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domingo, maio 10, 2026

BIOGRAFIA DO BRASIL, TARANEH JAVANBAKHT, ÉDOUARD LOUIS & SEVERINO ARAÚJO

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tanto Tempo (2000), Momento (2007), All in One (2009), Tudo (2014), Agora (2020) e João (2023), da cantora e compositora Bebel Gilberto (Isabel Gilberto de Oliveira). Veja mais aqui.

 


Miolo de pote, uma loa quase iniciática... - Era uma vez e só havia o quintal às costas do menino. À janela almejava quase longe o rio e o espelho do céu fluía: nuvens e sonhos. Alvoroçado escapulia muro afora e o mundo se descortinava, rente à margem. Das funduras um caleidoscópio emergia remoinho e nele uma efígie pueril, quase adolescente: Era eu? E me falava da morte subindo a escada, a goiaba nos galhos sobre a casa, lá embaixo o desejo das irmãs, a faca entre os dentes e, a cada degrau, a coragem e uma queda abissal. Era a primeira vez e nela revivia a cena: ainda bebê nos braços da empregada, embalado pelo gira girou da roda gigante, o circuito e os gritos do pavor dela no incêndio estouravam a vermelhidão na esclerótica. E o bom era o balanço do trem comendo chão na ferrovia, a saia das elegantes rodomoças no meio das paisagens da rodovia, o cheiro de sargaço do Recife, o bicho de pé na areia de Boa Viagem, os tombos na bicicleta do primo, a festa semanal na dolorosa consulta médica, o regresso com antibióticos e os temores do coração de Jesus pendurado na viga da sala, a vigilância com o interdito dos livros na biblioteca paterna, amarrado ao pé da mesa, as fechaduras insondáveis, a invasão dos espectros nas botas da prisão do meu pai e a solidão infantil não podia descalça pisar o chão, mesmo resistindo aos nãos das sandálias e a proteção era o preço a pagar, quando queria a escola, na fila da merenda, obrigavam a sopa e, um descuido, o achocolatado no desejo, o vômito e a hepatite. Fechava os olhos, rejeitava a revista. E ao reabri-los uma efigie deformada se fez num duplo inexato, a feição na superfície embaçada, o olho do falcão e o intenso impacto. Não gostava do que via, porque ouvia da segunda morte: atropelado num cruzamento da Imbiribeira e o turbilhão com todos os titubeios, os fracassos, felonias, os desperdícios de quem se sentia com a síndrome do alferes de Machado de Assis, como quem se perdera na experiência dos espelhos de Rosa e o coração refletido no museu de Hanói, envolvido pelo conto de fadas da Sais de Novalis, pelos versos do poema de Schiller e de tudo que cuspia a Herodíade do Mallarmé: Certas noites, em tua severa fonte \ conheci a nudez do meu sonhar disperso... Parecia o julgamento do que fui no espelho do Karma de Yama. Novamente recolhia às pálpebras, doía ver-se às cabeçadas na gritaria das tolices, o que dirão das doidices, mané! Ria das próprias leseiras, acrófobo voador entre contramão e vielas. Não havia como negar e envelhecia diante espelho mágico do Ts’in: o pó cobria a causa de atos passados. Ah, se pelo menos aparecesse a bela deusa Sarasundari no espelho octogonal com os oitos trigamas do Amaterasu, uma alma polida pela ascese. Nada, aspirava desfrutar ao lado dela o Kagami Mochi e aprender da Tábua de Esmeralda: aquilo que está no alto é como aquilo que está embaixo. Não havia lógica nem sentido, pudera. Cadê a estrela da sorte? Nada, sobrevivia ao reflexo reativo às ameaças, o sangue esquentado, as feridas, o que se dissipou no jogo de espelhos, o arrebatamento e tudo tão disperso, atroz e inútil. A vida se alongava insinuante no sorriso fugidio, não escondia as cicatrizes, melhor era depor logo, bastava, não havia escolha: era a vacuidade primordial do shunyata. Queria demais, ignorava o merecimento e tantas coisas, não havia mais passado: esquecia para não perder a razão, a compreensão se ampliava com o passar do tempo. De resto, simplesmente vivia como uma causa perdida e nada mais: o olhar fatigado, o rouco lamento, a resignada mudez. Não havia como voltar atrás diante da clarividência reveladora: era apenas um menino à beira do rio... Até mais ver.

 

Murilo Mendes: É necessário conhecer seu próprio abismo. E polir sempre o candelabro que o esclarece... Só não existe o que não pode ser imaginado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mônica Martelli: Precisamos nos olhar com mais generosidade... É muito cruel ter que decidir tudo aos 20 anos: o que fazer da vida, a profissão e com quem casar. Ninguém tem maturidade para isso... Veja mais aqui & aqui.

Alexandria Villaseñor: No futuro, a escola não terá mais importância, porque estaremos muito ocupados fugindo do próximo incêndio florestal ou furacão... Sempre que vejo um negacionista climático ou um troll, considero um bom sinal. Isso só mostra o quanto eles se sentem ameaçados... Veja mais aqui.

 

A MARGEM DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Resmungou novamente a onda cansada da viagem, \ encantada com a \ margem do silêncio. As reminiscências da \ escravidão eram os amargos mistérios de seu \ isolamento. Finalmente, em liberdade, pretendia \ não gostar de nada além das melodias tristes. Dirigiu \ -se ao solo sedento com seu clamor: \ "Ó! solo, minhas melodias para ti se tornaram \ as colisões da esperança, minhas gotas para ti \ as testemunhas da vida, eu só peço que \ penses como eu, tu te tornaste a parte silenciosa \ do meu zênite." \ A nobre costa respondeu assim: \ "Ó! onda, orgulho da minha estatura, espectadora \ do meu cativeiro, firmeza do meu corpo, \ teu seio é o meu céu, honra da \ mãe mar, heroína das águas! Os anos \ este silêncio aninharam-se em meu coração. A \ opressão da marca do sol, \ familiar da minha ferida, o céu \ já não é um amigo compassivo para mim, \ a história das estrelas não está na minha boca, \ o cativeiro da terra tornou-se a minha \ narrativa amarga."

Poema da escritora iraniana Taraneh Javanbakht.

  

MUDANÇA – [...] Eu escapei desse destino e trabalhei em uma padaria, como zelador, livreiro, garçom, recepcionista, secretário, professor particular, profissional do sexo, monitor em um acampamento de verão e cobaia para experimentos médicos. Milagrosamente, frequentei uma das universidades mais prestigiosas da Europa e me formei em filosofia e sociologia, enquanto ninguém mais na minha família havia estudado. Li Platão, Kant, Derrida, Simone de Beauvoir. Depois de crescer entre as classes mais pobres do norte da França, conheci a classe média provinciana, sua amargura, e, mais tarde, o mundo intelectual parisiense, as classes altas francesas e internacionais. Convivi com algumas das pessoas mais ricas do mundo. Eu fiz amor com homens que tinham obras de Picasso, Monet e Soulages em suas salas de estar, que viajavam apenas em jatos particulares e passavam todo o tempo em hotéis onde uma única noite custava o que toda a minha família ganhava em um ano quando eu era criança, para uma família de sete pessoas. [...] Eu escapei da morte por um triz, eu a experimentei, senti sua realidade, perdi o o uso do meu corpo por versa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria escapar da minha infância, dos céus cinzentos do departamento de Nord. de Nord e da vida fadada ao fracasso dos meus amigos de infância, a quem a sociedade havia privado de tudo, cuja única perspectiva de felicidade eram as duas noites por semana que passavam no ponto de ônibus da vila, bebendo cerveja e pastis em copos de plástico para esquecer, para esquecer a realidade. Eu sonhava em ser reconhecida na rua, sonhava em ser invisível, sonhava em desaparecer, sonhava em acordar uma manhã como uma menina, sonhava em ser rica, sonhava em recomeçar do zero. [...] Não sei se é assim para todos, mas para mim, quando o processo de transformação começou, foi mais do que um esforço consciente; tornou-se uma obsessão permanente. [...]. Trechos extraídos do livro Change (‎ Farrar, Straus and Giroux. 2024), do escritor e tradutor francês Édouard Louis (Eddy Bellegueule), que na obra A Woman’s Battles and Transformations (Harvill Secker, 2022), expressou que: […] Comecei este livro querendo contar a história de uma mulher, mas percebi que a sua é a história de um ser humano que lutou pelo direito de existir como mulher, em oposição à inexistência que lhe foi imposta pela sua vida e pela vida com meu pai. [...] Eu já estava tão acostumado a vê-la infeliz em casa que a alegria em seu rosto me parecia escandalosa, um engano, uma mentira que precisava ser exposta o mais rápido possível. [...]. Também no seu livro Qui a tué mon père (Seuil, 2018), ele expressou que: [...] Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...] Entre aqueles que têm tudo, nunca vi uma família ir à praia só para comemorar uma decisão política, porque para eles a política quase nada muda. Foi algo que percebi quando fui morar em Paris, longe de você: a classe dominante pode reclamar de um governo de esquerda, pode reclamar de um governo de direita, mas nenhum governo jamais lhes causa problemas digestivos, nenhum governo jamais lhes causa sofrimento, nenhum governo jamais os inspira a ir à praia. A política nunca muda suas vidas, pelo menos não muito. O que é estranho também é que são eles que se envolvem na política, embora ela quase não tenha efeito algum em suas vidas. Para a classe dominante, em geral, a política é uma questão de estética: uma forma de se verem, de verem o mundo, de construírem uma personalidade. Para nós, era uma questão de vida ou morte. [...]. Já no seu livro Histoire de la violence (Points, 2016), ele assinala que: […] As coisas de que nos lembramos com mais clareza são sempre aquelas que nos causam vergonha. [...] Tenho tentado construir uma memória que me permita desfazer o passado, que o amplifique e o destrua, para que quanto mais eu me lembre e mais me perca nas imagens que restam, menos elas tenham a ver comigo. [...] As pessoas sempre acham que suas próprias vidas são fascinantes, e sim, elas sabem que todo mundo pensa igual, mas mesmo assim dizem a si mesmas que todos os outros estão errados e elas estão certas. [...]. Noutro de seus livros, The End of Eddy (Farrar, Straus and Giroux, 2017), ele expressa que: […] Existe uma vontade, um esforço desesperado, contínuo e constantemente renovado para colocar algumas pessoas num nível inferior ao seu, para não as colocar no degrau mais baixo da hierarquia social. [...] Talvez o que ela quisesse dizer era que, obviamente, ela não era uma dama, porque não havia como ela ser. Ser comum, como se o orgulho não fosse a primeira manifestação da vergonha. [...] Ela não entendia que sua trajetória, o que ela chamava de seus erros, se encaixava perfeitamente em um conjunto de mecanismos lógicos praticamente preestabelecidos e inegociáveis. Ela não percebia que sua família, seus pais, seus irmãos e irmãs, até mesmo seus filhos, praticamente todos na aldeia, tinham tido os mesmos problemas, e o que ela chamava de erros eram, na verdade, nada mais nada menos do que a perfeita concretização do curso normal das coisas. [...].

 

BRASIL:UMA BIOGRAFIA - [...] Evidentemente deslumbrado, o relato de Caminha inaugurava, também, outro mito recorrente. O da natureza pacífica, de uma conquista sem violência, uma comunhão que unificou a todos, num mesmo coração e religião. Estranho processo que definiria o Brasil como um país da ausência de conflito, como se os trópicos — por algum milagre ou dádiva — tivessem o poder de aliviar tensões e inibir guerras. Na Europa as lutas dividiam e sangravam nações; já no Novo Mundo, se guerras existiam, elas eram, segundo os relatos europeus, só internas. O encontro havia de ser sem igual e entre iguais, por mais que o tempo mostrasse o oposto: genocídio de um lado, conquista de outro. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. Francisco i da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. [...] A ilha do “Brazil” dos irlandeses é originalmente uma ilha fantasmagórica que sofre um deslocamento e reaparece no século xv próxima aos Açores e ao mito da ilha dos Bem-Aventurados de São Brandão. A perfeição do lugar descrito por Caminha aproxima-se da utopia da ilha do “Brazil”. Essa explicação daria conta, também, do nome “Obrasil”, encontrado em vários mapas do início do xvi. A inspiração irlandesa era religiosa e de tradição paradisíaca, e perseguiria com teimosia os cartógrafos do período. Apareceria pela primeira vez em 1330 designando uma ilha misteriosa, e ainda em 1353 estaria presente numa carta inglesa. De toda forma, existia na época do “achamento” mais essa clara associação, entre indígenas — de vida longa e edênica — e outras terras misteriosas. E o mistério se manteria intocado por muito tempo, assim como a ambivalência que deixava irresolvida a disputa entre o pau vermelho (em brasa) e o lenho de Cristo. O melhor mesmo era acender uma vela para Deus e soprar outra para o Diabo. [...] Nenhuma forma de escravidão é melhor ou pior do que outra. Todos os tipos de escravidão têm algo em comum: geram sadismo, a naturalização da violência e a perversão da sociedade. [...] O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. [...] Padre António Vieira – orador e filósofo português da Companhia de Jesus, e grande defensor dos “direitos dos índios”101 – tentou, em um de seus famosos sermões, descrever os nativos que conhecera no Brasil. Após lamentar o modesto sucesso da missão evangelizadora, comparou a diferença entre europeus e índios à diferença entre mármore e um arbusto de murta. Os europeus, disse ele, eram como o mármore: difíceis de esculpir, mas, uma vez concluída a estátua, permaneciam intactos para sempre. Os ameríndios, por outro lado, eram o oposto. Eram como um arbusto de murta: à primeira vista fáceis de esculpir, apenas para depois retornarem à sua forma original. [...]. Trechos extraídos da obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e da historiadora, professora, escritora e pesquisadora Heloisa Starling, na qual abordam temas como O Brasil fica bem perto daqui, Primeiro veio o nome, depois uma terra chamada Brasil, Tão doce como amarga: a civilização do açúcar, Toma lá dá cá: o sistema escravocrata e a naturalização da violência, É ouro!, Revoltas, conjurações, motins e sedições no paraíso dos trópicos, Homens à vista: uma corte ao mar, D. João e seu reino americano, Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho, Habemus independência: instabilidade combina com Primeiro Reinado, Regências ou o som do silêncio, Segundo Reinado: enfim uma nação nos trópicos, Ela vai cair: o fim da monarquia no Brasil, A Primeira República e o povo nas ruas, Samba, malandragem e muito autoritarismo na gênese do Brasil moderno, Yes, nós temos democracia, Os anos 1950-1960: a bossa, a democracia e o país subdesenvolvido, No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência, No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar e História não é conta de somar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE SEVERINO ARAÚJO DE OLIVEIRA

A arte do músico clarinetista, compositor e maestro Severino Araújo de Oliveira (1917-2012), regente da legendária Orquestra Tabajara e um dos pioneiros da fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira. É autor de inúmeros sucessos, entre eles Espinha de Bacalhau (1937), Gafanhoto Manco (1937), Um Chorinho Modulante (1937), Mumbaba (1943), Um Chorinho Delicioso (1947), Um Chorinho pra Você (1947), Simplesmente (1948), Mirando-te (1950), Além do Horizonte (1952), Pensando em Você (1953), Um Chorinho em Montevidéu (1955) e Nivaldo no Choro (1956), entre tantos outros. Veja mais aqui.

 

Darel Valença Lins aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Débora Ferraz aqui.

Urariano Mota aqui, aqui & aqui.

Ágnes Souza aqui.

Pernambuco do Pandeiro (Inácio Pinheiro Sobrinho - 1924-2011) aqui.

Laís de Assis aqui.

José Teles aquí & aquí.

Thalyta Monteiro aqui.

Nelson Barbalho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque aqui.

 



segunda-feira, maio 12, 2025

DEBORAH LEVY, OLGA MARTYNOVA, ALEXANDRIA VILLASEÑOR & MARIANNE PERETTI

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Anima (CGD Leste-Oeste, 1997), Stanze (BMG, 1992), Ama (Sony Music, 2002), Sozinho (EMI Classics, 2006), Instanti (Egeu, 2009), Le mie corde (Sony Classical, 2013)) e Stanze (Decca, 2014), da harpista, compositora, cantora e escritora italiana, Cecilia Chailly, com composições próprias e partituras originais de Ludovico Einaudi.

 

A vida passa e já vai longe... – Bati o pé e cá comigo: não perdi o paraíso, mesmo que nada mais fosse que um sobrevivente dos abismos pela deslizante dança dos dias. Confesso: escapei pelas frestas de todas as espessuras, no meio dos gritos da noite e disparos de rumores, sequer governei a mim mesmo. Comia distância para extirpar meus demônios, sei lá como! Até prova em contrário, só me restava o brilho do sete-estrelo quando dava o ar da graça, com todas as dúvidas pro acerto, todos os beijos pra celebração, todas as vontades pro arrependimento e todos os passos pra consumação. Nada mais insignificante para quem fugia da persistente ameaça da miséria, célere mais que veemente no encalço da esperança e deleite das coisas, com promessa de reservar pragora o melhor que sempre ficou pra depois. E de repente corresse o fogo até as cinzas arremessadas aos ventos desatados, caindo nas chuvas pelas ondas empinadas das correntes marítimas, arrebentando na areia a lamber a Terra para que desse frutos sem que precisasse semear. Coisa mais sem graça, o mundo é tão cedo como diverso e se fizesse tão belo mesmo escorregando pela encruzilhada das horas e desse ali o não sabido, com uma topada no quatrivium da talmúdica Asmodéia – a rainha esquecida de Sodoma e do avéstico Aeshma deva de Zoroastro, arrastando o alarido de seus zis amantes. Dei de cara com a lascívia de suas 7 formas e tremia mais que vara verde com a ira de sua luxúria, as tentações de compradora de Sombras. Era a senhora dos descaminhos, dava fé, e com ela a solidão gemia e o escuro jamais teria fim. Caçou-me brincante às suas jornadas para me jogar no mar do esquecimento. Mesmo refém, não perdi minha sombra porque nunca venderia a alma ao diabo, escapulia. A alma avessa não dizia meu nome, judiava do meu pesar. Ao me caçar perdeu o sono e não arrastaria as malas na viagem em vão: apossou-se da minha flauta de Pã e, vingativa, nela extraiu a dulcíssima canção dos seus desvelos. Silenciei ao cabo de instantes sucessivos, sem que houvesse repouso: ela dominava meus sentidos e me fez pervertido insone a perseguir de seus meneios e passos. Quantas tentativas ousei a malograr diante da ameaça de ser corroído pela metástase de seus feitiços: muros desabados, fortaleza vulnerável. Nada perdi porque nunca tive e muito menos sei o que vou achar daqui pra diante. Mas não há nada para sempre assim e a palavra prévia suscitou a chance: a sorte antiga debelada ressuscitou e interviu shamir em meu socorro – como poderia, mesmo menor que um grão de cevada, quebrou todas as pedras, ferro e diamantes, chamou-me a atenção aos baques repetindo insistentemente: Ubuntu! Ubuntu! Não atinava, precisei de muito tempo para assimilar: eu só sou porque você é... Assim me salvei, acho, a vez do chega pra lá e peguei na virada - como se ela desencantasse e comigo servisse: a humanidade para todos. Um dia e outro não é sempre igual, já passou. E passará. Até mais ver.

 

Leonora Carrington: Quem pode dizer: um Deus para todo o universo? Acho que deve haver milhões de deuses! E nem todos são muito gentis... Veja mais aqui, aqui e aqui.

Mônica Martelli: Escolher é renunciar. Se opto estar aqui, não vou poder estar lá. Uma vez feita a escolha, tem que ir com tudo, tem que pisar fundo... Veja mais aqui.

Tina Fey: Não desperdice sua energia tentando mudar opiniões... Faça o que você faz e não se importe se eles gostam... Veja mais aqui.

 

QUATRO LONGOS MINUTOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

1 - Quatro longos minutos a andorinha riu dormindo (as noites são curtas aqui) e murmurou e suou sob a asa, então ela suspirou e voou para longe a negócios. — as poupas cortam o ar com seu semicírculo - (sul), - a manhã do queijo cottage continua sem data - (de repente). Quatro longos minutos a chuva soltou e escondeu suas garras, e Chvirik ouviu: la-la, a música caiu de folha em folha, caiu e flutuou para longe (desapareceu). — é hora de revelar como ele é, Chvirik: - Ele não tem um terno decente. - toc-toc, diz o pássaro, o outro responde: piar, - O que Chvirka realmente está pensando?

2 - Mas a questão é que Chvirik não é um pássaro.

3 - Ele quer escrever algo, e o caderno se desfaz. Três longos minutos – e aquele caderno desapareceu. Em dois minutos a floresta desmoronou, tornou-se lixo, pó, nudez. Um minuto não foi suficiente para a subida íngreme, para derramar no pequeno lago lá de cima. Chvirik foi esse momento.

4 - Oh Chvirik, quando sou uma sombra sorridente fico envergonhado Eu deslizarei para este mundo, construído por nós em carne e osso (o que é estranho), voando pelas encostas das árvores, com sua vida presa na casca... - Oh Chvirka, não pense nisso, então vamos embora daqui. - Ó Chvirik, diga-me: sem engano? - Chvirka, oh minha chvirka! Os pássaros ouviram e começaram a rir: hee-hee. 0 E não existe tal minuto, e não há minuto, nem terceiro nem quarto, nem o primeiro nem o segundo.

Poema da premiada escritora russo-alemã Olga Martynova, autora de obras como Postup´yanvarskikh sadov (1989), Sumas`shedshiy kuznechik (1994), Chetyre vremeni nochi (1998), Frantsuzskaia biblioteka (2007) e Ó Vvedenskom. O Chvirike i Chvirke / Issledovaniya v stikhakh (2010).

 

CUSTO DE VIDA – [...] A vida desmorona. Tentamos nos controlar e nos manter firmes. E então percebemos que não queremos nos manter firmes. [...] Nunca deixarei de lamentar meu antigo desejo por um amor duradouro que não reduza seus protagonistas a algo menor do que eles são. [...] A liberdade nunca é de graça. Quem já lutou para ser livre sabe o quanto isso custa. [...]. Trechos extraídos da obra The Cost of Living: A Working Autobiography (Bloomsbury, 2019), da escritora e dramaturga britânica Deborah Levy, que na obra Hot Milk (Bloomsbury, 2017), ela expressou que: […] Confesso que muitas vezes me perco em todas as dimensões do tempo, que o passado às vezes parece mais próximo que o presente e muitas vezes temo que o futuro já tenha acontecido. [...]. Noutra de suas obras, a Things I Don't Want to Know (Hamish Hamilton, 2018), ela expressa que: […] Para me tornar um ESCRITOR, tive que aprender a INTERROMPER, a falar mais alto, a falar um pouco mais alto, e depois MAIS ALTO, e então apenas falar com minha própria voz, que NÃO É NEM UM POUCO ALTA. [...]. Na obra Swimming Home (Bloomsbury, 2012), ela observou que: […] A vida só vale a pena ser vivida porque esperamos que ela melhore e que todos cheguemos em casa em segurança. Mas você tentou e não conseguiu chegar em casa em segurança. Você não conseguiu chegar em casa de jeito nenhum. [...]. Por fim, na sua obra Pillow Talk in Europe and Other Places (Dalkey Archive Press, 2004), ela considerou que: […] Certifique-se de aproveitar a linguagem, experimentar maneiras de falar, ser exuberante mesmo quando não tiver vontade, porque a linguagem pode tornar o seu mundo um lugar melhor para se viver. [...].

 

GREVE PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS – [...] Minha geração sabe que as mudanças climáticas serão o maior problema que enfrentaremos [...] É perturbador que minha geração tenha que pressionar esses líderes a agir. Não vamos parar de fazer greve até que mais leis sejam aprovadas. [...]. Trechos do depoimento recolhido na matéria We won't stop striking': the New York 13 year-old taking a stand over climate change (The Guardian, 2019), em que a jovem ativista climática estadunidense Alexandria Villaseñor, faz um alerta de greve por conta das mudanças climáticas. Ela é adepta do movimento Fridays for Future, cofundadora da US Youth Climate Strike e fundadora da Earth Uprising. Durante a solenidade da Child petitioners protest lack of government action on climate crisis (UNICEF Headquarters, 2019), ela assinalou que: Estamos aqui como cidadãos do planeta, como vítimas da poluição que tem sido despejada descuidadamente em nossa terra, ar e mar por gerações, e como crianças cujos direitos estão sendo violados. Hoje estamos lutando. Há 30 anos o mundo nos fez uma promessa. Praticamente todos os países do mundo concordam que as crianças têm direitos que devem ser protegidos. E os países que assinaram o 3º Protocolo Facultativo sobre Comunicação se comprometeram a nos permitir apelar às Nações Unidas quando esses direitos estiverem sendo violados. Então é exatamente isso que estamos fazendo aqui hoje. Cada um de nós teve seus direitos violados e negados. Nossos futuros estão sendo destruídos. E na matéria New York’s Original Teen-Age Climate Striker Welcomes a Global Movement (de Carolyn Kormann, no The New Yorker, 2019), ela expressou: Vejo mais as estruturas que a sociedade criou. E é por isso que a minha geração teve tanto impacto no movimento climático. Estamos nos organizando fora das estruturas em que os adultos trabalham. Desde que me envolvi, vejo como o sistema está quebrado, e isso é uma das coisas que precisam mudar.

 

A ARTE MONUMENTAL DE MARIANNE PERETTI

[...] Enquanto houver um artista com talento e capaz de desenhar em tamanho real e artesão com sabedoria e paciência, teremos vitrais para iluminar nossa vida [...] Os grandes tamanhos me agradam, porque neles posso me exprimir com mais liberdade e sempre estou incorporando elementos novos e também diferentes dessas linguagens, uns aos outros, tudo com muita liberdade [...].

Trechos extraídos do catálogo da exposição A arte monumental de Marianne Peretti (Museu Nacional – Conjunto Cultural da República, Brasília, 2016), da vitralista e artista plástica Marianne Peretti (Marie Anne Antoinette Hélène Peretti – 1927-2022). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

&

ROMEU & JULIETA, COM ARAMIS TRINDADE

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ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...