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quarta-feira, novembro 01, 2023

ADANIA SHIBLI, RIKU ONDA, SARAH HALE, SOCORRO CUNHA & VANISE REZENDE

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Live from Jazz St. Louis (2023) & Live at Cape Cod Jazz Festival (2017), da musicista, compositora, arranjadora e saxofonista Grace Kelly, considerada pela DownBeat – 2016, a Rising Star - Alto Saxophone, ao lançar o álbum Trying to Figure It Out (PAZZ, 2016).

 

A VIDA NA NÓDOA DA PARÁBOLA – O que tivera nada mais que a solidão diuturna, vez ou outra o assalto do inopinado. Nunca neguei um sorriso, mais que hospitaleiro, braços abertos – sobrevivente de enrascadas recorrentes. Não fora diferente outro dia: sempre apostei no melhor, mesmo que tudo desse errado depois. Daquela vez ela chegara tão ádvena quanto insólita. Quem aquela? Retirou seu turbante e pude ver-lhe os olhos vivos inquietos, o indicador entre os lábios carnudos a sussurrar-me misteriosamente Trudi Canavan: Palavras são mais afiadas que espadas. Elas apenas não destroem a mobília... Como? Manteve-se em silêncio ao meu lado ocultando-se dalguma situação. Flagrou-me o cenho cerrado e esclareceu tão sussurrantemente enigmática quanto antes: A verdadeira bondade consiste em lutar contra o mundo inteiro pelo bem dos outros... Cá comigo: desconfiei e quase matei a charada. Ah, não, não podia ser outra, tinha de ser Shen Te, a meretriz premiada pelos deuses como A alma boa de Setsuan do Brecht. Tinha de ser e peguei o fio, passei a checar e aquiesci com um cochicho: Sim? E, da mesma forma, ela começou a se expandir pelos cotovelos: o que seria o nervo de todas as coisas e maldades, para sobreviver alheia em um mundo achatado pelo pastiche e assistindo a passagem do Cometa do Diabo, investigando quem chocava o ovo da serpente, embora não soubesse ao certo qual e como, contudo, só com o estralar da casca e a tragédia já tomava conta - nunca serão mais os mesmos. Claro! Agora são os aloprados que possuem o talento potencializado para a crueldade aos safanões, com seu coração escuro e secreto às risadas esculhambando de vez tudo que nos resta de dignidade ou conquistas – por aí e por todo canto, Congresso Nacional, Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores, Executivo pra cima e pra baixo dos Estados e Municípios, as muitas esferas do Judiciário... Que será de mim, de nós... Tomou fôlego e disse-me Roseanne Barr: Esperar que a vida te trate bem é tolice, assim como esperar que um touro não te atinja porque você é vegetariano... As mulheres são amaldiçoadas e os homens são a prova... E desconversava retomando o assunto, acompanhava as curvas do seu raciocinio e não seria nada fácil. Sabia que o tempo da natureza não batia com o relógio, a competição só favoreceu sempre quem ditou todas as regras escolhendo a seu modo qual meritocracia. E tome e pei, reticências mil! Era eu no clímax da Pirâmide de Freytag, para mim o arco da queda, o fim da picada: como se pulasse do trampolim de qualquer jeito para mergulhar de vez no cúmulo da incerteza. Como sempre me arrebentava no final, era assim tomando pé de que restava só morrer confortável duma hora para outra ou espalhando meus ossos ruas afora, engasgado com as razões das coisas hoje em dia para se estar vivo. Desculpe-me a falha, a vida inteira nunca fui nada, nem pude, escapava e não pedia nada ou tão pouco no apelo mudo. Ela baixou as vistas e me disse Annie Ernaux: Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo. São apenas vividas... E dos seus olhos lacrimejantes as águas do rio me ensinavam a ser sempre humano num mundo tão endurecido. Deu-me uma rosa escarlate e com um sorriso aparentemente sem motivo, fez-se imoderada. Lembrou-me que a maior parte do tempo esquecia de ser outro que não eu mesmo. Houve o que não se contou nem contaria jamais diante da surpresa quase insultante: os meus sonhos todos malograram entre as cinzas do passado às esmolas da generosidade alheia nem tão celerada quanto interesseira - só quebrei a cara um zilhão de vezes com se fosse levado às vassouradas pelo opróbrio. Fiz do que sobrou dos outros como se fossem os meus sonhos e os restituí à vida. Ela, então, solfejou a Cantiga do Fim do Mundo... E não sobrei na curva, mais uma vez sobrevivi, acumulando aprendizado. Até mais ver.

 

ESTÂNCIAS À MEMÓRIA DE L.E.L

Imagem: Acervo ArtLAM.

E você se foi! \ a rosa nupcial \ Fresco em tua cabeça loura; \ Uma terra de cenas novas, selvagens e maravilhosas \ Antes que sua fantasia se espalhe \ Canção em teus lábios. \ -Pode não ser; \ - Mal acredito que você esteja morto! \ "Traga flores, flores claras!" \ -Mas quem para você \ Uma reunião de ofertas pode trazer? \ Que pintam a tua Musa, como Huma brilhante, \ Para sempre na asa? \ Ou pegue os tons que emocionaram a alma, \ Derramado da doce corda da tua Lira? \ Eles dizem que os botões quentes de esperança do seu coração \ Nunca havia sentido uma praga; \ Que no meio de multidões gays, em salões brilhantes, \ Teu passo sempre foi leve, \ Nas reuniões ao redor da lareira social \ Nenhum exibia um sorriso mais brilhante. \ E ainda assim, em teu mundo de música, \ As sombras escuras sempre dormem; \ Os seres formados pela tua imaginação, \ Parecia nascido apenas para chorar, \ - Por que as doces fontes da tua alma derramaram \ Uma maré de tristeza tão profunda? \ A sombra profética foi lançada \ Pela terra sombria de África; \ Que assim a tua fantasia esteja sempre ligada \ O veneno com a flor? \ E no meio dos mais belos caramanchões da felicidade \ Ainda criou o túmulo solitário? \ Em vão procuramos a fonte profunda do Pensamento, \ Seus mistérios ninguém pode contar; \ Só sabemos que os teus sonhos foram tristes, \ E assim aconteceu \ A coroa brilhante desse \ Amor te coroou para a Morte! \ -Destino sombrio - e ainda assim está bem: \ - Sim, tudo bem para você; tua força falhou \ Para suportar a corrente do Exílio, \ O grupo cansado, ansioso e com saudades de casa, \ Isso murcha o coração e o cérebro, \ - E Ele, que moldou o pulso fino da tua alma, \ Por misericórdia poupou a dor. \ E enquanto lamentamos uma Plêiade perdida \ Do céu elevado da Mente, \ Uma lira sem corda, cujos "acordes encantados" \ Tensões respiradas que nunca podem morrer, \ Dá-nos, ó Deus, a fé que vê \ A casa do Espírito nas alturas. \ Doce Menestrel do coração, adeus; \ Quantos sofrem por ti! \ O que os reis nunca poderão comandar é teu, \ Homenagem do amor do Free: \ A terra florida, o céu estrelado, \ A lágrima do enlutado, o suspiro do amante, \ Consagre a tua memória. \ E isso é fama! A gloriosa refeição \ É o teu além da decadência, \ Landon irá enfeitar a tradição do britânico \ Até que a terra passe; \ O que a riqueza da Índia era pobre para comprar \ Ganhou pela postura de uma Mulher!

Poema da escritora estadunidense Sarah Hale (1788-1879). Veja mais aqui.

 

PEQUENO DETALHE - [...] respire fundo. Pois bem, não há como voltar atrás agora, não depois de cruzar tantas fronteiras, militares, geográficas, físicas, psicológicas, mentais. [...] Assim que percebi que inevitavelmente falho sempre que tento navegar nas fronteiras, decidi ficar dentro dos limites da minha casa tanto quanto possível. E como esta casa tem muitas janelas, através das quais os vizinhos e os seus filhos podem facilmente ver-me, e apanhar-me a ultrapassar fronteiras mesmo quando estou na minha própria casa, pendurei as cortinas, embora às vezes me esqueça de as fechar. [...] E, novamente, um grupo de soldados captura uma menina, estupra-a e depois mata-a, vinte e cinco anos antes de eu nascer; este pequeno detalhe, que outros podem não pensar duas vezes, ficará comigo [...] O homem, e não o tanque, prevalecerá. [...] As fronteiras impostas entre as coisas aqui são muitas. É preciso prestar atenção a eles e navegar por eles, o que, em última análise, protege a todos de consequências perigosas. [...] há quem considere esta forma de ver, ou seja, focar atentamente nos mínimos detalhes, como o pó na secretária ou a merda de mosca num quadro, como a única forma de chegar à verdade e à prova definitiva da sua existência. [...] A solidão perdoa tanto as fronteiras invadidas [...]. Trechos extraídos da obra Minor Detail (New Directions Publishing, 2020), da escritora e ensaísta palestina Adania Shibli.

 

OS ASSASSINOS - [...] Há um velho ditado que diz que quando um idoso morre, uma biblioteca desaparece. [...] Acredito que existem dois tipos de pessoas neste mundo: aquelas que frequentam livrarias e aquelas que não o fazem. [...] Sinto-me seguro de que o mundo está cheio de livros que as pessoas leem constantemente. Não importa quanta informação esteja disponível, ou quão fácil seja obtê-la, quando tudo estiver dito e feito, os livros só podem ser lidos se você os ler, linha por linha, página por página. [...] O medo é um tempero que dá credibilidade. A quantidade certa espalhada em qualquer história a torna plausível. [...]. Trechos extraídos da obra ‎The Aosawa Murders (Bitter Lemon, 2020), da premiada escritora japonesa Riku Onda.

 

A ENTREVISTA COM A ARTE DE SOCORRO CUNHA

Tenho participado de momentos marcantes para mim, com o desenvolvimento deste trabalho...

Entrevista com a escritora, pedagoga, contadora de histórias e compositora Socorro Cunha. Veja aqui.

&

AFAGOS DA TERNURA

[...] Queremos cuidar da Mãe Terra que nos surpreende em cada estação, e aprender a lição das águas que se renovam na passagem dos rios e nas ondas do mar. Somos gratos à vida que muito nos tem presenteado... [...].

Trecho extraído da obra Afagos de Ternura (Autora, 2023), da escritora e blogueira graduada em Comunicação Social e Jornalismo, Vanise Rezende. Veja mais aqui.

 



domingo, junho 12, 2022

MARIAMA BÂ, BORIS VIAN, LAURA RIDING, PEPETELA & JOSÉ BARBOSA

 

 

TRÍPTICO DQP: Viver arte... - Ao som da obra musical do compositor, regente, poeta e artista plástico Jorge Antunes. - Sou um grito noite afora, as luzes distantes da cidade alheia, inaudito sonho de contar nos dedos quantos dias eu teria a cada passo: pedras e charco. Não saberia dizer das horas e medições, talvez lembranças ateias que se esvaíssem entre os tremores indizíveis e sem alarde aparente. Do nada aparecesse Gianni Vattimo na minha desolação: ...significa que hoje temos laços comunitários menos fortes, enraizamentos menos profundos na família e com a comunidade do território, não acreditamos mais na raça... Dele tive então a ciência de que o frio ameaçava chover e quantos desapareceram nas emboscadas amazônicas pela violência armada, pela fome endêmica, pelo tráfico de tudo, pela omissão nos casos de coronavírus ou da varíola dos macacos e de outras sequer inimagináveis na nossa desgraça. Procuro inutilmente pelos imprescindíveis de Brecht. Todos dormem porque não ouviram Boris Vian: O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado. E quantos não trocam os pés pelas mãos, sem saber qual direção. Não tenho mais que esperança de um dia ensolarado, um dia sei lá, do inexistente à criação e o existir, o que se realiza na outridade. A vida assim é bem melhor... Acho...

 


Meia Noite... – Imagem: A ideia de tudo de todos num sentido só, do escultor, pintor, ilustrador, gravador e entalhador José Barbosa. - Os ponteiros se encontraram, perdi o relógio e todas as certezas, sou só desencontro: ângulos desfeitos na quase nenhuma surpresa da esquina. A vida pelas paralelas e transversais, resta o quase silêncio dos barulhos noturnos que se misturam e quase nem ouço Pepetela avisando: Todos devemos ter percepção das nossas responsabilidades. Não se deve morder a mão que nos dá a comida. É isso o amor. Manter a ternura pelo mesmo homem, embora se deseje outros a momentos diferentes. Se é tudo tão incerto, o que seria de mim não fosse acertar, pelo menos uma vezinha que fosse, depois de tantos erros recorrentes. Quase não lembro nada vezes nada, fizesse o contrário seria celeuma na alma. Daria o céu fosse diferente, haveria o que fazer não fossem as errâncias quase insuplantáveis.

 


Dez para as cinco... – Imagem da artista visual argentina Ornela Spadaro. - Os raios do dia no horizonte e minha cabeça é dela, Olympia de Manet que eu queria levar para o almoço na relva. Só de lembrá-la meu sexo se insinua: dos seus lábios sedentos entreabertos para se aninhar em mim recém-amanhecida, sua nudez inteira e tão descalça quanto servil no gozo da paixão... E depois do amor ela sussurrava um verso de Laura Riding: Não ultrapasse, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê... E mais queria que eu usurpasse seus limites escancarados, não precisava mentir Victorine Meurent nua na pose dos meus desejos, e por que não dizer a verdade das tantas vezes que se passou pela Vênus de Urbino do Ticiano ao meu lado por dias perdidos, para quê esconder sobre quantas vezes não foi a Vênus adormecida de Giorgione nos braços da minha insônia e quantas vezes não foi todas elas da Crônica de amor por ela na minha vida mais que erradia. A memória é pouca para tantos momentos que nela estive em claroscuros de entregas. Se faltam cinco pras nove ou seis pras dez, tanto faz, é o que menos importa agora depois de tantos anos ao deus dará. Ela deveria saber o quanto eu estava perdido no labirinto sem saber que saída ou qual entrada, só sei que fui devorado porque decifrei. Agora nenhum olhar, nem afago das mãos que me buscavam pelos lençóis de nuvens nos cenários dos prazeres – com ela qualquer lugar era paraíso. Hoje o olhar dela e o meu destino, o que se evita ou já é tarde demais, e se retomo parece que passou, porque não sou mais que uma paisagem desbotada e esquecida nos quadrões do passado, nem quisera. Ah, até mais ver.

 

Deformar uma alma é tão sacrilégio quanto matar. Os professores - tanto do jardim de infância quanto da universidade - formam um nobre exército de façanhas diárias, nunca cantadas, nunca decoradas...

Pensamento da escritora senegalesa Mariama Bâ (1929-1981). Imagem da artista visual francesa Claire Gaudriot. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, outubro 25, 2020

MAYA ANGELOU, HENRY FLYNT, JUNG, DARCY RIBEIRO, MILTON NASCIMENTO, ALEXA MEADE & AGUINALDO BATISTA

 

TRÍPTICO DQC: PAIVRAS PALANÉIS - (ouvindo Yanamâmis e nós – Pacto de vida, de Milton Nascimento & Fernando Brant) - Depois de me desconstruir e às avessas de pisar e voar, doer errático pelos devires e pelos degraus da caosmose de Guattari, me vi só anti-édipo pelo rizoma & mil platôs. Foi maior a porrada: está muito difícil de respirar! Sim, porque não sou atleta do Estado e percebi o quão difícil é a convivência com o desgoverno do Fecamepa, a sindemia letal, a liquidez de Bauman, os delírios da hiperpolítica sacada por Sloterdijk – estamos todos no mesmo barco e parque dos horrores! - & o deserto do real denunciado por Zizek. Pelo que vejo e intuo, só a festa da morte nas platitudes dos cirurgiões magiares e mediocrização das campanhas políticas; no paroxismo delirante da gança e consumo na oferta e demanda; e na catatonia diante da lumeeira das desgraças. É tudo muito lúgubre, infelizmente, e na maior das ostentações, tagatés e celebrações. Vivo ou morto, tanto faz, apenas um dado estatístico para satisfazer o interesse daquele ou daquela irreconhecível. Ao abrir a porta o abismo e uma chuva de cinzas a cobrir o céu e a Terra. Ouvi Jung na sacada: Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. Sequer havia um mínimo sinal de luz lá longe depois do fim do túnel. Nada. Não sei pronde vou, sei que voo.

 


SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA – Curtindo You Are My Everlovin/Celestial Power (Recorded/LLC, 1986), do filósofo, músico, escritor, ativista e artista estadunidense Henry Flynt, associado à vanguarda de Nova York dos anos 1960 - À minha porta, um sujeito. Bate palma insistentemente. Cortez, atendo. Não conseguia entender o que solicitava, só gesto com mão pronunciando: Schilda! Schilda! Hospitaleiro como sempre fui, puxei pelo muque do estranho e o levei até a casa do poliglota erudito e autodenominado patafísico, doutor Zé Gulu. Socorra-me! Acho que é um caso parecido com aquele do javanês de Lima Barreto. Sim? E ouviu atentamente o cidadão que o apresentei. Ah, tá. Entendeu? Sim. Ele é schildbürger! Que droga é nove? Nascido em Schilda. Fodeu. Existe? Sim. Veja nesse livro aqui: Die Schildbürger (Dressler Verlag, 2000), do escritor, jornalista, cabaretista e roteirista alemão Erich Kästner (1899-1974), em que eles montaram um plano: estadistas e filósofos escolheram esse lugar para morar e, pouco a pouco, uma geração inteira de sábios reuniu-se. Sim, e? Reis e príncipes de outros países logo julgaram uma honra convidar um desses sábios para suas cortes, nomeando-o ministro e conselheiro pessoal. E daí? Quando restou apenas um homem adulto, as mulheres lançaram um ultimato: se seus maridos não voltassem, elas procurariam outros para substituí-los. Como é? A fim de servir a seus interesses sem ofender seus poderosos senhores, montaram um plano: começaram a se comportar de forma tão estúpida que os reis não os desejariam de volta. Lascou! Para ter uma ideia do problema, ouça, veja: A sala do conselho é o testemunho concreto do sucesso dessa política: um prédio longo e quadrado, sem a menor janela. Oxe! E como se reuniam? Na escuridão. Pronto, agora deu. Veja mais: Infelizmente, parece que a estupidez fingida dos pais se tornou efetiva em seus descendentes. Mesmo, como assim? Veja o que a principal autoridade da cidade fez: Encarcerou todos os habitantes do sexo masculino. Aí já é demais! Quando uma carta o acusou de liderar os republicanos, ele prendeu-se a si mesmo. Sem ninguém para fazer justiça, os schildbürher mofaram na prisão. Vôte! Pois é: Depois de algum tempo, no entanto, se deram conta do absurdo da situação, fugiram da prisão, anularam a antiga Constituição e proclamaram a república. Hoje é uma cidade-república com atmosfera de bonomia pequeno-burguesa, de semiconhecimento e bufonaria reinante. Ave! Nas escolas, somente pessoas ignorantes têm permissão para lecionar, na esperança de que aprenderão alguma coisa sobre as matérias que ensinam. Enquanto isso, inculca-se nos estudantes uma desconfiança total em todo o conhecimento, o que reforça a autoconfiança... Ora, isso é o Fecamepa! Aí ele olhou-me profundamente e citou Darcy Ribeiro: O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada. Ora, ora. Seremos sempre os últimos! Nesse caso, quem copia quem? Isto é Brasilsilsilsilsil!!!!

 


DAS DORES, ELA NOITES & DIAS – Imagem: arte da artista estadunidense Alexa Meade - Ao regressar ela explorou os cantos como se repassasse texto de memória sobre o passeio por Paris e Berlim, cenas de Brecht e Molière narrando imagens da mitologia grega, a se ajoelhar como aprisionada às dores do pau de arara. Ergueu as mãos à cabeça como quem vitimada da coroa de cristo esmagando seus miolos. Sentou-se como quem expõe a hemorragia dos espancamentos na cadeira do dragão e três dias de choques elétricos na língua, seios e vagina na sessão torturante da Casa da Morte. Fitou-me severa e veio: Sou Heleny. Sim, sou Heleny Guariba (1941-1971), aquela que sucumbiu com Marilena, Helena, Labibe, Alceri, todas sou eu solidária na dor de morrer nos porões da História. Deu-me as costas e antes de sair olhou-me mais uma vez e recitou Maya Angelou: Você pode encontrar muitas derrotas, mas você não pode se deixar derrotar. Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude a sua atitude. Não reclame. O sucesso é gostar de si mesmo, gostar do que faz e gostar de como fazê-lo. Mandou-me um beijo e se foi com um aceno triste. Guardei sua imagem de atriz e brinquei de imaginá-la comigo na viagem por palcos inenarráveis. Até mais ver.

  

AZARILDO & O XOTE ECOLÓGICO DE AGUINALDO BATISTA

Não posso respirar, não posso mais nadar. A terra está morrendo, não dá mais pra plantar. E se plantar não nasce, se nascer não dá. Até pinga da boa é difícil de encontrar. Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe, que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu. Nem o Chico Mendes sobreviveu.

Xote ecológico, música de Luiz Gonzaga em parceria com o compositor, radialista, humorista e ator Aguinaldo Batista (1930-1980), criador do afamado personagem Azarildo que atuou nas tevês Tupi, Excelsior e Record. Trabalhou na Rádio Tamandaré e Clube de Pernambuco, além de atuar nos filmes A compadecida (1969), A vingança dos 12 (1970), Terra sem Deus (1963) e A pele do bicho – amor e traição (1974). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

 


segunda-feira, fevereiro 10, 2020

BRECHT, CAROLINA NABUCO, OSAMU OBI, ANA DE OLIVEIRA & SÉRGIO FERRAZ, NATHALIA LIMA & TUNAI


PARA NÃO PERDER A VIAGEM, VAMOS DE 3 EM 1 – UMA: OS LIVROS SOB A CENSURA & O LIXO – Isto é o Brasilzilzilzilzil do Coisonário. Pois é, a coisa pegou! É a farra dos necrófagos bibliófobos! O caso da proibição de obras imortais da Literatura pelo governo de Rondônia, apenas acrescenta a extensa lista de casos semelhantes que tratei aqui. O mais escandaloso de todos ocorreu em Palmares – PE, pelo de fato de uma escola jogar a biblioteca inteirinha no lixo. A calamidade grassa! DUAS: POR QUE SÓCRATES ESCOLHEU A CICUTA? – Possuidor que era da humildade dos sábios, ele andava descalço – o que era um escândalo risível na Antiga Grécia -, professando ideias paradoxais, pelas quais foi acusado de perverter a juventude. A segunda: ele casou-se com Xântipe, tida como “a pessoa mais difícil de se relacionar de todas as mulheres que existem”, tendo, inclusive, um dia, por ocasião de seu retorno à casa, ser por ela excomungado com um balde de dejetos das necessidades da noite passada e, depois, trancar-lhe a porta, impedindo-o de entrar. Assim, ao invés de se retratar e conviver com uma megera insuportável, preferiu a cicuta e tornar-se exemplo para a posteridade. Veja mais aqui, aqui & aqui. TRÊS: A SACADA DE VIRGINIA LANE – Mulher resolvida é outra coisa! A atriz e uma das mais importantes vedetes do teatro e do cinema brasileira, Virginia Lane (1920-2014), marcou o imaginário popular com seu carisma, talento e beleza. Teve uma trajetória de mais de 6 décadas de carreira, atuanto em 37 filmes e muitos espetáculos, sendo uma das mais cortejadas mulheres do país. Sobre o que ela mais fez na vida, respondeu: “Muita natação e — não posso negar — abri e fechei essas pernas demais. É ótimo exercício”. Esse um ótimo conselho para a ministra queijuda – aquela mesma que Jesuisis deixou atrepada na goiabeira - e seus seguidores de azul&rosa, que prega a abstinência para combater a pedofilia (sic)!?! Eu, hem? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Sentia-se realmente desligada do mundo, e de tudo a que a inimiga ainda dava importância, e a que ela já dera muita também. Repudiava agora aquilo a que antes dava valor. Dessa vida que ardera e já passara, não via mais senão as cinzas, que restavam do fulgor, e que se estendiam diante dela, sem nenhum traçado, submergindo o que fora seu universo. Mas via, pela janela, que o dia estava claro e bonito... [...]. Trecho extraído da obra Chama e cinzas (José Olympio, 1947), da escritora Carolina Nabuco (1890-1981), retratando a posição da mulher burguesa dos anos 1950, os valores e os tabus que orientavam o lugar social da mulher e a nova voz feminina que parece emergir desse contexto. Em outra obra sua, Meu livro de cozinha (Nova Fronteira, 2002), ela expressa que: [...] Aos cinco anos começou a deliciosa aventura de estudar com minha mãe. Ganhei uma carteira de colegial para meu tamanho, mas em cujo banco cabíamos as duas. Lembro-me (como se fosse hoje) da emoção que me assaltou no dia em que, tendo mais ou menos aprendido o alfabeto, eu descobri subitamente como se fazia a fusão das letras e exclamei exultante: – Ah! É assim? Então eu sei ler! Eu tinha verdadeira avidez de aprender tudo o que me quisessem ensinar. Minha mãe familiarizou-me cedo com o francês, que era para ela uma segunda língua materna. Abriu-se com isso, para mim, o acesso à delícia dos livros da condessa de Ségur, hoje quase todos traduzidos, mas que naquele tempo só existiam nas edições de capa de percalina vermelha da série da Bibliothèque Rose. As lições de mamãe corroboravam minha ansiedade em entender as histórias do livro, que eu manuseava com delícia antecipada aplicando-me em adivinhar o sentido [...].

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS - Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos. Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações. Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens. Extraído da obra Se os tubarões fossem homens (Olho de Vidro, 2018), do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), reunindo fábulas modernas com pitadas de ironia e irreverência sobre a organização social do mundo, os valores éticos e as relações de poder. Para ele, pensar é um dos maiores prazeres do bicho-homem. Veja mais aqui.

CARTAS DE AMOR & OUTRAS HISTÓRIAS
Curtindo o álbum Cartas de amor e outras histórias (Independente-Tratore, 2019), do duo formado pela violinista Ana de Oliveira e o compositor, violonista e multi-instrumentista Sérgio Ferraz, com composições de Egberto Gismonti e do Sérgio Ferraz.
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ETERNAMENTE
Só mesmo o tempo / Pode revelar o lado oculto das paixões / O que se foi / E o que não passará / Inesquecíveis sensações / Que sempre vão ficar / Pra nos fazer lembrar / Dos sonhos, beijos / Tantos momentos bons / Só mesmo o tempo / Vai poder provar / A eternidade das canções / A nossa música está no ar / Emocionando os corações / Pois tudo que é amor / Parece com você / Pense, lembre / Nunca vou te esquecer / Vou ter sempre você comigo / Nosso amor eu canto e cantarei / Você é tudo que eu amei na vida / Nunca vou te esquecer.
Eternamente, uma parceria musical de Liliane, Sergio Natureza e o inesquecível Tunai (1950-2020). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual japonês Osamu Obi. Veja mais aqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A premiada química Nathália Lima, doutora em Química pela Universidade Federal de Pernambuco (2015), que atua na área de Química Teórica/Computacional e Química Inorgânica Experimental, com ênfase em compostos de coordenação e em complexos de ligação de hidrogênio, com publicações independentes em revistas de circulação internacional e laureada, em 2018), com o prêmio "Para Mulheres na Ciência (For Women in Science)" concedido pela L'Oréal, UNESCO e Academia Brasileira de Ciências.
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O livro Maconha (EDM, 1947 ), do escritor, teatrólogo e jornalista Silvino Lopes (1982-1951) aqui.
A pintura de Gabriel Petribú aqui.
O Dicionário Poético Militante (NEP/MMM, 2018), do poeta e jornalista Marcelo Mário de Melo aqui.
Lendas, crendices e abusões: alegoria e história em O Cara de Fogo, de Jayme Griz, em artigo de Ivson Bruno da Silva aqui.
A a música do cantor e compositor Lucas Kallango aqui.
A arte de Airô Barros aqui.
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O município de Tacaimbó aqui & aqui.


quinta-feira, abril 05, 2018

BRECHT, MUSSET, BJÖRSON, LEONOR FINI, JURANDIR FREIRE COSTA, RAUL MASCARENHAS & LUCIANA MELLO

OS HOMENS OCOS – Imagem: Portrait of Stanislao Lepri, da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). - Marcelino Silva é professor, ele e a esposa. Ambos trabalham três expedientes, três filhos: dois universitários e uma quase adolescente na escola. No lar, uma meia água própria, a austeridade de nenhum luxo: nada de tevê, micro-ondas, coisas simples, preferiu investir na educação dos filhos e numa biblioteca particular: qual mundo pros filhos, que filhos pro mundo, refletia. Afora móveis e utensílios comuns, apenas dois computadores com acesso a internet: evitavam uma casa emburrecedora, maior bagunça. Na garagem, um Corcel 73 conservado, podia ter aproveitado a onda Lula e ter adquirido um veículo zero quilômetro, temia endividamento: Vida de professor nunca se sabe. Aos finais de semana reunia os filhos e suas namoradas, a esposa e a filha para sábado de manhã debater sobre cidadania prática e participação social; de tarde, impressões numa roda de leitura: escolhiam um autor para todos lerem durante a semana e questionarem as obras; de noite, sala de cinema com apreciação de filmes de determinado diretor escolhido; domingo de manhã: audição musical; de tarde, questões polemizadas da vida e do ser humano à luz filosófica e científica; de noite, agenda da semana com campeonato de xadrez. Naquela tarde, havia almoçado em casa e guiava o seu Corcel 73 pra dar aula, quando, de repente, um estibado se intrometeu num tranca com seu BMW. No susto deu uma freada que triscou no para-choque do carrão. Respirou fundo e arregalou os olhos ao ver descer do veículo estacionado na frente, o filho do prefeito e agropecuarista Elesbão Torreta, o Brothão, aquele mesmo impune que descascou a doce Melzinha. O sujeito foi até a traseira do seu possante veículo, conferiu, alisou e voltou-se furioso contra o de Marcelino, dando um murro de entrar a mão com soco inglês para-lama motor adentro. Esmurrou a porta amassando quase toda lataria do seu veículo ao arrodeá-lo. Berrou pra ele que, providente, levantou o vidro da porta lateral, recebendo um soco de arrebentar tudo e alcançá-lo pela beca, puxado pela goela porta afora, ser quase estrangulado, balançando no ar: Você é um demônio aloprado, cara! Não vale a porca de um parafuso do meu carro! Ainda bem que só triscou no friso, senão ia morrer de bofete na cara, tá entendendo, diabo? Você só vale essa borreia! E sacudiu-lo por cima de cair do outro lado na calçada. A cidade em peso silente presenciando tudo. Brothão mais invocado que antes, lançou um urro para todos e saiu enraivecido, cantando pneus rua afora. Foi aí que o povo foi ajudá-lo a se erguer, de quase não ficar em pé de tanta tremedeira. Demorou para acertar a chave na ignição, conseguiu insistentemente que o motor pegasse, engatou primeira e nela foi até a escola. Estacionou ainda passado, foi pra sala de aula, nenhum aluno; dirigiu-se ao banheiro e diante do espelho não era sua face que refletia: era o Brando do Apocalipse de Coppola, recitando Eliot: Nós somos os homens ocos / Os homens empalhados / Uns nos outros amparados / O elmo cheio de nada. Ai de nós! (Baseado no incidente-relato do poeta e professor Marcelo Coutinho: A alucinação é crescente no país que nasci. No caminho para a Universidade sou bruscamente fechado por uma destas motocicletas BMW. Por pouco não houve uma colisão. O motoqueiro rico se colocou ao meu lado e bradou sem parar, salivando sob o capacete: "tu és o demônio!", "tem a cara do demônio!" "é barba de demônio!". Enquanto os alunos não chegavam, fui ao banheiro e me olhei no espelho. Continuo achando minha barba elegante. Seria eu a delirar? Ou seria o país que delira e espuma de raiva de si mesmo?). Minha solidariedade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do saxofonista e flautista Raul Mascarenhas: Sabor carioca, Búzios Live & Lilibye blues; da cantora e compositor Luciana Mello: Ao vivo, Nêga & Na luz do samba; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA –[...] Nós vos pedimos com insistência: Nunca digam - Isso é natural! Diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que corre o sangue, em que o arbitrário tem força de lei, em que a humanidade se desumaniza, não digam nunca: Isso é natural, a fim de que nada passe por imutável. Sob o familiar, descubram o insólito. Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável. Que tudo que seja dito ser habitual, cause inquietação. Na regra é preciso descobrir o abuso, e sempre que o abuso for encontrado, é preciso encontrar o remédio. Pensamento do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Veja mais aqui.

BRASILEIRO CONDENA BRASILEIRO – [...] Nossa tradição cultural, por diversas razões, criou um ideal de cidadania política sem vínculos com a efetiva vida social dos brasileiros. Na teoria aprendemos que devemos ser cidadãos; na prática, que não é possível, nem desejável, comportarmo-nos como cidadãos. A face política do modelo de identidade nacional é permanentemente corroída pelo desrespeito aos nossos ideais de conduta. [...] o brasileiro vem sendo coagido a reagir de duas maneiras. Na primeira, com apatia e desesperança. É o caso dos que continuam acreditando nos valores ideais da cultura e não querem converter-se ao cinismo das classes dominantes e de seus seguidores. [...] Na segunda maneira, a mais nociva, o indivíduo adere à ética da sobrevivência ou à lei do vale-tudo: pensa escapar à delinqüência, tornando-se delinquente. Nos dois casos, perde-se confiança na ideia de justiça, legalidade e interesse comum. É o primeiro passo para o império do banditismo – o modo de convívio social em que a lei se confunde com o interesse de um indivíduo ou de um grupo e a força substitui o diálogo. No banditismo, as leis dão lugar ao mercado da violência, que tende à expansão ilimitada. Numa sociedade regida pela moral da delinqüência, a cada dia se inventam novas formas de transgressão e de desmoralização das leis e novas formas de submissão dos mais fracos aos mais fortes [...]. Trechos extraídos de O brasileiro condena o brasileiro (Superinteressante, 1991), do psicanalista e professor Jurandir Freire Costa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ALÉM DAS FORÇAS - [...] BRATT – Ah, tenham confiança meus amigos, estamos atingindo o fim. Mas, principalmente, nada de discórdias, nada de lutas, e saibam sacrificar ao interesse comum os seus rancores pessoais. Uma vez senhores de vocês mesmos, logo o serão dos outros! Ah, pensem então, se realmente for a nossa geração, se realmente formos nós a fazer subir todas as gerações futuras do fundo das sombras e do sofrimento para o pleno sol da vida (Emoção geral, Bratt esconde a cabeça entre as mãos. Silêncio. Depois de uma pausa). Agora, vamos ao escritório da greve; a caixa está pronta para pagar... (Sinais de alegria). E quando tiverem recebido seus socorros, não se esqueçam de ir votar na eleição dos delegados que devem falar a Holger. Pois vocês sabem que é hoje que eles devem levar-lhe nossa resposta (Aprovação geral. Vários se encaminham em direção a Bratt e lhe apertam a mão. Depois, sobem novamente, conversando, e desaparecem). [...]. Trecho extraído da peça teatral Além das forças (Delta, 1962), do escritor norueguês Björnstjerne Björson (1832-1910), Prêmio Nobel de Literatura em 1903.

VÉSPER – Pálida estrela da tarde, / por céus longínquos perdida, / cuja fronte rasga os véus, / dize, - que avista no prado / teu vago olhar sonolento, / caindo do firmamento, / - dos paços azuis dos céus? / Calmou-se tormenta e vento; / e a floresta murmurante / derrama orvalho corante / nas plantas murchas do chão; / louros insetos ligeiros / pelas floridas campinas, / dentre as moitas de boninas, / rutilam na escuridão. / Que vês na terra dormente?... / Mas já por trás das montanhas / vejo a luz de que te banhas / docemente vacilar, / enquanto, ó pálida amiga, / tu foges na etérea plaga, / nela, sorrindo, se apaga / teu melancólico olhar. / Formosa estrela que desces / por sobre a verde colina, / da noite no manto frio, / alvo do olhar da pastora / que vem da serra cantando / enquanto a segue badalando / seu nédio armento tardio. / Ah! Por essa noite imensa, / que busca a luz feiticeira? / - Fresco leito, d’água à beira, / onde te possas dormir? / - Ou nas horas de silêncio / no vasto seio dos mares, / - Pérola solta nos ares, / vais de repente cair? / Se deves morrer tão cedo... / se hão de afundar-se nos mares / teus merencóreos luares / e os louros cabelos teus, / astros do amor, ah! Detêm-te! / Teu curso leve suspende, / no azul do espaço te prende! / Não desças nunca dos céus! Poema do poeta, novelista e dramaturgo francês Alfred Musset (1810-1857). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996).
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O que parecia ser não é mais porque nunca foi ou deixou de ser, A lenda da mandioca, a música de Paula Cole, a escultura de Butch Charlan & Giovanni Duprè, a fotografia de Damir Simic, a arte de John Jinks & Edna Fialho aqui.
 

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...