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domingo, outubro 24, 2021

LEYLA PERRONE-MOISÉS, ABDULRAZAK GURNAH, GAVIN BRYARS, HELENO ALFONSO & ROGEL SAMUEL

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre as mutamorfoses e obsolescência... Ao som do album The Fifth Century (ECM, 2016), do compositor ingles Gavin Bryars, com o coral The Crossing & quarteto de saxofones PRISM, condução de Donald Nally. - Onde estou e pronde voo nenhuma liga, o tempo assina outra, como se minhas digitais dissolvessem a cada instante e desexistisse de vez no caos. Quase dou fé de que inexisto mesmo e tudo não passasse de um sonho por outro sonhado. Assim lá vou eu nas experiências alucinatórias do que se pode entender por mundo contemporâneo: o volátil, o volúvel, a interdição, os simulacros, o terror incógnito, consumo e descarte, os equívocos e segredos recônditos, as distorções e os mal-entendidos de mortos-vivos, os pós-o-quê com todos os pós-ismos tudo ou quase tudo só artifício. Meio atordoado no meio disso tudo, eis que o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah alerta ao meu ouvido: Foi assim que pessoas como você e eu conhecemos tanto do mundo: lendo sobre isso de pessoas que nos desprezavam... Às vezes, acho que meu destino é viver nos escombros e na confusão de casas desmoronadas. Concordei com o dito e sua presença, ali mesmo era como se eu estivesse metido em carne viva na real Das Leben auf der Praça Roosevelt, da Dea Loher, e me sentisse em casa no reduto miserável das Marias e o mudo Mundo cantarolando Oh! Vos omnis quitransits per viauatendite; atenditeet videte teunsi est dolorsieut dolor meo, e isso depois de muito presenciar acasalamentos de extraterrestres com as insones transeuntes tontas e a loucura de gente que vive só com a roupa do corpo, no meio dos gestos de Aurora provocando desafios a Bingo, enquanto a mãe amargurada com seu choro insistente pelo policial em coma e a memória do filho morto batendo no submundo a denunciar ali não haver vida, nunca foi, qualquer outra coisa que fagulha no meu peito de indignação. E me veio o professor beninense Olabiyi Babalola Yai para cochichar no desalento da minha dor: Os homens são mais eles mesmos quando vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e viver as dos outros. E naquele estado em que estava jamais poderia concordar com isso, mas o poeta Rogel Samuel me recitou: todo amor é assim, plágio / cópia de cópia de si, no mesmo / sim na sua visibilidade... Quanto mais eu relutava só ouvia a escritora argentina Beatriz Sarlo quase berrando ao meu ouvido: Tem um momento de coincidência entre o que você necessita e o que a vida lhe oferece. Você tem que estar acordado para agarrar essa chance. A coragem aparece quando não há mais solução. Acredito que o crime é igualmente horrível, sejam 10 ou 30 mil... Tento ficar a par de tudo que ocorre no presente - para alguns apenas o futuro do pretérito; outros, só o passado mesmo e de novo -, e posso dizer umas duas ou três coisas outras, não mais que isso, que no meio das mutamorfoses e a obsolescência já sei que não basta apenas dar enter, porque tantos delírios pseudo-intelectuais com suas masturbações e impulsos neognósticos sobrando entre anoréxicos e voyeuristas, craquers, hackers e biomakers na boa, extremófilos e intimistas surfando comigo de mãos dadas com todo mundo pela sci-art e o nano-mundo, atravessando o universo escuro e a extremofilia, teratologias biotecknicas, contatos em níveis nanométricos, territórios do perigo e conflitos, afora polimórficas possibilidades, eita! Ufa! Sei e todos estão carecas de saber que a Terra é redonda e insistem em cagar pelos quatro cantos do mundo. Não sei pra quê tanta lei, apensar da compulsoriedade jamais será cumprida. Por isso chamo de gato ao gato e ao governante de patife, porque estamos na primavera de Ginsberg pelo mote recolhido por Paulo Cavalcante no arremate: De circunlóquios eu nada sei. O caso conto, como o caso foi. Na minha frase de dura lei, o ladrão é ladrão, o boi é boi. E ponto final. Ou melhor, reticências...

 


Pássaro preto, traquinagens da infância... - Imagem: Kein Nachwuchs fir den Champion oder Der Junge der New Jersey erschoB VON Israel Horowitz, in Hörspielle im Westdeustschen Rundfunk 2, Halbjahr 1987. - Era eu apenas um menino da beira do rio, travesso solto na buraqueira, proutras paragens eu ia a me divertir levantando as saias das moças, ou me deitando no chão para ver-lhes as intimidades das calcinhas estufadas, quando não brechando sua nudez pelas fechaduras do quarto ou do banheiro, afora futucar com tudo que me aparecesse pela frente. E meu pai ocupado com as gaiolas da coleção e, entre elas, a da sua estimação: a graúna, o brilho sedoso de sua plumagem negra. Desde que a vi pela primeira vez, sonhei que era a morte, o corvo de Poe que, de repente, se tornara penas brilhantes e com o poder mágico, a me prometer antevisões do futuro, a me aconselhar com orientações para fazer isso ou aquilo e era só sonho. Não só, mesmo. Ao amanhecer, de soslaio, mantinha distância dela, queria aproximação nenhuma. E de tanto temê-la, um dia a soltei aproveitando o descuido paterno. Ela voou longe na fuga, mas retornou e me caçou, pegou-me pelo bico e voamos com a suíte L'Oiseau de feu (1919) de Stravinsky. Foi uma grande viagem e me largou longe, no pico de uma montanha que se transformou num palácio abandonado. Depois, deu-me uma chave para que abrisse a primeira porta: cavalos para minha diversão. Outra chave e no quarto, arreios e selins. Outras mais a cada dia, eram sete: e moças ousadas e sedutoras, mulatinhas safadas a me dengar e eu aos regalos no meio de espadas - Para quê tantas? -, um rio de prata e um rio de ouro. Só não sabia, depois de tudo, do castigo: a graúna vingativa tirou-me a roupa, largou-me no deserto e deu-me uma varinha de condão. Errei sozinho e uma princesa à beira do fogo parecia me esperar, não sabia, mas o pai dela adoeceu e para sua cura só três pássaros de plumas. Usei da varinha: os três pássaros foram encontrados e trazidos a ele que logo se restabeleceu, dando uma festa de três dias, nos quais findei nos braços dela que se deleitava como se fosse a demi-mondaine Méry Laurent – aquela mesma atriz nua Vênus Anadyomene do Théâtre des Variétés, e que fora antes Anne ou Rose ou Suzanne ou mesmo Louviot e que a mãe havia vendido sua virgindade debutante para Canorbert por 500 francos ao mês, afora amantes outros ricaços e da vanguarda francesa, até tornar-se musa da minha paixão Mallarmé no quadro de Manet e Nana de Zola. De repente adúlteros flagrados na noite por minha filha Genevieve, não sabíamos o que fazer, mãos e sexo na botija, completamente desnorteado porque ela se transformara noutra pessoa e o escritor estadunidense Roger Shattuck (1923-2005), me falou de seu Conhecimento proibido (Companhia das Letras, 1998) para me contar que ela era apenas uma senhora vitoriana – na verdade e para meu espanto era a mula sem cabeça -, e relutava agora contra a teoria de Darwin: Descender de macacos! Meu caro, esperamos que não seja verdade, mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!... Não era mais aquela, nunca foi, só pode ser outra. E mais insistia na sua Planolândia, como uma senhora de bem, patriota roxa e acima de todos e quaisquer pecados ou suspeitas, e eu fisgado pela veemência de seus seios fartos no desatento desabotoado de sua blusa justa colada naquela excelsa arquitetura de fêmea e a libido acesa e incontrolável com o lascão da saia exaltando suas coxas volumosas e eu clamando pelo amor de Deus para ela se acalmar e poder reconduzi-la à alcova.

 


Apenas escrevo... Imagem: Comovida medida de distância (1988), da videoartista palestina, Mona Hatoum. - Onde estive já não faz o menor sentido, embora não haja como apagar porque o caos piorou o mundo e persistem as cavilações de nem sei quem, talvez de mim mesmo, outros são os motivos e ignoro por completa ausência de significado. Disparo intuições, uma das pernas dos óculos se quebrou e eu precisava ler e reler, agora apenas esperar com os trechos de um poema do livro Oropa França e Bahia (Edizioni della Meridiana, 2004), do poeta Heleno Alfonso Oliveira (1941-1995) na memória : É ser e remar / Na mesma zoada / Na onda arrastada / Do mar sem raiz. / E Deus não se rima / Bem perto ressoa / Ao centro da alma / Perdida e à toa / Enquanto me vejo / Cantando Marina / Cantando Pessoa / Bem fora do templo... E pelos lapsos do esquecimento, o poema suspenso, só conseguia me lembrar doutra parte: Sem um amparo / Sigo a Sophia. ; Luz de Apolo / Dança de Baco? E uma voz feminina com todo seu perfume aprazível invadiu o ambiente. Quem era? Só muito depois pude ver, era a escritora Leyla Perrone-Moisés: A literatura nasce da literatura. Cada obra nova é continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea... A função revolucionária da literatura não consiste em emitir mensagens revolucionárias, mas em levantar uma dúvida radical sobre o determinismo da história. E mais me falou d’ As Sombras de Olinda (Caminho, 1997), do Clarindo, Clarindo (1990) e do póstumo Se era vera la notte (2003), daquele que um dia dissera: Florença é uma manhã de dezembro / onde cheguei gritando do meu Hades. E já outra, quase irreconhecível camaleoa que sequer adivinhava o nome e propósitos, mas que se fizera mais que felicíssima amante, a me premiar o que da vida mais apetece na festa do seu corpo. Até mais ver.

 

E mais:

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domingo, março 07, 2021

MARISA REZENDE, TERESA NAZAR, JUANA DE IBARBOROU, JEFFREY EUGENIDES & CLÓVIS PEREIRA

 

 

TRÍPTICO DQC: SOS Brasil! - Ao som do álbum Amazônia (Carmo, 1990), de Egberto Gismonti. - Salve toda gente de Pindorama! Os dias não estão tão simpáticos assim, não mesmo. É que aqui a coisa vai de mal a pior já faz um bom tempo. Pudera, já se vão uns cinco anos desandando e empiorando a cada amanhecer. Nunca me passou pela cabeça que a gente, depois de tanta luta de décadas pela plenitude democrática, de uma hora para outra, ao invés de seguir adiante, o Brasil deu marcha à ré de ficar só nisso: dirigindo pelo retrovisor. Ainda me pergunto como é que pode na última eleição, entre tantos candidatos, o pior foi escolhido. Isso sem contar com golpes, um atrás do outro: roubaram nossos sonhos. Como é que pode? Pois foi, para completar o Kid Coisonário com a sua tresloucada trupe sentou-se em Brasília, patrocinado pela elite infame dos seculares sátrapas do nepotismo oligarca, imprensa vendida e salafrários trampolineiros da mão invisível a serviço da opressiva dominação das transnacionais corporações e lá tome voto regido a mentiras e orações. Queria mais? Sabia eu lá que haveria tantos Fabos, Cafos & similares ilegíveis do Mobral onipresente e do bestiário da Planolândia daqui (tão tóxicos e corrosivos da peçonha e as suas nada brilhantes inteligências que precisam de tratamento psiquiátrico por seus desequilíbrios mentais e estupidez à flor da pele, nenhum inimputável, diga-se de passagem), e aboletados com suas tronchuras tão levianas quanto ressentidas na Operação da Praga Duradoura e que se multiplicaram a cada ninhada, dando cria aos montes, não havendo direito qualquer perspectiva de erradicá-los no moribundo Brasil que virou o Corcunda Recalcitrante das Mil e Uma Noites: quem não suspeito? De quem a culpa, ora essa, tantas vidas perdidas e todo mundo ligado no Big Shit Bôbras, voyeurs e ególatras umbigocentristas, que não tem quem seja capaz de dar um breque na desabalada descida: Êêêêêê, boi do cu-cagado! Fico cá comigo pensando quem poderá sobreviver aos bregues detratores e aos esbarrões das ameaças furiosas das cabeçadas e patrioteiras carteiradas deles, como se isso fosse possível, digo logo, longe disso, são desumanos porque indiferentes, o que já é meio caminho andado para a barbárie. Meio caminho nada, já é. Quem conseguiria persistir humano se tudo virou como se fosse aqueles suntuosos casarões de outrora demolidos pela especulação imobiliária, o que me dá a impressão de pegar no sono e, de um dia pro outro, o país deixar de existir de tão esturricado no abismo e tragado pelo sensacionalismo do noticiário. Eita, pau! Já dizia acertadamente Sérgio Augusto: Nesta terra em que se corrompendo tudo dá! Parece mesmo um nó cego, senão insolúvel. Pois é, eu mesmo fico com a cara daquele escritor britânico, Kenneth Grahame (1859-1932): É o meu mundo e não desejo nenhum outro. Sim, mas ele alerta no seu The Reluctant Dragon (Egmont, 2008): A fera terrível deve ser exterminada, o interior deve ser libertado dessa praga, desse terror, desse flagelo destruidor. Mas são muitos e tantos, um exército de acéfalos com as fileiras engrossadas não sei como. Otimista por natureza, lá vou enfrentando a destruição como posso e não é nada, a desgraça com efeito em cadeia parece indestrutível, valha-me! Como sair do Fecamepa, SOS Brasil! Salve-se quem puder!

 


DOIS: Escapar da tirada de fino e bala perdida - Imagem: a arte da artista visual, escritora e professora Teresinha Soares, ao som do Canticum Naturale, per soprano e orchestra (1972), de Edino Krieger, com a soprano Evi Zeller & Philharmonisches Orchester Südwestfalen. – Por conta disso, lembrei-me que minha vó dizia insistentemente que a mãe havia jogado meu umbigo no rio, coisa que me levou a me afeiçoar tanto por água. Lá no quintal dos meus avós havia um brejo e eu menino só vivia pela beirada. E ela: Menino sai daí, tu ainda morre afogado, desgraçado! Um bocado de década se passou e nem morri de mesmo, exceto duas ou três vezes que fui do outro lado e voltei mais compenetrado que nunca, não me passando por aquele do Dente quebrado, do escritor venezuelano Pedro Emílio Coll (1972-1947), nem me aventurando por rios caudalosos ou mares tempestuosos. Ao contrário, me peguei muitas vezes naquela do escritor estadunidense Michael Hart (1947-2011): Muitas vezes foi dito que se Jesus voltasse à terra, ele ficaria chocado com muitas das coisas que foram feitas em seu nome e horrorizado com as lutas sangrentas entre diferentes seitas de pessoas que se dizem seus seguidores. Aí sim: quantos não vejo em nome dele tramar falcatruas, enrolar fieis e mandar na ver ajeitado no pé do cipa, pois é. Nem polícia, nem Justiça nem ninguém dá cabo deles: estão todos enrolados até o pescoço e em nome de Jesus, cruz-credo! Bem, olho pros lados e vejo: verdadeira perdição. Então, pensei na minha vó: de que poderia mesmo eu morrer, com tantos meteoros passando e tirando fino, tantos satélites pendurados, aeronaves para cima e para baixo, afora outras tantas ameaças, sobretudo do monstro invisível com a morte rondando aqui e acolá, ora, ora. Bem, dum sopapo da vida ou duma disfuncionalidade orgânica qualquer, não sei, vou escapando: passam triscando por mim, alguns arranhões e rugas, apenas. No mais, ileso e resiliente.

 


TRÊS: A VÊNUS DO QUINTAL - Imagens: arte da artista multimídia argentina Teresa Nazar (1936-2001), ao som de Cismas para trio de cordas, contrabaixo e piano (1997), da compositora Marisa Rezende, na interpretação da pianista Thais Nicolau & Quarteto Radamés Gnattali, no Festival de Música Contemporânea Brasileira (2018) – Ah, sim, pois foi exatamente pelo periodo em que era eu menino lá da beira do brejo, que se deu a descoberta duma estátua enterrada no quintal. Foi isso mesmo, verdade. Uma estátua enorme de Vênus, acho. Fiquei tão excitado com aquilo de querer ficar ao seu lado o tempo todo – ora, desde menino eu conversava com plantas, paredes e amigos invisíveis, ela seria real e em tamanho natural, muito melhor. Não deu, logo me tomaram e esconderam não sei onde, a ponto de, com o passar do tempo, esquecê-la, não antes chorar de sonhar dias, meses, anos. Pois bem, agora, depois de todos mortos, lá vou eu com questões de inventário, formais de partilha e me deparo com o quarto dos pertences dos meus antepassados. Nunca que poderia adivinhar que a família pudesse guardar tanta tranqueira. Tudo amontoado num dependência duma casa que sequer sabia existir. Pois bem, lá fui eu ver o que sobrara do espólio: meio mundo de coisa empoeirada e coberta por teias de aranha, nada mais. Um verdadeiro monturo. Quase desisti da conferência, não fosse na mínima vasculhada rápida, lá escondida estava ela, tal e qual a La Vénus d'Ille (1837), de Prosper Merimée: Apenas devemos fazer as tolices que nos agradam. E, talqualmente aquela do poeta francês Jules Barbier (1825-1901): E afinal era só uma boneca de olhos de esmalte. Isso mesmo quando se repetia no intervalo entre o primeiro e o segundo ato do seu texto operístico Les contes d'Hoffmann (1881), musicado por Jacques Offenbach: É ridículo: ninguém se apaixona por uma boneca! Tudo baseado na história da boneca de Hoffmann, que até virou filme dirigido por Michael Powell e Emeric Pressburger: Olympia não passava de uma enorme boneca mecânica. Pois sim, depois de remover todas as catrevagens, quase tudo direto pro lixo de imprestável, exceto a estátua que guardei no meu quarto. Ficou lá, encardida mas limpinha, como se fosse um troféu. Dia vai, dia vem, eu chegava, olhava para ela e ali ficava por horas até adormecer. Um dia lá, cheguei tão cansado que só deu tempo de me banhar e me recolher, nem olhei para ela, nem nada, tratei de dormir, mas o sono foi interrompido, ouvi alguém falar Juana de Ibarborou: O amor é fragrante como um ramo de rosas. Amoroso, todas as fontes são possuídas. A minha surpresa? Era ela, a Vênus Galateia do meu quintal, viva nudez no meu quarto. Como pode? Disse-me Jeffrey Eugenides: Essa obrigação de ser feliz paradoxalmente nos deixa cada vez mais infelizes. No final, não foi a morte que a surpreendeu, mas a teimosia da vida. Como é? Não entendi! Ela fitou-me firme e decididamente, abraçou-me deitando-se em minha cama como se fosse Maria Bonita governando Lampião, afinal, todo dia é Dia da Mulher e eu atravessasse com ela toda primavera. Era verão quando ela saiu e não mais voltou, nem disse adeus. Hibernei, só voltarei ao final do outono. Até mais ver.

 

A ARTE DE CLÓVIS PEREIRA



A arte do compositor, arranjador, pianista e regente Clóvis Pereira, autor de frevos, caboclinhos, maracatus e obras para coro e orquestra e de peças sinfônicas. Em sua homenagem a obra Clóvis Pereira: no reino da pedra verde (Cepe, 2016), do jornalista, pesquisador e crítico musical Carlos Eduardo Amaral, abordando a vida e uma coletânea importante para a música erudita pernambucana, além de informações sobre o lançamento das composições, formação instrumental, bem como iconografia e dados coletados com o próprio músico. Na primeira parte da obra é contada a trajetória do garoto pobre de Caruaru, apaixonado por música e cinema, ao respeitado professor universitário, com cursos na Berklee College of Music, em Boston, Massachussets, nos EUA, hoje gozando de uma confortável aposentadoria, e finalmente podendo conviver no dia a dia com a família, mulher, filhos, netos. A segunda parte é um catálogo da sua obra, envolvendo uma listagem e classificação das partituras e discos; consultas presenciais e online a bibliotecas do Recife, do Rio de Janeiro e de João Pessoa; entrevistas com músicos que interpretaram peças do compositor ou tiveram peças arranjadas por ele; e redação final. Veja mais aqui e aqui.


 


quarta-feira, outubro 21, 2020

LYDIA CHILD, PABLO DE ROCKA, ALICIA ALONSO, PRAGUER FRÓES & AS BAIANAS DO ARTESANATO PERNAMBUCANO


  

TRÍPTICO DQC: QUARTA FEIRA, O TRÂMITE DA SOLIDÃO – A festa acabou e não houve nenhum barulho na madrugada. A rua está pesunhada em honra de Pã, homenagem a Baco. A festa do povo passou. Neste dia eu te ofereço minha carne em holocausto, apesar da madrugada com o luar que azula a escuridão. As ruas são do pretérito caboclinho do Rabeca, o reluzente estandarte da Virgem Guadalupe e  a extinção de Tupác Amaru até sua descendência em quarto grau. Tudo apaixonadamente vivo, tudo delirantemente sentido, tudo escandalosamente passado a limpo em mim. Contaminados estão os cultores do pecado original, do hedonismo ou do Rigveda. Hoje o morto carrega o vivo e ontem de noite correu bicho em Matriz de Camaragibe. Anteontem o bufo inspirou Zé da Justa pra afinar a orquestra e a Fubana dos artistas, varrida de sonhos, impetrava um calor nas reentrâncias das senhoras e das mocinhas. A folia fez-se noite, fez-se dia. Permita Deus este mês não seja só carnaval. Dentro de mim passou a folia do planeta com seus trogloditas modernos e o assoalho repleto de excrementos, a casa vazia e o reino dos fantasmas. Vozes cantarolam: saia do sereno, saia do sereno, saia do sereno que esta frieza faz mal. De mim, o silêncio e o meu sacrifício de Odin: apenas água para beber e braços solidários. Tudo cinzas. Não fiz abstinência da carne, nem interdição dos sentidos. A minha impulsividade e o suntuoso e o inexprimível: um dia tão grande no desvario do frevo. Não quero penitência, estou debilitado pelo incenso inebriante de mulher, aquela que dorme oculta no deleite do meu travesseiro. Tudo viverá enquanto meu verso existir: o bar, a noite, o cigarro e a solidão. O poeta morreu terça-feira e eu sigo inquieto. O amor assim que deveria ser: a vida!

 


ELA O LUGAR & AS MULHERES DE BABILARY & PLANOLÂNDIA - Imagem: arte do ilustrador e designer Lucas Martins. - O meu quarto no meio da chuva de meteoros Orionids, na verdade uma poeira deixada pelo cometa Halley e sob a ameaça de um asteroide em rota de colisão com a Terra, o desgoverno do Fecamepa e tudo pronto ali para desabar na minha cabeça enquanto o mundo em tempos de isolamento pandêmico e eu à toa com os olhos vidrados nela, linda e nua a rir de tudo. Aliás, não mais pandemia, corrija-se: de sindemia que, segundo o médico, professor e antropólogo estadunidense Merrill Singer, ocorre quando “duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças”.Para escaldado como eu, desgraça pouca é bobagem: uma bronca nunca vem sozinha, outras se escondem por trás para detonar um efeito em cadeia e aí salve-se quem precavido ou se fode todo mundo duma vez só. Ao lado dela, afagos e beijos, dois sujeitos surgem do nada. Um deles, o abade historiador, tradutor e jornalista francês, Pierre François Guyot Desfontaines, autor dos dois volumes da Le nouveay Gulliver ou Voyage de Jean Gulliver, Fils Fu Capitaine Gulliver (1730 - Nabu Press, 2012), a narrar em Babilary, que significa lá na língua deles à glória das mulheres, elas eram: além de guerreiras e piratas, são também músicas e poetas, não levam muito a sério o casamento porque têm o direito de se divorciar, o que é proibido aos homens. Um tribunal literário, composto de sete mulheres, julga todas as peças de teatro e a rainha recompensa os melhores autores; os ruins são punidos com a proibição de escrever. Ah, verdadeira ginocracia. O outro, Edwin Abbott Abbott, falava de Planolândia: As mulheres de Planolândia são dignas de nota, pois, além de serem pontudas (pelo menos em duas extremidades), possuem o poder de se tornar invisíveis e, portanto, não se deve brincar com elas. É bom tomar cuidado porque o encontro com uma delas pode causar a destruição absoluta e imediata. Ao mesmo tempo, são totalmente desprovidas de cérebro e não têm reflexos, juízo nem prudência, e dificilmente alguma memória. Ela riu, mas não dispensou um esconjuro: coisa de machista, misógino. E entredentes sussurrou Francisca Praguer Fróes: A inferioridade da mulher não é fisiológica, nem psicológica; ela é social. Sua escravidão sexual determina sua dependência econômica. Rimos juntos e ela me beijou profunda e ardentemente. Ah, ela sempre divinamente inteira em sua entrega. Agora sinto sua falta como aquela de O sorriso por trás da máscara da Quarentena de Maurizio Ruzzi: Que ela o tinha infectado, não tinha dúvida, só não sabia com o quê. Assim seja.

 


ELA, A DANÇA SEDUTORA - Imagem: a arte da bailarina e coreógrafa cubana Alicia Alonso (1920-2019) - Era ela de volta sensualmente provocante enquanto eu perdido pelas onze dimensões da Teoria de Tudo – a M das supercordas -, rendido por seu rebolado frenético para esfregar-se no meu sexo espalmado e uma das mãos a rondar o ar para pegá-lo com apertos carinhosamente ternos, um dos pés ao alto com as firulas dos passos para pisá-lo deliciosamente tentadora, os lábios apertando-se aos lambidos bicuda-bocuda para beijá-lo galante e eu em estado de graça à cata dos seus encantos transbordantes. Achegou-se mansamente insaciável e sussurrou frase da escritora estadunidense Lydia Child (1802-1880): A cura para todos os males e injustiças, cuidados, tristezas e crimes da humanidade, tudo está na palavra AMOR. É a vitalidade divina que produz e restaura a vida. E nos beijamos pelos lençóis das nuvens e gozamos mutuamente a cachoeira dos nossos suores e nos redimimos da queimadura das esperas e quereres mais urgentes. Restou-me agora cantá-la como Pablo de Rocka: Canto sem querer, necessariamente, irremediavelmente, fatalmente, em eventos aleatórios, como quem come, bebe ou anda e só porque; / Eu morreria se não cantasse, morreria se não cantasse ... / Edifico canções como as grandes cidades estrangeiras ... / Quero ser ao mesmo tempo sombra e luz, raiz, folha e fruto, / e condensar imensamente toda a vida em um minuto. Assim o amor, a vida plena. Até mais ver.

 

AS BAIANAS DE PERNAMBUCO

Baiana / se você quizé / eu faço um chalé / mode você mora / Parmares / que é terra da lua / que tem uma rua / de prata e me dá.

Originária de Pernambuco, nessa dança se apresentam mulheres trajadas com vestes tradicionais de baianas, que dançam e fazem evoluções ao som de instrumentos de percussão. É considerada uma adaptação rural dos maracatus pernambucanos, mesclada com músicas que fazem lembrar o canto dos negros nas senzalas e a coreografia por eles criada nos terreiros da Casa Grande. Quentes e voluptuosos são os movimentos e os ritmos que acompanham a dança. Extraído da obra Danças Folclóricas (Esperança, 1986) do jornalista e professor Américo Pellegrini Filho. Imagem: artesanato pernambucano. Veja mais aqui & aqui.

 



sexta-feira, outubro 16, 2020

CARL SAGAN, HANNE DARBOVEN, HAROLDO DE CAMPOS, REGINA GOUVEIA, QUINTANA & PAULO MEIRA


  

TRÍPTICO DQC: PLANOLÂNDIA NO FECAMEPA - Ao som de Planolândia (Quarto Dimensões, 2019), o primeiro álbum de uma trilogia do trabalho conceitual desenvolvido pelo trio musical Pedro Ben, Davi Abel e Iegor Rainer. - Despertei com uma música jamais ouvida e meu quarto transformado numa sala de cinema. Ouvia duas pessoas discordantes em refutação mútua. Na verdade, eram três, ou quatro, aliás, muitos. Destacou-se entre eles um vulto não reconhecido que se apresentou como sendo o logógrafo, geógrafo e mitógrafo grego, Hecateu (550-480aC): A Terra é plana! Prova disso é o que diz Tales, Leucipo e Demócrito. Como é? Novo tumulto entre eles. Um terceiro depois identificado como sendo o astrônomo e matemático grego, Aristarco (210-230aC) mencionou: A Terra gira em torno do Sol! Logo em seguida Ptolomeu (90-168dC), com o seu Almagesto: A Terra é o centro do Universo! Ouvi alguém gritar que ele havia plagiado Hiparco, rejeitado Aristarco e que o seu único benefício foi ter criado o astrolábio. Novo tumulto, muitas vozes que se sobrepunham umas sobre as outras, até emergir no meio da discordância geral a figura de Copérnico, comprovado por Giordano e Galileu, que falou como se pusesse um ponto final na discussão. Novo tumulto e a censura imposta pela inquisição a respeito do que ele disse. Toma frente o britânico Parallax Rowbotham (1816-1885) defendendo o seu panfleto Zetetic Astronomy (1849): A Terra é plana! Isso deu gás pro John Hampden apresentar Um novo manual de cosmografia bíblica (1877), o que deu uma turbinada na ideia do inglês William Carpenter a publicar Cem provas de que a Terra não é um globo (1885), fato este que redundou na gritaria de pregadores, professores e outros que fundaram a Sociedade Zetética Universal, em 1893, defendendo ser a Bíblia a autoridade inquestionável e, por consequência, o definitivo terraplanismo, mantido pelas escolas de Zion e sob o argumento de que é uma tese ignorada. No zoadeiro ouvi que em 1956 foi criada a Sociedade da Terra Plana, no Reino Unido, que resistiu a tudo, inclusive ignorando o Sputinik, até ter sua sede incendiada e o evento de morte do mentor em 1990. Eita! A narrativa registrava o renascimento da instituição em 2004 e desde então tornou-se bandeira dos hackers Anonymous, incluindo a tese de que a gravidade é uma mentira, baseado nos estudos do teorista William Carpenter (1830-1996), do líder Charles K. Johnson (1924-2001), do presidente sul-africano Paul Kruger (1825-1904), do evangelista Wilbur Glenn Voliva (1870-1942), e das ações do ator David Wolfe, do jogador de basquete Kyrie Irving, de um aluno PhD tunisiano e da campanha GoFoundMe do rapper B.o.B. Ah, não! Que papo é esse? Um livro entrou em cena, o The Myth of the Flat Earth, de Jeffrey Russel. Sim? Logo um outro: o Flatland - A Romance of Many Dimensions (1884), de Edwin Abbott Abbott (1838-1926). Este último me chamou muito atenção porque dele foi fonte para uma série de filmes a respeito do tema e no Brasil foi traduzido com o título de Planolândia: um romance de muitas dimensões (Pictorial, 2019). Nossa! Que doidice, meu! Tudo isso é muito bizarro! Cá, comigo: e Einstein? E os buracos de minhoca e os objetos da quarta dimensão? E a faixa de Möebius? No meio das minhas indagações apareceu uma animação desconhecida: Dr. Quantum visita Planolândia - Quem somos nós? – Uma nova evolução. Depois, mais outra: Dr. Quantum dupla fenda. Sim? Cheio de interrogações e sem entender patavina do que se passava ali, surgiu o risonho Carl Sagan. Graças, foi uma longa conversa e esclareceu tintim por tintim falando sobre um Pálido Ponto Azul, a geometria euclidiana, a física newtoniana, a relatividade einsteiniana, a quadridimensionalidade e mais outras e tantas coisas. Ah, tá. Da minha parte a compreensão de que há seres que ocupam as mais diversas dimensões, sabendo que há quem viva na bidimensionalmente, nós estamos na tridimensional; e eu sou crisantempespaço proutras multipluridimensões. É isso aí.

 


NOVA DOSAGEM & DE NOVO – Imagem: a artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). – Estava mergulhado nas minhas reflexões quando ela achegou-se mansamente e recitou-me com o sotaque de estrangeira: O nosso Universo é quadrimensional, / a quarta dimensão é fundamental / e já não faz sentido a seta do tempo. / Daí eu não saber se este sofrimento, / esta dor aguda que me invade o peito, / afinal é causa ou será efeito. Belo poema e ela falou-me ser este intitulado Indeterminismo, da poeta Regina Gouveia. Fiquei impressionado com a presença dela ali ao meu lado e entregou-me algumas publicações: Ciência para meninos em poemas pequeninos (Porto, 2014); Entre margens (Lua de Marfim, 2013), Terras de Cieiro (CMAlfândeha da Fé, 2013), Quando mel escorre nas searas (Lua de Marfim, 2016), Quando o mistério se dilui na penumbra - Magnetismo terrestre (Autor, 2017) e Requiem pelo planeta azul / Reflexões e Interferências (Autor, 2017), todos da mesma autora. Recitou-me, ainda, Máquina do Mundo: Não havia espaço / Não havia tempo. / Apenas um nada, grávido de tudo, / Numa ínfima parte do segundo, / o nada deu à luz a máquina do mundo / que irrompeu do útero e, despudorada, / foi abrindo frestas / uma escuridão densa e recatada. Não conhecia nem a autora nem quem recitou os poemas dela. Disse-me apenas num inglês peculiar: I am Hanne. E sorriu apanhando um livro que eu havia separado para ler: Crisantempo - no espaço curvo nasce um (Perspectiva, 1998). Inclinou-se e fitou-me interrogativa, respondi-lhe ser a reunião com as últimas produções e o percurso inventivo de Haroldo de Campos. Ela sinalizou que sabia de quem se tratava, abriu o volume e leu ao seu modo o poema diana caçadora: agora resta ver / (mas é preciso saber ver) / como o arco da deusa caçadora / por um triz / não lhe toca - / trivia ride le ninfe etterne / a escorreita / (divinal) bundinha. Sorriu lindamente, meneou a cabeça, sobrancelhas arqueadas e inquiriu: What's in it for me. Intuitivamente recitei o primeiro que me veio à cabeça, o Pequeno poema didático, de Mário Quintana: Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são o mesmo porre, Não é de uma vez que se morre… Todas as horas são horas extremas! Ela repetiu várias vezes as duas últimas palavras: Horas extremas... Horas extremas. E falou que eu era uma hora extrema.

 


A VIAGEM DELA QUE SE DEU EM MIM – Imagem: Kulturgeschichte, da artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). - Levou-me pela mão por diversos salões até que visualizei a placa com o nome do evento. Olhei para ela e ela a mim. Indaguei: Você? Sim. Era ela e a sua arte, eu sabia, desconfiado adivinhava. E fiquei maravilhado com cada uma das obras ali expostas, eram muitas, demais. Conferia uma a uma, pelas tantas daquela imensa exposição. Eis que ela puxou-me levando-me corredor afora até uma área livre do anexo. Sacou do bolso do blusão um cigarro, ofereceu-me o maço, retirei um e tragamos nossa hipnose mútua fixada um no outro, no meio daquele ambiente bastante arborizado. Ela nos meus olhos e eu nos dela, calados, a fumaça do nosso trago atravessando nosso olhar fixo um no outro. Havia um ar de satisfação no meio do sorriso comedido dela. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser naqueles olhos azuis compenetrados, interrogativos, provocadores. Era como se conversássemos silenciosa e intimamente. Sabia o que ela me dizia e acredito que adivinhava o que se passava em mim. Depois de longo tempo ela aproximou-se, beijou-me os lábios e me permitiu a descoberta do que jamais fosse possível. Até mais ver.

 

O MARCO AMADOR, DE PAULO MEIRA


O marco amador: Bordas de Silêncio, Las Outras, Cursos, A perder de vista, 15 minutos de Alice Coelho – Catálogo Prêmio de Artes Plásticas Marcantônio Vilaça (Funarte, 2014), do premiado artista visual, designer gráfico e professor Paulo de Araújo Meira Júnior, que desenvolve obras em diversas linguagens como vídeo, jogos eletrônicos e vídeo instalações e co-fundador do coletivo Camelo. Veja mais aqui e aqui.

 



ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...