bóia? por que prego afunda? / eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as / estátuas de fortes dentaduras / iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos / pederastas ou barbudos / eu me universalizaria no senso comum e eles diriam / que tenho todas as virtudes / eu não sou piedoso / eu nunca poderei ser piedoso / meus olhos retinem e tingem-se de verde / Os arranha-céus de carniça se decompõem nos / pavimentos / os adolescentes nas escolas bufam como cadelas / asfixiadas / arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através / dos meus sonhos. Boletim do mundo mágico: Meus pés sonham suspensos no Abismo / minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina / eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão / havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios / eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa / na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as / galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos / colégios e carros fúnebres estão desertos / pelas calçadas crescem longos delírios / punhados de esqueletos são atirados no lixo / eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente / os luminosos cantam nos telhados / eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens / mas o céu roxo é uma visão suprema / minha face empalidece com o álcool / eu sou uma solidão nua amarrada a um poste / fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago / nos pavimentos isolados meus amigos constroem  / [um manequim fugitivo / meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a / uma calota minha alma desconjuntada passa rodando. Poemas extraídos da obra Paranóia (Massao Ohno, 1963), do poeta Roberto Piva (1937-2010).

SOCORRO DURÁN
Com a escritora, professora e acadêmica da APLE, Maria do Socorro Barros y Durán, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A música de Gonzaguinha aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Raquel Podger aqui e aqui
A arte de Bia Sion aqui.
A poesia e a entrevista de Mano Mélo aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica, performer, fotógrafa & multimídia Lia Chaia. 
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sexta-feira, maio 12, 2017

O AMOR DE PARACELSO, GONZAGUINHA, CURUMIM & CUNHANTÃ

O AMOR DE CURUMIM & CUNHANTÃ – Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Foi de manhã que ela chegou caingang pra me mostrar como é. Como sou caeté, ali mesmo rejuvenesci, como se curumim, cunhantã e a vida no quintal. Vamos brincar de roda? Pronto, rodamos e muito, sonhos e anseios a girar tal pião entre mãos e terreiros: viver é gostoso demais entre o fogo e os ventos, matos e folhas, bichos e abusões, rios e peixes, terras e montes, aves e plantas, clareiras e coivaras, maracás e malocas, tabas e tacapes. Esconde-esconde? Já me escondi. Aonde? Achou! Era como se ao me achar revelasse por seus olhos e risos que a vida é muito mais que apenas viver: sentir e sonhar, entre o raio de trovão e o governo do mundo, coisas de se vê e o não visto. Escravos de Jó? Jogamos caxangá, toma e me dá, cantando até de mão trocar, azagaias sem curare pra não trazer Jurupari. Pular academia? Ôpa, caí em você. Eu sou doutor e ela a paciente, maior pega-pega; aí, eu doente, ela ao exame, aos beijinhos e beijus: descobrimos todos os mundos das cavernas e cordilheiras rasteiras e suspensas dos nossos corpos entre caraíbas e caribocas. Vamos brincar de namorar? Mão na mão, passear no quintal até o bacurau trazer a noite. Empinar papagaio? Bora! Vê como o céu é logo ali. Vamos lá? Vamos. Uma tora pra mutá, dá pra subir. Tirar a roupa? Para entrar no céu tem que se despir de tudo. Nus, pegamos bigu nas nuvens pra viajar sobre as minhas terras caetés, chapinhando nos brejos, chupando pitomba, araçá, caju, cajá, rolete de cana atrás da moita fugindo da La Ursa, com os bonecos de barro de Vitalino e as carrancas de Caruaru, pulando frevo até a Serra da Prata pra ver até longe onde vai dar. Aí puxa a minha mão e me leva no rabo do cometa pra chupar laranja, maçã, pêssego, ameixa, até chegarmos entre os pinheiros até as cataratas do Iguaçu, pra me batizar caingang e a gente mais meninos que sempre, na união de nossas tribos tão distantes e tão iguais em nós, haja eternamente um Brasil verdadeiro de Pindorama no futuro em nossos corações. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui.

MAMÃO COM MEL, DE GONZAGUINHA
Parece até que eu 
Jamais falei no amor
Parece até que jamais amei
Criança é mesmo assim
Bobagem , beleza só fala
Maravilhas banais
Quero amar você
De todas as maneiras
Que eu puder viver você estribilho
Por todos os caminhos
Que eu puder sentir você
Em todos os sentidos do prazer
Há que fel
Mamão com mel
E eu nem preciso asas pra voar
Melhor é bem difícil de sonhar
Amar viver sentir a vida com você
Amar sentir você mas que prazer
Ah, que céu
Mamão com mel
E eu nem preciso de asas pra voar
Melhor é bem difícil de sonhar
Amar, viver, sentir a vida com você
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Mamão com mel, música extraída do álbum Olho de lince/Trabalho de parto (EMI-Odeon, 1985), do cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior – o Gonzaguinha (1945-1991). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Enfermeira & a dor de ser mulher, O ser e o nada de Jean-Paul Sartre, A artista do corpo de Don DeLillo, Histórias do desejo de Jean-Manuel Traimond, a música de Müller-Herman & Karl Weigl & Webern, a pintura de Joseph Beuys & Nanduxa aqui.

E mais:
Convite & Crônica de amor por ela, Reflexões de Friedrich Hölderlin, A pós-modernidade de Zygmunt Bauman, a literatura de Sérgio Porto, a poesia de Oswald de Andrade, Anaïs Nin & Lucélia Santos, o cinema de Pedro Almodóvar & Penélope Cruz Sanchez, a música de George Gershwin & Kiri Te Kanawa, a arte musical de Sumi Jo, Luciah Lopez & a pintura de Parmigiano aqui.
O amor & Vamos aprumar a conversa, A arte de amar de Erich Fromm, Desastres de amor de Dalton Trevisan, Limeriques & nonsense de Edward Lear, Abajur lilás de Plinio Marcos, o cinema de Claude Chabrol & Isabelle Huppert, a música de Bebel Gilberto, a pintura de Dante Gabriel Rossetti & Coles Phillips, Florence Nightigale, Katharine Hepburn & Programa Tataritaritatá aqui.
Equívocos dos filhos de Caim, a arte de Pedro Moreira, Fecamepa & Big Bode aqui.
A educação no pensamento marxista aqui.
Mamão, novamente o estranho amor, A desobediência civil de Henry Thoreau, O Livro das Mil e Uma Noites, a música de Dery Nascimento & Planeta MPB, a pintura de Newton Mesquita & Thiago Hellinger, a arte de Raimundo Rodriguez, A Temerança no Fecamepa & Big Bode aqui.
Lugome, sua familia, seu infortúnio, Fundamentos de história do direito, Poesia erótica em tradução de José Paulo Paes, O combate à corrupção nas prefeituras do Brasil, Aracaju, a música de Gina Biver, a pintura de Sofan Chan, a arte de Eiko Ojala & Rudson Costa aqui.
A arte de Tunga, a poesia de César Vallejo, O teatro e sua estética de Redondo Junior, a música de Ná Ozzetti, João Pessoa, Sonia Braga & Os sapos da política de Edson Moura aqui.
Semáforos de sempre, vida adiante, Amor em tempos sombrios de Colm Tóibín, Serviço Social & fetiche de Marilda Villela Iamamoto, Ética & Marketing Social de Alam R. Andreasen, a música de Claudio Nucci, Natal, a fotografia de Spencer Tunick & a arte de Vik Muniz aqui.
A sexta é dia da deusa, da musa, rainha, poeta, mulher, a literatura de Goethe & Machado de Assis, Gozo fabuloso de Paulo Leminski, a música de Alexandra Stan, Curitiba & Luciah Lopez aqui.
Na Volta da Jurema, Arrowsmith de Sinclair Lewis, Confúcio, Semiologia & comunicação lingüística de Eric Buyssens, a música de Guinga, a pintura de Ida Zami, a arte de Laerte Coutinho, Fortaleza & As heroínas do HQ aqui.
O amor dos namorados, Sonetos de amor de Pablo Neruda, A arte de amar de Erich Fromm, Cânticos dos Cânticos de Salomão, a música de Edith Piaf, o cinema de Derek Cianfrance & Michelle Williams, a pintura de Henry Asencio & Julia Watkins, a arte de Cornelis le Mair & Grupo Femen aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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O AMOR DE PARACELSO
Quem nada conhece, nada ama. Quem, nada pode fazer, nada compreende. Quem nada compreende, nada vale. Mas quem compreende também ama, observa, vê... Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa tanto maior o amor... Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas.
Pensamento do médico, filósofo e místico suíço-alemão Teophrastus Paracelso (1493-1541). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O horizonte era luz
Azulecente céu e sol
Feito um farol______teu olhar
A me envolver de quereres tantos
Vem na mansidão do vento
Vestindo-me de amor.
Um dia que amanheceu azul, poema/imagens da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...