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quinta-feira, outubro 18, 2018

ORTEGA Y GASSET, NELSON FREIRE, VALÉRIA SOTO, POEMA DA VIDA, COLETIVO 13, CYANE PACHECO & DISCURSO DA PURA RAZÃO


CONVERSA DE ELEITORES – Imagem: arte da artista plástica e ilustradora Valéria Rey Soto - Opa, tudo bem? Hem? Tudo bem? O quê? Como é mesmo seu nome? Ah, Zé Fulano. Muito prazer, sou Zé Beltrano e sou sua salvação. Como? Você é parente do Zé Sicrano? Não. E do Zé Outrano? Também, não. Ah, pois pensei que vocês eram parentes, tão parecidos. Não, não tenho nada com esses seus pariceiros aí, sou Zé Fulano dos Fulanos da Silva. Sim, pois bem, estou aqui para lhe salvar. Como assim? Sou da Igreja da Salvação... Nunca ouvi falar! É uma igreja nova, criada pelo meu pastor que, um dia, quase morrendo afogado num açude cheio de piranhas assassinas, Jesus salvou-lo e determinou que ele salvasse a gente e o mundo todo. Hem? Num brinca. Verdade, o meu pastor é a pessoa mais séria que há no mundo. Tô vendo seus pés... Por ordem de Jesus, o meu pastou me salvou e me deu o poder de Jesus para salvar você também. Vôte! Estou aqui para providenciar o seu batizado. O quê? O seu batizado consiste em você votar nesse candidato aqui nesta eleição. Peraí, mermão, primeiro: sou batizado na igreja do padre Quiba... O padre Quiba também está pedindo votos para este candidato aqui, é um movimento ecumênico em nome deste abençoado de Jesus que governará em nome de Jesus! Eita, peraí, véi, calma aí com o andor, primeiro: que mesmo sendo batizado na igreja do padre Quiba, eu não vou lá desde esse dia e agora estou propenso a me ligar à igreja do Padre Bidião... Ah, isso é o inferno, um vitupério! Jesus mandou-me para salvá-lo! Por isso mesmo eu estou aqui para lhe salvar e é só votar neste candidato que você está praticamente batizado na minha igreja. Nunca vi tão fácil? É obra do senhor Jesus, a salvação da humanidade. Peraí, mostra aí a lata desse teu candidato... É este aqui, pode guardar, está aí com foto e número dele, vamos elegê-lo em nome de Jesus! Você tá doido, tá? Hem? Endoidou, foi? Por quê? Oxe, esse febrento aí é inimigo do povo e matador de gente que só, um coisa que se diz aí de nazis ou facis, coisa assim que nem sei dizer direito, mas sei que pedra ruim que botou pra arrochar nos nordestinos, quer botar pra foder nos gays, quer lascar os pretos nossos irmãos, quer empiorar a vida dos pobres, isso é um repratrás tão miserável que quem for na onda dele vai conhecer o capeta virado na peste! Que é que isso, irmão! Oxe, esse cabra aí é uma granada pronta pra explodir na mão, cheio das metralhadoras e pronto pra mandar pro saco qualquer um que ele ache que tá fazendo careta! Calma, irmão, não é nada isso. Como não? Um dia eu chamei de irmão um da tua laia e ele perguntou se eu era da igreja dele, eu disse que não, e ele disse na minha lata que eu não era irmão dele, que os irmãos dele são só os da igreja e agora, tu com essa cara de marmota, me chama de irmão? Nem lhe conheço e chega todo adiantado, pá daqui, pá dacolá e ainda quer que eu me batize com uma lasqueira dessas? Meu irmão, em nome de Jesus a sua salvação está encaminhada e eu sou o portador para salvá-lo. Olhaqui, véi, eu posso ser analfabeto, mas não sou doido nem burro pra comer capim, meu! Calma, irmão, se você não aceitar a salvação, irá pro inferno queimando pra sempre. Ah, é? Então, vai tomar no toba e vê se acha um prativai gangrenado de asa aí bem ineivado para sentar esse furico aí, meu! Que é que é isso? Vai te lascar, porra! Onde já se viu, ora! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O homem, cada homem, tem que decidir a cada instante o que vai fazer, o que vai ser no momento seguinte. Essa decisão é intransferível, ninguém pode substituir-me na faina de me decidir, de decidir minha vida. [...].
Trecho extraído das Obras completas – V.12 - Em torno a Galileo (Alianza, 1994), do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), que em outro volume de suas obras, tratando sobre Los problemas nacionales y la juventude – V.1 (Alianza, 1990), considera que [...] Cada qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa solidariedade com as forças e até com os vícios do passado [...], como também na obra La pedagogia social como programa político (Alianza, 1990), expressa que: [...] O problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer [...] O pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão [...] Socializar o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos [...]. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e ilustradora Valéria Rey Soto.
Veja mais aqui.

POEMA DA VIDA
Art By LAM

COLETIVO 13 
Arte da artista visual Cyane Pacheco.

AGENDA
Peça teatral Discurso da Pura Razão – 26/10, 20h, Teatro Cinema Apolo – Palmares – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Serra do Quati, Capoeiras, Hermilo Borba Filho, Jessie Boucherett, Luiz Berto, Pintando na Praça & Paulo Profeta, Nelson Freire, Maria Bethânia, Felipe Coelho & Ceumar aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do pianista Nelson Freire interpretando Momoprecoce & Bachianas Brasileiras 4, de Heitor Villa-Lobos, Piano Concerto de Schumann & Concerto nº 2 de Chopin & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, fevereiro 05, 2018

DINAH SILVEIRA, LOUIS ARAGON, FRITJOF CAPRA, ROLAND BARTHES, TRUFFAUT, NELSON FREIRE, AMANDA MORAIS, MITSUKO UCHIDA, FENELON & FERNANDO BARRETO.

Imagem: a arte da artista visual Amanda Morais.

O TEATRO, FENELON & O COMEÇO DE TUDO - Foto: os irmãos Fernando & Luiz Barreto - Tudo começou certa tarde, eu havia passado no exame de admissão e fui estudar no Ginásio Municipal. Na sexta dessa primeira semana, aconteceu uma apresentação no palco do ginásio, uma coisa que eu nunca tinha visto na vida e fiquei enfeitiçado na hora: um drama teatral. Assisti sem piscar os olhos. Ao terminar, todo mundo saiu e eu corri da aula para a Biblioteca Fenelon Barreto e instei da professora e bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira, onde é que eu poderia saber mais sobre o que havia acontecido no ginásio naquela tarde. Tinha lá eu uns 10 pra 11 anos de idade – arrepara só, pode um negócio desses? Prum bruguelo fuleiro de peralta eu era bem folgado, né não? – e ela sempre muito atenciosa me puxou num canto, pegou um molho de chaves e abriu umas estantes trancadas e remexendo lá por trás duns volumes bem antigos, me deu uns livros para eu ler: Diálogos do Encenador (Universitária, 1964), Teoria e prática do teatro (Íris, 19960) e Espetáculos populares do Nordeste (DESA, 1966), todos do conterrâneo Hermilo Borba Filho. Grudei os olhos na leitura e fiquei repassando tudo até entender mais ou menos do que se tratava, queria manjar mesmo do riscado. Depois da lida e relida, toda semana eu lá no pé dela para me dispor de livros e publicações a respeito do teatro. Foi aí que fiquei conhecendo bem a coisa, ela nunca me deixou na mão, sempre com livros e mais livros para saciar minha curiosidade. Por essa época eu morava no Beco do Capim e me esgueirava pela Rua Nova ou pro Cartório de manhã – onde eu desenvolvia as atividades de copista e entregador de correspondências desde os dez anos de idade -, ou pra Biblioteca e, de tarde, pro Ginásio. Não demorou muito pra topar com um sujeito que dedilhava um violão com estilo bem peculiar. Eu ficava com os olhos grudados nos acordes, aprendendo de vista, só ouvindo o povo dizer: Luizinho toca essa! Luizinho toca aquela! Um dia lá ele deu por minha presença insistente na ouvida de sua tocada. E aí?, disse ele, Legal, meu, gosto do jeito de você tocar. Principalmente quando você toca Ambrosina e Mãos de Velho. Ele então me disse: Ambrosina é uma música minha e Mãos de Velho é um poema do meu pai que eu musiquei. Quem é teu pai? Fenelon Barreto! Mas é o nome da Biblioteca! Isso mesmo, é o nome do meu pai. E me mostrou meia dúzia de poemas do pai dele e umas vinte peças teatrais – na verdade, vinte e uma – todas com capas desenhadas e manuscritas pelo próprio autor. Rapaz, isso é bom demais! Ele me deixou lê-las, todas. E me apaixonei de cara por uma cujo título era O náufrago da Mafalda. Anos passando e no meio das nossas bebemorações com brote, salsicha, pinga e caldo de cana, a gente foi entabulando coisas, sonhando alto e inventamos encenar uma das peças. Qual das? Foi um puxa-encolhe danado, eu queria a que mais gostava e ele arredava o pé em outras, como o Tenente Evaristo, Adoração, O ladrão, outras. Da arenga findamos por Adoração. Pronto. Aí juntamos gente com experiência, Dudu & Lea, Givanilton Mendes, Guarino e outros atores que já haviam participado de peças teatrais do próprio Fenelon, de Lelé Correia e de Miguel Jassely, e ensaiávamos toda noite no Tribunal do Júri, no Fórum da Comarca, cedido pelo então Promotor de Justiça, Dr. Laércio Duá de Castro Pacheco – apesar de menino, eu estava prestigiado que só para conseguir isso com a autoridade local. Pois bem, muita gente contribuía com experiências, como Odylo Costa, Enoch Queiroz, Gildásio Santana, Aloisio Freitas, Heitor Vasconcelos, Maurício Melo, e, por isso mesmo, em quase dois anos, ensaios adiantados, Fernandinho Melo compondo a trilha sonora comigo, Zé Ripe cuidando dos cenários e figurinos, Mauricinho Melo, Célio Carneirinho e Ozi dos Palmares acompanhando os ensaios para me ajudar na empreitada, e eu e Luiz Barreto tentando deixar as coisas prontas para marcar a estreia. Foi aí que deu chabú! Apareceu irmão que só do Luizinho, tudo para botar gosto ruim no angu. Resultado: o negócio gorou, todo mundo chateado, nenhuma autorização e broncas para tudo que é lado. Não tive dúvidas, barco furado é barco afundado, me tranquei em casa e escrevi meu próprio texto, juntei atores, a exemplo de Mano Germano, Toínho Du Rego e outros tantos, ensaiei mais ou menos por um ano e meio, e encenei o que hoje se chama O Prêmio – o título era outro, um despropósito: Em busca de um lugar ao sol sob a especulação imobiliária, hehehehehe, um traste de troço, nada a ver! -, numa festa com todo mundo na quadra do Colégio Diocesano. Maior ovação! Comungamos todos pelo êxito – diga-se de passagem, a festa foi ótima, bilheteria tudo, mas quando fizemos o encontro de contas: 0x0. Deu pra pagar tudo, saldo zero. Estava dado o pontapé! Depois escrevi e encenei A viagem noturna do Sol, em Recife, e me danei a escrever outros textos que depois falo. Pois bem, dez anos depois, lá estou eu às voltas com Luizinho sobre Fenelon Barreto. É que eu participava do Movimento de Apoio Cultural Edições Bagaço e queria publicar as poesias e peças teatrais de Fenelon Barreto. Entendimentos convergindo na boa, até irmos para Gravatá, conversar com o irmão dele Fernando, para autorizar a publicação. Fomos lá muito bem recebidos pelo poeta, com a sua simpaticíssima família, conversamos, almoçamos, acertamos e no meio da tarde, voltamos. Resultado: de tudo acertado não tinha nada certo. Malogrou de novo, segunda vez. Aí eu parti pra outra, com os parceiros da Bagaço publicamos Teles Junior, Artur Griz, Manoel Bentevi, Raymundo Alves de Souza, entre outros. Agora, mais de trinta anos depois, na minha residência voluntária na Biblioteca Fenelon Barreto, reencontro Luizinho & Fernando Barreto, com familiares. Fiquei muito feliz por vê-los: Fernando trouxe um quadro com uma pintura de Fenelon e, o melhor de tudo, o seu próprio livro reunindo crônicas e poemas seus: Asas do Tempo. Afora a simpatia de suas filhas, virou festa numa simples recepção do João Paulo, diretor da instituição. Aproveitei a ocasião e eu, Fernando e Luizinho conversamos um bocado. Propus no meio do papo a possibilidade de publicar poemas e peças teatrais de Fenelon Barreto, contudo, ainda não foi dessa vez, mas ficou plantada a semente de novo, os dois ficaram de conversar não sei quando. Sei que nutro a esperança de um dia ver a obra publicada – pelo menos uma ou algumas de suas peças, vez que só se conhece de fato, uma meia dúzia de poemas dele, mais nada. Na vera, dele só o nome da Biblioteca. Mesmo assim, mantemos firme o estandarte da memória de Fenelon, apostando que um dia sua obra será liberada e publicada. Vamos em frente aprumando a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o pianista Nelson Freire interpretando Villa-Lobos, Debussy & Recital; a pianista japonesa Mitsuko Uchida interpretando Beethoven & Debussy; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Estar com quem se ama e pensar em outra coisa: é assim que tenho os meus melhores pensamentos, que invento o que é necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente; se lendo-o, sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça, a ouvir outra coisa. Não sou necessariamente cativado pelo texto de prazer; pode ser um ato ligeiro, complexo, tênue, quase aturdido; movimento bruco de cabeça, como o deu um pássaro que não ouve nada daquilo que nós escutamos, que escuta aquilo que nós não ouvimos. [...]. Trecho extraído da obra O prazer do texto (Perspectiva, 1996), do escritor, sociólogo, filósofo, semiólogo e crítico literário francês, Roland Barthes (1915-1980), analisando o prazer sensual do texto, tanto por parte de quem escreve - sem medo de expor seu desejo, sob pena de cair na tagarelice -, quanto de quem lê (normalmente situado como objeto, ser passivo e sem defesas frente ao texto, e que aqui é revelado em sua plenitude criativa da fruição), ao mesmo tempo que descarta a frigidez do texto empolado e político, evocando ao fio dos argumentos tanto Proust, Flaubert, Stendhal como Sade e Bataille, ou ainda Lacan e Freud, enfim, apresentando  de forma profunda e lúdica um tema fundamental em semiologia e literatura. Veja mais aqui.

TEORIAS CIENTÍFICAS – [...] todas as teorias científicas são aproximações da verdadeira natureza da realidade. [...] cada teoria é válida em relação a uma certa gama de fenômenos. Para além dessa gama, ela deixa de fornecer uma descrição satisfatória da natureza, e novas teorias têm que ser encontradas para substituir a antiga ou, melhor dizendo, para ampliá-la, aperfeiçoando a abordagem. [...]. Trecho extraído da obra O ponto de mutação: a ciência, a sociologia e a cultura emergente (Cultrix, 1993), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui e aqui.

PRAZER DOS OLHOSSou o homem mais feliz do mundo, e eis por quê: caminho por uma rua e vejo uma mulher, não alta, mas bem proporcionada, bem morena, bem nítida em sua roupa, com uma saia escura plissada que se mexe ao ritmo de seu passo, rápido, por sinal; suas meias, escuras, estão certamente presas, pois mostram-se impecavelmente esticadas. Seu rosto não sorri, essa mulher anda na rua sem buscar agradar, como se não tivesse consciência do que represeta: uma bela imagem carnal da mulher, uma imagem física, melhor que uma imagem sexy, uma imagem sexual. Ao cruzar com ela na calçada, um passante não se deixa enganar: vejo-o voltar-se para trás, dar meia-volta e ir ao seu encalço. Contemplo a cena. Agora, o homem chegou à altura da mulher, está andando a seu lado e lhe murmura alguma coisa, certamente as baboseiras habituais: tomar uma cerveja, etc. Porém, ela ela vira o rosto, aperta o passo, atravessa a rua e desaparece na esquina seguinte, enquanto o homem vai tentar a sorte em outro lugar. Entro então num táxi e sonho um pouco a propósito dessa cena tão cotidiana nas grandes cidades, nãoapenas em Paris. Instintivamente solidarizo-me com a mulher contra o homem e modifico a cena segundo meus pensamentos do momento; digo-me que seria formidável se, por uma vez, no desfecho de uma cena desse gênero, a humilhação trocasse de lado. Tomo algumas notas numa folha de agenda e, quatro meses mais tarde, vejo-me na rua [...] com uma câmera, uma equipe técnica de vinte e cinco pessoas e dois atores que escolhi, um homem louro bem alto, na verdade bonito e forte, e uma mulher que vocês adivinharam que é morena, bem proporcionada, de saia plissada. E eu estou ali, no exercício de minha profissão, acerca da qual não permito que ninguém diga que é inutil ou desinteressante, e dirijo a cena. Peço ao ator louro que caminhe, passe pela mulher morena, volte-se para ela, faça meia-volta, vá ao encontro dela e lhe fale ao ouvido. Não escrevi frases para o homem pois elas não serão ouvidas na cena, seu sentido é subentendido. Agora os dois atores se aproximam da câmera [...] e a atriz morena [...] investe contra o homem com fgrases que formei na minha cabeça quatro meses antes de redigi-las e entregá-las à atriz na noite anterior [...]. Trechos extraídos da obra O prazer dos olhos – escritos sobre cinema (Zahar, 2005), do cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Veja mais aqui e aqui.

ASSOMBRAÇÃOUma noite, ao receber a visita de uma amiga, lembrei-me de lhe emprestar um romance. Fora a minha leitura da véspera, e eu o deixara na mesinha de cabeceira. Subi a escada, e entrei no quarto. Curioso. Alguém acendera a luz... E no entanto, eu estava certa de que ninguém subira. Caminhei intrigada, pressentindo qualquer acontecimento... Olhei minha cama e vi nela uma mulher deitada. Uma mulher... morta – ela... estava morta! tinha um horrível vestido de lantejoulas de todas as cores, a aparecia coberta de joias baratas. Suando frio, procurando dominar o coração desordenado, cheguei mais perto. Meu Deus! Aquela face nojentamente pintada era a minha própria face! Como se alguém fizesse de mim um retrato de degradação... Meu próprio rosto... mais velho – muito mais velho! – com maqulagem de atriz decadente! Queria gritar... chamar todos... Não me foi possível. Fiquei fascinada, encarando aquele meu próprio eu degradado e envelhecido, coberto de joias. De súbito, à altura do coração, de sob as lantejoulas, principiou a correr um esguicho de sangue, que ia engrossando, que se tornava maior. Nele, iam submergindo o colo, os braços, o corpo, a longa saia rutilante de meu terrível “double”. A mulher estava coberta de sangue, e seu rosto dele se destacava estranhamente branco, como a face de um pierrô trágico. Então... ah, só então eu consegui gritar. Voltei correndo... mas, junto da escada, perdi os sentidos. Extraído da obra As noites do morro do encanto (Civilização Brasileira, 1957), da escritora Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982). Veja mais aqui.

AS REALIDADES - (fábula) - Era uma vez uma realidade / com as suas ovelhas de lã real / a filha do rei passou por ali / E as ovelhas baliam que linda que está / a realidade. / Na noite era uma vez / uma realidade que sofria de insônia / Então chegava a madrinha fada / e realmente levava-a pela mão / a realidade. / No trono havia uma vez, / um velho rei que se aborrecia / e pela noite perdia o seu manto / e por rainha puseram-lhe ao lado / a realidade. / Cauda: a realidade, a realidade / A real a real / idade idade dá a reali / ali / a re a realidade era uma vez a realidade. Poema do escritor francês Louis Aragon (1897-1982).

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Oh, visitante ilustre, esta Casa vos saúda,
Numa apoteose cultural,
Espelhando a história e a grandeza deste povo!
Embriagai-bos, senhores, da fonte da sabedoria
Buscai a ciência nos seus livros
De cada estante, de cada prateleira
Desta encantadora Biblioteca,
E achareis, então, o conhecimento!
Palmares tem esta Biblioteca
Como um cartão de visita; cabedal científico
De homens e histórias!
Vinde todos desfrutar
Desta fonte do saber!
Poema extraído da obra Asas do Tempo (Telegráfica, 2013), do escritor Fernando Nascimento Barreto. Veja mais poemas do autor aqui.

Veja mais:
No reino do Fecamepa nada pode dar certo!, A mística feminina de Betty Friedan, a música de Célia Mara, a pintura de Peter Klashorst, a arte de OsGemeos & Geopoiesis ASM aqui.
A dança tangará festeja a pletora do amor, a Lenda do Itararé, a arte de Robert Gibson & Luciah Lopez aqui.
Alvorada na Folia Tataritaritatá, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Egberto Gismonti, Capiba, Ricardo Palma, Tsai Ming-liang, Cristiane Campos, Fernanda Torres, Chen Shiang-Chyi, Revista Germina, Digerson Araújo, Asta Vonzodas & O cérebro autista aqui.
Amor imortal na Folia Tataritaritatá, Manuel Bandeira, Pedro Nava, Carlo Goldoni, Cacá Diégues, Carybé, SpokFrevo Orquestra, Luís Bandeira, Ana Paula Bouzas, Tatiana Cañas, Carnaval & Claudia Maia aqui.
Jacques Prévert, A Paz de Ralph M. Lewis, Milton Hatoum, Eric Fischl, Jonathan Larson, Monica Bellucci, Madhu Maretiore & Sônia Mello aqui.
Fecamepa & Óleo de Peroba, Educação & Hilton Japiassu, Bresser Pereira & A psicanálise de Leopold Nosek aqui.
Erro médico & dano estético aqui.
A literatura de Hilda Hilst aqui, aqui, aqui e aqui.
O pensamento de Carl Rogers aqui e aqui.
O ativismo de Rosa Parks aqui.
A personologia de Henry Murray aqui.
Georg Trakl, Paul Auster, Sarah Kane, Gertrude Stein, Felix Mendelssohn, Woody Allen, Gil Elvgren, Marion Cotillard & Big Shit Bôbras aqui.
Ginofagia & as travessuras do desejo na manhã aqui.
Rio São Francisco: Velho Chico, Turíbio Santos, Cláudio Manuel da Costa, Lampião de Isabel Lustosa, Ítala Nandi, Hugo Carvana, Paulette Goddard, Natalia Goncharova, Música & Saúde aqui.
Penedo às margens do Rio São Francisco aqui.
Simone Weil, Simone de Beauvoir, Emma Goldman, Clara Lemlich, Clara Zetkin & Tereza Costa Rego aqui.
O homem ao quadrado de Leon Eliachar aqui.
Febeapá, de Stanislaw Ponte Preta aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

 CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Amanda Morais
Veja mais aqui.

quarta-feira, novembro 08, 2017

CONFÚCIO, ARNALDO TOBIAS, IGNEZ DE ALMEIDA PESSOA, JIM PETERS, MULHERES NO MUNDO & BELÉM DE MARIA

OS QUINZE ANOS DE CLARINHA – Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.- Dois dias antes de debutar, Clarinha gritou por mim. Estacionei o veículo e ela veio às pressas com aquele seu pujante jeito de ser: blusinha de alças segurando os seios quase pulando fora e à mostra num decote acentuado, sainha curtinha cobrindo o estritamente necessário e deixando à mostra um par de coxas para lá de estonteantes e volumosas, uma juventude num rosto de riso nos olhos vivos e lindos de morrer. Depois de amanhã é meu aniversário, não se esqueça! Jamais poderia esquecer, nem que quisesse. Ao chegar à emissora, corri logo pra agenda e com letras garrafais, no dia marcado, inscrevi: aniversário de Clarinha. Envolvi-me nos afazeres e só, no dia seguinte, já de noite, lá vinha Clarinha tão bela quanto nunca, sempre com suas blusinhas de alças decotadas, sainhas minúsculas e recheio apetitoso esborrando das vestes. Para, para! Sim? Ah, me leva pra algum lugar, vai! Disse-me apressada já abrindo a porta e sentando ao meu lado no interior do automóvel. A surpresa de sua invasão não me impediu de uma olhadela na sainha dobrada ao quadril com o movimento das coxas, sem calcinha, e o decote dos seios fartos sem sutiã à mostra nos bicos dos seios empinados estufando na blusinha. Acelerei e engatei primeira pra segunda, segui a esmo rua afora. Seu aniversário é amanhã, né, Clarinha? É. A tácita resposta me deu a impressão de que não estava bem. Algum problema? Não, quero que me leve daqui pra algum lugar, só nós dois. Um restaurante? Não. Um barzinho? Não. Pra onde? Um motel! Não posso, você é menor de idade. Dê seu jeito, quero ir prum motel, me leve. Não posso. Tem de poder, eu quero. Aproveitei a aproximação de um posto de gasolina e estacionei: Não posso levá-la prum motel, você é menor de idade e seus pais são meus amigos. Tem que me levar, eu quero. Não posso. Eu quero o meu presente. Ah, seu presente eu ainda vou comprar amanhã. Quero hoje e agora. Não posso, o comércio já está fechado a esta hora da noite. Não precisa comprar, basta me dar. O que você quer? Quero um filho seu. Não posso, Clarinha, sou casado, você tem quatorze anos, é menor de idade, e seus pais são meus amigos. Eu quero meu presente agora: um filho seu! Não, Clarinha. Você não sente atração por mim? Não. Você não acha que eu mereço uma peiada e embuchar de você? Clarinha, eu tenho trinta e cinco anos, sou casado, tenho filhos. Eu quero um filho seu! Não é assim, Clarinha, sou casado, tenho responsabilidades, seus pais não me perdoarão. Ah, eu quero um filho seu, sou apaixonada por você desde minha infância, sonho com você, tenho sonhos e gozos com você todas as noites, me contorço na cama com você e me toco e gozo diversas vezes sonhando ser possuída por você, me dê esse presente, vá! Não, Clarinha, não é assim. De repente ela me agarrou, lágrimas nas faces e me beijou a boca com seu hálito de rosa dos campos, seu corpo de sedução das mil e uma noites de prazer, seus seios fartos enchendo as minhas mãos, seu sexo túrgido e nu todo se esfregando ao meu que foi retirado à força por suas mãos ágeis enveredando braguilha adentro e enrijecido pelo toque de seus dedos hábeis, apontado pra direção dos seus múltiplos prazeres e eu sufocado por seus beijos em meus lábios, faces, tronco aberto da camisa, até alcançar meu sexo sobejado pela saliva abundante de sua boca gulosa e quente, delirando ávida em me abocanhar até me provocar ereção enlouquecedora, não, Clarinha, não, mais ela felava e me arriava as calças para esfregar sua vagina em minhas pernas, ronronando louca e me apertando forte e me engolindo trêmula e traquina para que eu estertorasse o sacrifício de segurar o gozo enquanto ela atiçava labareda incendiárias com sua língua inquieta na boca faminta, não Clarinha, e me sugou e bebeu todo meu gozo como quem tivesse roubado o manjar escondido. Não, Clarinha. Não, nada, agora tenho você, se não me quer dar um filho, darei pro primeiro que cruzar e você vai ver, vou me vingar de você com o primeiro que me aparecer. Abriu a porta do carro e saiu correndo sem que eu pudesse alcançá-la. Tomou um táxi e sumiu. Segui adiante, fiz o retorno na via e fui direto em direção pra casa dela. Vi quando o táxi estacionou em frente a sua residência. Ela desceu e desapareceu lá pra adentro. Eu estava desconcertado, fui pra casa com ela perseguindo meus pensamentos. Nem consegui ir pra cama, deitei no sofá e logo dormi sonhando com as peripécias de Clarinha. O dia amanheceu e acordei com o telefone, atendi: Hoje é meu aniversário, não falte! Eu me levantei pro ritual de todas as manhãs e fui trabalhar. A cada hora o telefone: Hoje é meu aniversário, não esqueça! O dia pela tarde, noite entrante e o telefone insistente. Fui. Lá chegando, poucas pessoas, festa simples, os pais me recepcionaram alegremente, dei graças ao rever o poeta há anos que não tinha notícia, foi a minha salvação. Logo ela apareceu linda como sempre, deu-me um chauzinho de escárnio e puxou o poeta a um canto, conversaram e muito. Fui surpreendido pelos pais delas, conversamos, mais um pouco anunciei que ia embora. Não me deixaram, havia uma surpresa no ar, aguardei. Foi quando Clarinha anunciou o seu presente: o seu casamento com o poeta. Como? Ele vinte e cinco anos mais velho que ela, como pode? Os pais tão surpresos como eu, nada entendiam. O poeta no meio da saia justa deixou entender que se tratava de um arroubo dela, mas que era do seu agrado e desejo. Formalmente pediu a mão dela em casamento aos pais e me convidou para padrinho. No meio do mal-estar, depois de muito se olharem, não houve outra alternativa: todos aceitaram, não pude recusar. Seis meses depois reencontro Clarinha grávida de mãos dadas com o marido e um convite para que eu fosse o padrinho do bebê. Não deu tempo nem responder, Clarinha abraçou-me sussurrando: Você não me quis, mas esse filho é seu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais s com o compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se cultiva até o máximo os princípios de sua natureza e assim se procura exercitá-los segundo o princípio de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam. [...]. Trecho do Elogio da vida na dourada mediania: a doutina do meio, extraída da obra O pensamento vivo de Confúcio (Martins, 1967), reunindo os quatro livros clássicos e os cinco livros sagrados do filósofo chinês Confúcio (551 a.C. - 479 a.C). Veja mais aqui e aqui.

ESCRAVIDÃO & ABOLIÇÃO - Grande é o coração, pura e sublime é a alma de um povo humanitário, que se revolta indignado contra a praga maldita chamada escravidão. Ontem, esta palavra horrenda, abominável e ignominiosa, esta degradante e tremenda maldição se ostenta cheia de caprichos sobre as cabeças uns míseros infelizes, que viviam espalhados em todo o Brasul. Hoje, porém, a providencia divina tem protegido a causa destes desgraçados. [...] Tudo caminha e a liberdade não pode estacionar. Por ventura não são os escravos os nossos irmãos, e por que haveremos de consolar as suas aflições, quebrando os ferros tremendos em que se acham agrilhoados? Ah! É duro viverem estes míseros escravos, sem luz, sem amo, sem proteção, submergidos nas trevas profundíssimas da ignorância, chorando amargamente a sua desgraça dos seus filhinhos. Avante democratas e abolicionista. Avante republicanos corajosos. A estrada do processo é muito lnga, caminhai e será completo o vosso triunfo, uma vez que pelejais em prol de uma causa santa, de uma missão honrosa e sublime, que é arrancar das mãos impuras e sanguinolentas dos escravocratas o punhal e o chicote com que retalham as carnes de seus próprios irmãos. Texto da abolicionista Ignez de Almeida Pessoa (Penumbras, 1892), extraído da obra Suaves amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste (UFPE, 1999), organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Ivia Alves, Nancy Rita Fontes, Luciana Salgues, Iris Vasconcelos e Silvana Vieira de Souza. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BELÉM DE MARIA – O território do município era encravado ao de Bonito e teve sua divisão administrativa ocorrida no ano de 1933, quando o distrito criado por Lei municipal de 18 de setembro de 1930, passando a ser distrito de Catende, desmembrado de Palmares e Bonito. Belem de Maria foi constituído em município autônomo pela Lei estadual 3340, de 31 de dezembro de 1958, com território desmembrado dos municípios de Catende e São Joaquim do Monte, sendo instalado em 03 de maio de 1962. Administrativamente é formado pelos distritos sede e Batateira, anualmente no dia 31 de zembro comemora a sua emancipação política, em conformidade com a Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

MULHERES NO MUNDO - [...] o sujeito ideológico elabora um discurso que evidencia os papeis sociais desempenhos pelo homem e pela mulher, delimitando os valores e os comportamentos de cada um, os quais refletem valores e comportamentos nutridos em nossa sociedade. Apesar de muitas concepções de mundo terem sido modificadas e hoje nos deparamos com novos conceitos veiculados pelos meios de comunicação de um modo geral, ainda é prodominante a ideologia machista que define a mulher como um “ser doméstico”, que vive em prol da casa, dos filhos e do marido, isentando-se de uma vida cultural que é exterior ao domicilio familiar, porque todas as personagens femininas e adultas [...] são donas de casa ou são empregadas domésticas (com uma única exceção – a professora), e se apresentam, na grande maioria das histórias, usando avental, lenço e instrumentos de trabalho; em contrapartida, raramente aparecem se divertindo e nunca exercem qualquer atividade esportiva, cultural ou intelectual. [...]. Trecho do texto No discurso da história em quadrinho: uma revelação do preconceito no estereotipo da figura feminina, de Rosemary Evaristo Barbosa, extraído da obra Mulheres no mundo: etnia, marginalidade e diáspora (Ideia/Universitária, 2005), organizado por Nadilza Martins de Barros Moreira e Liane Schneider. Veja mais aqui.

CLARINHA DE ARNALDO TOBIAS
CAPÍTULO 1 – Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu quintal eu assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos. A anágua azul e a calcinha de rendas e flores bordando setembro e a primavera. Do seu quintal ela olhando para mim com a indiferença de ontem. A menina crescendo não sabia que eu escrevia poemas para ela e os guardava dentro de livros com pétalas de rosas vermelhas. CAPÍTULO 2 – A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espço do corpo. A blusina curta mostrando o umbigo vertical com a covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A sainha ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha já tinha abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo pretensamente o vértice dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha que me invadiu o peito. Fui convidado de palavra para o seu aniversário de quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que me subiu um calor no rosto e ela deve ter notado a minha emoção tímida. Prometi ir à festa e fu comprar uma camisa de cetim e um sapato social. Na festa (sem champanhe e de poucas pessoas). Clarinha confessou sua paixão por mim desde os nove anos. A paixão cegava os sonhos e desejos perturbáveis. O pecado consentido. Disse: Mas Clarinha, eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco mais da sua idade. Disse-lhe: Para mim você é jovem e tão latente como o sol nascente. Respondeu-me com metáfora. CAPÍTULO 3 – Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinalda) a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos. Clarinha não acompanhou minha idade avançando. Depois de quinze anos, ela ficou a balzaquiana mais bela do mundo e eu sessentão acometido de fortes dores na uretra. Tive de um dia submeter-me a uma inadiável cirurgia (que me impediu de fazer um filho em Clarinha) na impotencialidade sexual. Então o urologista arrancou-me a castanha da próstata deixando lá no fundo um carncer me matando de sofrimentos. Clarinha escusando-se dos meus tratos e asseios. Esquencendo o meu remédio na farmácia. Hoje a acompanho com resignação e tristeza vendo-a ter filhos com o jardinero. Pago muito bem ao rapaz para ele trazer rosas vermelhas e fazer Clarinha feliz. Satisfeita.
Conto do escritor Arnaldo Tobias (1939-2002), extraído da Panorâmica do conto em Pernambuco (Escrituras, 2007), organziado por Antonio Campos e Cyl Gallindo. (Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.
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quarta-feira, outubro 18, 2017

HERMILO, JESSIE BOUCHERETT, LUIZ BERTO, PINTANDO NA PRAÇA & SERRA DO QUATI – CAPOEIRAS

SERRA DO QUATI, CAPOEIRAS - Imagem: Serra do Quati/Capoeiras/Raimundo Lourenço. - Nasci na beira do Una, andejo do dia singrando na vida. Do outro lado o Mundaú vai pra Alagoas, até mais, boa viagem, eu sigo por conta do Planalto da Borborema para ser o que for feito por força do querer. Sou meio de rio, águas que de mim são correntezas de sonhos e anseios. Sou caeté da sina de ontem e vou pelo sítio Imbé, onde a minha raiz quilombola beija a brisa na minha abissal alegria agreste. Sou do mato viceja na beira da estrada, sou da mata densa dos bichos da infância, folhas que matizam as minhas manhãs e tardes, flores que perfumam aonde quer que eu vá. E vou célere assíduo pelo açude Gurjão, pra ir pro Riacho do Mel, atalhando o Mimoso, chegando em Maniçoba e de lá seguir pelo Mocambo como quem vai para Alegre dizer que vou pra Pau Ferro levar as boas novas. Sou desse chão que também sou e lavo meus os pés no Cajarana porque me batizei no da Pracinha, no Bom Destino, no do Mel do Meio e no de São Pedro e quero ir pra festa da Praça quando a noite chegar. E quando alta madrugada meu peito em poesia seguir até a Serra do Quati, ao reluzir o amanhecer, eu serei o espetáculo: assim como em cima, é embaixo. O céu, as nuvens, o universo no êxtase das mãos, na chuva a me banhar, alma lavada na imensidão, a comunhão do meu íntimo: tudo e todas as coisas, o infinito, mais que a mim mesmo, o prazer de estar cônscio de que há muito mais do que possa ver, muito além do que consiga enxergar: o prazer de estar vivo e viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do pianista Nelson Freire: Bachianas Brasileiras & Alma Brasileira de Villa-Lobos & Estampes de Debussuy; daq cantora Maria Bethânia: Maricotinha ao vivo, O canto do Pajé – 25 anos & Pássaro Probido; do violonista e compositor Felipe Coelho: Cata Vento, Musadiversa & Telhados; e da cantora, instrumentista e compositora Ceumar: Dindinha, Silencia, Sempre Viva & Meu nome. Para conferir é só ligar o som e curtir.

OS 500 ANOS DE DIOGO DE PAIVA - [...] A história repercutirá intensamente e, como é de seu costume, sustentará o governo e sua polícia uma versão que a tudo contraria, desde as evidências até o correto uso da razão. Porque assim lhes convém. Porque é imperioso que se sepulte com Diogo de Paiva uma incomensurável quantidade de fatos escabrosos, comprometedores e altamente incriminadores das elites governantes e influentes do país. Mesmo que de há muito estes fatos já sejam com conhecimento de toda a população. Mas há que se manter as aparências. Como tem acontecido desde os tempos do descobrimento. Ironicamente, o julgamento, a condenação e a execução de Diogo de Paiva, decidida em secreto e restrito tribunal, são levados a cabo apenas pelos seus cometimentos recentes, quando atuou como tesoureiro na campanha de um presidente corrupto que, afinal, perdeu o mandato antes do final. Toda a vida pregressa de Diogo de Paiva, até por ser desconhecida do tribunal que o julgou, não é levada em consideração. Enfim, um julgamento inglório e mesquinho, em total descompasso com a monumentalidade de sua figura. [...] São esses instantes finais, ao lado da jovem amante, bela em sua quietude de morte, uma faísca de luz em sua cabeça, unindo sua chegada em 1500 à posse do seu filho em 2003. Nos instantes imediatamente anteriores ao disparo que lhe atinge o peito, Diogo de Paiva tem uma fugaz visão do céu nordestino, pela janela do seu quarto que dá para a praia e constata, com os olhos cheios de luze o coração cheio de ternura, que é o mesmo céu brilhante de azul que se apresentou às suas vistas naquela manhã em que se fez menos na frota do Capitão Vicente Yañez Pinzon. Com a alma risonha e com a certeza de haver cumprido honradamente sua missão na construção e no estabelecimento do Mundo Novo, entrega sua presença a Deus. Trechos da obra Memorial do Mundo Novo (Bagaço, 2008), do escritor Luiz Berto. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

PINTANDO NA PRAÇA
DIA DO PINTOR – Exposição do projeto Pintando na Praça, realização do poeta e artista plástico Paulo Profeta, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares – PE. Veja mais aqui.

SER PERNAMBUCANO – [...] Você foi dizer o que era e terminou como terminou. Aliás, todas as vezes em que a gente insiste em dizer o que é mesmo, lasca-se. Posso fazer um pouco de lirismo barato, confessando que para sair pela tangente? Isto é o tipo de coisa subjetiva e não posso falar pelos outros, somente por mim, mesmo correndo o risco de que já falei. Mas vamos lá: ser pernambucano é estar ao lado dos movimentos libertários, é não se conformar com o subdesenvolvimento da zona rural, é tremer de horror diante dos mocambos e alagados, é não admitir que os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres, é comer os quitutes da nossa cozinha, é falar mal do Recife e não conseguir desprender-se dele, é amar e ter inimigos, é pedir ao garçom mais uma dose de Passport. Mas isto são atributos de qualquer homem em qualquer lugar. E chego a uma conclusão muito séria: não sei o que é ser pernambucano [...]. Trecho extraído da obra Agá (Civilização Brasileira, 1974), do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Poema em voz alta, Cidadania & Meio Ambiente, O erotismo de Gerges Bataille, Ciranda dos libertinos de Marquês de Sade, Decameron de Pasolini, o pensamento de Maryam Namazie, a escultura de Leroy Transfield, a pintura de Paul Cezzane & Olivia de Berardinis, A mulher suméria, a música de Karina Buhr, Núpcias do NUA, Estado Imediato, a entrevista de Frederico Baarbosa & o grafite de Mozart Fernandes aqui.
Rio Una: eu nasci entre um rio e um riso de mulher, A energia espitirual de Henri Bergson, Menino de Engenho de José Lins do Rego, Poema & Oração do Milho de Cora Coralina, a música de Heitor Villa-Lobos & Nelson Freire, Humor e alegria da educação de Valéria Amorim Arantes, Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a arte de Grande Otelo, Brincarte do Nitolino, a pintura de Manuel da Costa Ataíde & Luis Sergio Mafra aqui.
O corpo dela é o pomar do amor & programa Tataritaritatá aqui.
A psicologia de Pierre Weil, Psicoterapia mente-corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui.
Os lábios da mulher amada, Crônica de amor por ela & Cantarau Tataritaritatá aqui.
Saúde no Brasil, Fecamepa & Big Shit Bôbras aqui.
Falando de sexo, Isabel Allende  & Zine Tataritaritatá aqui.
Saúde no Brasil, HapVida & Derinha Rocha aqui.
Moto perpétuo, a psicologia de Martin Buber & Priscilla Larocca, A essência da poesia de T. S. Eliot, Hope 2050, A música de Carl Nielsen & Cecília Zilliacus, a teoria literária de Kenneth Burke, o teatro de Mário Viana, a arte de Zuzana Vejvodova, Ponto G, a pintura de Rick Nederlof & Francisco Zuniga aqui.
Autismo, Educação Inclusiva & Tataritaritatá na Difusora de Alagoas aqui.
A arte de Rosana Simpson aqui.
Vera indignada & O segundo sexo de Simone de Beauvoir aqui.
Maceió & Lagoa Mundaú aqui.
La rebelión de lãs massas de Ortega y Gasset, Eu voltarei ao sol da primavera de Ascenso Ferreira, a música de Alexander Scriabin, A função do orgasmo de Wilhelm Reich, O orgasmo de Esperantina, a pintura de Renato Alarcão & Pablo Garat aqui.
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TODO DIA É DIA DE JESSIE BOUCHERETT
Homenagem à escritora e ativista inglesa dos direitos das mulheres, Jessie Boucherett (1825-1905), uma das fundadoras da Society for Promotying the Training of Women, em 1859; promotora do sufrágio feminino e apoiadora do Ato de Propriedade das Mulheres Casadas de 1882, fundadora da Englisgwoman’s Review em 1866, e co-fundadora do Women’s Sufragge Journal.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...