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segunda-feira, agosto 26, 2024

ANNIE ERNAUX, DELIA STEINBERG, RENÉE FERRER & RECIFE DE URARIANO

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Lua amarela (Jazz to Jazz, 2016), Imagina (2019), My Ideal (Venus, 2019), In New York (Venus, 2019) & Como la piel (2021), da trombonista, cantora e compositora espanhola Rita Payés Roma.

 

BATENDO MÃOS, PASSO AFIADO... - Ontem saí do passado: um calabouço pro meu itinerário. Deixei pra lá o ninho em que tudo se passou, nem dava tempo, já era tarde: quantos percalços no solado dos pés. Dia desse era anteontem, parece, lembrei de mais nada – cabeça de fósforo em pés de alfaces. Foi: o mundo desembestou, racharam as cordas de guaiamuns, danos irreparáveis. E na toxicidade insalubre os aloprados reinam com suas sandices. Estou cheio com tantos queixumes e mungangas: vão ver se não estou lá na esquina. Ah, teve quem se apavorasse com coisa besta, quem dissesse do quenturão torrando tudo nas beiradas dos infernos, quem tremeu de friagem botou o pé no forno e não sobrou alma que se salvasse: cada qual seus coprólitos e flatulências, chatos de galocha. Dito pelo calado: a coisa ficou feiosa e não havia óleo de peroba que desse vencimento. Naquela: deu merda! E quem não avisou já se esqueceu. Quem se importa, expectativas, perspectivas, frustrações... - sou pras ouvintes paredes amigas, mofando nas inquietações, pro que é incompletude, nenhum desdouro - seja lá o que isso queira dizer para quem sequer tenha onde cair morto. Quem foi lá no fim do mundo não sei se já voltou. Eu que não vou, saco cheio das ingresias. Quem tocou fogo que vá buscar vento nas latas d’água. Se eu fizesse força ninguém me livraria. Nunca desisti do lugar que me fez, mesmo o que de antipático tornou-se pro meu desconforto: a vida é sempre combate, o amor move o Sol e a Lua, o meu destino. Se a noite fosse o caminho, todos para seguir. Sou pela surpresa: de léguas em tombos fiz a travessia e não perdi a viagem – passageiro que não erra não volta pra casa. Se porventura fosse o vento no céu aceso, quem partiu do nada queria tudo. Esperava a vez das boias e de cada um no cortar do apito: brincante é qualquer vivente na manobra do cordão - passando dum lado pro outro, tudo embarcado pela força da pisada do cabloclinho, vencendo a demanda, fôlego aceso à água se entrega. Soçobrei sobrevivente: os dilúvios da carne, os abismos dos sonhos – o que vem a dar no mesmo, mas são outros quinhentos. Diálogos, escolher qual, a vez do pulmão no ponto de partida, desdobras na astúcia de criar – nenhum termômetro, nem significados, afora percursos, transpirações. E era só isso, aviso aí. Não há guia, nem manual: experiência que valeu! As marcas da matriz e o que deu certo ou não, entre o que confundi de real às quimeras. Um outro dia depois, esse o prelúdio: porque não tenho palavras ásperas e não lavei as mãos porque agora é a vez de amanhã. Ainda e sempre, até mais ver.


Louise Gluck: Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória... Veja mais aqui.

Eleanor Hibbert: Não é quantos anos você viveu, é como eles o deixaram... Veja mais aqui.

C.J. Cherryh: Lembre-se, constantemente, que quando você fala sobre 'tempo do subjuntivo', você não está falando sobre tempo. Você está deslizando por graus de realidade... Veja mais aqui.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

BRINDE - Pegue a taça do meu coração \ e beba. \ Da sua tigela de sombra \ ele saboreia \ os brilhos arejados que me atravessam, \ da tensão vermelha dos seus nervos, \ o sabor do meu centro. \ Pegue meu coração \ e saboreie \ seu ressentimento nas pedras, \ a alegria espumosa da manhã, \ a doçura sentenciosa das despedidas, \ ao entardecer. \ Entre seus lábios \ pegue o canto do meu coração \ e saboreie \ o buquê adstringente do meu segredo. \ Se houvesse algo para beber \ eu te diria: \ pegue o cálice do meu coração \ e beba.

OBSTINAÇÃO - Essa falta de jeito de brincar com a vida \ É um mau truque não conseguir me vencer; \ esse jeito teimoso de te amar, \ prestes a entrar \ou já saindo da última tentativa; \ esse jeito teimoso \ para reacender a chama \ onde me encontrar um dia, \ mendigo do seu corpo.

SABOR - Na língua \ a lembrança salgada dos teus olhos \ e os sucos do beijo. \ Nas dobras da língua \ o sabor desolador da ausência, \ o tempero ardente do nosso hálito. \ Na penumbra da língua \ não tanto a doçura entrelaçada, \ mas o ácido febril da mordida. \ Na minha língua de cerâmica \ o poste dos teus olhos insones, \ o longo itinerário do teu corpo. \ Na língua \ o sabor metálico do seu desejo.

Poemas da escritora e dramaturga paraguaia Renée Ferrer de Arréllaga, autora de obras tais como: Entre el ropero y el tren (Alta Voz, 2004), Itinerario del deseo (Alta Voz, 2002), La colección de relojes (Arandura, 2001), El ocaso del milênio (Ediciones y Arte S.R.L., 1999), Vagos sin tierra (Expolibro, 1999), De la eternidad y otros delírios (Intercontinental, 1997), El resplandor y las sombras (Arandura, 1996), Desde el encendido corazón del monte (Arandura, 1994), Por el ojo de la cerradura (Arandura, 1993), entre outros. Veja mais aqui.

 

MEMÓRIAS DE MENINA - [...] Comecei a criar em mim um ser literário, alguém que vive como se suas experiências fossem escritas algum dia. [...] Ter recebido as chaves para compreender a vergonha não lhe dá o poder de apagá-la. [...] Todos os dias e em todo o mundo há homens em círculo ao redor de uma mulher, prontos para atirar pedras nela. [...]. Trechos extraídos da obra Mémoire de fille (FOLIO, 2018), da escritora francesa Annie Ernaux. Veja mais aqui.

 

FILOSOFIA PARA VIVER - [...] O especial modo de existência que aflige o ser humano nos últimos séculos faz com que se esqueçam certos valores simples, mas importantes, enquanto esse lugar é ocupado com elementos carentes de sentido. Por isso se demonstra tão difícil definir o que é a vida. É claro que viver é muito mais do que dispor de um corpo e tentar satisfazê-lo em todos os seus caprichos, na verdade dominando-o mal e pouco e sendo seu escravo na maioria das vezes. Tampouco é conseguir um lugar de destaque na sociedade, porque o prestígio e os elogios são sombras ilusórias que criam homens afundados na ilusão. O que existe hoje, amanhã desaparece sem razão aparente. Os que hoje exaltam uma atitude, amanhã a lamentarão com a mesma paixão. [...] Tudo é pouco para evitar o vazio do eu interior, que permanece mudo diante de nós mesmos. Para um filósofo, viver é muito mais do que tudo o que foi exposto até agora. Viver é uma escola, a mais completa e a mais difícil de todas. Corpo, sentimentos e pensamentos são as ferramentas que nos ajudam a superar as provas neste momento tão especial de aprendizado. O tempo é o grande mestre e o eu interior é o discípulo que recolhe experiências ao longo de toda a existência. Desse ponto de vista, as circunstâncias externas têm um valor relativo, o valor necessário para nos proporcionar situações apropriadas para o nosso desenvolvimento, mas não são essenciais nem definitivas e nem constroem o homem. Ademais, quando se aceitam as circunstâncias desta maneira, elas deixam de se converter em obsessões e podem ser manejadas e modificadas com muito mais perícia. Só então o homem começa a se transformar em dono de seu próprio destino. Viver é um ato de responsabilidade, diante de si mesmo e diante dos demais. Um filósofo não pode viver de qualquer maneira. Seus atos devem ter um sentido e uma lógica que possam transcender a simples sobrevivência física. Na escola da vida tudo tem um “porquê” e, por conseguinte, um “como” e um “para quê”. Viver é um ato de generosidade para consigo mesmo e para com os demais. Trata-se de se ajudar aprendendo e de compartilhar cada sucesso, cada aprendizado, de fazer valer a existência como uma entrega constante para o mundo no qual nos encontramos e, fundamentalmente, para a humanidade da qual fazemos parte. Viver é…. estar vivo. Não é um segredo, não é um jogo de palavras. É sentir-se parte do universo vital e de suas energias, é aproveitá-las e vibrar com elas. Assim o filósofo pode fazer da vida um ato eterno para uma meta de perfeição, que é também a eternidade. Seja como for, no final do caminho, a Musa da História espera, branca e firme, com os seus olhos serenos de mármore, para estender as mãos a quem ajuda a escrever o futuro e não apenas a contemplá-lo, a inspirar para todo o sempre os bravos e determinados, os protagonistas da vida, os conhecedores do início e do fim das coisas e, portanto, deste ambiente que agora percorremos. [...]. Trechos do artigo Preencher a vida (Nova Acrópole, 2023) da filósofa, música e escritora argentina Delia Steinberg Guzmán, autora de obra tais como: Los Juegos de Maya (1980), Hoy ví... (1983), Me dijeron que... (1984), El Héroe Cotidiano. Reflexiones de un Filósofo (1996), Peligros del racismo. Reflexiones acerca del problema del racismo y alternativas filosóficas para erradicarlo (1997), Para conocerse mejor (2004), Filosofía para vivir (2005), ¿Qué hacemos con el corazón y la mente? (2005) e El ideal de los Templarios (2015), entre outros. Em seu pensamento ela defende que: [...] A vida não pode ser uma soma de poder ou de riquezas, pois acontece o mesmo com os elogios e as censuras: alternam-se como em um jogo de luzes, onde é quase impossível reconhecer algo válido e estável. [...] As nossas ideias só são válidas se forem boas e justas, tanto para nós como para os outros, e se pudermos combiná-las com os melhores sentimentos, para que possamos aplicá-las da forma mais adequada. Uma ideia por si só, sem sentimento e sem ação consequente, está fadada a morrer. A experiência do dia a dia é suficiente para nos mostrar como é difícil colocar as nossas ideias em prática. Muitas vezes tendemos a permanecer no nível dos sonhos, ou melhor, dos devaneios, que acalmam os nossos desejos e nos poupam do esforço para transformar uma ideia em realidade tangível. [...].

 

DICIONÁRIO AMOROSO DO RECIFE

[...] todos cantam a cidade onde nasceram. Mas eu, que não tenho outra, canto o Recife. [...].

Trecho de À maneira de uma apresentação, extraído da obra Dicionário amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014), do escritor e jornalista Urariano Mota. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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quinta-feira, outubro 06, 2022

PAGU, YUVAL HARARI, RADCLYFFE HALL, FANNIE LOU HAMER, LOUISE FITZHUG & ABASSE NDIONE

 

Ao som do álbum Light (Decca, 2016), da pianista e maestrina italiana Vanessa Benelli Mosell, interpretando obras Scriabin e Stockhausen.

 

TRÍPTICO DQP: - A vida entre o placebo das dores e a panaceia dos simulacros... - Mais que esperar o destino se faz na hora da vez. Por enquanto, são e salvo na Torre de Babel enlouquecida que confirma o que disse Guy Debord: a imagem se tornou a forma final da reificação. Lá voo e vendem a Terra Prometida na impostura reiterada: jogam tudo fora no dia mais banal. Submeter-se ou morrer, nada mais para ser, só plágio, escárnio, crença, a privação e o invertido, a reinversão do sentido: a miséria e o pavor, a destruição e o insalubre, e me sinto despejado no limiar do atraso, no vazio da roleta, na sorte do cassino - só cisão e banir-se ao grau zero, eis a questão. Afora isso nada mais adiantasse, a vitória tornou-se com o tempo uma fragorosa derrota: não é aquilo que sequer parece. As coisas reinam com suas máscaras e a violência permanente mutila o visinvisível e nem era novembro, outroubo pelas mutamorfoses e obsolescências, aporias entre o céu e a terra. Resta apenas o cansaço diante da Não-Coisa, da morte da alteridade e da infocracia de Byung-Chul Han: Não precisam mais curvá-lo. Você foi convencido a se submeter voluntariamente! Sei que qualquer coisa acontecerá a qualquer momento na memória do morto enquanto vivo trabalha: perde uma e encontra outra entre o vil e os podres prazeres. E ressuscita Pamela McCorduck irônica: Máquinas ainda não pensam como Einstein, mas a maior das pessoas também não e nem por isso questionamos sua humanidade. E com ela um verso da Aranha pendurada de Antonio Cisneros: Se você não tomar cuidado você vai acabar acreditando que este é o mundo - Que ar resta para respirar... De repente o eco de Fannie Lou Hamer: O ódio não vai apenas nos destruir. Vai destruir essas pessoas que estão odiando também. É somente quando falamos o que é certo que temos a chance de ser explodidos à noite em nossas casas. É só um triz de alívio e esperançar no meio da fatalidade democratizada que o terror absoluto imprime e quebra o sigilo mais íntimo publicizado com as similaridades e escondendo hipocrisias e o asco de outra bem mais desprezível. O espetáculo é a última instância e a verdade jamais, resta apenas salvar as aparências na permanente ruina - um poço sem fundo e nenhuma revelação para as almas enfermas dos fracos. Quem sonha precisa acordar no meio da noite...

 


Asfixia doutras fumaças invisíveis... Imagem da artista australiana Sylvie Coupé Thouron. - Do outro lado daqui não reconheço mais ninguém, estranhos se fizeram, hostis quase feras que rugem ou grunhem a exalar asfixiante fumaça dos seus corpos que atraiçoam todos. Ao meu lado tosse Magda Szabó: Você não brinca com a morte, ela impõe suas próprias leis. O tempo que se foi e o que se perdeu nem faço questão, porque sei e sou porque não tenho; ao ter deixo de ser e só resta aparecer e o que não quero. Por isso, Anne Rice me chama atenção: Você tem uma história dentro de você; ela está articulada e esperando para ser escrita - por trás do seu silêncio e sofrimento. Era preciso prevenir, tarde demais: o Quibungo já soltou seus filhotes mandonistas por todos os birôs do poder. Tarde demais para ouvir Marguerite Radclyffe Hall: O mundo escondeu sua cabeça nas areias da convenção, para que, ao não ver nada, pudesse evitar a Verdade. Neste mundo há apenas a tolerância para o chamado normal. E sei que não há desvio necessário porque o desprezo corrompeu a todos e pulverizou-se na mentira de si próprio em cada um e o não-vivo comanda o coração da irrealidade. Tardia solidariedade de Louise Fitzhug: Às vezes você tem que mentir. Mas para si mesmo você deve sempre dizer a verdade. Estou feliz por não ser perfeita - eu ficaria entediada até a morte. Já sinto o que se diz inimigo radiante se aproximando, e quase desconsolado abraço Abasse Ndione que segreda: Em sua busca desenfreada pela felicidade, ele encontrará apenas a loucura. Se não dá pra visualizar a arquitetura da totalidade, mesmo assim, há muito a ser feito, apesar do afastamento de todos: a solidão sem ilusão...

 


Onde o amor jamais o ódio... - Longe da manhã escapo pela suicida madrugada do Recife, como se o nordestino tivesse a cabeça a prêmio no meio do estremecimento envenenado Brasil afora. No meio da implacável ventania as pálpebras dela realçam quase perto e ela feito a musa Pagu linda e estabanada medusa solta das heresias e refrações - sabia que quem a visse cegaria de paixão. E me abraçou lua cheia que acende a noite e me beijou agarrada ao meu tronco exasperando paixão e cicatrizes no Parque Industrial. Soluçou impropérios contra a garganta da máquina decadente tão imperiosa por agora, enquanto todos desconheciam ao relento o grito que apodreceu de fome e insônia pelas chamas da máscara insultuosa protegida por capacetes esdrúxulos. E se lamentou com O homem do povo, de Malakabeça, Fanika e Kabelluda, provocando os ventos e olhares no deboche da anarquia para me perguntar: Quem é o maior bandido vivo do Brasil? E se esgoelou como o espetáculo solar de todas as manhãs contra os dos caducos corações devastados engrossando os decrépitos e desmiolados algozes, como se ferida de morte pela sordidez. Viu-se temperamentalmente inadaptada para me beijar novamente desmesurada e tumultuosa. Estava disposta a ir às últimas consequências como se enfrentasse indispensável caos, e se sentisse capaz de enfrentar a histeria em massa do fungo de centeio com todos os psicogênicos, catatônicos e indiferentes na poeira da desgraça. Ah, não. Agora não. Ela novamente me abraçou terna e soluçante: Lê nos meus olhos todos os consentimentos. Mata tua sede na pedra que se fez fonte. E te encanta com a paisagem contraditória do meu ser. Sonhe, tenha até pesadelo se necessário for, mas sonhe. Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre. E transpirei sua voz, seu hálito quente, seu cheiro de vida e entrei para nunca mais sair - enquanto eu existir onde quer quer que ela esteja. E nela o chão se fez o que restou do paraíso e eu sabia: onde o amor, jamais o ódio. Até mais ver.

 

[...] Num mundo assim, a última coisa que um professor precisa dar a seus alunos é informação. Eles já têm informações demais. Em vez disso, as pessoas precisam de capacidade para extrair um sentido da informação, perceber a diferença entre o que é importante e o que não é, e acima de tudo combinar os muitos fragmentos de informação num amplo quadro do mundo. [...] As decisões que tomarmos nas próximas décadas vão moldar o próprio futuro de vida, e só podemos tomar essas decisões com bases na visão atual do mundo. Se esta operação não tiver uma visão abrangente do cosmo, o futuro da vida será decidido aleatoriamente. [...].

Trechos extraídos da obra 21 lições para o século 21 (Cia das Letras, 2018), do historiados e filósofo israelense, Yuval Noah Harari. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



sábado, abril 16, 2022

ÚRSULA LE GUIN, MÁRGARA RUSSOTTO, RACHEL CARSON, TAYLOR GATTO & RISOMAR FASANARO

 

 

TRÍPTICO DQP: Ladeirabaixo e nem aí... - Ao som do Piano Concert (2012) da pianista japonesa Yuki Murata. – É noite em pleno dia, um hoje a mais e tão assim, quase qualquer. Não apaguei nada, restou o embaralhado e inexplicável das coisas que nunca entendi direito. O que tivera de ser era imperceptível já passado e longe, sacramentado: não mais que uma quimera deslembrada, riscos no chão do tempo que pisadas e ventos trataram de apagar, monturos num sótão que não mais existe, porões removidos e eu no saguão de espera nenhuma de átrio desaparecido. No meio da barulhada infernal, entre os que vão e voltam nem aí, a voz da escritora estadunidense Úrsula Le Guin: É bom ter um objetivo para a jornada à frente, mas, no fim, o que importa é a jornada... Para ouvir, é preciso ficar em silêncio. Assim como ela tudo passa sem correspondência, não há como fruir da solitude: azáfama de escárnios, pipocos e peidos, escarros e agouros. O que guardei e se perdeu no esquecimento, o que fiz e não valeu mais que cinzas evaporadas, o que andei de não lembrar o percorrido, o que amei pra me socorrer de desalmados, o que fisgou meu coração e soltou a mão com o segundo aceno. E os que vêm e vão nem aí, eu voo.

 


De ontem para hoje, o mesmo será... - Lamber as feridas e lavrar as dores do corpo escalavrado, eis o que faço ao rasgar o peito para encontrar a raiz das asas perdidas, para quem antropófago Oswald fosse aos outros visto como Saturno devorando filhos para horror do Goya que sou diante da banalidade do mal de Arendt. E se a biologescritora estadunidense Rachel Carson (1907-1964) me diz: Até que tenhamos coragem de reconhecer a crueldade pelo que ela é - seja a vítima de um animal humano ou não humano - não podemos esperar que as melhores coisas vivam entre os homens vivos… Para cada ato que glorifica o prazer de matar, estamos atrasando o progresso da humanidade... O bem-estar futuro do homem e provavelmente até sua sobrevivência, dependem de ele aprender a viver em harmonia, e não em combate, com essas forças. Também o eco do Bill Mckibben não me deixa passar impune: Existe uma tendência em toda encruzilhada importante, mas difícil, de fingir que não está realmente lá. A lógica do desinvestimento não poderia ser mais simples: se é errado destruir o clima, é errado lucrar com esses destroços. É tudo muito difícil no meu país desembestado como o navio dos tolos na alegoria platônica: timoneiro tonto desqualificado disputa a bordo com tripulação disfuncional e normacha neopentec no inferno da repetição: empanturrada farra e tudo acaba em corrupção! Do impossível a sensatez feminina me recita trechos da poeta italiana Márgara Russotto: Ninguém falará / de mulheres anônimas / na poeira / do domingo / puxadas por infinitas crianças / que perscrutam a sombra / Nenhum homem / deve domar / a besta do domingo / seu carrilhão / no céu violeta... Ela ao meu lado ainda sorri e isso é bom, voo olhaberto.

 


Recinfância... – Imagem: Praia de Boa Viagem – Recife – PE, da artista plástica Cristiane Gomes. - Escancaradestrada e eu sem rumo nem nada. Entre desenganos e talhos, sobraram reminiscências doces da infância: a doce esperança de quem viveu e não tinha mais que escapar das reprimendas, menino solto pelas brechas dos combongós, buracos da fechadura, espelhinho no bolso para segredo embaixo das saias, as olhadas por cima do muro, a fuga dos flagras: os pés na areia, sargaço no olfato e o desfile das beldades pras ondas de Boa Viagem. E crescia com as badaladas no ouvido para que tomasse jeito de gente e vencesse na vida, quando eu nem sabia como ou o que era isso, só superava a mim mesmo. Dizia à vida: não se avexe, não sei dançar, passos lentos na paisagem. Já sentia ali o peso de milênios em que errava à toa, não havia nenhum gênio da lâmpada por guia nem mesmo espreitado o diabo na garrafa por revertério, andanças muitas e nunca achei paradeiro. O Recife sempre foi inteiro no meu coração, como se tivesse escrito na carne os versos de Risomar Fasanaro: aprendi com o rio / o tempo transforma / pedras em seixos... e o sorriso dela iluminou as minhas trevas para recitar baixinho: o que mais fica na gente / é a sensação das coisas / inacabadas... E bateu forte, meu coração aos pulos reencontrava a esperança de persistir vidafora céu&mar, coisa para viver e amar. Até mais ver.

 

O principal objetivo da educação real não é fornecer fatos, mas guiar os alunos para as verdades que lhes permitirão assumir a responsabilidade por suas vidas.

Pensamento do escritor e professor estadunidense John Taylor Gatto (1935-2018). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



domingo, novembro 14, 2021

JHUMPA LAHIRI, BALTASAR GRACIÁN, JULIANA VALVERDE & JUAREIZ CORREYA.

 

 

TRÍPTICO DQP – A palavra calada... - Ao som dos álbuns Um cravo bem variado (Vol. 1,1996 – Vol. 2, 2006) e Um pouco de tudo (A Little bit of Everything, 2016) da pianista Regina Schlochauer. - Lá vou eu dia mais dia menos insulado em minhas próprias ideias e arroubos. Sigo como quem perdeu a vírgula e foi expatriado, quando não estranho em meu próprio país. Apesar de esgotado como se não tivesse mais nada a fazer, não preciso agradar, nem quero, diante de mim só desvios por descaminhos e bifurcações, nenhum pouso certo. Escapo e me seguro como posso para não ser levado de roldão, porque não quero me salvar dessa enlouquecida dissimilitude no meio de dogmas, superstições e notícias falsas - quantas insuficiências, privações. Na verdade, quanta gente ofendida, mal-humorada, umbigocentrista com seus acicates... Vira e mexe, o que rende? Não mais que loas irreveláveis. Vale dizer, o que quer que se faça, a crassa ignorância de acólitos vetores ressentidos, abraçados com seus próprios rancores e a repetirem aos borbotões o que nunca leram do vetusto Oráculo manual y arte de prudência (Sextante, 2006), do escritor espanhol Baltasar Gracián y Morales (1601-1658): Não se vive seguindo uma só opinião, um só costume ou um só século... Não há nada tão amável quanto a virtude, nem tão detestável quanto o vício. Só a virtude basta a si mesma. Faz-nos amar os vivos e lembrar os mortos... Um homem atento percebe que é ou será visto. Sabe que as paredes têm ouvidos e que o que é malfeito acaba sendo conhecido... Ah, não! Quantas máscaras pros seus disfarces de homo habilis, rudolfensis, erectus, heidelbergensis, neanderthalensis, ergasters, sapiens, fabers, communicans, o ludens do Huizinga, o videns do Sartori, – até o Homo Deus de Yuval Noah Harari:... estamos à beira de uma revolução importante. Os humanos correm o risco de perder seu valor econômico porque a inteligência está se desvinculando da consciência... - e o retrocedens (Vixe! Nossa! Será mesmo?). Nada por acaso. É como se um guarda-chuva encontrasse de novo uma máquina de costura sobre a mesa de autópsia para copularem desordenada e explicitamente. E, por causa disso, o tempo parasse de não mais. Sou salvo porque, de repente, ela chega e ao presenciar todo meu espanto, recitou-me um trecho d’O haver de Vinicius de Moraes: Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... Ah, como é prazeroso tê-la ali, revê-la, ouvi-la. Em retribuição, saquei do violão e entoei a canção que fiz para A palavra calada de Vital Corrêa de Araújo: desfibra a palavra quando cala / quando o caule da árvore da fala / que é vento verbo e alicerce / anoitece / quando as seivas todas são sugadas / e o trêmulo das folhas proibido / quando os discursos são lacrados / dentro das praças sitiadas / e o som negado aos ouvidos / e o grito cortado na garganta / e o medo aberto no meio abrupto do dia / desfibra a palavra quando a árvore da fala / e os frutos dos gritos são demolidos / pelos silêncios vivos. Sim, anoitecia. Ao final, ela me premiou um sorriso, sabia: era a minha forma de escapar da loucura.

 


Não era apenas uma... – Imagem: arte da artista visual Juliana Valverde: Sigo meu caminho rumo a regeneração fazendo colagens, recortando colando ressignificando ideias relações inquietações através arte arquitetura educação. - Sim, ela me salvou da loucura extrema, muito embora eu saiba que não detenho nenhuma sanidade mental no meio desse genocídio que virou o meu país, no meio desse tempo escatológico de últimos instantes. Sim, foi nos braços dela de Vênus restaurada de Man Ray, como se fosse Juba na pele da atriz neozelandesa Kerry Fox, a me envolver nas cenas do Intimité (2001) de Patrice Chéreau, por todas as manhãs, tardes e noites: embaraçados e sem tem ter o que dizer se não sabíamos nada um do outro. Nela, nada se equiparava: a vida é música e sequer sei em que direção sopra o vento. Para quem audiófilo ou melômano tanto faz – afinal, como já dissera o ensaísta e critico literário inglês, Walter Pater (1839-1894): Toda arte aspira à condição de música. E ela era música e nela sequer sabia por quantos anos consecutivos. Era ela, nada mais.

 


A semana passou... – Tudo passou e passa. E era Admmauro Gommes no Congresso Nacional de Escritores que a Semed-Palmares promoveu no meio da exposição da Biblioteca Municipal das artes do Pintando na Praça, oportunidade em que revi amigamigos & outras personagens de décadas passadas. No Teatro Cinema Apolo, o Carlos Calheiros me levou para um bate-papo na Associação dos Artesãos Palmarenses e, todos os dias, sem desgrudar das comemorações da antologia dos 70 Setembros, do poetamigo Juareiz Correya e o seu Poema vago olhando a cidade: Minha cidade / ficará gravada / num poema lívido e vago. / Não será preciso citar becos e ruas / inevitáveis em sua anatomia. / Nem correr com a memória / as lembranças, e os minutos de agora. / Minha cidade / não será vista / num poema sentimental. / Conservarei oculto até o seu nome / neste poema / de amor silente / às suas coisas, a ela mesma. E esta cidade sou eu dedilhando a minha canção para o poema dele Ponte sobre águas turvas e a gente às gaitadas cultuando Ascenso e festejando Hermilo com os versos do Americanto amar América e eu me sentisse abraçado com José Terra e João Guarani ainda meninos na sala da minha casa, com a maior torcida por Mariama, cantando juntos como se eu fosse Paulo Diniz no Poema para Léa. E era a Livro7 e os sonhos do Recife, os amigos e as rodadas dos pileques exaltados por becos e ruas, os versos e os desenganos, a teimosia, o abraço fraterno e a urgência de vida... Saudades demais... E a salvação novamente é dela no meio do meu naufrágio, sussurrando nua Jhumpa Lahiri ao meu ouvido: Há momentos em que me assombro com cada quilômetro que viajei, cada refeição que fiz, cada pessoa que conheci, cada quarto em que dormi. Por comum que pareça, há momentos em que tudo fica além da minha imaginação... Esta é a verdade sobre os livros: eles permitem que você viaje sem mover seus pés. Tudo é vivo, transpira e geme... Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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quarta-feira, julho 21, 2021

MICHAEL CONNELLY, NATALIA OSIPOVA, AMANDA VIEIRA, JORGE GARCIA, A DONZELA & A BAILARIA MORTAL

 

 

TRÍPTICO DQP – A donzela mágica... - Ao som Le Cygne – The SwanLe carnaval des animaux, de Camille Saint-Saëns, na interpretação de Han-Na Chang & Philharmonia Orchestra, conductor Leonard Slatkin & solo The Dying Swan da bailarina russa Natalia Osipova. - Lá estava ela jogada nas pedrarias da ilha do mar de Amadis de Gaula. Não sabia se ferida ou machucada ao pé do penhasco escarpado e árido da imensa altura de tocar as nuvens, acho. Estava desacordada e fiquei sem saber o que fazer. Toquei-lhe o pulso, ainda viva. Vi que tremiam suas pálpebras e lábios, um vago movimento na perna direita, um incerto tatear da mão esquerda tocou-me e afaguei seu braço e a deitei em meu peito alisando seus cabelos. Um sussurro dolorido e se ajeitou em mim, beijei-lhe os cabelos e ali fiquei cuidando dela não sei por quanto tempo. Abriu os olhos, expôs sua boca sedutora e beijou-me como se pedisse socorro. Correspondi ao beijo e a abriguei em meus braços a noite inteira até ao amanhecer. Ela tentou se recompor e despertou sem noção de nada, fitou-me seriamente e me contou que era a filha do mágico de Argos, Finetor, e se chamava Oriana. Versada em necromancia, vivia ali toda a sua vida e sua diversão era acompanhar a passagem de numerosos barcos que vinham ou iam para Irlanda ou Noruega e delas, por artes da magia, atrair os homens para roubar-lhes as cargas, aprisionar os cavaleiros a bordo, provocando-os a lutarem entre si até se matarem. Certa feita, entre os cavaleiros havia um oriundo de Creta, por quem ela apaixonou-se perdidamente. Deu-lhe tudo em troca do seu amor e ele fingiu amá-la, familiarizando-se c0m seus encantamentos até que, um dia, ele inclinou-se no alto do rochedo fingindo abraçá-la, jogou-a da varanda de sua esplêndida mansão. Ali estava. O que ele fez? Libertou todos os prisioneiros e levou consigo muitos tesouros dela, só não conseguindo levar nada da sala mais rica do castelo por causa do encantamento. Ouvi atento a tudo que contara e perguntei como poderia sair dali, respondeu-me que a paragem mais próxima estava a uns seis dias de viagem, a ilha da Torre Escarlate. Vi-a distante, sabia do que dissera o escritor estadunidense Michael Connelly: Eu vejo as pessoas de duas maneiras. Eles são pessoas olho-por-olho ou vira-a-cara. Não importava que guerra fosse travada, voltar para casa era outra batalha. Não há nada que você possa fazer sobre o passado, exceto mantê-lo lá. O que é importante não é o que você ouve dizer, mas o que você observa. E fiquei ali calado, fitando seus gestos e contemplações. Por fim, ofereceu-me por presente e gratidão tudo que houvesse na sala encantada do seu palácio, e me fez seguir o caminho de subida, livrando-me das serpentas e outras criaturas terríveis que hibernavam ao redor da porta da câmara, a qual possui painéis com letras de cor sanguínea, uma escrita misteriosa que contém o nome do cavaleiro destinado a entrar na sala depois de retirar a espada presa na maçaneta. Tudo me contou e agradeci, mas disse-lhe não me interessava riquezas, mas levá-la aos seus aposentos. Subimos o íngreme caminho e nos deparamos com a porta: lá estava inscrito o meu nome. Ela sorriu com um abraço afetuoso, eu tinha que voltar.

 


A bailarina mortal... - Ao retornar reencontrei o meu mundo e não seria fácil sobreviver. Pouco tempo depois ela reapareceu familiar com um verso da Conceição Evaristo: O que os livros escondem, / as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha / um ponto-final na história… Estava mais deslumbrante que antes, lívida e estonteante. Não havia há como saber se era setembro de antanho ou fevereiro dagora, só que parecia tão atordoante como um mal que vinha de longe e com muitos nomes, a bordo de um navio e a dizer: salve-se quem puder. Sorria muito e encantadoramente. Logo quando a vi me veio a sensação de um verso de Fernando Pessoa: Ah, o horror de morrer! / E encontrar o mistério frente a frente / Sem poder evitá-lo, sem poder… Era como se ela me levasse por uma dança acasaladora, na qual perdia a memória e a identidade. Ao sobreviver o redemoinho de sua entrega, logo constatei que o Recife estava acometido de uma tanatomorbia e era ela dançando solta com todos os santos, uma espanholada sobre o salubre e a borracha, sem poupar mascarados no seu carnaval. Ela onde chegasse parava tudo a desnudar o precário em seu massacre. E ali José Miguel Wisnik denunciasse: Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus. E era. Tudo muito confuso: mortes, noticiário, disputas e negacionismo faziam a festa da hecatombe no embuste da oferta de curas milagrosas: estávamos todos à sua mercê a ponto de não se saber se era o século passado ou o presente, não fosse a denúncia de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling e quase ninguém ouvia encantado com o espetáculo. Ao ver-me assustado Lilia contou do espetáculo das raças com as barbas do imperador e o triste visionário Lima Barreto. Heloisa, por sua vez, segurou minhas mãos trêmulas e me falou dos senhores gerais, das lembranças do Brasil e dos impasses contemporâneos, dialogando com Lilia sobre a biografia do nosso chão. Eu entendia tudo e quase desentendia de nada, o que sabia é que era uma guerra, uma guerra igual a de ontem e confuso se a primeira, segunda ou sabe-se lá, todo dia aqui é uma guerra e que milhões de pessoas são ceifadas. E ela era a bailarina mortal, imensa, pandêmica. E tudo me levava a crer que se não fosse possível lembrar o que ocorreu durante os mais diversos períodos históricos, não havia outra coisa a fazer, repetir tudo seria a condenação.

 


A dança da cidade... Imagem: a bailarina Amanda Vieira, do Bolshoi Brasil na Companhia da Ópera de Dortmund: Sempre esperei o momento em que eu pudesse viver e me sustentar apenas da dança, e esse momento finalmente chegou! – Nem sabia direito, mas ela me salvou não sei como. Sei que a cidade era a mesma e era outro momento de carnaval perdido e todos mascarados, eu, ela, muitos. Os seus olhos apreensivos me levaram ao coreógrafo e bailarino Jorge Garcia, tão inquieto quanto nós, entre a Cisne Negro, o GRUA e o Balé de São Paulo, num performático improviso, a me contar de Marie van Goethem, e eu nem sabia se tratar da pequena em perpétua quarta posição do balé de Degas e do Little Dancer Aged Fourteen de Camille Laurens. Sim e... Se o pintor, como dissera: encerrei meu coração numa sapatilha de cetim cor-de-rosa, e a sua musa virou um fantasma sem história, para nós era mais que magia pura o que vivíamos na alma do Recife: a dor é que era nossa. Diferente da musa que desaparecera sem deixar nenhum rastro, para onde quer que eu vá, a cidade enche meu coração de esperança por todas as paragens distantes e perdidas. Até mais ver.

 

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