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domingo, janeiro 09, 2022

MAURICIO ROSENCOF, MONIKA LUNIAK, MICHAEL PALMER & GENINHA ROSA BORGES

 

 

TRÍPTICO DQP – Diário da memória... - Ao som dos álbuns Open Source (2020), Fullblast (2009) e No Gravity (2005), do compositor e multi-instrumentista Kiko Loureiro. – Um dia noutro como se o futuro fosse o presente que insistia no passado. Não mais ontem, chega! Agora arrombava inclemente com o que os alienômanos insistem em manter de suas platitudes, mimetizam o que ouso, emulam o que detesto. Se o tom distópico é mais que sinfonia inaudível, meus olhos sabem o que não viram. De resto um voo sem águia por companhia, pés nas folhas e o aroma da infância era eu menino da beira do rio, rompendo o que restava de ínvia mata feito aquela pequenina Maelys que se deparou com a nudez pálida de Brune Renault, dada pelo Cadavre exquis (2012) da Léa Mysius. Ali fiquei a vê-la desacordada entre juncos, como se fosse esperança de quem se realiza no destaque pros olhos do paraíso. Cuidei dela por horas, na verdade fui mais buliçoso que providente, até arrastá-la ao abrigo inventado da minha solidão de nunca mais voltar para casa. Estendida na cama improvisada cultuei como se morta não estivesse. Sim, aquela pele era tudo dos seus despojos acaso eu pudesse renascê-la do meu íntimo de sonhos pouco prováveis. Foram dois dias até mexer as pálpebras e me achar mais desamparado, como se espantasse com minha companhia jamais vista. Aos poucos recobrou os sentidos e revitalizada disse-me buscar os faróis da alma de RuPaul que nunca soubera e que vicejou porque podia ser Béatrice Lourmel, a tenente da Transferts (2017). Viu-me os olhos perdidos e me disse John Green reticente: Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações... A verdade resiste à simplicidade. O que fazer diante daquilo era o que mais me chamava atenção e adormeci entre seus braços e seios, não previa reencontro nem quando.

 


A viúva inominada... - Imagem: arte da pintora polonesa Monika Luniak. - Não, era outra e sequer sabia a razão pela qual revia depois de décadas insones e anos perdidos, aquela viúva cujo nome não poderia ser dito nem lembrado. Estava coberta por um véu que recaía da cabeça ao peito, deixando à mostra apenas os lábios aliciadores e parte da face desmaiada. Enviou uma mensagem distante por um pombo-correio porque se aproximava o Carnaval do Arlequim de Miró e eu era o seu convidado. Nem bem o abraço ardente, alisou minhas faces, deu-me as costas e saiu com um aviso de espera. Logo revia Bagoas a me saudar com a notícia da blitzkrieg no Império Bizantino: Ah, apronte-se que vamos pro Cabaré Voltaire! Hem? Era tudo muito desconexo, aliás, como a vida sempre foi em mim: um quarto escuro. A lembrança era a voz dela ao meu ouvido. Vi-a chegar do inopinado: o Violino d’Ingres: ela como se fosse a minha Kiki do eu Ray. Levou-me nua a passear pelo adro do grande pátio das Murtas, na arquitetura de sonhos do palácio Jenna el-Arif que nunca vira antes, e percorremos o estreito onde jorram jatos de água até atravessar a sala da Bênção, a das Duas Irmãs, para chegar na dos Segredos com suas alcovas e banheiras de mármore. Levou-me até o gineceu onde escravas aguardavam-na para o hammam. Dispensou todas, exceto o eunuco que a encaminhou à terma privada. Sentou-se sobre um banco de mármore para sauna e o serviçal untou seu corpo com ocra esfregada para depois enxaguá-la com massagem. Encerrando o ritual enrolou-a numa toalha de esponja cor de romã e a fez repousar. Tudo assistia. O emasculado piscou um olho: Aprenda. Deu-lhe hidromel e depois poliu seus dentes com pedra-pome, com a oferta de uma mistura de nácar, casca de ovos e carvão moído. Mascava bételes e viu-me ali desconfortável. Sorriu-me enquanto cochichava algo ao ouvido do escravo e saiu com um adeusinho na ponta dos dedos. Ele atravessou comigo corredores que deram num amplo salão. Lá estavam várias pessoas estranhas. O poeta Abu Nuwas que disse cheio de graça: Menos de cinco é a solidão; mais de cinco, é o bazar! Todos riram. E fui convocado à festança enquanto o semíviro me confidenciava ser ele o seu amante, advertindo que seria jamais de bom tom servir juntar duas iguarias que não combinassem, demonstrando ser um excelente conhecedor tanto da exegese corânica como da arte culinária, lançando-se em uma longa e brilhante dissertação gastronômica. Apenas foi interrompido pela muito simpática poeta Zamab que falava doutro, o Al-Shereshi: A morte apodera-se de todos. O luto é mais triste que a brancura dos cabelos. Viu-me e sorriu. Depois ela recitou poemas sobre sexo e vinho, e contou de uma sessão do hammam que foi a mais dura prova de sua vida: Se eu soubesse antes o que me iriam fazer passar, eu teria sem dúvida renunciado ao casamento. E contou sua desdita. Todos riram e ela recitou O colar da pomba e a triste sina de Ibn Hazm. Houve quem mencionasse sobre a caminhada aviltante, e ouviu por resposta que só se salva da Lei de Talião nos Lupanares de Andaluzia. Gargalhadas de todos quando apareceu alguém que soou como interdito. Apenas sei que era abstêmio e ofereceram-lhe uma bebida com a indicação no rótulo: Suco de frutas, Lojas de Ishaq al-Wasoto. Serviu-se e sentou-se com empolgação, agarrando a garrafa e virando copos, um atrás do outro, alegando sede dumas três garrafas. Assim dispuseram e dali a pouco o estranho desmoronou completamente embriagado. Quem? Silêncio total. Arrastaram-no não sei para onde. Fiquei só, avalie.

 


Lição de sobrevivente – Imagem: gravura do artista visual sul-africano William Kentridge.Que dia era, se sexta ou sábado, só sei que revi aquela sonhada com seus cabelos acobreados e unhas brilhantes, como se chegasse na liteira para me surpreender alta madrugada, tal Giselle Beiguelman a me falar do egoscópio e sua poétrica, como das retóricas visuais e biopolíticas do mundo covídico. Não tinha eu mais que o horror de saber qual seria o meu verso se a formiga sequer precisava do viés moral nem nunca distinguiu o carvão do diamante, nem decifrou o círculo de Giotto, ou do Ensō, muito menos da autobiografia dos versos de Michael Palmer: Às vezes temos que bater no fundo antes de descobrir a vida. Nunca compare o seu interior com outra pessoa do lado de fora. A presença dela era magnífica em todos os sentidos, meus órgãos festejavam e nem cabia em mim mesmo, já dela e para ela. Foi preciso que uma semana ou mais dias, não sei, para ter a dimensão da posse dela sobre mim. Se ouvisse Douglas Adams saberia: Não acredite em nada que você lê na rede. Exceto isto. Bem, incluindo isso, suponho. Resumindo: É um fato bem conhecido que todos que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. E não discernia de nada, se tivesse saída ou reconhecesse um novo renascimento, nada impossível. Só que ela chegou como se fosse Geninha da Rosa Borges: nascedouro e permanência. Era nela que eu revivia o que mais desejava, não fosse a ausência quase suicida. Onde? Deu-me uns versos de Mauricio Rosencof: se este fosse meu último / poema, / insubmisso e triste, / roído mas inteiro, / uma única palavra escreveria: / companheiro. E tal como ele diria: Eu sou os que foram. E se nos perdemos mais de uma vez, a festa não era só o reencontro: era dela a alma. Foi aí que enfrentei meus monstros e o abismo outra vez na ampulheta do peito vazio, legado de xexéu escasso porque a flurona roubou a eudaimonia e o diploma – o pergaminho da superstição popular de Lima Barreto, que deu para mim o mesmo triste fim de Policarpo: Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança, não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Cada um agora está mais vivo que antes, apesar de tudo. Nada mais. Vidaviva, vivavida. Até mais ver.

 

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quarta-feira, julho 21, 2021

MICHAEL CONNELLY, NATALIA OSIPOVA, AMANDA VIEIRA, JORGE GARCIA, A DONZELA & A BAILARIA MORTAL

 

 

TRÍPTICO DQP – A donzela mágica... - Ao som Le Cygne – The SwanLe carnaval des animaux, de Camille Saint-Saëns, na interpretação de Han-Na Chang & Philharmonia Orchestra, conductor Leonard Slatkin & solo The Dying Swan da bailarina russa Natalia Osipova. - Lá estava ela jogada nas pedrarias da ilha do mar de Amadis de Gaula. Não sabia se ferida ou machucada ao pé do penhasco escarpado e árido da imensa altura de tocar as nuvens, acho. Estava desacordada e fiquei sem saber o que fazer. Toquei-lhe o pulso, ainda viva. Vi que tremiam suas pálpebras e lábios, um vago movimento na perna direita, um incerto tatear da mão esquerda tocou-me e afaguei seu braço e a deitei em meu peito alisando seus cabelos. Um sussurro dolorido e se ajeitou em mim, beijei-lhe os cabelos e ali fiquei cuidando dela não sei por quanto tempo. Abriu os olhos, expôs sua boca sedutora e beijou-me como se pedisse socorro. Correspondi ao beijo e a abriguei em meus braços a noite inteira até ao amanhecer. Ela tentou se recompor e despertou sem noção de nada, fitou-me seriamente e me contou que era a filha do mágico de Argos, Finetor, e se chamava Oriana. Versada em necromancia, vivia ali toda a sua vida e sua diversão era acompanhar a passagem de numerosos barcos que vinham ou iam para Irlanda ou Noruega e delas, por artes da magia, atrair os homens para roubar-lhes as cargas, aprisionar os cavaleiros a bordo, provocando-os a lutarem entre si até se matarem. Certa feita, entre os cavaleiros havia um oriundo de Creta, por quem ela apaixonou-se perdidamente. Deu-lhe tudo em troca do seu amor e ele fingiu amá-la, familiarizando-se c0m seus encantamentos até que, um dia, ele inclinou-se no alto do rochedo fingindo abraçá-la, jogou-a da varanda de sua esplêndida mansão. Ali estava. O que ele fez? Libertou todos os prisioneiros e levou consigo muitos tesouros dela, só não conseguindo levar nada da sala mais rica do castelo por causa do encantamento. Ouvi atento a tudo que contara e perguntei como poderia sair dali, respondeu-me que a paragem mais próxima estava a uns seis dias de viagem, a ilha da Torre Escarlate. Vi-a distante, sabia do que dissera o escritor estadunidense Michael Connelly: Eu vejo as pessoas de duas maneiras. Eles são pessoas olho-por-olho ou vira-a-cara. Não importava que guerra fosse travada, voltar para casa era outra batalha. Não há nada que você possa fazer sobre o passado, exceto mantê-lo lá. O que é importante não é o que você ouve dizer, mas o que você observa. E fiquei ali calado, fitando seus gestos e contemplações. Por fim, ofereceu-me por presente e gratidão tudo que houvesse na sala encantada do seu palácio, e me fez seguir o caminho de subida, livrando-me das serpentas e outras criaturas terríveis que hibernavam ao redor da porta da câmara, a qual possui painéis com letras de cor sanguínea, uma escrita misteriosa que contém o nome do cavaleiro destinado a entrar na sala depois de retirar a espada presa na maçaneta. Tudo me contou e agradeci, mas disse-lhe não me interessava riquezas, mas levá-la aos seus aposentos. Subimos o íngreme caminho e nos deparamos com a porta: lá estava inscrito o meu nome. Ela sorriu com um abraço afetuoso, eu tinha que voltar.

 


A bailarina mortal... - Ao retornar reencontrei o meu mundo e não seria fácil sobreviver. Pouco tempo depois ela reapareceu familiar com um verso da Conceição Evaristo: O que os livros escondem, / as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha / um ponto-final na história… Estava mais deslumbrante que antes, lívida e estonteante. Não havia há como saber se era setembro de antanho ou fevereiro dagora, só que parecia tão atordoante como um mal que vinha de longe e com muitos nomes, a bordo de um navio e a dizer: salve-se quem puder. Sorria muito e encantadoramente. Logo quando a vi me veio a sensação de um verso de Fernando Pessoa: Ah, o horror de morrer! / E encontrar o mistério frente a frente / Sem poder evitá-lo, sem poder… Era como se ela me levasse por uma dança acasaladora, na qual perdia a memória e a identidade. Ao sobreviver o redemoinho de sua entrega, logo constatei que o Recife estava acometido de uma tanatomorbia e era ela dançando solta com todos os santos, uma espanholada sobre o salubre e a borracha, sem poupar mascarados no seu carnaval. Ela onde chegasse parava tudo a desnudar o precário em seu massacre. E ali José Miguel Wisnik denunciasse: Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus. E era. Tudo muito confuso: mortes, noticiário, disputas e negacionismo faziam a festa da hecatombe no embuste da oferta de curas milagrosas: estávamos todos à sua mercê a ponto de não se saber se era o século passado ou o presente, não fosse a denúncia de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling e quase ninguém ouvia encantado com o espetáculo. Ao ver-me assustado Lilia contou do espetáculo das raças com as barbas do imperador e o triste visionário Lima Barreto. Heloisa, por sua vez, segurou minhas mãos trêmulas e me falou dos senhores gerais, das lembranças do Brasil e dos impasses contemporâneos, dialogando com Lilia sobre a biografia do nosso chão. Eu entendia tudo e quase desentendia de nada, o que sabia é que era uma guerra, uma guerra igual a de ontem e confuso se a primeira, segunda ou sabe-se lá, todo dia aqui é uma guerra e que milhões de pessoas são ceifadas. E ela era a bailarina mortal, imensa, pandêmica. E tudo me levava a crer que se não fosse possível lembrar o que ocorreu durante os mais diversos períodos históricos, não havia outra coisa a fazer, repetir tudo seria a condenação.

 


A dança da cidade... Imagem: a bailarina Amanda Vieira, do Bolshoi Brasil na Companhia da Ópera de Dortmund: Sempre esperei o momento em que eu pudesse viver e me sustentar apenas da dança, e esse momento finalmente chegou! – Nem sabia direito, mas ela me salvou não sei como. Sei que a cidade era a mesma e era outro momento de carnaval perdido e todos mascarados, eu, ela, muitos. Os seus olhos apreensivos me levaram ao coreógrafo e bailarino Jorge Garcia, tão inquieto quanto nós, entre a Cisne Negro, o GRUA e o Balé de São Paulo, num performático improviso, a me contar de Marie van Goethem, e eu nem sabia se tratar da pequena em perpétua quarta posição do balé de Degas e do Little Dancer Aged Fourteen de Camille Laurens. Sim e... Se o pintor, como dissera: encerrei meu coração numa sapatilha de cetim cor-de-rosa, e a sua musa virou um fantasma sem história, para nós era mais que magia pura o que vivíamos na alma do Recife: a dor é que era nossa. Diferente da musa que desaparecera sem deixar nenhum rastro, para onde quer que eu vá, a cidade enche meu coração de esperança por todas as paragens distantes e perdidas. Até mais ver.

 

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segunda-feira, janeiro 25, 2021

ORHAN PAMUK, PEPETELA, ROBERT BURNS, SÉRGIO FERRAZ, MARTA ROCA & EVGENIYA ABRAMOVA

 

 

TRÍPTICO DQC: SENTIDOS DO SER & OS MISTÉRIOS DO ESPELHO - Ao som do concerto ao vivo do violonista e compositor Yamandú Costa, em Boulder, Colorado (2016). – De manhazinha me achava pronto para ganhar o mundo, protagonista de um filme em cartaz tantas vezes visto e revisto e veja só o que me aconteceu. Sabe aquele dia em que tudo pode acontecer e dá-se assim mesmo, de levar um bocado de tempo pensando como é que não tomei a iniciativa certa, evitando o desagradável e ficado na cama com a sensação de ter perdido o que podia ser a chance de ouro e dali em diante tudo seria diferente, né não? Poderia, suponho: encontrar uma cartela de prêmio extraviada e ficar rico de uma hora para outra, ou cair num buraco de sair pelos esgotos me relando de quase morrer no Japão, qual. Ou dar de cara com uma sensual ET tarada que zarpasse comigo para galáxias distantes dessa loucura toda ou ficar quieto na parada da condução, encostado num poste e dois carros se chocarem no cruzamento e um deles me alcançar desavisado estendido lá longe entre a vida ou a morte, foi assim mesmo. Ou aparecer ressurreto Jesus aos brados contra os equívocos cristãos, insistindo em negar ter sido mais de três vezes: não sou, nunca fui, nem serei; ou ser levado pela desobediência civil de uma turba desvalida de squatters e okupas com máscara do Fawkes e palavras de ordem da memória ceciliana do Lima Barreto e das notas de Chomsky, contra a gentrificação e o desperdício descartável do consumo desenfreado, e a favor do amor livre, nenhum governo e coisa tal! Ou sei lá mais o quê, afinal, ou se mete pro que der e vier, ou deixa correr que não estou nessa de sair à toa. Dúvida cruel, devires. Quantas: faço ou não; desfaço ou deixo ao deus dará. Encruzilhadas, vórtices. Uma hora tem que desenganchar e tem que ir ou se mandar sem saber qual a da vez, assim: ou se mete de cara para ver no que vai dar, ou fica chocando à espera do que jamais advirá, ou. Opto sempre pela iniciativa e lá vou eu. Enfim, desci a ladeira no meio da nublada quietude: será que estão todos ainda dormindo e nem sei que horas são, ou todos fugiram e me deixaram sozinho, sei lá. Um pé de gente para dar bom dia, não havia. Um passo pra frente e as coisas ficando para trás e vice-versa. Mal cheguei à esquina, era como se via satélite fosse o tráfego de tudo, tráfico de sonhos e desejos. Aos borbotões os que vão e os que seguem pelo lado oposto, cada um se valendo do que há no bolso, compromisso ou passeio. Seguia acenando a quem avistasse reconhecido, que eram pouquíssimos ou ninguém, pensei que era. Nessa andança deu para notar que além de ser uma paisagem desbotada ou invisível, sou também indesejável ou ignorado, ô gente hostil para lá e para cá; sigo, então, acolá. O que presencio não é lá muito diferente de uma guerra como se ao redor fosse só desmoronamento, sofreguidão. Se de um lado há quem olhe pro chão e são muitos catando lá o que se possa imaginar; de outro, os de cara pra cima também em demasia, acho que à cata de algo que evidencie uma mudança repentina daqui e dacolá. Quase não distingo nada no meio da confusão que é a vida indo quando não voltando. Se há algo real só a escolha, ou sim ou não. Quase nem dá para ouvir no meio da algaravia o que reclamou Fernando Sabino: O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Quanto mais olvidar daquela do Neruda sobre escolhas e consequências, avalie. Poderia ter ficado em casa e me poupado disso. E para falar a verdade, nem saí e fiquei aqui inventando toda essa história para você. Vamos nessa.

 

 

DOIS: VOLTA DOÍDA AO PASSADO – Imagem: Andrei Bordeianu/Alamy Stock, ao som da Sonata para violín y piano em Sol menor, de Claude Debussy, com a violinista espanhola Marta Roca Alonso, no Salón de Honor, Centro Cultural Kirchner, Buenos Aires, 2017. – Voltei quase trinta anos depois e aqui estou na pele de Ka pela Neve (Companhia das Letras, 2006), do escritor turco e Prêmio Nobel de 2006, Orhan Pamuk. O retorno selara meu exílio. As ruas sujas pela fuligem do canavial e monturo de dejetos serviam para as ondas de gente num mar revolto. As calçadas estavam tomadas por mendigos, feirantes e sulanqueiros, gritaria de ambulantes e volantes sonoras, pastores irados, liquidações e ofertas, santinhos e flâmulas, noticiários e tragédias, vexames e filas. Quase não era a mesma, não fosse a providencial reconstrução após a trágica enchente de poucos anos atrás, tornando as casas com aparência de banheiros sanitários hoteleiros ou sarcófagos suntuosos que, para os moradores, significavam a última moda da arquitetura. Quase não reconheço mais ninguém; parente algum e muitos do convívio sepultados, outros escaparam e pouquíssimos resistiam naquele ar viciado de gente que nunca vi mais gordo e eu estrangeiro em meu próprio chão. É tempo de eleições e pandemia, as pessoas tristalegres se aglomeram no comércio, praças e eventos diuturnos, indiferentes à tragédia. Foi decepcionante vê-los de passagem como incólumes sonâmbulos erguendo bandeiras religiosas tão torpes e ideias políticas totalitárias, como se não vivesse o presente e o tempo regredisse para as trevas de cinco décadas atrás: ... sentiu o mesmo tipo de culpa e vergonha que sentia quando jovem, ao sair de reuniões políticas. Aquelas reuniões políticas o perturbavam não apenas porque ele era um rapaz de alta classe média, mas também porque as discussões eram cheias de atitudes infantis e exageros. Pessoas como eu só encontram a paz quando estão lutando por uma causa. Os jovens agora contaminados pela sofrência brega e o rebolado da funkada, pareciam suicidas como portadores da boa nova tão antiga e da mudança retrógrada, quando, na verdade, refaziam os horrores do passado para o pior. Diante de tudo isso havia em mim nesse reencontro aquele sentimento de Pepetela: A dor muito prolongada faz-nos cruéis e indiferentes à crueldade, o que é ainda pior. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. O que importa é mudar a ovalidade do mundo sem dele fugir. Esta cidade não mais reconhecida, não poderia ser aquela que tanto amei e em que vivi superando adversidades e correndo atrás do tempo perdido. Era outra, tão estranha quanto cosmopolita e desenganada.

 


TRÊS: QUINTESSÊNCIA – Imagem: da artista russa Evgeniya Abramova, ao som da Cello Sonata in C major, Op. 119, de Prokofiev, na interpretação do pianista Victor Asuncion e do violoncelista Brannon Cho, no Queen Elisabeth International Cello Competition (2017) – A cena é ela, à meia luz, não sei qual seria o seu papel naquela hora. Sempre dela e as outras tantas que povoam nela em meu ser asfixiado pela solidão. A minha salvação é ela Ïpek, aquela da minha paixão perdida e que será aquela que me alimenta de venturas e prazeres, de loucura inusitada, de transcendências e voragens. Ela chega silenciosa na cadência dos seus passos e me abraça como se o amanhã não mais existisse e só nos restava uma última hora e nada mais. Beijou-me com a urgência dos desencontrados e rolamos todos os pisos e tetos, e nos desnudamos de todas as vésperas e impedimentos, e nos fizemos inteiros maiores que a imensidão. Assim ela em mim e eu nela, tudo o que quisermos na inexistência dos limites. E só há o que de mim pra ela e dela pra mim, o acasalamento perfeito e divino. Depois do amor, abraçados no meio do silêncio. E inescrupulosamente desejei seu semblante fresco e toquei seus lábios no Jogo da Amarelinha de Cortázar, aproveitando cada detalhe de sua majestosa candura. Ouvi-la sussurrar Balzac: Ah, o amor é um mistério, que só tem vida no fundo dos corações... e abri bem os olhos e ela era Ana de Robert Burns: Ai, vinho que ontem bebi / Escondido numa choupana,/ quando em meu peito senti / os negros cabelos de Ana! / O judeu já no deserto / que bebia o que Deus mana / não sabia o mel oferto / nos lábios ardentes de Ana! / Reis, tomai o Leste e o Oeste, / desde o Indo até o Savana, / mas dai ao corpo que as veste / as formas trementes de Ana! / Encantos desdenharei / de imperatriz ou sultana / pelo prazer que darei / e tomarei só com Ana. / Vai-te, faustoso deus diurno! / Vai-te, pálida Diana! / Suma-se o claror noturno, / quando eu me encontro com Ana! / Venha a noite em negro manto! / Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos! / Só com, penas de anjo o encanto / direi dos gozos com Ana. Quem dera a vida fosse somente nela. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE SÉRGIO FERRAZ



Há um vasto caminho pela frente. A criação musical é como um oceano sem fim. Quanto mais mergulho nele, sinto que ainda posso ir mais fundo. Quero também estreitar relações com músicos do sul do Brasil, fazer novas parcerias, novos grupos. Estou a toda hora tendo ideias, espero ter tempo para por isso tudo em prática.

A arte do violinista, violonista, guitarrista e compositor Sérgio Ferraz, que é bacharel em música pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e iniciou seus estudos desde cedo Conservatório Pernambucano de Música, por volta dos anos 1980. Integrou os grupos Alma em Água, Sonoris Fábrica e Quarteto Romançal. Lançou os álbuns: Segundo romançário (2010), em parceria com Antonio Madureira; Sonoris Fábrica (2011), Dançando aos pés de Shiva (2012), A sublime ciência e o soberano segredo (2013), Concerto armorial (2014) e Flutuando sobre as ondas (2015). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

domingo, outubro 25, 2020

MAYA ANGELOU, HENRY FLYNT, JUNG, DARCY RIBEIRO, MILTON NASCIMENTO, ALEXA MEADE & AGUINALDO BATISTA

 

TRÍPTICO DQC: PAIVRAS PALANÉIS - (ouvindo Yanamâmis e nós – Pacto de vida, de Milton Nascimento & Fernando Brant) - Depois de me desconstruir e às avessas de pisar e voar, doer errático pelos devires e pelos degraus da caosmose de Guattari, me vi só anti-édipo pelo rizoma & mil platôs. Foi maior a porrada: está muito difícil de respirar! Sim, porque não sou atleta do Estado e percebi o quão difícil é a convivência com o desgoverno do Fecamepa, a sindemia letal, a liquidez de Bauman, os delírios da hiperpolítica sacada por Sloterdijk – estamos todos no mesmo barco e parque dos horrores! - & o deserto do real denunciado por Zizek. Pelo que vejo e intuo, só a festa da morte nas platitudes dos cirurgiões magiares e mediocrização das campanhas políticas; no paroxismo delirante da gança e consumo na oferta e demanda; e na catatonia diante da lumeeira das desgraças. É tudo muito lúgubre, infelizmente, e na maior das ostentações, tagatés e celebrações. Vivo ou morto, tanto faz, apenas um dado estatístico para satisfazer o interesse daquele ou daquela irreconhecível. Ao abrir a porta o abismo e uma chuva de cinzas a cobrir o céu e a Terra. Ouvi Jung na sacada: Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. Sequer havia um mínimo sinal de luz lá longe depois do fim do túnel. Nada. Não sei pronde vou, sei que voo.

 


SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA – Curtindo You Are My Everlovin/Celestial Power (Recorded/LLC, 1986), do filósofo, músico, escritor, ativista e artista estadunidense Henry Flynt, associado à vanguarda de Nova York dos anos 1960 - À minha porta, um sujeito. Bate palma insistentemente. Cortez, atendo. Não conseguia entender o que solicitava, só gesto com mão pronunciando: Schilda! Schilda! Hospitaleiro como sempre fui, puxei pelo muque do estranho e o levei até a casa do poliglota erudito e autodenominado patafísico, doutor Zé Gulu. Socorra-me! Acho que é um caso parecido com aquele do javanês de Lima Barreto. Sim? E ouviu atentamente o cidadão que o apresentei. Ah, tá. Entendeu? Sim. Ele é schildbürger! Que droga é nove? Nascido em Schilda. Fodeu. Existe? Sim. Veja nesse livro aqui: Die Schildbürger (Dressler Verlag, 2000), do escritor, jornalista, cabaretista e roteirista alemão Erich Kästner (1899-1974), em que eles montaram um plano: estadistas e filósofos escolheram esse lugar para morar e, pouco a pouco, uma geração inteira de sábios reuniu-se. Sim, e? Reis e príncipes de outros países logo julgaram uma honra convidar um desses sábios para suas cortes, nomeando-o ministro e conselheiro pessoal. E daí? Quando restou apenas um homem adulto, as mulheres lançaram um ultimato: se seus maridos não voltassem, elas procurariam outros para substituí-los. Como é? A fim de servir a seus interesses sem ofender seus poderosos senhores, montaram um plano: começaram a se comportar de forma tão estúpida que os reis não os desejariam de volta. Lascou! Para ter uma ideia do problema, ouça, veja: A sala do conselho é o testemunho concreto do sucesso dessa política: um prédio longo e quadrado, sem a menor janela. Oxe! E como se reuniam? Na escuridão. Pronto, agora deu. Veja mais: Infelizmente, parece que a estupidez fingida dos pais se tornou efetiva em seus descendentes. Mesmo, como assim? Veja o que a principal autoridade da cidade fez: Encarcerou todos os habitantes do sexo masculino. Aí já é demais! Quando uma carta o acusou de liderar os republicanos, ele prendeu-se a si mesmo. Sem ninguém para fazer justiça, os schildbürher mofaram na prisão. Vôte! Pois é: Depois de algum tempo, no entanto, se deram conta do absurdo da situação, fugiram da prisão, anularam a antiga Constituição e proclamaram a república. Hoje é uma cidade-república com atmosfera de bonomia pequeno-burguesa, de semiconhecimento e bufonaria reinante. Ave! Nas escolas, somente pessoas ignorantes têm permissão para lecionar, na esperança de que aprenderão alguma coisa sobre as matérias que ensinam. Enquanto isso, inculca-se nos estudantes uma desconfiança total em todo o conhecimento, o que reforça a autoconfiança... Ora, isso é o Fecamepa! Aí ele olhou-me profundamente e citou Darcy Ribeiro: O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada. Ora, ora. Seremos sempre os últimos! Nesse caso, quem copia quem? Isto é Brasilsilsilsilsil!!!!

 


DAS DORES, ELA NOITES & DIAS – Imagem: arte da artista estadunidense Alexa Meade - Ao regressar ela explorou os cantos como se repassasse texto de memória sobre o passeio por Paris e Berlim, cenas de Brecht e Molière narrando imagens da mitologia grega, a se ajoelhar como aprisionada às dores do pau de arara. Ergueu as mãos à cabeça como quem vitimada da coroa de cristo esmagando seus miolos. Sentou-se como quem expõe a hemorragia dos espancamentos na cadeira do dragão e três dias de choques elétricos na língua, seios e vagina na sessão torturante da Casa da Morte. Fitou-me severa e veio: Sou Heleny. Sim, sou Heleny Guariba (1941-1971), aquela que sucumbiu com Marilena, Helena, Labibe, Alceri, todas sou eu solidária na dor de morrer nos porões da História. Deu-me as costas e antes de sair olhou-me mais uma vez e recitou Maya Angelou: Você pode encontrar muitas derrotas, mas você não pode se deixar derrotar. Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude a sua atitude. Não reclame. O sucesso é gostar de si mesmo, gostar do que faz e gostar de como fazê-lo. Mandou-me um beijo e se foi com um aceno triste. Guardei sua imagem de atriz e brinquei de imaginá-la comigo na viagem por palcos inenarráveis. Até mais ver.

  

AZARILDO & O XOTE ECOLÓGICO DE AGUINALDO BATISTA

Não posso respirar, não posso mais nadar. A terra está morrendo, não dá mais pra plantar. E se plantar não nasce, se nascer não dá. Até pinga da boa é difícil de encontrar. Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe, que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu. Nem o Chico Mendes sobreviveu.

Xote ecológico, música de Luiz Gonzaga em parceria com o compositor, radialista, humorista e ator Aguinaldo Batista (1930-1980), criador do afamado personagem Azarildo que atuou nas tevês Tupi, Excelsior e Record. Trabalhou na Rádio Tamandaré e Clube de Pernambuco, além de atuar nos filmes A compadecida (1969), A vingança dos 12 (1970), Terra sem Deus (1963) e A pele do bicho – amor e traição (1974). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

 


segunda-feira, maio 13, 2019

LIMA BARRETO, MEJA MWANGI, GABRIELA MONTERO, ANA MAIA NOBRE & AQUELA QUE JÁ FOI


AQUELA QUE JÁ FOI – Levava jeito não. Quando não era na sexta, era no sábado à noite e eu lá. A última chance era a matinê do domingo e até aí eu sobrava, doido para arrastar os pés com uma moça nem reboculosa que fosse, daquelas das que boiassem magrelas ou enfeiadas catingosas, nem mesmo. Não levava mesmo sorte: Quer dançar? Estou cansada. Fossem assustados, fuás, forrós, discotecas, encostava, chamava na grande e um não desleixado soava com uma escusa qualquer. Até daquelas dadas, perdidas da vida. Desconfiei de vez: ou eu tenho uma feiúra ocrídia das mais terríveis ou uma inhaca daquelas mais fedorentas de afastar qualquer trubufu de perto. Juro, até as mais assanhadas que se atiravam adoidadas no gogó de qualquer pretenso pé de valsa, me davam corte na hora da função. Eu lá com a cara mais abestalhada. Havia de se considerar que eu era um liso de não ter um tostão furado no bolso, nem era o predileto da mamãe no meio da casa, tísico, trôpego, de comprar fiado e inventar o que passar por troco. Fui desenganando até: Vou mais não. Finquei pé. Desolei-me no banco da praça de nunca mais inventar qualquer paquera, comendo tempo e paisagens. No meio de uma dessas noites mais sem graça nenhuma de solitária, uma linda criatura, branquela e perfumada, achou de dar o ar da graça, assim do nada. Sentou-se do lado, puxou conversa: Comigo? Por acaso tem mais alguém aqui? Pensei que falasse sozinha. Acaso sou uma doida? Não, é que sou enjeitado mesmo. Isso é lá coisa que se diga? E, então, fui eu daqui, ela de lá. Aprumamos a conversa, maior teitei disso e daquilo, aos poucos um risinho besta, encurtando espaço, se achegando, dedindo de raspão, desculpe, pé encostando e tome lero, olho no olho, mão na mão, um cheiro e um beijo meio que assim para uma coisa lá assada, fungado, eita! E eu já lavando a jega num sarro pesado no meio do baile: umbigadas, esfregões, apertos, alisados, encarcadas, bate-coxa, safadezas, ela virava do avesso e eu tome lá e me dê cá, impetuoso na façanha, ah, coisa boa danada, pândega solta, maior trupé, até o escurinho atrás do clube, via de fato num vuque-vuque agoniado. Danou-se! E a cara mais lisa depois, gastando o solado no meio do salão, madrugada adentro, pelos muros das ruas, becos ensombrados, atrás da igreja, pelos arruados distantes, saias, dedadas, ais e uis, aos regalos. Pronto: Ali é a minha casa, chegue depois da janta pra gente namorar. Certo. Uhu! Estou feito! Melhor que isso nunca existiu! Ao anoitecer, emplaquei domingueira e saí mais ancho que pabo folgado! Ô de casa! Ô de fora! Cadê a moça? Hem? Aí me apresentei todo risonho e patati patatá. Acho que você está doido? Não, minha namorada mora aqui! Aqui não tem essa não! Que é que é isso? Ué, pergunto eu: Não mora aqui não. Aí o negócio foi entronchando, eu teimava e a recusa na lata! Ontem mesmo eu deixei-la aqui! Errou de casa. Foi quando alguém abriu a porta e vi uma imagem grandona dela no meio da sala lá dentro: Oxe, olhe a foto dela ali! Quem? Dela! Ah, não, aquela ali é minha filha que morreu fez um mês ontem! Como? É. Brinque não! Nossa, que arrepio: Como é que é? No outro dia estava eu lá diante lápide. Isso é lá coisa que aconteça comigo? Pode não, meu. Pois é, aconteceu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Comecei bem cedo a contar história. Às vezes, à tarde, o professor nos levava para fora, para que nos sentássemos debaixo de uma árvore e desfiássemos aventuras. Eu era o contador de histórias oficial da classe, mas só fui descobrir os livros de ficção no curso secundário. Foi nessa época que comecei a escrever minha primeira obra, um romance sobre um general mau-mau que enfrentava a morte na selva. O livro acabou sendo publicado com o nome de Carcaça para cães. Mesmo assim, a ideia de me tornar um escritor nunca me passou pela cabeça. Só queria contar histórias. [...].
Trecho extraído da obra Mzungu (SM, 2006), do escritor queniano Meja Mwangi.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Há tantas coisas que preciso "arrancar" de mim... Permito a Arte o direito de investigar.
A arte da premiada arquiteta, designer e artista visual Ana Maia Nobre. Veja mais aquiaqui.

A MÚSICA DE GABRIELA MONTERO
Quando improviso me conecto com minha audiência de um jeito único – e eles comigo. Porque a improvisação é uma grande parte de quem eu sou, é a forma mais espontânea e natural que eu posso me expressar. Eu improviso desde que a minha mão tocou o teclado pela primeira vez, mas por muitos anos eu mantive esse aspecto meu em segredo. Martha Argerich, ouviu-me a improvisar um dia e ficou em êxtase. Na verdade, foi Marta que me convenceu de que era possível combinar a minha carreira de "artista clássica" com este meu lado que é bastante original.
Curtindo os álbuns Rgapsody (2008), Baroque (2007),. Bach and Beyond (2006), Piano Recital (2005), Chopin; Piano Woks (2007) e Concert a Montreal (2006), da pianista venezuelana Gabriela Montero. Veja mais aqui.
&
A OBRA DE LIMA BARRETO
Defendo o que eu gosto e quem eu gosto até o fim, mesmo que para isso eu fique em pedaços. A vida pode te deixar em pedaços, mas o amor te deixará inteiro.
A obra do escritor Lima Barreto (1881-1922) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, novembro 07, 2018

LIMA BARRETO, GUILHERME RIPPER, ELENA ZOLOTNITSKY, VALE DO UNA & FESTIVAL EM LIBRAS


VALE DO UNA - Imagem da série Extinct, da artista russa Elena Zolotnitsky. - Finquei os pés no chão de Palmares – minha terra, meu torrão. Timbunguei no Velho Una e me danei rumo Oeste não sei para onde, no meio da Mata Meridional. Deixei calunga e cheleleu, fiz pernoite em Xexéu depois voltei atrás, estava todo errado, desencontrado como sempre, se não sabia lá pra onde ia, seguia pra Belém de Maria e lá me livrei das rezadeiras findando por Batateiras do outro lado do mundo. Fui feito carrapeta, rodando todo arraial pra chegar em Maraial e ir direto pro Sul esquisito pelas mãos de São Benedito até ficar aflito, pronde mesmo que eu queria ir, hem? Não sei, seguia. Ah, me livrei do revestrés nas esquinas de Caetés, tinha cotoco pirrototinho enfiado no terreiro de Canhotinho, eu mais que perdidinho num medonho panapaná que esvoaçava em Quipapá, levado pelo vento que suspira nas terras de Cupira. Foi então que fiz então canção pra ela na boca da noitinha de Panelas, descansar a carcaça e as mazelas pra de manhã chupar muita manga e mangaba na Barra de Guabiraba e, depois de acertos e erros, dei de cara com Bezerros e fui me arranchar. Onde mesmo é que estou, não sei mesmo. Por não ser nada taful, olhei pro céu azul, oxe, isso aqui é Caruaru, danou-se tudo: o mundo de cabeça pra baixo! Ou tudo endoidou comigo. Andejo que só fulano, descobri o que é ter tutano encarando a vida em São Caetano, onde dei voltas sem fim. Já que nada mais me vinha na poeira, só o aconchego em Cachoeira era pra me redimir, pra levar o maior catabi de quase rolar todo em Jucati e ficar sabendo: o fim do mundo não é aqui, depois que é Jupi, lá do beiço virado, longe que só. Foi então que perdi o verbo e o poema, estava só em Jurema juntando os trapos defronte, ainda ontem eu vi enfim São Joaquim do Monte quando arrastava o solado pelo oitão de Calçado e me vi só todo acabrunhado: é que não era confeito nem jujuba, ali é Ibirajuba, pro outro lado o chão de Tacaimbó. Mas o melhor mesmo foi que uma forrozeira dançando xote em Pesqueira me fez seguir apertado até no osso, a me danar por Venturoso e cair morto porque o pencó estava solto na calçada de Sanharó. Perdi-me de tanto gritarem: Febrento! Isso aqui é São Bento. Vixe! Tô pior que toupeira! Aí cheguei na maior carreira na nascente de Capoeiras – eita o Una miudinho, nascendo e seguindo sua rota pra minha terra. Segui firme o meu caminho pela estrada de Altinho e amanheci com a estrela matutina nos céus de Agrestina. Dali pela estrada de Camocim de São Félix eu saí do meu agito ao me deparar com Bonito, depois desvendei todo segredo, tomei rumo pra Lagedo e fui danado pra Catende com vontade de chegar. Fiz a volta na carreira pra bater lá em Jaqueira, tirei a poeira dos sapatos quase perto de Lagoa dos Gatos, rasguei estrada de quase levar um tombo, logo fui acolhido em Pombos, eita! Me assuntei do azarão, era então Vitória de Santo Antão e soube: não tem mais lobisomem ou boitatá nos domínios de Glória do Goitá. Não dei moleza a pacutia, segui pra Chã de Alegria, voltei tal qual errante por Chã Grande, foi ali que me vi na praça de Amaraji, oxente, não sabia nem que eu era nos arredores de Primavera, só fiquei de alma lavada pelas ruas de Escada. Aí sem jumento e sem pedrês no acesso de Cortês, abri o peito e o coração caminhando por Ribeirão. Lá longe a maior gemedeira, uma volta que dei em Gameleira, de não sobrar garrucha nem trabuco, era só Joaquim Nabuco, até um boi fazer careta num cercado de Água Preta. Aí fiquei o tempo todo de mutuca com a cacunda em Ipojuca, não tinha nada nem vintém, pisando firme em Sirinhaém, tinha que ficar jeitoso, afinal era Rio Formoso e o que é que é? Era a praia de Tamandaré, bêbado de volapuque e noigrandes na praia de São José da Coroa Grande, aprumando no lajeiro pra singrar lá por Barreiros, enfim errando de tudo antes que a vida puna arriar ao mar na Várzea do Una. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Tubiacanga era uma pequena cidade de três ou quatro mil habitantes, muito pacífica, em cuja estação, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. Há cinco anos não se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas só eram usadas... porque o Rio as usava. O único crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasião das eleições municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição, o acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade, continuando ela a exportar o seu café e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas águas do pequeno rio que a batizara. Mas, qual não foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem memória! Não se tratava de um esquartejamento ou parricídio; não era o assassinato de uma família inteira ou um assalto à coletoria; era cousa pior, sacrílega aos olhos de todas as religiões e consciências: violavam-se as sepulturas do "Sossego", do seu cemitério, do seu campo-santo. Em começo, o coveiro julgou que fossem cães, mas, revistando bem o muro, não encontrou senão pequenos buracos. Fechou-os; foi inútil. No dia seguinte, um jazigo perpétuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou demônio. O coveiro não quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a notícia espalhou-se pela cidade. A indignação na cidade tomou todas as feições e todas as vontades. A religião da morte precede todas e certamente será a última a morrer nas consciências. [...] E a vila vivia em sobressalto. Nas faces não se lia mais paz; os negócios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, à noite, todos ouviam ruídos, gemidos, barulhos sobrenaturais... Parecia que os mortos pediam vingança... O saque, porém, continuava. Toda noite eram duas, três sepulturas abertas e esvaziadas de seu fúnebre conteúdo. Toda a população resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo à fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, já não havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso. Organizaram então uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mansão dos mortos. Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias já se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dous dos vampiros. A raiva e a indignação, até aí sopitadas no animo deles, não se contiveram mais e deram tanta bordoada nos macabros ladrões, que os deixaram estendidos como mortos. A notícia correu logo de casa em casa e, quando, de manhã, se tratou de estabelecer a identidade dos dous malfeitores, foi diante da população inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da Câmara. Este último ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, pôde dizer que juntava os ossos para fazer ouro e o companheiro que fugira era o farmacêutico. Houve espanto e houve esperanças. Como fazer ouro com ossos? Seria possível? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladrão de mortos se a cousa não fosse verdade! Se fosse possível fazer, se daqueles míseros despojos fúnebres se pudesse fazer alguns contos de réis, como não seria bom para todos eles! [...] Às necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicitá-los; e aqueles dous ou três milhares de pessoas, homens, crianças, mulheres, moços e velhos, como se fossem uma só pessoa, correram à casa do farmacêutico. A custo, o subdelegado pôde impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na praça, à espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele não tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na mão uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manhã, Bastos pediu graça, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. "Queremos já sabê-lo," gritaram. Ele então explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos—trabalho longo que só poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murmúrio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado. Docilmente, com aquela doçura particular às multidões furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabeça um único pensamento: arranjar imediatamente a maior porção de ossos de defunto que pudesse. O sucesso chegou à casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, não se falou em outra cousa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era impossível. Isto era alquimia, cousa morta: ouro é ouro, corpo simples, e osso é osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma cousa outra era "besteira". Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua mãe, Dona Emilia, tinha fé que a cousa era possível. À noite, porém, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemitério; Cora, de pés nus, com as chinelas nas mãos, procurou a criada para irem juntas à colheita de ossos. Não a encontrou, foi sozinha; e Dona Emília, vendo-se só, adivinhou o passeio e lá foi também. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, saía; a mulher, julgando enganar o marido, saía; os filhos, as filhas, os criados—toda a população, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao satânico rendez-vous no "Sossego". E ninguém faltou. O mais rico e o mais pobre lá estavam. [...] evolvia a sânie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu regaço até ali inútil. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, não sentiam o fétido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta... A desinteligência não tardou a surgir; os mortos eram poucos e não bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cachações. Pelino esfaqueou o turco por causa de um fêmur e mesmo entre as famílias questões surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho não brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta criança de onze anos, até aconselhou ao pai: "Papai vamos aonde está mamãe; ela era tão gorda..." De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma única pessoa lá não estivera, não matara nem profanara sepulturas: fora o bêbedo Belmiro. Entrando numa venda, meio aberta, e nela não encontrando ninguém, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas águas sobre o áspero leito de granito—ambos, ele e o rio, indiferentes ao que já viram, mesmo à fuga do farmacêutico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.
Trechos do conto A nova Califórnia, extraído da obra Clara dos Anjos (Mérito, 1948), do escritor Lima Barreto (1881-1922). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista russa Elena Zolotnitsky.
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AGENDA:
Festival Cultural e Literário em Libras da UFPE & muito mais na Agenda aqui.
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Vale do Una aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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E isso é tudo a vida toda no caos, Gustave Flaubert, Somerset Maughan, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sonia Fátima da Conceição, Kenneth Burke, Elza Barroso, Itinerário Musical do Nordeste, Cambão Torto de Amaraji, Marlos Nobre, Galina Ustvolskaya, Gilberto Mendes & Miriam Ramos aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor e maestro João Guilherme Ripper: Jogos Sinfônicos, Piedade, Concertino para viola e orquestra & Concerto Duplum & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aquiaqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...