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domingo, março 08, 2026

LAILA LALAMI, DARIJA ŽILIĆ, KATE BORNSTEIN & ARNAUD RODRIGUES

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Oíd su nombre olímpico resuena por el globo, \ Lo dice en Carabobo; triunfante su clarín; \ Y con marcial estrépito, también su nombre escucho, \ Glorioso en Ayacucho, magnífico en Junín. \ Los cánticos de gloria para él no tienen fin. \ ¡Bolívar! Dice El Ávila…

Trecho do Himno al Libertador Simón Bolívar (musical para solista, coro y orquesta, 1883), da pianista, cantoras, compositora e maestrina venezuelana Teresa Carreño (María Teresa Carreño García de Sena - 1853-1917), com letra do poeta venezuelano Felipe Tejera (1846-1924), com regência de Gonzalo Castellanos & Orquesta Sinfónica Venezuela con la Coral Filarmónica. Veja mais aquí.

 

A desconhecida da oculta rua anônima... - Naquela tarde Manuela sentiu a leveza de sua alma libertária. Era março e aniversariava revivendo o falatório festivo de seu batizado: um encômio à heroína espanhola Malasaña Oñoro. Salves e vivas. Seguia espontânea e extrovertida Monika, com suas dezessete primaveras repletas de beleza e simpatia, enquanto esperava quase Emma pelo emergente príncipe encantado que nunca dera as caras para sua redenção. As lembranças rondavam agora distantes suas passadas no crepúsculo: o cheiro de pão quentinho trazido pelo genitor padeiro e as orações maternas da costureira por mais um dia reunindo trapos. Queria era fugir da rotina e dos assédios, ignorando que na sua fuga caíra coagida na arapuca daquela Maria Kutschera, encurralada na casa dos Von Trapp, Santa Zita que a salvasse do martírio de La mujer que nunca hizo nada. Escapulia serelepe entre os jardins, sonhava Maria Teodora: o mundo todo era seu à beira dos canteiros, alheia a tudo, o universo espargia no seu coração. Era uma tarde como outra qualquer e nem se dera conta do convulsivo confronto entre prós e contras com seus tambores beligerantes. Os seus olhos no rio espelhavam o céu e o inexplicável outro lado de lá, todos os futuros na espiral dourada, ornando memórias e fantasias aos ventos: era só uma menina que adolescia no afã de amar pela primeira vez, sem a astúcia da Charlotte. Nem ouviu o disparo: abriu-lhe a fronte e uniu suas sobrancelhas, pálpebras cerradas na vertigem de tombar ao meio fio da praça. Logo um cortejo se fizera em sua alada projeção, reunindo umas às outras, desde a Juanita de Ampato, a jovem vítima celta dos Durotriges de Dorset, as dos Odinists de Delphi, as 3 mulheres de Arroio dos Ratos, as esquartejadas da casa de Florencio Varela, as de São Cristóvão de Salvador, as enterradas no jardim de Buenos Aires, as duas da casa de Vicência, as jovens de Feira de Santana, as assassinadas a tiros no Rio, a dos feminicídios em São Paulo, a procissão das que sucumbiram ao juvenicídio da necropolítica. Sentiu-se assim um vago sobrenome a mais na pele de Eloá e o retrato perdido pelo sangue que escorria pelas homicidas mãos paternas. Muito menos saberia tempos depois ali mesmo, pelas mãos enamoradas do poetescultor, a sua imagem escultural como uma respigadora Afrodite Kalipígia - La Spigolatrice di Sapri: a desconhecida duma rua anônima. Até mais ver.

 

Carolina Maria de Jesus: Quem inventou a fome são os que comem... Quando o homem decidir reformar a sua consciência, o mundo tomará outro roteiro... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Louise Gluck: A alma é silenciosa. Se ela fala, fala em sonhos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Rhonda Byrne: Plante o máximo de bons pensamentos que puder em cada dia... Seus pensamentos causam seus sentimentos... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

RESPIRAÇÃO - Respire e deixe que as sombras da geada e dos tubérculos se intensifiquem. \ Quebre e abra seus jardins interiores \ E o coração, que acumulara amargura por anos, \ Deixe descansar sob o toque suave \ da mão silenciosa de alguém.

O FUTURO É PROMISSOR! - Quero dizer, de hoje para amanhã. \ Um bilhete de compra dizia: atum, \ O protetor de tela contém uma imagem. \ de uma flor na água. \ O futuro é promissor, disse. \ a famosa atleta, e então ela acrescentou— \ Viva o presente e pense apenas no agora. \ depois.

Poema da poeta, crítica literária, tradutora, ativista e editora croata Darija Žilić, autora de obras como Breasts and Strawberries (2005), To Write in Milk (2008), Muse outside Ghetto: Essays on Contemporary Literature (Prêmio Julije Benešić, 2012), Nomads and hybrids: Essays on Contemporary Literature and Film (2010), Parallel Gardens: Interviews with Theorists, Writers and Activists (2010), Tropics: Critics about Contemporary Poetry (2011), Dance, Modesty, Dance (2010), Omara (2012) e Tropics 2: critics about poetry, prose and society (2014).

 

HOTEL DOS SONHOS – [...] Ser mulher era observar a si mesma não apenas com os próprios olhos, mas também com os olhos dos outros. [...] Historiadores observam o mundo, cientistas tentam explicá-lo, mas são os engenheiros que o transformam. Passo a passo, substituíram casamenteiros de aldeia por aplicativos de namoro, arautos por redes sociais e médicos locais por ferramentas de diagnóstico. Chegou a hora de sábios, místicos e profetas cederem lugar à inteligência artificial. Assim, a história segue em frente. [...] Em todo caso, o crime é relativo — seus limites se alteram a serviço das pessoas no poder. [...] Em determinadas circunstâncias, qualquer coisa pode se transformar em algo sinistro. [...] A vida foi feita para ser vivida, para ser aproveitada ao máximo, para que toda a sua beleza e alegria sejam extraídas; ela não foi feita para ser contida e inventariada em nome da segurança. [...]. Trechos da obra The Dream Hotel: A Read with Jenna Pick (Pantheon, 2026), da escritora marroquina Laila Lalami, autora de obras como Die Anderen (2021), La Florida (2020), Conditional Citizens: On Belonging in America (2020), The Other Americans (2019) e The Moor's Account (2014).

 

A PRÓXIMA GERAÇÃO FORA DA LEI DE GÊNERO - [...] É fácil ficcionalizar uma questão quando você não está ciente das muitas maneiras pelas quais você é privilegiado por ela. [...] A primeira pergunta que costumamos fazer aos novos pais é: “É menino ou menina?”. Há uma ótima resposta para essa pergunta que circula por aí: “Não sabemos; ainda não nos disse”. Pessoalmente, acho que nenhuma pergunta que contenha “ou um ou outro” merece uma resposta séria, e isso inclui a questão do sexo do bebê. [...] Nunca transe com alguém com quem você não gostaria de transar. [...] Em vez de dizer que todo gênero é isso ou todo gênero é aquilo, vamos reconhecer que a palavra gênero carrega consigo inúmeros significados. É uma amálgama de corpos, identidades e experiências de vida, impulsos subconscientes, sensações e comportamentos, alguns dos quais se desenvolvem organicamente e outros são moldados pela linguagem e pela cultura. Em vez de dizer que gênero é uma única coisa, vamos começar a descrevê-lo como uma experiência holística. [...]. Trechos da obra Gender Outlaws: The Next Generation (Pub Group West, 2010), da escritora, atriz e ativista estadunidense Kate Bornstein, que na obra Hello Cruel World: 101 Alternatives to Suicide for Teens, Freaks & Other Outlaws (Seven Stories Press, 2006), expressou que: […] Tenho a ideia de que, sempre que descobrimos que os nomes que nos dão nos impedem de sermos livres, precisamos criar novos nomes para nós mesmos, e que os nomes que nos damos não devem mais refletir o medo de sermos rotulados como forasteiros, não devem mais nos prender a um sistema que preferiria nos ver mortos. [...] Vamos parar de "tolerar" ou "aceitar" a diferença, como se fôssemos muito melhores por não sermos diferentes. Em vez disso, vamos celebrar a diferença, porque neste mundo é preciso muita coragem para ser diferente e agir de forma diferente. [...] E lembre-se de que a pessoa que torna a vida digna de ser vivida hoje não será a mesma pessoa que tornará a vida digna de ser vivida daqui a um ano. Identidades não são feitas para serem permanentes. São como carros: nos levam de um lugar para outro. Trabalhamos, viajamos e buscamos aventuras com eles até que quebrem de vez. Nesse ponto, viver bem significa encontrar um novo modelo que se adapte melhor a nós em um novo momento. [...]. Ela também é autora de A Queer and Pleasant Danger: The True Story of a Nice Jewish Boy Who Joins the Church of Scientology and Leaves Twelve Years Later to Become the Lovely Lady She is Today (2006). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ARNAUD RODRIGUES

Em cima daquele morro \ Passa boi, passa boiada \ Passa boiada \ Tem movimento paca! \ Em cima daquele morro \ Passa boi, passa boiada \ Passa boiada \ Tem movimento paca! \ Tem movimento paca! \ Paca, tatu, cotia, não \ Não tem na serra não \ Ah, porque nêgo mata! \ Joguei uma pedra nágua \ De pesada, foi ao fundo \ E foi ao fundo \ E ninguém disse nada! \ Tubarão, peixe, piaba \ Tubarão, peixe, piaba \ Não respondem não \ Ah, se não, nêgo mata! \ Batatinha, quando nasce \ Esparrama pelo chão \ Esparrama não! \ Ah, porque nêgo cata! \ E passarada passa o arado \ E nada vem do chão \ Ah, porque nêgo rapa! \ Mata jacu, jaó \ Paca, tatu, maracajá \ No jacá de cipó \ E taca o tiro, e taca a faca \ A faca fere a fera! \ Onde a inteligência impera \ É que se dá coisa pior \ E morre a fauna e não se ouve \ O sabiá cantando! \ E morre a flora e não se vê \ A flor desabrochando! \ E não se escuta mais o ronco \ Daquela cascata! \ É o fim da vida, é o fim da água \ Nêgo tá matando a mata!

Letra da música Em Cima Daquele Morro, do álbum O som do Paulinho (1976), do ator, cantor, compositor, roteirista, produtor e humorista Arnaud Rodrigues (Antônio Arnaud Rodrigues – 1942-2010), que estreou na extinta TV Tupi, foi parceiro de Chico Anysio, do qual foi parceiro do grupo musical Bahiano & Os Novos Caetanos, atuando como Paulinho Cabeça de Profeta, creditado como um dos precursores do rap brasileiro. No cinema ele atuou nos filmes O Doce Esporte do Sexo (1971), Uma Nega Chamada Tereza (1973), Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984) e A Filha dos Trapalhões (1984). Veja mais aqui & aqui.

&

1817 – A REVOLUÇÃO ESQUECIDA

O documentário 1817 – A revolução esquecida (2017), dirigido por Ricardo Favilla & Tizuka Yamasaki, conta a história pernambucana de março de 1817, do levante civil-militar, independentista e republicano da história brasileira, envolvendo a paixão de Domingos José Martins e Maria Teodora, que viviam um amor proibido e se casam. O filme é inspirado na obra A noiva da revolução: o romance da República de 1817 (1977 – Comunigraf, 2006), do escritor e jornalista Paulo Santos de Oliveira. Veja mais aqui & aqui.

 

Paulo Diniz aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Isa Pontual aqui.

Tiago Amorim (Sebastião Wilson Ferreira de Amorim) aqui & aqui.

Kamille Carvalho aqui.

Clóvis Pereira aqui & aqui.

Lúcia dos Prazeres aqui.

Gilvan Lemos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Layza Pereira aqui.

Cícero Dias aqui, aqui, aqui & aqui.

Terezinha do Acordeon aqui.

 &

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja o vídeo do show aqui & mais aqui & aqui.



 


domingo, novembro 21, 2021

ALASDAIR GRAY, ELSE LASKER-SCHULER, EDWARD ELGAR &TONY ANTUNES.

 

 

TRÍPTICO DQP – Mameluquices mulatíndias... - Ao som do Concerto para Cello e orquestra em Si menor, Op. 85 (1919 – CBS, 1976), do compositor inglês Edward Elgar (1857-1934), na interpretação da violoncelista Jacqueline du Pre com a Orquestra Sinfônica de Londres, regência de Daniel Barenboim. – Videncruzilhada, tomei a direção da venta, como sempre. Andejo e só dei fé duma hestória: a ameaça nas imediações de uma certa bonitona, a mais bela de todas quanto já tivesse. Hem? Todos os homens, não tinha um só que a visse e não endoidasse de paixão. Mesmo? Disseram chegada das bandas da Paraíba e tinha lá um feitiço que era segredo só dela. Oi? Aos cochichos: ela vira a onça que matou a menina que foi criada pela velha. É? Ninguém escapa. Como assim? Era uma vez uma menina que cresceu e queria ganhar o mundo, mas não tinha nada. Pediu a velha que lhe desse e, a coitada, só tinha um carvão: eu quero. Com a posse, pé na estrada. Depois de muito andar ela encontrou um ferreiro que do carvão precisava e ela deu. Depois pediu de volta, era tarde, gastou-se e não mais havia. O ferreiro então deu um machado e ela ganhou o mundo. Adiante estava um cancão e precisava do machado para bater pau e ela deu pra ele tirar mel. Foi pá e pei, nisso o machado se quebrou e ela queria de volta: só tenho mel. Então, me dê. Picou a mula e, noutra volta, se deparou com a lavadeira com a trouxa no rio comendo feijão. Ao ver-lhe o mel às mãos dela, pediu e ela deu. Acabou-se o que era doce e ela queria de volta: deu-lhe um pão de milho e picou a mula. Lá na curva da rodagem, um velho pediu-lhe esmola e ela deu o pão de milho, logo devorado. E agora? Só tenho esse ferrão de acuar gado. Ora, quero. E na beira dum cercado, um vaqueiro aperreado para juntar a boiada, ele pediu pra ela e, sem cerimônia, deu: cutucou daqui, dali, e o ferrão partiu-se. E agora, quer uma vaca? Quero. Para lá e para cá com sua vaquinha, a onça apareceu e devorou: Onça, eu quero minha novilha de vaca, novilha que o vaqueiro me deu. Vaqueiro quebrou ferrão, o ferrão que o velho me deu. O velho comeu o pão de milho, o milho que a lavadeira me deu. Lavadeira comeu o mel, o mel que o cancão me deu. Cancão quebrou machado, machado que ferreiro me deu. O ferreiro gastou meu carvão, carvão que minha madrinha me deu. A onça nem pestanejou, lambeu os beiços e a menina no bucho, palitando os dentes, ancha. Foi aí que a fera, sem sabe como, virou uma moça bonita que vive por ai zanzando e seduzindo todos aqueles de juízo, só para endoidecê-los... Ouvia eu atento o relato, enquanto alguém desconhecido mencionou o poeta italiano Arturo Graf (1848-1913): A sabedoria e a razão, falam; a ignorância, ladra. Estranhei, desconfiado. Logo outro do meio deles sapecou Goethe: Não há nada mais terrível que a ignorância. Não falto algum injuriado, até quem invocasse Confúcio: A ignorância é a escuridão da mente! Outro mais desabusado cuspiu Pitágoras: Se me perguntar o que é a morte, respondo: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos! Lá estava eu no meio de uma saraivada discordante de gente pia e incrédula, nem sabiam o que diziam, nem nada, só jogavam conversa fora, repetiam o que ouviram desde infância, apenas... Reproduziam do jeito deles, segundo eles... Foi aí que me apareceu o escritor escocês Alasdair Gray (1934-2019) que me puxou do lado: Não quero enfrentar este mundo, vamos voltar ao inferno que estou imaginando... Eu deveria ter mais amor antes de morrer. Eu não tive o suficiente... Depois de me conduzir para uma esquina na saída da localidade, ele me disse em tom confidencial: Trabalhe como se estivesse nos primeiros dias de uma nação melhor. E se despediu me livrando de zunzunzum tão discordante. Aproveitei a deixa, segui meu caminho...


 

O reencontro na ruína... – Imagem: arte do fotógrafo francês Lucien Clergue (1934-2014). – Andanças noitedia e se era ou não onça, na vera, não sei. O que sei de mesmo é que ao depará-la deu-se o reencontro: era a Vênus do Quintal. Lembra? Ora, se. E logo me disse toda cantatriz mexicana María Félix (1914-2002): Minha lenda começou a ganhar forma sem mover um dedo. A imaginação do público fez tudo por mim... E sorriu sedutoramente como se me revelasse seus segredos, abraçando-me para cochichar ao meu ouvido: Quando eu quiser, será pela porta grande. Não entendi a última frase sussurrada, sei apenas que levou por insólitas paisagens que mais pareciam as cenas do The Black Crown (1951) do Luis Saslavsky: era o milagre, disse-me e confessou: havia perdido a memória há muito tempo e só agora tomou ciência da razão disso: havia matado o marido. Ao me reconhecer tomara ciência de tudo. Para ela parecia que eu a havia curado, não sei, fato inexplicável. Logo fez-se em mim a La Doña – María Bonita. E me narrou detalhadamente sua turbulenta vida amorosa, casamentos desfeitos, de como se tornou a María de Todas las Marías e o motivo de todos cantarem para ela Je l'aime à mourir de Cabrel. Nada disso jamais poderia eu saber, há muito tempo ela havia se tornado apenas uma deliciosa lembrança que eu guardara para que a vida valesse a pena. Não sei se estava ali condenado ou absolvido, sabia apenas que estava agora enredado nos braços da Inés Rojas do La fièvre monte à El Pao, de Buñuel. De fato, em mim a febre aumentava mesmo porque a República do Pecado misturava histórias que me puxavam e, depois de tudo, era como se não mais confiássemos um no outro, enquanto fugíamos da ilha do ditador à beira de uma guerra civil, até chegarmos a uma praia deserta para me dizer que ela era a Diana do Safo’63 de Alcoriza e nos refugiamos ali. Sabia lá o que seria de nós ali isolados de tudo e de todos, só sei que ela me contou que lera a emocionante carta de Kierkegaard para Regine e se emocionou o panegírico apaixonado de Charlotte e Adam. Uma lágrima desceu e a enxuguei com o polegar. Fitou-me, chorosa e desabafou: havia detestado a leitura do Geschlecht und Charakter (‎Losada, 2004), do misógino filósofo austríaco Otto Weininger (1880-1903), repetindo o que ele escrevera: Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensarão seriamente a respeito delas. Nossa! E prosseguiu protestando o fato de como ele se dedicara à entrega total aos imperativos da genialidade, suicidou-se aos 23 anos. Que tragédia! Para ela, a única coisa de relevante que ele deixara, tão somente foi o impacto que exerceu sobre Wittgenstein: Ver o mundo corretamente em silêncio. Quase sorrindo mencionou o silêncio dos versos do The Second Coming de Yeats: Falta convicção aos melhores / enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade. Abraçamo-nos com a paradisíaca paisagem. Com o passar dos dias aquele lugar era o espetáculo dela nua e tive que veemente discordar do filósofo suicida que sentenciara: Uma figura feminina absolutamente nua deixa uma impressão de algo deficiente, uma coisa incompleta que é incompatível com a beleza. Ah, não! Prefiro o feitiço dela, mesmo que seja uma completa desconhecida, monstro disfarçado ou anátema indesvencilhável.

 


Prexelândio absoluto.... - Despertei atordoado com a barulheira de uma multidão. Que será? Ao tomar pé da situação, entre os desencontros de ontem, reencontros de amanhã, reconheci uma voz de antanho: do poeta e radialista Tony Antunes (que também se assina professor Gleidistone) e recitava no palco Prexelândios de uma vida. Aplaudi ao final e foi quando percebi que estava sozinho e entre gente que nunca antes tivera sequer visto. Havia um certo desconforto só quebrado que, depois, ele encostou-se com a surpresa e um exemplar do seu Digitais absolutas: poemas escolhidos, para recitar-me o seu poema As letras: As letras que fazem nascer / minhas palavras / são portadoras / de criação infinita. / Nos calcanhares letrados da mente / surgem idiomas / com asas de fênix / reluzindo luz e conhecimento. / Abrindo os olhos à leitura, podemos então / ser descobridores de mágicas metáforas / em semânticas de vida / de luz e / de amor. Aplaudi com um firme aperto de mão de frater e um abraço caloroso com os versos do seu poema Meus quirodáctilos: ... sei do meu passado / não sei do meu porvir. / Sou viajante do cosmo / nos planetas mentais / do tico e do teco / do tosco e do taco / de tudo e de todos. Foi aí que conversamos animadamente por um bom espaço de tempo, até ela reaparecer e nos despedimos com a promessa de revermos em breve. Ela me levou de volta para o seu aconchego que sequer sabia onde que poderia ser, enquanto dizia-me de um poema O fim do mundo, da poeta alemã Else Lasker-Schuler (1869-1945): Há um lamento no mundo, / Como se não mais houvesse o bom Deus, / E a sombra que cai, cortina de chumbo, / Pesa mausoléus. / Vem, escondamo-nos mais de perto... / A vida jaz nos corações / Como nos féretros. / Ei, beijemo-nos até não mais poder / — Pulsa uma saudade no mundo, / E é disso que temos de morrer. Ao final do poema, estávamos no meio do mundo e eu não sabia onde era nem queria saber. Então, abraçou-me com o fervor de sempre, sem que eu soubesse jamais se onça ou benfeitora, apenas: precisamos viver, enquanto podemos respirar. Até mais ver.

 

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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...