sexta-feira, fevereiro 01, 2019

GUY DEBORD, EVELIN SIN, SELMA RATIS & CONCEIÇÃO RAMOS


DOS QUE PUXAM E SE ENROLAM – Da esquerda pra direta, um atrito; ou vice-versa, um choque. Ô vida, só vale bate-boca, aqui ou ali um conflito. Josuíto mesmo acusou Marcolano de desonesto! O negócio pegou fogo, virou contenda e se engalfinharam. Um segurando na beca do outro, a mãe no meio e o bafo das ruindades. Quanto mais bufavam, mais botavam lenha pra queimar. Olho no olho, arregaçado de mangas, a treta decolando o desacordo. Vem Sebruíno para apartar, precisa de pulso pra deixar por menos a desavença. Não é bem assim. Ao intervir, foi atropelado por uma carrada de razão com réplicas e tréplicas sem fim. Cada qual seu gênio e coração na roda. Tome finca-pé. A coisa incendeia com a gasguita agulha de vitrola que chega tomando partido. Foi preciso segurá-la pra não botar tudo a perder. Sebruino entusiasmado tudo fez para ela, dedo na venta, levantar a saia e baixar as calcinhas, seria o fim. Josuíto primo dela, puxou-la de lado, defendendo o marido que ronca até quase meio dia. Nessa hora Marcolano dobrou o matraqueado, ofensa ousada neles apimentou a discórdia. Alto lá, gritou ela, deitou tintim por tintim no dissenso. Eu sou homem! Ah, não é lá grande coisa, não, se trouxer a fita métrica, a prova dos nove. Venha ver se não arregaço, quenga! Duvido fazer o teste da goma, disse ela como se acreditasse na sorte numa vida só de fiasco, digeria seus dissabores. O frege subiu de temperatura. Ou tira essa mulher daqui, ou eu não me responsabilizo!, decidiu a vítima. Faz o quê, ouse se for macho! A querela já ia nas alturas da esquina, levando o rolo pelas ruas, e tome gente dando pitaco, atiçando. Não é pra menos, as rusgas são cumprimentos; escaramuças, as saudações: Aquele fidumégua é corno até debaixo d’água, só se salva porque é meu amigo e pronto! A forma carinhosa e terna no tratamento entre uns e outros é como se uma peleja estivesse pronta pro pugilato: Esse fidapeste só não tem hipocondria, mas o resto, carrega tudo no couro, verdadeira boceta de Pandora! A amizade é um laço feito de duelos em descascar a reputação do outro: Esse fuleiro caipora fuma tanto que até as plantas no jarro tossem de madrugada na casa dele! E a certidão da amizade dá-se arranhando a cara outro: Como é? Ah, esse punheteiro só para o vício quando dá câimbras ou nas mãos ou no pau! Duvida? Assim os compadrios estreitos, pessoas íntimas, da laia, um dia chegam ao rompimento: Quem segura amizade com um sujeito perdulário desse, hem? Chararau, veio desgraça pro compadre e, evidentemente, que os achegados tinham outros planos e não contavam com uma moleza dessas, azar o dele, fica para trás. Mas onde come um, comem todos; na hora da requesta: De que lado você está mesmo, hem? Um pé de peru sempre alivia a cizânia: Olhe aqui que eu trouxe procê, tá vendo? Gostou? Isso é só pros do coração, viu? E quando a coisa entorta: Basta seguir o que digo que haverá solução para tudo, hem hem. Em cima da cartilha a lição pra qualquer disputa. Na cisão, o escárnio: Um ou outro aqui que vivem; a maioria, só existe mesmo, figurantes, caboetas. De qualquer forma tem algo errado, tem de ter. Há quem diga: Quem me dera, daria qualquer real para viver em paz, e toca fogo no primeiro boato que ouve. Assim caminha a comunidade: feliz e risonha entre vamos juntos e cada um por si, pendengas e rasga-boca, insultos e palminhas nas costas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo, como tendência a fazer ver (por diferentes mediações especializadas) o mundo que já não se pode tocar diretamente, serve-se da visão como um sentido privilegiado da pessoa humana – o que em outras épocas fora o tato; o sentido mais abstrato, e mais sujeito à mistificação, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual [...] O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por “coisas supra-sensíveis embora sensíveis”, se realiza completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência [...] o uso sob sua forma mais pobre (comer, morar) já não existe a não ser aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real da aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas.O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é a sua manifestação geral [...] O espetáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstrato de todas as mercadorias. O dinheiro dominou a sociedade como representação da equivalência geral, isto é, do caráter intercambiável dos bens múltiplos, cujo uso permanecia incomparável. O espetáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, no qual a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco, como uma equivalência geral àquilo que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espetáculo é o dinheiro que apenas se olha, porque nele a totalidade do uso se troca contra a totalidade da representação abstrata. O espetáculo não é apenas o servidor do pseudo-uso, mas já é em si mesmo o pseudo-uso da vida [...]
Trechos extraídos da obra A sociedade do espetáculo (Contraponto, 1997), do escritor e pensador francês Guy Debord (1931-1994), denominando o período atual de sociedade de consumo ostentatório e do espetáculo, por conta da ênfase que o mundo moderno/pós-moderno dá à imagem, provocando um deslizamento do “ter” para o “parecer”, na qual a mercadoria (descartável) consumida tem um lugar preponderante e é exaltada de forma significativa. Acrescenta o autor que a teatralidade é outra característica desse tipo de sociedade, na qual cada membro se insere como um ator na cena social, com grande contribuição da mídia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da poeta, grafiteira e artista Evelin Sin, ou simplesmente Sinhá e também conhecida como Eveline Gomes, é autora dos livros Devolva Meu Lado De Dentro (2012), Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem (2014), Manga Espada (2015) e Fevereiro (2018). Veja mais aquiaqui.

DOSE DUPLA DE POESIA:
DOIS POEMAS DE SELMA RATIS
PERGUNTA – Oh! Mulher o que é isso aí? / - É tudo que você / quiser que seja! / O cálice onde você / bebe e se embriaga / com o vinho / da fantasia. / É a fonte onde / sua imaginação se sacia / é a montanha onde / você sobre até o / cume do prazer! 
BRAGUILHA – Ao ver um homem / em pé, vestido / isolado, semelhante / a uma ilha. / O que me encanta / não é o peito, a barriga. / Não são os sapatos / a combinar com as meias. / O que me atrai e seduz / é o contorno, o desenho / da braguilha.
Poemas recolhidos da obra Falo com flauta & poesia (Babecco, 2012), da poeta Selma Ratis.
DOIS POEMAS DE CONCEIÇÃO RAMOS
PALMARES – Paixão, / história, / memória, / meu chão... / Meu berço, / minh’alma, / meu terço, / minha calma. / Lembranças, / fantasias, / crianças, / poesias. / Meu povo, / minha gente, / meu tesouro, / minha mente. / Razão... minhas dores! / Emoção... Meus amores!
Poema extraído da obra Íntima mente tua (Tarcisio Pereira, 2017).
MULHER – Beleza / cor / sabor / alegria / furor / música / luz / o toque / o tom do batom / e o perfume da flor; / bendita seja a palavra bem dita / na intimidade feminina / pois estará nela / todo o desejo de continuar... / VIVA!
Poema extraído do livro Ver melhor (Tarcisio Pereira, 2018), da professora e poeta Conceição RamosVeja mais aqui
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ELISA LONCÓN, LENA YAU, CASEY MCQUISTON & GERALDO AZEVEDO

  Imagem: acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Occam Ocean (2021), Chry-ptus — Geelriandre (2021), Œuvres électroniques (2018), Naldjorlak...