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sábado, dezembro 25, 2021

JOAN DIDION, LATIF PEDRAM, NÚRIA AÑÓ & WALTHER MOREIRA SANTOS

 

 

TRÍPTICO DQP – Labirinto Verbo... – Ao som do álbum Dance: Piano Collection (Chandos, 2008), da pianista britânica Kathryn Stott. – A vida era um salto no quintal, não mais, hoje será de mim no mapa da jornada pelas cartas de tarô: um louco de pedra na porta como se eu fosse o carro da desgraça ladeira abaixo, justiça alguma e a roda da fortuna nas garras do carcará com seu ataque para roubar o vigor dos fracos. Francamente era nada mais que o enforcado suspenso no tempo com o golpe na torre da destruição. Logo apareceu o poeta Virgilio para meu espanto a me mostrar sobre a porta da caverna da sibila de Cumas o desenho da mulher que logo se tornou viva e era a papisa que chegava com o cometa Leonard – ou melhor, como quem esculpida sobre as lajes da catedral para me levar no passo de Yu com a dança de Teseu pelas pedras brancas e azuis escuras da catedral de Amiens, enquanto me purificava para que eu tivesse acesso ao seu lar na The Lotus Eaters. Hem? Lá fez a revelação de tesouro incalculável oculto no seu ventre – o tosão de ouro de Cólquida, as maçãs de ouro do jardim das Hespérides, o machado de dois gumes, mais e mais. E não demorou muito para ser a puta com toda solenidade da cama na viagem iniciatória ao centro escondido de seu clitóris. Muito foi o prazer a percorrer de mãos dadas pelas espiras em degraus do zigurate, alegando me salvar do papa demoníaco, do anjo negro, do mago sobrecarregado de embuste, do imperador corrupto. Eu mais que gostando, como poderia, não sei, era nada mais que a imperatriz a me levar pro seu palco de Madonna sussurrando Celebration ao meu ouvido: I think you wanna' come over… and if it makes you feel good then I say do it, / I don't know what you're waiting for…Feel my temperature rising / There's too much heat I'm gonna' lose control / Do you want to go higher, get closer to the fire, / I don't know what you're waiting for… E deitou-se no chão frio e me fez tirar suas botas, para agarrar-me loucamente e depois me arrastar até ficar nua na cama do palácio cretense de Minos. Era ali Pasifae como se eu fosse o seu touro priápico indomável para todos os orgasmos. E nem bem o primeiro gozo emergiu e ela me deu o fio de Ariadne para enfrentar o minotauro que sou no meu próprio labirinto, a me fazer o enamorado tolo que ia pelos duzentos metros de Chatres, seguindo as suas pegadas que deram num templo de Khajuraho com o aviso de que eu devia encontrar o eremita cego em Angkor. Não era isso que eu queria e ela era uma vairocana no centro da mandala dupla, feito uma japonesa budista de Shingon para me dar o lótus de oito pétalas dos confins tibetanos e ao comê-las logo me apareceu a virgem lua que me deu da sua vagina linda o círculo mágico do labirinto de Leonardo da Vinci. Ao me dar nasceu uma estrela esperança pelas três dimensões de dédalo helicoidal, a me embriagar com a dança em círculos concêntricos do inextrincável segredo de Salomão e as doutrinas ascético-místicas e cabalísticas do ato. Quando olhei direito era ela a alquimista temperante a me oferecer a mandala escondida na caverna do seu sexo para eu poder encarar a morte no templo de Borobudur, onde o Homem de Java me esperava para que ela se tornasse a montanha de Hsinhsien, sim, aquela de Wuchang esperando sentada o seu marido que foi pra guerra e nunca mais voltou. Não deu para ver que o Sol raiava e o julgamento seguia célere na janela do mundo. Ao me ver sem saber o que fazer, ela me confidenciou como se fosse Joan Didion: Eu já perdi contato com algumas pessoas que eu costumava ser. Para libertar-nos das expectativas dos outros, devolver-nos a nós mesmos - aí está o grande e singular poder do respeito próprio. Você precisa escolher os lugares dos quais não irá se afastar. Era para eu saber que, na vida, o que se faz, apenas é cavar o próprio buraco.

 


A tertúlia no Deserto Feliz... - Imagem da cenógrafa, ilustradora, performer e artista multimídia Dora Longo Bahia. - Dali a minha cidade era a mesma tal e qual aquele Deserto feliz (2007) do Paulo Caldas: mesmices, vidas bestas, tráfico de animais e de vidas, exploração sexual e o marasmo das doentias pensagens dos que acham que vivem. Estava só e segui meu caminho. Ao dobrar a esquina apareceu-me Jéssica como tantas outras, a me oferecer seu corpo púbere. Estava faminta, dei-lhe um prato de comida e me contou de sua fuga de estupro do padrasto, em busca de um alemão Mark em Berlim. Quando menos esperei, ela não estava mais ali de não mais sabê-la por meses e anos. Apareceu-me, então, Bernardo Soares à procura dela. Não era alemão, pelo sotaque lusitano... Apresentou-se e insistiu para saber onde ela estava, eu não sabia e perguntei por Fernando e ele me disse que o ortônimo estava em tertúlia ébria com seus muitos heterônimos, da qual ele se vira excluído e reduzido à leitura apenas do seu desassossego, mais nada. Não sabia ele que eu sabia dos mares de Admmauro. Quando mencionei, puxou-me pelo braço e no bar mais próximo pediu uma bebida. Ingeriu e pediu outra e mais outra como se aprontasse para um pugilato. Logo se sentou numa mesa armado de copo e garrafa para lamentar o seu desespero – a paixão por ela. Disse-me ser um trivial ajudante de guarda-livros, simples empregado, solitário alfacinha e autor de um único livro inútil e que, para ele, nada valia por ser uma autobiografia sem fatos de quem nunca existiu, tediosa, trágica e indiferente à estética, próprio dos visitantes das casas de pasto. Se um jogo de máscaras, logo entendi, pareceu ter entrado num paroxismo inquisidor: Você conheceu o poeta sul-africano Alexender Search? Soube do filósofo neopagão António Mora que morreu doido num hospício de Caiscais? Já leu o Tratado da Negação e os Princípios da Metafísica Esotérica de Raphael Baldaia? E falou sem parar sobre uns tais Charles, o James Search e o Anon, um certo Jean Seul, o Pacheco, o Pêro Botelho, o Thomas Crosse, nomes e outros nomes que sequer antes ouvira, tão loquazes quanto a sua eloquência. Quase nem entendia direito o que questionava e contava deste ou daquele, ora. Por fim, o olissiponense, quase adernando com sofreguidão de enrolar a língua baça da Baixa pro Tejo, me disse: Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto... Abruptamente saiu gritando: fogo!

 


O fogaréu de Sheila... - Imagens: a arte da escultora, fotógrafa e artista visual Keila Alaver. - As labaredas eram reais naquela onírica situação. Era como se tudo ardesse com os ventos agourentos de Poi-i-Komri. E não era Gengis Khan pisoteando as páginas arrancadas dos livros da mesquita de Bukara, nem Augusto mantendo suas ideias políticas na Roma antiga contra as obras oraculares e proféticas, ou o cumprimento da ordem do sultão para os que eram contrários ao Alcorão. Não, não era. Também não era a biblioteca do Quixote benzida pelo escrutínio da fúria inexorável e incendiária do padre, do barbeiro e da sobrinha do autor, nem o final do Nome da Rosa de Umberto Eco com o incêndio da biblioteca do mosteiro e o bibliotecário cego Burgo se desesperando com as chamas da fogueira de livros. Não, não era. Muito menos estudantes levados por Goebbels depurando mais de 25 mil livros na limpeza do Ato contra o Espírito Não Germânico, nem aquela triste queima dos 55 mil livros do centro cultural Hakim Nasser Kosrow Balki. Não. Nem o incêndio da biblioteca de Alagoinhanduba, nem aquela diária da Fenelon Biblioteca. Logo ouvi para minha surpresa: Olheu! Era Sheila toda frochosa carregando o anátema dos seus enciumados oitocentos mil maridos. Era ela toda piromaníaca nas minhas ideias a me deixar a par da ocorrência: uma diretora Savonarola do colégio grifado, queria por que queria repetir o incêndio de Persépolis e conseguiu chamar atenção para se eleger prefeita da cidade. Queimou todos os livros da biblioteca e não foi a primeira vez naquela escola. Eu que me inquietava com seu útero imanizante e abrasado, subitamente fui surpreendido por um poetaguado intrometido que imediatamente recitou pra ela: Essa moça é cangaceira / bota o rifle na cintura / enfrenta a feroz criatura / na maior das desgraceiras / se brincar é cachaceira / de tomar o que vier / quem pensa que é mulher / logo vê que é bronqueira. / Essa moça é bandoleira / de endoidar qualquer um / bota amante no jejum / solta vai pela buraqueira / de deixar o cabra apaixonado / com os pneus tudo arriado / amalucado na maior leseira. Ela então fitou o impetuoso dos pés à cabeça, deu-lhe as costas e me entregou um saco contendo as obras do premiado escritor e ilustrador Walther Moreira Santos: O doce blues da salamandra (MXM, 2000), Um certo rumor de asas (Nova Prova, 2003), Helena Gold (Geração, 2003), Dentro da chuva amarela (Geração, 2006), O Ciclista (Autêntica, 2008), O metal de que somos feitos (Cepe, 2014), Todas as coisas sem nome (Cepe, 2017) e Arquiteturas de vento frio (cepe, 2017). Enquanto conferia atordoado pela presença dela, apareceu-me Latif Pedram que jamais conhecera e na hora pensei ser mais um dos apaixonados dela: Nós, os poetas e os escritores afegãos, somos cativos desta encarnação da estupidez que se abateu sobre nós como um manto de chumbo. Quem era? Aquele mesmo que foi o fundador e líder do Partido do Congresso Nacional do Afeganistão e do Conselho do Afeganistão do Tajiquistão! Até ele? Parecia mais mangando da desgraça do nosso genocídio Fecamepa do Coisonário. Ela que me disse quem era e aproveitou para me recitar um poema de Alex Polari: Nossa geração teve pouco tempo / começou pelo fim / mas foi bela a nossa procura / ah! Moça, como foi bela a nossa procura / mesmo com tanta ilusão perdida / quebrada, / mesmo com tanto caco de sonho / onde até hoje / a gente se corta. Era como se ouvisse os trechos do The Dead Writer (‎Babelcube, 2018), da escritora espanhola Núria Añó: Prefiro estar do lado dos perdedores, das pessoas incompreendidas ou solitárias, em vez de escrever sobre os fortes e poderosos. Uma espera sem fim que aceita como outra parte do que eles chamam de amor. Era ela e esta a minha cidade, Valuna, porque não há mais Bacuna, mulher amada. Até mais ver.

 

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sábado, setembro 30, 2017

EMERSON, MONTEIRO LOBATO, GENERINO BATISTA, PAULO CALDAS, SERGIO VALLE & PADRE CÍCERO

A SEGUNDA DO PADRE CÍCERO – Depois de matar duas, o Padre Cícero obrou milagre: ressuscitou uma delas. A que se foi, Deus tenha em bom lugar. Desse dia em diante, Vera nunca mais deixou de dedicar uma hora que fosse do seu dia, para contritas rezas pro seu devotado. Não perdia sequer a oportunidade de narrar aos amigos e presentes acerca da experiência de ter visto de um só lance anteriores encarnações, como teve a oportunidade de ser levada por seu padroeiro, à presença do Criador, de passear no céu, de ficar alarmada com as cavernas de fogo do inferno, de ser recepcionada no purgatório e de ressurgir incólume do Hades. Graças ao seu santificado padrinho, pode percorrer tudo e retornar com vida para contar a todos. Tanto é que a tia dela, bastante sensibilizada com o que ela contava repetidamente, passou, então, também a adorá-lo, a ponto de, certo dia, ao chegar na feira, deu de cara com uma imagem que se diga lá de mais ou menos, mas que lembrava bem o virtuoso pároco nordestino. Quanto é? Quinhentos. Dou cem! Quatrocentos! Duzentos! Trezentos! Aí ela abraçou-se com ele, viu que era pesado, tinha pra mais de metro e meio, quilos do muito. Duzentos pra deixar lá em casa! Duzentos e cinqüenta! Fechado. Onde a senhora mora? Ela dobrou o beiço de baixo, como se apontasse a direção: logo ali. O vendedor emborcou a imagem na cacunda, pesava muito, andou mais ou menos uns quinze a vinte quilômetros, não sei, aos reclamos: A senhora não podia morar mais longe não? Chegamos! Ah, ainda bem! Dinheiro na mão, santo num canto da sala. Todo dia, ela e Vera se ajoelhavam em preces por horas. Deu-se um dia da tia bater as botas e havia um pedido seu a ser cumprido no sepultamento: ela queria ser enterrada com a imagem do santo. Mas não dá! Tem que dar, é o último pedido dela, tem que ser cumprido. Um bêbado aproximou-se do caixão: hem, hem, tão nova, partiu dessa pra melhor. E ouviu a arenga entre Vera e o rapaz do serviço funerário: ah, pedido de morta tem que ser cumprido! Vai pra lá, bêbo! Quando deitaram a imagem, era maior que a defunta! Num tá vendo? Providenciaram outro caixão: também não dá, o chapéu do padre é muito grande! Aí o bebo: besteira, tira o chapéu! Foi, então, a marteladas, arrancaram a aba do chapéu. Quanto trouxeram a estátua para colocá-la no caixão, o bêbo gritou: eita, o padim padre Cícero veio de moto, oxe, vão enterrá-lo com capacete e tudo, é? Sai pra lá bebão. Fecha o cachão! Perai, deixa eu me despedi do santo e da defunta! Vai pra lá, cachaceiro! Tenho direito! E deixaram, o embriagado abriu a tampa do caixão e gritou: Pade Ciço, não me enrole, vá, me dê a chave da moto que eu quero ir pra casa! Avie, homem! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o cantor e compositor Elomar Figueira de Mello com seus álbuns Das barrancas do Rio Gavião & Fantasia leiga para um rio seco; a pianista, compositora, artista e diretora japonesa Tomoko Mukaiyama interpretando Multus #1 Canto Ostinato, Zorn Bolcom Zappa & Illuseum #1; o guitarrista e violonista Ricardo Silveira com seus álbuns Bom de tocar & Sky light; e a cantora e compositora Ná Ozzetti com os álbuns Love Lee Rita & Show. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Nossos olhos são limitados, de modo que não podemos ver as coisas que estão bem à vista, até que chegue o momento em que nossa mente esteja amadurecida. do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A HISTÓRIA DA PENINHA - Um sujeito propôs a outra esta adivinhação: “Qual o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?” Está claro que ninguém adivinhou. – Pois é o gato, explicou ele. – Gato com peninha na cauda? – Sim. A peninha está aí só para atrapalhar. Trecho extraído do texto O nosso dualismo (Cult, maio/2002), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SOL ALÉM DA MINHA RUA – [...] A rigor, o destino parecia ter-lhe reservado o desconforto divino das viagens de ônibus. Aperto, calor, tempo perdido. A vida é difícil, cruel, para quem é jovem pai de família e vive feito eu, sem perspectiva numa grande cidade do terceiro mundo. Cruel no sentido que o destino, se é que existe, costuma premiar poucos e punir a maioria. Cruel pra fechar o horizonte aos anseios dos mais jovens. Trecho extraído da obra O sol além da minha rua (Bagaço, 2003), do escritor e editor Paulo Caldas. Veja mais aqui.

EITA, GOTA! – Você tem toda razão / dizer que não falo bem / papai chamava pru mode / mamãe dizia qui nem / um filho desse casal / que português é que tem! Poema do poeta Generino Batista. Veja mais aqui e aqui.

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Recepcionando a estudantada com os poetas Paulo Santos & Genésio Cavalcanti na Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
Padre Cícero matou duas aqui.
A arte musical e poética de Elomar aqui e aqui.
Vera indignada aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Tomoko Mukaiyama aqui.
Dia da Secretária aqui e aqui.
A secretária do Tataritaritatá aqui.
A arte musical de Ná Ozzetti aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista multimídia Sérgio Valle Duarte.
Veja mais aqui.
 

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...