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domingo, maio 10, 2026

BIOGRAFIA DO BRASIL, TARANEH JAVANBAKHT, ÉDOUARD LOUIS & SEVERINO ARAÚJO

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento (2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João (2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de Oliveira). Veja mais aqui.

 


Miolo de pote, uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava, rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem, os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé: Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso... Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata. Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto, simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.

 

Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mônica Martelli: Precisamos nos olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos: o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para isso... Veja mais aqui & aqui.

Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem ameaçados... Veja mais aqui.

 

A MARGEM DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Resmungou novamente a onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento. Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \ as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó! onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \ este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \ narrativa amarga."

Poema da escritora iraniana Taraneh Javanbakht.

  

MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular, profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer, para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change ( Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...] Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política, porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento, nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas. Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu, para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis. Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].

 

BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil” dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também, do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...] Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a naturalização da violência e a perversão da sociedade. [...] O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. [...] Padre António Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore: difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling, na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba, malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA

A arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de Oliveira (1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937), Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948), Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953), Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre tantos outros. Veja mais aqui.

 

Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Débora Ferraz aqui.

Urariano Mota aqui, aqui & aqui.

Ágnes Souza aqui.

Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho - 1924-2011) aqui.

Laís de Assis aqui.

José Teles aquí & aquí.

Thalyta Monteiro aqui.

Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.

 



quarta-feira, julho 21, 2021

MICHAEL CONNELLY, NATALIA OSIPOVA, AMANDA VIEIRA, JORGE GARCIA, A DONZELA & A BAILARIA MORTAL

 

 

TRÍPTICO DQP – A donzela mágica... - Ao som Le Cygne – The SwanLe carnaval des animaux, de Camille Saint-Saëns, na interpretação de Han-Na Chang & Philharmonia Orchestra, conductor Leonard Slatkin & solo The Dying Swan da bailarina russa Natalia Osipova. - Lá estava ela jogada nas pedrarias da ilha do mar de Amadis de Gaula. Não sabia se ferida ou machucada ao pé do penhasco escarpado e árido da imensa altura de tocar as nuvens, acho. Estava desacordada e fiquei sem saber o que fazer. Toquei-lhe o pulso, ainda viva. Vi que tremiam suas pálpebras e lábios, um vago movimento na perna direita, um incerto tatear da mão esquerda tocou-me e afaguei seu braço e a deitei em meu peito alisando seus cabelos. Um sussurro dolorido e se ajeitou em mim, beijei-lhe os cabelos e ali fiquei cuidando dela não sei por quanto tempo. Abriu os olhos, expôs sua boca sedutora e beijou-me como se pedisse socorro. Correspondi ao beijo e a abriguei em meus braços a noite inteira até ao amanhecer. Ela tentou se recompor e despertou sem noção de nada, fitou-me seriamente e me contou que era a filha do mágico de Argos, Finetor, e se chamava Oriana. Versada em necromancia, vivia ali toda a sua vida e sua diversão era acompanhar a passagem de numerosos barcos que vinham ou iam para Irlanda ou Noruega e delas, por artes da magia, atrair os homens para roubar-lhes as cargas, aprisionar os cavaleiros a bordo, provocando-os a lutarem entre si até se matarem. Certa feita, entre os cavaleiros havia um oriundo de Creta, por quem ela apaixonou-se perdidamente. Deu-lhe tudo em troca do seu amor e ele fingiu amá-la, familiarizando-se c0m seus encantamentos até que, um dia, ele inclinou-se no alto do rochedo fingindo abraçá-la, jogou-a da varanda de sua esplêndida mansão. Ali estava. O que ele fez? Libertou todos os prisioneiros e levou consigo muitos tesouros dela, só não conseguindo levar nada da sala mais rica do castelo por causa do encantamento. Ouvi atento a tudo que contara e perguntei como poderia sair dali, respondeu-me que a paragem mais próxima estava a uns seis dias de viagem, a ilha da Torre Escarlate. Vi-a distante, sabia do que dissera o escritor estadunidense Michael Connelly: Eu vejo as pessoas de duas maneiras. Eles são pessoas olho-por-olho ou vira-a-cara. Não importava que guerra fosse travada, voltar para casa era outra batalha. Não há nada que você possa fazer sobre o passado, exceto mantê-lo lá. O que é importante não é o que você ouve dizer, mas o que você observa. E fiquei ali calado, fitando seus gestos e contemplações. Por fim, ofereceu-me por presente e gratidão tudo que houvesse na sala encantada do seu palácio, e me fez seguir o caminho de subida, livrando-me das serpentas e outras criaturas terríveis que hibernavam ao redor da porta da câmara, a qual possui painéis com letras de cor sanguínea, uma escrita misteriosa que contém o nome do cavaleiro destinado a entrar na sala depois de retirar a espada presa na maçaneta. Tudo me contou e agradeci, mas disse-lhe não me interessava riquezas, mas levá-la aos seus aposentos. Subimos o íngreme caminho e nos deparamos com a porta: lá estava inscrito o meu nome. Ela sorriu com um abraço afetuoso, eu tinha que voltar.

 


A bailarina mortal... - Ao retornar reencontrei o meu mundo e não seria fácil sobreviver. Pouco tempo depois ela reapareceu familiar com um verso da Conceição Evaristo: O que os livros escondem, / as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha / um ponto-final na história… Estava mais deslumbrante que antes, lívida e estonteante. Não havia há como saber se era setembro de antanho ou fevereiro dagora, só que parecia tão atordoante como um mal que vinha de longe e com muitos nomes, a bordo de um navio e a dizer: salve-se quem puder. Sorria muito e encantadoramente. Logo quando a vi me veio a sensação de um verso de Fernando Pessoa: Ah, o horror de morrer! / E encontrar o mistério frente a frente / Sem poder evitá-lo, sem poder… Era como se ela me levasse por uma dança acasaladora, na qual perdia a memória e a identidade. Ao sobreviver o redemoinho de sua entrega, logo constatei que o Recife estava acometido de uma tanatomorbia e era ela dançando solta com todos os santos, uma espanholada sobre o salubre e a borracha, sem poupar mascarados no seu carnaval. Ela onde chegasse parava tudo a desnudar o precário em seu massacre. E ali José Miguel Wisnik denunciasse: Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus. E era. Tudo muito confuso: mortes, noticiário, disputas e negacionismo faziam a festa da hecatombe no embuste da oferta de curas milagrosas: estávamos todos à sua mercê a ponto de não se saber se era o século passado ou o presente, não fosse a denúncia de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling e quase ninguém ouvia encantado com o espetáculo. Ao ver-me assustado Lilia contou do espetáculo das raças com as barbas do imperador e o triste visionário Lima Barreto. Heloisa, por sua vez, segurou minhas mãos trêmulas e me falou dos senhores gerais, das lembranças do Brasil e dos impasses contemporâneos, dialogando com Lilia sobre a biografia do nosso chão. Eu entendia tudo e quase desentendia de nada, o que sabia é que era uma guerra, uma guerra igual a de ontem e confuso se a primeira, segunda ou sabe-se lá, todo dia aqui é uma guerra e que milhões de pessoas são ceifadas. E ela era a bailarina mortal, imensa, pandêmica. E tudo me levava a crer que se não fosse possível lembrar o que ocorreu durante os mais diversos períodos históricos, não havia outra coisa a fazer, repetir tudo seria a condenação.

 


A dança da cidade... Imagem: a bailarina Amanda Vieira, do Bolshoi Brasil na Companhia da Ópera de Dortmund: Sempre esperei o momento em que eu pudesse viver e me sustentar apenas da dança, e esse momento finalmente chegou! – Nem sabia direito, mas ela me salvou não sei como. Sei que a cidade era a mesma e era outro momento de carnaval perdido e todos mascarados, eu, ela, muitos. Os seus olhos apreensivos me levaram ao coreógrafo e bailarino Jorge Garcia, tão inquieto quanto nós, entre a Cisne Negro, o GRUA e o Balé de São Paulo, num performático improviso, a me contar de Marie van Goethem, e eu nem sabia se tratar da pequena em perpétua quarta posição do balé de Degas e do Little Dancer Aged Fourteen de Camille Laurens. Sim e... Se o pintor, como dissera: encerrei meu coração numa sapatilha de cetim cor-de-rosa, e a sua musa virou um fantasma sem história, para nós era mais que magia pura o que vivíamos na alma do Recife: a dor é que era nossa. Diferente da musa que desaparecera sem deixar nenhum rastro, para onde quer que eu vá, a cidade enche meu coração de esperança por todas as paragens distantes e perdidas. Até mais ver.

 

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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...