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quinta-feira, novembro 22, 2018

MARGARET ATWOOD, TOMOKO MUKAIYAMA, DAVID WALKER & ROBERTA ABREU


SEGUIR ADIANTE – Quantos segredos no meu exílio noites a fio madrugada adentro e as lembranças povoam o menino travesso na beira do rio que me deu a vida e o aprendizado de empinar papagaios, galinha d’água na corrente, a terra batida ao solado dos pés, trelas e folgas aos quatro ventos. Quantas vezes não fui ao brinquedo para saber que outros nem tinham como brincar, e brincávamos todos aos pulos e arengas, apostas e desafios, o que parecia nunca mais acabar. Quantas vezes não me atrepei em muros e galhos seguros à cata das intimidades femininas com suas vestes sumárias a cobrir seus corpos seminus, areando panelas, lavando roupas, tomando banho, nada mais radiante que a exposição de coxas e seios, a findar em carreiras na hora do flagra. Quantas vezes a pedalar pelas ruas enfrentando surpresas juvenis por catombos ou empurrões de corpo, mãos esquentadas na calçada e arranhões arrancando samboques aos joelhos, a fuga dos latidos e a pressa de ir pra casa me livrar de reprimendas e castigos. Tantas não foram sob o céu nublado de nuvens carregadas inaugurando a temporada no inferno e o vento úmido anunciando a invernada que me faria doravante sobrevivente das horas mais periclitantes. Quantos segredos guardados na cidade que gemia aos golpes da tirania, com todos os arroubos da violência e na violação dos direitos, tiros e lâminas entre os dentes que rangem outros temores e a minha morada mais parecia um navio que ia a pique, quilha partida, para que eu e muitos procurassem salvação à deriva no mar aberto de todas as adversidades. A cidade antes minha cada vez mais estranha e eu estrangeiro ao desalento pelo sufoco de mercenários déspotas esquentados pelo álcool sobre os submissos antepassados e nenhum gesto esboçado, a tomar de mim e de todos o que era de todos a sumir na festança invisível. Era ali que aprendia indignação com as invectivas das víboras com seus pretextos obsequiosos de tramar travessia a pregar zis peças e minha gente embotada levando corda para farsantes truculentos e nada mais era que um deserto das miragens coloridas. Não me podia dar de ombros e reduzir-me ao silênci0, nem queria, nem me fazia alheio a tudo com olhos túmidos e tímidos salvando as nesgas de sonho entre mãos e abraços, e por quimeras que julgava a hora certa e passavam incólumes pro desapontamento, outras vezes vinham incendiando os ânimos para serem jamais. Tantos segredos esquecidos na memória e os anos se passaram acumulando o arrastado e aprendia às duras penas a lição que não devia. E aprendi de verdade o temperamento ameno pelas bênçãos de Deus e mil vezes abençoado na perseverança por duros labores, não podia me acomodar e nenhuma queixa nos lábios quando tudo saía errado e até algumas vezes dava certo quase nenhuma, assobiando de contentamento por ter que enfrentar sempre e a cada dia com bonomia entre mutirões na inexprimível satisfação de ter o peito aberto paratodos que sequer sabem dos segredos da alvorada e a se valerem da vida após o crepúsculo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A Natureza exige variedade para homens. [...] As mulheres sabem disso instintivamente. Por que elas compravam tantas roupas diferentes, nos velhos tempos? Para enganar os homens levando-os a pensar que eram várias mulheres diferentes. Uma nova a cada dia. [...] pararei de reclamar, aceitarei meu destino. Eu me sacrificarei. Eu me arrependerei. Abdicarei. Renunciarei. [...] Quero continuar vivendo de qualquer forma que seja. Renuncio a meu corpo voluntariamente para submetê-lo ao uso de outros. Eles podem fazer o que quiserem comigo. Sou abjeta. Sinto, pela primeira vez, o verdadeiro poder deles. [...]
Trechos da obra O conto da Aia (Rocco, 2017), da premiadíssima escritora e crítica literária canadense Margaret Atwood. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista britânico David Walker
Veja mais aqui.

AGENDA:
O novo CD da cantora e compositora Roberta Abreu & muito mais na Agenda aqui.
&
A música é dela, Hermilo Borba Filho, Oswald de Andrade, Alfred Whitehead, Michel Foucault, Irmãos Grimm, Aglaura Catão, Eliane Elias, Terra Chapman & São Joaquim do Monte aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da pianista, compositora, artista e diretora japonesa Tomoko Mukaiyama: Japanese Erótica, Sonatas de Sofia Gubaidulina, Inner Peace de Vanessa Lan & Op Oerol & muito mais nos mais de 2 milhões & 900 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


sábado, novembro 11, 2017

ROLAND BARTHES, MIRCEA ELIADE, OSHO, CYRIL MANN, HELYLDA LANDIM, PELÓPIDAS SOARES, BHASÍLIO SANTTOS, RIO FORMOSO & PROFESSORA HILDA.

PROFESSORA HILDA – Imagem: arte da artista plástica Helylda Landim. - Era manhã ensolarada e eu avisto ela passar na calçada oposta da biblioteca, aquela de sempre agora carregando nos ombros os seus quase oitenta janeiros ou quase isso, não sei, para me levar às lembanças da infância, a escola primária, o bêabá, as palavras, as noções de matemática, as estórias contadas, e ela ali era pra mim, mais que todas as heroínas prediletas dos gibis e tevê, mais que as beldades das capas de revista, mais que as glamourosas atrizes do cinema, a me encantar com os ensinamentos que eu só me daria conta tempos depos. Não desgrudava o olhar nem perdia atenção com nada, a não ser as suas explicações no giz do quadro negro, pronto para responder a qualquer pergunta que ela fizesse pra turma, queria ser o primeiro, sempre o primeiro, mas me perdia em fugir dos malassombros embaixo da cama e me livrava dos carões pelos arremedos e olhadelas nas fechaduras alheias, e ao surgir a pergunta eu mergulhava num branco de não me lembrar de nada, pego de surpresa, passando batido, desatento, ah, eu me embaraçava e me encantava com a sua voz ao ditado acendendo a imaginação para as trelas de menino que vivia de pular o esgoto do pó de serra, e se esgueirava pela menor fresta na porta para ganhar o mundo, e passava a perna pelo portão para driblar cangalhas e zambetas rumo a casa de Pai Lula & Carma, e me escondia da privação de tudo que maínha exigia aos cuidados das minhas enfermidades recorrentes, para ganhar à farta tudo quanto quisesse ao bel prazer da gula, empazinado com biscoitos, doces, bolos, ponches, quitutes e delícias de lanches feitos na hora. Ah, como eu adorava o recreio para saborear tudo quanto fosse servido ao paladar e da mesma forma eu ficava entretido com a professora contando pra gente coisas que amainavam meu sofrimento de sexta pra segunda por não haver aulas nesses dias, mesmo que eu me virasse correndo atrás de bola e brincadeiras de todo tipo, sempre me aprontando para ouvir minha mãe gritar que hoje não tem aula, menino, hoje é sábado, deixe de ser avexado! E repetia no dia seguinte, se aquiete, menino, hoje é domingo, e eu corria pra cima e pra baixo, aprontando de tudo a brincar com meus cadernos e os livros do meu pai que eram confiscados no meio da brincadeira, até sonhar o dia todo na sala de aula até ao amanhecer bem cedinho, todo pronto e embecado na farda da Maçonaria, para mais um dia de aprender com ela, meses a fio com os olhos apregados nos mínimos detalhes de cada assunto só para encantá-la, porque eu já encantado queria mais que os coleguinhas que distribuíam presentes na chegada com frutas, lembranças e brebotes, e eu bolsos e mãos vazias, só tinha nada mais que uma quadrinha em versos para lhe presentear no final da aula, depois que todos já haviam presenteado. Era ela, a professora Hilda, que me me fazia retornar à vida depois de novembro a fevereiro, ao sucumbir nas férias às reinações e pisas, se endireite menino, ela passando a mão à minha cabeça de dengoso, é uma criança e precisa de carinho, relevando minhas presepadas, por isso e muito mais a tinha em alta conta na estima e no meu coração de menino levado. Era ela, professora Hilda Galindo Correia, que enchia meus dias de entusiasmos para decorar a lição, ser o primeiro que nunca fui da classe, atarantado com a sua beleza e prestando atenção a tudo, nas perguntas e respostas, a minha vez, sempre dava um branco, de novo! E eu me esforçava por agradá-la por ser ela a dona do meu coração infantil e só sabia me expressar por meio dos versos da quadrinha que mal sabia escrever. Era ela a rainha dos encantos do meu coração menino, hoje homem feito, que a vê apenas passando na calçada oposta da biblioteca, para manifestar toda minha gratidão de criança sonhadora que sou até hoje. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do saudoso maestro, compositor, arranjador, saxofonista e clarinetista Paulo Moura (1932-2010) interpretando Radamés Gnatalli & Confusão urbana, suburbana e rural; a cantora e compositora portuguesa Eugénia Melo e Castro cantando Vinicius de Moraes e outros dos seus sucessos; o guitarrista de jazz estadunidense Pat Metheny desfilando Speaking of Now Live & The Way Up; e a pianista, compositora, artista e diretora japonesa Tomoko Mukaiyama executando At the illeseum (parts 1, 2 e 3) e músicas de obras de John Zorn, William Bolcon & Frank Zappa. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Toda a nossa educação – na família, na sociedade, na escola, na faculdade, na universidade – cria tensão em nós. E a tensão fundamental é a de que você não está fazendo aquilo que deveria fazer. E essa tensão persiste durante toda a sua vida; ela o acompanha como se fosse um pesadelo, está sempre o assombrando. Nunca o deixa descansar, nunca lhe permite relaxar. [...] Se você fizer algo de bom, ela vai lhe dizer: “Você é um tolo. Fazer o bem não compensa; as pessoas vão lhe enganar”. Se você fizer algo de ruim, ela vai lhe dizer: “O que está fazendo? Você está preparando o caminho para ir pro inferno; você tem de sofrer por isso”. A mente nunca vai deixá-lo descansar; faça você o que fizer, ela estará sempre condenando-o. Esse censor foi implantado em você. Essa é a maior calamidade que aconteceu a humanidade. E, a menos que nos livremos deste censor que existe dentro de nós, não poderemos ser verdadeiramente humanos, não poderemos ser verdadeiramente alegres e não poderemos participar da celebração que é a existência. E agora ninguém pode removê-lo, exceto você. [...].Trecho extraído da obra Destino, liberdade e alma: qual é o sentido da vida? (Planeta, 2011), de Osho – o filósofo místico Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

RIO FORMOSO - O distrito de Rio Formoso foi criado pela Lei municipal 85, de 04 de maio de 1840, passando a vila por atodo Conselho do Governom em 20 de maio de 1833. Foi desmembrado do município do Recife ascendendo à categoria de cidade por Lei Provincial 258, de 11 de junho de 1850. A cidade foi edificada em terras do engenho de mesmo nome, a partir de uma capela que existia de 1637, tornando-se palco de muitos combates durante a ocupação holandesa e os seus feitos estão registrada na história. A divisão administrativa do município compõe-se do distrito-sede, Cucaú, Saué e Tamandaré. Anualmente, no dia 11 de junho, a cidade comemora a sua emancipação política, conforme a Enciclopedia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

CONTO DE FADAS X MITO: OTIMISTMO X PESSIMISMO - [...] É impossível negar que as provações e aventuras dos heróis e heroínas do conto de fadas são sempre traduzidos em termos iniciatórios. Ora, isto me parece de importância primordial desde o tempo – que é tão difícil determinar – em que os contos de fadas tomaram forma enquanto tais, os homens, tanto primitivos como civilizados, escutaram-nos com um prazer suscetível de repetição indefinida. Isto equivale dizer que os cenários iniciatórios – mesmo camuflados como o são nos contos de fadas – exprimem um psicodrama que responde a uma necessidade profunda do ser humano. Todo homem deseja experimentar certas situações perigosas, confrontar-se  com provas excepcionais, entrar à sua maneira no Outro Mundo – e ele experimenta tudo isso, no nível de sua vida imaginativa, ouvindo ou lendo contos de fadas [...] são modelos para o comportamento humano que, devido a este mesmo fato, dão significação e valor à vida. [...]. Trecho extraído da obra Ritos e Símbolos de Iniciação (Birth and Rebirth - Harvill Press, 1958), do filósofo, professor, cientista das religiões, mitólogo e romancista romeno Mircea Eliade (1997-1986), autor de Mito e realidade (Perspectiva, 2000), no qual aborda o mecanismo, a função e a evolução do mito que constituem hoje estudo indispensável nas modernas ciências do homem, não só porque a ele se ligam basicamente as indagações sobre o significado do mundo e da existência humana, mas também porque dele dependem essencialmente a compreensão de nossas formas de linguagem, expressão e comunicação, reunindo uma exposição histórica e uma síntese filosófica a respeito da bibliografia no assunto. É também autor de obras como História das crenças e ideias religiosas (Zahar, 2010), O sagrado e o profano (Martins Fontes, 1992), Tratado de história das religiões (Martins Fontes, 2002), e Mito do eterno retorno (Mercuryo, 1992), entre outros.

O PRAZER DO TEXTO – [...] O que eu aprecio, num relato, não é pois diretamente o seu conteúdo, nem mesmo sua estrutura, mas antes as esfoladuras que imponho ao belo envoltório: corro, salto, ergo a cabeça, torno a mergulhar. Nada a ver com a profunda rasgadura que o texto da fruição imprime à própria linguagem, e não à simples temporalidade de sua leitura. [...] Se aceito julgar um texto segundo o prazer, não posso ser levado a dizer: este é bom, aquele é mau. Não há quadro de honra, não há crítica, pois esta implica sempre um objetivo tático, um uso social e muitas vezes uma cobertura imaginária. Não posso dosar, imaginar que o texto seja perfectível, que está pronto a entrar num jogo de predicados normativos: é demasiado isto, não é bastante aquilo; o texto (o mesmo sucede com a voz que canta) só pode me arrancar este juízo, de modo algum adjetivo: é isso! E mais ainda: é isso para mim! Este “para mim” não é nem subjetivo, nem existencial, mas nietzschiano (“no fundo, é sempre a mesma questão: O que é que é para mim?...”). [...]. O brio do texto (sem o qual, em suma, não há texto) seria a sua vontade de fruição: lá onde precisamente ele excede a procura, ultrapassa a tagarelice e através do qual tenta transbordar, forçar o embargo dos adjetivos – que são essas portas da linguagem por onde o ideológico e o imaginário penetram em grandes ondas. [...]. Trechos extraídos da obra O Prazer do Texto (Perspectiva, 1987), do escritor, sociólogo, filósofo, semiólogo e crítico literário francês, Roland Barthes (1915-1980).

XOTE DAS MÁQUINASOs rios Una e Ipojuca brotavam no Agreste, fios d’água que tomavam corpo nas terras generosas da Zona da Mata, cortando-as em toda a extensão. Desciam entre canaviais, usinas, cidades até o encontro com os coqueiros e os mangues das praias do sul. Movendo e removendo as alvas dunas de Gravatá e de Suape, desaguavam no mar. O Una contornava Dois Rios num envolvente e sinuoso abraço, deslizando murmurejante por trás da usina. O Ipojuca aproximava-se, olhando a cidade de longe e, medo ou inveja do Una, rio maior e mais famoso, contorcia-se numa curva, distanciando-se. E nunca mais os dois rios canavieiros sequer se olhariam. [...]. Trecho extraído da obra Outro sol se levanta (Autor, 2007), do escrito Pelópidas Soares (1922 – 2007). Veja mais aqui.

LEMBRANÇAS: ALTO DO INGLÊS, DE BHASÍLIO SANTTOS
Poema do livro Palmarinalidades poéticas, do escritor Bhasílio Santtos. Veja mais aqui.

Veja mais:
A origem da vida aqui.
Neuroeducação aqui.
A literatura de Carlos Fuentes aqui.
A filosofia de Soren Kierkegaard aqui, aqui e aqui.
A literatura de Fiódor Dostoiévski aqui.
A arte de Auguste Rodin aqui, aqui, aqui e aqui.
A poesia de Augusto dos Anjos aqui.
Professora Hilda Galindo Correia aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e escultor britânico Cyril Mann (1911-1980).
Veja mais aqui.


sábado, setembro 30, 2017

EMERSON, MONTEIRO LOBATO, GENERINO BATISTA, PAULO CALDAS, SERGIO VALLE & PADRE CÍCERO

A SEGUNDA DO PADRE CÍCERO – Depois de matar duas, o Padre Cícero obrou milagre: ressuscitou uma delas. A que se foi, Deus tenha em bom lugar. Desse dia em diante, Vera nunca mais deixou de dedicar uma hora que fosse do seu dia, para contritas rezas pro seu devotado. Não perdia sequer a oportunidade de narrar aos amigos e presentes acerca da experiência de ter visto de um só lance anteriores encarnações, como teve a oportunidade de ser levada por seu padroeiro, à presença do Criador, de passear no céu, de ficar alarmada com as cavernas de fogo do inferno, de ser recepcionada no purgatório e de ressurgir incólume do Hades. Graças ao seu santificado padrinho, pode percorrer tudo e retornar com vida para contar a todos. Tanto é que a tia dela, bastante sensibilizada com o que ela contava repetidamente, passou, então, também a adorá-lo, a ponto de, certo dia, ao chegar na feira, deu de cara com uma imagem que se diga lá de mais ou menos, mas que lembrava bem o virtuoso pároco nordestino. Quanto é? Quinhentos. Dou cem! Quatrocentos! Duzentos! Trezentos! Aí ela abraçou-se com ele, viu que era pesado, tinha pra mais de metro e meio, quilos do muito. Duzentos pra deixar lá em casa! Duzentos e cinqüenta! Fechado. Onde a senhora mora? Ela dobrou o beiço de baixo, como se apontasse a direção: logo ali. O vendedor emborcou a imagem na cacunda, pesava muito, andou mais ou menos uns quinze a vinte quilômetros, não sei, aos reclamos: A senhora não podia morar mais longe não? Chegamos! Ah, ainda bem! Dinheiro na mão, santo num canto da sala. Todo dia, ela e Vera se ajoelhavam em preces por horas. Deu-se um dia da tia bater as botas e havia um pedido seu a ser cumprido no sepultamento: ela queria ser enterrada com a imagem do santo. Mas não dá! Tem que dar, é o último pedido dela, tem que ser cumprido. Um bêbado aproximou-se do caixão: hem, hem, tão nova, partiu dessa pra melhor. E ouviu a arenga entre Vera e o rapaz do serviço funerário: ah, pedido de morta tem que ser cumprido! Vai pra lá, bêbo! Quando deitaram a imagem, era maior que a defunta! Num tá vendo? Providenciaram outro caixão: também não dá, o chapéu do padre é muito grande! Aí o bebo: besteira, tira o chapéu! Foi, então, a marteladas, arrancaram a aba do chapéu. Quanto trouxeram a estátua para colocá-la no caixão, o bêbo gritou: eita, o padim padre Cícero veio de moto, oxe, vão enterrá-lo com capacete e tudo, é? Sai pra lá bebão. Fecha o cachão! Perai, deixa eu me despedi do santo e da defunta! Vai pra lá, cachaceiro! Tenho direito! E deixaram, o embriagado abriu a tampa do caixão e gritou: Pade Ciço, não me enrole, vá, me dê a chave da moto que eu quero ir pra casa! Avie, homem! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o cantor e compositor Elomar Figueira de Mello com seus álbuns Das barrancas do Rio Gavião & Fantasia leiga para um rio seco; a pianista, compositora, artista e diretora japonesa Tomoko Mukaiyama interpretando Multus #1 Canto Ostinato, Zorn Bolcom Zappa & Illuseum #1; o guitarrista e violonista Ricardo Silveira com seus álbuns Bom de tocar & Sky light; e a cantora e compositora Ná Ozzetti com os álbuns Love Lee Rita & Show. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIANossos olhos são limitados, de modo que não podemos ver as coisas que estão bem à vista, até que chegue o momento em que nossa mente esteja amadurecida. do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A HISTÓRIA DA PENINHA - Um sujeito propôs a outra esta adivinhação: “Qual o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?” Está claro que ninguém adivinhou. – Pois é o gato, explicou ele. – Gato com peninha na cauda? – Sim. A peninha está aí só para atrapalhar. Trecho extraído do texto O nosso dualismo (Cult, maio/2002), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SOL ALÉM DA MINHA RUA – [...] A rigor, o destino parecia ter-lhe reservado o desconforto divino das viagens de ônibus. Aperto, calor, tempo perdido. A vida é difícil, cruel, para quem é jovem pai de família e vive feito eu, sem perspectiva numa grande cidade do terceiro mundo. Cruel no sentido que o destino, se é que existe, costuma premiar poucos e punir a maioria. Cruel pra fechar o horizonte aos anseios dos mais jovens. Trecho extraído da obra O sol além da minha rua (Bagaço, 2003), do escritor e editor Paulo Caldas. Veja mais aqui.

EITA, GOTA!Você tem toda razão / dizer que não falo bem / papai chamava pru mode / mamãe dizia qui nem / um filho desse casal / que português é que tem! Poema do poeta Generino Batista. Veja mais aqui e aqui.

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Recepcionando a estudantada com os poetas Paulo Santos & Genésio Cavalcanti na Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
Padre Cícero matou duas aqui.
A arte musical e poética de Elomar aqui e aqui.
Vera indignada aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Tomoko Mukaiyama aqui.
Dia da Secretária aqui e aqui.
A secretária do Tataritaritatá aqui.
A arte musical de Ná Ozzetti aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista multimídia Sérgio Valle Duarte.
Veja mais aqui.
 

sábado, junho 18, 2016

HERMILO, LEONARDO DA VINCI, TOMOKO MUKAIYAMA, BRUNO DI MAIO, ERIC GILL, PERRON, MADALENA TAVARES & GLÂNDULAS ENDÓCRINAS


E SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA... – (Imagem: O escaravelho sagrado, da artista plástica, escritora e ilustradora Madalena Tavares ) - Sempre estive só e vou só: voo sobre milênios de injustiças, os sonhos nas alturas além das latitudes possíveis, além das longitudes mensuradas, com minhas asas pelos trocentos mundos da delícia, fascínio e infinutude: nada pelos sentidos, só pela compreensão. Sou andarilho e vou descalço. É inverno ao redor, o Sol é pleno, nenhuma nuvem sobre meu céu. Aprendi com os fracassos e me são valiosos porque passei a viver nas sombras, disso entendo. E como não quero nem tenho coroas de louros, vou ruminando pela ascensão e declínio de tudo, porque fui de tudo a tudo até ser-me bem logrado, e ao meu próprio ver, adivinhando meios de saída. Tornei-me forte com meus tropeços e quedas, a cautela aprimorada, quitado comigo mesmo. Peso tudo, tolero quase nada com meus contravenenos. Se não tenho louros nem riquezas, pouco importa, sou das grandes tarefas, inglórias sim e até. Sigo nas ruas como quem árvores resiste no asfalto e mesmo que o tempo imponha seu negrume, eu me alimento da luz pelos poros de todos os suores. Cada esquina uma emboscada e não desmereço do inopinado, sou mais que vigilante dos tapumes luminosos chamando atenção pro inútil conforto, nem menosprezo de todo as coisas vãs. Presto atenção a tudo porque reaprendi de tudo, faço de mim o que for desafio, longe de toda inteireza, muito menos certeza. Sou da dúvida o essencial: faço-me natural como a semente pra raiz, corrente pro rio, vento pro ar. Aprendi a não olhar com os olhos, mas com a sabença do íntimo das coisas; a não tocar com as mãos, mas com o que sou de mim mais de dentro; a não ouvir com os ouvidos, mas com a compreensão que tenha de tudo e todas as coisas; a não cheirar com o olfato ou degustar com o paladar, mas o que exala do invisível por trás de toda manifestação e que pulsa por todas as dimensões. Se eu não tivesse um outro olhar seria suduzido pelo momento do fútil e fugaz, vou sempre altivo e cego mouco por cantos de sereias no oferecimento aplacador do caminho com suas falsas tentações. Vou exilado da moral dos parvos, na contramão dos ideais dos que nasceram póstumos e no mise-em-scène dos ídolos dessa venerada humanidade virtuosa do perecível, do aliciante e do capcioso, reduzida à civilização ocidental com suas promessas não cumpridas e mentiras ideológicas com que se acredita por verdadeiro, da qual sou estrangeiro e jamais tomei parte do pacto da segregação e da regressão do conluio dos fanáticos e dos ditos redentores da pátria que se amoldam apenas ao compatível, admissível e permitido. Se o que perdi me fez falta, digo que não, pois sequer tive quanto possuía algo fora de mim e da poeira das coisas. Não julgo nada, não posso, nem devo, sou o trâmite e, em sendo, nada vale tudo e a recíproca é obvia e idêntica ao que foi do será. Sou dos meus cabelos soltos ao vento em desalinho pelo chão que piso e não sei onde estou, nem preciso saber: livre da cilada das horas, das cruzetas daqui e dali ou do perigo dos abismos. Se não soubesse sobrepujar os limites e a vacância falsária de toda gritaria com seus arroubos sedutores e escuros, eu não teria chão sequer para pisar no planeta. Se desse ouvidos a todos os doutos e profetas desse tempo e que se dizem senhores do certo e da razão, não teria vivido um mínimo que fosse da mais real sensação de vida além do que se compra, do que se tem por posse ou do que se pode ganhar por preços de exploração e acumulação. Sou simplesmente ser, nada acima ou abaixo, compreendo tudo. O que fiz e faço é apenas viver como a flor que brota cumprindo sua mística missão de tornar a vida real. Sigo adiante e vou só. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor italiano Bruno Di Maio.

Curtindo o álbum Mukaiama Women Composers (BV Hasst Records, 1994), da pianista japonesa Tomoko Mukaiyama, combinando performances de música com arquitetura, escultura e roupas, interpretando obras de Adriana Hölszky, Vanessa Lann, Galina Ustvolskaya, Sofia Gubaidulina e Meredith Monk.

PESQUISA
Las gladulas: nuestros guardianes invisibles (AMORC, 1965), de M. W. Kapp M.D., tratando sobre a divina alquimia, situação e ações das glândulas endócrinas, tipos endócrinos de personalidades, método para desenvolvimento das glândulas e exemplos das inibições e expansões do sistema glandular. Veja mais aqui.

LEITURA 
Agá (Civilização Brasileira, 1974), romance do escritor, romancista, dramaturgo, advogado, jornalista e crítico literário Hermilo Borba Filho (1917-1976). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: “A CIÊNCIA CASA-SE À ARTE E A FILOSOFIA BEIJA ESSA PERFEITA UNIÃO”
[...] Os homens, não são nada mais do que caminhos para alimento, aumentadores de imundície e enchedores de privadas... nada mais no mundo é realizado através deles e não têm nenhuma virtude... certamente, ninguém se oporá a que a Natureza deseja extinguir a raça humana como uma coisa inútil. Precisamos separar esses grandes agrupamentos de gente que vive amontoada, como bandos de cabras, enchendo o ar de mau cheiro, espalhando as sementes da peste e da morte. [...] O que pensais, homens, de vossa própria espécie? Não vos envergonhais de vossa estupidez? É um ato infinitamente atroz tirar a vida de qualquer criatura. A alma não quer que a raiva e a malícia destruam a vida. Sempre temos esperanças no futuro, mas o futuro nos reserva somente uma certeza: a morte de toda esperança. A arte do homem não é completamente igual à tarefa de pintar a crueldade do homem. Não existe talento perfeito sem grande sofrimento. [...]
Trecho de uma série de fábulas amargas e brilhantes escritas do polímata italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), censurando asperamente a mais vergonhosa e mais lamentável das criaturas vivas: o homem. Ele desprezava a miserável raça humana e, no entanto, estava sempre ansioso para ajuda-la a sair da miséria. Veja mais aqui , aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Imagens: Cartaz & cena do espetáculo de dança Sobre um Paroquiano (2007), da Compassos Cia de Danças, inspirado no texto Um Paroquiano Inevitável, de Hermilo Borba Filho.

Veja mais sobre Desnorteio & Wilson Monteiro, Jürgen Habermas, Gilberto Mendonças Teles, Ana de Castro Osório, Joseph-Marie Vien, Maria Bethânia, Arlete Salles, David Lynch, Isabella Rosselini & Bartolomeu Ammanati aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eve (1929), xilogravura do tipógrafo, escultor, ilustrador, gravurista e designer gráfico inglês Eric Gill (1882-1940).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
O calor do abraço, do xilogravurista Perron.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...