Mostrando postagens com marcador Bebel Gilberto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bebel Gilberto. Mostrar todas as postagens

domingo, maio 10, 2026

BIOGRAFIA DO BRASIL, TARANEH JAVANBAKHT, ÉDOUARD LOUIS & SEVERINO ARAÚJO

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento (2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João (2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de Oliveira). Veja mais aqui.

 


Miolo de pote, uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava, rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem, os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé: Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso... Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata. Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto, simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.

 

Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mônica Martelli: Precisamos nos olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos: o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para isso... Veja mais aqui & aqui.

Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem ameaçados... Veja mais aqui.

 

A MARGEM DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Resmungou novamente a onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento. Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \ as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó! onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \ este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \ narrativa amarga."

Poema da escritora iraniana Taraneh Javanbakht.

  

MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular, profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer, para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change ( Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...] Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política, porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento, nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas. Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu, para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis. Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].

 

BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil” dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também, do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...] Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a naturalização da violência e a perversão da sociedade. [...] O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. [...] Padre António Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore: difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling, na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba, malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA

A arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de Oliveira (1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937), Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948), Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953), Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre tantos outros. Veja mais aqui.

 

Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Débora Ferraz aqui.

Urariano Mota aqui, aqui & aqui.

Ágnes Souza aqui.

Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho - 1924-2011) aqui.

Laís de Assis aqui.

José Teles aquí & aquí.

Thalyta Monteiro aqui.

Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.

 



terça-feira, maio 12, 2015

FROMM, CAMÕES, DALTON, LEAR, BEBEL, PLÍNIO, ROSSETTI, NIGHTIGALE, HUPPER & HEPBURN.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – (Imagem: Enfermeira, ilustração de Coles Phillips, para a revista Red Cross, Janeiro, 1918). Um dia escrevi na letra da canção O Amor que: Quem ama persegue o alcandor e segue adiante o alvo da paixão, vai distante seja pra onde a flor desabrocha [...] porque o amor é mútua condecoração. Não estava apenas e tão somente inspirado  na indagação do magistral Soneto do poeta lusitano, Camões (1524-1580): “Amor é um fogo que arde sem se ver, / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer. / É um não querer maisque bem querer; / é um andar solitário entre a gente; / é nunca contentar-se de contente; / é um cuidar que ganha em se perder. / É querer estar preso por vontade; / é servir a quem vence, o vencedor; / é ter com quem nos mata, lealdade. / Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor?”. Não só, mas aquele que nos move a todo momento, aquele identificado na difusa expressão de sentimentos que redundam no que se convenciona chamar de amor. Como a dos seis sentidos dados pelos gregos. Sim e muito mais: a indispensável necessidade de amor em tudo que se queira fazer, a exemplo da declaração de amor da enfermeira inglesa e fundadora da Enfermagem moderna, Florence Nightigale (1820-1910) ao se referir à sua profissão: "A Enfermagem é uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto à obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo, o templo do espírito de Deus? É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes!". É esse o amor tão necessário em nosso conturbado. E vamos aprumar a conversa aqui, aquiaqui.


Imagem: Vênus Verticordia up for auction, do pintor britânico e um dos fundadores da Irmandade Pré-Rafaelita Dante Gabriel Rossetti (1828-1882). Veja mais aqui.



Curtindo o dvd Bebel Gilberto in Rio (Bebelucha - Biscoito Fino, 2013), da cantora e compositora Bebel Gilberto.


PROGRAMA TATARITARITATÁO programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiNa programação de hoje: Jules Massenet, Baden Powell, Edu Lobo & Tom Jobim, Bebel Gilberto, Jamelão, Banda de Pau e Corda, Sá & Guarabira, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Os Três do Rio, Carlos Lyra, Luiz Bonfá, Beth Carvalho, Danilo Caymmi, Wanda Sá & Roberto Menescal, Sonia Mello, Ricardo Machado, Carlinho Motta, Daniel Pissetti Machado, Santana o Cantador, Elisete, João Pinheiro, Dery Nascimento, Ozi dos Palmares, Julia Crystal & Mônica Brandão, Ibys Maceioh, Alexandre Machado, Mazinho, Cikó Macedo & Menina Molhada, Zé Ripe, Fabio Stella &  Hyldon & Tim Maia & muito mais. Confira mais aqui.

A ARTE DE AMAR – O livro A arte de amar (The Art of Loving - Martins Fontes, 2000), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980), trata a respeito do amor em todos os seus aspectos e da maneira pelas quais a extraordinária emoção do amor pode alterar o curso da vida humana, tornando a vida de homens e mulheres produtivas e ricas pelo desenvolvimento de suas capacidades para o amor constituído de autoconhecimento, maturidade e coragem: “O amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana [...] Sem amor, a humanidade não poderia existir um dia”. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Se o amor é uma capacidade do caráter produtivo e maduro, segue-se daí que a capacidade de amar, num indivíduo que viva em qualquer, cultura dada, depende da influência dessa cultura sobre o caráter da pessoa comum. Se falamos de amor na cultura ocidental contemporânea, temos de indagar se a estrutura social da civilização ocidental e o espírito dela resultante são de molde a conduzir ao desenvolvimento do amor. Suscitar a pergunta é responder pela negativa. Nenhum observador objetivo de nossa vida ocidental pode duvidar de que o amor — amor fraterno, amor materno e amor erótico — seja fenômeno relativamente raro, sendo seu lugar tomado por numerosas formas de pseudo-amor que, em realidade, são outras tantas formas de desintegração do amor. A sociedade capitalista baseia-se no princípio da liberdade política, de um lado e, do outro, no do mercado como o regulador de todas as relações econômicas e, portanto, sociais. O mercado das utilidades determina as condições sob que os artigos se trocam; o mercado de trabalho regula a aquisição e a venda do trabalho. Tanto as coisas úteis, como a energia e a capacidade humanas úteis, são transformadas em artigos que são trocados, sem o uso da força e sem fraude, sob as condições do mercado. Sapatos, por úteis e necessários que possam ser, não terão valor econômico (valor de troca) se no mercado não houver procura deles; energia e capacidade humanas não terão valor de troca se não houver procura delas sob as condições de mercado existentes. O possuidor de capital pode comprar trabalho e ordenar que ele trabalhe em bem do proveitoso investimento de seu capital. O possuidor de trabalho deve vendê-lo aos capitalistas sob as condições de mercado existentes, a menos que vá morrer de fome. Essa estrutura econômica refletese numa hierarquia de valores. O capital comanda o trabalho; as coisas acumuladas que são mortas, têm valor superior ao trabalho, às forças humanas, àquilo que é vivo. Esta tem sido a estrutura básica do capitalismo desde seu início. Mas, se ela ainda é característica do capitalismo moderno, alterou-se certo número de fatores, que dão ao capitalismo contemporâneo qualidades específicas e que têm profunda influência sobre a estrutura do caráter do homem moderno. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

DESASTRES DE AMOR – O livro Desastres de amor (Civilização Brasileira, 1968), do escritor Dalton Trevisan, trata da condição humana nas situações mais inesperadas por meio de jogos amorosos e dos desastres das relações. Da obra destaco o techo a seguir: Maria vira-se rápida, cinge-lhe os braços no pescoço, beija-o furiosa na boca. Surpreso, afasta o braço, com o cigarro na mão. Beijo guloso, metade sofrido, metade mordido - cai o cigarro aceso no tapete. Ela rilha o dente, esfrega-se toda, insinua a mão sob  a camisa: um botão espirra longe. - Ali no sofá, Maria. Queixume abafado mas não arreda pé. - Sempre os sonhos? Emagrecendo? Suando de noite? Olho muito branco na vertigem dos suspiros. De repente envergonhada, abate-se na cadeira, funga baixinho. - Não chore meu bem. Não chore. Ergue-a gentilmente nos braços, ela se desvencilha. - Não me pegue. Não me pegue. Por que vim aqui, mãezinha do céu? E na ponta dos pés a beijá-lo com raiva, filhote faminto que enterra a língua em busca de alimento. - Como é que baixa isso? Três botões da calça comprida. soltos, a calça desliza. Corre fácil a pecinha rosa de malha. Ali uma pintinha de beleza, ai que delicia! - Tenha pena de mim! É tarde quem tem pena de Maria? Ela geme e soluça o beijo da paixão, que retribui sem entusiasmo. - Que que eu vá embora, não é? Distraído procura a carteira no bolso. - Será que não tenho mais cigarro? - O que o doutor pensa de mim? - É muito querida. Retoca a franja, guarda espelhinho. - O meu seio que tanto elogiou não é firme? Ele espreme displicente um depois outro. - Duas pedras. Tão duros! Bem séria na porta, luva de crochê. - Se o doutor conta para alguém eu me mato! - Então nunca se mata. Volte outra vez, minha filha.  - Não sei... Eu sei que volta noivinha do céu. Veja mais aquiaqui.

ABAJUR LILÁS – A peça teatral em dois atos O abajur lilás (Brasiliense, 1975), do ator, diretor, jornalista e autor teatral Plinio Marcos (1935-1999), conta a história de três prostitutas de diferentes idades e perspectivas de vida passando por um penoso aprendizado de rebeldia, entrando em confronto com o homossexual que as explora ao encontrar o seu abajur lilás quebrado, na tentativa de descobrir qual delas havia feito isso. Trata-se de uma reflexão sobre a luta de classes, da qual destaco o trecho do quarto quadro no segundo ato: (Ao abrir, as três mulheres estão sentadas. Giro ainda nervosamente de um lado pra outro. Osvaldo está parado junto à porta). GIRO – É assim que vai ser. Quem não quiser, que se dane! Vai ser assim e pronto. Qualquer filho da puta sabe que três rendem mais que duas. Eu falei, falei, falei, cansei de falar. Que merda! Que merda! Que merda! Ninguém me escutou. Se eu tivesse batido caixa com a parede, era a mesma coisa. Falei á toa. Agora não adianta chiar. A Leninha já tá aí. A culpa é de quem preferia ficar coçando a babaca em vez de ir se virar. Não tenho culpa. Tenho culpa, Osvaldo? OSVALDO – Não. GIRO – Claro que não. Eu não matei meu pai a soco. Não sustento burro a pão-de-ló. E preciso ganhar uma graninha enquanto posso. Já não sou novo. E não era só por mim que eu fala. A Dilma é uma que precisa. Otária como ela só, tem um filho pra criar. Trouxa! Em vez de se virar, se virar, se virar, fica entrando nas marolas da Célia. Qualquer coisinha, já pita. Ai, ai, estou cansada. Que merda! Que merda! Que merda! Queria eu ter uma cona. Era um michê atrás do outro. Mas é sempre assim. Deus dá pão pra quem não tem dente. Eu, com uma chota, ficava rico. Que merda! Que merda! Que merda! A Célia só sabe reclamar. Na hora de pegar homem, só se escama. Mas eu quero que se danem! Ou dão duro, ou acabam mal. Vão ser três. Três é mais que dois. CELIA – A gente vai ficar amontoada aqui dentro. GIRO – E eu com isso? Preciso adiantar meu lado. CELIA – Com o couro da gente. GIRO – Não me danei a vida toda para abrir um asilo de puta. Esse mocó custou o suor da minha cara. Agora, tem que render. E quem não estiver contente, pode se arrancar. CELIA – Eu vou de pinote. Quero que tu enfie essa droga no rabo. GIRO – Vai, vai, vai! Depois tu vai ver como dói uma saudade. CELIA – Tu pensa que aqui é um céu: GIRO – Pode não ser. Mas as outras cafetinas não fazem pelas meninas nem a metade do que eu faço. Tu lembra, Dilma, aquela vez que tu estava com cólica? Lembra? Que tu tava aí rolando e gemendo de cólica?: eu levantei da minha cama e fui te fazer um chá. Lembra? Diz, diz, diz! Não te fiz um chá? DILMA – Fez. Célia – Grande merda! GIRO – Grande merda, não. Fiz. Queria ver qual a dona de puteiro que faz isso pelas suas meninas. Com elas é na lenha. Se uma piranha estiver com cólica, se dane. Não se mexem. Eu, não. Levantei da cama e atendi a Dilma. Não foi, Dilma? DILMA – Foi. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

LIMERIQUES & NONSENSE – A obra Um livro de nonsense (The Book of Nonsense Songs – Bernúncia, 2010), do poeta e pintor britânico Edward Lear (1812-1888), traz uma série de limeriques (limericks, poemas curtos, de quatro ou cinco versos), que são poemas sem sentido, repletos de um humor absurdo presente em apenas cinco versos. Entre os que se encontram no livro, destaco primeira A dama do queixo: Havia uma dama cujo queixo / se assemelhava à ponta d´um seixo; mandou-o afiar, / comprou uma harpa / e tocou várias melodias com o queixo. Também o Alface: Alface! Ó alface! / Faça-se, ó faça-se. / Ó alface, afinal, / Faça-se o nosso al- / Moço, face a face, / Ó alface!. O da dama de Welling: Havia uma dama de Welling, / Cujos louvores toda a terra cantava; / Tocava a harpa, / E por vezes apanhava uma carpa, / Aquela dotada dama de Welling. O da A pata e o canguru: A minha vida é muito chata, / Estou cansada de ser pata. / Quero você pra meu guru! / Disse a pata pro canguru. E também o A mesa e a cadeira: Que tal dar uma saída, / Bater papo, isso é que é vida! / Vamos, chega de madeira! – Disse a mesa pra cadeira. Veja mais aqui.


RIEN NE VA PLUS – O filme Rien ne va plus (1997), do diretor, ator, roteirista e produtor francês Claude Chabrol (1930-2010), ganhador do Ouro Shell de melhor filme e Prata Shel de Melhor Diretor, afora o Prêmio Lumiére de Melhor Ator e nomeação para o Grande Prêmio do Juro no AFI Fest (1998), conta a história de um casal pilantra da meia idade, se arriscam no jogo dos negócios, planejando e aplicando golpes e roubos em vítimas endinheiradas. O destaque da película fica por conta da bela atriz francesa Isabelle Huppert que protagoniza toda trama. Veja mais aqui, aquiaqui.




IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da eterna atriz estadunidense Katharine Hepburn (1907-2003). Veja mais aqui & aqui.


Veja mais sobre:
Os feitiços da paixão, Ação cultural para liberdade de Paulo Freire, A Poesia Viva do Recife, Aforismos de Oscar Wilde, Imã da Cia de Dança Corpo, a música de Yanto Laitano, a pintura de Ericka Herazo & Ernst Ludwig Kirchner, a arte de Steve Justice & Larry Carlson aqui.

E mais:
Pensando o ritual de Mario Perniola, Entre nós de Emmanuel Lévinas, Teatro em síntese de Maria Helena Kühner, a música de Sivuca & Orquestra Sinfônica do Recife, Livro das Incandescências de Jaci Bezerra, a pintura de Emanuel Leutze, Sexo com amor de Wolf Maia & Maria Clara Gueiros, a fotografia de Dorothea Lange & Programa Tataritaritatá aqui.
A explosão do prazer no Recife, Paixão e razão de Gaston Bachelard, A educação de Rubem Alves & John Dewey, Matéria de poesia de Manoel de Barros, História da Literatura Ocidental de Ottto Maria Carpeaux, Meu exílio de Luiz Ruffato, o frevo de Luiz Bandeira, O lixo de Marcelino Freire & Quando o verso acaba de Armando Freitas Filho aqui.
Febeapá de Stanislaw Ponte Preta aqui.
Felicidade clandestina de Clarice Lispector, o pensamento de Raimond Bernard, A interpretação dos sonhos de Sigmund Freud, O saber & a liberdade Hilton Japiassu, Fundamento da psicanálise de Horácio Etchegoyen, Interfaces psicanalíticas de Renato Mezan & Técnica Psicanalítica de David Zimerman aqui.
A administração e as organizações aqui.
A corrupção come no centro e a gente é quem paga o pato sempre, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, a fotografia de Sebastião Salgado & Depois da farra a corda só arrebenta pra precipício dos que estão de fora aqui.
Há um ano, a música de Ná Ozetti, a pintura de Fernando Rosa, a arte de Luciah Lopez & Quem não sabe ver é mais fácil de enrolar aqui.
A velhice não é o fim do mundo, a poesia de William Butler Yeats, a música de Antônio Nóbrega & a fotografia de Spencer Tunick aqui.
A criança em mim resiste, a música de John Cage & Martine Joste, a escultura de Valentim da Fonseca e Silva, a fotografia de Marta María Pérez Bravo & Dê-me a sua mão, as minhas são suas aqui.
Vamos aprumar a conversa, O sono interrompido de Arthur Schopenhauer, a música de Catherine Ribeiro & a arte de Natalia Goncharova aqui.
A vida passa e a história se repete, a pintura de Alfredo Volpi, a literatura de Edith Wharton, a música de Xheni Rroji, a pintura de Avigdor Arikha & a arte de Gillian Leigh Anderson aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aquiaqui, aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Aprume a conversa aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...