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sábado, agosto 01, 2026

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



 

Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi, semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme, percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman. Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só, cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim, sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais ver.


Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jenny Holzer: Como você se resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente externo como estranho... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Acho que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas de alegria... Veja mais aqui & aqui.

 

A MÃO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \ esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.

Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima – 1961-2026).

 

CONJUNÇÕES & DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos, seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano – 1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade, sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de 1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta... A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre: as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo. [...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (Farrar, Straus and Giroux, 2021), da filósofa e escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de Oxford.

 

A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS

[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo [...].

Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de  Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


ASCENSO FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros, bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.

 


LITERATURA DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas, violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino, ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta manifestação da poética nordestina. Confira aqui.

 


ANCESTRALIDADE NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.


 

A ARTE DE EVANDRO NICOLAU – Destaque para a arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto, nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.

 


DIÁRIO DOS ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.


 


segunda-feira, julho 07, 2025

DIAGNE MBENGUÉ. SARAH HALL. NATALIA LITVINOVA & MARCELA BARROS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Standard Stoppages (Cedille, 2025), Montgomery: Rhapsody nº 1 (Rubicon, 2024), Contemporary American Composers (CSO Resound, 2023), Songs for Our Times (Deutsche Grammophon, 2023), Bach / Gould Project (Azica, 2015) e Strum: Music for Strings (Azica, 2015), da violinista, compositora, musicista de câmara e educadora musical estadunidense Jessie Montgomery.

 

Jogral do Quinteto Normótico Neuroticida... - Sabe aquela do como é que é mesmo? Sonsonildo repentinamente adentrou no recinto laboral e de supetão sapecou seu escrutínio como uma cusparada provocadora: - O ser humano é a desgraça da humanidade! Disse e esperou o rastilho dos pipocos aos estilhaços, pronto pro escarcéu. Logo ele um impulsivo peidão hipocondríaco, que arrastava uma mala como se fosse uma farmácia ambulante, com sua imaginária autodiagnosticada doença grave e rara, um abjeto TOC de amolegar seu pênis e depois levar os dedos às ventas para conferir o teor da catinga, e sempre assombrado aos reclamos com o menor zunido de moscas, mosquitos, muriçocas, pernilongo ou inseto que fosse, entre os asquerosos tratados por contagiosos e capaz de acamá-lo até a sepultura! Diante dele, a primeira a dar conta do vitupério e pronta pro bateu-levou, foi a Aviduslina, ressuscitando de suas prolepses como se emergisse avexada assim do nada a dar o seu veredicto: - Taí, dessa vez concordo com você! E se riu com seu ar de arroz de festa, logo empanturrando-se com dois pacotes de salgadinhos e esquecendo por um instante sua guerra contra o relógio. Ao lado dela, o Prostracildo parecia acordar-se do marasmo de sua apatia, pelo sinal milagrosamente alentador que o tirou de sua suicida vida depressiva: - Oxe! E num é que é mesmo, nem havia me dado conta disso! Disse com seu jeito insosso de desânimo, deixando de lado as ruminações do seu caleidoscópio de analepses, para chamar a atenção dos demais presentes: Há dias que deveríamos ter feito isso! Do outro extremo da sala, Curiosaldia calmamente ajeitou os óculos para enxergar direito o que ouvira e obtemperou: - Você, Sonsonildo, pela primeira vez, tem razão! Mas, diga logo aí: Qual é a sua droga? Ponderou ela envolvida na fedentina de sua própria flatulência, esquivando-se à francesa, como quem escapole pra não ver o circo pegar fogo: - Vou ao banheiro! E à porta, como se jogasse mais gasolina no fogaréu: E quem é essa tal de Dias, hem? Das funduras do ambiente despertou Artesildo concentradíssimo com os últimos lançamentos da moda: - E num é que ele está certo! Nossa! Eita! Nem perceberam a unanimidade inaugurada desarmando os encrenqueiros prontos pro embate. Entreolharam-se e o hipocondríaco revoltado deu meia volta e, arrependido com a concórdia, querelou: - Vou-me embora, vocês estão todos infectados pela moléstia, desgraçados! A glutona-que-não-parava-quieta arranchada no seu birô estraçalhava um pacote de biscoito recheado e, às mastigadas, sentenciou: - Esse perebento não aguenta o badalo: arma o gatilho e, na hora do disparo, sai correndo! Frouxo! Por sua vez, o pessimista vicariante amargava a disputa se desvanecendo fugidia, fechou-se em si com desdém: - Ah, tenho mais o que fazer diante da morte, ora! Então a zarolha desentendida voltava do banheiro e sem saber o que se sucedera de fato, demorava para enxergar o que realmente acontecera, soltou um pum e deu de ombros: - Eu, hem? Já com ar de vitorioso, o shopaholic-com-um-cotoco-no-rabo ajeitou a gola da camisa, conferiu o vinco da calça e preferiu voltar pras escolhas de suas novas aquisições da moda, ignorando a situação constrangedora ao destilar, por fim, o seu veneno: - Vôte! Vai pra lá, pé-frio-duma-figa! Assim se entendiam entediados aos desentendimentos, não se tratasse de ocasião tão risível quanto deprimente, tudo seguia naquela esquecida repartição de Psicopatolândia (ou seria Alagoinhanduba?). Ah! Até mais ver.

 

Jhumpa Lahiri: Por que eu escrevo? Investigar o mistério da existência. Para me tolerar. Para chegar mais perto de tudo o que está fora de mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Eu sempre soube que dizer que o indizível seria uma coisa poderosa... É por isso que colocam borracha na ponta dos lápis... Porque as pessoas cometem erros... Veja mais aqui.

Marianne Williamson: E ninguém nos ouvirá até que nós mesmos nos ouçamos... A prática do perdão é a nossa contribuição mais importante para a cura do mundo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O RISO DELA - é uma explosão \ de alegria \ e nostalgia \ como a minha dança \ diante do espelho \ em seu vestido. \ O que aconteceu com o homem \ que um dia a recebeu \ do outro lado da floresta?

PARA SE ENCONTRAR - Com um homem \ do outro lado da floresta \ é viver o mistério,\ explicou mamãe \ quando perguntei \ para onde ela ia \ à noite. \ O mistério \ é um pombinho cacarejando, \ implorando por comida \ de uma mãe ausente. Desespero \ maravilhoso saciado.

Poemas da escritora, tradutora e editora argentina de origem bielorrussa, Natalia Litvinova.

 

CASACO QUEIMADO - [...] Eu sou a madeira no fogo. Eu experimentei, alterei a natureza. Estou queimado, danificado, mais resiliente. Uma vida é uma gota d'água na superfície negra, tão frágil, tão forte, seu mundo incrivelmente sustentado. [...] Tenho essa sensação de estar desconectado e muito longe da tomada e o que resta é uma barra vermelha de alerta. [...] Há cegueira para novos amantes. Eles existem na atmosfera rara de sua própria colônia, confiando por instinto e tato, criaturas se consumindo, construindo abrigos com suas esperanças. Outros mundos cessam. Eu sei que senti algo quando começou, uma compreensão, um pressentimento, até mesmo uma ordenança. O amor nunca é a história mais antiga. Ele cresce na escuridão intensa. [...]. Trechos extraídos da obra Burntcoat (Faber & Faber, 2021), da escritora inglesa Sarah Hall, autora das obras Mrs Fox (2019), Madame Zero: 9 Stories (2017), The Wolf Border (2015), The Beautiful Indifference (2011), How to Paint a Dead Man (2009), Daughters of the North (2007), The Electric Michelangelo (2004) e Haweswater (2002).

 

FALAR AO MUNDO DA MESMA FORMA QUE OS OUTROS - [...] Além da emoção, além da reação, precisamos ser capazes de sentar juntos, ler o mundo juntos de maneiras diferentes e entender que essas diferentes maneiras de ler o mundo só podem nos enriquecer, em vez de nos tirar algo. E acredito que essa co-construção do mundo, essa coconstrução da humanidade que compartilhamos, é um dos maiores desafios do momento. Este consórcio também busca contribuir para isso. [...] Agora somos um mundo interconectado: os problemas de uma pessoa são problemas globais, e os problemas de outra pessoa são problemas globais. [...]. Trechos da entrevista l’Afrique doit «dire le monde au même titre que les autre (Reseau Scolaire, 2023), concedida pela filósofa senegalesa Diagne Mbengué (Ramatoulaye Diagne Mbengué), que na obra Le modernisme en Islam: Introduction à la pensée de Sayyid Amir Ali (L'Harmattan, 2019), expressou que: [...] A sociedade deve ser uma sociedade aberta, uma sociedade na qual cada pessoa possa se reconhecer. [...].

 

AGRESTE LENTICULAR, DE MARCELA CAMELO BARROS

[...] Escrever sobre o que somos é uma história que não é exclusivamente minha, ela se repete na ancestralidade de milhares de mulheres nordestinas [...] É um reforço para a nossa identidade, constantemente apagada pelo silenciamento da história das mulheres, para entendermos que viemos de mulheres fortes [...] corajosas e transmissoras de conhecimento. Assim como eu recebi esse saber, quem sabe agora não transmito? O lenticular é a ponte para a transmissão da representação de mulheres do Agreste, mas também um fenômeno de ilusão. Teria a comunidade do Trapiá, a partir do fenômeno das rezadeiras, um vestígio de dominância feminina? Acredito que o ideal de sociedade matriarcal nas zonas rurais do Nordeste é como a ambiguidade da imagem lenticularizada: entre pequenos movimentos do olhar, surgem lampejos como as manifestações da religiosidade popular, os encontros das mulheres, da insubordinação às instituições oficiais. Uma árvore tem sua origem na semente. Sem demagogia, há esperança. [...].

Trecho extraído da tese de doutoramento sob a temática Agreste lenticular: pesquisa e criação em suporte artístico (UFPE, 2023), da artista visual e professora Marcela Camelo Barros, que concentra em suas pesquisas recentes autoestereoscopia, imagem lenticular e processos de criação junto às manifestações da religiosidade popular feminina do Agreste de Pernambuco, autora do projeto Agreste lenticular: Pesquisa e Criação em Suporte Artístico. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.




GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...