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quinta-feira, julho 13, 2023

BEAH RICHARDS, LARA BOYD, ELINOR OSTROM, RAGNA NIELSEN, MOACIR SANTOS & MÚSICA NA ESCOLA

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Luiza (RCA Victor, 1964), Saudade (Blue Note, 1974), Opus 3 nº 1 (Discovery, 1978) e Choros e Alegria (Adventure, 2005), do arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006). Veja mais abaixo.

 

AUTOBIOGRAFIA RENEGADA – Simplesmente nasci e do nada que tinha não disse nenhuma sequer perguntaram. Escapei de muitas para hoje contar hestórias como se fosse Henri Michaux: De mãos vazias vou ao reino noturno \ ao barro final dissolver o ser, eu que vivi a eternidade de uma tarde... O que não possuia por juízo sobrava em ousadia: aprendia pelo modo mais difícil, entre mãos e joelhos estrepados pelos escorregões nas quinas de paralelepípedos. Furava o cerco e arames farpados, sem contar escalavraduras na pele. Atravessei noites medonhas e dias torpes a findar com o horror de todos os bichos e momentos chuvosos. O tempo de outrora era o polimento às lembranças perdidas, os amigos de antanho eram outros solidários das horas intransponíveis. Senti o ônus por ter ido catando benesses pra voltar. Do que previa exitoso, juntava os cacos crepusculares. Hoje resta nenhum desaforo na cara nem pra casa, afora obscuridade na boca quase emudecida e o que sou de inextricáveis trevas e memórias ressequidas pela insondável solidão, entre a perplexidade e o sortilégio. Vez ou outra contemplado pela magia dos encantos da ressurreta desnuda La Goule e eu a chamá-la desacordado de paixão para vê-la Louise nas noites interminaveis de espera. Vez em quando reaparecia furtiva a me levar num Pas de Deux onírico: embalava minhas fantasias a sussurrar como se fosse a escritora mauriciana Marie-Thérèse Humbert: …lugares tanto quanto fantasias, onde trajetórias humanas se entrelaçam aninhadas umas nas outras... Quase um espantalho na noite inominável, sigo a fio meadas esgarçadas e longínquos acenos nas miragens. Até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O bem comum se distingue do individual e do público... Parte do problema é saber educar as crianças sobre aves, biodiversidade e outras coisas quando elas vivem em grandes cidades... Os seres humanos têm uma estrutura motivacional mais complexa e mais capacidade de resolver dilemas sociais do que a teoria anterior da escolha racional. Projetar instituições para forçar (ou cutucar) indivíduos totalmente egoístas a alcançar melhores resultados tem sido o principal objetivo proposto por analistas de políticas para os governos realizarem durante grande parte do último meio século. Uma extensa pesquisa empírica me leva a argumentar que, em vez disso, um objetivo central da política pública deveria ser facilitar o desenvolvimento de instituições que trazem à tona o melhor dos seres humanos... Devemos continuar a usar modelos simples onde eles capturam o suficiente da estrutura e incentivos básicos subjacentes para prever resultados de maneira útil. Quando o mundo que estamos tentando explicar e melhorar, no entanto, não é bem descrito por um modelo simples, devemos continuar a melhorar nossas estruturas e teorias para poder entender a complexidade e não simplesmente rejeitá-la...

Pensamento da economista estadunidense Elinor Ostrom (1933-2012), a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Economia, em 2009.

 

A EDUCAÇÃO & A MÚSICA – Entre as artes a música é uma das formas que leva à educação e isto por conta da leitura da obra As bases psicológicas da educação musical (Bienne\Pró-Música, 1970), do educador e músico belga Edgar Willems (1890-1978) que expressou: [...] A educação, bem compreendida, não é apenas uma preparação para a vida; ela própria é uma manifestação permanente e harmoniosa da vida. Assim deveria ser com todos os estudos artísticos e, particularmente, com a educação musical, que recorre à maioria das principais faculdades do ser humano [...]. A partir dele tive acesso à obra O som e o Sentido: uma outra história das músicas (Companhia das Letras, 1989), de José Miguel Wisnick, na qual apreendi: [...] Os sons preenchem cada minuto do dia e as pessoas vivem imersas num mundo de vibrações sonoras, cujos apelos produzem nelas, efeitos diferenciados dos outros estímulos sensoriais. Isso se deve ao fato de que a música “fala ao mesmo tempo ao horizonte da sociedade e ao vértice subjetivo de cada um, sem se deixar reduzir às outras linguagens [...]. Não menos esclarecedora a leitura da publicação Música na Educação Infantil: propostas para a formação integral da criança (Fundação Peirópolis, 2003), da musicista, professora, educadora e pesquisadora Teca Alencar de Brito, expressando que: [...] Para a grande maioria das pessoas, incluindo os educadores e educadoras (especializados ou não), a música era (e é) entendida como “algo pronto”, cabendo a nós a tarefa máxima de interpretá-la. Ensinar música, a partir dessa óptica, significa ensinar a reproduzir e interpretar músicas, desconsiderando a possibilidade de experimentar, improvisar, inventar como ferramenta pedagógica de fundamental importância no processo de construção do conhecimento musical [...]. Até me deparar com o pensamento da professora e pesquisadora Marisa Fonterrada: brincar com sons, montar e desmontar sonoridades, descobrir, criar, organizar, juntar, separar, são fontes de prazer e apontam para uma nova maneira de compreender a vida através de critérios sonoros.

 

MÚSICA NA ESCOLA – A partir dessas leituras passei a pesquisa sobre o tema Música na Escola, encontrando de primeira a obra Reavaliações e buscas em musicalização (Loyola, 1990), da professora e pesquisadora Maura Penna, na qual encontrei suas reflexões: [...] existem diversas definições para música. Mas, de modo geral, ela é considerada ciência e arte, na medida em que as relações entre os elementos musicais são relações matemáticas e físicas; a arte manifesta-se pela escolha dos arranjos e combinações [...] A música é um instrumento facilitador no processo de aprendizagem, pois o aluno aprende a ouvir de maneira ativa e refletida, já que quando for o exercício de sensibilidade para os sons, maior será a capacidade para o aluno desenvolver sua atenção e memória [...]. Não menos esclarecedora foi a expressão encontrada na obra Educação Musical: bases psicológicas e ação preventiva (Átomo, 2003), da musicoterapeuta Vera Bréscia, expressando que: [...] A música contribui para o desenvolvimento psicomotor, socioafetivo, cognitivo e linguístico, além de ser um recurso facilitador na aprendizagem [...]. Por fim, a obra Música na Escola: a contribuição do ensino da música no aprendizado e no convívio social da criança (Paulinas, 2009), do músico alemão Hans Günther Bastian (1944-2011), mencionando que: [...] a música é um guia competente nos diversos acessos ao terceiro milênio, em que muita coisa se abre, mas apenas uma está clara, e é mais provável que o improvável aconteça do que o provável. Se dá, pois, uma oportunidade à música, para que se possa também ter uma oportunidade, pois a música está no fim? Não, no fim, está a música! [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

HOJE: Hoje \ O hoje é nosso, vamos vivê-lo \ E o amor é forte, vamos dar \ Uma música pode ajudar, vamos cantar \ E a paz é querida, vamos trazê-la \ O passado já foi, não o lamentemos \ Nosso trabalho está aqui, vamos fazer \ Nosso mundo está errado, vamos corrigi-lo \ A batalha dura, vamos lutar \ A estrada é difícil, vamos desbravá-la \ O futuro vasto, não o tema \ A fé está adormecida? \ Vamos acordá-la \ Hoje é nosso, vamos em frente.

LIBERDADE É VIVER: Eu movi mansões do sul, \ mas você moveu montanhas. \ Eu vi o coração do grande caçador branco, \ de dentro para fora, repetidas vezes. \ Enquanto você bombeava água no oceano. \ Quando falo de poesia \ com frequência, sou superficial e anseio \ por autenticidade. O tipo de amor \ que só uma mulher negra merece. \De debaixo do peito \ De conservas fecundas. \ Beah, você é a noite \ Beah, você é o útero \ Beah, você estava certo \ Em ser sempre você. \ Quando eu li você pela primeira vez, \ eu sabia que \ uma torre da rainha \ a espada de uma caneta. \ Corajoso, amplo, \ Escravo da Broadway, Casa, Democracia \Carvão, prensado, diamante \ Uma Mulher Forte. \ Você nunca foi uma \ empregada de oito linhas no meu filme. \ Você é a \ coisa mais próxima de uma mãe que jamais encontrarei, \ a voz colorida mais pura que ousaria rebobinar. \ Beah, você é a noite \ Beah, você é o útero \ Beah, você é a luta \ Pelo que precisamos \ ver.

Poemas da atriz, poeta e dramaturga estadunidense Beah Richards (1920-2000).

 

ALGUÉM DISSE A RESPEITO - O destino das mulheres é precisamente o mesmo dos homens: converter-se em seres humanos. Pensamento da pedagoga e feminista norueguesa Ragna Nielsen (Ragna Vilhelmine Ullmann – 1845-1924).

 

ALGUÉM MAIS FALOU: Seu cérebro é altamente ativo, mesmo quando você não está fazendo nada. Seu cérebro nunca está em silêncio... Toda vez que você aprende um novo fato ou habilidade, você muda seu cérebro. Isso se chama neuroplasticidade. A neuroplasticidade pode funcionar de maneira positiva e negativa. Isso pode ajudá-lo a aprender uma nova habilidade, mas também pode fazer com que você esqueça algo ou cause um vício... Conforme você envelhece, seu cérebro não apenas diminui. Cada um de nossos comportamentos pode mudar nosso cérebro, e isso acontece independentemente da idade. Na verdade, após um dano cerebral, é importante trabalhar para mudar seu cérebro para recuperação... O principal impulsionador da mudança em seu cérebro é o seu comportamento. Prática. Você tem que fazer o trabalho... Seu comportamento é o melhor impulsionador da mudança em seu cérebro. Não há atalho. Os comportamentos que você emprega em sua vida cotidiana são importantes porque estão constantemente mudando seu cérebro; além disso, uma mudança de longo prazo no cérebro requer prática e trabalho contínuos. Seu cérebro é moldado pelo que você faz E pelo que você não faz.. Conheça a si mesmo. Estude o que você aprende melhor e de uma forma que o ajude a aprender melhor. Não tente aprender de uma maneira específica porque lhe disseram que você deveria fazê-lo dessa maneira... Faça mais comportamentos que ajudem seu cérebro a se tornar mais saudável. Quebre os que não. Por exemplo, abandone a reclamação e faça o trabalho quando necessário. Pratique, pratique, pratique. Tudo o que você experimenta muda seu cérebro para melhor ou para pior, então, lembrando-se disso, saia e construa o cérebro que você deseja. Seu cérebro é incrível e está constantemente sendo moldado pelo mundo ao seu redor. Você pode mudar seu cérebro. Faça as coisas que o ajudam a construir o cérebro que você deseja... Pensamento da neurocientista e fisioterapeuta estadunidense Lara Boyd. Veja mais aqui.

 

MOACIR SANTOS

Depois de tanto procurar \ motivações, explicações \ depois de tanto palmilhar \ desvios e bifurcações \ da proa desta embarcação \ consigo interpretar, enfim, \ a carta de navegação \ que o mar traçou dentro de mim. \ A previsão sombria \ assim se dissipou \ aquela estrela-guia \ do céu me orientou \ milhões de milhas naveguei \ nem sempre ventos a favor \ o cais da paz interior. Poema Navegação, do compositor e maestro Moacir Santos (1926-2006), extraído do livro Moacir Santos: o Ouro Negro do Pajeú (Comunigraf, 2004), de Marilourdes Ferraz. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


quarta-feira, julho 21, 2021

MICHAEL CONNELLY, NATALIA OSIPOVA, AMANDA VIEIRA, JORGE GARCIA, A DONZELA & A BAILARIA MORTAL

 

 

TRÍPTICO DQP – A donzela mágica... - Ao som Le Cygne – The SwanLe carnaval des animaux, de Camille Saint-Saëns, na interpretação de Han-Na Chang & Philharmonia Orchestra, conductor Leonard Slatkin & solo The Dying Swan da bailarina russa Natalia Osipova. - Lá estava ela jogada nas pedrarias da ilha do mar de Amadis de Gaula. Não sabia se ferida ou machucada ao pé do penhasco escarpado e árido da imensa altura de tocar as nuvens, acho. Estava desacordada e fiquei sem saber o que fazer. Toquei-lhe o pulso, ainda viva. Vi que tremiam suas pálpebras e lábios, um vago movimento na perna direita, um incerto tatear da mão esquerda tocou-me e afaguei seu braço e a deitei em meu peito alisando seus cabelos. Um sussurro dolorido e se ajeitou em mim, beijei-lhe os cabelos e ali fiquei cuidando dela não sei por quanto tempo. Abriu os olhos, expôs sua boca sedutora e beijou-me como se pedisse socorro. Correspondi ao beijo e a abriguei em meus braços a noite inteira até ao amanhecer. Ela tentou se recompor e despertou sem noção de nada, fitou-me seriamente e me contou que era a filha do mágico de Argos, Finetor, e se chamava Oriana. Versada em necromancia, vivia ali toda a sua vida e sua diversão era acompanhar a passagem de numerosos barcos que vinham ou iam para Irlanda ou Noruega e delas, por artes da magia, atrair os homens para roubar-lhes as cargas, aprisionar os cavaleiros a bordo, provocando-os a lutarem entre si até se matarem. Certa feita, entre os cavaleiros havia um oriundo de Creta, por quem ela apaixonou-se perdidamente. Deu-lhe tudo em troca do seu amor e ele fingiu amá-la, familiarizando-se c0m seus encantamentos até que, um dia, ele inclinou-se no alto do rochedo fingindo abraçá-la, jogou-a da varanda de sua esplêndida mansão. Ali estava. O que ele fez? Libertou todos os prisioneiros e levou consigo muitos tesouros dela, só não conseguindo levar nada da sala mais rica do castelo por causa do encantamento. Ouvi atento a tudo que contara e perguntei como poderia sair dali, respondeu-me que a paragem mais próxima estava a uns seis dias de viagem, a ilha da Torre Escarlate. Vi-a distante, sabia do que dissera o escritor estadunidense Michael Connelly: Eu vejo as pessoas de duas maneiras. Eles são pessoas olho-por-olho ou vira-a-cara. Não importava que guerra fosse travada, voltar para casa era outra batalha. Não há nada que você possa fazer sobre o passado, exceto mantê-lo lá. O que é importante não é o que você ouve dizer, mas o que você observa. E fiquei ali calado, fitando seus gestos e contemplações. Por fim, ofereceu-me por presente e gratidão tudo que houvesse na sala encantada do seu palácio, e me fez seguir o caminho de subida, livrando-me das serpentas e outras criaturas terríveis que hibernavam ao redor da porta da câmara, a qual possui painéis com letras de cor sanguínea, uma escrita misteriosa que contém o nome do cavaleiro destinado a entrar na sala depois de retirar a espada presa na maçaneta. Tudo me contou e agradeci, mas disse-lhe não me interessava riquezas, mas levá-la aos seus aposentos. Subimos o íngreme caminho e nos deparamos com a porta: lá estava inscrito o meu nome. Ela sorriu com um abraço afetuoso, eu tinha que voltar.

 


A bailarina mortal... - Ao retornar reencontrei o meu mundo e não seria fácil sobreviver. Pouco tempo depois ela reapareceu familiar com um verso da Conceição Evaristo: O que os livros escondem, / as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha / um ponto-final na história… Estava mais deslumbrante que antes, lívida e estonteante. Não havia há como saber se era setembro de antanho ou fevereiro dagora, só que parecia tão atordoante como um mal que vinha de longe e com muitos nomes, a bordo de um navio e a dizer: salve-se quem puder. Sorria muito e encantadoramente. Logo quando a vi me veio a sensação de um verso de Fernando Pessoa: Ah, o horror de morrer! / E encontrar o mistério frente a frente / Sem poder evitá-lo, sem poder… Era como se ela me levasse por uma dança acasaladora, na qual perdia a memória e a identidade. Ao sobreviver o redemoinho de sua entrega, logo constatei que o Recife estava acometido de uma tanatomorbia e era ela dançando solta com todos os santos, uma espanholada sobre o salubre e a borracha, sem poupar mascarados no seu carnaval. Ela onde chegasse parava tudo a desnudar o precário em seu massacre. E ali José Miguel Wisnik denunciasse: Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus. E era. Tudo muito confuso: mortes, noticiário, disputas e negacionismo faziam a festa da hecatombe no embuste da oferta de curas milagrosas: estávamos todos à sua mercê a ponto de não se saber se era o século passado ou o presente, não fosse a denúncia de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling e quase ninguém ouvia encantado com o espetáculo. Ao ver-me assustado Lilia contou do espetáculo das raças com as barbas do imperador e o triste visionário Lima Barreto. Heloisa, por sua vez, segurou minhas mãos trêmulas e me falou dos senhores gerais, das lembranças do Brasil e dos impasses contemporâneos, dialogando com Lilia sobre a biografia do nosso chão. Eu entendia tudo e quase desentendia de nada, o que sabia é que era uma guerra, uma guerra igual a de ontem e confuso se a primeira, segunda ou sabe-se lá, todo dia aqui é uma guerra e que milhões de pessoas são ceifadas. E ela era a bailarina mortal, imensa, pandêmica. E tudo me levava a crer que se não fosse possível lembrar o que ocorreu durante os mais diversos períodos históricos, não havia outra coisa a fazer, repetir tudo seria a condenação.

 


A dança da cidade... Imagem: a bailarina Amanda Vieira, do Bolshoi Brasil na Companhia da Ópera de Dortmund: Sempre esperei o momento em que eu pudesse viver e me sustentar apenas da dança, e esse momento finalmente chegou! – Nem sabia direito, mas ela me salvou não sei como. Sei que a cidade era a mesma e era outro momento de carnaval perdido e todos mascarados, eu, ela, muitos. Os seus olhos apreensivos me levaram ao coreógrafo e bailarino Jorge Garcia, tão inquieto quanto nós, entre a Cisne Negro, o GRUA e o Balé de São Paulo, num performático improviso, a me contar de Marie van Goethem, e eu nem sabia se tratar da pequena em perpétua quarta posição do balé de Degas e do Little Dancer Aged Fourteen de Camille Laurens. Sim e... Se o pintor, como dissera: encerrei meu coração numa sapatilha de cetim cor-de-rosa, e a sua musa virou um fantasma sem história, para nós era mais que magia pura o que vivíamos na alma do Recife: a dor é que era nossa. Diferente da musa que desaparecera sem deixar nenhum rastro, para onde quer que eu vá, a cidade enche meu coração de esperança por todas as paragens distantes e perdidas. Até mais ver.

 

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