quarta-feira, agosto 08, 2012

MARGARET MEAD, CHANDRA CANDIANI, JOHN TAYLOR GATTO, RANCIÈRE, SEMBÈNE & EMMY NOETHER


“Sempre que liberamos uma mulher, libertamos um homem”

“Uma das mais antigas necessidades humanas é ter alguém para imaginar onde nós estamos, quando não chegamos em casa à noite”.

"Em 1920, ridicularizávamos a ideia de ser uma mulher considerada uma solteirona aos 25 anos. O que então sabíamos de obstetrícia era suficiente para demonstrar que, mesmo depois dessa idade, uma mulher pode ter com segurança o seu primeiro filho. Mas, ao chegarmos a 1950, as mulheres já eram consideradas solteironas aos 23 anos...”

“A existência numa dada sociedade de uma dicotomia de personalidade determinada pelo sexo, limitada pelo sexo, pune em maior ou menor grau todo o indivíduo que nasce em seu âmbito. Aqueles indivíduos cujos temperamentos são indubitavelmente anômalos não conseguem ajustar-se aos padrões aceitos, e pela sua própria presença, pela anormalidade de suas respostas, confundem aqueles cujos temperamentos são os esperados para o seu sexo. Dessa forma, é plantado, em praticamente todo o espírito, um germe de dúvida, de ansiedade, que interfere com o curso normal da vida”.

“As padronizadas diferenças de personalidade entre os sexos são desta ordem, criações culturais às quais cada geração, masculina e feminina, é treinada a conformar-se. Persiste, entretanto o problema da origem dessas diferenças socialmente padronizadas”.

"Quando estudamos as sociedades mais simples, não podem deixar de nos impressionar as muitas maneiras como o homem tomou umas poucas sugestões e as traçou em belas e imaginosas texturas sociais que denominamos civilizações. Seu ambiente natural muniu-o de alguns contrastes e periodicidades notáveis: o dia e a noite, a mudança das estações, o incansável crescer e minguar da lua, a desova dos peixes e as épocas de migração dos animais e pássaros. Sua própria natureza física forneceu-lhe outros pontos importantes: idade e sexo, ritmo de nascimento, maturação e velhice e a estrutura do parentesco consanguíneo. Diferenças entre um e outro animal, entre um e outro indivíduo, diferenças em ferocidade ou em mansidão, em coragem ou em esperteza, em riqueza de imaginação ou em perseverante obtusidade - todas proporcionaram sugestões a partir das quais foi possível desenvolver as idéias de categoria e casta, de sacerdócios especiais, do artista e do oráculo."

"Um dos problemas da ciência é que ela nos adverte para certas coisas negativas e isso não é popular. Então os próprios cientistas e até os professores tentam evitar a reflexão oferecendo respostas simplistas, curtas e grosseiras”.

MARGARET MEAD – Antropóloga, pensadora e psicóloga norte-americana, autora de 23 livros abordando os mais diversos temas: poluição, sexo, serviço militar, planejamento urbano, arte, costumes tribais, devastação da Amazônia, entre outros. Aos 20 anos se viu envolvida numas aventuras pelos Mares do Sul, onde realizou uma pesquisa descrevendo forma como as jovens mulheres samoanas tinham o hábito de adiar o casamento por muitos anos, desfrutando do sexo ocasional e que, só depois de se casarem é que assentavam e tinham filhos. Aos 30 estava à margem do rio Sepik e na região hostil de Mundugumor, enfrentando a malária. Casou-se três vezes, divorciou-se de todos e teve casos amorosos com mulheres. Ensinou antropologia na Universidade de Columbia e trabalhou no American Museum of Natural History. Foi pioneira ao propor que as características masculinas e femininas refletiam as influências culturais e sociais, não se limitando às diferenças biológicas. Era a favor da liberação do aborto e do uso da maconha. Criticou o pensamento científico que decretava a inferioridade feminina como algo da natureza, biológica e fisiologicamente determinado como um fato universal e perene, explicando as condicionantes históricas e socioculturais que definiam pela contingência da subalternidade da mulher. Em suas observações etnográficas, mostrou que grupos culturais em que as mulheres experimentavam a liberdade diferiam do padrão cultural "civilizado" embasado no etnocentrismo do mundo ocidental. A sua opinião em favor da liberação sexual foi alvo de vasta polêmica, publicado em "Coming of Age in Samoa" em 1928, oriundo de sua tese de doutoramento e trazendo a preocupação com a crise da adolescência. Segundo seus estudos, em Samoa, onde ela passou seis meses estudando a realidade local, não existia nenhuma crise, pois também não havia nada parecido com repressão sexual. Ao divulgar sua teoria do comportamento adolescente e sexual, cujos problemas se originam na forma de educação ocidental. Ela faleceu aos 77 anos, em 18 de novembro de 1978. Veja mais aquiaqui.

REFERÊNCIAS:
MEAD, Margaret. Macho e fêmea. Petrópolis: Vozes, 1971.
______. Sexo e temperamento. São Paulo: Perspectiva, 1969.

 


UM POEMA PARA EMMY – À memória da matemática alemã Amalie Emmy Noether (1882-1935) – A menina da Fracônia nascia na família judia da bávara Erlangen. A sua mãe era filha de um grande comerciante e herdou do pai descendente de uma família de mercadores de lã, o gosto pela matemática, embora tenha planejado inicialmente ensinar inglês e francês depois dos exames. Era míope, gostava de dançar e apesar de esperta e muito inteligente não se destacou academicamente. Adorava resolver quebra-cabeças, aprendendo piano enquanto realizava seus afazeres de cozinhar e limpar. Ao invés, mudou de planos e estudou matemática onde o pai lecionava e fez seu doutoramento para trabalhar no Instituto sem remuneração. E isto por sete anos seguidos, porque as mulheres eram excluídas dos cargos acadêmicos. Apesar dos obstáculos ela se graduou e escreveu sua tese Em Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadráticas Ternárias, em 1907. Depois disso foi convidada para o centro de pesquisa de outra universidade de renome mundial, no qual passou quatro anos lecionando sob o nome de homem – no caso Hilbert. Passou a primeira grande guerra, publicou sua Teoria dos Ideais em Anéis e tendo sua habilitação aprovada permaneceu no departamento por mais de doze anos, ensinando aos meninos de Noether: suas ideias formaram a base para a Moderne Algebre, publicada em 1932. Depois de trabalhar com Pavel Alexandrov, em Moscou, foi despejada da pensão e considerada uma judia com tendências marxistas. Dos três irmãos restou apenas um que também fez grandes feitos acadêmicos na matemática aplicada. Com o governo nazista instalado no seu país, teve seu cargo revogado e migrou pros Estados Unidos. Mas Princeton era uma universidade de homem, mulheres não eram bem-vindas. Além do mais, médicos descobriram um tumor na sua pélvis. Morreu jovem, aos 53 anos, vítima das consequências de uma cirurgia de cisto ovariano. Ela nunca foi eleita para a Academia de Ciências de Göttingen nem promovida ao cargo de professora catedrática. O teorema por ela criado explicou a conexão fundamental entre a simetria na física e as leis de conservação, uma entre as suas contribuições de fundamental importância aos campos da física teórica e da álgebra abstrata, considerada por Albert Einstein, David Hilbert e Hermann Weyl, entre outros, como aquela que foi a mais importante na história da matemática, por revolucionar as teorias sobre anéis, corpos e álgebra. Na verdade, ela mudou a cara da álgebra com a sua Teoria: os objetos da cadeia ascendente são nomeados Noetherian. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Um escritor no terceiro mundo pode ser considerado todas as bocas daqueles que são silenciados. Ele é, também, um olho para a miríade de olhos que são incapazes de distinguir por si mesmos. Ele é um guardião da dignidade deles. Pensamento do escritor e cineasta senegalês Ousmane Sembène (1923-2007). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Uma sociedade justa oferece igualdade de oportunidades a todos. Mas não pode prometer e não deve tentar impor a mesmice. Esse é o paradoxo corrosivo da postura misândrica do feminismo de gênero: nenhum grupo de mulheres pode fazer guerra aos homens sem, ao mesmo tempo, denegrir as mulheres que respeitam esses homens. Pensamento da escritora e filósofa estadunidense Christina Hoff Sommers, autora de obras como Who Stole Feminism?: How Women Have Betrayed Women (Simon & Schuster, 1995) e The War Against Boys ( Simon & Schuster, 2015). Veja mais aqui.

 

EMBURRECIMENTO PROGRAMADO – […] Há trinta anos, não tendo nada melhor para fazer, eu experimentei dar aulas. A licença que eu tenho certifica que eu sou um instrutor da língua inglesa e literatura inglesa, mas isso não é o que eu faço de forma alguma. Eu não ensino inglês; eu ensino escola — e eu ganho prêmios fazendo isso. Ensinar significa diferentes coisas em diferentes lugares, mas sete lições são universalmente ensinadas do Harlem a Hollywood Hills. Elas constituem o currículo nacional pelo qual vocês pagam de mais maneiras do que imaginam, então por que não saber de quê se trata. Vocês têm a liberdade, é claro, de considerarem estas lições da maneira que quiserem, mas acreditem em mim quando eu digo que não tenho intenção nenhuma de ser irônico nesta apresentação. Estas são as coisas que eu ensino; estas são as coisas que vocês me pagam para ensinar. Entendam como quiserem. 1 CONFUSÃO: Uma moça chamada Kathy escreveu isto para mim de Dubois, Indiana, há um tempo atrás: "Quais grandes idéias são importantes para criancinhas? Bem, a maior ideia que eu acho que elas precisam é que o que elas estão aprendendo não é idiossincrático — que há algum sistema nisso tudo e ele não está simplesmente chovendo sobre elas enquanto elas não podem fazer nada senão absorver. Essa é a tarefa, entender, tornar coerente." Kathy não entendeu direito. A primeira lição que eu ensino é confusão. Tudo que eu ensino está fora de contexto. Eu ensino a não-relação de tudo. Eu ensino desconexões. Eu ensino demais: a órbita dos planetas, a lei dos grandes números, escravidão, adjetivos, desenho arquitetônico, dança, ginásio, canto coral, assembleias, convidados-surpresa, treinos de incêndio, linguagens de computador, noite dos pais, dias de desenvolvimento de corpo docente, atividades extraclasse, aconselhamento com estranhos que meus alunos podem nunca mais ver, testes padronizados, segregação etária como nada que se vê no mundo exterior... O que é que essas coisas têm a ver uma com a outra? Mesmo nas melhores escolas, um exame atento do currículo e suas sequências demonstra uma falta de coerência, uma série de contradições internas. Felizmente as crianças não têm palavras para definir o pânico e raiva que elas sentem com as constantes violações da ordem natural e sequência que lhes são vendidas como qualidade em educação. A lógica da mente-escolar é a de que é melhor deixar a escola com um conjunto de jargões superficiais derivados da Economia, Sociologia, Ciência Natural, e assim por diante do que com um entusiasmo genuíno. Mas qualidade em educação implica aprender a fundo sobre algo. A confusão é empurrada sobre as crianças por adultos estranhos demais, cada um trabalhando sozinho com apenas o mais fino relacionamento um com o outro, fingindo, na maior parte, terem uma mestria que eles não possuem. Significado, e não fatos desconexos, é o que seres humanos sãos buscam, e educação é um conjunto de códigos para transformar dados brutos em significado. A antiquíssima busca humana por significado fica bem escondida por detrás da manta de retalhos das sequências escolares e da obsessão escolar por fatos e teorias. Isto é mais difícil de se ver na escola elementar, onde a hierarquia da experiência escolar parece fazer mais sentido porque apenas se supõe que o relacionamento simples e bem-humorado de "vamos fazer isso" e "vamos fazer aquilo" faz algum sentido, e a clientela ainda não discerniu conscientemente quão pouca substância existe por trás da brincadeira e do faz-de-conta. Pense nas grandes sequências naturais — como aprender a andar e aprender a falar; a progressão da luz do nascer ao pôr do sol; os procedimentos antigos de um fazendeiro, um ferreiro, ou um sapateiro; ou a preparação de uma festa de fim-de-ano. Todas as partes estão em perfeita harmonia umas com as outras, cada ação justificando a si mesma e iluminando o passado e o futuro. Sequências escolares não são assim, nem dentro de uma só aula e nem entre o menu total de aulas diárias. Sequências escolares são malucas. Não há razão em particular para nenhuma delas, nada que suporte um exame minucioso. Poucos professores ousariam ensinar as ferramentas com as quais os dogmas de uma escola ou um professor possam ser criticados, uma vez que tudo deve ser aceito. Matérias escolares são aprendidas, se elas podem ser aprendidas, do modo como crianças aprendem catecismo ou memorizam os Trinta e nove Artigos do Anglicanismo. Eu ensino a des-relação de tudo, uma infinita fragmentação, o oposto de coesão; o que eu faço está mais relacionado a programação televisiva que a criar um esquema de ordem. Em um mundo onde o lar é apenas um fantasma porque ambos os pais trabalham, ou por causa de muitas mudanças de endereço ou de emprego ou ambição demais, ou porque alguma outra coisa deixou todos confusos demais para manterem uma relação familiar, eu ensino aos estudantes como aceitarem a confusão como seu destino. Esta é a primeira lição que eu ensino. 2 POSIÇÃO NA CLASSE - A segunda lição que eu ensino é posição na classe. Eu ensino que estudantes devem ficar na classe a qual eles pertencem. Eu não sei quem decide que minhas crianças devem ficar lá, mas isso não é da minha conta. As crianças são numeradas para que se alguma escapar elas possam ser devolvidas à classe correta. Com o passar dos anos a variedade de maneiras em que crianças são numeradas aumentou dramaticamente, até ficar difícil ver os seres humanos plenamente sob o peso dos números que eles carregam. Numerar as crianças é um empreendimento grande e muito lucrativo, embora o objetivo desta estratégia seja elusivo. Eu nem sei por que pais e mães permitiriam, sem lutar, que isto fosse feito a suas crianças. De qualquer forma, não é da minha conta. Meu trabalho é fazê-las gostarem de estar presas junto com crianças que carregam números como os seus. Ou pelo menos aguentarem com esportiva. Se eu fizer bem o meu trabalho, as crianças não conseguem nem se imaginar em outro lugar porque eu lhes mostrei como invejar e temer as classes melhores e como ter desprezo pelas classes burras. Sob esta eficiente disciplina a classe na maior parte policia a si mesma e se põe em boa ordem de marcha. Essa é a real lição de qualquer competição fraudada como a escola. Você vem para saber o seu lugar. Apesar do diagrama geral de classes que determina que noventa e nove por cento das crianças estão em suas classes para ficar, eu entretanto faço um esforço público para estimular as crianças a níveis maiores de sucesso nos testes, insinuando uma eventual transferência das classes mais baixas como recompensa. Eu frequentemente insinuo que chegará o dia em que um empregador os contratará com base nas pontuações em testes e notas, embora minha própria experiência seja de que empregadores são acertadamente indiferentes a tais coisas. Eu nunca minto inteiramente, mas eu percebi que verdade e ensino escolar são, no fundo, incompatíveis, tal como Sócrates disse há milhares de anos. A lição de classes numeradas é que todo mundo tem um lugar adequado na pirâmide e que não há escapatória da sua classe senão por mágica numérica. Falhando isso, você deve permanecer onde está. 3 INDIFERENÇA - A terceira lição que eu ensino é indiferença. Eu ensino as crianças a não se importarem demais com nada, embora elas queiram dar a aparência de se importar. Como eu faço isso é muito sutil. Eu faço isso exigindo que elas se tornem completamente envolvidas em minhas lições, pulando pra cima e pra baixo em suas carteiras de tanta empolgação, competindo vigorosamente uns com os outros pelo meu favoritismo. É comovente quando elas fazem isso; impressiona a todo mundo, até a mim. Quando eu estou no meu melhor eu planejo as lições muito cuidadosamente para poder produzir esse show de entusiasmo. Mas quando o sino toca eu insisto que eles larguem o que quer que seja que estamos fazendo e prossigam rapidamente para a próxima estação de trabalho. Eles devem ligar e desligar como um interruptor de luz. Nada importante é jamais finalizado na minha classe ou em qualquer classe que eu conheça. Estudantes nunca têm uma experiência completa exceto o plano de mensalidade. De fato, a lição dos sinos é que nenhum trabalho merece ser terminado, então por que se importar muito profundamente sobre qualquer coisa? Anos de sinos irão condicionar todos senão os mais fortes a um mundo que não pode mais oferecer trabalho importante para se fazer. Sinos são a lógica secreta do tempo escolar; sua lógica é inexorável. Sinos destroem o passado e o futuro, tornando todo intervalo igual a qualquer outro, assim como a abstração de um mapa torna todas as montanhas e rios vivos iguais, mesmo que não o sejam. Sinos inoculam cada atividade com indiferença. 4 DEPENDÊNCIA EMOCIONAL - A quarta lição que eu ensino é dependência emocional. Por meio de estrelas e marcas vermelhas, sorrisos e caras feias, prêmios, honras e desgraças, eu ensino as crianças a renderem seu livre-arbítrio à cadeia de comando predestinada. Direitos podem ser cedidos ou retidos por uma autoridade sem direito a apelação, porque direitos não existem dentro de uma escola – nem o direito de liberdade de expressão, como a Suprema Corte decidiu – a menos que as autoridades escolares digam que existem. Como um professor escolar, eu intervenho em muitas decisões pessoais, emitindo um passe para aqueles que eu considero legítimos e iniciando confronto disciplinar por comportamento que ameace meu controle. A individualidade está constantemente tentando se afirmar entre crianças e adolescentes, então meus julgamentos vêm aos montes e rápido. Individualidade é uma contradição da teoria de classe, uma maldição para todo sistema de classificação. Aqui estão algumas maneiras comuns em que a individualidade aparece: crianças saem sorrateiramente para um momento privado no banheiro sob o pretexto de necessidades fisiológicas, ou elas roubam um instante privado no corredor alegando precisar de água. Eu sei que elas não precisam, mas eu permito-lhes que me "enganem" porque isso as condiciona a depender dos meus favores. Às vezes o livre-arbítrio aparece bem na minha frente em grupinhos de crianças com raiva, deprimidas, ou felizes sobre coisas fora do meu alcance; direitos em tais questões não podem ser reconhecidos por professores escolares, apenas privilégios que podem ser retidos, reféns do bom comportamento. 5 DEPENDÊNCIA INTELECTUAL - A quinta lição que eu ensino é dependência intelectual. Bons estudantes aguardam que um professor lhes diga o que fazer. Esta é a mais importante lição de todas elas: nós devemos esperar que outras pessoas, mais bem-treinadas que nós mesmos, dêem sentido às nossas vidas. O expert toma todas as decisões importantes; apenas eu, o professor, pode determinar o que minhas crianças devem estudar, ou melhor, apenas as pessoas que me pagam podem tomar essas decisões, que então eu faço cumprir. Se me disserem que evolução é um fato e não uma teoria, eu transmito isso como ordenado, punindo rebeldes que resistem àquilo que me mandaram lhes mandarem pensar. Este poder de controlar o que as crianças vão pensar, me permite separar estudantes de sucesso das falhas muito facilmente. Estudantes de sucesso pensam aquilo que eu lhes designo com um mínimo de resistência e uma demonstração satisfatória de entusiasmo. Das milhões de coisas válidas para se estudar, eu decido para quais poucas nós temos tempo. Se bem que, na verdade, isso é decidido pelos meus empregadores desconhecidos. As escolhas são deles – por que eu deveria discutir? Curiosidade não tem lugar importante no meu trabalho, somente conformidade. Crianças más lutam contra isso, claro, apesar de lhes faltarem os conceitos para saberem contra o quê estão lutando, esforçando-se para tomarem decisões por si próprias sobre o que aprenderão e quando o aprenderão. Como nós podemos permitir isso e sobrevivermos como professores escolares? Felizmente existem procedimentos comprovados para quebrar a força-de-vontade daqueles que resistem; é mais difícil, naturalmente, se as crianças têm pais respeitáveis que vêm em seu auxílio, mas isso acontece cada vez menos apesar da má reputação das escolas. Nenhum pai ou mãe de classe média que eu já conheci na vida realmente acha que a escola dos filhos deles é uma das ruins. Nenhum pai ou mãe sequer em muitos anos de ensino. Isso é incrível, e provavelmente o melhor testemunho do que acontece com as famílias quando os próprios pai e mãe foram bem-ensinados na escola, aprendendo as sete lições. Boas pessoas esperam que um expert lhes diga o que fazer. Não é nenhum exagero dizer que toda a nossa economia depende de que esta lição seja aprendida. Pense no que poderia colapsar se as crianças não fossem treinadas para serem dependentes: os serviços sociais mal poderiam sobreviver – eles desapareceriam, eu penso, junto com o recente limbo histórico do qual se ergueram. Conselheiros e terapeutas observariam com horror o desaparecimento da sua fonte de inválidos psíquicos. Entretenimento comercial de todos os tipos, incluindo televisão, iria enfraquecer-se à medida que as pessoas aprendessem novamente como criar sua própria diversão. Restaurantes, a indústria de alimentos preparados, e toda uma série de outros diversos serviços alimentícios seriam dramaticamente reduzidos se as pessoas retornassem a fazerem suas próprias refeições em vez de dependerem de estranhos para plantar, colher, cortar e cozinhar para eles. Muito do direito moderno, medicina e engenharia também iriam embora, bem como o ramo de vestuário e ensino escolar, a menos que se garantisse que continuasse a brotarem pessoas indefesas de nossas escolas a cada ano. Não se apresse demais para votar por uma reforma escolar radical se você quer continuar ganhando um salário. Nós construímos um modo de vida que depende de que as pessoas façam aquilo que lhes mandam porque elas não sabem como dizerem a si mesmas o que fazer. É uma das maiores lições que eu ensino. 6 AUTO-ESTIMA PROVISÓRIA - A sexta lição que eu ensino é autoestima provisória. Se você já tentou forçar uma criança a entrar na linha cujos pais a convenceram a acreditar que ela será amada apesar de qualquer coisa, você sabe o quanto é impossível fazer espíritos autoconfiantes se conformarem. Nosso mundo não sobreviveria a uma avalanche de pessoas confiantes por muito tempo, então eu ensino que o auto-respeito de uma criança deve depender da opinião de um expert. Minhas crianças são constantemente avaliadas e julgadas. Um relatório mensal, impressionante em sua disposição, é enviado à casa do estudante para obter aprovação ou marcar exatamente, com a precisão de um ponto percentual, o quanto os pais deveriam estar insatisfeitos com a criança. A ecologia da "boa" escolarização depende de perpetuar a insatisfação, tal como a economia comercial depende do mesmo fertilizante. Embora algumas pessoas possam ficar surpresas com quão pouco tempo ou reflexão vai na confecção desses registros matemáticos, o peso cumulativo desses documentos aparentemente objetivos estabelece um perfil que compele as crianças a chegarem a certas decisões sobre si mesmas e seus futuros com base no julgamento casual de estranhos. Auto-avaliação, o cerne de todo grande sistema filosófico que já apareceu no planeta, nunca é considerada como um fator. A lição dos boletins, notas e testes é que crianças não devem confiar em si mesmas ou em seus pais, mas devem em vez disso depender da avaliação de oficiais certificados. As pessoas precisam que lhes digam o que elas valem. 7 NINGUÉM PODE SE ESCONDER - A sétima lição que eu ensino é que ninguém pode se esconder. Eu ensino aos estudantes que eles estão sempre sendo observados, que cada um está sob constante fiscalização minha e de meus colegas. Não há espaços privados para crianças; não há tempo privado. A mudança de classes dura exatamente trezentos segundos para manter fraternização promíscua em níveis baixos. Estudantes são encorajados a tagarelar e bisbilhotar uns aos outros ou até a delatarem seus próprios pais. É claro, eu encorajo pais a enviarem relatórios sobre a desobediência de seus próprios filhos também. Uma família treinada para dedurar a si própria não é propensa a guardar quaisquer segredos perigosos. Eu passo aos estudantes um tipo de escolarização estendida chamada "lição-de-casa", para que o efeito da fiscalização, se não a fiscalização em si, viaje para dentro dos próprios lares, onde estudantes poderiam de outra forma usar o tempo livre para aprenderem algo não-autorizado de um pai ou uma mãe, por pesquisa, ou tornarem-se aprendizes de alguma pessoa sábia na vizinhança. A deslealdade à ideia da escolaridade é um demônio sempre pronto a achar trabalho para mãos ociosas. O significado da fiscalização constante e negação de privacidade é que não se pode confiar em ninguém, que privacidade não é legítima. Fiscalização é um imperativo antigo, esposado por certos pensadores influentes, uma prescrição central estabelecida em A República, A Cidade de Deus, As Institutas da Religião Cristã, Nova Atlantis, Leviatã e uma série de outros lugares. Todos os homens sem filhos que escreveram estes livros descobriram a mesma coisa: crianças devem ser observadas de perto se você quer manter uma sociedade sob forte controle central. Crianças seguirão um baterista privado se você não conseguir coloca-las em uma banda de marcha uniformizada. II - O grande triunfo da escolarização governamental compulsória e monopólica de massa é que mesmo entre os melhores de meus colegas professores, e entre até os melhores dos pais de meus estudantes, apenas um pequeno número consegue imaginar um jeito diferente de fazer as coisas. "As crianças têm que saber ler e escrever, não têm?" "Elas têm que saber como somar e subtrair, não têm?" "Elas têm que aprender a seguir ordens se elas esperam ter um emprego." Há apenas algumas gerações as coisas eram muito diferentes nos Estados Unidos. Originalidade e variedade eram moeda comum; nossa ausência de arregimentação nos tornou o milagre do mundo; barreiras de classe social eram relativamente fáceis de cruzar; nossos cidadãos eram maravilhosamente confiantes, inventivos, e capazes de fazer muito por si mesmos independentemente, e de pensar por si mesmos. Nós éramos algo especial, nós americanos, totalmente por conta própria, sem governo metendo seu nariz e medindo cada aspecto de nossas vidas, sem instituições e agências sociais nos dizendo como pensar e sentir. Nós éramos algo especial, como indivíduos, como americanos. Mas nós tivemos uma sociedade essencialmente sob controle central nos Estados Unidos desde logo após a Guerra Civil, e uma sociedade assim requer escolarização compulsória — escolarização governamental monopólica — para se manter. Antes deste desenvolvimento, escolarização não era muito importante em lugar algum. Nós a tínhamos, mas não demais, e apenas o quanto o indivíduo queria. As pessoas aprendiam a ler, escrever, e fazer aritmética muito bem de qualquer forma; há alguns estudos que sugerem que a alfabetização na época da Revolução Americana, pelo menos para não-escravos no litoral leste, era perto de total. Senso Comum, de Thomas Paine, vendeu 600.000 cópias para uma população de 3.000.000 dos quais vinte por cento eram escravos e cinquenta por cento eram serventes não-assalariados. Os Colonos eram gênios? Não, a verdade é que ler, escrever, e aritmética levam apenas cerca de cem horas para transmitir desde que a plateia esteja ávida e disposta a aprender. O truque é esperar até alguém perguntar e então ser rápido enquanto o interesse dura. Milhões de pessoas ensinam a si mesmas estas coisas — realmente não é muito difícil. Pegue um livro didático de quinta série de matemática ou de retórica de 1850 e você verá que os textos eram na época de um nível que hoje seria considerado universitário. O contínuo apelo pela prática de “competências básicas” é uma cortina de fumaça por atrás da qual escolas se apropriam do tempo das crianças por doze anos e as ensinam as sete lições que eu acabei de descrever para vocês. A sociedade que tem caído cada vez mais sob controle central desde logo antes da Guerra Civil se mostra nas vidas que levamos, as roupas que vestimos, a comida que comemos, e os sinais verdes de autoestrada pelos quais passamos de costa a costa, tudo dos quais são os produtos deste controle. São também, eu penso, a epidemia de drogas, suicídio, divórcio, violência, e crueldade, bem como a solidificação de classe para casta nos Estados Unidos, produtos da desumanização de nossas vidas, da diminuição da importância do indivíduo, da família e da comunidade — uma diminuição que procede de controle central. Inevitavelmente, grandes instituições compulsórias querem mais e mais, até que não haja mais para dar. A escola tira nossas crianças de qualquer possibilidade de um papel ativo na vida comunitária — de fato, ela destrói comunidades relegando o treinamento de crianças às mãos de experts certificados — e ao fazê-lo ela garante que nossas crianças não podem crescer completamente humanas. Aristóteles ensinava que sem um papel completamente ativo na vida comunitária ninguém poderia esperar se tornar um ser humano saudável. Certamente ele estava correto. Olhe em volta de você da próxima vez que você estiver perto de uma escola ou uma casa de repouso para idosos se você deseja uma demonstração. Escola, da maneira como foi construída, é um sistema de suporte essencial para um modelo de engenharia social que condena a maior parte das pessoas a serem pedras subordinadas em uma pirâmide que se estreita ao ascender a um terminal de controle. Escola é um artifício que faz tal ordem social piramidal parecer inevitável, apesar de tal premissa ser uma traição fundamental da Revolução Americana. Desde os dias coloniais passando pelo período da República nós não tínhamos escolas — leia a Autobiografia de Benjamin Franklin para um exemplo de um homem que não tinha tempo para desperdiçar na escola — e no entanto a promessa de democracia estava começando a ser realizada. Nós demos as nossas costas a essa promessa ao trazer à vida o antigo sonho faraônico do Egito: subordinação compulsória para todos. Esse foi o segredo que Platão relutantemente transmitiu em A República quando Glauco e Adimanto extorquem de Sócrates o plano para o total controle estatal da vida humana, um plano necessário para manter uma sociedade na qual algumas pessoas tomam mais do que lhes pertence. “Eu mostrarei a vocês,” diz Sócrates, “como criar tal cidade febril, mas vocês não irão gostar do que eu irei dizer.” E assim o modelo da escola das sete lições foi esboçado pela primeira vez. O atual debate sobre se devemos ou não ter um currículo nacional é fabricado. Nós já temos um currículo nacional inserido nas sete lições que eu acabei de delinear. Tal currículo produz paralisia física, moral, e intelectual, e nenhum currículo de conteúdo será suficiente para reverter seus efeitos hediondos. Aquilo que atualmente se discute em nossa histeria nacional sobre queda de desempenho acadêmico não é a questão. Escolas ensinam exatamente o que elas foram feitas para ensinar e elas o fazem bem: como ser um bom egípcio e permanecer no seu lugar na pirâmide. [...]. Trechos extraídos da obra Dumbing Us Down: The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling (New Society Publishers, 2002), do escritor e professor estadunidense John Taylor Gatto (1935-2018), que em outra obra, Eu desisto, eu acho (1991), assinala que: Não existe uma maneira certa de ser educado; há tantas maneiras quanto há impressões digitais. Não precisamos de professores certificados pelo estado para fazer a educação acontecer – isso provavelmente garante que não acontecerá.

 

O INCONSCIENTE ESTÉTICO – [...] Para mim, estética não designa a ciência ou a disciplina que se ocupa da arte. Estética designa um modo de pensamento que se desenvolve sobre as coisas da arte e que procura dizer em que elas consistem enquanto coisas do pensamento. De modo mais fundamental, trata-se de um regime histórico específico de pensamento da arte, de uma ideia do pensamento segundo a qual as coisas da arte são coisas de pensamento. […]. Trecho extraido da obra Inconsciente estético (34, 2009), do filósofo e professor francês Jacques Rancière. Veja mais aqui e aqui.

 

TRÊS POEMAS1 - Um tipo diferente de nascimento te empurrou para longe saindo daqui a casca volumosa do corpo. Você tem a sonolência da neve um silêncio que semeou como uma cidade de vaga-lumes em um campo preto. Aqui somos floresta, você e eu sozinho, não somos árvores não somos arbustos, não os pássaros, nem nós as pegadas dos animais mas os espaços entre as árvores, os pássaros, as pegadas dos animais: Liga para mim. Nós éramos irmãs e agora refreando meu coração em aperto apertado, com qualquer nome enfim, me ligue. 2 - Me chame das sombras altas me chame de comandante intimamente, me chame para fora dessas leis graves, das âncoras na corrente sem corredeiras, de opiniões razoáveis. Me chame como uma criatura assustada folha de grama na respiração tensa das florestas da cidade das casas empilhadas no sono dos carros abandonados nas ruas como os esqueletos de dinossauros tristes. Sussurre para mim isso em casa agora é hora de acender as luzes deixe-me sentir o cheiro de pão e jasmim, então rasgue, suavemente, do meu bom burro o que resta de mim. Nossa mãe tão delicadamente feroz. 3 - Eu acredito no perfume de jasmim que sobe para o segundo andar e me lembra. eu acredito nas folhas da árvore do pagode que estão prestes a chegar minha mão na janela e que à noite eu conheço fique de guarda para mim. Eu acredito no choque repentino que nos leva no segredo das ações e nos prepara para corar e para remediar. Eu acredito nas árvores estéreis que se inscrevem no céu, nos versos que desaceleram ao sono dos pássaros. Eu acredito em linhas e precário atos de equilíbrio, ao ar livre emoções, testadas por nevascas quebrado por vezes de dureza e abandono. Eu acredito quando você me ouve agachado em torno do futuro como um grão de arroz e quando você fala sem qualquer intenção. Eu acredito nas vírgulas, em pontos e no branco que cria silêncio e entrega a seguinte palavra. Eu acredito em parar agora com os braços abertos, minúsculo na paisagem de nossa complexidade. Poemas da poeta italiana Chandra Livia Candiani. Veja mais aqui.

 


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