Mostrando postagens com marcador Mallarmé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mallarmé. Mostrar todas as postagens

domingo, setembro 14, 2025

NOÉMIA DE SOUSA, PAMELA DES BARRES, URSULA KARVEN, SETÍGONO & MARCONDES BATISTA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Sempre Libera (Deutsche Grammophon, 2004), Violetta - Arias and Duets from Verdi's La Traviata (Deutsche Grammophon, 2005), Verdi’s La Traviata (Deutsche Grammophon, 2006), The Opera Gala (Deutsche Grammophon, 2007) & Anna Netrebko Live At The Metropolitan Opera (Deutsche Grammophon, 2011), da soprano russa Anna Netrebko (Anna Yuryevna Netrebko). Veja mais aqui.

 

Reiteramentos setigonais: só a poesia torna a vida suportável!... - O fim foi anunciado na escatologia da contemporaneidade, detectado pela frase de Theodor Adorno: Depois de Auschwitz, a poesia não é mais possível! Ninguém mais poderia olvidar nem mesmo ficar indiferente à barbárie e o que já vinha desde o século 19, convencionando-se que o poema, depois de Mallarmé, era um inevitável fracasso, uma obra falhada. Em meados do século 20, na Die Panne (A Pane – uma história ainda possível) de Dürrenmatt, a indagação: Existem ainda histórias possíveis? – e a obra foi adaptada para o cinema com o título La più bella serata della mia vita (ou seja, A mais bela noite de minha vida), dirigido pelo Ettore Scola. E o tempo passou, como dizia Mário Faustino, neste mundo infame como ainda é o nosso. O estardalhaço das mortíferas bombas deixou escapulir o recado de Apollinaire: a de que a função social do poeta era renovar incessantemente a aparência de que se reveste a natureza aos olhos dos homens. E acompanhado de um puxão de orelha do Ernst Fischer: a função da arte é abrir portas fechadas. Aí Salman Rushdie pegou pesado: É a função do poeta: nomear o inominável, apontar as fraudes, tomar partido, despertar discussões, dar forma ao mundo e impedir que adormeça. Estávamos em plena guerra fria e atravessando sucessivas crises capitalistas, até nos deparar com a tão fartamente anunciada pandemia. Nessa barafunda toda, eis que surge o Setígono! E o que é isto? Apesar de novíssimo - só tem 5 aninhos e uma antologia festejada pela Noi Soul -, há uma vastíssima definição. Veja-se: para o cocriador Admmauro Gommes é um poema formado por 7 versos: um novo mundo criado em 7 dias. Para outro cocriador, Cicero Felipe: poema perfeito. Já para outros participantes do modelo poético, como Pedro Henrique: transcende a vida. Daí por diante, para Wilson Santos: uma obra de arte! Mari Rima o definiu como: uma arte viva terapêutica, em sete doses sem contraindicação, além de unir povos. Sylvia Beltrão: vacina e cura; Ivon das Aldeias: é ser no presente: o passado e o futuro; Caio Vitor Lima: um exercício complexo de metalinguagem; Enoque Gabriel, o Lorde Égamo: uma constelação brilhante com sete notas musicais, sete fôlegos de felino, sete astros brilhantes no espaço poético sideral – inclusive, ele está lançando um livro com e sobre o tema. Para Adailton Lima: é vida que pulsa, um mundo em sete versos. Para Pamella Emanuella: uma reinvenção exibindo não só poesia e forma, como também uma filosofia implícita. Já no dizer de Romilda Andrade: é a criação e resposta perfeitas para o nosso tempo, uma vez que o leitor, ao decodificá-lo, imprime suas sensações e denota para si o significado. Doutro modo expõe Patuska Quokka: instiga diálogos poéticos, oferta inúmeras possibilidades para inspirações a revigorar o sentir, o criar e o idioma. Na ótica de Rosa Custódia: conecta corações, tantos corações apaixonados. Na definição de Hanna da Hora: sempre pede bis! E Carlos Roberto alerta: Leia com atenção! Aí a Maria de Lourdes Joana Ribeiro saúda: é bom, muito bom, é muito bom setigonar. E na visão da designer gráfica do livro Setigonando a vida, Ana Luisa Monteiro: é o imagético em 7 pedaços, o vermelho nas extremidades realçando as cores do arco-íris na bandeira pernambucana. Enfim, sintetiza o cocriador Durán: uma festa, um vulcão em erupção! Daí o convite da Jaque Monteiro: Vamos setigonar, esse brasileirinho ousado! – ela também está lançando, em parceria com a Noi Soul, um livro com diversas formas de setígonos: fractal, prosa setigonal e o sui gêneris. (E só para constar: já são cometidas variadas tipologias setigonais, como o concatenado, o maior, o de rima única, o cruzado, o concatenado fechado, e por aí vai). Em resumo: um eflúvio num mundo entre a pandemia devastadora, a iminência de uma estúpida 3ª guerra mundial e a reboque do letal domínio de capital caprichoso do zilionário umbigocentrismo mercadológico. Cabum! Ou seja: pelo visto, parece mais atrevido ramo de pujante florzinha brotando serelepe numa rachadura tumular de asfalto bruto. Tá. E eu digo: Néstogas! (outra invenção do AG). Sim e digo deixando de pacutia e passando a régua, a reiterar: Antes do Fiat Lux havia apenas néstogas! E por isso tive de vivenciar uma iniciática condução alquímica pelo Graal na Tábua de Esmeralda do Corpus Hermeticum, alinhando os planetas à luz dos princípios matemáticos das mônadas e cheguei à conclusão: o setígono é mesmo néstogas! – o que foi, é e será mutuamente progressivo em número, grau e gênero! E é um enigma cabalístico: 2*5&5*7 - Dois versos saltam do escuro. Cinco emoções exorcizam as dores. Eis as sete razões pro poema salvar sua vida! Até mais ver.

 

Judith Schalansky: Ao escrever, assim como ao ler, uma pessoa pode escolher seus próprios ancestrais e estabelecer uma segunda linha hereditária intelectual para rivalizar com a herança biológica convencional... A escrita não pode trazer nada de volta, mas pode permitir que tudo seja vivenciado.... Veja mais aqui & aqui.

Anna Deavere Smith: Cada pessoa tem uma literatura dentro de si... Este momento se insere na tradição da poesia e da arte de protesto que remonta a séculos. Espero que essa dor leve a belas obras de arte... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Tamika Mallory: Estamos em estado de emergência... Veja mais aquí.

 

SÚPLICA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tirem-nos tudo, \ mas deixem-nos a música! \ Tirem-nos a terra em que nascemos, \ onde crescemos \ e onde descobrimos pela primeira vez \ que o mundo é assim: \ um labirinto de xadrez… \ Tirem-nos a luz do sol que nos aquece, \ a tua lírica de xingombela \ nas noites mulatas \ da selva moçambicana \ (essa lua que nos semeou no coração \ a poesia que encontramos na vida) \ tirem-nos a palhota  ̶ humilde cubata \ onde vivemos e amamos, \ tirem-nos a machamba que nos dá o pão, \ tirem-nos o calor de lume \ (que nos é quase tudo) \ - mas não nos tirem a música! \ Podem desterrar-nos, \ levar-nos \ para longes terras, \ vender-nos como mercadoria, \ acorrentar-nos \ à terra, do sol à lua e da lua ao sol, \ mas seremos sempre livres \ se nos deixarem a música! \ Que onde estiver nossa canção \ mesmo escravos, senhores seremos; \ e mesmo mortos, viveremos. \ E no nosso lamento escravo \ estará a terra onde nascemos, \ a luz do nosso sol, \ a lua dos xingombelas, \ o calor do lume, \ a palhota onde vivemos, \ a machamba que nos dá o pão! \ E tudo será novamente nosso, \ ainda que cadeias nos pés \ e azorrague no dorso… \ E o nosso queixume \ será uma libertação \ derramada em nosso canto! \ - Por isso pedimos, \ de joelhos pedimos: \ Tirem-nos tudo… \ mas não nos tirem a vida, \ não nos levem a música!

Poema da escritora, jornalista, tradutora e ativista política moçambicana Noémia de Sousa (Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares – 1926-2002), autora do livro Sangue Negro (2001), condensando a sua produção poética de 1948 a 1951.

 

VIVER A VIDA – [...] Tive que lutar essa batalha como se estivesse em um ringue de boxe — com o público e a imprensa... e ainda sou chamada de vagabunda... [...] Eles definitivamente me veem como uma mulher empoderada fazendo o que queria fazer contra todas as probabilidades naquela época... [...]. Trechos da entrevista How Pamela Des Barres Finally Transcended ‘The Band (Los Angeles Magazine, 2025), concedida pela escritora, atriz e musicista estadunidense Pamela Des Barres (Pamela Ann Miller), autora do livro de memórias I'm with the Band: Confessions of a Groupie (1987), no qual detalha suas experiências na cena musical dos anos 1960 e 1970, em que atuou produzindo os GTOs, grupo de música experimental de Frank Zappa. Ela também publicou outro livro de memórias, Take Another Little Piece of My Heart: A Groupie Grows Up (1993), inspirando o filme Almost Famous (2000), de Cameron Crowe. É autora de outras obras como Rock Bottom: Dark Moments in Music Babylon (1996); Let's Spend the Night Together: Backstage Secrets of Rock Muses and Supergroupies (2007) e Let It Bleed: How to Write a Rockin' Memoir (2017). Veja mais aqui & aqui.

 

A VIDA AOS 50... – [...] Adoro novos desafios e cresço com eles... [...] Nasci assim, com um forte senso de perfeccionismo. Por outro lado, tenho a capacidade de me perder completamente na natureza. Quando estou na floresta, realmente sinto meu eu interior. É uma mistura de alta aspiração e completa modéstia... [...] Um dos meus objetivos é ajudar a fazer a diferença na educação de meninas em outro país. Quero me envolver em uma organização beneficente que se concentre na educação feminina, porque a educação é o bem maior. É muito importante.... [...] Eu celebro minha vida e todos que fazem parte dela. Só quero agradecer a todos que viajaram comigo ao longo dos muitos anos... [...] Eu sempre tento aproveitar ao máximo minha situação e entender a mensagem. Sempre há uma mensagem. [...] Trechos recolhidos da entrevista (Discover Germany, Switzerland and Austria), concedida pela escritora, atriz e modelo alemã Ursula Karven, autora dos livros Yoga für die Seele (2003), Sina und die Yogakatze (2005), Das große Babybuch (2006), Das große Schwangerschaftsbuch (2006), Sinas Yogakatze und der singende Weihnachtsbaum (2007), Yoga für Dich (2007), yoga für dich und überall (2007), Yoga del Mar – Power Yoga II (2009), Mein Kochbuch für Kochmuffel (2011) e Loslassen Yoga-Weisheiten für dich und überall (2013).

 

AULA-ESPETÁCULO DE MARCONDES BATISTA

Neste 16 de setembro, das 14 às 17h, o IbaValeUna promove a Oficina de Desenho & Pintura – aula-espetáculo gratuita com o artista Marcondes Batista. Imperdível. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

SEMINÁRIO MALUNGUINHO & CATIMBÓ NA JUREMA

Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.



 


domingo, outubro 24, 2021

LEYLA PERRONE-MOISÉS, ABDULRAZAK GURNAH, GAVIN BRYARS, HELENO ALFONSO & ROGEL SAMUEL

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre as mutamorfoses e obsolescência... Ao som do album The Fifth Century (ECM, 2016), do compositor ingles Gavin Bryars, com o coral The Crossing & quarteto de saxofones PRISM, condução de Donald Nally. - Onde estou e pronde voo nenhuma liga, o tempo assina outra, como se minhas digitais dissolvessem a cada instante e desexistisse de vez no caos. Quase dou fé de que inexisto mesmo e tudo não passasse de um sonho por outro sonhado. Assim lá vou eu nas experiências alucinatórias do que se pode entender por mundo contemporâneo: o volátil, o volúvel, a interdição, os simulacros, o terror incógnito, consumo e descarte, os equívocos e segredos recônditos, as distorções e os mal-entendidos de mortos-vivos, os pós-o-quê com todos os pós-ismos tudo ou quase tudo só artifício. Meio atordoado no meio disso tudo, eis que o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah alerta ao meu ouvido: Foi assim que pessoas como você e eu conhecemos tanto do mundo: lendo sobre isso de pessoas que nos desprezavam... Às vezes, acho que meu destino é viver nos escombros e na confusão de casas desmoronadas. Concordei com o dito e sua presença, ali mesmo era como se eu estivesse metido em carne viva na real Das Leben auf der Praça Roosevelt, da Dea Loher, e me sentisse em casa no reduto miserável das Marias e o mudo Mundo cantarolando Oh! Vos omnis quitransits per viauatendite; atenditeet videte teunsi est dolorsieut dolor meo, e isso depois de muito presenciar acasalamentos de extraterrestres com as insones transeuntes tontas e a loucura de gente que vive só com a roupa do corpo, no meio dos gestos de Aurora provocando desafios a Bingo, enquanto a mãe amargurada com seu choro insistente pelo policial em coma e a memória do filho morto batendo no submundo a denunciar ali não haver vida, nunca foi, qualquer outra coisa que fagulha no meu peito de indignação. E me veio o professor beninense Olabiyi Babalola Yai para cochichar no desalento da minha dor: Os homens são mais eles mesmos quando vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e viver as dos outros. E naquele estado em que estava jamais poderia concordar com isso, mas o poeta Rogel Samuel me recitou: todo amor é assim, plágio / cópia de cópia de si, no mesmo / sim na sua visibilidade... Quanto mais eu relutava só ouvia a escritora argentina Beatriz Sarlo quase berrando ao meu ouvido: Tem um momento de coincidência entre o que você necessita e o que a vida lhe oferece. Você tem que estar acordado para agarrar essa chance. A coragem aparece quando não há mais solução. Acredito que o crime é igualmente horrível, sejam 10 ou 30 mil... Tento ficar a par de tudo que ocorre no presente - para alguns apenas o futuro do pretérito; outros, só o passado mesmo e de novo -, e posso dizer umas duas ou três coisas outras, não mais que isso, que no meio das mutamorfoses e a obsolescência já sei que não basta apenas dar enter, porque tantos delírios pseudo-intelectuais com suas masturbações e impulsos neognósticos sobrando entre anoréxicos e voyeuristas, craquers, hackers e biomakers na boa, extremófilos e intimistas surfando comigo de mãos dadas com todo mundo pela sci-art e o nano-mundo, atravessando o universo escuro e a extremofilia, teratologias biotecknicas, contatos em níveis nanométricos, territórios do perigo e conflitos, afora polimórficas possibilidades, eita! Ufa! Sei e todos estão carecas de saber que a Terra é redonda e insistem em cagar pelos quatro cantos do mundo. Não sei pra quê tanta lei, apensar da compulsoriedade jamais será cumprida. Por isso chamo de gato ao gato e ao governante de patife, porque estamos na primavera de Ginsberg pelo mote recolhido por Paulo Cavalcante no arremate: De circunlóquios eu nada sei. O caso conto, como o caso foi. Na minha frase de dura lei, o ladrão é ladrão, o boi é boi. E ponto final. Ou melhor, reticências...

 


Pássaro preto, traquinagens da infância... - Imagem: Kein Nachwuchs fir den Champion oder Der Junge der New Jersey erschoB VON Israel Horowitz, in Hörspielle im Westdeustschen Rundfunk 2, Halbjahr 1987. - Era eu apenas um menino da beira do rio, travesso solto na buraqueira, proutras paragens eu ia a me divertir levantando as saias das moças, ou me deitando no chão para ver-lhes as intimidades das calcinhas estufadas, quando não brechando sua nudez pelas fechaduras do quarto ou do banheiro, afora futucar com tudo que me aparecesse pela frente. E meu pai ocupado com as gaiolas da coleção e, entre elas, a da sua estimação: a graúna, o brilho sedoso de sua plumagem negra. Desde que a vi pela primeira vez, sonhei que era a morte, o corvo de Poe que, de repente, se tornara penas brilhantes e com o poder mágico, a me prometer antevisões do futuro, a me aconselhar com orientações para fazer isso ou aquilo e era só sonho. Não só, mesmo. Ao amanhecer, de soslaio, mantinha distância dela, queria aproximação nenhuma. E de tanto temê-la, um dia a soltei aproveitando o descuido paterno. Ela voou longe na fuga, mas retornou e me caçou, pegou-me pelo bico e voamos com a suíte L'Oiseau de feu (1919) de Stravinsky. Foi uma grande viagem e me largou longe, no pico de uma montanha que se transformou num palácio abandonado. Depois, deu-me uma chave para que abrisse a primeira porta: cavalos para minha diversão. Outra chave e no quarto, arreios e selins. Outras mais a cada dia, eram sete: e moças ousadas e sedutoras, mulatinhas safadas a me dengar e eu aos regalos no meio de espadas - Para quê tantas? -, um rio de prata e um rio de ouro. Só não sabia, depois de tudo, do castigo: a graúna vingativa tirou-me a roupa, largou-me no deserto e deu-me uma varinha de condão. Errei sozinho e uma princesa à beira do fogo parecia me esperar, não sabia, mas o pai dela adoeceu e para sua cura só três pássaros de plumas. Usei da varinha: os três pássaros foram encontrados e trazidos a ele que logo se restabeleceu, dando uma festa de três dias, nos quais findei nos braços dela que se deleitava como se fosse a demi-mondaine Méry Laurent – aquela mesma atriz nua Vênus Anadyomene do Théâtre des Variétés, e que fora antes Anne ou Rose ou Suzanne ou mesmo Louviot e que a mãe havia vendido sua virgindade debutante para Canorbert por 500 francos ao mês, afora amantes outros ricaços e da vanguarda francesa, até tornar-se musa da minha paixão Mallarmé no quadro de Manet e Nana de Zola. De repente adúlteros flagrados na noite por minha filha Genevieve, não sabíamos o que fazer, mãos e sexo na botija, completamente desnorteado porque ela se transformara noutra pessoa e o escritor estadunidense Roger Shattuck (1923-2005), me falou de seu Conhecimento proibido (Companhia das Letras, 1998) para me contar que ela era apenas uma senhora vitoriana – na verdade e para meu espanto era a mula sem cabeça -, e relutava agora contra a teoria de Darwin: Descender de macacos! Meu caro, esperamos que não seja verdade, mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!... Não era mais aquela, nunca foi, só pode ser outra. E mais insistia na sua Planolândia, como uma senhora de bem, patriota roxa e acima de todos e quaisquer pecados ou suspeitas, e eu fisgado pela veemência de seus seios fartos no desatento desabotoado de sua blusa justa colada naquela excelsa arquitetura de fêmea e a libido acesa e incontrolável com o lascão da saia exaltando suas coxas volumosas e eu clamando pelo amor de Deus para ela se acalmar e poder reconduzi-la à alcova.

 


Apenas escrevo... Imagem: Comovida medida de distância (1988), da videoartista palestina, Mona Hatoum. - Onde estive já não faz o menor sentido, embora não haja como apagar porque o caos piorou o mundo e persistem as cavilações de nem sei quem, talvez de mim mesmo, outros são os motivos e ignoro por completa ausência de significado. Disparo intuições, uma das pernas dos óculos se quebrou e eu precisava ler e reler, agora apenas esperar com os trechos de um poema do livro Oropa França e Bahia (Edizioni della Meridiana, 2004), do poeta Heleno Alfonso Oliveira (1941-1995) na memória : É ser e remar / Na mesma zoada / Na onda arrastada / Do mar sem raiz. / E Deus não se rima / Bem perto ressoa / Ao centro da alma / Perdida e à toa / Enquanto me vejo / Cantando Marina / Cantando Pessoa / Bem fora do templo... E pelos lapsos do esquecimento, o poema suspenso, só conseguia me lembrar doutra parte: Sem um amparo / Sigo a Sophia. ; Luz de Apolo / Dança de Baco? E uma voz feminina com todo seu perfume aprazível invadiu o ambiente. Quem era? Só muito depois pude ver, era a escritora Leyla Perrone-Moisés: A literatura nasce da literatura. Cada obra nova é continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea... A função revolucionária da literatura não consiste em emitir mensagens revolucionárias, mas em levantar uma dúvida radical sobre o determinismo da história. E mais me falou d’ As Sombras de Olinda (Caminho, 1997), do Clarindo, Clarindo (1990) e do póstumo Se era vera la notte (2003), daquele que um dia dissera: Florença é uma manhã de dezembro / onde cheguei gritando do meu Hades. E já outra, quase irreconhecível camaleoa que sequer adivinhava o nome e propósitos, mas que se fizera mais que felicíssima amante, a me premiar o que da vida mais apetece na festa do seu corpo. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

FAÇA SEU TCC SEM TRAUMAS – CURSO & CONSULTAS

 


Vem aí o Programa Tataritaritatá. Enquanto isso, veja mais aqui.

 




segunda-feira, março 18, 2019

ERIK SATIE, MALLARMÉ, SUZANNE VALADON, KATHARINE BRUSH, SÍLVIO HANSEN & ÚNICO AMOR



ÚNICO AMOR – A vida de Honfleur, para quem veio criança órfã de lá de Pont-l’Evêque, criado pelo tio boêmio que inventava navios inúteis e carros bonitos para ninguém guiar. Herdou dele a fantasia, afora a imaginação aos voos com as leituras de Andersen. Aprendeu piano, sem quase saber do pai, de Olga ou Conrad, seus irmãos. Adolescente em Paris ingressou no conservatório para ser humilhado pelos professores: um metro e sessenta centímetros de mediocridade e preguiça, sujeito imprestável sem o menor senso de ridículo. Procurava emprego se apresentando como Gymnopedista. Enfim, conseguiu emprego de pianista no Chat Noir, morando em um quarto pequeno de Montmarte. Depois, no Auberge du Clou, conheceu Claude e, em seguida, Maurice. Para eles expôs o que havia de insólito, ilógico, ambivalente, enigmático, irreverente, mordaz místico, todo seu teatro do absurdo no minimalismo musical, repetitivo. Surgia Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera, uma obra com título estranho derivado do antigo festival grego Gymnopaedia, dedicado ao deus Apollo, no qual jovens nus dançavam ao som da música de flauta e lira. Na sua loucura hermética fundou sua própria igreja, L'Eglise Métropolitaine d'Art de Jésus Conducteur: era o único membro e excomungava quem discordasse. Compôs as Trois Gnossiennes, um conjunto de composições para piano. De repente, alguém chegou à sua vida como a tempestade. Era a vizinha, uma paixão. Ao primeiro contato com ela, pediu-lhe a mão em casamento. Nem sabia quem era. E ela, uma bela filha duma lavadeira de pai desconhecido, acrobata desde menina com sequelas da queda. A enfeitiçante boniteza dela estava exposta como garçonete em cafés e modelo para pintores como Renoir, Tolouse-Lautrec, Degas, Puvis de Chavannes. Era a Biqui dele, a musartista, que reluzia como a rainha da boêmia no Société Nationale des Benaux-Arts. Era caprichosa, extravagante, carregava cenouras e cuidava de gatos e de uma cabra num escritório. Era levada pela estética de Pont-Aven e a má reputação dos bares. Ele a amava, o amor e a descoberta: ela pintava e fez o retrato do amado. Idílio infinito, avassalador. Durou seis meses apenas, o coração partido, a solidão e mais de trezentas cartas de amor, o único amor dele, Biqui, ah Biqui. Ela casou-se com outro. Ele então se mudou com sua irreverência e excentricidade para o subúrbio, caminhando longamente, nove quilômetros todos os dias para tocar em Montmartre. Escrevia e caricaturava a si e aos outros. Rascunhava e da sua caligrafia autobiográfica surgiu Mémoires d'um Amnésique, Escritos em forma de Grafonola e Cahiers d'un Mammifére, um livro com poemas, canções e relatos que revelam sua irônica verve. Ficou famoso por suas estranhezas: possuía doze ternos de cinza de veludo idênticos e colecionava guarda-chuvas e cachecóis: Embora sejam falsas as nossas informações, nada podemos garantir. Era maníaco por comida branca, sempre um prato com ovos, arroz, coco, nabo, peixe, queijo. Detestava o sol, na solidão e maturidade. Foi, então, que ingressou na Paris Schola Cantorum e estudou contraponto e orquestração. As suas partituras continham anotações com instruções na interpretação, todo mundo espantado. Inventou a música ambiente, usada como mobília, neutralizando os ruídos da rua com seus naturais e estranhos silêncios e barulhos: a sua musique d'ameublement. O público atento à performance e ele nervoso: Falem alguma coisa! Mexam-se! Não fiquem aí parados só escutando! Não era piada e ninguém entendeu. Ele aboliu as estruturas sofisticadas e complexas, despojando-se em forma simples, o seu minimalismo: Vexations, trinta e dois compassos repetidos oitocentas e quarenta vezes. Escreveu a comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, platitudes e lugares-comuns. E compôs a ópera Geneviève de Brabant. Na amizade se avalia da de Pablo, grandes amigos, corroborou na revolução cubista. E Jean. O trio trabalhou no ballet Parade, pro Ballet Russo de Diaghilev. Ao compor a música inovadora, incorporou sirene, tiros de pistolas e uma máquina de escrever. Um escândalo por explorar o mundo dos sonhos e do subconsciente, não menos pelo cenário e vestuário de Pablo, como pelo argumento escrito por Jean: o surrealismo para Appolinaire. Com o drama sinfônico para quatro sopranos e pequena orquestra, Socrate, textos platônicos e extrema austeridade: a mudança de estilo que ganhou desprezo. Para críticos e compositores, sua obra não passava de miniaturas musicais com harmonias estranhas, escalas pouco convencionais e ausência de virtuosismo instrumental, justamente por possuir recursos técnicos insatisfatórios e sua deficiente formação de compositor e pianista. Era escárnio. Mas ele sabia das suas debilidades. O Gymnopédiste estava enclausurado por quase quinze anos sem compor, regressou à vida noturna parisiense com sua Música de Mobiliário. E vieram Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço e Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira. Vagava incansável: inundado por uma solidão glacial que enche a cabeça de vazio e o coração de tristeza. Ah, Biqui, a vida entre os guarda-chuvas, lenços, colarinhos, tiras de papel, desenhos, partituras, dois pianos desafinados e amarrados por cordas, a pobreza, a cirrose e nada mais, até se render à morte, enquanto ela navegava pelo céu de Montmartre com outros amores. Dele apenas anotações em pedaços de papel: O meu nome é Erik Satie, tal como todas as outras pessoas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Servia coristas e estudantes, matronas jovens e alegres, jovens amantes ainda mais alegres, uma senhora que se divorciara de quatro maridos, outra que havia apunhalado alguém, a noiva mais ou menos secreta de um nome dos mais distintos e o cérebro de um bando de contrabandistas de álcool. Via coisas... Viu uma face amarela, onde a tinta secara. Viu quatro equimoses minúsculas, tais como poderia ter sido deixadas por dedos sobre um braço. Viu uma rapariga bater em outra, sem ser por brincadeira. Viu um maço de cartas que um homem preferira não ter escrito, guardado, escondido, no fundo de uma bolsa de brocado [...].
Trecho do conto Night Club (Ediouro, 2004), da escritora estadunidense Katharine Brush (1902-1952).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não se pode fazer nada muito bem a não ser com muito amor.
A arte da  pintora francesa pós-impressionista Suzanne Valadon (1865-1938), único amor do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925). Sobre o romance de ambos, o cineasta canadense Tim Southam dirigiu Satie & Suzanne (1994), contando as memórias agridoces do compositor com a sua amada, num café parisiense, enquanto as águas do rio Sena transbordavam.
A pintora foi uma personalidade marcante na cena artística parisiense antes do cubismo, tendo sido acrobata, garçonete e modelo dos pintores Renoir, Degas e Toulouse-Lautrec.
Foi a primeira mulher admitida na Société Nationale des Beaux-Arts. Sobre sua vida foi publicada a obra Suzanne Valadon (Martins Fontes, 1989), de Jeanne Champion e, também, Suzanne: of love and art (1959), de John Storm com ilustração da própria artista. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE ERIK SATIE
A música do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925) está no cenário da vanguarda parisiense do início do século XX, sendo ele o precursor dos movimentos minimalista, do teatro do absurdo, da música repetitiva e do ragtime, este último um estilo pré-jazz. Ele exerceu influência até tornar-se cult entre os contemporâneos Debussy e Ravel, mudando o curso da história da música. É autor de obras como Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera (1888), Gnossiennes (1890), Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço, Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira, Canções, Socrate, Jack in the Box e da ópera Geneviève de Brabant, entre outras. É também autor da comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, de 1913, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, carregadas de platitudes e lugares-comuns. Veja mais aqui.
&
A arte do artista visual Sílvio Hansen aqui, aqui, aqui e aqui.
&
A obra do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quarta-feira, agosto 15, 2018

MALLARMÉ, SÉRGIO FRUSONI, ALTAMIRO, MANZONI, AUROBINDO, TRACEY EMIN & BIDIÃO


EXORCISMO NA HORAGÁ – Imagem: arte da artista inglesa Tracey Emin. - Assim do nada, chegou de repente a notícia de uma mulher que corria bicho. Como é que pode? Autoenlouqueceu-se. Assim, sem mais nem menos. Depois, envultou-se! Trela pra linguarudos: Oxente, ainda ontem ela estava toda catita espalhada aos suspiros do sarro, coração de beija-flor na maior das liberdades no namorico!?! Pois é, aluou-se. Quem vai ver? O primeiro a pisar por aquelas bandas foi o Doro. Quando viu o desmantelo, vôte, picou a mula e foi ter com o padre Quiba, tintim por tintim. Meio mundo de gente acompanhando os detalhes. Não deu outra, o vigário ao ficar a par da coisa, abriu da vela na hora. Pediu arrego e arribou. Quem é doido? Eita! E foram ter com catimbozeiro, espírita, profetas e munganguentos. Nenhum topou a parada. Aí, o Bidião que não era ainda padre nem nada, logo encarou a bronca. Danou-se! Lá vai o noivo das pinguins de convento todo serelepe. Era a sua hora e, no caminho, todo precavido, ensaiou logo umas orações fortes, armou-se de uma cachaça boa – santo remédio, dizia, pressas ocasiões, quebradora de malditas bruxarias -, uma carranca pequena em cada bolso, peito estufado e a coragem se acovardando. E o povo atrás. Era chegado o momento. A mulher estava nua no cio e mirando o rio. Ao vê-lo chegar, ela deu um ronco de balançar o mundo todo. Segurando-se como podia, diante do estrupício, os santos não vogaram, ficou no aperto. Cada vez que ela olhava pra ele, a bosta apertava pra sair tripa gaiteira afora. Fechou o bocal da quartinha e jurou que não ia cagar fora do caco, jeito maneira. Ou era homem ou não era, a prova dos nove. A carne é fraca, tremeu-se todo, torou um aço da pega! A mulher amuada esfumaçava pelas ventas, soltava raio pelos olhos vermelhos como tição, rogando pragas, ameaçando tudo. Ele, então, todo cheio das tretas usou da malícia, aplicando uns truques que nem sabia e abriu uma pauta com a diaba na encruzilhada do ribeirão. Rolou o maior lero: ele macio e ela aos brados ruidosos de dar catabí na terra. Segura o tombo senão a casa cai. Ao chegar perto dela, ela agarrou-se nele da poeira subir no saçaricado de só se ouvir a voz dele: tico-tico, cirico, selerico, não tem pé, nem tem bico. Só eu cisco pra pegar no seu priquito. E dançou agarrado, maior rastapé. Tu te bole e eu me mexo, tiro fora e dentro deixo. Um pra lá, outro pra cá, pega aqui, pega acolá. Entro enxuto e saio molhado, não tem quem me segure no proseado. O vuque-vuque medonho, ninguém podia ver no meio da ventania, trovões, relâmpagos e estouros. Só deu pra ver em dado momento ele com o espinhaço envergado e ela afoita, montada nas partes pudendas dele como se num cavalo rompedor, cavalgando aos urros e ele gritando: Ninguém pode com os poderes de Deus! Foi pra mais de hora na peleja e só ao baixar da poeira que viram a dita cuja estirada, os quartos de banda, toda oferecida, de deixar se levar cela e cabresto pelo jeitoso todo ancho que, ainda por cima, fazia careta pra todo mundo. Foi aí que se apagaram as luzes do firmamento, o mundo escureceu com trovoadas faiscantes e um fumaceiro desgraçado com uma catinga de enxofre de ninguém aguentar. Diziam ser a hora do desencantamento. O cabra é macho mesmo, mandou ver na medida. É mesmo. O povo pasmado. De dentro dela saiu um vulto enorme espocando raio pra todo lado. Calmamente Bidião ajeitou o pingolin que estava mole do lado de fora, guardou no ajeitado e fechou o zíper. Depois ele pegou do bolso as duas carrancas, e no chão uma em cada lado, abriu o frasco, tomou de um gole e cuspiu fora. Uma cusparada certeira, bem no toitiço do cabrunco. Oxe, o coisa-ruim na hora soltou um grito fino e foi se desmanchando, ais e uis, virou fumaça e estourou. Ploft. Pronto, não deu outra: a partir de então começou o falatório com as façanhas do Bidião. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e flautista Altamiro Carrilho (1924-2012): Clássico em chorinho, Revive Pattápio, É o sucesso & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Para caminhar pela vida protegido contra todo medo, perigo e desastre, só duas coisas são necessárias, duas que andam sempre juntas — a Graça da Mãe Divina e, ao seu lado, um estado interior composto de fé, sinceridade e entrega. Que tua fé seja pura, cândida e perfeita. Uma fé egoísta no ser mental e vital, contaminada por ambição, orgulho, vaidade, arrogância mental, vontade própria vital, exigência pessoal, desejo pelas pequenas satisfações da natureza mais baixa, é uma chama baixa e enfumaçada que não pode queimar erguendo-se ao céu. Olhe tua vida como dada a você somente para o trabalho divino e para ajudar na manifestação divina. Não deseje nada a não ser pureza, força, luz, amplitude, calma, Ananda da consciência divina e sua insistência para transformar e aperfeiçoar tua mente, vida e corpo. Não peça nada a não ser a Verdade divina, espiritual, supramental, sua realização sobre a terra, em você e em todos que são chamados e escolhidos , e as condições necessárias para sua vinda e sua vitória sobre todas as forças que se opõem. Que tua sinceridade e entrega sejam genuínas e inteiras. Quando se der, dê-se completamente, sem exigência, sem condições, sem reserva, de modo que tudo em você possa pertencer à Mãe Divina e nada seja deixado ao ego ou dado a algum outro poder. [...]. Pensamento do escritor e filósofo indiano Sri Aurobindo (1872-1950).

MANIFESTO: ARTE & ESPAÇO DE LIBERDADE - A arte não é verdadeira criação e fundação senão quando cria e funda lá onde as mitologias têm seu próprio fundamento último e sua própria origem. Para poder assumir o significado da própria época a questão é, portanto, chegar à própria mitologia individual, no ponto em que ela consegue identificar-se com a mitologia universal. A dificuldade está em liberar-se dos fatos estranhos, dos gestos inúteis: fatos e gestos que poluem a arte usual de nossos dias, e que por vezes são tão evidenciados que chegam ao ponto de se transformar em emblemas de modos artísticos. O crivo que permite tal separação entre o autêntico e a escória, que nos leva a descobrir, em uma sequencia incompreensível e irracional de imagens, um complexo de significados coerentes e ordenado é o processo de autoanálise. É através dele que nos reconectamos a nossas origens, eliminando todos os gestos inúteis, tudo aquilo que em nós é pessoal e literário no pior sentido da palavra: recordações nebulosas da infância, sentimentalismos, impressões, construções intencionais, preocupações pictóricas, simbólicas e descritivas, falsas angústias, fatos inconscientes que não afloram à superfície, a imensa iluminção de sábado a noite, a repetição contínua em sentido hedonista de descobertas exauridas – tudo isso deve ser eliminado. Através desse processo de eliminação, o originário humanamente atingível vem manifestar-se, assumindo a forma de imagens que são nossas imagens primeiras, nossos “totens”, nossos e dos autores e espectadores, pois são as variações historicamente determinadas dos mitologemas primordiais (mitologia individual e mitologia universal identificam-se). Tudo deve ser sacrificado a essa possibilidade de descoberta, a essa necessidade de assumir os próprios gestos. A própria concepção habitual de quadro deve ser abandonada; o espaço-superfície só interessa ao processo auto-analítico como “espaço de liberdade”. E também não deve preocupar-nos a coerência estilística, pois nossa única preocupação possível é a pesquisa contínua, a contínua auto-análise, com a qual, apenas, podemos chegar a fundar morfemas “reconhecíveis” por todos no âmbito de nossa civilização. Manifesto do artista italiano Piero Manzoni (1933-1963), extraído da obra Escritos de artistas: anos 60/70 (Jorge Zahar, 2006), organizado por Gloria Ferreira e Cecília Cotrim.

IGITUR – [...] Este conto se endereça à Inteligência do leitor que põe as coisas em cena, ela mesma. [...] Certamente subsiste uma presença de Meia-noite. A hora não despareceu por um espelho, não fugiu em tapeçarias, evocando uma mobília por sua vacante sonoridade. [...] E da Meia-Noite permanece a presença na visão de uma câmara do tempo onde a misteriosa mobília para um vago frêmito de pensamento, luminosa quebra do retorno dessas ondas e de seu alargamento primeiro, enquanto se imobiliza (num movente limite), o lugar anterior da queda da hora numa calma narcótica de eu puro longamente sonhado [...] Desta vez a hora não cai mais fora de mim, para tornar pesado o tempo refugiado nas cortinas, nem, quando eu lhe [o] imploro, fugir pelo espelho, é em mim que ela cai acordando esta consciência de mim pela lembrança, – ela recria meu ser e me devolve a sensação do que tenho que fazer. [...] Pareceu-me ouvir o som especial de uma Meia-noite. A hora é [ela?] O que lança o relógio não foi, indefinido, encher as cortinas ou se perder pela fuga de um espelho, deixando-me sempre exterior [a ela.] Não, ao som muito certeiro de uma Meia-noite, reconheci primeiro que o instante era aqui e, como um único instante pode ser [...], e me lembro de mim mesmo. [...] Meu pensamento foi portanto recriado; mas e eu, tê-lo-ei sido? Sim, sinto que esse tempo versado em mim me devolve este eu, e vejo-me semelhante à onda de um narcótico tranquilo cujos círculos vibratórios vão e vem, fazendo um limite infinito que não atinge a calma do meio. [...] E antes de tudo esta inteligência deve voltar-se para o Presente. [...] Trechos extraídos da obra Igitur ou A loucura de Elbehnon (Nova Fronteira, 1985), do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aqui e aqui.

TRÊS POEMAS – APRESENTAÇÃO - Dêem-me licença. Vim cá pagar / Uma dívida de saudade e de amor. / E como a saudade e o amor são amigos da cantiga / Passem-me um violão: quero cantar! / Sim, cantar. Nesse toada nossa: / Ora triste, ora alegre… / Consoante o coração mandar!... / Quem eu sou? Um filho de San Vicente. / Nascido, criado, lá na Ponta da Praia. / Lá onde o mar se espreguiça debaixo dos botes, / Como a barra duma saia. / O que eu quero? Cantar a minha terra! / Acompanhá-la na sua dor; / na nobreza da sua alma; / na pobreza da sua vida! / Dizer-lhe na hora da despedida: / Eis o meu corpo: estruma o teu chão! / Eis o meu sangue: rega o teu milho! / Irmão: eis o teu irmão! / Mãe: eis o teu filho!.. PARA FRENTE É QUE É O CAMINHO - Escuta. / Eu não sou daqueles / que andam a rimar amor com flor, / nem daqueles que andam a procurar / como peixe na rede, / um buraco para fugir. / Ideia de embarcar / nunca me passou pela cabeça. / Nunca gostei de andar depressa, / Nem de arrepiar caminho. / Se é para ir viver vida de galinha choca / em terras aonde o sol / vê-mo-lo só aos bocadinhos, / se é para ir sentir o pão amargar-me na boca, / na terra dos mandingas e dos landins. / Antes de ficar por cá a gozar deste mar / E deste céu. / Não, compadre, não vou na troca! / Para frente é que é o caminho!... DIANTE DO MAR DE SAN VICENTE - Coitados daqueles / que não quiseram ouvir mar, e foram / para terra longe, / perder a lembrança deste sol, / e a aprender estórias / que ninguém quer contar. / Coitado daqueles!... / Mas cada um deles / levou, na concha do ouvido, / a voz da tua ressaca, mar, / para os guiar, / como o tino guia a pomba, / na hora de voltar. / Eis-me diante de ti, mar, /— filho diante do pai — / a querer acatar a tua palavra / e ouvir os teus conselhos. / Eis-me diante de ti, mar, / pedaço de retalho / vindo a boiar na ribeira / esvaziar a impureza que catei no mundo. / A querer ir na enxurrada de lama a cascalho   / que hás-de voltar a arremessar nestas bordeiras / juntamente um dia com a areia e o limo do teu fundo. Poemas do poeta cabo-verdiano Sérgio Frusoni (1901-1975). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista inglesa Tracey Emin.
Veja mais aqui.

AGENDA
O livro (Ab)sinto de Madalena Zaccara & muito mais na Agenda aqui.
&
A saga do padre Bidião aqui e aqui.
&
Políticas em debate, A dialética de Antonio Gramsci, As experiências de John Hagelin, o pensamento de Comenius, O homo ludens de Johan Huizinga, Diálogos de Reginaldo Oliveira & a arte de Nicomedes Gómez aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...