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quarta-feira, setembro 13, 2023

SVETLANA ALEXIEVITCH, NIDIA MARINA VÁSQUEZ, HAROLD BLOOM & BALDRAMES DE BAUDELAIRE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Hommage à Nadia Boulanger (2005) e Depuis 1904 J'enseigne La Musique (Hughs Desailes, 1973), destacando as pelas Trois pièces pour piano: Pièce No 1 in D-Minor (1914), Désespérance (1902), Poème d'amour (1907) e Fantaisie pour piano et orchestre (1912), da compositora e educadora francesa Nadia Boulanger (1887-1979). Veja mais aqui.

 

OUTRESTÓRIA DE NOIT&DIAS... - No meio do caminho havia outra pessoa e como tenho a mania de falar sozinho por arrebetados noit&dias com suas mortalhas indesejáveis, queixas longínquas e chagas incuráveis, sem data nem mapa, não me dei conta logo. Ali eu me via na poça pelos descampados da solidão assombrosa e a viver do jeito que podia e desse – era diante do espelho que eu controlava o inimigo aos ditirambos avulsos para exaurir o porvir convulso pelos introitos de rebotalhos – o poeta não para de sonhar jamais, porque os mortos não mais amam, embora tenham sido e serão sempre. Foi então que ela apareceu-me Sigrid Undset: Todos os meus dias desejei igualmente percorrer o caminho certo e seguir meu próprio caminho errante... Ninguém e nada pode nos prejudicar, criança, exceto aquilo que tememos e amamos... Ante minha solidão e dela o dentro e o fora e o que ardia nada impropriamente espreitava porque a lua se escondeu em mercúrio e se aproximava de marte, igualmente eu perdido numa encruzilhada. Ela me falou dos analectos de Confúcio: a arte da arquearia sem disputa nem ou eu ou ela. Curvou-se porque era eu o seu oponente e mutuamente emergiu o convite para bebericarmos a festa dos ninguéns – havia de retificar o coração com o arco e a flecha deloutra na prática de construir a humanidade. Nem tão lacônico disse-lhe que não seria jamais servo da ambição alheia nem da minha, e não pedi ajuda para minha pobre alma, corvo Poe; nem perguntei se alguém me entendia, James Joyce; nem fiquei num quarto de hotel, O’Neil; nem amei tantas coisas e pessoas, Tolstoi. E digo mais: não pedi que afastassem as pastilhas de Lewis Carol, nem dormi o sono de Byron, nem senti o frio de Truman Capote. E mesmo que quisesse não me serviriam uma taça de champanhe, Tchekhov. Ela, então, caminhou Emily Dickinson pelo nevoeiro que aumentava e quantas vezes não me vi sozinho no topo do Chomolugma: nenhuma autocompaixão no meu périplo, porque mesmo que olhos não vissem os sentidos desconheceriam. Poderia ser diferente, quantas escolhas no caminho para o autoconhecimento profundo entre sambaquis que apareceram no Orbe Dourado do Alaska, o inacessível à palma da mão. Era ela agora Grazia Deledda: Todos mudamos, de um dia para o outro, através de evoluções lentas e inconscientes, vencidos por aquela inelutável lei do tempo que agora deixa de apagar o que escreveu ontem nas misteriosas mesas do coração humano... Talvez eu seja mesmo um caso incurável e precise sempre retornar ao local de nenhuma saudade, só porque lá não há mais amizade nem preciso procurar por mim nem ninguém, porque fora de prumo e esquadro entre nomes infames sem que nada possa desacreditar, porque nunca aprendi a arte da fuga, deveria ter ido há mais tempo sem ter nem pra onde. Ela agora Selma Lagerlöf: Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar... A alegria é a dor que se dissimula - à face da Terra só existe a dor... Bem dito. Tudo fiz do que não foi feito nem será – se eu tivesse o mar seria outro. Até agora nada, sou apenas um bêbado solitário sem nome e faço o que posso: sincero consigo e mutuamente com todos - a boca mandarim ao ouvido. E a noit&dia seguinte olhava a lua sem distância. Num dar de olhos ela me deu o favor de seu amparo, um talismã ao anoitecer para que no sonho dela eu sonhasse. E suas asas multicores roçaram minha face e seus beijos eram santo remédio fulgurante para que eu pudesse entrar no frescor de seu corpo em festa toda vida com a fúria de sua fome de mulher. Dali não perdi nenhum de seus passos, mas a vida é a vida, não outra coisa. E como se eu tivesse sido aniquilado por um raio numa causa perdida, mais que apenas grato eu pude viver mais que o merecido e ela me deu. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ISTO NÃO É UM PAPEL: Há várias coisas aqui que são impossíveis de ver: \ um corpo etérico matéria escura, hologramas a serem deduzidos. \ Uma visão sem olhos, espéculo da minha mão esquerda. \ Tiro o pó das páginas em branco, \ Eu não tenho ideia de onde eles vão parar depois do tiro perolado isso sai dos meus dedos. \ Isto não é um papel, e se for, será exposto ao esquecimento, \ à poeira contínua que assenta nos meus olhos e muda de rumo.

REGISTRO: Aqui está meu corpo, movido pelo sopro do tempo. \ Aqui a tentativa das palavras, e a memória do centro cerziu tudo: \ para o estrangeiro, esquecido para a memória ao sublime e ao profano, \ para o bando ao qual eu pertencia antes de andar sobre dois membros. \ Se eu não fosse mestiço se não tivessem me negado as línguas originais das minhas avós \ Eu saberia o que fazer com um kipu nas mãos ou com uma roda medicinal em locais sagrados. \ Eu saberia pronunciar meu nome em Nahuatl ou Quechua. \ Uma irmã me lê tarô e reconheço a reflexão fragmentada de vários continentes \ no meu sangue o eco de canções e histórias tão diferentes, \ em uma mancha de pigmento tecido na pele. \ As cicatrizes são tão antigas que caem umas sobre as outras. \ Multidões em meus poros eles cabem em um pôr do sol, batida após batida, códice após códice.

Poemas da poeta e artista visual costariquenha Nidia Marina González Vásquez.

 

VOZES DE CHERNOBYL - [...] A morte é a coisa mais justa do mundo. Ninguém nunca saiu dessa. A terra leva a todos - os gentis, os cruéis, os pecadores. Fora isso, não há justiça na terra. [...] Existe algo mais assustador do que as pessoas? [...] Não tenho medo de Deus. Tenho medo do homem. [...] Venha pegar suas maçãs! Maçãs de Chernobyl!’ Alguém lhe disse para não anunciar isso, ninguém as compraria. ‘Não se preocupe!’ ela diz. ‘Eles compram de qualquer maneira. Alguns precisam deles para a sogra, outros para o chefe. [...] Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa, que na nossa vida o medo tome o lugar do amor. [...] A realidade sempre me atraiu como um ímã, me torturou e hipnotizou, e eu queria capturá-la no papel. Então me apropriei imediatamente desse gênero de vozes e confissões humanas reais, evidências de testemunhas e documentos. É assim que ouço e vejo o mundo – como um coro de vozes individuais e uma colagem de detalhes do quotidiano. Desta forma, todo o meu potencial mental e emocional é plenamente realizado. Desta forma posso ser simultaneamente escritor, repórter, sociólogo, psicólogo e pregador [...] Chernobyl é como a guerra de todas as guerras. Não há onde se esconder. Nem no subsolo, nem debaixo d'água, nem no ar. [...] Mostre-me um romance de fantasia sobre Chernobyl – não existe nenhum! Porque a realidade é mais fantástica. [...] Muitas vezes ficamos em silêncio. Não gritamos e não reclamamos. Somos pacientes, como sempre. Porque ainda não temos as palavras. Temos medo de falar sobre isso. Não sabemos como. Não é uma experiência comum e as questões que levanta não são comuns. O mundo foi dividido em dois: há nós, os Chernobylites, e depois há vocês, os outros. Você percebeu? Ninguém aqui aponta que são russos, bielorrussos ou ucranianos. Todos nós nos chamamos de Chernobylitas. "Somos de Chernobyl." "Eu sou um Chernobylita." Como se este fosse um povo separado. Uma nova nação. [...] O homem convive com a morte, mas não entende o que ela é. [...]. Trechos extraídos da obra Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster (Picador, 2006), da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievitch, Prêmio Nobel de Literatura de 2015 e autora de frases lapidares, tais como: Não há heróis na guerra. Assim que uma pessoa pega uma arma, ela não pode mais ser boa. Ela não vai conseguir. A morte é a coisa mais imparcial do mundo.

 

ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA - [...] A Influência Poética quando envolve dois poetas autênticos, fortes procede sempre por uma desleitura do poeta anterior, um ato de correção criativa que é, na verdade, e necessariamente, uma interpretação distorcida. A história das influências poéticas produtivas, que é a história da tradição central da poesia do Ocidente a partir da Renascença, é uma história da angústia e da caricatura autoprotetora, da distorção, do revisionismo voluntarioso e perverso, sem o que a poesia moderna, como tal, não poderia existir [...] Nenhum poeta moderno é um poeta da unidade, seja qual for sua crença professada. Poetas modernos são necessariamente e miseravelmente dualistas, porque essa miséria, essa pobreza é o ponto de partida de sua arte [...] Pode causar estranheza que opiniões de peso sejam encontradas em obras de poetas, e não de filósofos. A razão é que os poetas escrevem por meio do entusiasmo e da imaginação; existem em nós sementes do conhecimento, assim como há fogo na pedra; essas sementes são extraídas pelos filósofos por um esforço racional, mas os poetas as arrancam a golpes de imaginação, o que lhes confere um brilho redobrado [...] Já está na hora de abandonarmos o projeto fracassado de compreender qualquer poema como uma entidade isolada. Chegou a hora de nos lançarmos à tentativa de aprender a ler todo poema como a interpretação deliberadamente equivocada que um poeta, como poeta, constrói em relação a algum poema precursor, ou à poesia em geral [...] O desvio, ou clinamen entre o poeta forte e seu Progenitor Poético é executado pelo próprio ente do poeta posterior, e a verdadeira história da poesia moderna seria, assim, o registro acurado desses desvios revisionários [...] Só é propriedade do poeta aquilo que for capaz de nomear pela primeira vez [...] Uma vez que a poesia (como o trabalho do sonho) é mesmo regressiva e arcaica, e uma vez que o precursor não será nunca integrado ao superego (o Outro que nos rege), mas sim a uma parcela do id, a desleitura é natural para o efebo. Mesmo o trabalho do sonho é uma mensagem. ou uma tradução, e portanto uma forma de comunicação, mas um poema é uma comunicação deliberadamente distorcida, estropiada. É uma destradução dos precursores. A despeito de todos os seus esforços, um poema será sempre uma díade, e não uma mônada, mas uma díade que se rebela permanentemente contra o terror de uma comunicação unilateral [...] Todo poeta está preso numa relação dialética (transferência, repetição, erro, comunicação) com outro poeta ou outros poetas [...] A crítica aristotélica, ou retórica, ou fenomenológica, ou estruturalista é sempre redutora: o poema é reduzido a idéias, imagens, objetos ou fonemas [...] Todo poema é o desvirtuamento de um poema-pai. Um poema não é a superação de uma angústia, mas a própria angústia [...] Interpretação não existe: só existe a desinterpretação, e toda crítica é uma poesia em prosa [...] Poesia é angústia da influência, é desapropriação, é uma perversão disciplinada. Poesia é desentendimento, mal-compreensão, mésalliance [...] Cada poema é uma evasão não só de outro poema, mas também de si mesmo; o que equivale a dizer que todo poema é uma interpretação desvirtuada do que poderia ter sido [...] Minha tese, aqui, que aliás me desagrada, é a de que em sua askesis purificadora o poeta forte só tem consciência de si mesmo e daquele Outro que deve, afinal, destruir: seu precursor, que a esta altura bem pode ser uma figura imaginária ou composta, mas que continua a ser formado por poemas, poemas reais do passado, que não se deixam esquecer. Porque clinamen e tessera se esforçam para corrigir ou complementar os mortos, kenosis e demonização laboram para reprimir a memória dos mortos, mas a askesis é o embate propriamente dito, uma luta-até-a-morte com os mortos [...]. O artista é um Édipo cego, que não sabia que a esfinge era sua musa. [...] Trechos extraídos da obra A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia (Imago, 1991), do professor e crítico literário estadunidense Harold Bloom (1930-2019), que em outra obra Como e porque ler (Objetiva, 1998), assinala que: [...] Recorro, novamente, a Emerson para definir o quarto princípio da leitura: Para ler bem é preciso ser inventor. O que, para Emerson, seria “leitura criativa” foi por mim chamado de “leitura equivocada”, expressão que levou meus adversários a crer que eu sofresse de dislexia. O fracasso, ou o branco, que tais indivíduos veem quando se deparam com um poema está em seus próprios olhos. Autoconfiança não é dom, mas o Renascimento da mente, o que só ocorre após anos de muita leitura. [...] Já na obra Poesia e repressão: o revisionismo de Blake a Stevens (Imago, 1994), ele expressa que: [...] O que o gnóstico sabe, o que ele conhece, é sua própria subjetividade e nessa autoconsciência procura a liberdade, que chama de “salvação”, o que pragmaticamente parece ser a liberação da angústia de ser influenciado pelo Deus judaico, a Lei bíblica ou a natureza. Os gnósticos estão próximos, por temperamento, tanto dos primitivos mágicos de Vico quanto dos poetas pós-iluministas; sua luta com as palavras que os separavam de sua própria palavra foi essencialmente a mesma de qualquer criador tardio contra seu precursor. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

BALDRAMES DE BAUDELAIRE

Entrou o poema em contato \ com fagulhas (amanhecendo) \ e amianto criminoso. E morreu. \ O poema vai às estrelas \ se o poeta parar de sonhar. \ Com medidas de som \ e aritméticas do verbo. \ As ondas cósmicas desaguam \ no pensamento humano...

Trecho do poema Insubstancial, extraído da obra Baldrames de Baudelaire – poética não recomendada para leitores avulsos ou, mesmo, até convulsos (CriaArt, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo, organização e seleção do professor e poeta Admmauro Gommes. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



domingo, novembro 21, 2021

ALASDAIR GRAY, ELSE LASKER-SCHULER, EDWARD ELGAR &TONY ANTUNES.

 

 

TRÍPTICO DQP – Mameluquices mulatíndias... - Ao som do Concerto para Cello e orquestra em Si menor, Op. 85 (1919 – CBS, 1976), do compositor inglês Edward Elgar (1857-1934), na interpretação da violoncelista Jacqueline du Pre com a Orquestra Sinfônica de Londres, regência de Daniel Barenboim. – Videncruzilhada, tomei a direção da venta, como sempre. Andejo e só dei fé duma hestória: a ameaça nas imediações de uma certa bonitona, a mais bela de todas quanto já tivesse. Hem? Todos os homens, não tinha um só que a visse e não endoidasse de paixão. Mesmo? Disseram chegada das bandas da Paraíba e tinha lá um feitiço que era segredo só dela. Oi? Aos cochichos: ela vira a onça que matou a menina que foi criada pela velha. É? Ninguém escapa. Como assim? Era uma vez uma menina que cresceu e queria ganhar o mundo, mas não tinha nada. Pediu a velha que lhe desse e, a coitada, só tinha um carvão: eu quero. Com a posse, pé na estrada. Depois de muito andar ela encontrou um ferreiro que do carvão precisava e ela deu. Depois pediu de volta, era tarde, gastou-se e não mais havia. O ferreiro então deu um machado e ela ganhou o mundo. Adiante estava um cancão e precisava do machado para bater pau e ela deu pra ele tirar mel. Foi pá e pei, nisso o machado se quebrou e ela queria de volta: só tenho mel. Então, me dê. Picou a mula e, noutra volta, se deparou com a lavadeira com a trouxa no rio comendo feijão. Ao ver-lhe o mel às mãos dela, pediu e ela deu. Acabou-se o que era doce e ela queria de volta: deu-lhe um pão de milho e picou a mula. Lá na curva da rodagem, um velho pediu-lhe esmola e ela deu o pão de milho, logo devorado. E agora? Só tenho esse ferrão de acuar gado. Ora, quero. E na beira dum cercado, um vaqueiro aperreado para juntar a boiada, ele pediu pra ela e, sem cerimônia, deu: cutucou daqui, dali, e o ferrão partiu-se. E agora, quer uma vaca? Quero. Para lá e para cá com sua vaquinha, a onça apareceu e devorou: Onça, eu quero minha novilha de vaca, novilha que o vaqueiro me deu. Vaqueiro quebrou ferrão, o ferrão que o velho me deu. O velho comeu o pão de milho, o milho que a lavadeira me deu. Lavadeira comeu o mel, o mel que o cancão me deu. Cancão quebrou machado, machado que ferreiro me deu. O ferreiro gastou meu carvão, carvão que minha madrinha me deu. A onça nem pestanejou, lambeu os beiços e a menina no bucho, palitando os dentes, ancha. Foi aí que a fera, sem sabe como, virou uma moça bonita que vive por ai zanzando e seduzindo todos aqueles de juízo, só para endoidecê-los... Ouvia eu atento o relato, enquanto alguém desconhecido mencionou o poeta italiano Arturo Graf (1848-1913): A sabedoria e a razão, falam; a ignorância, ladra. Estranhei, desconfiado. Logo outro do meio deles sapecou Goethe: Não há nada mais terrível que a ignorância. Não falto algum injuriado, até quem invocasse Confúcio: A ignorância é a escuridão da mente! Outro mais desabusado cuspiu Pitágoras: Se me perguntar o que é a morte, respondo: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos! Lá estava eu no meio de uma saraivada discordante de gente pia e incrédula, nem sabiam o que diziam, nem nada, só jogavam conversa fora, repetiam o que ouviram desde infância, apenas... Reproduziam do jeito deles, segundo eles... Foi aí que me apareceu o escritor escocês Alasdair Gray (1934-2019) que me puxou do lado: Não quero enfrentar este mundo, vamos voltar ao inferno que estou imaginando... Eu deveria ter mais amor antes de morrer. Eu não tive o suficiente... Depois de me conduzir para uma esquina na saída da localidade, ele me disse em tom confidencial: Trabalhe como se estivesse nos primeiros dias de uma nação melhor. E se despediu me livrando de zunzunzum tão discordante. Aproveitei a deixa, segui meu caminho...


 

O reencontro na ruína... – Imagem: arte do fotógrafo francês Lucien Clergue (1934-2014). – Andanças noitedia e se era ou não onça, na vera, não sei. O que sei de mesmo é que ao depará-la deu-se o reencontro: era a Vênus do Quintal. Lembra? Ora, se. E logo me disse toda cantatriz mexicana María Félix (1914-2002): Minha lenda começou a ganhar forma sem mover um dedo. A imaginação do público fez tudo por mim... E sorriu sedutoramente como se me revelasse seus segredos, abraçando-me para cochichar ao meu ouvido: Quando eu quiser, será pela porta grande. Não entendi a última frase sussurrada, sei apenas que levou por insólitas paisagens que mais pareciam as cenas do The Black Crown (1951) do Luis Saslavsky: era o milagre, disse-me e confessou: havia perdido a memória há muito tempo e só agora tomou ciência da razão disso: havia matado o marido. Ao me reconhecer tomara ciência de tudo. Para ela parecia que eu a havia curado, não sei, fato inexplicável. Logo fez-se em mim a La Doña – María Bonita. E me narrou detalhadamente sua turbulenta vida amorosa, casamentos desfeitos, de como se tornou a María de Todas las Marías e o motivo de todos cantarem para ela Je l'aime à mourir de Cabrel. Nada disso jamais poderia eu saber, há muito tempo ela havia se tornado apenas uma deliciosa lembrança que eu guardara para que a vida valesse a pena. Não sei se estava ali condenado ou absolvido, sabia apenas que estava agora enredado nos braços da Inés Rojas do La fièvre monte à El Pao, de Buñuel. De fato, em mim a febre aumentava mesmo porque a República do Pecado misturava histórias que me puxavam e, depois de tudo, era como se não mais confiássemos um no outro, enquanto fugíamos da ilha do ditador à beira de uma guerra civil, até chegarmos a uma praia deserta para me dizer que ela era a Diana do Safo’63 de Alcoriza e nos refugiamos ali. Sabia lá o que seria de nós ali isolados de tudo e de todos, só sei que ela me contou que lera a emocionante carta de Kierkegaard para Regine e se emocionou o panegírico apaixonado de Charlotte e Adam. Uma lágrima desceu e a enxuguei com o polegar. Fitou-me, chorosa e desabafou: havia detestado a leitura do Geschlecht und Charakter (Losada, 2004), do misógino filósofo austríaco Otto Weininger (1880-1903), repetindo o que ele escrevera: Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensarão seriamente a respeito delas. Nossa! E prosseguiu protestando o fato de como ele se dedicara à entrega total aos imperativos da genialidade, suicidou-se aos 23 anos. Que tragédia! Para ela, a única coisa de relevante que ele deixara, tão somente foi o impacto que exerceu sobre Wittgenstein: Ver o mundo corretamente em silêncio. Quase sorrindo mencionou o silêncio dos versos do The Second Coming de Yeats: Falta convicção aos melhores / enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade. Abraçamo-nos com a paradisíaca paisagem. Com o passar dos dias aquele lugar era o espetáculo dela nua e tive que veemente discordar do filósofo suicida que sentenciara: Uma figura feminina absolutamente nua deixa uma impressão de algo deficiente, uma coisa incompleta que é incompatível com a beleza. Ah, não! Prefiro o feitiço dela, mesmo que seja uma completa desconhecida, monstro disfarçado ou anátema indesvencilhável.

 


Prexelândio absoluto.... - Despertei atordoado com a barulheira de uma multidão. Que será? Ao tomar pé da situação, entre os desencontros de ontem, reencontros de amanhã, reconheci uma voz de antanho: do poeta e radialista Tony Antunes (que também se assina professor Gleidistone) e recitava no palco Prexelândios de uma vida. Aplaudi ao final e foi quando percebi que estava sozinho e entre gente que nunca antes tivera sequer visto. Havia um certo desconforto só quebrado que, depois, ele encostou-se com a surpresa e um exemplar do seu Digitais absolutas: poemas escolhidos, para recitar-me o seu poema As letras: As letras que fazem nascer / minhas palavras / são portadoras / de criação infinita. / Nos calcanhares letrados da mente / surgem idiomas / com asas de fênix / reluzindo luz e conhecimento. / Abrindo os olhos à leitura, podemos então / ser descobridores de mágicas metáforas / em semânticas de vida / de luz e / de amor. Aplaudi com um firme aperto de mão de frater e um abraço caloroso com os versos do seu poema Meus quirodáctilos: ... sei do meu passado / não sei do meu porvir. / Sou viajante do cosmo / nos planetas mentais / do tico e do teco / do tosco e do taco / de tudo e de todos. Foi aí que conversamos animadamente por um bom espaço de tempo, até ela reaparecer e nos despedimos com a promessa de revermos em breve. Ela me levou de volta para o seu aconchego que sequer sabia onde que poderia ser, enquanto dizia-me de um poema O fim do mundo, da poeta alemã Else Lasker-Schuler (1869-1945): Há um lamento no mundo, / Como se não mais houvesse o bom Deus, / E a sombra que cai, cortina de chumbo, / Pesa mausoléus. / Vem, escondamo-nos mais de perto... / A vida jaz nos corações / Como nos féretros. / Ei, beijemo-nos até não mais poder / — Pulsa uma saudade no mundo, / E é disso que temos de morrer. Ao final do poema, estávamos no meio do mundo e eu não sabia onde era nem queria saber. Então, abraçou-me com o fervor de sempre, sem que eu soubesse jamais se onça ou benfeitora, apenas: precisamos viver, enquanto podemos respirar. Até mais ver.

 

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terça-feira, agosto 27, 2019

CONFÚCIO, CAMILLE PAGLIA, JACQUES LIPCHITZ, BAIXIO DAS BESTAS & BIRITOALDO


OS PANTINS & SUMIÇO DO BIRITOALDO – O Biritoaldo não toma mesmo jeito. Não bastou ser escorraçado com um bocado de chifres embelezando o quengo e presenteado gentil e diligentemente pela Munga; de ter sido defenestrado com um chutaço nos glúteos pela Xica Doida, de ficar se arrastando de quatro, todo desconjuntado por um bocado de dia – A mulher tem uma patada atômica ineivada à la Rivelino, meu! -; de ter variado mundo afora numa paixonite descabelada por uma foto desbotada – era da Amy Winehouse antes do sucesso, lascou-se ao saber que ela tinha morrido fazia tempo -; de ter sido barrado depois de uma recaída sentimental das brabas – era pela Rebel Wilson - Ué, esse cabra devia se agarrar com a santa Rita de Cássia, vai gostar de causas impossíveis assim lá no raio que o parta, meu! -; e depois de tanta dor de corno, enfiou o dente com força nas biritas de perder o carnaval e a noção do tempo; e de sair se vingando de formigueiro, ih, danou-se! Parece que agora ele emborcou de vez e ganhou a simpatia da galera: Aê, Birito, já vai, né? Vai pra porra, fresco! E aí Birito? Vai te lascar, viado! Birito, vem cá, conta uma pra gente, vai! Só se rolar uma meiota! Desce aí uma lapada boa pro Birito, meu! Qual é a nova? Ah, não te conto. E arriava peta maior que as aldrabices dos mitômanos. Bote patranha cabeluda, sempre levando a maior. É mesmo, rapaz? Todos se arregalavam na maior das gaitadas. Desce outra carraspana aqui pro Birito, meu! E de gole em engulhos, ele debulhava suas pinoias, cada gazopa maior que a outra, inventando acontecidos de seu próprio heroísmo e macheza. Comigo é assim! Faziam que davam fé só para ver até onde ele ia. Tome corda, dele sair todo pabo, trocando as pernas de tão zarolho dos quequeos, tropicando às topadas, até se arranchar num cantinho duma igreja que fosse; isso, quando não, meio lá e meio cá, arremedar o ofício do pároco - ou pastor, por engano: Estou só me agarrando com Santo Expedito, ora! Não adiantava coroinha que fosse para expulsá-lo, logo voltava. Queria falar com o sacerdote de qualquer jeito. Insistia: Não está ou não pode, saiu, ou sai para lá, pinguço! Até o padre perder a paciência e saber o que ele queria. Diga! Seu padre, como é que se pega doença? Assim: vagabundeando, fazendo coisas erradas, irresponsável todo malabanhado, fedendo, aperreando a família, bebendo feito satanás com sede e atrapalhando a vida dos outros. Calma, cidadão, calma aí, eu só estou preocupado porque soube que o papa estava doente, por isso que vim saber do senhor. Bota esse sujeito para fora, já! E saíam aos empurrões para jogá-lo no meio da rua: Isso é lá coisa que se faça com um sujeito católico que nem eu, seus merdas! Vou virar uma teibei agora! Ninguém sabe como, ele se apossava aprumado de uma garrafa do aperitivo escalafobético, de findar cantarolando no maior berreiro a sua cornice desmedida, aos goles, peidos e soluços. Embeiçava a carraspana de se envultar por dias, só desenvultando dessa vez, por conta dos assopros de um fuleiro tocador dum pife de Hamelim, puxando uma enfieira de ratos que infestaram Alagoinhanduba, feito praga do maior aperreio para a população. Lá foi ele dançando aos tombos, acompanhando o séquito de guabirus para nunca mais dar sinal de vida. Eita! Alguém viu o Birito por aí? É, nunca mais deu as caras. Por onde é que anda aquele estroina cornudo, hem? Rapaz, faz tempo que deu o maior sumiço. Soube que ele foi enfeitiçado pelo pifeiro da ratoeira e se picou. Ah, ele tá roendo a dor de corno dele, deixa para lá. Um dia aparece. Ah, sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A arte só ganha o noticiário hoje quando uma obra é roubada de um museu ou uma pintura de um artista famoso é vendida por um preço absurdamente alto em um leilão. A arte se transformou em investimento para os super-ricos, em nada diferente de diamantes ou imóveis. Essa ostentação e esse excesso distorceram a percepção popular da arte, que toma a aparência de um jogo narcisista e ganancioso dos poderosos para a maior parte das pessoas. [...] A comunidade artística falhou em reconhecer ameaças à sua existência. Por isso escrevi esse livro (Imagens cintilantes), para tentar demonstrar a complexidade e a dimensão espiritual da arte, que não pode ser totalmente emulada por iPhone. [...] O mercado de arte hoje é um espetáculo grotesco de pretensão e ganância. Obras de arte são tratadas como objetos frios de investimento financeiro, exatamente como diamantes, mansões ou carros esportivos. Artistas de destaque do passado e do presente se tornaram marcas, sendo promovidos como empresas comerciais lucrativas. [...].
Trechos extraídos de Como viver juntos – Libreto (Fronteiras do Pensamento, 2015), da escritora, professora e crítica social estadunidense Camille Paglia. Veja mais aqui.

BAIXIO DAS BESTAS
O premiado drama Baixio das Bestas (2006), dirigido por Claudio Assis, aborda sobre a condição da mulher desprotegida numa dramática situação de prostituição ilegal e exploração sexual de menores. Conta a história da jovem Auxiliadora que é explorada por seu avô moralista, que expõe a neta nua por dinheiro em posto de parada de caminhões na região dos canaviais pernambucanos. Na cidade, um estudante de família classe média, se envolve no final de semana com álcool, drogas e orgias sadomasoquistas com as prostitutas de uma cafetina afamada. A história se complica com o cruzamento dos personagens, envolvendo paixões, desejos e intrigas. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Para mim, escultura é divindade. Esta é a única resposta que eu poderia encontrar para mim mesmo. A arte é o modo distintamente humano de lutar contra a morte. Através da arte, o homem alcança a imortalidade e nesta imortalidade encontramos Deus.
A arte do escultor lituano Jacques Lipchitz (1891- 1973). Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE CONFÚCIO
O silêncio é um amigo que nunca trai.
A obra do filósofo chinês, Confúcio (551 a.C. - 479 aC) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, agosto 28, 2018

NABOKOV, AMADO NERVO, CONFÚCIO, MICHAUX, COCO CHANEL, CLAUDIA VILLELA, OLGA RYKOVA & TCHELLO D’BARROS


O QUE APRENDI DA LUA - Imagem: Arte da artista moldava Olga Rykova. - Aprendi primeiro a escuridão: havia temores na noite. Foi só fechar os olhos e todos os fantasmas se dissolveram ali. Assim aprendi a singrar os céus e os astros sem sair de casa e nenhum passo, a saborear da luz antes sequer imaginada, a me convencer da alma animando meu corpo e o renascimento simbólico na âncora da vida. Aprendi a noite em pleno dia de Palmares, a cantar Lunik 9 de Gil pelas ruas: Poetas, seresteiros, namorados, correi, é chegada a hora de escrever e cantar... a reverenciar os gestos, as distâncias, os olhares, a loucura e a solidão dos corpos celestes e todas as coisas do mundo, entre mitos e lendas, como a da bela índia Bororo branca de olhos claros e cabelos dourados como a manhã, não hesitava em seus passeios noturnos. Ela trocava a noite pelo dia como eu tetéu de tanto desabrigo. Amaldiçoada pela índia escura aliada à cascavel, ficou muito triste por não gostarem dela, pois não tinha ninguém disposto a com ela conviver ou conversar. A sua solidão era a minha e ela conseguiu apenas a amizade da coruja que a instruiu a preparar então uma escada de cipós e ajudá-la a amarrar ao céu. Com a escada pronta, ela subiu e subiu e subiu até se exaurir e dormir exausta numa nuvem e no outro dia tornou-se Lua acesa nas trevas, iluminando a minha vida. Em certos períodos, ela se parece carregada de presságios, a boa sorte dos esquimós e a representar a emoção instintiva, a impulsionar transformações de dentro e de fora, para que eu aprenda mais do que sou. Quando é azul, dá-se cheia reverberando no céu astrológico e eu posso seguir como se manhã ensolarada na minha vida. É no perigeu que ela se aproxima da terra e fica maior e mais brilhante, tão perto de mim, a sussurrar coisas que nem sempre entendo e sei tão valiosas. E quando é cheia de sangue, mexe com o passado por incertezas e dúvidas, fazendo-me aprender com a dúvida de sempre pra nunca ter certeza alguma de nada. Com isso mais aprendi a falar Bororo com a pedra e a taquara. E a pedra me anunciava uma vida longa, e a taquara me ensinava a morrer e a voltar. A pedra então me ensinou a não dobrar com o sopro dos ventos e a força das chuvas, enfrentando o calor, as dores e a preocupação, e a taquara me ensinou a ressurreição nos filhos com a raiz germinando a nascer, crescer, até morrer ouvindo o canto dos pássaros. Aprendi, enfim, a mim mesmo com o inexato e o improvável de tudo, as palavras, pensamentos e ações, e a ir até o começo dos tempos com a música das esferas, vida após vida, todos os dias, o propósito e a razão, a emoção e os mistérios, meios e fins, a transcender as dependências na armadilha da ilusão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música cantora e instrumentista Claudia Villela: Jangada, Asa verde, Deep sea angel blues & Fuá & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A humildade é a única base sólida de todas as virtudes. A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda. Ser ofendido não tem importância nenhuma, a não ser que nos continuemos a lembrar disso. [...]. Pensamento do filósofo chinês, Confúcio (551 a.C. - 479 a.C). Veja mais aqui e aqui.

A NOITE SE MOVE – [...] Quem não aceita este mundo, nele não constrói morada. Se tem frio, e sem ter frio. Tem calor, sem calor. Se derruba bétulas, é como se nada derrubasse; mas as bétulas estão por aí, por terra, e ele recebe o dinheiro combinado, ou, ao contrário, só recebe pancadas. Pancadas como uma dádiva, sem sentido, e desaparece sem se impressionar. [...]. Trecho extraído da obra Moriturus e outros textos (Língua Morta. 2018), do escritor e pintor belga Henri Michaux (1899- 1984). Veja mais aqui, aquiaqui.

LOUJINE – [...] Para Loujine, soa a hora inevitável em que o universo bruscamente se afoga, como se tivessem desligado o interruptor, como se, em meio às trevas, nada mais brilhasse senão algo totalmente inédito, uma ilhota luminosa, sobre a qual doravante toda sua resistência devesse se concentrar [...], Trecho extraído da obra A defesa Lujin ou a precisão do texto (LPM, 1986), do escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977). Veja mais aqui.

ALQUIMIA - Pra te ver, acredito / que a alquimia da morte é requisito, / que me transmude em alma, e delirante / de amor e de ansiedade, cada instante / que chega, e o requeiro / dizendo: “Ah! fosses tu o derradeiro!” / É tão desmesurado, tão risonho, / tão profundo o futuro que suponho / por todos os caminhos estelares, / e através de um em um dos avatares, / sempre contigo, amiga mais sincera, / que por poder morrer, quanto não dera! Poema do poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919), Veja mais aqui.

A ARTE DE COCO CHANEL
A verdadeira generosidade é aceitar a ingratidão.
A natureza nos dá o rosto dos vinte anos; a vida modela aos trinta anos; mas aos cinquenta anos, temos o que merecemos.
Se você nasceu sem asas, não faça nada para impedi-las de crescer.
Nossas casas são nossas prisões; sonhamos reencontrar a liberdade na maneira de enfeitá-las.
Uma mulher só precisa de apenas duas coisas: um vestido preto e um homem que a ame.
Trechos e imagens extraídos das obras A era Chanel (Cosac Naify, 2007) de Edmonde Charles-Roux e Chanel, seu estilo, sua vida (Mandarin, 1999), de Janet Wallach, sobre a estilista francesa Coco Chanel (Gabrielle Bonheur Chanel – 1883-1971). Veja mais aqui.

AGENDA
Intemporal, performance do artista multimídia Tchello d’Barros & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da artista moldava Olga Rykova.
Veja mais aqui.
&
Zangão na colmeia, João do Rio, Inês Bogéa, Vilmar Antonio Carvalho, Imprensa & Comunicação, Música Brasileira & Biblioteca Fenelon Barreto aqui.


quarta-feira, novembro 08, 2017

CONFÚCIO, ARNALDO TOBIAS, IGNEZ DE ALMEIDA PESSOA, JIM PETERS, MULHERES NO MUNDO & BELÉM DE MARIA

OS QUINZE ANOS DE CLARINHA – Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.- Dois dias antes de debutar, Clarinha gritou por mim. Estacionei o veículo e ela veio às pressas com aquele seu pujante jeito de ser: blusinha de alças segurando os seios quase pulando fora e à mostra num decote acentuado, sainha curtinha cobrindo o estritamente necessário e deixando à mostra um par de coxas para lá de estonteantes e volumosas, uma juventude num rosto de riso nos olhos vivos e lindos de morrer. Depois de amanhã é meu aniversário, não se esqueça! Jamais poderia esquecer, nem que quisesse. Ao chegar à emissora, corri logo pra agenda e com letras garrafais, no dia marcado, inscrevi: aniversário de Clarinha. Envolvi-me nos afazeres e só, no dia seguinte, já de noite, lá vinha Clarinha tão bela quanto nunca, sempre com suas blusinhas de alças decotadas, sainhas minúsculas e recheio apetitoso esborrando das vestes. Para, para! Sim? Ah, me leva pra algum lugar, vai! Disse-me apressada já abrindo a porta e sentando ao meu lado no interior do automóvel. A surpresa de sua invasão não me impediu de uma olhadela na sainha dobrada ao quadril com o movimento das coxas, sem calcinha, e o decote dos seios fartos sem sutiã à mostra nos bicos dos seios empinados estufando na blusinha. Acelerei e engatei primeira pra segunda, segui a esmo rua afora. Seu aniversário é amanhã, né, Clarinha? É. A tácita resposta me deu a impressão de que não estava bem. Algum problema? Não, quero que me leve daqui pra algum lugar, só nós dois. Um restaurante? Não. Um barzinho? Não. Pra onde? Um motel! Não posso, você é menor de idade. Dê seu jeito, quero ir prum motel, me leve. Não posso. Tem de poder, eu quero. Aproveitei a aproximação de um posto de gasolina e estacionei: Não posso levá-la prum motel, você é menor de idade e seus pais são meus amigos. Tem que me levar, eu quero. Não posso. Eu quero o meu presente. Ah, seu presente eu ainda vou comprar amanhã. Quero hoje e agora. Não posso, o comércio já está fechado a esta hora da noite. Não precisa comprar, basta me dar. O que você quer? Quero um filho seu. Não posso, Clarinha, sou casado, você tem quatorze anos, é menor de idade, e seus pais são meus amigos. Eu quero meu presente agora: um filho seu! Não, Clarinha. Você não sente atração por mim? Não. Você não acha que eu mereço uma peiada e embuchar de você? Clarinha, eu tenho trinta e cinco anos, sou casado, tenho filhos. Eu quero um filho seu! Não é assim, Clarinha, sou casado, tenho responsabilidades, seus pais não me perdoarão. Ah, eu quero um filho seu, sou apaixonada por você desde minha infância, sonho com você, tenho sonhos e gozos com você todas as noites, me contorço na cama com você e me toco e gozo diversas vezes sonhando ser possuída por você, me dê esse presente, vá! Não, Clarinha, não é assim. De repente ela me agarrou, lágrimas nas faces e me beijou a boca com seu hálito de rosa dos campos, seu corpo de sedução das mil e uma noites de prazer, seus seios fartos enchendo as minhas mãos, seu sexo túrgido e nu todo se esfregando ao meu que foi retirado à força por suas mãos ágeis enveredando braguilha adentro e enrijecido pelo toque de seus dedos hábeis, apontado pra direção dos seus múltiplos prazeres e eu sufocado por seus beijos em meus lábios, faces, tronco aberto da camisa, até alcançar meu sexo sobejado pela saliva abundante de sua boca gulosa e quente, delirando ávida em me abocanhar até me provocar ereção enlouquecedora, não, Clarinha, não, mais ela felava e me arriava as calças para esfregar sua vagina em minhas pernas, ronronando louca e me apertando forte e me engolindo trêmula e traquina para que eu estertorasse o sacrifício de segurar o gozo enquanto ela atiçava labareda incendiárias com sua língua inquieta na boca faminta, não Clarinha, e me sugou e bebeu todo meu gozo como quem tivesse roubado o manjar escondido. Não, Clarinha. Não, nada, agora tenho você, se não me quer dar um filho, darei pro primeiro que cruzar e você vai ver, vou me vingar de você com o primeiro que me aparecer. Abriu a porta do carro e saiu correndo sem que eu pudesse alcançá-la. Tomou um táxi e sumiu. Segui adiante, fiz o retorno na via e fui direto em direção pra casa dela. Vi quando o táxi estacionou em frente a sua residência. Ela desceu e desapareceu lá pra adentro. Eu estava desconcertado, fui pra casa com ela perseguindo meus pensamentos. Nem consegui ir pra cama, deitei no sofá e logo dormi sonhando com as peripécias de Clarinha. O dia amanheceu e acordei com o telefone, atendi: Hoje é meu aniversário, não falte! Eu me levantei pro ritual de todas as manhãs e fui trabalhar. A cada hora o telefone: Hoje é meu aniversário, não esqueça! O dia pela tarde, noite entrante e o telefone insistente. Fui. Lá chegando, poucas pessoas, festa simples, os pais me recepcionaram alegremente, dei graças ao rever o poeta há anos que não tinha notícia, foi a minha salvação. Logo ela apareceu linda como sempre, deu-me um chauzinho de escárnio e puxou o poeta a um canto, conversaram e muito. Fui surpreendido pelos pais delas, conversamos, mais um pouco anunciei que ia embora. Não me deixaram, havia uma surpresa no ar, aguardei. Foi quando Clarinha anunciou o seu presente: o seu casamento com o poeta. Como? Ele vinte e cinco anos mais velho que ela, como pode? Os pais tão surpresos como eu, nada entendiam. O poeta no meio da saia justa deixou entender que se tratava de um arroubo dela, mas que era do seu agrado e desejo. Formalmente pediu a mão dela em casamento aos pais e me convidou para padrinho. No meio do mal-estar, depois de muito se olharem, não houve outra alternativa: todos aceitaram, não pude recusar. Seis meses depois reencontro Clarinha grávida de mãos dadas com o marido e um convite para que eu fosse o padrinho do bebê. Não deu tempo nem responder, Clarinha abraçou-me sussurrando: Você não me quis, mas esse filho é seu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais s com o compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se cultiva até o máximo os princípios de sua natureza e assim se procura exercitá-los segundo o princípio de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam. [...]. Trecho do Elogio da vida na dourada mediania: a doutina do meio, extraída da obra O pensamento vivo de Confúcio (Martins, 1967), reunindo os quatro livros clássicos e os cinco livros sagrados do filósofo chinês Confúcio (551 a.C. - 479 a.C). Veja mais aqui e aqui.

ESCRAVIDÃO & ABOLIÇÃO - Grande é o coração, pura e sublime é a alma de um povo humanitário, que se revolta indignado contra a praga maldita chamada escravidão. Ontem, esta palavra horrenda, abominável e ignominiosa, esta degradante e tremenda maldição se ostenta cheia de caprichos sobre as cabeças uns míseros infelizes, que viviam espalhados em todo o Brasul. Hoje, porém, a providencia divina tem protegido a causa destes desgraçados. [...] Tudo caminha e a liberdade não pode estacionar. Por ventura não são os escravos os nossos irmãos, e por que haveremos de consolar as suas aflições, quebrando os ferros tremendos em que se acham agrilhoados? Ah! É duro viverem estes míseros escravos, sem luz, sem amo, sem proteção, submergidos nas trevas profundíssimas da ignorância, chorando amargamente a sua desgraça dos seus filhinhos. Avante democratas e abolicionista. Avante republicanos corajosos. A estrada do processo é muito lnga, caminhai e será completo o vosso triunfo, uma vez que pelejais em prol de uma causa santa, de uma missão honrosa e sublime, que é arrancar das mãos impuras e sanguinolentas dos escravocratas o punhal e o chicote com que retalham as carnes de seus próprios irmãos. Texto da abolicionista Ignez de Almeida Pessoa (Penumbras, 1892), extraído da obra Suaves amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste (UFPE, 1999), organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Ivia Alves, Nancy Rita Fontes, Luciana Salgues, Iris Vasconcelos e Silvana Vieira de Souza. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BELÉM DE MARIA – O território do município era encravado ao de Bonito e teve sua divisão administrativa ocorrida no ano de 1933, quando o distrito criado por Lei municipal de 18 de setembro de 1930, passando a ser distrito de Catende, desmembrado de Palmares e Bonito. Belem de Maria foi constituído em município autônomo pela Lei estadual 3340, de 31 de dezembro de 1958, com território desmembrado dos municípios de Catende e São Joaquim do Monte, sendo instalado em 03 de maio de 1962. Administrativamente é formado pelos distritos sede e Batateira, anualmente no dia 31 de zembro comemora a sua emancipação política, em conformidade com a Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

MULHERES NO MUNDO - [...] o sujeito ideológico elabora um discurso que evidencia os papeis sociais desempenhos pelo homem e pela mulher, delimitando os valores e os comportamentos de cada um, os quais refletem valores e comportamentos nutridos em nossa sociedade. Apesar de muitas concepções de mundo terem sido modificadas e hoje nos deparamos com novos conceitos veiculados pelos meios de comunicação de um modo geral, ainda é prodominante a ideologia machista que define a mulher como um “ser doméstico”, que vive em prol da casa, dos filhos e do marido, isentando-se de uma vida cultural que é exterior ao domicilio familiar, porque todas as personagens femininas e adultas [...] são donas de casa ou são empregadas domésticas (com uma única exceção – a professora), e se apresentam, na grande maioria das histórias, usando avental, lenço e instrumentos de trabalho; em contrapartida, raramente aparecem se divertindo e nunca exercem qualquer atividade esportiva, cultural ou intelectual. [...]. Trecho do texto No discurso da história em quadrinho: uma revelação do preconceito no estereotipo da figura feminina, de Rosemary Evaristo Barbosa, extraído da obra Mulheres no mundo: etnia, marginalidade e diáspora (Ideia/Universitária, 2005), organizado por Nadilza Martins de Barros Moreira e Liane Schneider. Veja mais aqui.

CLARINHA DE ARNALDO TOBIAS
CAPÍTULO 1 – Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu quintal eu assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos. A anágua azul e a calcinha de rendas e flores bordando setembro e a primavera. Do seu quintal ela olhando para mim com a indiferença de ontem. A menina crescendo não sabia que eu escrevia poemas para ela e os guardava dentro de livros com pétalas de rosas vermelhas. CAPÍTULO 2 – A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espço do corpo. A blusina curta mostrando o umbigo vertical com a covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A sainha ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha já tinha abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo pretensamente o vértice dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha que me invadiu o peito. Fui convidado de palavra para o seu aniversário de quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que me subiu um calor no rosto e ela deve ter notado a minha emoção tímida. Prometi ir à festa e fu comprar uma camisa de cetim e um sapato social. Na festa (sem champanhe e de poucas pessoas). Clarinha confessou sua paixão por mim desde os nove anos. A paixão cegava os sonhos e desejos perturbáveis. O pecado consentido. Disse: Mas Clarinha, eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco mais da sua idade. Disse-lhe: Para mim você é jovem e tão latente como o sol nascente. Respondeu-me com metáfora. CAPÍTULO 3 – Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinalda) a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos. Clarinha não acompanhou minha idade avançando. Depois de quinze anos, ela ficou a balzaquiana mais bela do mundo e eu sessentão acometido de fortes dores na uretra. Tive de um dia submeter-me a uma inadiável cirurgia (que me impediu de fazer um filho em Clarinha) na impotencialidade sexual. Então o urologista arrancou-me a castanha da próstata deixando lá no fundo um carncer me matando de sofrimentos. Clarinha escusando-se dos meus tratos e asseios. Esquencendo o meu remédio na farmácia. Hoje a acompanho com resignação e tristeza vendo-a ter filhos com o jardinero. Pago muito bem ao rapaz para ele trazer rosas vermelhas e fazer Clarinha feliz. Satisfeita.
Conto do escritor Arnaldo Tobias (1939-2002), extraído da Panorâmica do conto em Pernambuco (Escrituras, 2007), organziado por Antonio Campos e Cyl Gallindo. (Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...