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domingo, setembro 14, 2025

NOÉMIA DE SOUSA, PAMELA DES BARRES, URSULA KARVEN, SETÍGONO & MARCONDES BATISTA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Sempre Libera (Deutsche Grammophon, 2004), Violetta - Arias and Duets from Verdi's La Traviata (Deutsche Grammophon, 2005), Verdi’s La Traviata (Deutsche Grammophon, 2006), The Opera Gala (Deutsche Grammophon, 2007) & Anna Netrebko Live At The Metropolitan Opera (Deutsche Grammophon, 2011), da soprano russa Anna Netrebko (Anna Yuryevna Netrebko). Veja mais aqui.

 

Reiteramentos setigonais: só a poesia torna a vida suportável!... - O fim foi anunciado na escatologia da contemporaneidade, detectado pela frase de Theodor Adorno: Depois de Auschwitz, a poesia não é mais possível! Ninguém mais poderia olvidar nem mesmo ficar indiferente à barbárie e o que já vinha desde o século 19, convencionando-se que o poema, depois de Mallarmé, era um inevitável fracasso, uma obra falhada. Em meados do século 20, na Die Panne (A Pane – uma história ainda possível) de Dürrenmatt, a indagação: Existem ainda histórias possíveis? – e a obra foi adaptada para o cinema com o título La più bella serata della mia vita (ou seja, A mais bela noite de minha vida), dirigido pelo Ettore Scola. E o tempo passou, como dizia Mário Faustino, neste mundo infame como ainda é o nosso. O estardalhaço das mortíferas bombas deixou escapulir o recado de Apollinaire: a de que a função social do poeta era renovar incessantemente a aparência de que se reveste a natureza aos olhos dos homens. E acompanhado de um puxão de orelha do Ernst Fischer: a função da arte é abrir portas fechadas. Aí Salman Rushdie pegou pesado: É a função do poeta: nomear o inominável, apontar as fraudes, tomar partido, despertar discussões, dar forma ao mundo e impedir que adormeça. Estávamos em plena guerra fria e atravessando sucessivas crises capitalistas, até nos deparar com a tão fartamente anunciada pandemia. Nessa barafunda toda, eis que surge o Setígono! E o que é isto? Apesar de novíssimo - só tem 5 aninhos e uma antologia festejada pela Noi Soul -, há uma vastíssima definição. Veja-se: para o cocriador Admmauro Gommes é um poema formado por 7 versos: um novo mundo criado em 7 dias. Para outro cocriador, Cicero Felipe: poema perfeito. Já para outros participantes do modelo poético, como Pedro Henrique: transcende a vida. Daí por diante, para Wilson Santos: uma obra de arte! Mari Rima o definiu como: uma arte viva terapêutica, em sete doses sem contraindicação, além de unir povos. Sylvia Beltrão: vacina e cura; Ivon das Aldeias: é ser no presente: o passado e o futuro; Caio Vitor Lima: um exercício complexo de metalinguagem; Enoque Gabriel, o Lorde Égamo: uma constelação brilhante com sete notas musicais, sete fôlegos de felino, sete astros brilhantes no espaço poético sideral – inclusive, ele está lançando um livro com e sobre o tema. Para Adailton Lima: é vida que pulsa, um mundo em sete versos. Para Pamella Emanuella: uma reinvenção exibindo não só poesia e forma, como também uma filosofia implícita. Já no dizer de Romilda Andrade: é a criação e resposta perfeitas para o nosso tempo, uma vez que o leitor, ao decodificá-lo, imprime suas sensações e denota para si o significado. Doutro modo expõe Patuska Quokka: instiga diálogos poéticos, oferta inúmeras possibilidades para inspirações a revigorar o sentir, o criar e o idioma. Na ótica de Rosa Custódia: conecta corações, tantos corações apaixonados. Na definição de Hanna da Hora: sempre pede bis! E Carlos Roberto alerta: Leia com atenção! Aí a Maria de Lourdes Joana Ribeiro saúda: é bom, muito bom, é muito bom setigonar. E na visão da designer gráfica do livro Setigonando a vida, Ana Luisa Monteiro: é o imagético em 7 pedaços, o vermelho nas extremidades realçando as cores do arco-íris na bandeira pernambucana. Enfim, sintetiza o cocriador Durán: uma festa, um vulcão em erupção! Daí o convite da Jaque Monteiro: Vamos setigonar, esse brasileirinho ousado! – ela também está lançando, em parceria com a Noi Soul, um livro com diversas formas de setígonos: fractal, prosa setigonal e o sui gêneris. (E só para constar: já são cometidas variadas tipologias setigonais, como o concatenado, o maior, o de rima única, o cruzado, o concatenado fechado, e por aí vai). Em resumo: um eflúvio num mundo entre a pandemia devastadora, a iminência de uma estúpida 3ª guerra mundial e a reboque do letal domínio de capital caprichoso do zilionário umbigocentrismo mercadológico. Cabum! Ou seja: pelo visto, parece mais atrevido ramo de pujante florzinha brotando serelepe numa rachadura tumular de asfalto bruto. Tá. E eu digo: Néstogas! (outra invenção do AG). Sim e digo deixando de pacutia e passando a régua, a reiterar: Antes do Fiat Lux havia apenas néstogas! E por isso tive de vivenciar uma iniciática condução alquímica pelo Graal na Tábua de Esmeralda do Corpus Hermeticum, alinhando os planetas à luz dos princípios matemáticos das mônadas e cheguei à conclusão: o setígono é mesmo néstogas! – o que foi, é e será mutuamente progressivo em número, grau e gênero! E é um enigma cabalístico: 2*5&5*7 - Dois versos saltam do escuro. Cinco emoções exorcizam as dores. Eis as sete razões pro poema salvar sua vida! Até mais ver.

 

Judith Schalansky: Ao escrever, assim como ao ler, uma pessoa pode escolher seus próprios ancestrais e estabelecer uma segunda linha hereditária intelectual para rivalizar com a herança biológica convencional... A escrita não pode trazer nada de volta, mas pode permitir que tudo seja vivenciado.... Veja mais aqui & aqui.

Anna Deavere Smith: Cada pessoa tem uma literatura dentro de si... Este momento se insere na tradição da poesia e da arte de protesto que remonta a séculos. Espero que essa dor leve a belas obras de arte... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Tamika Mallory: Estamos em estado de emergência... Veja mais aquí.

 

SÚPLICA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tirem-nos tudo, \ mas deixem-nos a música! \ Tirem-nos a terra em que nascemos, \ onde crescemos \ e onde descobrimos pela primeira vez \ que o mundo é assim: \ um labirinto de xadrez… \ Tirem-nos a luz do sol que nos aquece, \ a tua lírica de xingombela \ nas noites mulatas \ da selva moçambicana \ (essa lua que nos semeou no coração \ a poesia que encontramos na vida) \ tirem-nos a palhota  ̶ humilde cubata \ onde vivemos e amamos, \ tirem-nos a machamba que nos dá o pão, \ tirem-nos o calor de lume \ (que nos é quase tudo) \ - mas não nos tirem a música! \ Podem desterrar-nos, \ levar-nos \ para longes terras, \ vender-nos como mercadoria, \ acorrentar-nos \ à terra, do sol à lua e da lua ao sol, \ mas seremos sempre livres \ se nos deixarem a música! \ Que onde estiver nossa canção \ mesmo escravos, senhores seremos; \ e mesmo mortos, viveremos. \ E no nosso lamento escravo \ estará a terra onde nascemos, \ a luz do nosso sol, \ a lua dos xingombelas, \ o calor do lume, \ a palhota onde vivemos, \ a machamba que nos dá o pão! \ E tudo será novamente nosso, \ ainda que cadeias nos pés \ e azorrague no dorso… \ E o nosso queixume \ será uma libertação \ derramada em nosso canto! \ - Por isso pedimos, \ de joelhos pedimos: \ Tirem-nos tudo… \ mas não nos tirem a vida, \ não nos levem a música!

Poema da escritora, jornalista, tradutora e ativista política moçambicana Noémia de Sousa (Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares – 1926-2002), autora do livro Sangue Negro (2001), condensando a sua produção poética de 1948 a 1951.

 

VIVER A VIDA[...] Tive que lutar essa batalha como se estivesse em um ringue de boxe — com o público e a imprensa... e ainda sou chamada de vagabunda... [...] Eles definitivamente me veem como uma mulher empoderada fazendo o que queria fazer contra todas as probabilidades naquela época... [...]. Trechos da entrevista How Pamela Des Barres Finally Transcended ‘The Band (Los Angeles Magazine, 2025), concedida pela escritora, atriz e musicista estadunidense Pamela Des Barres (Pamela Ann Miller), autora do livro de memórias I'm with the Band: Confessions of a Groupie (1987), no qual detalha suas experiências na cena musical dos anos 1960 e 1970, em que atuou produzindo os GTOs, grupo de música experimental de Frank Zappa. Ela também publicou outro livro de memórias, Take Another Little Piece of My Heart: A Groupie Grows Up (1993), inspirando o filme Almost Famous (2000), de Cameron Crowe. É autora de outras obras como Rock Bottom: Dark Moments in Music Babylon (1996); Let's Spend the Night Together: Backstage Secrets of Rock Muses and Supergroupies (2007) e Let It Bleed: How to Write a Rockin' Memoir (2017). Veja mais aqui & aqui.

 

A VIDA AOS 50... – [...] Adoro novos desafios e cresço com eles... [...] Nasci assim, com um forte senso de perfeccionismo. Por outro lado, tenho a capacidade de me perder completamente na natureza. Quando estou na floresta, realmente sinto meu eu interior. É uma mistura de alta aspiração e completa modéstia... [...] Um dos meus objetivos é ajudar a fazer a diferença na educação de meninas em outro país. Quero me envolver em uma organização beneficente que se concentre na educação feminina, porque a educação é o bem maior. É muito importante.... [...] Eu celebro minha vida e todos que fazem parte dela. Só quero agradecer a todos que viajaram comigo ao longo dos muitos anos... [...] Eu sempre tento aproveitar ao máximo minha situação e entender a mensagem. Sempre há uma mensagem. [...] Trechos recolhidos da entrevista (Discover Germany, Switzerland and Austria), concedida pela escritora, atriz e modelo alemã Ursula Karven, autora dos livros Yoga für die Seele (2003), Sina und die Yogakatze (2005), Das große Babybuch (2006), Das große Schwangerschaftsbuch (2006), Sinas Yogakatze und der singende Weihnachtsbaum (2007), Yoga für Dich (2007), yoga für dich und überall (2007), Yoga del Mar – Power Yoga II (2009), Mein Kochbuch für Kochmuffel (2011) e Loslassen Yoga-Weisheiten für dich und überall (2013).

 

AULA-ESPETÁCULO DE MARCONDES BATISTA

Neste 16 de setembro, das 14 às 17h, o IbaValeUna promove a Oficina de Desenho & Pintura – aula-espetáculo gratuita com o artista Marcondes Batista. Imperdível. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

SEMINÁRIO MALUNGUINHO & CATIMBÓ NA JUREMA

Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.



 


segunda-feira, abril 15, 2024

ALICIA PULEO, CRISTINA GÁLVEZ MARTOS, TATYANA TOLSTAYA & BARRO DE DONA NICE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Britten Piano Concerto (1990), MacGregor on Broadway (1991), Outside in Pianist (1998), Damba Moon (2001), Neural Circuits (2002), Quiet Music Sound Circus (2004) e Messiaen: Vingt Regards/Quatuor pour la fin du temps/Harawi (2010), da pianista, maestro e compositora britânica Joanna MacGregor. Veja mais aqui.

 

RENASCER DA MEMÓRIA, REENCONTRO NO ACERVO DE EMOÇÕES... - Nasci entre um rio e um sorriso de mulher. A vida era branda então e o Sol nascia por trás do morro para me ensinar a não ter medo da escuridão. Estradas se fizeram com todas léguas além do quintal e eu crescia no mundo pelos aromas do lugar ideal para se viver e fruir como se fosse invisível. Entrava dia com noite no meio de outro. Paula Fox ao ouvido: Ser humano é estar em uma história... A vida é se acostumar com o que você não está acostumado... O que tivera de ser e não fui, saí do traçado. Nunca tive tempo pra hesitações nem penitências. Sempre prestei muita atenção às coisas – as que são parte de nós e somos, apesar de não ouvir os que falavam, se é que diziam alguma coisa: olhos proutro lado, desde os de tantos de não sei quando, lonjura a perder de vista: era como se estisse diante dos perós dagora com seus perdigotos & malefícios. Advertia Louise Brooks: Não me desculpo com a habitual fuga de “não tentar”. Eu tentei de todo o coração... E só me senti verdadeiramente vivo e pela primeira vez quando agitou o maracá do cacique Sotero Kanindé contando da onça da Terra da Gia. E pisamos a areia macia Kapinawá do vale do Catimbau, caboco do mato pela furna do Furengo e com gente de Mina Grande, Massaranduba, Baixa da Palmeira, Malhador. O coro era um só: Eu sou caboclinho / eu só visto pena / eu só vivo na terra / para beber jurema!.. E dançamos com a Índia do Ozi. Sou Kadu na Retomada de Escada, sou Anaíra da Mulher Marcolina Macambira da poesia de José do Egito. Sou multicor Fino Barro e Jahbes de Rio Formoso, José Ayres da Vitória de Antão, seu Zito de Galileia. Sou Fervedouro que resiste em Jaqueira com a CPT-Mata Sul, o Memorial Cigano, o sarau do Nós por Nós – e Alexandre da Escola Livre sacou Nietzsche da bisaca: A arte existe para que a realidade não nos destrua... Toré! Toré nas poses pros cliques de Zzui, como se fosse uma festa pictórica do Bajado no cordão Fulni-ô, Kambiwá, Xucuru, Truká, Atikum, Pipipã, Pankararu, Tuxá. Arreia & Toré! Lá pras tantas todos se foram e mais da metade de mim foi embora: a minhalma indiafro, negríndia. E a gente precisava saber mais quem somos e onde estamos, o que temos e o que fazemos, como se dissesse Julia Kristeva: O amor é o tempo e o espaço onde “eu” me dou o direito de ser extraordinário. O que podia ser do que já fora soçobrava e mais me exauria, a memória trouxe de volta malunguinho: como eu queria que não acabasse amanhã nem depois nem nunca mais, já era noite pro adeus, fui embora com três folhas ao vento e uma canção no peito. Até mais ver.

 

UM PAÍS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Um país é sempre uma ilha que você carrega: o contorno dos seus limites que são seus. Cegueira para o que você não entende; silêncio pelo que não entendem sobre você. \ É uma pelagem azul ou laranja que recebe os escassos raios de sol; a atmosfera – um lugar é sempre a singularidade da sua luz. \ Um lugar é cada uma de nossas mães. Nossa pedra de demolição dia e noite: deixe a mãe. \ É um aglomerado de passado vivo, preso como a longa cauda de um animal pré-histórico, é um presente muito maior do que podemos perceber. \ É uma guerra invisível e silenciosa que acontece enquanto você olha pela janela do transporte público; \ É uma guerra interior. \ É esquecer a fórmula para fazer qualquer coisa. \ Um país é uma esquina mil vezes pisada, cuja forma você também inscreveu, com manchas de fuligem e óleo. É também um tipo de pássaro, uma verdura. \ Tudo isso acontece quando você fecha os olhos. \ É não prestar atenção em que idades. \ Cada perda é um país, cada ser é uma nação inteira, cada ente querido é um lugar onde você cresceu, um território infinito em seus símbolos. \ Um país é um lugar que nunca mais é o mesmo; novos rostos e gestos. Pessoas que nascem, pessoas que morrem. Um círculo que se fecha com você lá fora.

Poema da escritora venezuelana Cristina Gálvez Martos, autora de obras como Psicopompa (Monte Ávila, 2015), Bicorne (Casa das Letras Andrés Bello, 2016), Fauna de Cal (Casa dos Escritores do Uruguai, 2020), Animal mais escuro (Fundarte, 2022) e Irmã amarga (LP5, 2024).

 

O LINCE - […] Você, livro! Você é o único que não enganará, não atacará, não insultará, não abandonará! Você fica quieto - mas ri, grita e canta: você é obediente - mas surpreende, provoca e seduz; você é pequeno, mas contém inúmeras pessoas. Nada além de um punhado de letras, só isso, mas se você quiser, você pode virar cabeças, confundir, girar, nublar, fazer lágrimas brotarem nos olhos, tirar o fôlego, toda a alma se agitará ao vento como um tela, subirá em ondas e baterá suas asas! [...] um livro é um amigo delicado, um pássaro branco, um ser primoroso, com medo de água. Coisas queridas! Com medo da água, do fogo, Eles tremem ao vento. Dedos humanos desajeitados e grosseiros deixam hematomas que nunca desaparecerão! Nunca! Algumas pessoas tocam nos livros sem lavar as mãos! Alguns sublinham coisas com tinta! Alguns até arrancam páginas! [...] É para isso que servem os poemas, então você não entende nada. [...] O mundo pode perecer, mas o moedor de carne é indestrutível. [...] Você lê, move os lábios, descobre as palavras, e é como se você estivesse em dois lugares ao mesmo tempo: você está sentado ou deitado com as pernas dobradas, a mão tateando na tigela, mas você pode ver diferente mundos, mundos distantes que talvez nunca tenham existido, mas que ainda parecem reais. Você corre, navega ou corre de trenó - você está fugindo de alguém, ou você mesmo decidiu atacar - seu coração bate forte, a vida voa e é maravilhoso: você pode viver tantas vidas diferentes quantas houver. livros para ler. [...] Eu só queria livros - nada mais - só livros, só palavras, nunca foram nada além de palavras - dê-me, não tenho nenhum! Olha, eu não tenho nenhum! Veja, estou nu, descalço, estou diante de você – nada nos bolsos da calça, nada debaixo da camisa ou debaixo do braço! Eles não estão presos na minha barba! Por dentro — vejam — também não há nada lá dentro — tudo foi virado do avesso, não há nada lá! Apenas coragem! Estou com fome! Estou atormentado!... O que você quer dizer com não há nada? Então como você pode falar e chorar, com quais palavras você tem medo, quais você pronuncia durante o sono? Os gritos noturnos não vagam dentro de você, um murmúrio estrondoso do crepúsculo, um grito fresco da manhã? Aí estão as palavras – você não as reconhece? Eles estão se contorcendo dentro de você, tentando sair! Ali estão eles! Sao seus! Da madeira, da pedra, das raízes, crescendo em força, um mugido surdo e um gemido nas entranhas estão tentando sair; um pedaço de língua se enrola, as narinas rasgadas incham de tormento. É assim que os enfeitiçados, espancados e retorcidos fungam com um lamento sarnento, os olhos brancos e fervidos trancados em armários, a veia arrancada, a espinha dorsal roída; isso mesmo, é assim que seu pushkin se contorce, ou mushkin - o que há em meu nome para você? - pushkin-mushkin, jogado no morro como um ídolo negro peludo, para sempre achatado pelas cercas, até as orelhas em di, o pushkin toco, sem pernas, seis dedos, mordendo a língua, nariz no peito - e a cabeça não pode ser levantada! - Pushkin, arrancando a camisa envenenada, cordas, correntes, cafetã, laço, aquele peso de madeira: deixe-me sair , deixe-me sair! O que está em meu nome para você? Por que o vento gira na ravina? Quantas estradas um homem deve percorrer? O que você quer, velho? Por que você me incomoda? Meu Senhor, qual é o problema? Tédio, ah, Nin! Pegue as tintas e chore! Abra bem a masmorra! Estou aqui! Eu sou inocente! Estou com você! Estou com você! [...]. Trechos extraídos da obra The Slynx (Houghton Mifflin, 2002), da escritora russa Tatyana Tolstaya.

 

ECOFEMINISMO - Os problemas das mulheres são de várias ordens: de acesso aos recursos, que em cifras globais mundiais se dá de forma absolutamente inferior aos homens, de reconhecimento, por que a cultura ainda tem um traço masculino muito profundo, de violência de gênero, porque o número de mulheres vítimas de violência e assassinadas é enorme em todo o mundo, ainda que seja pior em países com problemas econômicos, de representação política. Todos estes problemas estão ligados uns aos outros por laços e por causas bidirecionais. Em uma palavra, se retroalimentam. Quanto maior dificuldade de alcançar um salário digno, mais as mulheres terão que suportar a violência de gênero e menos poderão ter tempo de corrigir e transformar a cultura. Por sua vez, se a cultura seguir repetindo os mesmos tópicos patriarcais, mais dificuldade teremos para fazer com que diminua a violência de gênero, para aumentar nosso reconhecimento social, para alcançar postos de decisão política e conseguir trabalho com salários dignos. A situação das mulheres, que são a metade da humanidade, é uma questão de justiça social que se justifica por si só. Se a isso acrescentarmos que a inclusão da voz das mulheres pode melhorar a sociedade em seu conjunto, teremos uma razão a mais para apoiar velhos e novos pontos de nossa agenda... Pensamento da filósofa argentina radicada na Espanha, Alicia Puleo, que em sua obra Ecofeminismo para outro mundo possível (Cátedra, 2011) expressa: [...] A minha posição está enraizada na tradição esclarecida de análise de doutrinas e práticas opressivas. Reivindica a igualdade e a autonomia das mulheres, com especial atenção ao reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos que, em algumas formas de ecofeminismo, podem ser corroídos em nome da santidade da vida. Aceita os benefícios do conhecimento científico e tecnológico com prudência e atitude vigilante. Promove a universalização dos valores da ética do cuidado, evitando fazer das mulheres as salvadoras do planeta. Propõe a aprendizagem intercultural sem prejudicar os direitos humanos das mulheres e afirma a unidade e a continuidade da Natureza a partir do conhecimento evolutivo, do sentimento de compaixão e da vontade de justiça para com os animais não humanos, que o Outro ignorou e calou, mas capaz de ansiar, amoroso e sofredor. [...]. Ela também é autora de outras obras: Como ler a Schopenhauer (Júcar, 1991), Dialética da sexualidade. Gênero e sexo na Filosofia Contemporânea (Cátedra, 1992), A ilustração esquecida: La polémica de los sexos en el siglo XVIII (Antropos, 1993), entre outras.

 

DO PÓ AO BARRO...

O que é essencialmente humano não tem data, permanece...

Epígrafe do poeta e compositor Fernando Brant (1946-2015), extraída do catálogo Do pó ao Barro (2012), com a arte da artesã Dona Nice – Eunice Clotilde do Nascimento Oliveira, curadoria de Beto Normal e fotografia de Rachel Ellis. Veja mais aqui e aqui.

 

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Crônica de amor por ela aqui.

 


terça-feira, novembro 28, 2023

ALANA PORTERO, JULIA CAMERON, ERIK WRIGHT, JACI BEZERRA & INDÍGENA DA MATA SUL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Knell for Orchestra (2018), Run Run for Orchestra (2017) e Lambda of Life’s Frequency for Orchestra (2014), da compositora e pianista iraniana Niloufar Nourbakhsh, fundadora da Associação Iraniana de Compositoras Femininas.

 

ALMA DO CHÃO CAETÉ - Sou desta terra, como a vitalidade da folia na alma deste chão. Sigo adiante e nenhuma mata há mais. Prossigo passo suave claudicante na descoberta dos mil nomes de Gaia: um voo perdido pelas imediações do vulcão de Tonga. Até onde a memória possa alcançar o que ninguém viu do diário da recorrente queda abissal. Às vistas quantas incertezas com a face obscura da guerra, o colapso global! Gaza é aqui e em todo lugar. O que tenho se confunde com as almas penadas erráticas de lá pra cá e vice-versa, quase nem sei que dia do mês ou ano vindouro: perdi datas e direções, quase sou levado pelo furacão consumista das luminosas ofertas. Não dá tempo nem para olhar de lado, quanto mais refletir o que se passa. Escapar, eis a questão. Como dissera Alba de Céspedes: Na realidade, num determinado momento, cada um de nós muda, torna-se diferente, uns avançam, outros ficam parados, e enfim partimos em direções opostas, de modo que já não há encontro, já não há nada em comum... O que respiro é o que ninguém sabe ou nem queira saber do que se passa aqui ou na Etiópia, em Mianmar, no Iëmen, em Burkina Faso, na Somália, Sudão, Nigéria ou Síria, ou dos mais de 7 milhões que sucumbiram à COVID-19. Tudo tão perto e ninguém aí. Todo lugar é outro, não há explicação. A menos que subitamente me veja diante do Conselheiro de Canudos ou de um general do exército conduzindo a saúde para a morte de todos, verdadeiro genocídio. Se não é a mesma coisa, quem escapou sabe de Alyson Noël: A vida ainda é vida. Ainda é difícil, complicado e mais do que um pouco confuso, com lições a serem aprendidas, erros a serem cometidos, triunfos e decepções a serem tidos, e nem todos os dias devem ser uma festa... Ninguém tem noção do que seja a quinta força da natureza, ou dos múons, a matéria escura e a infodemia. Para quem se perdeu pelos 7 mares, a lonjura não mais existe, paradeiro é qualquer ermo. Sim, Marina Abramović: Porque no final você está realmente sozinho, faça o que fizer... Quanto mais você pensa sobre a morte e a mortalidade, mais você aproveita a vida. Porque assim você não perde tempo. Você apenas se concentra... E como quem findou as anotações da zilionésima viagem eu digo: Sim, Mãe caeté do quilombo em que nasci com a lágrima de Nísia Floresta, Malunguinho também na terra do que sou, vida que me cabe... Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

XXVII - Lembro-me da hora tortuosa da minha vida \ em que fiz as perguntas exatas, \ momento em que minha carne começou a apodrecer \ e o impostor sorridente ficará cheio de orgulho \ quem serve as mesas e encha as tigelas \ com trigo nos dias de festa. \ Esqueci o toque das bochechas de Artemis, \ Esqueci o formato específico do pescoço florido de Attis, \ Esqueci que tinha a pele branca. \ No meu diário há apenas um insistente cheiro de madeira e ferrugem, \ também leite azedo e folhas de tabaco, \ também ao sangue infantil, também lodo. \ Aquela hora torta para abandonar meu gêmeo dourado no porão \ Parecia uma saída definitiva. \ Na mesma hora quando os grilos desistiram das minhas noites \ e as pegas começaram a cantar no meu ouvido. \ Eu também esqueci as bordas das minhas clavículas na frente do espelho, \ naquela hora tortuosa sob a luz preguiçosa das lâmpadas \ Eu virei tudo de costas. \ Dancei um pas de deux com a fera; \ o que eu chamo de identidade é uma figura armada com os restos podres do banquete, \ um espantalho de carne, osso e água, muita agua, \ que se move com a graça de um espantalho e caminha. \ Na hora tortuosa da minha vida \ Comecei a escrever este poema, com o penúltimo suspiro de um sobrevivente \ que conheço desde que nasci, \ servir como o último arranhão na carne pingente de destino, \ como um apoio para alcançar a superfície e grite ao miserável deus do tempo: \ Filho da puta, ainda estou aqui.

Poema extraído da obra La habitación de las ahogadas (Harpo Libros, 2017), da escritora e dramaturga espanhola Alana Portero.

 

O CAMINHO DO ARTISTA - [...] Em tempos de dor, quando o futuro é assustador demais para ser contemplado e o passado doloroso demais para ser lembrado, aprendi a prestar atenção no agora. O momento preciso em que eu estava sempre foi o único lugar seguro para mim. [...] Mas você sabe quantos anos terei quando aprender a realmente tocar piano / atuar / pintar / escrever uma peça decente? [...] Não importa a sua idade ou o seu percurso de vida, se fazer arte é a sua carreira, o seu hobby ou o seu sonho, não é demasiado tarde, nem demasiado egoísta, nem demasiado egoísta ou demasiado tolo para trabalhar a sua criatividade. [...] A arte séria nasce do jogo sério. [...] A criatividade – como a própria vida humana – começa na escuridão [...] Progresso, não perfeição, é o que deveríamos pedir a nós mesmos. [...] A sobrevivência reside na sanidade, e a sanidade reside em prestar atenção... a capacidade de deleite é o dom de prestar atenção. [...] A criatividade ocorre no momento, e no momento somos atemporais. [...] A arte nasce da atenção. [...]. Trechos extraídos da obra The Artist's Way: A Spiritual Path to Higher Creativity (TarcherPerigee, 2016), da escritora, dramaturga, cineaste, compositora, jornalista e professora estadunidense Julia Cameron.

 

A CRISE DO CAPITALISMO – [...] Para muita gente, a noção de anticapitalismo parece ridícula. Afinal, olhem para as fantásticas inovações tecnológicas em bens e serviços produzidos pelas empresas capitalistas nos últimos anos: smartphones; filmes em streaming; carros privados sem motoristas; redes sociais; a cura para uma série de doenças; telões gigantes em alta definição para passar jogos de futebol e videogames conectando milhares de jogadores ao redor do mundo; cada produto concebível está agora disponível na internet e será rapidamente entregue em sua casa; aumentos impressionantes na produtividade do trabalho por meio de tecnologias de automação; e a lista segue. E ainda que se afirme que a renda é desigualmente distribuída nas economias capitalistas, é também verdade que a variedade de bens de consumo disponíveis para a maioria das pessoas, inclusive para os mais pobres, aumentou enormemente em praticamente todo o mundo. [...] a marca registrada do capitalismo é a miséria que ele gera em meio à abundância. Essa não é a única coisa errada no capitalismo, mas é uma característica comum das economias capitalistas e que inclusive é o seu maior fracasso. Em particular, a miséria que atinge as crianças, que claramente não têm qualquer responsabilidade por seu sofrimento, é algo moralmente repreensível em sociedades ricas nas quais essas formas de pobreza poderiam facilmente ser eliminadas. Sim, nós temos crescimento econômico, inovação tecnológica, aumento na produtividade e uma difusão verticalizada de bens de consumo, mas somado a tudo isso, junto do crescimento econômico capitalista, juntamente vem a destituição de muitos cuja forma de vida foi destruída pelo avanço do capitalismo, com a precarização dos que estão nas partes mais baixas do mercado de trabalho capitalista, promovendo trabalhos alienantes e tediosos para a maioria. O capitalismo, de fato, gerou aumentos massivos na produtividade e uma riqueza extravagante para alguns, mas a maioria ainda tem que lutar pela sua subsistência. Ele é uma máquina de aperfeiçoamento das desigualdades, bem como uma máquina de crescimento econômico. E mais: está ficando cada vez mais claro que o capitalismo, movido pela busca incessante por lucro, está destruindo o meio ambiente. E, ainda assim, a questão central não é se as condições materiais não melhoraram no longo prazo nas economias capitalistas, mas se para a maioria não seria melhor uma forma de economia alternativa. [...] da mesma forma, não é uma ilusão dizer que o capitalismo gera grandes prejuízos às pessoas e que perpetua formas de sofrimento humano passíveis de serem eliminadas. Onde o verdadeiro desacordo entre essas duas histórias aparece – e um desacordo fundamental – é sobre se é possível ter a produtividade, a inovação e o dinamismo que vemos no capitalismo sem ter os seus males. [...] primeiro, um outro mundo é, de fato, possível. Segundo, que ele pode melhorar as condições para o desenvolvimento humano da maioria das pessoas. Terceiro, que os elementos desse novo mundo já estão sendo criados no nosso mundo atual. E, finalmente, que há formas de caminharmos até esse novo mundo. O anticapitalismo é possível não apenas como postura moral perante os males e as injustiças do mundo em que vivemos, mas como uma postura prática em direção à construção de uma alternativa em prol do desenvolvimento da humanidade. [...]. Trechos extraídos da obra Como ser anticapitalista no século XXI? (Boitempo, 2019), do sociólogo estadunidense Erik Olin Wright (1947-2019).

 

SEMINÁRIO PRESENÇA INDÍGENA NA MATA SUL DE PERNAMBUCO – PASSADO & PRESENTE

O Seminário: A Presença Indígena na Zona da Mata de Pernambuco - Passado e Presente, organizado numa parceria entre Movimento de Retomada Mata Sul Indígena com a Escola Livre de Museologia Política/PE e a Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto. O Movimento de Retomada Mata Sul Indígena surgiu em 2020, com objetivo de revitalizar a língua originária, salvaguardar saberes/práticas ancestrais e lutar pelo direito à terra/território, pela soberania alimentar e recuperação da vegetação nativa (Mata Atlântica). Com uma programação repleta de arte, cultura e resistência indígena na Zona da Mata, dedicada especialmente ao diálogo com estudantes de Palmares, realizaremos vivências com Pintura, Poesia, Dança e Cinema Indígena, incluindo uma oficina de Caboclinho com Iara Campos e um vídeo-debate com integrantes do Mov. Mata Sul Indígena e do Maraká Urbano: organização que desenvolve um importante trabalho de pesquisa e articulação sobre as culturas indígenas da Mata Norte, sediado em Paudalho. Haverá uma roda de conversa inédita com pesquisadores/as e ativistas que têm investigado os povos indígenas nas Matas Norte e Sul, a partir de Escada-PE, Palmares-PE e Paudalho-PE, localidades de marcante presença indígena. Como encerramento, o historiador Edson Silva/UFPE realizará a conferência “Os indígenas na História na Mata Sul pernambucana: descolonizar narrativas ufanistas hegemônicas”. A atividade compõe o I Ciclo Formativo da ELMP/PE, iniciado em agosto, reunindo integrantes/gestores/as das iniciativas de memória/museus comunitários e de movimentos sociais que têm participado das ações da Escola, a partir do mapeamento de acervos comunitários em curso no segundo semestre de 2023. E acontecerá nesta quarta, 29/11, a partir das 8h, na Biblioteca Fenelon Barreto.

&

NESTE CANTO FINQUEI MEUS ALICERCES...

... Escrevo uma canção para quem ama \ e entre extremos se perde e se procura: \ a vida que se busca e se tortura, \ insônia que me invade e que me inflama...

Trecho do poema extraído da obra Linha d’água (CEPE, 2007), do poeta Jaci Bezerra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, dezembro 03, 2012

ADELA CORTINA, JUDITH HARRIS, ROSARIO ASSUNTO, HESBA STRETTON, POTTIER, SATYRICON & LITERÓTICA

 

AS SÚPLICAS DA PAIXÃO DELALá estava ela olhos vivos, sorriso largo encantador e a surpresa do flagra na branquitude úmida da calcinha desesperada ao escancaro confortável das pernas. Logo escorrega indisciplinada do divã como se o piso se fizesse pelas brumas da paixão como se de joelhos se arrastasse pela agitação das ruas implorando pressurosa com seus versos aflitos a requerer a tortura consoladora dos meus afagos em seu cabelo. Ela me deifica massageando o meu membro sob a calça, a desafivelar meu cinturão, arrear o zíper e alcançar o que ela trata por sua salvação, enquanto lambe saborosamente a dizer que me ama com a urgência e que sou seu poeta e meu nome tatuado em todos os seus pensamentos. Ela assim mimada de beijos ousados como se declarasse o fascínio de quem idolatrada seminua a se insinuar dengosa sedutora felatriz insaciável. Mais se avoluma ao se levantar aturdida por sonhar comigo todas as noites na penumbra da sua intimidade mais profunda, sonhos intensos em que afogueada pelo martírio incandescente da euforia mais confessadamente entregue, serpenteia seu dançante ventre esfregando-se ao meu. E mais beija transida de tesão como se nada mais importasse além de se dar no meio da tempestade devastadora de carícias, enquanto minhas mãos buliçosas explora seu corpo aturdido de desejo desmesurad0. Então soberbamente encurvada ela se espalma às escâncaras para que possa cobri-la esplendidamente inebriada de desdobramentos e assim penetrá-la delirantemente devastador, com avalanches de estocadas no desvario dos seus gemidos transbordantes. Ela quer mais e no gozo estremecido e imorredouro encontra o equilíbrio do planeta em seu coração que sou na calmaria de todos os seus orgasmos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Nenhuma sociedade pode funcionar se seus membros não mantiverem uma atitude ética... Numa sociedade autoritária ou ditatorial há quantidades de desonestidade, mas não são conhecidas. Em um sistema democrático tudo é conhecido mais facilmente. As democracias são sempre mais transparentes e quando um sistema político e organizacional é mais transparente, é mais fácil ser ético... Para ser um bom cidadão é preciso ter um bom coração, ou seja, é preciso ter a capacidade de estimar valores, de se entender e de argumentar... Renunciar aos valores morais mínimos seria como abrir mão da própria humanidade ao mesmo tempo... Os pobres não podem aspirar a ser felizes... Expressões da filósofa espanhola Adela Cortina Ortz. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Os efeitos da ordem de nascimento são como aquelas coisas que você pensa que vê com o canto do olho, mas que desaparecem quando você as olha de perto. Eles continuam aparecendo, mas apenas porque as pessoas continuam procurando por eles e analisando e reanalisando seus dados até encontrá-los. Pensamento da psicologa estadunidense Judith Rich Harris (1938-2018).

 

A CIDADE & A NATUREZA – [...] É exatamente pelo fato da paisagem ser natureza que nós somos também natureza, não nos limitamos a viver na paisagem, mas vivemos a paisagem, porque vivemos a natureza e, ademais, vivemos da natureza: daquela natureza que na paisagem se configura em imagem, imagem da qual nós somos, à qual pertencemos, e não simplesmente imagem que observamos estando fora dela. Mas quando se diz que vivemos a paisagem porque vivemos da natureza, devemos estar atentos a não crer que viver da natureza seja aqui uma simples metáfora [...] A paisagem com seus aromas, mas também com suas cores, as suas luzes: Com o seu céu; as suas águas, as suas rochas, a sua vegetação, as suas aves e insetos e animais de todo o tipo; o ar que chega aos nossos pulmões entra-nos literalmente, no sangue, e expande-se pelos membros, fazendo-nos sentir unos com a natureza: e exalta o nosso ser natureza, a natureza que está em nós, e reaviva-a; e dela faz objeto de deleite, para a alma, suscitando em nós a alegria da nossa identificação com a natureza, de fazer da sua a nossa alegria [...]. Trechos extraídos da A paisagem e a estética (CFUL, 1973), do filósofo italiano Rosario Assunto (1915-1994).

 

MALUNGUINHO -- [...] O centro do quilombo de Malunguinho ficava num lugar conhecido por Cova da Onça, no interior da floresta do Catucá [...] A floresta do Catucá, onde prosperou o quilombo de Malunguinho, era cortada por estradas que levavam gado e algodão dos distritos de Bom Jardim, Limoeiro e Nazaré para o Reciufe ou para Goiana [...] Tal como aconteceu com Zumbi dos Palmares, os documentos sobre Malunguinho foram escritos por seus inimigos.[...] Malungo é uma palavra de origem africana [...] ma luga ou companheiro, do quimbundo, lingua de Angola; ou ma lungo, isto é, no mesmo navio, do congolês. [...] do líder do Catucá, qualquer que fosse ele individualmente. Se for este o caso, o último Malunguinho chamava-se João Batista e sua sorte foi selada com o fim da Cabanada, em 1835 [...] Um deles, liderado por João Bamba, atacava nas estradas, vilas e engenhos, o outro, menos agressivo, costumava entrar pacificamente nas vilas para vender peixe, comprar armas e pólvora. Seu líder, João Pataca, promovia batuques e festas religiosas que duravam dias, e andava com um séquito de mulheres e guarda de honra. [...] A Acácia Jurema, árvore leguminosa, era usada em cerimônias secretas pelos pajés, sacerdotes indígenas, para fazer uma bebida sagrada [...] Culto da Jerema e da religião dos Orixás (Candomblé, que em Pernambuco e parte do Nordeste também chamava-se Xangô [...]. Trechos extraídos do artigo O Zumbi da Cova da Onça (História Hoje, jul. 2004), do professor Marcus J. M. Carvalho. Veja mais aquiaqui.

 

SOLITÁRIO – [...] Em uma hora, tudo estava resolvido para aquela noite. Um pequeno lugar de descanso tinha sido feito para a criança morta em um canto da sala, onde ela estava coberto com um grosso lençol branco, que foi o último que sobrou daqueles que a esposa do velho Oliver havia fiado em sua infância. O velho deu sua promessa de ir para a cama quando o sr. Ross e o médico saíssem; e ele dormiu levemente, seu rosto voltado para o lugar onde seu pequeno amor estava dormindo. Uma luz fraca queimou a noite toda no quarto, e Tony, que não conseguia adormecer, sentado no canto da chaminé, com Beppo em seu joelhos. Havia uma tristeza indizível e silenciosa dentro dele, misturada com uma estranho espanto. Aquela criancinha, que tinha brincado com ele, e o beijou apenas um dia depois, já tinha ido para o mundo invisível, que era tão muito perto dele agora, embora parecesse tão distante e tão vazio antes da. Deve estar muito perto, já que ela foi até lá tão rapidamente; e não estava mais vazio, pois Dolly estava lá; e ela disse que faria vigiar a porta até ele chegar em casa. [...]. Trecho extraído da obra Alone In London (Start Classics, 2011), da escritora britânica Hesba Stretton (1832-1911), pseudônimo de Sarah Smith que inventou o nome das iniciais de seus cinco irmãos e o nome de uma aldeia vizinha.

 

UM POEMAINTERNACIONAL: Levantai-vos trabalhadores de vossos sonos / Levantai-vos prisioneiros da necessidade / Pois a razão em revolta agora troveja / E por fim termina a era do cant. / Fora com todas as suas superstições / Massas servis levantam-se, levantam- se / Nós mudaremos daqui em diante a velha tradição / E desprezaremos o pó para ganhar o prêmio. / Então camaradas, venham juntos / E a última luta vamos enfrentar / A Internacional une a raça humana. / Então camaradas, venham juntos / E a última luta vamos enfrentar / A Internacional une a raça humana. / Não mais iludidos pela reação / Somente nos tiranos faremos a guerra / Os soldados também farão greve / Eles quebrarão as fileiras e não lutarão mais / E se esses canibais continuarem tentando / Nos sacrificar ao seu orgulho / Eles logo ouvirão as balas voando / Vamos atirar nos generais do nosso lado. / Nenhum salvador do alto entrega / Nenhuma fé nós temos em príncipes ou pares / Nossa própria mão direita as correntes devem tremer / Correntes de ódio, ganância e medo / E'er os ladrões vão sair com seu saque / E dar a todos um lote mais feliz. / Cada um na forja deve cumprir seu dever / E atacaremos enquanto o ferro estiver quente. Poema do poeta e anarquista francês Eugène Pottier (1816-1887).

 


SATYRICON DE PETRÔNIO - [...] e enquanto discutíamos percebi entre duas tabelas de preços, e no meio de mulheres nuas, vários homens que se movimentavam furtivamente. Demasiado tarde, demasiado tarde realmente, compreendi a armadilha em que caíra: estava num prostíbulo. [...] A digna proprietária desta casa, havia recebido, já, o preço de um quarto, e o velhor sátiro já me apalpava com mãos impudicas [...] Durante o relato de Ascilto, surgiu precisamente o tal velho, acompanhado de uma mulher: - Neste quarto – disse ele a Ascilto – o prazer te espera; cabe-te escolher o papel que desempenharas no combate. A jovem senhora, por seu turno, pedia-me também que a seguisse. A tentação nos venceu e, seguindo nossos guias, atravessamos várias salas, teatro lúbricos dos jogos da volúpia. A julga pelo furor dos combatentes, dir-se-ua que estavam embriados de satírio. Vendo nosso aspecto, eles repetiam posturas lascivas, para nos levar a imitá-los. De repente, um deles levantou as vestes até a cintura e, atirando-se sobre Ascilto, lançou-se sobre um leito próximo tentando violentá-lo. [...] Asciltoingiu uma indignação que absolutamente não sentia, e, ameaçando-me com os braços, berrou ainda mais alto do que eu: - Ainda ousas falar, gladiador obsceno? Tu, covarde assassino de quem te hospeda, que só milagrosamente escapaste da morte na arena? Ousas falar, ladrão oturno, que, mesmo quando ainda não eras impoetnte, jamais possuíste uma mulher honesta! Tu que, num certo bosque, me usaste um dia como Ganimedes, para satisfazer tua lubricidade, do mesmo modo como hoje, aqui neste albergue, utilizas esse garoto! [...] Era o amor que me fazia desejar tão ardentemente aquela separação. Há muito que eu tentava me livrar de tão importuna testemunha, para poder me dedicar sem reservas à minha paixão por Gitão. Ascilto, duramente atingido, saiu bruscamente, sem dizer uma palavra. [...] Depois de havê-lo procurado em todos os quarteirões da cidade, voltei para casa e consolei-me nos braços de Gitão. Enlacei-o com os mais calorosos abraços. Minha felcidade, igual a meus desejos, era realmente digna de inveja. Prelidiavamos já novos prazeres, quando Ascilto, andando nas pontas dos pés, nos surpreendeu em meio ás mais ardentes caricias, e logo, enchendo nosso exíguo quarto com suas gargalhadas e aplausos, ergueu gravemente o lençou que nos cobria. – Ah! Ah! Mas que estais fazendo, homens de bem? Como? Metidos os dois sob a mesma coberta? Não satisfeito com seus sarcasmos, o miserável tirou seu cinto de couro e começou a espancar-me violentamente diendo com insolência: - Isto te ensinará, mais uma vê, a jamais romperes com Ascilto! [...] Trifena era bela, agradou-me bastante e não se mostrou rebelde aos meus desígnios. Todavia, mal havíamos gozado os primeiros prazeres, quando Licas – alegando que eu lhe roubara a amante – exigiu que eu a substituísse junto a ele. [...] Se Trifena se consumia por Gitão, este não lhe ficava atrás, e essa mutua paixão era um duplo tormento para mim. Enquanto isso, para me agradar, Licas inventava cada dia novos prazeres. Sua jovem esposa, a adorável Dóris, participando deles, embelezava-os, e seus encantos terminaram por me afastar Trifena de meu coração. Meus olhares confessaram a Dóris todo o meu amor, e os seus, ainda mais animados, prometaram-me uma doce recompensa. [...] – Usemos de astúcias: para possuíres Dóris, deixa que Licas te possua. [...] Amáveis impudicos, novos Ganimedes, Cínicos audaciosos, voluptuosas Safos: O prazer nos aproxima, amemos em liberdade, Bebamos à volupia de todos os sentidos. [...] O homem nada mais é que um sopro E a trama de seus anos é curta e frágil. O tumulo segue nossos passos; cabe a nós, Sabiamente, usar o prazer para embelezar, O mais que pudermos, os nossos intantes. [...] em minha casa, Baco é o pai da liberdade, pois acabo de libertá-lo. [...] As mulheres, as mulheres! Afinal, que são as mulheres? São verdadeiras aves de rapina. Fazer-lhe algum bem é o mesmo que atirar alguma coisa num poço. Uma antiga gratidão torna-se, para elas, uma prisão insuportável. [...] Era essa mulher impudica que merecia ser lançada aos touros. Mas quando não se pode bater no asno, bate-se na albarda. - Não há uma única mulher – declarou – por mais fiel que seja, que uma nova paixão não possa levar aos maiores excessos. Não é preciso, para provar o que eu digo, recorrer às antigas tragédias, citar nomes famosos nos séculos passados. [...] O amor sobretudo, o impiedoso amor, jamais me poupou: amando ou sendo amado, sou sempre alvo de seus rigores. [...].
SATYRICON DE PETRÔNIO – O escritor romano Petronius (Caius Petronius Árbiter 16 d.C. – 66 d.C ou Titus Petronius c. 27-66 d.C.) foi mestre em prosa e satirista notável, era um distinto freqüentador da corte de Nero e autor de um dos mais antigos romances, Satyricon. Essa obra foi escrita provavelmente por volta de 60 d.C, descrevendo as aventuras e desventuras do narrador, Encólpio, do seu amante Ascilto e do seu jovem servo Gitão. Trata-se de uma crítica aos costumes e à política da Roma antiga. A obra foi transformada em filme pelo cineasta italiano Federico Fellini. Veja mais aquiaqui.

TATARITARITATÁ – Entre os dias 27 de novembro e 02 de dezembro, participamos da III Festa Literária de Marechal Deodoro, em Alagoas, oportunidade essa viabilizada pela Secretaria de Cultura do Município e da Caravana dos Escritores da Biblioteca Nacional/Câmara Brasileira do Livro. A encantadora cidade, antes Madalena do Sul, nos acolheu e pudemos desfrutar de momentos inesquecíveis.
Em primeiro lugar queremos manifestar nossa gratidão pelo convite e parabenizar a luta e o trabalho realizado na III Flimar, ao escritor e Secretário de Cultura, Carlito Lima. Daqui nosso irrestrito apoio e satisfação. Aproveito e convido para conferirem a entrevista dele no Varejo Sortido.
ESTANDE DO NITOLINO NA FLIMAR – Pudemos receber no estande de Nitolino, visitas que mais nos trouxeram satisfações. Exemplo disso:

Os poetamigos Demmys Santana e Jorge Calheiros.


O ator Chico de Assis, o poeta alagoano Adriano Nunes, a poeta e editora gaucha Carmen Silvia Presotto, o poeta e tradutor Ricardo Cabus, da bibliotecária Maria Luiza Russo e o jornalista e escritor Mauricio Melo Junior acompanhado de nossa querida amiga Iara. Aproveito e convido vocês a conferirem a entrevista de Mauricio Melo Junior no Guia de Poesia.


Na ocasião, o poetamigo alagoano Adriano Nunes lançou o seu excelente primeiro livro de poesias, Laringes de Grafite, apresentado por não menos que Lêdo Ivo, Antonio Cicero e Antonio Carlos Sechin.


Os poetas Frederico Spencer, Cássio e Natanael Lima Junior (Blog Domingo com Poesia).

Do ilustre Antonio Torres.


Da escritora Arriete Vilela, da médica e fotografa Cidinha Madeiro e Cialimitida. Aproveito e convido para conferirem a entrevista da Arriete Vilela no Guia de Poesia e a homenagem pra Cidinha Madeiro no Tataritaritatá.


E num momento de descontração com meus familiares pela excelente recepção dada na Pousada Alface Brasil, da empresária Cida Florêncio.

Queremos ainda destacar o maravilhoso trabalho desenvolvido pelo Jalme Calheiros na Secretaria de Meio Ambiente de Marechal Deodoro, como também da artesã Denise Evaristo e da Uva no Mova-Brasil. 

Veja mais III Flimar também no Brincarte.
 


EU TE AMO, MEU POETA (PARA LAM) - Eu te amo meu poeta, e leio teu nome compulsivamente em meus pensamentos a cada segundo de minha vida, como se o sol ou a lua, todos os mistérios dependessem do meu amor. Como se nada pudesse existir sem ele. Eu te amo nos dias claros e amenos, na agitação das ruas, no equilíbrio do planeta ou nas tempestades devastadoras. Eu te amo, meu poeta, cada segundo mais intensamente, e já não importa todo o resto, se existem ódios ou incompreensões, se já não posso apreciar o mar ou as estrelas porque tudo se resume em ti. Eu te amo e sinto tuas mãos em meu corpo a aturdir-me, teu olhar a dominar-me excitante, teu corpo a cobrir-me e penetrar-me soberbo, enquanto já nada existe senão a tua presença. Eu te amo, meu poeta e fascinada acompanho teu desejo que se mistura num desvario com o meu metamorfoseando nossas vidas em uma avalanche de prazeres e paixão sublimes e imorredouras. Eu te amo, nos momentos de harmonia plena, de conflitos, seriedade ou diversões, quando nossos risos enfeitam pedaços da vida ou quando lágrimas escorrem lentas e cheias de emoção. Eu te amo, meu poeta, quando a aflição do desejo encontra em teus braços o alívio e quando retorna cada vez mais urgente procurando o tesouro que penetras entre gemidos de prazer. Eu te amo, meu poeta, quando pressuroso compreendes meus momentos de dor e me abraças apertando-me no teu corpo quente e tão amado ou nas alegrias brilhantes em que teu peito transborda da minha felicidade. Eu te amo, meu poeta, quando comemoro contigo ou te consolo, quando me procuras indefeso ou possessivo, nas horas de suavidade ou rigidez, e quando já nem sei como cabe esse sentimento desmesurado a compartilhar desse amor cada vez maior e mais devastador. Eu te amo, meu poeta quando te procuro mimada e dengosa, faceira ou frágil e encontro na tua paixão a força para enfrentar as sequelas da vida, o sol que tudo inebria ou o crepitante anseio de minha alma apaixonada. Eu te amo meu poeta, quando no delírio nada mais vejo, em transe de prazer e de loucura a sentir teu corpo, a aspirar tua respiração, a vibrar no teu beijo, encontrando a vida somente na tua, morrendo por ti e revivendo por teu amor. Eu te amo, meu amado poeta... Poema da escritora Vânia Moreira Diniz. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


Veja mais sobre:
Viva Manguaba, Manoel Bentevi, Alain Resnais, Aldo Brizzi, Luís da Câmara Cascudo, Luís de Camões, Sábato Magaldi, Sabine Florence Azéma, Tomas Spicolli, Larry Vincent Garrison, Trapiá, Teatro Renascentista & Viviani Duarte aqui.

E mais:
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
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HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...