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segunda-feira, abril 15, 2024

ALICIA PULEO, CRISTINA GÁLVEZ MARTOS, TATYANA TOLSTAYA & BARRO DE DONA NICE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Britten Piano Concerto (1990), MacGregor on Broadway (1991), Outside in Pianist (1998), Damba Moon (2001), Neural Circuits (2002), Quiet Music Sound Circus (2004) e Messiaen: Vingt Regards/Quatuor pour la fin du temps/Harawi (2010), da pianista, maestro e compositora britânica Joanna MacGregor. Veja mais aqui.

 

RENASCER DA MEMÓRIA, REENCONTRO NO ACERVO DE EMOÇÕES... - Nasci entre um rio e um sorriso de mulher. A vida era branda então e o Sol nascia por trás do morro para me ensinar a não ter medo da escuridão. Estradas se fizeram com todas léguas além do quintal e eu crescia no mundo pelos aromas do lugar ideal para se viver e fruir como se fosse invisível. Entrava dia com noite no meio de outro. Paula Fox ao ouvido: Ser humano é estar em uma história... A vida é se acostumar com o que você não está acostumado... O que tivera de ser e não fui, saí do traçado. Nunca tive tempo pra hesitações nem penitências. Sempre prestei muita atenção às coisas – as que são parte de nós e somos, apesar de não ouvir os que falavam, se é que diziam alguma coisa: olhos proutro lado, desde os de tantos de não sei quando, lonjura a perder de vista: era como se estisse diante dos perós dagora com seus perdigotos & malefícios. Advertia Louise Brooks: Não me desculpo com a habitual fuga de “não tentar”. Eu tentei de todo o coração... E só me senti verdadeiramente vivo e pela primeira vez quando agitou o maracá do cacique Sotero Kanindé contando da onça da Terra da Gia. E pisamos a areia macia Kapinawá do vale do Catimbau, caboco do mato pela furna do Furengo e com gente de Mina Grande, Massaranduba, Baixa da Palmeira, Malhador. O coro era um só: Eu sou caboclinho / eu só visto pena / eu só vivo na terra / para beber jurema!.. E dançamos com a Índia do Ozi. Sou Kadu na Retomada de Escada, sou Anaíra da Mulher Marcolina Macambira da poesia de José do Egito. Sou multicor Fino Barro e Jahbes de Rio Formoso, José Ayres da Vitória de Antão, seu Zito de Galileia. Sou Fervedouro que resiste em Jaqueira com a CPT-Mata Sul, o Memorial Cigano, o sarau do Nós por Nós – e Alexandre da Escola Livre sacou Nietzsche da bisaca: A arte existe para que a realidade não nos destrua... Toré! Toré nas poses pros cliques de Zzui, como se fosse uma festa pictórica do Bajado no cordão Fulni-ô, Kambiwá, Xucuru, Truká, Atikum, Pipipã, Pankararu, Tuxá. Arreia & Toré! Lá pras tantas todos se foram e mais da metade de mim foi embora: a minhalma indiafro, negríndia. E a gente precisava saber mais quem somos e onde estamos, o que temos e o que fazemos, como se dissesse Julia Kristeva: O amor é o tempo e o espaço onde “eu” me dou o direito de ser extraordinário. O que podia ser do que já fora soçobrava e mais me exauria, a memória trouxe de volta malunguinho: como eu queria que não acabasse amanhã nem depois nem nunca mais, já era noite pro adeus, fui embora com três folhas ao vento e uma canção no peito. Até mais ver.

 

UM PAÍS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Um país é sempre uma ilha que você carrega: o contorno dos seus limites que são seus. Cegueira para o que você não entende; silêncio pelo que não entendem sobre você. \ É uma pelagem azul ou laranja que recebe os escassos raios de sol; a atmosfera – um lugar é sempre a singularidade da sua luz. \ Um lugar é cada uma de nossas mães. Nossa pedra de demolição dia e noite: deixe a mãe. \ É um aglomerado de passado vivo, preso como a longa cauda de um animal pré-histórico, é um presente muito maior do que podemos perceber. \ É uma guerra invisível e silenciosa que acontece enquanto você olha pela janela do transporte público; \ É uma guerra interior. \ É esquecer a fórmula para fazer qualquer coisa. \ Um país é uma esquina mil vezes pisada, cuja forma você também inscreveu, com manchas de fuligem e óleo. É também um tipo de pássaro, uma verdura. \ Tudo isso acontece quando você fecha os olhos. \ É não prestar atenção em que idades. \ Cada perda é um país, cada ser é uma nação inteira, cada ente querido é um lugar onde você cresceu, um território infinito em seus símbolos. \ Um país é um lugar que nunca mais é o mesmo; novos rostos e gestos. Pessoas que nascem, pessoas que morrem. Um círculo que se fecha com você lá fora.

Poema da escritora venezuelana Cristina Gálvez Martos, autora de obras como Psicopompa (Monte Ávila, 2015), Bicorne (Casa das Letras Andrés Bello, 2016), Fauna de Cal (Casa dos Escritores do Uruguai, 2020), Animal mais escuro (Fundarte, 2022) e Irmã amarga (LP5, 2024).

 

O LINCE - […] Você, livro! Você é o único que não enganará, não atacará, não insultará, não abandonará! Você fica quieto - mas ri, grita e canta: você é obediente - mas surpreende, provoca e seduz; você é pequeno, mas contém inúmeras pessoas. Nada além de um punhado de letras, só isso, mas se você quiser, você pode virar cabeças, confundir, girar, nublar, fazer lágrimas brotarem nos olhos, tirar o fôlego, toda a alma se agitará ao vento como um tela, subirá em ondas e baterá suas asas! [...] um livro é um amigo delicado, um pássaro branco, um ser primoroso, com medo de água. Coisas queridas! Com medo da água, do fogo, Eles tremem ao vento. Dedos humanos desajeitados e grosseiros deixam hematomas que nunca desaparecerão! Nunca! Algumas pessoas tocam nos livros sem lavar as mãos! Alguns sublinham coisas com tinta! Alguns até arrancam páginas! [...] É para isso que servem os poemas, então você não entende nada. [...] O mundo pode perecer, mas o moedor de carne é indestrutível. [...] Você lê, move os lábios, descobre as palavras, e é como se você estivesse em dois lugares ao mesmo tempo: você está sentado ou deitado com as pernas dobradas, a mão tateando na tigela, mas você pode ver diferente mundos, mundos distantes que talvez nunca tenham existido, mas que ainda parecem reais. Você corre, navega ou corre de trenó - você está fugindo de alguém, ou você mesmo decidiu atacar - seu coração bate forte, a vida voa e é maravilhoso: você pode viver tantas vidas diferentes quantas houver. livros para ler. [...] Eu só queria livros - nada mais - só livros, só palavras, nunca foram nada além de palavras - dê-me, não tenho nenhum! Olha, eu não tenho nenhum! Veja, estou nu, descalço, estou diante de você – nada nos bolsos da calça, nada debaixo da camisa ou debaixo do braço! Eles não estão presos na minha barba! Por dentro — vejam — também não há nada lá dentro — tudo foi virado do avesso, não há nada lá! Apenas coragem! Estou com fome! Estou atormentado!... O que você quer dizer com não há nada? Então como você pode falar e chorar, com quais palavras você tem medo, quais você pronuncia durante o sono? Os gritos noturnos não vagam dentro de você, um murmúrio estrondoso do crepúsculo, um grito fresco da manhã? Aí estão as palavras – você não as reconhece? Eles estão se contorcendo dentro de você, tentando sair! Ali estão eles! Sao seus! Da madeira, da pedra, das raízes, crescendo em força, um mugido surdo e um gemido nas entranhas estão tentando sair; um pedaço de língua se enrola, as narinas rasgadas incham de tormento. É assim que os enfeitiçados, espancados e retorcidos fungam com um lamento sarnento, os olhos brancos e fervidos trancados em armários, a veia arrancada, a espinha dorsal roída; isso mesmo, é assim que seu pushkin se contorce, ou mushkin - o que há em meu nome para você? - pushkin-mushkin, jogado no morro como um ídolo negro peludo, para sempre achatado pelas cercas, até as orelhas em di, o pushkin toco, sem pernas, seis dedos, mordendo a língua, nariz no peito - e a cabeça não pode ser levantada! - Pushkin, arrancando a camisa envenenada, cordas, correntes, cafetã, laço, aquele peso de madeira: deixe-me sair , deixe-me sair! O que está em meu nome para você? Por que o vento gira na ravina? Quantas estradas um homem deve percorrer? O que você quer, velho? Por que você me incomoda? Meu Senhor, qual é o problema? Tédio, ah, Nin! Pegue as tintas e chore! Abra bem a masmorra! Estou aqui! Eu sou inocente! Estou com você! Estou com você! [...]. Trechos extraídos da obra The Slynx (Houghton Mifflin, 2002), da escritora russa Tatyana Tolstaya.

 

ECOFEMINISMO - Os problemas das mulheres são de várias ordens: de acesso aos recursos, que em cifras globais mundiais se dá de forma absolutamente inferior aos homens, de reconhecimento, por que a cultura ainda tem um traço masculino muito profundo, de violência de gênero, porque o número de mulheres vítimas de violência e assassinadas é enorme em todo o mundo, ainda que seja pior em países com problemas econômicos, de representação política. Todos estes problemas estão ligados uns aos outros por laços e por causas bidirecionais. Em uma palavra, se retroalimentam. Quanto maior dificuldade de alcançar um salário digno, mais as mulheres terão que suportar a violência de gênero e menos poderão ter tempo de corrigir e transformar a cultura. Por sua vez, se a cultura seguir repetindo os mesmos tópicos patriarcais, mais dificuldade teremos para fazer com que diminua a violência de gênero, para aumentar nosso reconhecimento social, para alcançar postos de decisão política e conseguir trabalho com salários dignos. A situação das mulheres, que são a metade da humanidade, é uma questão de justiça social que se justifica por si só. Se a isso acrescentarmos que a inclusão da voz das mulheres pode melhorar a sociedade em seu conjunto, teremos uma razão a mais para apoiar velhos e novos pontos de nossa agenda... Pensamento da filósofa argentina radicada na Espanha, Alicia Puleo, que em sua obra Ecofeminismo para outro mundo possível (Cátedra, 2011) expressa: [...] A minha posição está enraizada na tradição esclarecida de análise de doutrinas e práticas opressivas. Reivindica a igualdade e a autonomia das mulheres, com especial atenção ao reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos que, em algumas formas de ecofeminismo, podem ser corroídos em nome da santidade da vida. Aceita os benefícios do conhecimento científico e tecnológico com prudência e atitude vigilante. Promove a universalização dos valores da ética do cuidado, evitando fazer das mulheres as salvadoras do planeta. Propõe a aprendizagem intercultural sem prejudicar os direitos humanos das mulheres e afirma a unidade e a continuidade da Natureza a partir do conhecimento evolutivo, do sentimento de compaixão e da vontade de justiça para com os animais não humanos, que o Outro ignorou e calou, mas capaz de ansiar, amoroso e sofredor. [...]. Ela também é autora de outras obras: Como ler a Schopenhauer (Júcar, 1991), Dialética da sexualidade. Gênero e sexo na Filosofia Contemporânea (Cátedra, 1992), A ilustração esquecida: La polémica de los sexos en el siglo XVIII (Antropos, 1993), entre outras.

 

DO PÓ AO BARRO...

O que é essencialmente humano não tem data, permanece...

Epígrafe do poeta e compositor Fernando Brant (1946-2015), extraída do catálogo Do pó ao Barro (2012), com a arte da artesã Dona Nice – Eunice Clotilde do Nascimento Oliveira, curadoria de Beto Normal e fotografia de Rachel Ellis. Veja mais aqui e aqui.

 

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quarta-feira, outubro 18, 2023

AKIKO YOSANO, KOSTAS AXELOS, MOLLY CRABAPPLE, HERMILO & FLIARP

 Imagem: Acervo ArtLAM.

A alquimia e a magia tratam de como materiais mundanos, benignos e abundantes podem ter um efeito maior do que a soma de suas partes. Para mim, criatividade é alquimia. Quero ter um efeito benéfico em sua fisiologia, mas não é da minha conta o que acontece depois disso... É meu presente para você.

Ao som do Tribute to Wayne Shorter - ARTE Concert (Festival Bielska Zadymka Jazzowa à Gliwice, Pologne, 2023), da contrabaixista e cantora estadunidense Esperanza Spalding.

 

RENASCINZAS... – Um dia e outro o mesmo: não fosse minha inquietude das estrelas, jamais discerniria entre o dilúculo e o ocaso, incólume pelas conflagrações, como se pisasse sobre os ossos dos que fracassaram. Desconfortável andança, mas seguia em frente. Um tanto de vezes sentia-me imerso às tramas do Replay de Ken Grimwood, como se já tivesse feito não apenas doze ou quinze a mais dos trabalhos de Hércules, com o dobro das mil faces de Campbell n’O Groundhog Day de Harold Ramis: não era o que parecia, mas era o amor fati no meu eterno retorno de Nietzsche – e a cada degrau, deserdado e enlouquecido. Tudo revivia a todo instante: era 31 de março e eu só tinha 4 anos no aniversário do meu pai, ou 8 de janeiro e a minha filha pedia atenção pro futuro enquanto estampava a foto de Herzog pendurado pelo pescoço e o dia D pra sindemia de fogo nas Amazônias e Pantanais, um dia e tantos os mesmos como os que doíam nas Filhas da Dor – e uma delas a heroina de Maureen Murdoc: O segredo do seu futuro está escondido na sua rotina diária... Então embarcava na aventura e me jogava de olhos fechados; ao despertar era como se nada houvesse, nada acontecido – pior: parecia mesmo a porta dos infernos aberta e estragasse tudo, porque Andie MacDowell apontava para a procissão da idiocracia – a pandemia de idiotas cheios de razões folgazãs. Era ela Doris Lessing: Aprendizado é isso: de repente, você compreende alguma coisa que sempre entendeu, mas de uma nova maneira... Não é a inteligência que escasseia, mas a constância... Eram outros fevereiros, nada que desse vontade de frevar ou cair na gandaia, muito menos recorrentes dezembros que me causavam asco de tanta hipocrisia. Louise Gluck ali me avisava: Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória... Eu te aviso como nunca fui avisada, você nunca vai desistir, você nunca ficará saciado... Resolvi então voltar pra casa... Tudo por consertar, tudo, já sabia. Pode ser tarde, mas agirei, tentarei pelo menos. Era como buscasse onde está você que sou eu e restava o mesmo dia e uma charge de Bob Mankoff: Tudo bem, a vida é sórdida, brutal e curta, mas você sabia disso quando se tornou um homem das cavernas... Caminhei sozinho e senti o pulso de Deus: não espero que ninguém me dê a mão, dou as minhas... Não espero que ninguém me dê abrigo, oferto o meu... Do nada nem nenhuma, renascinzas, o amor assim... Até mais ver.

 

UM POEMA... TRÊS...

Imagem: Acervo ArtLAM.

I – segurando os seios; \ entre as mãos, silenciosamente, \ ele remove o véu do mistério: \ aqui estão flores \ de uma cor escarlate intensa!

II – Seu senso de pecado, \ Este é você compassivo; \ Tudo o que estou dizendo é, \ Isso vai me deixar louca, \ Sua criança inocente.

III – A primavera encurta, \ E para a vida imortal! \ Há poder, para tocar, \ Há sangue em meus seios, \ Um bom lugar para a mão dele.

Poemas da poeta, feminista, pacifista e educadora japonesa Akiko Yosano (Yosano Shiyo – 1878-1942).

 

TIRANDO SANGUE - [...] Os radicais muitas vezes suspeitam da beleza da corrupção. Embora às vezes sejam filhos da puta tensos, eles estão certos em uma coisa: a arte por si só não pode mudar o mundo. As canetas não podem enfrentar espadas, muito menos drones Predadores. Mas à medida que a decepção e a violência se espalham, o antídoto é uma generosidade que a melhor arte ainda pode inspirar. [...] O talento é essencial, mas o dinheiro compra a oportunidade de descobrir esse talento. Fingir o contrário é cuspir na cara de todo gênio falido. [...] Para fazer alguém amar você, veja-o como a pessoa que ele deseja ser. [...] Sob lâmpadas nuas, os artistas pintaram fantasmagorias poderosas o suficiente para ameaçar exércitos.[...] A arte é esperança contra o cinismo, criação contra a entropia. Fazer arte é um ato de amor e desafio. [...] Garotas como eu usavam a Web de todas as maneiras que nossos pais temiam. Lemos manifestos anarquistas e trocamos pornografia chocante com homens adultos. Estragamos garrafas de vodca perfeitamente boas tentando fazer absinto com receitas que aprendemos na gótica Martha Stewart. [...] O globalismo dá menos margem de manobra aos filhos brilhantes de um país pobre. [...] Quando pensei em cada proposta ou ameaça que recebi andando pela rua com meu corpo de menina, decidi que poderia muito bem ser pago pelo problema [...]. Trechos extraídos da obra Drawing Blood (Harper, 2017), da escritora e artista estadunidense Molly Crabapple. Veja mais aqui.

 

A TÉCNICA – [...] o Jogo, sem que exista, perpassa toda e qualquer técnica e a técnica mundial em geral em sua totalidade fragmentária e fragmentada. A técnica procura tomar posse do tempo. O Tempo – o jogo do Tempo – é que supera a técnica por inteiro. O futuro da técnica destinado a reger o tempo por vir é ultrapassado pelo Jogo do Tempo que esmaga igualmente a técnica. Se o que está em jogo na técnica é o mundo, a própria técnica constitui uma constelação figurativa e não figurativa do que se joga sob o horizonte do Mundo. Ela é o andaime planetário, a última figura – até agora – do Mundo. Depois da Natureza, Deus e o Homem, é ao Andaime técnico a quem cabe tentar jogar o destino do mundo. Mas o Mundo permanece aberto. [...] Não é a reflexão – ainda que fosse técnico-científica – que pode situar-nos em relação à Abertura do Mundo; é o pensamento. Com a ironia mais penetrante, não se trata somente de apreender as obras visíveis da técnica, mas de encontrar um certo acesso ao Invisível [...]. Trechos extraídos da obra O futuro da técnica - Signos da técnica (Tempo Brasileiro, 1981), do filósofo grego Kostas Axelos (1924-2010), que na obra Horizontes do mundo (Tempo Brasileiro\EdUFC, 1983), expressou que: [...] a luz de cada escrito vem de outros escritos [...] Desde certo tempo, os homens - como indivíduos, como membros da sociedade, como fragmentos da História do mundo - procuram viver e amar, falar e pensar. Eles trabalham, lutam, morrem. Pelo quê? Pelo prazer problemático e pelo bem-estar a ser instalado - para o qual, cada vez mais, tudo se torna muito pouco - pelo reconhecimento - que se faz, de maneira crescente, perspectivista - pela realização da liberdade na terra e pela condição mediada de todos? O que os move e para onde se movem? E para que? O que há com as razões lógicas e mitológicas, com as forças do processo histórico, com os fins humanos? Articulam-se em oscilações ou oscilam articulando-se? Consolidam-se e dissolvem-se na história já jogada, repetem-se continuamente e são constantemente superarticulados. Será que só nos resta - sem saudosismo retroativo, sem desvalorização simplória do presente e sem utopia escaltológica - continuar, aprofundar e alargar o jogo? [...] as perspectivas do pensamento inscrevem nos horizontes do mundo, no horizonte do tempo – com horizontes sempre unitariamente tridimensionais –, porque os horizontes do jogo do Mundo são ao mesmo tempo horizontes do jogo do Tempo. O mundo, o tempo e o Jogo deles obedecem ao mesmo ritmo [...] cada um dos diferentes mundos do Mundo tem seu horizonte específico e só os horizontes do ‘próprio’ Mundo são ilimitados, a saber, podem ultrapassar seus limites. [...]. Já na entrevista Mondialisation without the world (Radical Philosophy, 2005), ele assinalou que: [...] A globalização nomeia um processo que universaliza a tecnologia, economia, política e até civilização e cultura. Mas permanece um pouco vazio. Falta o mundo como abertura. O mundo não é o físico e totalidade histórica, não é o conjunto mais ou menos empírico de conjuntos teóricos e práticos. Ele se implanta. A coisa que é chamada a globalização é uma espécie de mundialização sem mundo [...]. A ele são atribuidos os pensamentos: Perdemos o sagrado da saúde sem termos descoberto o da loucura... Não conheço ninguém que saiba falar do corpo. Apenas se balbuciam banalidades ou coisas enfadonhas.

 

PALMARES & O CORAÇÃO

Ficou o convite, que me lavou o peito, porque afinal de contas neste meu coração despedaçado estão os restos das noitadas no Alto Lenhador, das fritadas de Doroteu, das cachaças de Guará, dos amores de Quiterinha, das fomes periódicas, das humilhações constantes, das revoltas sufocadas, das noites de lua, das líricas namoradas, dos sonhos, das leituras até alta madrugada à luz de candeeiro, das mortes, do que escrevi, do que menti, do que amei, do que me mentiram, que tudo foi Palmares e que Palmares é, na minha obra, mito e realidade...

Trecho extraído da obra Palmares e o coração (FCCHBF, 1997), do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-1976). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

&

FEIRA DE LITERATURA & ARTES DOS PALMARES (FLIARP)

Acontecerá entre os dias 19 e 21 de outubro, em Palmares – PE, com a participação de Murilo Gun & Admmauro Gommes lançando diversos livros do poeta e escritor Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui.

 



sábado, abril 08, 2023

NNEDI OKORAFOR, CARLO ROVELLI, ANNIE VIVANTI, CHAMFORT & CAPOEIRAS

 

 Ao som do concerto Syllableaves para Theremin e Orquestra, pelo Gävle Symfoniorkester, dirigido por Fredrik Burstedt no Konzerthaus Gävle (Suécia, 2010) e Fantasias para Theremin e Quarteto de Cordas (2015), ambos da musicista alemã Carolina Eyck. Imagem: Mandala lírica (Acervo ArtLAM).

 

MANDALA LÍRICA – Outoninverno, o calor do nublado no meio de dias curtos e tanto a fazer. No meu sobrenome sabia: o frio vai durar toda vida e ainda não era o meu prazo. Era como se estivesse em YZ Ceti b contemplando a órbita de uma estrela anã vermelha. Umas passadas a mais e, do outro lado do muro, zuniam as balas do sectarismo messiânico com todos os seus próceres et caterva dedado por Lukács. Logo me distanciei e na boca de um túnel negro algo estranho e logo percebi que não era o gênio maligno de Descartes - quem dera a dúvida hiperbólica, ou que fosse pelo menos a dúvida cética, ora, e a metafísica nas raízes à mostra no chão, a física ao tronco e as ciências escapulindo pelos galhos! Mas não, não era. E como aprendi que um mais um são três, o poeta sorriu atrás do muro para dizer: Mácula acumula e como micula. Ora, eu também, meu! E sorrio. Tudo que vem logo vai. Nem deu tempo findar a frase e da boca do túnel surgiu Rufus – ah, não pode ser! E o pior: devidamente acompanhado duma dupla maligna breganeja e escatológica - Little Boy & Fat Man. Um trio nada agradável, eu previa. Queria lá fazer cócegas na cauda dum dragão, oxe! Tá doido, é? Bafejaram em uníssono: Bem, isso é tudo! Não, não era. Neguei o quanto pude! Contudo, a besta furiosa com seus comparsas queria mesmo era me torrar. Sou lá Daghlian ou Stolin, meu? Cai fora! Cuspi alerta: a minha chave de fenda é meu corpo fechado, espero. E, para me lascar, não era mesmo. Tentei escapar e uma das serpentes de Tirésias se aninhou ao redor dos meus pés. Ela fitou-me e senti logo que havia sido condenado pelo Basilisco de Roko, Singleton. Agora deu! Só me faltava essa! O quarteto logo me acuou na tentativa de me aprisionar no cérebro de Matriosca do Bradbury e já adivinhava: hoje cessará e logo será ontem, não sei amanhã. Procurei canto para me socar, mão aos olhos aprontando pra carreira e tudo estreitava. Qual é? Onde estou eu, afinal? Senti-me póstumo e pra não arrear de vez puxei conversa com os algozes, parecia mais que eu falava era grego. Não adiantou, mesuras inúteis. Encostado na parede, pressentia dali sangue na canela até o pescoço. Estava rendido, deveras. Matutei no cúmulo da fuga: uma carta na manga. Respirei fundo, pneuma no sangue: fui pro tudo ou nada e à forra, perdido por um ou por mil, tanto faz. Não me acovardei, centupliquei-me - afinal a lição: o que não me liquida me fortalece. Saquei e foi tiro e queda: as marteladas de Nietzsche! Dessa me safei, foi por pouco. Mais uma. Será que terei outra chance? Ah, deixa pra lá. O que vale é que cá estou no meio do caminho entre o micro e o macro, assobiando os acordes do meu theremin imaginário. Até mais ver.


Imagem: A vida e os sonhos renascem muitos... (Acervo ArtLAM).

 

DITOS & DESDITOS –O dia mais perdido de todos é aquele em que não se riu. O amor, tal como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes. O amor é como as epidemias: quanto mais o tememos, mais expostos a ele estamos. Amar é uma necessidade do coração; fazer amor é uma ocupação do espírito. As paixões fazem o homem viver, a sua sabedoria apenas o faz durar. A palavra mais acertada que já foi dita sobre celibato e matrimônio é esta: qualquer partido que escolhas tu te arrependerás. Quem não tem caráter não é homem, é coisa... Pensamento do dramaturgo e escritor francês Nicolas de Chamfort (Sébastien-Roch Nicolas – 1840-1794).

 

ALGUÉM FALOU: Eu quero investigar o que me assusta e me preocupa. Você fez o que você fez, você não fez o que você não fez, e agora você está pronto para julgamento. As pessoas podem ser todas as espécies de implacáveis e podem ser todos maravilhosos. Confie em si mesmo para que os erros que você fizer sejam os que foram feitos e não algo que você fez porque você estava com medo de fazer o que queria fazer. Possua seus erros, então você pode possuir seus sucessos. A alegria no que faço está em fazer isso. E então há a parte em que as pessoas vão ver o que eu ofereci e gostei ou elas vão ver o que eu ofereci e desejo que elas não puderam fazer... Pensamento da cineasta, roteirista e escritora estadunidense Jennifer Lynch.

 

A TRISTEZA DURA PARA SEMPRE...

São vastas extensões de trigo sob céus tempestuosos e não tive dificuldades para expressar a tristeza e a extrema solidão... Tanto na vida como na pintura, posso muito bem ficar sem Deus; mas não posso, sem sofrer, ficar sem algo que é maior do que eu, que significa a minha vida inteira: a força de criar... Há leis de proporção, de luz, de sombra e de perspectiva, que é preciso conhecer para desenhar um motivo; se essa ciência nos falta, arriscamos travar eternamente uma luta estéril e não conseguimos nunca criar.

Pensamento do pintor do pós-impressionismo holandês, Vincent van Gogh (1853-1890). (Imagem acervo ArtLAM: A mulher contempla a cadeira de van Gogh). Veja mais aqui e aqui.

 

QUEM TEME A MORTE - [...] Criaturas defeituosas e imperfeitas! Isso é o que nós dois somos, oga! Isso é o que TODOS nós somos! [...] Ser algo anormal significava servir ao normal. E se você recusasse, eles te odiavam... e muitas vezes os normais te odiavam mesmo quando você os servia [...] Eu era jovem, mas odiava como um homem de meia-idade no final de seu auge. [...] Nunca saberemos exatamente por que somos, o que somos e assim por diante. Tudo o que você pode fazer é seguir seu caminho até o deserto, e então continuar porque é assim que deve ser.[...]. Trechos da obra Who Fears Death (DAW, 2014), da premiada escritora e educadora nigeriana-americana Nnedi Okorafor (Nnedimma Nkemdili Okorafor ou também conhecida como Nnedi Okorafor-Mbachu).

 

ORDEM DO TEMPO - [...] As crianças crescem e descobrem que o mundo não é como parecia dentro das quatro paredes de suas casas. A humanidade como um todo faz o mesmo. [...] A diferença entre passado e futuro... causa e efeito... memória e esperança... arrependimento e intenção... nas leis elementares que descrevem os mecanismos do mundo, não existe tal diferença. [...] O mundo é feito de eventos, não de coisas. [...]. Trechos extraídos da obra The Order of Time (Riverhead, 2018), do físico e cosmologista italiano Carlo Rovelli.

 

QUEM SABE...

A longa noite me negou refrigério, / Alfin a aurora nasceu. / No leste, o céu é tingido de ouro, / E toda estrela está morta. / Quem sabe se é verdade que existe um Deus lá em cima! / Um Deus que ama e conforta! / - Penso em você que não me ama mais, / E para minha falecida mãe...

Poema extraído da obra Lírica (BiblioLife, 2009), da poeta italiana Annie Vivanti (1866-1942). (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui.

 

UNA-SE, O RIO É SEU...

Pela Serra do Quati ouvia o canto repetititvo: cáa-poera, Capoeirã! Oxe e tome bis com o refrão: Quando não é mata cortada, é roça tomada pelo mato. O rio é seu, una-se... (Tributo ao Município de Capoeiras – Pernambuco. Imagem: Valuna: Capoeiras – Acervo ArtLAM).

Veja mais aqui, aqui & aqui.



 


segunda-feira, dezembro 26, 2022

ELENA FERRANTE, JULIA KRISTEVA, NOELLE-NEUMANN & HIDEKA TONOMURA

 

 

Ao som Concert Classical Guitar at Siccas Guitars, da violonista inglesa Alexandra Whittingham.

 

TRÍPTICO DQP: - O legado & o abismo me vê ali... - A rua está deserta e as lembranças saltam pelas frestas do guarda-roupa como uma batucada de Naná Vasconcelos e dão conta de como tudo se tornou tão cruel agora, assombro e sombrio... Ouvi e vivo incerteza, a pupila dilatada pelo volátil e o ameaçador, quantos lobos nem sei mais. Para conversar restavam apenas o Gato de Schrödinger que brincava com minhas ideias desarrumadas. Do outro lado os besouros da caixa de Wittgenstein insistiam que a vida é só pra viver, que deixasse de lado todo viés da confirmação, pronto! Mais nada porque não adiantava eu me defender de todas as tribos, nunca pertenci a nenhuma delas e fui alijado até da família: ou luto ou fujo para a galáxia espiral NGC7469 lá na constelação de Pegasus. Eu me ajudo o mais que posso. Como os outros, a culpa é geral e lá estou eu exposto ao oganessônio – ou é polônio, sei lá! As galáxias se diluem e a existência é o que importa: sou o verdadeiro desconhecido. Sei que não é o desejável, nem nunca será: o arrependimento virá de qualquer jeito, mesmo que aprenda de cor as metamorfoses do espírito que Nietzsche me fez do camelo ao leão e a criança, ao amor fati. O bom foi que no meio da doidice pura pude ouvir Elena Ferrante: A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós... Em todas as investidas eu ia com punho fechado pro inopinado e me desarmei, fui em frente: nunca esperei por milagre ciente de que jamais sairia impune. Ninguém é sábio para ser imune aos infortúnios. Duvidava do mero acaso porque o mundo se dilatava sem que tivesse de constranger caminhos. Aturdido, sabia: o que tenho apenas é vida, nada mais...

 


Pacto: o caos sou eu... – Escrevi o poema e não tinha a quem dedicá-lo porque não é nada: nem ele, nem dedicatória alguma, como se os ditirambos hesitassem dos meus umbrais, enquanto eu me fartasse da carne da estátua, do uivo da pedra, das dores dos insetos. Estou tão cansado como se o chão cansasse das pisadas, a casa dos seus moradores, o crepúsculo do dia, deste a madrugada, e esta da noite, do mesmo modo que ela de tarde, o cansaço geral... Consegui me desvencilhar das alegorias da caverna e dos metais, da mentira nobre de Platão, das qualias, Post hoc, e me afastei ao máximo do zoadeiro, porque não havia como me conformar com a navalha de Hitchens: O que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas - Quod gratis asseritur, gratis negatur. Cá comigo, os filósofos não sabem nada, mas nos dão a lição: precisamos aprender, ora! Estamos todos neuróticos e confusos como o diário de Neil Young, não há significado e isto soa como uma bomba no meu juízo! Parafraseando Montaigne: Escrever é aprender a morrer. Posso ser excêntrico e me viro, mas não divido a cena com essa realidade paralela do doidismo escroque, porque não tenho nenhuma preocupação com o que acontecerá depois da morte, o agora é que o problema, o que será não mais importa entre o suficiente e o desejado, suportar a finitude enquanto a cabeça segue infinitas ideias... Tudo passará, não adianta.

 


Coração de areia… – Imagem: arte da fotógrafa japonesa Hideka Tonomura. - Sou coração ao vento arrancando as vestes aos varais e a vida desnuda das flâmulas e bandeiras tremulantes. É só vento... E ela aparece Olga de Kiev depois que subjugou os Drevilianos e agora era a minha vez e pregou uma peça com seu bote de tigresa, trazendo o saco da noite de Valpurgis: Vamos comemorar com Julia Kristeva: O amor é a hora e o espaço onde "eu" me entrego o direito de ser extraordinária. E me levou qual musa da elegia de Donne para, depois de tudo, se insinuar Elizabeth Noelle-Neumann: Solta-se o verbo quando se sente que está em harmonia com o espírito de seu tempo... E depois da agonia dormimos na rede de pernas pro ar, graças! Ainda bem que normalmente tudo acaba em sexo, u-hu! A festa é dela quando sou vento de maio entre as pernas da moça, saia esvoaçante e o cheiro da vida... Quando sou vento forte agito as páginas, parafraseando Heine: Quem indiferente aos livros, também às pessoas... Faço o rascunho da vida, escarafunchei o que passou... Sobrevivi pra contar... Até mais ver.

 


Vem aí o PGM TTTTT. Veja mais aqui e aqui.

 


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...