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domingo, maio 10, 2026

BIOGRAFIA DO BRASIL, TARANEH JAVANBAKHT, ÉDOUARD LOUIS & SEVERINO ARAÚJO

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento (2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João (2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de Oliveira). Veja mais aqui.

 


Miolo de pote, uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava, rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem, os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé: Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso... Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata. Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto, simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.

 

Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mônica Martelli: Precisamos nos olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos: o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para isso... Veja mais aqui & aqui.

Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem ameaçados... Veja mais aqui.

 

A MARGEM DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Resmungou novamente a onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento. Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \ as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó! onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \ este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \ narrativa amarga."

Poema da escritora iraniana Taraneh Javanbakht.

  

MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular, profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer, para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change ( Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...] Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política, porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento, nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas. Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu, para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis. Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].

 

BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil” dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também, do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...] Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a naturalização da violência e a perversão da sociedade. [...] O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. [...] Padre António Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore: difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling, na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba, malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA

A arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de Oliveira (1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937), Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948), Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953), Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre tantos outros. Veja mais aqui.

 

Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Débora Ferraz aqui.

Urariano Mota aqui, aqui & aqui.

Ágnes Souza aqui.

Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho - 1924-2011) aqui.

Laís de Assis aqui.

José Teles aquí & aquí.

Thalyta Monteiro aqui.

Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.

 



segunda-feira, fevereiro 26, 2018

ELIOT, ROMAIN ROLLAND, GUATTARI, CARLOS MALTA, ROBERTO CREMA, CAGLIARI, KAREN MENATTI, NATASHA KORSAKOVA & ALYSSA MONKS

LENDAS, FACÉCIAS & LOAS DE ALUMBRAMENTO – Imagem: arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks. UMA: O MALOGRO DA PRINCESA DE BAMBULUÁ – Tantas diziam da Gruta da Pedra que, de tanto ouvir, um dia fui tirar a limpo. Não pensei que fosse tão longe, andei que só, o dia pela tarde e já escurecendo cheguei ao local. Estava tão cansado que resolvi tirar um cochilo para me refazer da caminhada. Acordei no meio da noite escura com uma visagem: o rosto de uma linda mulher me pedindo socorro. Eu me assustei, ora, não era pra menos, só via-lhe o rosto, mais nada, pedia-me para salvá-la. Isso é coisa doutro mundo, só pode. O medo me paralisou, não tinha pra onde correr. Segurei na coragem e perguntei: Como posso salvá-la? Entre na gruta e lá tem tudo que precisa. Hum, hum. Entrar na gruta, essa não estava nos meus planos, pensei que fosse coisa mais fácil. Destá. Já que estava ali, resolvi atender, entrei na gruta e logo divisei um banquete com tudo do bom e do melhor. Tomei um banho morno que já estava pronto, jantei uma ceia das mais lordes e me deitei na rede esperando o que poderia acontecer. Logo ela reapareceu e me disse que à meia-noite eu deveria subir a serra e me deitar embaixo da árvore que tem lá. Ih, está piorando. Aí ela falou, contou disso e daquilo e me convenceu. E aconselhou que lá, ao me deitar, eu não deveria fazer nada, nem me defender, deixasse acontecer, não gritasse, não me levantasse, nem fizesse nada, haja o que houver, deixe que lhe empurrem rolando até embaixo, chegando aqui estará a salvo. Arrepara só a roubada! Pensei desistir, porém ela aparecia chorosa com minha covardia: Você não é homem não? Olhei pra ela, pronto pra desistir, mas não sei o que me deu, sustentei na vera. Eu me arrependi duzentas e cinquenta mil vezes, porém minha boca dizia outra coisa, acho que eu estava enfeitiçado por ela, só sendo. Assim foi, cumpri à risca: à meia-noite deitei-me embaixo da árvore da serra, mal cochilava e logo ouvi uma zoada de vozes e risadas, tremi que só vara verde e não demorou muito fui açoitado, espancado, empurrado, aguentei tudo calado até ver-me salvo diante da gruta. Vitimado pela sova, passei uns dias sendo cuidado não sei por quem, sei que me deram de comer e beber durante toda convalescença. Restabelecido, a visagem reapareceu: Está pronto pra hoje de novo à meia-noite? Claro que não, eu queria era arredar dali, mas o que eu disse: Estou. Pode? E assim fui mais uma vez escorraçado por espíritos malignos e zombeteiros. Por três vezes fui desmantelado pelo abuso desses malefícios e quase desfalecido, finalmente, a linda princesa apareceu desencantada: de corpo inteiro. Confesso que já estava desenganado, pedindo penico e pronto pra morrer. Era muito linda, e como era. Tem jeito? Eu pensava não e só dizia sim. E depois que ela me paparicou foi que eu percebi que valeu a pena todo sofrimento. Será? Ela, então, me disse: Você agora é o meu noivo. Amanhã vou para Bambuluá fazer os preparativos pro nosso casamento. Daqui um ano eu volto para lhe buscar. Você ficará com a idosa professora para aprender a língua dos pássaros e o que for necessário para você se tornar um príncipe. Como é? Explicou, repetiu e eu com a maior cara de besta: Acha que vou cair nessa? Caí. E assim ela foi, estudei com afinco – língua de pássaros, pode um negócio desse? Não tem coisa mais difícil não? É tudo só pra me lascar mesmo! -, e lá estava eu no meu aprendizado, firme e determinado. Não sei o que houve, no dia aprazado pro retorno dela, eu dormi três dias e três noites. A velha professora me disse que ela não me queria mais. Fiquei abatumado com tudo aquilo, chapéu de otário é marreta, mas não desisti, bicho besta que sou, até hoje espero pelo retorno da princesa do Bambuluá. (PS: Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore brasileiro, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros). DUAS: REVELAÇÃO DA QUEDA - Pra quem for primeiro, me chama que eu vou. Pra quem ficou, já fui. Há tempos apostei o coração à própria sorte, lugares que nunca estive, vozes que nunca ouvi. De resto a minha carne cansada entre a carga e o alívio, o sacrifício e o prazer, a fortuna e a miséria, cacos de vidro, vísceras, talhos, calafrios, eu só tenho a palma da mão exposta para nada, a planta dos pés sem ter para onde ir, os poros da pele sem saber o que fazer. Entre ignaros e incautos eu me fiz pedaços e perdi as estações, os pontos cardeais, nunca se sabe, deixei para trás a promessa do amanhã inventando asas teimosas, um dia pra ir e nunca mais voltar. Amei demais da conta, caí e me destrocei, refiz tudo e me remendei para desencalhar pessoas, como quem dispensa as paixões obsidentes, como quem releva o conspícuo para singrar o mistério. Foi na minha primeira morte a cada dia que ouvi a alma falar coisas incomuns, obscuridades interiores, simplesmente absurdas, a descoberta de ter estado sempre engaiolado na minha finitude, exposto ao fracasso e à falibilidade, na aflição da minha inutilidade diante de tudo. A voz anímica me ensinou a ir além das lonjuras oceânicas e siderais, além das profundezas do ser e da Terra, a correr o risco da errância, assim ressuscitei no primeiro instante, cônscio de que nada sou, pronto para ser feito. Perdi o medo e era como se o caroço desabrochasse na procriação dos ossos e eu me refizesse para ser outro em mim mesmo, o brotar da alteridade no que me tinha por solidário. Tornei-me inteiro, assim me senti apesar dos meus múltiplos fragmentos perdidos pelos quatro cantos do mundo. Os dias passaram e eu vou em frente pro que vier e seja. TRÊS, A SAIDEIRA: É SEGUNDA, PÉ NA TÁBUA - O que passou, passou! Agora é outra vez, assim, tipo ano novo, vida nova. Pouco importa o já feito, agora é só o que há pra fazer e de novo refazer o que sobrou, se é que algo ainda reste depois de tudo. Agora sorrio a memória esvaziada pela contaminação do esquecimento. Mergulhei na água e o meu batismo na purificação do fogo, valho-me apenas da intuição. Aceno pra todos que ficaram e saúdo os que estão embaixo da terra gozando a paz na salvação da chatura de carteiros, intimações, credores e de toda doideira que é este mundo de meu Deus. Agora sorrio plenamente, aprendi com as minhas calamidades: o poeta que nunca fui me ensinou a olhar para as coisas e ações, desde a alvorada ao crepúsculo e da noite pra madrugar novo amanhecer, tudo passa, ficam lições aprendidas ou não. Não mais cair e chorar, eu próprio construí o meu destino entre escolhas pensadas e açodadas. Tudo é muita coisa, eu mesmo faço parte dessa rede de intermináveis ramificações que nem sei onde vai dar, pouco importa. Dou-me bom dia pra sair pro mundo, boa tarde pra prosseguir meu caminho, boa noite pra que tudo renasça amanhã. Vamos, inté. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do multi-instrumentista, composutor, orquestrador, band-leader e educador musical Carlos Malta: Tudo coreto com Coreto Urbano, Tupyzinho com Pife Muderno & Instrumental Sesc Brasil ao vivo; da violinista russa Natasha Korsakova: Autunm and winter Astor Piazzolla, Porgy and bess fantasy Gershwin & Romance Dvorak; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA felicidade é uma função natural da nossa capacidade de ser inteiros, de ser verdadeiros, de ser tudo o que somos. A tarefa da educação é facilitar que a pessoa seja tudo o que ela é, nem mais, nem menos. Pensamento do antropólogo e psicólogo Roberto Crema. Veja mais aqui e aqui.

CRISE ECOLÓGICA - [...] Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Esta revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo. [...]. Extraído da obra As três ecologias (Papirus, 1990), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA DO MUNDO - [...] A atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação dos alunos é a leitura. É muito mais importante saber ler do que saber escrever. O melhor que a escola pode oferecer aos alunos deve estar voltado para a leitura. Se um aluno não se sair muito bem em outras atividades, mas for um bom leitor, penso que a escola cumpriu em grande parte sua tarefa. Se, porém, outro aluno tiver notas excelentes em tudo, mas não se tornar um bom leitor, sua formação será profundamente defeituosa e ele terá menos chances no futuro do que aquele que, apesar das reprovações, se tornou um bom leitor. [...]. Trecho extraído de Alfabetização e lingüística (Scipione, 2004), do professor universitário Luiz Carlos Cagliari. Veja mais aqui.

COLAS BREUGNON [...] Os negócios não vão bem. É bobagem se fatigar. Já trabalhei muito na vida. Agora vamos folgar um pouco. Cá estou à mesa, um copo de vinho à minha direita, um tinteiro à esquerda; à minha frente, um caderno novinho em folha me abre os braços. [...]. Sou um bom tratante! Quanto menos tenho, mais tenho. E o sei muito bem. Encontrei um meio de ser rico sem nada possuir, rico dos bens dos outros. Tenho poder sem responsabilidade. Quem falou desses velhos anciãos, que ao serem despojados, depois de darem tudo a seus filhos ingratos, até a camisa e as calças, ficam desamparados, parados, a verem todos os olhares empurrarem-nos para a cova? Isso são os pobres infelizes. Nunca fui, palavra de honra, tão amado, tão mimado quando na minha pobreza. É que não fui idiota de me despojar de tudo, sem nada guardar. É somente a bolsa o que se pode dar? Eu, mesmo dando tudo, guardo o melhor para mim, guardo a minha alegria, o que ajuntei em cinqüenta anos de caminhada, de um lado para outro da vida, o bom humor e a malicia, a loucura ajuizada e o juízo louco. E a provisão está longe de acabar. Abro-a a todos, que todos dela se sirvam! Isso não vale nada?  se recebo dos meus filhos, também lhes dou, estamos quites. E se acontece que um dá mais que o outro, o afeto concorre para equilibrá-los; e no fim ninguém se queixa. Quem quiser ver um rei sem reino, um João sem terra, um feliz tratante, quem quiser ver Breugnon da Gália, que venha ver-me hoje em meu trono, presidindo o festim fervente! É hoje a Epifania. [...]. Trechos extraídos de Colas Breugnon (Delta, 1963), do novelista, biógrafo e músico francês e Prêmio Nobel de Literatura de 1915, Romain Rolland (1866-1944). Veja mais aqui.

SEIS POEMAS1 - O mundo cochila.Dentro de mim. Meu caminho de mato, terra e mar. Quando pequena tinha galinha de estimação. Gato do mato comeu. Noite de tempestade. Mãe ouviu barulho na cozinha, os olhos brilhantes do bicho, relâmpago. ficaram só os dois pezinhos da galinha. Não lembro seu nome. ciscava pelo quintal e bicava a gente. A gente corria. A gente ria. Meus irmãos comiam formiga. Nunca comi.Gostava não.comia fruta colorida do mato e imaginava mundos. Agora adormecem aqui dentro. Depois da tempestade sopra vento pra descanso. 2 –  Antes sofria de poetização crônica. Hoje apenas sofro. / Aqui dentro habita um hiato. Que seja breve. / (Sê) mínima. / Minha secura é tua:se áspero te arranho. 3 - Lá fora céu virou prata, / Cá dentro tinta secou. 4 - Descia pela grama. Ignorava o aviso. Saia e cabelos. Voavam. 5 - Mordeu. Feito manga fiapo nos dentes. / Lambuzou-se rosto, pescoço, mãos. / Escorreu. Peito, barriga, sexo. / Pés inundados. 6 - Poça de gozo-fruta. / Bruta. / Enfim... chão. Poemas da atriz, cantora e poeta Karen Menatti.

CRIME NA CATEDRAL
[...] Côro (Enquanto um Te deum em latim é cantado na distância) Louvamos-te, Senhor, pela tua gloria manifestada em todas as criaturas da terra. Na neve na chuva, no vento e na tempestade; em todas as tuas criaturas, as que perseguem e as que são perseguidas. Porque todas as coisas existem apenas na medida em que as vês, na medida em que as conheces; tudo existe apenas em Tua luz, e Tua glória se manifesta mesmo naquilo que Te nega; como as trevas manifestam o esplendor da luz. Os que Te negam não poderia negar-Te se não existisses; e sua negação não é completa, pois se o fosse eles não existiriam. Vivendo eles te afirmam; tudo o que é vivo te afirma; o pássaro no ar, seja o falcão ou o pardal; os animais da terra,seja o lobo ou o cordeiro; e o verme na terra e o verme nas entranhas. Assim o homem, que criaste para te conhecer, deve conscientemente louvar-te em palavras, pensamentos e ações. Mesmo com a vassoura nas mãos, ou inclinadas sobre a lareira, ou de joelhos lavando o chão, nós, as pobres, as pobres mulheres de Cantuária, curvadas ao peso da labuta, vergadas ao peso do pecado, velando o rosto com o medo, inclinando a cabeça sob a dor, mesmo em nós, os ruídos das estações, o fungar do inverno, o cantar da primavera, o zumbir do verão, as vozes dos bichos e das aves, cantam os Teus louvores. Nós te damos graças pelos Teus dons do sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o sangue de Teus mártires e santos fertilizará a terra, criará lugares sagrados. Pois o lugar onde um santo viveu, onde um mártir deu o seu sangue pelo sangue de Cristo, esse é o chão consagrado, cuja santidade não se apagará. Ainda que exércitos o pisem, ainda que os visitantes venham, munidos de guia, examiná-lo; desde as praias da Iônia que o mar ocidental corroi, até a morte no deserto, às preces em lugares esquecidos, junto das colunas imperiais quebradas, desse chão brita aquilo que eternamente renova a terra, apesar de sempre ser negado. Assim, oh! Deus, Te agradecmos por teres concedido uma tal graça a Cantuária. Perdoai-nos, Senhor, confessamos ser gente comum, da raça dos homens e das mulheres que cerram a porta e se sentam à lareira; que temem a benção de Deus, a solidão da noite de Deus, o abandono exigido, a privação infligida; que têm mais medo à justiça de Deus que à injustiça dos homens; que temem menos a mão forçando a janela, o fogo no colmo do telhado, a rixa na taverna, o empurrão dentro do rio, menos do que temem o amor de Deus; confessamos nossas ofensas, nossa fraqueza, nossa culpa; confessamos que o pecado do mundo recai sobre nós, que o sangue dos mártires e a agonia dos santos recaem sobre nós. Senhor tende piedade de nós. Cristo tende piedade de nós. Senhor tende piedade de nós. Bem-aventurado Tomás, orai por nós.
Trecho extraído da cena final da peça teatral em dois atos Crime na catedral (Delta, 1966), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks.
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domingo, março 06, 2016

A MORTE E A MORTA



A MORTE E A MORTA

Luiz Alberto Machado

As mãos trêmulas de João Albano seguravam a xícara de café. Juliana, gasguita e inexcrupulosamente ensaiava severa reclamação pela procedência dele de haver chegado alta hora da noite. As mãos nos quartos e a cara de poucos amigos dela, ingresiava inexorável pelando a alma e a vergonha do sujeito mole. E estava tudo certo, no pensar dele, e conferindo direitinho ela tinha lá suas razões. Afinal, dera motivos para tanto vez que chegara exatamente às duas e meia da manhã, oriundo de duvidosa noite. Por isso ela ampliava aquela lamurienta situação vexatória com alguns dos seus prediletos palavrões, daqueles capazes de destronar Deus e o diabo num tom bastante provocador. Eram xingamentos, ameaças, lamúrias, gastando saliva sob a honrosa justificativa de desprotegida na situação, decepcionada com o comportamento dele agora, depois de tantos anos casados. Aquilo tudo remoía por dentro como uma cólica aguda extirpando as intimidades. A voz dela batia fundo nas suas entranhas, assanhando os nervos, alfinetando a pleura, furando os tímpanos, revirando seu íntimo metabolismo. E quando ela pegava forte arrepiava até na lua. Mais fosse e mais teria o que desonrar.

João mesmo assim ficava impassível, ressacado, absôrto, nada ouvia; ele até já sabia que não adiantaria nada revidar aqueles impropérios. Assim era, assim tinha de ser: - eu hem?

Em seu sermão Juliana justificava o quiprocó em que se metera, em confiar naquele homem, antes tão solícito, tão compreensivo, tão caseiro, tão merecedor do casamento e naquele bolo lindo na cerimônia, na igreja, nos aparatos, grinaldas, nas porta-alianças, os padrinhos, o festival de arroz, jurando amor e fidelidade para todo o sempre, amém, revelando ali que um nascera para o outro, representados pelas duas imagens, a de São Lúcio e Santa Bona, os bem casados, ela tal qual a santa com o queijo na mão direita e ele o santo com uma faca para partirem no céu o queijo da castidade. Ela reivindicava hoje o João Albano de ontem, um homem diferente, igual aquele romântico de antes, enamorado, atencioso. Mas não, hoje era outro metido com as de saias soltas, perdidas nos antros da safadeza, não ligando mais para ela, cadê aquele homem tão sonhado dos anos de namoro? Cadê-lo? Evanesceu-se. Verdade, ele era um outro, não mais aquele de antes. Ela, também, descabelada, subtraída, faltando um pedaço de tudo, posses tivesse estava nas mãos de um analista, se culpando, gorducha, desperançada, destrambelhada.

Terminada a ceia matinal, João levantara-se até a porta para espreitar o panorama ali fora, acendendo um cigarro, dando-lhe umas baforadas espertas, construindo suas ilusões na fumaça, se perdendo no tempo e no espaço, desintonizado dali, de férias das chateações.

Os resmungos continuavam da parte de Juliana, que de lá para cá, no interior do quarto, da cozinha, do banheiro, sempre renovando seu repertório de pacutia. Ele, ao contrário, continuava fumando em silêncio absoluto, ouvido para nada. 


Afastando-se da porta, ele arrastou os chinelos até o banheiro onde depositou no amaro bocão uma baita diarréia, fruto da cachaçada noturna no bar do Dudé com porrinha, mão-de-vaca, caldinho, dominó, baralho e regados a uma boa dosagem de aguardente da mais original da redondeza, divertindo a ideia. Estava desaranjado, o corpo e o destino, tudo desapontado. E não havia fio de prumo que endireitasse aquela desavença. Tudo troncho, desinretado, torto. Nem ânimo possuía para recolocar as coisas em seu devido lugar. Deixa estar, tudo, com o tempo, se acomoda. Vamos ver no que dá, pensava.

Agora o momento era outro, ressacado, se acabando pelo fundo feito panela, pensando sugerir à mulher que lhe fizesse um chazinho de boldo, tencionando sanear os intestinos e o fígado, pois que de instante em instante era cada cólica de arrepiar qualquer seboso já vestindo casaca de infiel. Pensou mais uma vez e sequer ousou a solicitação uma vez que os disparates prosseguiam agora do fundo do quintal. Um verdadeiro boi de fogo.

- Aquela quenga! –, repudiou implacavelmente Juliana – tenho certeza que ele tava com aquela safada, mas destá, destá.

Juliana já desconfiava da safadeza dele em conluio com Marildita, uma cabocla tesuda das terras da vizinha cidade Água Barrenta, tirando-lhe o sossego do lar.

- Só pode ter mulher nesse meio, só pode ser isso! Não acredito que um homem passe a tarde inteira entrando pela noite, madrugada adentro, fora de casa, sem nada fazer, inda mais dizendo que tava trabalhando, ora, só pode ser mulher balançando saia por perto! Tem rabo de saia nessa história! -, reclamava ela enquanto espatifava os bisquís no chão, não se cansando da injúria que crescia em denúncias avassaladoras e João mantendo-se impassível, pensando apenas nas vendas, nas trocas pelos  engenhos oficializando seu sustento e a sua profissão de prestamista, um ambulante que oferecia e comprava de tudo. Quando não dava expediente na feira, era pelos engenhos oferecendo brebotes, bugigangas e utensílios por preços razoáveis e condições elásticas de pagamentos; trocando tudo, comprando o impossível e vendendo o inexplicável. O seu caderninho registrava toda transação e, vez por outra, conferia as anotações totalizando créditos e lucros. Empertigava-se toda vez que concluídas as contas observava que o lucro previsto já se havia consumido. Quanto mais trabalhava mais ficava devendo e o preço de uma compra hoje, corrigida em cem ou duzentos por cento, não dava para adquirir a mesma mercadoria amanhã pois que já se reajustara de acordo com a sua impossibilidade. Injuriado alegava sustentar os comerciantes com o seu próprio suor; aborrecera-se com esta conclusão. Irado, contou um molho de dinheiro, depositando o correspondente à feira da semana num jarro, separando umas notas para o bolso e destinando outras tantas para um presente para Juliana, atitude que não tomava ao longo de anos, aliás, desde que se casara que nunca presentiara nada além de si próprio, assim se julgara. Presenteá-la agora, claro, com o objetivo de lhe diminuir a fúria e conseguir a anuência para dar uma saidinha, escapulida até os braços da Marildita. Então, chamou Juliana a um canto, contou as cédulas e fez-lhe o tencionado. No inicio ela fitou o dinheiro com asco, não dizendo nada. Depois, pensando melhor, deu-lhe um bote, escondendo-o no porta-seio com um meio sorriso e um silêncio consagrador. Suborno praticado, João se passou por incólume na situação, ligou o rádio sentando-se na cadeira de balanço da sala e danou-se a pensar. Viajava nas cantigas do tempo do ronca nas ondas radiofônicas. Nostalgia, um ôco no peito. Um afã de aprumar apesar dos revezes. Nada. Juliana por sua vez estava entre aborrecida e feliz, arrependida pelas palavras ásperas que havia dirigido ao seu marido, mas ele só fazia a vez de presenteador quando havia despeita entre ambos e sabia que ele só tinha feito aquilo para enganá-la, para acalmá-la, enrolá-la na maior das arteirices de um condenado seboso filho de uma égua. João conseguia sempre encetar esse tipo de malabarismo, confiante de que assim nunca sentiria o assalto de qualquer embaraço e, para tanto, armava-se de todas as cautelas e precauções possíveis e imagináveis, salvando-se das suspeitas, desconfianças e maledicências para o seu lado. Àquela hora pensava em Marildita, jeitosa e cobiçada, tinha que levar a obrigação da semana para que outro não lhe assaltasse em surpresa e, ao mesmo tempo, fazer uma sacanagenzinha embaixo do lençol saciando sua sede. Isto ocupava seu pensamento por horas em coloridas imagens que fabricava na sua indisposição de pensar em algo mais sério de maior proveito para a sua vida.

Bastaram duas dúzias de palavras mais alguns motivos esdrúxulos para convencer a mulher de que precisava sair para realizar um negócio qualquer na cidade. A abestalhada engolia a conversa mole. Assim dito, assim feito.

Já estava ele embarcando de cara lisa rumo a Água Barrenta e lá se encontrando com a desejada dos seus sonhos, repleta de luxúria e concupiscência. Marildita estava como nunca, decotada, arrumada, vitaminada e apetitosa. Nem pensou duas vezes e o saculejo já estava solto no quarto rangendo cama, gemendo corpos; era remexido agoniado, impado sôfrego, buliçoso. Serviço feito, desleixe. Um beijinho na testa, apalpadela na bundinha dela e uma derramada de dinheiro no porta-jóias da pitisqueira, além da certeza de um retorno daqui alguns dias. Mandou-se probo.

Regressando de sua missão, chegou em Alagoinhanduba, uma passadela no bar do Dudé, referencial inesquecível de seus dias para alinhar os planetas, onde ali estavam proseando, jogando ou negaceando em qualquer pedra ou carta, saboreando comidas típicas ou mesmo ingerindo petiscos, tira-gostos e bebidas.

Juliana em casa pensava nos dezenove anos de casados, no exemplo de marido que era João, no primeiro filho, sonho dele, hoje um desmantelo, o menino copiando suas mandingas. Lembrou, certa vez, antes de parir ele trouxe para ela uma raiz de mandrágora e colocou no pescoço da parturiente num colar com um saquinho cheio de pedras de aras dentro para quando a dor do parto chegasse, ensinando a ela segurar numa das mãos o cordão de São Francisco, as orações para Nossa Senhora do Bom Parto, do Bom Sucesso, do Ó, da Conceição, das Dores, dos Anjos, de Lourdes, e das Graças; deixando o cabelo dela crescer, em longos cachos, ofertados à imagem do senhor Bom Jesus dos Passos. Dezenove anos de casados, pensava ele, quinze de putaria e de bar com os mesmos amigos, afora os tres últimos que se ajeitava com Marildita, a mancebia que lhe corría nas vísceras.

Nesses últimos anos conseguira amoldar seus negócios e intenções de forma adequada, obtendo sempre êxito nas investidas, conseguindo se safar da vexatória situação precária sem o menor drama de consciência. Porém, nesses casos, há sempre um dia de urucubaca nas costelas do distinto que desmantela toda engrenagem, deixando-o abilolado, nu com a mão no bolso, assim se dera.

Sob aconselhamento de más línguas e botadores de gosto ruim na comida dos outros, Juliana, conduzida pelo inesperado e sob a ira de todas as traições, pegou em flagrante delito o desejo de João com a mão na botija de Marildita – olha a volta do enterro! – zoada das grandes devido recalcitrância dele, às falações gasguitas da esposa traída, sem acordo, sem lero-lero, na maior pauleira da paróquia e mais o testemunho miúdo de duas centenas de gente curiosa, fuxiqueira, ávida por escândalos, reprovando tudo e empenando a situação pra banda dele. Deu-se de fato. Um rebuliço dos grandes. Desmantelo armado, um seu parente conduziu a chorosa Juliana para casa, enquanto dispersava os interrogadores vizinhos prontos para bisbilhotar o acontecido perguntando de tudo. Até que a situação fora se normalizando e João chegando à sua residência fora assaltado pela surpresa, fugiu-lhe o sangue do corpo, lívido, exangue, não acreditou e, lá estava, em letras garrafais um bilhete: “Fui com meus filhos para longe da sua sujeira. Vou para nunca mais voltar, para nunca mais ter que passar por vergonha tão violenta e para dar paz ao meu coração e a dos meus filhos”.

Assaltado pelo inopinado, os neurônios se escapuliram diante da maior sem saída, o raciocínio de férias e o juízo se escondendo por trás da maior loucura, estarrecido ele instou os vizinhos que não sabiam de nada nem para que lado da venta tenha ela havia tomado e se perdido nas tantas veredas do mundo para que pudesse envidar qualquer perseguição e consequente captura dos seus e dela, ao seu lar sagrado. Inquiriu familiares e nenhuma informação recebera que subsidiasse sua busca. Nada feito. E agora? Que revestrés mais sem propósito, Deus meu? Até das fotos do álbum de família era sumira.

Tres meses passados, cansado de tanto rebuscar cada centímetro do continente como um cão farejador, depois de interrogar os ventos, a chuva e o destino, ficara numa espera ansiosa a qualquer baque de coisa se julgava encontrá-la, desapontado com a certificação de que não seria nada, era a sua imaginação exagerada. E só.

Ao cabo de uns meses depois mudara definitivamente para o convívio estreito com Marildita, esta também não estava para boas recepções, desgostosa ao tomar ciência de que aquele homem a quem dedicara seu amor era comprometido com outra mulher, sem ter a consideração de pelo menos revelar-lhe essa oculta situação civil; e o que é pior: aguçou ciumeira braba nela, aprisionando-o em casa, cheirando sua roupa, fiscalizando sua cueca, procurando marca de batom na gola da camisa ou no lenço, perseguindo perfumes, hálitos e até intenções. Colada que só zagueiro na cacunda de atacante goleador. Marcação cerrada, laço justo.


Passaram-se anos e devido essa ciumeira dizem que ela foi acometida de uma doença que não teve jeito e aos poucos sucumbira de morte instantânea. Desta vez ficara sozinho o nosso João Albano, sem ter a quem recorrer nas noites de frio, nas horas de silêncio, nos cômodos da casa. Na solidão pensava na vida e se condenando pela revolta da mulher de ir-se embora com seus filhos; a outra inventou logo de morrer justo numa hora daquelas sem o menor propósito, merda de vida, tanto trabalhei para ter conforto que na hora agá fico sozinho com a vela na mão sem mar para navegar. - secou tudo! Restava apenas a posse de algumas coisas como duas casas, uma mercearia arrendada e uma bodega num engenho, fruto de vários anos de trabalho e agiotagem. Pensou muito e um estalo veio na ideia: foi ter com o cartório oficializar o falecimento da dita cuja, providenciando o óbito e o sepultamento com todas as honras funerais. Sob tramóia engenhosa, ninguém sabe como, conseguiu que o obituário registrasse o nome da falecida como sendo o de Juliana Pereira de Antão, a esposa legítima que fugira com os filhos. Ocultou sua sujeira num caixão hermeticamente fechado alegando razão de doença contagiosa, organizou tudo direitinho, sem testemunhas, acumulando para si só os bens do casal e procedeu com os últimos rituais do enterro. Foi um plano bastante audaz, o suficiente para usufruir sozinho no inventário, negando a existência de filhos uma vez que eles ainda não haviam sido registrados civilmente, arquitetando subornar todos e conseguir seu intento. Agora viúvo não almejava mais uma vida regular com qualquer inhazinha da beira do rio sem sequer demorar mais de duas semanas esquentando os pés e procurando nova guarida. Virou de uma hora para outra um bom partido para as moças casadouras, virgens encardidas, viúvas ardentes, senhoras adúlteras e meretrizes sonhadoras, além do centro das atenções de debutantes, dondocas, casadas, desquitadas e até beatas que sonhavam com o seu príncipe encantado, nele encarnado pelas posses, jeitão másculo e idade quase já passando no ponto, pois que a nenhuma delas dava trela, seduzindo-as e depois se desfazendo arguto de qualquer compromisso.

Ao longo de dez anos vividos e passados do acontecido, dividiu emoções com putas desbocadas, coroas enxutas, esponsais assanhadas, anciãs depravadas, potrancas e descabeladas, até que uma tuberculose crônica suspendeu sua devassidão, jogando-o nos confins de uma enfermaria hospitalar. Tratara-se e depois perdera um rim, um baço, o apêndice e nunca mais conseguira ser o mesmo. Caducara antes do tempo até que numa tarde de janeiro agonizou sem mais nem menos, de um minuto pro outro, pronto, juntou os pés e nunca mais respirara seus devaneios. Nem parentes ou amigos para prestar-lhe exéquias.

A notícia andou por longe e aguçou a piedade de Juliana que tencionando ainda encontrá-lo com vida, estava disposta a perdoar o passado e cuidar do seu velho como uma mulher solidária. Ela não pensara encontrá-lo com a outra, longe disso, mas sozinho e indefeso, sem ter a quem recorrer e estaria ali, como uma vingança tácita, a dar-lhe uma verdadeira tapa de luva, provando a estirpe de mulher que era. Qual não fora o seu pranto ao encontrá-lo sepultado, condenando-se a si própria a responsabilidade pela vida breve que teve. Suspendendo o choro voltou ao local de origem para satisfazer as exigências da lei, na qualidade de viúva e, para seus filhos, se apossar dos bens materiais deixados pelo defunto. Teve, portanto, com um rábula da província, com o intuito de regularizar aquela situação, deixando tudo preto no branco, legalizando os papéis requerendo seus direitos à justiça quando foi surpreendida pela notícia de que estaria mortinha da silva, vítima de enfermidade incurável há mais de dez anos atrás. Por conta disso, deu-se uma correria no ambiente causando nela um profundo estranhamento.

- Oxente! Que correria mais besta desse povo! Tá tudo doido, tá? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: arte da pintora do Modernismo brasileiro Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Omphale, do pintor indiano Byam Shaw (1872-1919)
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MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

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