segunda-feira, fevereiro 03, 2020

SIMONE WEIL, GEORGE HERBERT, BIA VILLA-CHAN, EMMA LAFLÛTE & ARTE PERNAMBUCANA


SIMONE, UMA CARTA DE AMOR – A sua alma é minha como a sua nudez de vestal no meu corpo, porque é una comigo e nus vamos adiante. Desde a menina parisiense de face judia, que não era só a irmã do jovem matemático que cresceu agnóstica marciana solidária ao sofrimento de todos, que comungamos o nosso anarquismo e a nossa feiura de coração compassivo, e na nossa inferioridade, compelidos contra o intolerável uso da força e da violência. Na flor da adolescência você queria morrer porque não havia alcançado o reino da verdade, intuindo as aporias de sempre, uma virgem vermelha com sua personalidade excêntrica. Recusava o alimento em nome de um idealismo e a manter-se virgem, enquanto ateu, eu seguia entre parábolas e transcendências, na contemplação da verdade. Vi-a professorinha de estranhas vestes, falava às moças quando ninguém entendia o coração do mundo em suas mãos delicadas e as constantes enxaquecas até o fim das aulas. Fomos juntos com a ascensão da doença política e a barbárie da guerra. Éramos na causa republicana da Guerra Civil Espanhola e na resistência francesa: tantas atrocidades e abstrações cristalizadas, doutrinas e sistemas ideológicos da chacina, quanto massacre. Atuamos pelas fazendas, o solidário no olhar dos mineiros de Saint-Etienne, os lavradores, os desempregados e famintos. A fábrica roubava o pensamento e gente virava coisa, marcados pela escravidão como ferro em brasa, a experiência da miséria, a obediência e apatia nos gestos dos outros, a dolorosa Expérience de la vie d'usine: coisas fazem o papel de homens, homens o papel de coisas. Míope e frágil, rifle na mão, o pé numa panela de óleo fervente, era a servente, a vindimadora, a operária numa sociedade desequilibrada e suicida: não podemos escapar exceto pela privação. O labor arrancava-lhe a juventude. Tudo era do contra, a fome grassava, a fadiga de quem, refratária aos poderes, vagava pelas mentiras de tudo, o intenso viver na luta libertária diante da injustiça, da expropriação, o sofrimento nas feridas da carne. Seguimos juntos o aprendizado do sânscrito, o Livro dos Mortos e Gita. Éramos Nietzsche no anagrama Emile Novis, herética para todas as concepções: todo cristão é escravo da culpa e do medo, e nós Um de mãos dadas com tudo e todas as coisas. Sabíamos que o mundo era o lugar adequado: o tempo como condução, o espaço como objeto. Findamos exilados por nossas recusas, seguíamos ascetas pelos campos e vinhedos, a cama era um saco forrado no chão, cebolas e tomates por alimentos. Fincamos como podíamos nossas raízes na pobreza e os nossos deveres com o outro, nenhuma vaidade, errantes, vagabundos, costurando camisas de anêmonas, para que não fossem cisnes, mas gente com o sorriso no rosto amado. O chão nos foi negado, nosso enraizamento de refugiado. Quantas vezes folheei seu diário, o sonho de uma sociedade sem opressão. Merecia o seu lugar e podia desposar um lavrador. Eu estava ali e recitamos juntos e nus milhões de vezes o poema de George Herbert que era a nossa oração. Eu deitei sua cabeça esgotada ao meu ombro, juntando farrapos de ideias e o malheur, desenraizada da vida, a sua quase morte pela degradação angustiante. E me dizia que a dor é a origem do conhecimento e eu guardei todos os seus dilaceramentos, vulnerabilidades, a sua terrível responsabilidade de pensar, a sua coragem de ter esperança mesmo sem fundamento e que é a vida para esquecidos e proscritos. Ouvíamos cantos gregorianos, comíamos apenas a ração e nos recusávamos a algo mais, porque Deus é o que não somos e o pecado é a miséria. Renunciamos a tudo com as mulheres de pescadores e nos ajoelhamos para Francisco, porque o exílio é sua casa, um belo quarto para morrer a nossa obra póstuma. E nos abraçamos ao ideal cátaro: morrer antes de sucumbir às tentações. Então, a tuberculose chegou antes, a desnutrição a consumia até cair enferma, extenuada, pleura inflamada, com o Journal d'usine às mãos exaustas, até quase não mais pensar, e a parada cardíaca. Fui eu quem lhe banhei no batismo paradoxal de última hora, porque fui Camus na sua alcova antes do prêmio. Hoje eu voo no que você mesma disse: Eu posso, portanto, eu sou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Depois do meu primeiro ano de fábrica, antes de retomar o ensino, os meus pais levaram-me a Portugal, e aí separei-me deles para ir sozinha a uma pequena aldeia. Tinha, de algum modo, a alma e o corpo em pedaços. Aquele contato com a infelicidade havia matado a minha juventude. Até essa altura, não tinha tido a experiência da infelicidade, senão da minha própria, que, sendo minha, me parecia de pouca importância, e que ademais era apenas uma semi-infelicidade, pois era biológica e não social. Sabia bem que havia muita infelicidade no mundo, estava obcecada por isso, mas nunca o tinha constatado através de um contato prolongado. Na fábrica, confundida aos olhos de todos e a meus próprios olhos com a massa anônima, a infelicidade dos outros entrou na minha carne e na minha alma. Nada me separava dela, porque tinha realmente esquecido o meu passado, não aguardava qualquer futuro e dificilmente conseguia imaginar a possibilidade de sobreviver àquelas fadigas. O que aí sofri marcou-me de forma tão duradoura que, ainda hoje, quando um ser humano, seja ele qual for, e não importa em que circunstâncias, me fala sem brutalidade, não consigo deixar de pensar que se deve ter enganado e que o engano vai certa e infelizmente desfazer-se. Recebi aí e para sempre a marca da escravatura, como a marca do ferro em brasa que os romanos impunham na fronte dos seus escravos mais desprezados. Depois disso, passei a olhar-me sempre como escrava [...]. A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como uma unidade numa coleção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exatamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar. Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção [...] Quando dois seres humanos têm que fazer juntos, e quando nenhum tem o poder de impor ao outro seja o que for, é necessário que se entendam. Examina-se então a justiça, pois apenas a justiça tem o poder de fazer coincidir duas vontades. Ela é a imagem desse amor que em Deus une o Pai e o Filho, o pensamento comum daqueles que pensam separadamente. Mas quando há um forte e um fraco, não há necessidade alguma de unir duas vontades. Não há senão uma vontade, a do forte. O fraco obedece. Tudo se passa como quando um homem manipula a matéria. Não há duas vontades a fazer coincidir. O homem quer e a matéria sujeita-se, o fraco é como uma coisa [...]. A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retraimento, de renúncia. Deus e todas as criaturas, isso é menos do que Deus apenas. Esvaziou-se desde então nesse ato da sua divindade; [...] Deus permitiu que existissem outras coisas, coisas distintas dele e valendo infinitamente menos do que Ele. Pelo ato criador, Ele negou-se a si mesmo, tal como Cristo nos prescreveu que nos neguemos a nós mesmos. Deus negou-se em atenção a nós para nos dar a possibilidade de nos negarmos por Ele. Esta resposta, este eco, cuja recusa depende de nós, é a única justificação possível para a loucura de amor do ato criador. [...] Trechos da obra A espera de Deus (Assírio e Alvim, 2005), da filósofa e escritora francesa Simone Weil (1909-1943), que se licenciou da universidade para se tornar operária, com o objetivo de estudar o cotidiano das fábricas. Também lutou na Guerra Civil Espanhola e participou da Resistência Francesa. Com seu pensamento ela expressa: [...] A contradição não é somente o cume ao qual deve chegar uma inteligência honesta consigo mesma, mas também a característica de Deus, onipotente e onisciente, pessoal e impessoal, uno e trino, puro sofrimento e pura alegria. Tais contradições não se podem explicar com a teologia, mas somente contemplar na “loucura do amor” e da mística. [...]. E acrescenta: [...] Comungar com o sofrimento do outro, e não apenas fazer teorias sobre ele; participar das aflições do outro, e não apenas dissertar sobre elas; mergulhar profundamente na dor do mundo até o ponto de fazê-la sua, não ficando longe dela e tratando-a assepticamente. [...]. Entre suas obras estão O enraizamento (EDUSC, 2001), Aulas de filosofia (Papirus, 1991), A gravidade e a graça (Martins Fontes, 1993), Opressão e liberdade (EDUSC, 2001), A condição operária e outros escritos sobre a opressão (Paz e Terra, 1979), Pensamentos desordenados acerca do amor de Deus (ECE, 1991), A fonte grega (Cotovia, 2006), Pela supressão dos partidos políticos (Âyiné. 2016), entre outras. Sobre sua vida e obras: Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (Rocco, 2007) e Simone Weil: uma síntese entre mística e compromisso sociopolítico (Paulus, 2012), ambos de Maria Clara Lucchetti Bingemer; A filosofia de Simone Weil: uma mística da ação e da contemplação (Sísifo, 2017), da professora Maria Simone Marinho Nogueira; Simone Weil. A razão dos vencidos (Brasiliense, 1983), de Ecléa Bosi; A pobreza e a graça: experiência de Deus em meio ao sofrimento em Simone Weil (Paulus, 2013), de Alexandre Andrade Martins; Simone Weil: Testemunha da paixão e da compaixão (EDUSC, 2014), de Maria Clara Lucchetti Bingemer. Veja mais aqui.

AMOR, DE GEORGE HERBERT - O Amor deu-me boas vindas, porém retraiu-se / minha alma, em pó e pecado eivada. / Mas o Amor, de olhar sagaz, observando-me / recuar àquela minha primeira entrada, / achegou-se de mim, suave, indagando / se algo me faltava. / “Um hóspede,” disse-lhe, “em mérito de entrar à vossa casa." / Falou o Amor, “Tu o serás.” / “Eu, o ingrato, o desamável? Ah, não sou digno / de a Vós erguer os olhos, meu amado.” / O Amor tomou minha mão e, sorrindo, retorquiu, / “Quem, senão eu, teria os olhos criado? / “Verdade, Senhor; mas eu os turvei; deixai minha desonra / tomar o rumo que lhe caiba.” / “Acaso não sabes”, diz o Amor, “quem toda humana culpa assumiu?” / "Meu querido, serei de vossa mesa, assim, o servo." / “Deves sentar-te,” diz-me o Amor, “e de minha carne provar.” / Então sentei-me, e de sua carne provei. Poema do poeta anglo-galês George Herbert (1593-1633), integrante da Escola Metafísica de Poetas.

A MÚSICA DE BIA VILLA-CHAN
A música está na veia, na convivência e na paixão. Não posso deixar meu lado artístico guardado. E acredito que já estou colhendo alguns frutos e reconhecimentos. Venho fazendo amigos, conexões, amizades e intercâmbios artísticos. As mulheres precisam ocupar espaços.
BIA VILLA-CHAN – A arte da premiada cantora e multi-instrumentista Bia Villa-Chan, que lançou em 2018 o Pedacinho de mim e em 2019 Girassons. Veja mais aqui.

A ARTE DE EMMA LAFLÛTE
O amor pelos corpos, o amor pela decoração: movimento da vida onírica que dá origem a um universo mágico. O corpo cativado pela luz, finalmente tratado com uma suavidade penetrante. Entrega-se sem o aparato necessário; é exposto à luz do tempo. O sensível e o intelectual se combinam. As modelos nuas parecem inocentemente enigmáticas e têm seu próprio espaço, sua interioridade respeitada.
EMMA LAFLÛTE - A arte da artista conceitual francesa Emma Laflûte, que utiliza técnicas que ilustram a partir da pintura e fotografia, compondo a partir da imaginação uma atmosfera particular e íntima do heterogêneo. Filha de pai cego, ela mistura estados de espirito com base no que sente, vive e pensa, ocupando a feminilidade grande lugar no seu trabalho. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A literatura do escritor, jornalista e sociólogo Alberto da Cunha Melo (1942-2007) aqui.
O cordel do poeta, cantador, violeiro e repentista Otacílio Batista (1923-2003) aqui.
A poesia de Carlos Pena Filho (1929-1960) aqui.
A arte de Maurício Silva aqui.
A música de Isaar França aqui.
A menina banda, do cineasta Breno Cesar aqui e aqui.
A fotografia de Luiz Santos aqui.
O Maracatu Real da Várzea aqui.
Sinhá Terta: uma forte presença na minha vida, de Tereza Figueiredo aqui.
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O Alto do Moura de Caruaru aqui & aqui.



MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...