segunda-feira, setembro 16, 2019

CORNEILLE, NADIA BOULANGER, NATALIA CORREIA, KRISTEN REICHERT & PANEGÍRICO APAIXONADO


PANEGÍRICO APAIXONADO - Charlotte bela! Você não me conhece, nunca me viu nem verá. Somos coetâneos, a vi por um triz emergencial: sua cabeleira castanha aos ombros de mares apaziguados, seus olhos azuis salientes de tardes ensolaradas, o seu belo corpo gracioso de pomares floridos. Muito prazer. Sei tudo da sua vida ádvena de criança solitária: as malquerenças com a madrasta e o pai distante, os parentes ocasionais e as poucas amigas, uma jovem enclausurada na Abadia das Senhoras. Sei das suas leituras de Plutarco, Rousseau e Voltaire, seus heróis alheios Brutus e Regulus, o convento de nenhuma saudade. Impossível não perceber os seus suspiros revolucionários na declaração dos Direitos dos Homens, a realista justiceira pela justa da causa do seu povo. Os seus embaraços, a sua deficiência ortográfica, a insegura pontuação, a crença desfeita na religião desvanecida, o desdém pelo brasão de ouro da família e o lustro nobiliárquico, seus despojos e espólios. Sei do seu encanto pelas inflamadas declamações nas esquinas, a solidária dor dos sofrimentos de seus camponeses e a brutalidade dos cobradores de impostos, a opressão e o seu pacifismo, a guilhotina e a terrível saturnália de Paris, a hediondez pantanosa do Amigo do Povo, a nossa desgraça. Nada mais consentâneo ao meu desejo de encorajá-la a viver e falar do seu trisavô – aquele que representa até hoje o heroísmo, a integridade e a grandeza da alma francesa -, que foi desenganado por amor para tornar-se poeta de Melita, do El Cid, de Cinna e de tantas cenas com a paráfrase poética da imitação de Jesus e os decassílabos sonoros da paixão e da vida. Ah, Eva camponesa de Caen, como eu queria essa Jeanne d’Arc com salvo-conduto, viajante na diligência, eu a seu lado para a ventura do amor. Eu me apaixonei e como eu queria não deixá-la sozinha no Albergue da Providência às vésperas de aniversário da Tomada da Bastilha. Ah, como eu queria acompanhá-la no solar dos Cordays, as saias jogadas e a vida passando, visitar a parente em Caen e poder privar dos seus olhos corajosos eloquentes de verdade, e ouvi-la falar de tudo com sua cativante boca firme, o vinco resoluto dos lábios e beijá-la para vê-la sorrir com toda sua força e graça, candura juvenil, e nunca levá-la a renunciar da sua independência, jamais senhora, só o amor, por certo. Ah, eu seguiria seus passos de deuterocanônica viúva Judite, a piedosa que invade obstinada com a sua beleza para cumprir a missão no acampamento do exército inimigo, em defesa do seu povo oprimido, armada com a astúcia de Tamar e uma estaca a marteladas na têmpora de Siserá, eu me ocuparia disso, com certeza, não sou nada, apenas você e a poupava disso. Eu também fui iludido: deixei casa, mulher e três filhos, a vida de agricultor e doutor em entusiasmo, adepto, como você, de Rousseau. Plantei o poste de liberdade em honra da Revolução e fiquei enojado com a erupção do Terror triunfante do abjeto partido dos radicais da Montanha: tudo devorado pelas mãos de monstruosos miseráveis, incitando a violência. Ah, eu queria vivê-la com o vestido leve listrado, a charpa rósea cruzada ao peito, a decisão tomada e tomaria a faca de cozinha afiada e desviaria os seus ardis por três vezes chegar à banheira de cobre do enorme rato esbelto de olhos inconstantes – um canibal sedento de sangue, um mata-mouros feio repulsivo e perverso, eu que desferisse o golpe, sem misericórdia nem piedade, para vê-lo a agonia da aorta seccionada. Não haveria a sua captura à força de murros e cadeiradas, a prisão de l’Abbaye, os protestos em vão contra os gendarmes vigilantes, o tribunal, o banco dos réus, o olhar orgulhoso diante da acusação, a inquirição e o que tinha a dizer: Nada, exceto que eu consegui! Não haveria apenas quatro dias restantes para manifestar o meu amor por você que levou a bom termo, cumpriu a sua missão e, para nós, a paz restabelecida, a Montanha não reinaria mais, estávamos enganados, meu amor. Seria outra a história. Não veria a defesa acusá-la de Medusa com músculos de Vulcanus, louca fanática: Eu matei um homem para salvar cem mil. Não precisaria acompanhar todos os seus interrogatórios, julgando-a integrante de conspiração: Nenhum inocente será caluniado e comprometido por minha causa. Não testemunharia seu olhar firme, sereno, distante no escabelo: Apenas eu concebi o plano e o executei. Não choraria com suas pálpebras abaixadas, vencida pelo cansaço, as falas de teatro como se nem soubesse que estava diante da morte. Não confessaria a sangue frio, a premeditação, nenhum remorso nem pose para o belo desenho de Hauer: as faces cor do Sol aos ventos, cílios longos e escuros, as requintadas cadências da voz maravilhosa, a expressão de um sacrifício divino. Ah, seria apenas o amor, o nosso amor. Eu seria o seu dolo e poderia tê-la heroína dos meus sonhos, sem a condenação e todos os seus bens confiscados, nem libelo acusatório e a multidão. Jamais permitiria as lágrimas de sangue, nem que cortassem suas franjas, amarrassem suas as mãos para o suplício no ocaso de julho: Perdoai-me pai, a vergonha está no crime, e não no patíbulo. Não deixaria subir ao cadafalso, enfrentaria todos os insultos e maldições, a sua recusa religiosa, a sua prontidão estátua de si mesma. Não seriam horas de um dia estival contando nuvens negras azuladas que rolavam em grandes massas pelo céu, nem o trovão distante resmungaria além do rio com as gotas de chuva, nem o raio repentino do sol poente romperia as nuvens para iluminar sua expressão esbelta aos olhos dos espectadores assustados, nem se curvaria ao cutelo porque não haveria pena nem cairia lâmina para tremerem lábios com o único pedido: Meu dever é suficiente - o resto não é nada! Seria outra a história, seria. O seu último olhar guardei comigo e não deixaria morrer porque não haveria decapitação, nem o carpinteiro Legros esbofetearia suas faces na Place de Grève, nem a descartaria no cemitério de Madeleine. Nada disso haveria. Assim não fizesse, a minha indignação me mataria em frente à Convenção Nacional, por protesto! Assim o fiz. Malogrei, cheguei tarde e fui reduzido a marido da Dorothea de Goethe, o meu prêmio para os tempos de depois. Só me restava recolher seu discurso escrito, a minha denúncia; fui preso por traição, julgado e condenado: o exílio para me retratar, ou a sentença de morte. Escolhi o banquete do nosso casamento eterno. Preferi seguir seu exemplo, meu amor, o autossacrifício da liberdade: morrer com e por você. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] estávamos pois apaixonados e decidimos que eu ficaria a viver com ele. Foi pouco depois que Miguel me levou a casa da Françoise. Estranhei que ela quisesse relacionar-se comigo. A verdade é que eram amantes e ela tinha razões para me detestar. Mas Miguel explicou-me que a Françoise era assim que tinha uma forma muito elástica de amar. Um amor em que cabiam muitas pessoas ao mesmo tempo. Foi ela que nos veio abrir a porta. Tive um choque quando percebi que aquela mulher cujos cabelos começavam a branquear e que tinha duas bolsas de pele pisada debaixo de uns olhos muito abertos e translúcidos que esses sim pareciam de uma rapariga enamorada, era a Françoise de quem eu fizera uma imagem algo despeitada de uma criatura irresistível. [...]– Não esperava que fosse tão velha. Percebi que a minha observação lhe desagradava. – Velha? Estás doida. A Françoise tem trinta anos. Gastou-se em corridas na noite para lançar bombas nos centros dos SS. E depois, na prisão [...]. Trechos extraídos da obra A madona (Notícias, 2000), da escritora portuguesa Natalia Correia (1923-1993), a que se expressou assim em seu poema Autorretrato: Espáduas brancas palpitantes: / asas no exílio dum corpo. / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma. / E os olhos emigrantes / no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia. / Por vezes fêmea. Por vezes monja. / Conforme a noite. Conforme o dia. / Molusco. Esponja / embebida num filtro de magia. / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis. / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis.

ALGUÉM FALOU: [...] Franceses! Conheceis os vossos inimigos! Erguei-vos, marchai! E que a Montanha, aniquilada, só deixe atrás de si irmãos e amigos. Ó França! A tua paz depende da observância das leis. Não creio violá-las matando Marat; condenado pelo mundo inteiro, ele se pôs fora da lei. Que tribunal me julgará? Se sou culpada, haveria de sê-lo também Hércules quando destruía os monstros? Mas jamais encontrou monstro tão odioso. Ó minha pátria! Só posso oferecer-te a minha vida, e graças ao céu pela liberdade que tenho de dispor dela. Ninguém terá nada a perder com a minha morte. Quero que o meu último suspiro seja útil aos concidadãos e que minha cabeça, transportada pelas ruas de Paris, seja um sinal de reunião para todos os amigos das leis; que a Montanha vacilante veja a própria ruina decretada com o meu sangue; que eu seja a última das suas vítimas, e que o universo vingado me declare benemérita da humanidade. Se eu não for bem sucedida na minha empresa, franceses, ter-vos-ei indicado o caminho: conhecei os vossos inimigos. Erguei-vos! Marchai e golpeai! [...] Trechos finais do manifesto intitulado Discurso ao povo francês, amigos da lei e da paz, por Marie-Anne Charlotte de Corday d'Armont (1768- 1793), conhecida como Charlotte Corday, figura da Revolução Francesa, escrito às vésperas do ataque que ela desferiu no assassinato por esfaqueamento, do líder jacobino, médico e jornalista Jean-Paul Marat, durante seu banho medicinal, cena esta retratada pelo pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825). Ela foi presa, julgada e executada com pena de morte na guilhotina. O seu ato sugeriu a proibição de clubes políticos femininos e as execuções de ativistas como a girondista Madame Roland (1754-1793), depois de todos os girondinos serem declarados proscritos, que escreveu seu Appel à l'Impartiale Postérité (Apelo à Posteridade Imparcial), sendo julgada em 1793, conduzida ao suplício, ao exclamar: Ó Liberdade, quantos crimes cometem-se em teu nome. Charlotte era descendente matrilinear de quinta geração do poeta e dramaturgo francês Pierre Corneille (1606-1684), fundador da tragédia francesa e ídolo da trineta. Ela foi agraciada com o apelido póstumo de l'ange de l'assassinat (o anjo do assassinato), pelo escritor Alphonse de Lamartine (1790-1869). O seu quadro foi pintado pelo artista oficial da Guarda Nacional, Jean-Jacques Hauer, que já a havia esboçado da galeria do tribunal. Entre as muitas manifestações posteriores ao seu ato, eclodiram homenagens do poeta André Chénier e o escritor Albert Camus, nas Reflexões sobre a guilhotina, expressou: Dizem que a cabeça decepada de Charlotte Corday corou sob o tapa do carrasco. Esse crime contra uma mulher executada, momentos antes foi considerado inaceitável e Legros ficou preso por três meses por causa de sua explosão. Depois disso, seu corpo foi autopsiado e teve a constatação de que era virgem. As consequências do seu ato foram opostas: foram intensificados os terrores promovidos pelos jacobinos, tornando Marat um mártir. Ela também foi referenciada e reverenciada nas mais diversas obras:  no livro Beware Madame la Guillotine: The French Revolution with Charlotte(LLC, 2014) de Sarah Towle; Grandes Julgamentos da História: Ravaillac e Charlotte Corday (Otto Pierre, 1978), de Claude Bertin; na peça teatral The Female Enthusiast: A Tragedy in Five Act (1807), da dramaturga estadunidense Sarah Pogson Smith; na peça teatral Charlotte Corday (1850), do dramaturgo francês François Ponsard; na peça Vera, ou the nihilists (1880), de Oscar Wilde; na peça teatral Charlotte Corday (1894), de Kyrle Bellew e na homônima de 1939, de Drieu La Rochelle; na peça teatral The revolutionists (2017), de Lauren Gunderson; na obra Os miserables (1862), de Combeferre e nos Harper’s Weekly (1865), no Rebecca of sunnybrook Form; nos fragmentos póstumos de Margarety Nicholson, do poeta Percy Bysshe Shelley, na obra Marat/Sade (1963), de Peter Weiss, no filme de 1919, Charlotte Cordday, estrelado por Lya Mara, na ópera do compositor italiano Lorenzo Ferrero, na canção de parceria entre Al Stewart & Tori Amos, no álbum Famous Last Words (1993), no romance Oito de Katherine Neville e no romance Dr Guillotine (1993), de Herbert Lom. ADAM LUX: UM APAIXONADO SEGUIU SEUS PASSOS - Durante o seu julgamento, o jovem revolucionário alemão e simpatizante da Revolução francesa, Adam Lux (1765-1793), que estudou na Universidade de Mainz e se tornou doutor sobre a noção de entusiasmo, testemunhou todos os interrogatórios até a sua execução, apaixonando-se por ela e publicando panfletos provocadores, defendendo que o assassinato era um ato de libertação. Trata-se de um jovem representante da Mongúncia, no seio da Convenção, depois de haver deixado em casa mulher e três filhos. Ele odiava Marat, a quem se referia como um sanguinário cara de sapo. O gesto de Carlota encheu-o de admiração e de remorso. Sentia haver sido superado por uma mulher, a quem se apaixonara durante a execução do processo. Não esperava que ela fosse tão bela. Chorando e fremindo, acompanhou-a até o patíbulo, viu cair o cutelo. Depois, voltou para casa, escreveu e publicou seu panegírico apaixonado. Depois de desistir de se matar publicamente, protestando contra a violência: [...] A guilhotina não é mais uma vergonha. Tornou-se um altar sagrado, do qual toda mancha foi removida pelo sangue inocente derramado no dia 17 de julho. Perdoe-me, minha divina Charlotte, se eu achar impossível, no último momento, mostrar a coragem e a gentileza que eram suas! Eu me glorio porque você é superior a mim, pois é certo que ela que é adorada seja maior e mais gloriosa que seu adorador! [...]. A Convenção o prendeu, julgado, teve a escolha entre o exílio ou pena capital, e condenado, subiu ao cadafalso como se fosse uma tribuna, suas últimas palavras: Morro por Charlotte Corday! Seu ato o fez figurar no épico Hermann e Dorothea (1798), de Goethe.

MÚSICA DE NADIA BOULANGER
[...] me ofereceram uma participação pequena num concerto em algum lugar, e eu aceitei, principalmente para possibilitar aos músicos jovens ter a experiência de uma performance em público. Nosso sucesso foi instantâneo, e veio então um contrato atrás do outro, até que eu me dei conta de que tinha entrado numa bola de neve que envolvia a mim e a todos os demais. Esta é a verdadeira razão pela qual eu me tornei regente. Você não pode ter um grupo de cantores sem regência, e então eu tive que adentrar e aprender este novo departamento da minha arte [...].
NADIA BOULANGER - A música da compositora, pianista, organista, maestrina e professora francesa Nadia Boulanger (1887-1979), considerada entre as personalidades mais influentes na música do século XX. Ela foi professora da Escola Normal de Música em Paris, do Conservatório de Paris e fundadora e diretora do Conservatório de Fontainebleau, além de ter lecionado nos Estados Unidos e na Inglaterra. Entre seus alunos estão Aaron Copland (1900-1992), Walter Piston (1894-1976), Elliott Carter (1908-1912), Jean Françaix (1912-1997), Leonard Bernstein (1918-1990), Daniel Barenboim (1942) Almeida Prado (1943-2010) e Egberto Gimsoni, além de ter sido parceira do compositor russo Igor Stravinski (1882-1971) d irmã da compositora Lili Boulanger (1893-1918). Fonte: Contando a história da carreira de Nadia Boulanger na regência (Debates, 2016), de Jeanice Brooks. Veja mais aqui.

A ARTE DE KRISTEN REICHERT
[...] Eu tenho um profundo amor pela arte e pela criação desde muito jovem. Eu pintei e desenhei ao longo dos anos, e finalmente decidi estudar arte na faculdade. Quando descobri a tinta a óleo, tive a sensação de que finalmente encontrara o que deveria fazer. A pintura a óleo parecia vir tão naturalmente para mim e eu não conseguia o suficiente. Depois que me formei em 2012, passei por um período difícil tentando descobrir como poderia continuar fazendo arte enquanto também ganhava a vida. Tirei alguns anos da pintura para dar continuidade ao trabalho de design gráfico e ilustração. No entanto, senti muita falta de pintar e decidi em 2016 começar a pintar em tempo integral. Agora, estou feliz pintando todos os dias e tenho o grande prazer de poder exibir com galerias maravilhosas. [...].
KRISTEN REICHERT - A arte da artista visual estadunidense Kristen Reichert, que trabalha em retratos e afirma ser "uma entusiasta da moda e do estilo; seu trabalho é uma homenagem ao poder poderoso e complexo da beleza sobre a vida". Veja mais aqui.


A OBRA DE PIERRE CORNEILLE
Aquele que quer morrer ou vencer raramente é vencido.
A obra do dramaturgo do Neoclassicismo francês Pierre Corneille (1606-1684) aqui e aqui.


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...