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domingo, junho 12, 2022

MARIAMA BÂ, BORIS VIAN, LAURA RIDING, PEPETELA & JOSÉ BARBOSA

 

 

TRÍPTICO DQP: Viver arte... - Ao som da obra musical do compositor, regente, poeta e artista plástico Jorge Antunes. - Sou um grito noite afora, as luzes distantes da cidade alheia, inaudito sonho de contar nos dedos quantos dias eu teria a cada passo: pedras e charco. Não saberia dizer das horas e medições, talvez lembranças ateias que se esvaíssem entre os tremores indizíveis e sem alarde aparente. Do nada aparecesse Gianni Vattimo na minha desolação: ...significa que hoje temos laços comunitários menos fortes, enraizamentos menos profundos na família e com a comunidade do território, não acreditamos mais na raça... Dele tive então a ciência de que o frio ameaçava chover e quantos desapareceram nas emboscadas amazônicas pela violência armada, pela fome endêmica, pelo tráfico de tudo, pela omissão nos casos de coronavírus ou da varíola dos macacos e de outras sequer inimagináveis na nossa desgraça. Procuro inutilmente pelos imprescindíveis de Brecht. Todos dormem porque não ouviram Boris Vian: O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado. E quantos não trocam os pés pelas mãos, sem saber qual direção. Não tenho mais que esperança de um dia ensolarado, um dia sei lá, do inexistente à criação e o existir, o que se realiza na outridade. A vida assim é bem melhor... Acho...

 


Meia Noite... – Imagem: A ideia de tudo de todos num sentido só, do escultor, pintor, ilustrador, gravador e entalhador José Barbosa. - Os ponteiros se encontraram, perdi o relógio e todas as certezas, sou só desencontro: ângulos desfeitos na quase nenhuma surpresa da esquina. A vida pelas paralelas e transversais, resta o quase silêncio dos barulhos noturnos que se misturam e quase nem ouço Pepetela avisando: Todos devemos ter percepção das nossas responsabilidades. Não se deve morder a mão que nos dá a comida. É isso o amor. Manter a ternura pelo mesmo homem, embora se deseje outros a momentos diferentes. Se é tudo tão incerto, o que seria de mim não fosse acertar, pelo menos uma vezinha que fosse, depois de tantos erros recorrentes. Quase não lembro nada vezes nada, fizesse o contrário seria celeuma na alma. Daria o céu fosse diferente, haveria o que fazer não fossem as errâncias quase insuplantáveis.

 


Dez para as cinco... – Imagem da artista visual argentina Ornela Spadaro. - Os raios do dia no horizonte e minha cabeça é dela, Olympia de Manet que eu queria levar para o almoço na relva. Só de lembrá-la meu sexo se insinua: dos seus lábios sedentos entreabertos para se aninhar em mim recém-amanhecida, sua nudez inteira e tão descalça quanto servil no gozo da paixão... E depois do amor ela sussurrava um verso de Laura Riding: Não ultrapasse, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê... E mais queria que eu usurpasse seus limites escancarados, não precisava mentir Victorine Meurent nua na pose dos meus desejos, e por que não dizer a verdade das tantas vezes que se passou pela Vênus de Urbino do Ticiano ao meu lado por dias perdidos, para quê esconder sobre quantas vezes não foi a Vênus adormecida de Giorgione nos braços da minha insônia e quantas vezes não foi todas elas da Crônica de amor por ela na minha vida mais que erradia. A memória é pouca para tantos momentos que nela estive em claroscuros de entregas. Se faltam cinco pras nove ou seis pras dez, tanto faz, é o que menos importa agora depois de tantos anos ao deus dará. Ela deveria saber o quanto eu estava perdido no labirinto sem saber que saída ou qual entrada, só sei que fui devorado porque decifrei. Agora nenhum olhar, nem afago das mãos que me buscavam pelos lençóis de nuvens nos cenários dos prazeres – com ela qualquer lugar era paraíso. Hoje o olhar dela e o meu destino, o que se evita ou já é tarde demais, e se retomo parece que passou, porque não sou mais que uma paisagem desbotada e esquecida nos quadrões do passado, nem quisera. Ah, até mais ver.

 

Deformar uma alma é tão sacrilégio quanto matar. Os professores - tanto do jardim de infância quanto da universidade - formam um nobre exército de façanhas diárias, nunca cantadas, nunca decoradas...

Pensamento da escritora senegalesa Mariama Bâ (1929-1981). Imagem da artista visual francesa Claire Gaudriot. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, outubro 24, 2021

LEYLA PERRONE-MOISÉS, ABDULRAZAK GURNAH, GAVIN BRYARS, HELENO ALFONSO & ROGEL SAMUEL

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre as mutamorfoses e obsolescência... Ao som do album The Fifth Century (ECM, 2016), do compositor ingles Gavin Bryars, com o coral The Crossing & quarteto de saxofones PRISM, condução de Donald Nally. - Onde estou e pronde voo nenhuma liga, o tempo assina outra, como se minhas digitais dissolvessem a cada instante e desexistisse de vez no caos. Quase dou fé de que inexisto mesmo e tudo não passasse de um sonho por outro sonhado. Assim lá vou eu nas experiências alucinatórias do que se pode entender por mundo contemporâneo: o volátil, o volúvel, a interdição, os simulacros, o terror incógnito, consumo e descarte, os equívocos e segredos recônditos, as distorções e os mal-entendidos de mortos-vivos, os pós-o-quê com todos os pós-ismos tudo ou quase tudo só artifício. Meio atordoado no meio disso tudo, eis que o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah alerta ao meu ouvido: Foi assim que pessoas como você e eu conhecemos tanto do mundo: lendo sobre isso de pessoas que nos desprezavam... Às vezes, acho que meu destino é viver nos escombros e na confusão de casas desmoronadas. Concordei com o dito e sua presença, ali mesmo era como se eu estivesse metido em carne viva na real Das Leben auf der Praça Roosevelt, da Dea Loher, e me sentisse em casa no reduto miserável das Marias e o mudo Mundo cantarolando Oh! Vos omnis quitransits per viauatendite; atenditeet videte teunsi est dolorsieut dolor meo, e isso depois de muito presenciar acasalamentos de extraterrestres com as insones transeuntes tontas e a loucura de gente que vive só com a roupa do corpo, no meio dos gestos de Aurora provocando desafios a Bingo, enquanto a mãe amargurada com seu choro insistente pelo policial em coma e a memória do filho morto batendo no submundo a denunciar ali não haver vida, nunca foi, qualquer outra coisa que fagulha no meu peito de indignação. E me veio o professor beninense Olabiyi Babalola Yai para cochichar no desalento da minha dor: Os homens são mais eles mesmos quando vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e viver as dos outros. E naquele estado em que estava jamais poderia concordar com isso, mas o poeta Rogel Samuel me recitou: todo amor é assim, plágio / cópia de cópia de si, no mesmo / sim na sua visibilidade... Quanto mais eu relutava só ouvia a escritora argentina Beatriz Sarlo quase berrando ao meu ouvido: Tem um momento de coincidência entre o que você necessita e o que a vida lhe oferece. Você tem que estar acordado para agarrar essa chance. A coragem aparece quando não há mais solução. Acredito que o crime é igualmente horrível, sejam 10 ou 30 mil... Tento ficar a par de tudo que ocorre no presente - para alguns apenas o futuro do pretérito; outros, só o passado mesmo e de novo -, e posso dizer umas duas ou três coisas outras, não mais que isso, que no meio das mutamorfoses e a obsolescência já sei que não basta apenas dar enter, porque tantos delírios pseudo-intelectuais com suas masturbações e impulsos neognósticos sobrando entre anoréxicos e voyeuristas, craquers, hackers e biomakers na boa, extremófilos e intimistas surfando comigo de mãos dadas com todo mundo pela sci-art e o nano-mundo, atravessando o universo escuro e a extremofilia, teratologias biotecknicas, contatos em níveis nanométricos, territórios do perigo e conflitos, afora polimórficas possibilidades, eita! Ufa! Sei e todos estão carecas de saber que a Terra é redonda e insistem em cagar pelos quatro cantos do mundo. Não sei pra quê tanta lei, apensar da compulsoriedade jamais será cumprida. Por isso chamo de gato ao gato e ao governante de patife, porque estamos na primavera de Ginsberg pelo mote recolhido por Paulo Cavalcante no arremate: De circunlóquios eu nada sei. O caso conto, como o caso foi. Na minha frase de dura lei, o ladrão é ladrão, o boi é boi. E ponto final. Ou melhor, reticências...

 


Pássaro preto, traquinagens da infância... - Imagem: Kein Nachwuchs fir den Champion oder Der Junge der New Jersey erschoB VON Israel Horowitz, in Hörspielle im Westdeustschen Rundfunk 2, Halbjahr 1987. - Era eu apenas um menino da beira do rio, travesso solto na buraqueira, proutras paragens eu ia a me divertir levantando as saias das moças, ou me deitando no chão para ver-lhes as intimidades das calcinhas estufadas, quando não brechando sua nudez pelas fechaduras do quarto ou do banheiro, afora futucar com tudo que me aparecesse pela frente. E meu pai ocupado com as gaiolas da coleção e, entre elas, a da sua estimação: a graúna, o brilho sedoso de sua plumagem negra. Desde que a vi pela primeira vez, sonhei que era a morte, o corvo de Poe que, de repente, se tornara penas brilhantes e com o poder mágico, a me prometer antevisões do futuro, a me aconselhar com orientações para fazer isso ou aquilo e era só sonho. Não só, mesmo. Ao amanhecer, de soslaio, mantinha distância dela, queria aproximação nenhuma. E de tanto temê-la, um dia a soltei aproveitando o descuido paterno. Ela voou longe na fuga, mas retornou e me caçou, pegou-me pelo bico e voamos com a suíte L'Oiseau de feu (1919) de Stravinsky. Foi uma grande viagem e me largou longe, no pico de uma montanha que se transformou num palácio abandonado. Depois, deu-me uma chave para que abrisse a primeira porta: cavalos para minha diversão. Outra chave e no quarto, arreios e selins. Outras mais a cada dia, eram sete: e moças ousadas e sedutoras, mulatinhas safadas a me dengar e eu aos regalos no meio de espadas - Para quê tantas? -, um rio de prata e um rio de ouro. Só não sabia, depois de tudo, do castigo: a graúna vingativa tirou-me a roupa, largou-me no deserto e deu-me uma varinha de condão. Errei sozinho e uma princesa à beira do fogo parecia me esperar, não sabia, mas o pai dela adoeceu e para sua cura só três pássaros de plumas. Usei da varinha: os três pássaros foram encontrados e trazidos a ele que logo se restabeleceu, dando uma festa de três dias, nos quais findei nos braços dela que se deleitava como se fosse a demi-mondaine Méry Laurent – aquela mesma atriz nua Vênus Anadyomene do Théâtre des Variétés, e que fora antes Anne ou Rose ou Suzanne ou mesmo Louviot e que a mãe havia vendido sua virgindade debutante para Canorbert por 500 francos ao mês, afora amantes outros ricaços e da vanguarda francesa, até tornar-se musa da minha paixão Mallarmé no quadro de Manet e Nana de Zola. De repente adúlteros flagrados na noite por minha filha Genevieve, não sabíamos o que fazer, mãos e sexo na botija, completamente desnorteado porque ela se transformara noutra pessoa e o escritor estadunidense Roger Shattuck (1923-2005), me falou de seu Conhecimento proibido (Companhia das Letras, 1998) para me contar que ela era apenas uma senhora vitoriana – na verdade e para meu espanto era a mula sem cabeça -, e relutava agora contra a teoria de Darwin: Descender de macacos! Meu caro, esperamos que não seja verdade, mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!... Não era mais aquela, nunca foi, só pode ser outra. E mais insistia na sua Planolândia, como uma senhora de bem, patriota roxa e acima de todos e quaisquer pecados ou suspeitas, e eu fisgado pela veemência de seus seios fartos no desatento desabotoado de sua blusa justa colada naquela excelsa arquitetura de fêmea e a libido acesa e incontrolável com o lascão da saia exaltando suas coxas volumosas e eu clamando pelo amor de Deus para ela se acalmar e poder reconduzi-la à alcova.

 


Apenas escrevo... Imagem: Comovida medida de distância (1988), da videoartista palestina, Mona Hatoum. - Onde estive já não faz o menor sentido, embora não haja como apagar porque o caos piorou o mundo e persistem as cavilações de nem sei quem, talvez de mim mesmo, outros são os motivos e ignoro por completa ausência de significado. Disparo intuições, uma das pernas dos óculos se quebrou e eu precisava ler e reler, agora apenas esperar com os trechos de um poema do livro Oropa França e Bahia (Edizioni della Meridiana, 2004), do poeta Heleno Alfonso Oliveira (1941-1995) na memória : É ser e remar / Na mesma zoada / Na onda arrastada / Do mar sem raiz. / E Deus não se rima / Bem perto ressoa / Ao centro da alma / Perdida e à toa / Enquanto me vejo / Cantando Marina / Cantando Pessoa / Bem fora do templo... E pelos lapsos do esquecimento, o poema suspenso, só conseguia me lembrar doutra parte: Sem um amparo / Sigo a Sophia. ; Luz de Apolo / Dança de Baco? E uma voz feminina com todo seu perfume aprazível invadiu o ambiente. Quem era? Só muito depois pude ver, era a escritora Leyla Perrone-Moisés: A literatura nasce da literatura. Cada obra nova é continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea... A função revolucionária da literatura não consiste em emitir mensagens revolucionárias, mas em levantar uma dúvida radical sobre o determinismo da história. E mais me falou d’ As Sombras de Olinda (Caminho, 1997), do Clarindo, Clarindo (1990) e do póstumo Se era vera la notte (2003), daquele que um dia dissera: Florença é uma manhã de dezembro / onde cheguei gritando do meu Hades. E já outra, quase irreconhecível camaleoa que sequer adivinhava o nome e propósitos, mas que se fizera mais que felicíssima amante, a me premiar o que da vida mais apetece na festa do seu corpo. Até mais ver.

 

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CANTARAU & OUTRAS POETADAS

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sábado, janeiro 23, 2016

A MULHER NA ANTIGUIDADE, PLANCK, POE, TWAIN, HORN, MANET, GOLEMAN, GLÜCK, ARÓSIO, ALESSANDRA CAVAGNA & MUITO MAIS!!!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NA ANTIGUIDADE – Ao longo desses dez anos de bandeira empunhada na afirmação de que Todo dia é dia da mulher, realizei estudos nas mais diversas publicações de gabarito e que redundaram em pesquisas pelas mais diversas fontes bibliográficas de relevo, possibilitando que se formasse um referencial teórico que permitiu efetuar uma revisão da literatura com abordagem histórica acerca da Trajetória da Mulher na Antiguidade. Essas fontes bibliográficas trouxeram a oportunidade de se ter conhecimento e poder identificar a figura, o papel e a projeção da mulher entre os povos da História Antiga. Entre esses povos, inicialmente pesquisei especificamente sobre os gauleses, assírios, babilônios, celtas, fenícios, sumérios, germanos e vikings. Foi possível registrar entre esses povos o destaque do papel exercido por deusas como Afrodite, Semíramis, Rhianom, Astartéa, Cibele, Freya, Frigga, Ostara, Innana, Nisara, Nungal, Nigirimm entre outras deidades. Também o de figuras representativas e que exerceram papéis sociais e religiosos, como a Nossa Senhora de Babalon e da besta que monta, bem como da Raínha Boudica, entre outras que exerceram poder e mando de forma direta e indireta nas mais diversas localizações geográficas e políticas desse tempo. Foi possível, ainda, identificar no contexto da hierogamia, a representação de mulheres como Lilit, Jezabel, Kun-Bau de Kish, entre profetisas, vestais, volvas, guerreiras, escravas revoltosas, poetas, tocadoras de músicas, sacerdotisas, além de cortesãs e prostitutas que se destacaram no contexto histórico dessa época. A partir disso foi possível começar a delinear uma trajetória entre outros povos do tempo antigo, adentrando pela Idade Média e da Modernidade até os dias atuais. O que se pode registrar dessa inicial abordagem é que mesmo reprimida há milênios pela força e poder do macho e do patriarcalismo, a mulher sempre esteve como figura representativa nas relações sociais e na formação da humanidade (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:

PICADINHO


Imagem: The Surprised Nymph (1859-61), do pintor francês Edouard Manet (1832-1883). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum May The Music Never End (Universal/Verve, 2003) da cantora e pianista estadunidense de jazz e pop Shirley Horn (1934-2005).

EPÍGRAFE – [...] quanto mais você se importa com alguma coisa, mais atenção presta – e quanto mais atenção presta, mais você se importa. A atenção está entrelaçada com o amor. Frase recolhida do livro Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso (Objetiva, 2014), do psicólogo norte-americano, Daniel Goleman. Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUANTUM ELEMENTAR DE AÇÃO – Essa foi a solução encontrada pelo físico alemão e Prêmio Nobel de Física de 1918, Max Planc, ao contestar o principio dominante da irreversibilidade da troca de energia entre um oscilador e a radiação que esse provoca, ao esbarrar nas diferenças causadas pela variedade de extensão das ondas emitidas. Em vista disso, ele apresenta a fórmula denominada de a constante de Planck, introduzindo um elemento de descontinuidade e revolucionando a ciência física. É partir desse caminho que Albert Einstein propõe a teoria da relatividade. Veja mais aqui.

BERENICE – No livro Histórias extraordinárias (Abril, 1978), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840), encontro o conto Berenice do qual destaco o trecho inicial: O infortúnio é múltiplo. A infelicidade, sobre a terra, multiforme. Dominando, como o arco-íris, o amplo horizonte, seus matizes são tão variados com os desse arco e, minando o vasto horizonte como o arco-íris! Como é que pude obter da beleza um tipo de fealdade? Como pude conseguir, do pacto de paz, um símile de tristeza? Mas, como na ética, o mal é uma consequência do bem e, assim, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angustia de hoje, ou as agonias que são têm a sua origem nos êxtases que poderiam ter sido. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O FIO-DA-NAVALHA – Entre os poemas da poeta estadunidense Louise Glück, destaco O fio-da-navalha: Sempre e de novo, sempre e de novo, amarro / meu coração na cabeceira desta cama / enquanto meus gritos costurados no edredom / tornam-se duros contra sua mão. Que ele está chateado... / eu vejo. Não lambo, por acaso, as suas esmolas, / não coloco nágua seus buquês? Sobre a renda da mãe fico espiando / ele babar sobre o bife mal passado, lascas de uma transa / por misericórdia... eu posso sentir suas coxas contra mim / tendo em vista os filhos. Recompensa? / Nas manhãs, frustrada com esta casa, / o vejo torrar sua torrada e provar seu café, / a se esquivar. O resto é o meu primeiro-almoço. Veja mais aqui.

DIÁRIO SECRETO DE ADÃO E EVA – Tive oportunidade de assistir no ano de 2000, no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro, à montagem da peça Diário secreto de Adão e Eva, do escritor e humorista norte-americano Mark Twain (1835 – 1910), numa adaptação e direção de Antonio Ambujamra, de forma satírica e poética, agressiva e pensativa tanto como as histórias de aventuras e parábolas existenciais do autor. O destaque da peça fica por conta da belíssima e talentosa atriz Ana Paula Arósio. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PASSION OF MIND – O filme Passion of Mind (2000), dirigido pelo diretor Alain Berliner, conta a história de uma viúva com duas filhas que sonha com uma agente literária em Manhattan, que, mesmo sendo duas mulheres, parecem iguais, o que vai levar a questionamentos se são as mesmas pessoas, ou seja, uma que viva um duplo papel. O destaque do filme vai para a atriz estadunidense Demi Moore. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do ourives, editor e gravurista alemão Johann Theodor de Bry (1528 – 1598).

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à atriz, poeta, autora teatral e diretora artística Alessandra Cavagna. Veja aqui.

 Veja aqui & aqui.

 Veja as homenageadas aqui.


sexta-feira, janeiro 23, 2015

EYRA HARBAR, ELIZABETH WURTZEL, JEANNE MOREAU, SHERE HITE & MARGARET SANGER

 


A FRANCESA TANTAS MULHERES... – Aquela filha de uma bailarina inglesa e de um barman francês detestava a rotina e estereótipos, uma múltipla mulher: de carne e osso, emoções e profundidade. Passou pela Comédie-Française e pelo Teatro Nacional Popular (TNP) e foi pras telas com beleza personalíssima, de nenhuma perfeição nem hipersensualidade: a medida humana exata – inteligente, sensível, complexa, intuitiva. Foi Florence Carala no Ascenseur pour l'échafaud, foi Jeanne Tournier no Les amants, foi Anne Desbarèdes no Moderato cantábile - baseado no romance homônimo de Marguerite Duras e o prêmio de Cannes. Foi mais: Lidia no La notte, Catherine no Jules et Jim e cantando Le Tourbillon de la vie. Foi a interesseira e sedutora Eva Olivier nas cenas de Losey, foi a criada astuciosa Céléstine no Le journal d'une femme de chambre, foi a escolhida pelo mercador, Virginie Ducrot, no The Immortal Story (1968), baseado no conto de Karen Blixen. Foi a sedutora assassina Julie Kohler no La mariée était en noir, foi Maria no Le jardin qui basculhe, foi a Joana Francesa de Cacá, foi Amande, instrutora de Nikita (1990): As pessoas – e as mulheres em especial – preocupam-se demais com o envelhecimento. Mas nós parecemos mais novos se não nos preocuparmos com ele. Porque para lá da beleza, do sexo, da titilação, da superfície, há um ser humano. E é isso que tem que emergir... Afora ter sido a escritora Marguerite Duras no Cet amour-là e quantas mais foi, afora ter dirigido o semibiográfico drama Lumière. Muitas e ela: Viva a grande atriz e cantora Jeanne Moreau (1928-2017). Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A expressão de nossa sexualidade deve ser guiada por princípios de consenso, respeito e cuidado mútuo. Nenhuma mulher pode se considerar livre se não controlar seu próprio corpo. Nenhuma mulher pode se considerar livre até que possa escolher conscientemente se quer ou não ser mãe. Um ato sexual mútuo e satisfeito é de grande benefício para a mulher média, o magnetismo disso é doador de saúde. Quando não é desejado por parte da mulher e ela não tem resposta, não deve acontecer. Este é um ato de prostituição e é degradante para a sensibilidade mais fina da mulher, apesar de todas as certidões de casamento na terra em contrário... Pensamento da sexóloga, enfermeira, escritora e ativista estadunidense Margaret Sanger (Margaret Higgins Sanger ou Margaret Louise Higgins – 1879-1966), que no livro Woman and the New Race (Cosimo Classics, 2005), expressou que: […] A mulher deve ter sua liberdade, a liberdade fundamental de escolher se será ou não mãe e quantos filhos terá. Independentemente da atitude do homem, esse problema é dela — e antes que possa ser dele, é somente dela. Ela atravessa o vale da morte sozinha, cada vez que um bebê nasce. Assim como não é direito nem do homem nem do estado coagi-la a essa provação, também é direito dela decidir se ela irá suportá-la. [...]. Em 1914, ela foi processada pelos Estados Unidos, sob às leis do Ato Federal Comstock, de 1873. As leis do Ato Comstock proibiam a circulação, venda e produção de toda literatura com qualquer tipo de conteúdo sexual, erótico ou informações e ativismo sobre controle de natalidade, seja sobre contraceptivos ou aborto. Com medo do que poderia acontecer, Sanger se refugiou nos países britânicos até que fosse seguro retornar aos Estados Unidos. Por sua ligação à organização Federação de Paternidade Planejada da América, ela foi, e ainda é, alvo frequente dos críticos do aborto. Entretanto, o Planned Parenthood Federation of America passou a realizar abortos apenas em 1970, quatro anos após sua morte. A ONG, fundada em 1916, funciona até hoje, e é responsável por metade dos abortos legais nos Estados Unidos, além de globalmente oferecer serviços como educação sexual e controle de natalidade, inclusive no Brasil. O trabalho de Sanger com comunidades carentes também foi louvado por Martin Luther King, em seu discurso de aceitação do prêmio Margaret Sanger Award, em 1966.

 

ALGUÉM FALOU: A sexualidade é uma fonte de alegria, prazer e conexão, e não apenas de procriação. Não se pode decretar que as mulheres sejam sexualmente livres quando não são economicamente livres. Temos direito aos nossos próprios corpos. Onde há amor duradouro, há família. Pensamento da sexóloga e feminista teuto-americana Shere Hite (1942-2020). Veja mais aqui e aqui.

 

NAÇÃO PROZAC - [...] Essa é a questão sobre a depressão: um ser humano pode sobreviver a quase tudo, desde que veja o fim à vista. Mas a depressão é tão insidiosa, e se agrava diariamente, que é impossível ver o fim. [...] Alguns amigos não entendem isso. Eles não entendem o quão desesperada eu estou para que alguém diga, eu te amo e te apoio do jeito que você é porque você é maravilhosa do jeito que você é. Eles não entendem que eu não consigo me lembrar de ninguém me dizendo isso. Eu sou tão exigente e difícil para meus amigos porque eu quero desmoronar e desmoronar diante deles para que eles me amem mesmo que eu não seja divertida, deitada na cama, chorando o tempo todo, sem me mover. A depressão é sobre Se você me amasse, você faria. [...] É tudo o que eu quero na vida: que essa dor pareça ter um propósito. [...] Eu sou a garota que está perdida no espaço, a garota que está sempre desaparecendo, sempre desaparecendo e recuando cada vez mais para o fundo. Assim como o gato de Cheshire, um dia eu irei embora de repente, mas o calor artificial do meu sorriso, aquela curva falsa e palhaça, do tipo que você vê em pessoas miseravelmente tristes e vilões em filmes da Disney, permanecerá para trás como um resquício irônico. Eu sou a garota que você vê na fotografia de alguma festa em algum lugar ou algum piquenique no parque, aquela que de fato logo irá embora. Quando você olhar para a foto novamente, quero lhe garantir, eu não estarei mais lá. Eu serei apagada da história, como uma traidora na União Soviética. Porque a cada dia que passa, eu me sinto me tornando mais e mais invisível. [...]. Trechos extraídos da obra Prozac Nation (Riverhead, 2002), da escritora e jornalista estadunidense Elizabeth Wurtzel (1967-2020). Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - COISAS DE MULHER - A primeira vez \ o sangue, \ como uma filha, \ caminhou pela vida \ com a sua verdade, \ e foi sempre \ até o fim \ anunciando \ a fertilidade \ e todos os seus tempos. GOLPE - Entendo o ar \ quando o empurro, \ da minha boca levo \ até a concha do seu ouvido \ e ele fica estagnado como o mar \ para ser ouvido. Poemas da escritora e advogada panamenha Eyra Harbar, autora dos livros Burnt Paradise (Panamá, 2014), Mirrors (INAC, 2003), Where the Beetle Dwells (UTP, 2002), entre outros.

 

SACADOUTRAS

 

VIVA O POVO BRASILEIRO – Sempre tive os maiores deleites nas leituras que fiz do grande e imortal escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Entre seus livros, não menos prazeroso foi a detida e quase de um fôlego só devorar Viva o Povo Brasileiro (Nova Fronteira, 1984). Tive que me segurar para não ter um troço de tanto rir. Trago aqui um fragmento dessa magnífica obra para que todos tenham uma pequena ideia da maravilha de livro que é: [...] O comportamento das almas inopinadamente descarnadas, sobretudo quando muito jovem, é objeto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes, dos polos esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atrações da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas – tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem número de exigências. Diz-se que era por causa dos tupinambás que la moravam, que com mil artes e manhas de índios amarravam as almas dos mortos até que eles pagassem os obséquios que morreram devendo, ou resolvessem qualquer pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás, vieram os portugueses, espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos, mesmo não havendo mais índios para os amarram, continuaram por lé, desafiando as ordens dos padres e feiticeiros mais respeitados para que se retirassem. Em seguida, chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e de que deuses trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de seus mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver com essa circunstancia, não havendo, por exemplo, órgãos e viúvos entre eles. Os muitos deles que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de Amoreiras e jamais comem qualquer coisa vinda de lá. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Olympia (1865), do pintor francês Édouard Manet (1832-1883). Veja mais aqui.

Ouvindo: Saga da Amazônia, do cantor e compositor Vital Farias.

A DOUTRINA SECRETA – A escritora e ocultista russa Elena Petrovna Blavatskaya, popularmente conhecida como Helena Blavatsky ou Madame Blavatsky (1831-1891), realizou viagens e experiências insólitas até que, aos vinte anos de idade, teve um encontro com o Mestre Mahatma Morya-El, tornando-se a partir de então, a primeira mulher ocidental a penetrar no Tibet e a ser iniciada na Grande Loja Branca. Teve depois contato com o Mestre Ku-Hu-Mi, fundando, a partir disso, a Sociedade Teosófica, ao lado de Henry Stell Olcott e William Q. Judge. É autora dos monumentais livros Isis sem Véus e a Doutrina Secreta. De seus pensamentos destacamos: Há um caminho, íngreme e espinhoso, envolto em perigos de toda espécie, mas ainda assim um caminho, e que leva ao próprio coração do Universo. Para aqueles que prosseguem vitoriosos já uma recompensa indescritível – o poder de abençoar e salvar a humanidade; para aqueles que falham, já outras vidas nas quais o sucesso pode vir. Veja mais aqui, aqui e aqui. 

O VERMELHO E O NEGRO – O escritor francês Stendhal – pseudônimo de Marie-Henry Beyle (1783-1842),, criou algumas das obras literárias mais importantes do século XIX, um total de três romances completos e dois inacabados, dois volumes de contos e novelas, além de obras críticas, narrativas autobiográficas e de viagens. A  sua obra O vermelho e o negro, é uma das obras primas do autor, traçando a vida e o perfil psicológico de Julien Sorel, tendo por fundo a França do período da restauração napoleônica, retratada ao mesmo tempo com agudo realismo e fantasia transfigurada. No livro, o protagonista escreve a seguinte carta: Vinguei-me, escrevia-lhe ele. infelizmente, meu nome aparecerá nos jornais, e eu não poderei sair incógnito deste mundo. Morrerei dentro de dois meses. A vingança foi atroz, como a dor de ser separado de você. Daqui em diante, proibi-me de escrever e de pronunciar o seu nome. Não falem nunca em mim, nem mesmo ao meu filho; o silêncio será a única maneira de honrar-me. Para o comum dos homens, eu serei um assassino vulgar... [...] Ninguém me verá falar nem escrever; com isso você terá recebido as minhas últimas palavras e também as minhas últimas adorações. J. S. Depois de ter partido essa carta foi que, pela primeira vez, Julien, já mais senhor de si, sentiu-se muito infeliz. Cada uma das esperanças da ambição teve de ser arrancada, sucessivamente de seu coração por esta terrível frase: “Eu vou morrer”. A morte, por si mesma, não lhe era horrível. Toda a sua vida não fora mais que uma longa preparação para a desgraça, e ele não esquecera a que passa por ser a maior de todas. “Como!”, pensava ele [...] Levou mais de uma hora procurando analisar-se a esse respeito. Quando viu claro na sua alma, e quando a verdade apareceu diante de seus olhos tão nitidamente como um dos pilares da prisão, ele pensou nos remorsos! “Por que os teria eu? Fui ofendido de uma forma atroz: matei, mereço a morte, mas é só. Morro depois de ter saldado a minha conta com a humanidade. Não deixo nenhuma obrigação por cumprir, não devo nada a ninguém; minha morte só tem de vergonhoso o instrumento: só isto, é verdade, basta de sobejo para cobrir-me de vergonha aos olhos dos burqueses de Verrières; mas, sob o ponto de vista intelectual, nada é mais insignificante! Resta-me um meio para ser considerado por eles: será lançar ao povo moedas de ouro ao encaminhar-me para o suplicio. Minha memória, ligada à ideia do ouro, será resplandescente para eles. Depois desse raciocínio, que após um minuto lhe pareceu evidente, pensou: “Não tenho nada mais a fazer na terra”, e adormeceu profundamente. Veja mais aqui, aqui e aqui.

JEANNE MOREAU
A vida é arriscada. O clichê é que a vida é uma montanha. Você vai para cima, chega ao topo e depois desce. A morte é um mistério absoluto. Somos todos vulneráveis a isso, é o que torna a vida interessante e cheia de suspense. Saber morrer é saber viver. O que é a morte, afinal? É o resultado da vida...
Pensamento da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau (1928-2017).

JOANA FRANCESA – Quando assisti o filme Joanna Francesa (1973), de Cacá Diégues, além de ficar maravilhado com o filme, duas coisas me chamaram a atenção: a interpretação da atriz francesa Jeanne Moreau e a música-título do Chico Buarque. Relembrando o filme, Joana é uma francesa possuidora de um prostíbulo em São Paulo no início da década de 1930. Ao receber uma proposta do Coronel Aureliano, ela aceita visitar a esposa dele que se encontra moribunda num engenho de açúcar, em Santa Rita, interior de Alagoas. Lá ela conhece a família: uma sogra dominadora, filhos incestuosos e a rivalidade dele com a família Lima que em razão deles construírem uma usina, levam-no à bancarrota. O filme é lindo! A música, maravilha; Jeanne Moreau, encantadora. Veja mais aqui.


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