quarta-feira, janeiro 10, 2018

OSMAN LINS, DELEUZE, WACQUANT, ELINOR WYLIE, TULIPA RUIZ, LUCAS KALLANGO, EDUARDO CHILIDA & ZAQUEU.

O PROFETA ZAQUEU – Imagem: Collage Rug for Nanimarquina, do escultor e gravurista espanhol Eduardo Chilida (1924-2002). - Zaqueu saiu da Bíblia pra reaparecer tomando Da água milagrosa do Cocão do Padre. Ao bebê-la parece que aluou, ou sei lá, danou-se a vaticinar. Saiu dali gritando: Jericó, Jericó! Isso aqui vai virar um quiprocó! Vestiu uma túnica de pano de saco com uma corda amarrada na cintura e saiu segurando um cajado de cabo de vassoura – que servia tanto para exortação, como para lascar no quengo de quem aparecesse -, a falar numa língua estranha, coisas de ninguém entender. É que ele falava, soluçava, peidava e arrotava, quase se cagava todo engasgado, tudo ao mesmo tempo, não havia como destrinchar aquilo. Foi aí que alguém gritou: Pinguço! Ele ficou irado. Pirado! Foi pior, ele começou a esbravejar coisas desconhecidas e sempre soluçando, pedidando, arrotando, quase se cagando de engasgado. Foi preciso um mudo aguçar o ouvido para prestar atenção. O mudo falou pro fanho, que falou pro gago, que passou pro tato e, enfim, só se soube de toda frase da expressão dele de chamar todos os presentes de criaturas mesquinhas. Como é? Esse cara tá doido, meu! Tá nada, tá é biritado, ora! E ele lá aos peidos e engasgos, sem ninguém saber nada do que ele queria dizer. Daí apareceu um compadre dele, achegado de tempos, deu-lhe uns tabefes nas costas e ele desentalou: Gente pecadora de Jericó, vocês não deram certo, a humanidade não deu certo, Deus vai castigar essa gente fracassada, cristuras rastejantes da miséria! De novo ele se entalou, falava, soluçava, peidava e arrotava, quase de cagar entalado pelos engasgos. De novo, bufe-bufe nas costas dele, e soltou a falação: Não haverá sobrevivente! Hummmm. Parece que agora ele pegou no tranco e começou a repetir Ah, Jericó! Prepara-te pro pior! Passase quem fosse e ele gritava: Jericó, Jericó, vocês vão todos tomar no fiofó! E foi jutando gente intrigada com o seu vocativo: Já fui um publicano muito rico, cobrei muitos impostos! Todos me invejavam e caluniavam. Êêêêêê! A populaça parece que entrou na brincadeira, maior festa. Povo pecador de Jericó, ouçam o que tenho a dizer! Saibam vocês que ao me ver no galho da figueira, Jesus me chamou, queria visitar a minha casa. Foi aí que me arrependi de ser corrupto, jurei fazer uma festa para todos e me transformei num homem correto. A partir de então, fui apelidado de Matias e assumi o posto que era de Judas Iscariotes entre os apóstolos, após a ascensão do salvador. Tornei-me o primeiro bispo de Cesareia Marítima, fui canonizado como Santo Amador e sou o fundador do santuário francês de Rocamadour. Em minha honra, os ortodoxos celebram o Domingo de Zaqueu para a Grande Quaresma, sendo a primeira celebração a cada ciclo pascoal. Êêêêêêê! U-hu! Aprendi a não desistir, a manter a humildade ao reconhecer as minhas falhas, fui salvo e abandonei o pecado vivendo de forma honesta. Êêêê! Hoje vim praqui como profeta, estou aqui nesta terra de Jericó para salvar a todos os desencaminhados em nome de Jesus. Viva Jesus! Viva! Êêêêêê! Jericó, Jericó! Hoje vocês vão ver a força do cipó! Uóuóuó! Isso aqui tudo vai virar o piroró! Uóuóuóuó! Acreditem todos, isso aqui vai ver o maior toró! E a turma caiu no gracejo: Uóuóuóuó! Óóóóóóó! Ele foi perdendo as estribeiras e ameaçou danar o cacete em todo mundo. Eita! Vixe! Danou-se! Parece que ele espritou-se. É nada? O homem parece que pirou mesmo ou está cheio das manguaças. E ele fazia que ia meter o cajado no povo, o povo enfrentava como se fosse pra cima dele e ele corria. Ele retomava o ataque, aprontava o confronto! Ele fez que ia avançar, o povo bateu o pé, ele saiu na maior carreira. E o povo atrás: Pega! Pega! Oxe, subiram ladeira, desceram morro, ele na frente, o povo atrás. Arrodearam tudo e findaram no mesmo lugar de antes, quando ele gritou: Escute bem, povo de Jericó: daquii a pouco as águas vão inundar de não se salvar um! Dito isto, meteu o pé na bunda e sumiu! O povo morria de rir. Daí a pouco, ouviu-se um estrondo pras bandas do Cocão do Padre. Foi água de não acabar mais. A população atrepou-se em cima das casas, outros se penduraram em cima dos morros. Uma avalanche! Maior enxurrada! Nunca se tinha visto uma coisa daquela. Foi uma enchente sem precedentes nos anais de Alagoinhanduba. Gente! A água veio com tanta força que saiu arrancando tudo: poste, calçamento, calçada, o que tivesse pela frente. Quem estava abrigado sobre os telhados teve de dar um jeito de se salvar da destruição, aos pinotes pros montes e montanhas. Foi um Deus nos acuda. Três dias depois as águas baixaram e foi possível ver a tragédia toda. Semanas e meses para reconstruir tudo na maior tristeza. Quase um ano depois, Zaqueu reaparece e na praça central da cidade, subiu num pé de coco e lá de cima: O povo de Jericó aprendeu a lição? Ah, o povo injuriado queria pegá-lo pra malhação do Judas. Foi preciso intervenção da polícia e do corpo de bombeiro pra proteger o rapaz. Lá pras tantas, escapando ileso, perguntei pra Zaqueu: E aí, Zaqueu, e agora? Ué, não posso fazer nada, o povo não aprendeu a lição. Vou-me embora que a próxima será pior. Fui. E desapareceu para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Lucas Kallango: Minha Odisseia, Retorno a Saturno & Dr. Mário; da cantora, compositora e ilustradora Tulipa Ruiz: Efêmera & Tu & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] não há estado democrático que não esteja totalmente comprometido nesta fabricação da miséria humana. [...]. Texto extraído da obra Controle e devir (34, 1992), do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995). Veja mais aqui.

PRISÕES DA MISÉRIA - [...] uma vasta constelação dscursiva de termos e teses vindos dos Estados Unidos sobre o crime, a violência, a justiça, a desigualdade e a responsabilidade – do individuo, da “comunidade”, da coletividade nacional – que pouco a pouco se instram nos debate público europeu e que devem o essencial de seu poder de persuasão à sua onipresença e ao prestigio redescoberto de seus pioneiros na cena internacional [...] apresenta o seguinte paradoxo: pretende remediar com um “menos Estado” policial e penitenciário o “menos Estado” econômico e social que é a própria causa da escalada generalizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países tanto do Primeiro como do Segundo Mundo. [...] aplicada em países ao mesmo tempo atingidos por fortes desigualdades de condições e de oportunidades de vida e desprovidos de tradição democrática [...] a sociedade brasileira continua caracterizada pelas disparidades sociais vertiginosas e pela pobreza de massa que, ao se combinarem, alimentam o crescimento da inexorável da violência criminal. [...] cada um permanece responsável por seus atos. Enquanto aceitarmos desculpas sociológicas e não colocarmos em questão a responsabilidade individual, não resolveremos esses problemas [...] apenas fabricando campos de concentração para pobres. [...] das piores jaulas do Terceiro Mundo, mas levadas a uma escala digna do Primeiro Mundo, por sua dimensão e pela indiferença estudada dos políticos e do público [...]. Trechos extraídos da obra As prisões da miséria (Zahar, 2011), do sociólogo e pesquisador Loïc Wacquant. Veja mais aqui.

GUERRA SEM TESTEMUNHAS – [...] Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destnaram, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados. [...]. Extraído da obra Guerra sem testemunhas (Ática, 1974), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui.

QUE A ESPERANÇA DE PIEDADEQue uma esperança de piedade / não me confunda; imagens tais / como Antílope, águias reais / não são da minha qualidade. / Humano ser, nasci sozinha; / mulher, sou dura de roer. / Tenho espremido pra viver / o suco da pedra mesquinha. / De austeras máscaras de siso / os anos passam um a um / não mereceu meu medo algum / nem um livrou-se do meu riso. Poema da escritora estadunidense Elinor Wylie (1885-1928), famosa por sua beleza e personalidade etérea, como pela melodiosa e sensível poesia.

SEMPRE AMIGOS
O premiado filme The Mighty (Sempre Amigos, 1998), dirigido por Peter Chelsom, é baseado no livro Freak the Mighty, de Rodman Philbrick, conta a história de uma época em que a sociedade possuía ainda mais dificuldades em acolher alunos portadores de deficiência. É a histórias de dois jovem que vivem com os avós e têm dificuldades de aprendizado, desde que testemunharam o assassinato de sua mãe, e, por isso, sofrem bullying dos colegas. Um deles, muito inteligente, é acometido por uma doença que o impede de se locomover. Ao se mudar, encontro um semelhante que se tornam grandes amigos e, juntos, enfrentam o preconceito das pessoas à sua volta.

Veja mais:
O verbo no coração do silêncio, A música de Ástor Piazzolla & Eduardo Isaac, a literatura de Eliane Potiguara, a arte de Steve Hanks & a pintura de Wassily Kandinsky aqui.
É pra ela na Crônica de amor por ela, Heitor Villa-Lobos, Liev Tolstói, Ernesto Sábato, Pablo Neruda, Rosana Lamosa, Délia Maunás, Magali Biff, Aurélio D'Alincourt, Alipio Barrio & Michelle Ramos aqui.
Os clecs de Eno Teodoro Wanke aqui.
A poesia de Bocage aqui.
De golpe em golpe a gente vai aprendendo aqui.
O que sou de praça na graça que é dela aqui.
O que sei de mim é só de você aqui.
Ética e Moral aqui.
A luta pelo direito, de Rudolf Von Ihering aqui.
A saúde da Mulher aqui.
Abuso sexual, Sonhos lúcidos, Antropologia & Psicologia Escolar aqui.
Cândido e o otimismo, de Voltaire aqui.
A liberdade de Spinosa aqui.
Ada Rogato & Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

LUCAS KALLANGO
Recepcionando em Palmares – PE o cantor e compositor Lucas Calango com o cantor e compositor Antonio Ferreira.

A ARTE DE EDUARDO CHILLIDA
A arte do escultor e gravurista espanhol Eduardo Chilida (1924-2002).
 

EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...