sábado, agosto 02, 2014

EMMY HENNINGS, CAMILLE PAGLIA, ANN CRISPIN, ELSE LASKER-SCHULER & ANNE LISTER

 


EMMA, A ESTRELA BRILHANTE DO VOLTAIRE - Vinha de dois divórcios malsucedidos por estadias alternadas entre Berlim e Munique e era ela a profissional artista de cabaret, a mesma que começou tudo como empregada doméstica e que trabalhou na prostituição explorada por um ex-marido, até ser presa sob suspeita de roubo. Dizia-me sussurrante: Minha única profissão é aprender o que sou... E me contou que foi no cabaret Neopatético que seu espírito criativo, impulsivo e enigmático tomou vez, depois de atuar pelo teatro itinerante. Independente e desenraizada era a poeta que era o Dada em pessoa pelas ruas de Zurique fugindo da guerra. Ao mesmo tempo a vigarista, vagabunda, mãe e esposa era a atriz que brilhou no cabaré Simplicissimus conquistando corações, com seus braços arredondados sobre os quadris e emprestando o corpo às canções. A ingenuidade, simplicidade e natureza infantil fez dela a bailarina que elevou seu gesto além do palco e a cantar com sua comovente voz que saltava sobre cadáveres e zombava deles, a marionete autobiográfica em desacordo com a cultura materialista nas suas performances e exibições desenfreadas e violadoras de regras. A lembrança doída da filha criada pelos avós em Flesburg nos poemas de solidão e cativeiro, êxtases e aflições, doenças e mortes, drogas e sexo. Era uma ativista político-radical e antiguerra, enfrentando problemas de saúde mental, mergulhada na pobreza extrema e falta de moradia, suspiros de amor e rajadas de soluços em meio às canções obscenas. E era Dagny de tão inquieta quanto complexa ousando sensual e bombástica para as plateias, com seu jeito anárquico e estranhamente niilista, polinizando a cruzada de artistas refugiados internacionais. Era um pandemônio geral com suas nuances infinitas, hipnotizada pela morfina, a chama de sangue absinta, a avalanche que não passava de uma menina que era a própria histeria e com um apelo: A vida poderia ser arte, em vez de guerra... Era a estrela brilhante do Voltaire! Veja mais abaixo e aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Ó livros! livros! Eu devo muito a você. Vocês são o óleo do meu espírito, sem o qual a própria fricção contra si mesmo o desgastaria... Que conforto é este diário. Digo a mim mesmo e jogo o fardo sobre meu livro e me sinto aliviado. Estou sempre bem. Tomei meu destino em minhas próprias mãos, não acredite em nada até que eu mesmo conte a você. Sei muito bem o que o mundo inteiro irá pensar, mas o mundo inteiro pode estar errado. Se eu estivesse apta para outro mundo, com que prazer iria para lá. Pensamento da diarista, alpinista e viajante britânica Anne Lister (1791-1840), que manteve um imenso diário onde narrou os detalhes de sua vida cotidiana, incluindo seus relacionamentos lésbicos, suas preocupações financeiras, suas atividades industriais e seu trabalho dedicado ao Salão Shibden, razão pela qual é considerada a a primeira lésbica moderna.

 

ALGUÉM FALOU: Se meu sorriso não estivesse submerso em meu semblante, eu o suspenderia sobre seu túmulo. Por favor, levante seus céus nevados da minha alma... Seus sonhos de diamante cortar minhas veias... Frases da poeta alemã Else Lasker-Schuler (1869-1945). Veja mais aqui e aqui.

 

PERSONAS SEXUAIS - [...] A sociedade é um sistema de formas herdadas que reduzem a nossa humilhante passividade em relação à natureza. [...] O reencontro com a mãe é um canto de sereia que assombra o nosso imaginário. Antes havia felicidade e agora há luta. Memórias obscuras da vida antes da separação traumática do nascimento podem ser a fonte das fantasias arcadianas de uma era de ouro perdida. [...] A natureza está sempre jogando paciência consigo mesma. [...] Em algum nível, todo amor é combate, uma luta contra fantasmas. Só somos a favor de algo quando somos contra outra coisa. As pessoas que acreditam estar tendo encontros sexuais agradáveis, casuais e descomplicados, seja com amigos, cônjuges ou estranhos, estão bloqueando da consciência o emaranhado da psicodinâmica no trabalho, assim como bloqueiam os confrontos hostis de sua vida onírica. [...] O artista não faz a sua arte para salvar a humanidade, mas para salvar a si mesmo. Qualquer comentário benevolente de um artista a esse respeito nada mais será do que lançar uma cortina de fumaça, escondendo o rastro sangrento de seu ataque à realidade e aos outros. [...] A Bíblia foi criticada por fazer da mulher o sujeito caído no drama cósmico do homem. Mas ao considerar um conspirador masculino, a serpente, como inimigo de Deus, Gênesis se esquiva e não leva sua misoginia suficientemente longe. A Bíblia se desvia defensivamente do verdadeiro oponente de Deus, a natureza ctônica. A serpente não está fora de Eva, mas dentro dela. Ela é o jardim e a serpente. [...]. Trechos extraídos da obra Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (Vintage, 1991), da professora e acadêmica Ph.D, ensaísta crítica social e de arte estadunidense, Camille Paglia. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ARMADILHA DO PARAÍSO - [...] Ninguém mais. Eu não me importo com mais ninguém. Ninguém chega perto, de agora em diante. Eu não me importo com o quão bonita ela é, quão inteligente ou quão doce ela é. Nenhum amigo, nenhum amante… ninguém vale esse tipo de dor. De agora em diante, sou só eu... Sozinho. [...] Ter uma boa memória é ser abençoado e amaldiçoado… [...]. Trecho extraído da obra The Paradise Snare (Random House Worlds (May 5, 1997), da escritora Ann Crispin (1950-2013), que na obra Time for Yesterday (Simon e Schuster, 1999), expressou que: [...] Lembre-se de que em qualquer mundo o vento eventualmente desgasta a pedra, porque a pedra só pode desmoronar; o vento pode mudar. [...] Durante suas visitas, o Vulcano descobriu que D'berahan era na verdade uma portadora, não uma mulher. Mas você se refere a si mesmo como “ela”, ele disse a ela. Por favor, me ensine o termo correto em seu idioma. [O pensamento/conceito/palavra que você entendeu está correto] foi a resposta divertida. [Entre o meu povo, temos apenas uma maneira de expressar todos os gêneros... como "doadores de vida". Seus tradutores universais traduziram isso como “ela”, e por isso somos todos conhecidos... homens, mulheres e portadores. Não somos todos doadores de vida?] [...].

 

A ÚLTIMA ALEGRIA (Segundo poema) - A chuva bate nas janelas.\ Uma flor brilha em vermelho.\ Ar frio sopra contra mim.\ Estou acordado ou morto?\ Um mundo está longe, longe\ Um relógio bate quatro vezes lentamente.\ E eu não sei por quanto tempo\ em seus braços eu caio. Poema da escritora e performer alemã Emmy Hennings (1885-1948), a estrela brilhante do Cabaré Voltaire e associada ao Dadaismo. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTRAS DIC’ARTES

 

JAMES BALDWIN – Para quem foi tratado por “negro sujo” por seus compatriotas e chegar a dizer que “Ser negro significava, exatamente, ser ignorado e ficar simplesmente à mercê dos reflexos que a cor da pele de um homem provocava nos demais”, traz o tom vigoroso e combativo que um escritor de relevo tem de enfrentar na sociedade. A esse respeito, tive oportunidade de ler dois livros do escritor norte-americano James Baldwin (1924-1987): Go tell it on the mountain (Vá, diga isso à montanha) e Gionanni. Para se ter uma mínima ideia da sua arte, destaco de Giovanni: “[...] Muita coisa já foi escrita a respeito de amor que se transforma em ódio, do coração que esfria com a morte do amor. Trata-se de um processo notável, muito mais terrível do que qualquer coisa que eu tenha lido a respeito, mais terrível do que tudo quanto possa dizer. [...] Isso porque sou – ou fui – uma dessas pessoas que se orgulham da força de vontade, de sua capacidade de tomar uma decisão e levá-la adiante. Essa virtude, como a maioria das virtudes, é a própria ambiguidade. Quem acredita ter vontade firme e ser dono de seu próprio destino somente pode continuar a crer nisso quando se torna especialista em enganar a si mesmo. As decisões de gente assim não são realmente decisões, pois para tomá-las, quando verdadeiras, sentimos estar à mercê de um numero incontável de outras coisas, e não passam de complexos sistemas de evasão, ilusão, destinados a fazer com que nós e o mundo pareçamos ser o que nem um nem outro é [...]”. Veja mais aqui.

 Imagem: Ninfas del mar, de Raul Villalba (hoje, na mitologia grega, é o dia consagrado ao Festival das Ninfas)


Ouvindo o álbum Chegada (2005), de Naná Vasconcelos.


RONALD AUGUSTO – Conhecer o trabalho do escritor, músico, editor e ensaísta Ronald Augusto foi uma das gratas surpresas que tive nos últimos tempos. Para quem não sabe, ele é integrante do conselho editorial da excelente Sibilia – Poesia e Critica Literária e do grupo OsPoets (ao lado de Alexandre Brito e Ricardo Silvestrin), autor dos livros No assoalho duro (2007), Cair de Costas (2012) e Decupagens Assim (2012), entre outros. Também edita os blogs Poesia-pau e Poesia Coisa Nenhuma que passei horas navegando e curtindo cada post. Muito bons. Dele destaco Macajuba: “no zinco jovem (continuidade / persistência) grasna o antigo granizo / as bátegas de água do céu ferindo / o chão de folhas secas coberto soam / como o crepitar do fogo precipitado / no empenho de devastar o mundo / o mundo vigas empenadas ainda / que inclinando a esgalhada cabeça / verdoenga respeitosamente / frontispício de ramos sem interruptores / ainda que mudando sua doença em dança / não logra o indulto a palma e nem uma / pequena parte de sua margem oposta: / um mundo adulto mais magro / de homens menos doutores menos nomes / elpenores raimundos momos sem fundo / preguiçosas dobras de pele elefantina / (alfinetes de ouro como estímulo) / * / continuísta a incúmplice realidade em / decupagem / de lâmina objetiva marca a película / de luz ainda cinza do ar / a essa altura uma garoa e agora um friúme / o firmamento repousa coeso a / velha montanha masculina / e o vale / o primeiro círculo do firmamento / * / bosque de ex-outono clareira em ocre / o movimento da luz no momento da / incontornável signifixação mundo / conservado enterrado vivo num aquário / onde a água envidraça-se / de uma a outra borda”. 


MONIQUE BARCELLOS – Lançando em 2013 o seu livro Instintiva em prosa e verso, a jornalista, escritora, artista plástica, professora e blogueira Monique Barcellos reuniu poemas e narrativas num mesmo volume para consolidar suas múltiplas atividades criativas. Para quem transita pela assessoria de imprensa, radiodifusão (ela já tocou o programa de entrevistas Som de Rua), produção de reportagens e projetos socioculturais, comprova simplesmente a sua versatilidade e talento. Daqui nossos parabéns!


WANDERLÚCIA WELERSON SOTT MEYER – A escritora, pedagoga, psicóloga e professora Wanderlúcia Welerson Sott Meyer mantêm dois blogs maravilhosos em que divulga seus textos e impressões. Entre suas publicações destaco o seu texto Reflexões interiores: “Dos avessos que percebo entre realidades que não procuro a ilusão talvez, seja porta entreaberta refletindo possibilidades. Temo que tomada por verdades que nem ao menos sei se permanecem, a dureza das ações cotidianas possa envolver o coração em um estado de torpor indefinido. Há reações que a alma desconhece, contudo, convive por não encontrar caminhos e saídas. Ao tempo, caberá o discernimento das escolhas que nem sempre são individuais. Circunstâncias de vida que direcionam sem consulta prévia, conduzindo vontades exteriores, adaptações que silenciam os anseios e entorpecem os sentidos”.


LIA ROSATTO – Hoje tive a oportunidade conhecer o blog Intervalo, da poetamiga Lia Rosatto, reunindo poemas dos mais extraordinários poetas da literatura de língua portuguesa, principalmente. Passeando pelos posts, encontrei alguns versos dela, entre os quais destaco Palavras inesperadas: “Que sentimentos são esses / invadem minha alma / tira calma / quantas vidas habitam meu ser / transformam calmaria em tempestade / como conter / todos os sentidos / mar agitado / noite escura / lua semi nua”.


Veja mais sobre:
Os encantos de Valkyria Freya, Paulo Freire, Daniel Goleman, a literatura de Pierre Michon,o teatro de Mario Viana,o cinema de Ferenc Moldoványi, a música de Vânia Abreu, a pintura de Carolyn Weltman, a arte de Alexis Texas, Merari Tavares, Saúde no Brasil, Fracasso Escolar & Professor e aluno aqui.

E mais:
A poesia de Benhjamim Péret, Dolls & Cátia Rodrigues aqui.
Paixão, a literatura de Francis Scott Fitzgerald & Djuna Barnes, o teatro de Sarah Kane, o cinema de Ken Loach, a música de Regina Carter, a pintura de Pal Fried & Carolyn Weltman & Jane Graverol, a fotografia de Wang Huaxiang, Jurema Barreto de Souza, Gestão em Saúde, A relação entre professor & aluno aqui.
A música de Kylie Minogue, a poesia de Cláudio Manuel da Costa, o teatro de Michael Frayn,o cinema de Michel Gondry, a fotografia de Jeanine Toledo, a pintura de Carl Larsson, Lucilene Machado, Kate Winslet, Hope 2050, aecamepa, Administração Hospitalar & Síndrome de Burnout, Transtornos & Distúrbios da Aprendizagem aqui.
O alvo do pódice, Cervantes, Márcia Tiburi, Giovanni Sartori, a literatura de Rick Moody, o teatro de Mário Prata & Fernando Rojas, o cinema de István Szabó, a música de Ferruccio Busoni & Gertrud Schilde, a pintura de Omar Ortiz & Emerico Imre Toth, Rachel Weisz, Ádila J. P. Cabral, A Trajetória da Mulher & O cérebro na escola aqui.
Solfejo de uma ária amanhecida & a pintura de Max Klinger aqui.
Cecília Meireles, Pablo Milanés. Pedrinho Guareschi & O mistério da Consciência, o cinema de Jean-Luc Godard, a pintura de Johan Christian Dahl, Juliette Binoche e Myriem Roussel, Costinha, O sufrágio feminino & Programa Tataritaritatá aqui.
Leibniz, Manoel Bentevi, Alceu Valença, Helena Cristina & Programa Tataritaritatá aqui.
Hermann Hesse, a poesia de Wislawa Szymborska, a literatura de Evelyn Lau, a música de Christoph Willibald Gluck & Daniella Alcarpe, a fotografia de Bárbara Angel aqui.
Franz Kafka, a pintura de Anna Chromý, a música de Leoš Janáček & Karyme Hass & Ibys Maceioh aqui.
Adolfo Casais Monteiro, Roberto Burle Marx, a música de Astor Piazzola, a poesia de Antonio Miranda, Adriana Garambone & Doro na Copa do Mundo aqui.
O cinema de Jean Cocteau & Elizabteh Lee Miller, a música de Márcia Novo & Felipe Cerquize aqui.
Frida Kahlo, Alberto Nepomuceno & Luciah Lopez aqui.
Marc Chagall, Gustav Mahler, Artur Azevedo, Lampião & Bee Scott aqui.
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    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996),...