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segunda-feira, junho 23, 2025

KALIANE BRADLEY, CAROLINA SAMPAOLI, SALLY JOHNSTON & ORIANA DUARTE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Low End (Live Big Ears Festival 2022), Tornasol (2021), Campos Flotantes (2024), Sinfonía Isleña (2023) e The Place We Are (2014), da performática compositora e muti-instrumentista porto riquenha Angélica Negrón, que integra a banda Balún e é artista residente no National Sawdust trabalhando na ópera de dublagem labial, Chimera, atua como professora no programa Very Young Composers da Filarmônica de Nova York e do Lincoln Center Education.

 

Uma noite longa, solstício de inverno... - Que bom! Salve! De antemão: meu beijabração por recepção. Achegue-se! Pra começo de conversa: se chegou aqui é porque teve alguma indicação. Não acredito em acasos, digo logo. Do contrário, assim mesmo: venha! Sei que a gente nem pode pular o muro alto do vizinho, um cachorro daqueles bem brabo nos espera, né? Um vexame! Muito menos atravessar a porta fechada de quem mora ao lado. Uma barra. Sou da vida conversável do Agostinho: “Magia incandescente do verbo”. E como Descartes: converso com livros. Mas vem cá (só puxando assunto pro maior palratório ou dedinho de prosa que seja), para abrideira pode vir com aranzéis de taramelas, de não parar o badalo, nem fechar a matraca contando hestórias de assombrações ou de petas galrões com a maior prolixidade, viu? Proponho pro bate-papo: como as coisas funcionam ao seu modo de ver? Pode abrir suas experiências, se quiser, estreitando o compadrio com potocas loquazes. Ou levar um lero facundo sobre a papagaiada de gaiatos linguarudos, a lorotagem dos caboetas ou dos que arremedam como os metidos a crisóstomos doctiloquentes, dos chatos de galocha com seus carões homiléticos – cada qual sua certeza inabalável, irredutível! Valho-me daquela do Quinus Horacius: tô só cutucando, sabe? Talvez melhor um colóquio sobre umas e outras, perdão e esgares, o lema do desatino entre os dentes e o despudor de epístolas e pistolas, que venham nas fronteiras da convivência; ou uma confabulação sobre hematomas herdados nos desmentidos fraudulentos, das consequências invertidas no desamparo das subnotificações e estatísticas manipuladas, ou mesmo um diálogo sobre fobias ou síndrome do pânico, psicoses, atrofias, de tudo fora da órbita, coisas assim, fazer o quê? Ou ficar com o fôlego suspenso acaso os detalhes por minúcias nos levem a entender que desde que o mundo é o que é, entre o verossímil e o sofismável, as ressalvas e os remendos, as gambiarras, e não perder o fio da meada, apesar dos pesares, conquanto, se puder relaxe, compareça e mande ver nas patranhas, pilhérias, vanilóquios, vale tudo! Com tanto que se sinta confortável. Querendo pode até se encolher, se estirar, ficar de bruços ou se espreguiçar num pufe ou numa poltrona, deitar na cama, plantar bananeira, ou ficar em pé secando os cambitos ou escorando-se na parede, atrepando-se num muro, cê que sabe! Onde estiver: no ônibus, montando um jegue, no trono do banheiro, de cabelo em pé por soltar uma flatulência inesperada, o crível na escusa e o mundo se desfazendo na incerteza. Taí. Há quem escolha episódios mais notáveis; outros, os mais pungentes, patéticos: ninguém está feliz com sua própria sorte, né? E o tempo volta de vez em quando só pra aumentar a desordem e a gente na indomável obstinação, a solidão insular, as façanhas inglórias, as coisas sempre nesse pé e a gente querendo fazer o melhor que puder. E ter de encarar a espessa poeira da recorrente ameaça de guerra há décadas e a qualquer momento: teibei! Aí é só os que viraram adubo, quem levou a melhor, penitências pro perecível: de mão em mão a última chance. Vírgulas e pontos, pelo menos. Se a barra tiver pesada a gente pode mudar de tema e você contar dos seus tédios, fadigas, angústias, lembranças flutuantes que se espatifaram ao espelho, a fuga dos solilóquios, os monólogos do umbigo, como transpôs seus precipícios, feridas reabertas, túmulos revolvidos, apaziguados, pelo menos. Olhe: não faça careta, vamos comer uma cocada que é bom! Aceita? As hestórias já contam por si, quem sabe, há sempre aquelas lacerações oriundas da pedra sobre o tutano das memórias apagadas de tudo, a felicidade ínfima além das galáxias. Do contrário, pode abordar, por exemplo, o que espera da vida, o descontrole e a impulsividade. Se puder nem tenha papas na língua e ponha a mão no fogo, defenda seu ponto de vista com o curso regular dos acontecimentos duplicados. Sei, segredos ao pé do ouvido, confiar em quem? Assim solte pinoias como quem bebeu água de chocalho, falatório pelos cotovelos, mímicas, onomatopeias, êpa! Ditos impublicáveis, lorotas verbosas, porque desse jeito a gente pode abusar de adágios tagarelas, clichês de boquirrotos e seja lá o que quem quer que seja quiser!!! Dê as caras, a gente pode se empolgar oxigenando no passeio, curtindo uma performance musical da Angélica Negrón ou, se for ao gosto ocasional, a Facilita do Ramalho no balanço do Gonzagão: Tataritaritatá!!!!... Pode balançar o esqueleto enquanto ouvimos sobre as viagens de Chimamanda Ngozi, ou do que procura Barbara Rachko, ou as atitudes de Catherine Millet, uns poemas da Carolina Sampaoli, da leitura que fiz do Mistério do tempo da Kaliane Bradley, ou dos estudos sobre a simbiossexualidade de Sally Johnston, apreciar a arte de Oriana Duarte, que tal? Ou mesmo da minha releitura desta semana: Se um viajante uma noite de inverno... Doidice? Ora! Quem goza de saúde mental nestes tempos, hem? Acertemos: doravante, duma coisa tenha certeza: aqui não tem Amanaci chamando chuva, nem relógio pra determinar calendário. A gente só tem o presente para se livrar das tentações do consumo, impaciente com uma fila que não anda, da depressão com o que passou e da ansiedade pelo que virá. Tudo passa. Aliás, já passou. Vale mesmo a interlocução, afinal uma boa conversa segura o mundo! Acho. E saiba: sua chegada é a maior festa, um prêmio com um rosário de alvíssaras, pelo menos pra mim. Salve! Volte sempre! Até mais ver.

 

Chimamanda Ngozi Adichie: Acho que você viaja para procurar e volta para casa para se encontrar lá... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Barbara Rachko: As coisas com as quais você se preocupava se foram: algumas são esquecidas, outras são menos urgentes...Veja mais aqui.

Catherine Millet: As atitudes da sociedade em relação ao sexo são moldadas pelo medo e pela ignorância... A liberdade sexual é um direito humano fundamental... A sexualidade é fluida e está em constante evolução... O corpo é um campo de batalha, onde as expectativas sociais entram em conflito com os desejos pessoais... A satisfação sexual é uma necessidade humana básica... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A MENINA NA JANELA - Eu observava sua silhueta atrás da cortina, borrada, ela se contorcia na redoma de vidro da noite. \ Ela cantava, embalando minhas dificuldades. A espuma cobria o esplendor de sua infância. Ela se encolheu diante do meu olhar profundo, suas maçãs do rosto rosadas, sua pele imaculada. Ela continuou cantando como se nada tivesse acontecido. Ela cantou seus versos para mim, me convidando para dançar com ela na água. \ Eu a segui desconfiado; seus olhos verdes poderiam ter sangrado sob aquela intimidação, mas ela se calou. Finalmente, um fluido incolor, a dança continuou embalando nossas línguas, ofegantes, movimentos descendentes, ascendentes, suspiramos em uníssono. \ Meus olhos não conseguiam captar uma paisagem tão deliciosa, a nudez completa de seu corpo escultural, o rugido de seu sexo, sua agitação digna, mas subestimada. \ Nós nos rendemos ao encontro, lambendo os contornos dos corpos um do outro. \ Ela nunca fechou suas luas brilhantes e encantadoras; ela teria ficado tonta neste caso. Ela me observou obscenamente, recomeçando de acordo com todos os seus desejos insensatos, dívidas ainda não quitadas.

OITAVO DIA - Vi, cheirei, toquei, senti a morte perto, muito perto. \ Seu olhar vazio de significado, seu perfume neutro, sua silhueta vazia. \ Elusiva, furtiva, como o suco diáfano que migra enquanto sua pele permanece. \ É o nada imutável, o silêncio absoluto, o esquecimento... \ Tudo o que é descrito é absorvido, toda forma perece, nem mesmo um sussurro de calma... Tudo o que posso nomear é inominável. \ Nada é nada... Ruído, tontura são irrelevantes na falta de memória... \ Desde que ela me beijou, temo os vivos... \ Suas propostas de flerte... \ Seu olhar que me faz evocar a espera das ondas se fundindo com o horizonte cinzento. \ O nascimento da onda perfeita sendo parte da imensidão. \ O surgimento de um ser de aço, pura magnificência, corrompendo meu corpo enquanto me cobre de espuma. \ Equilibro-me em sua força que me arrasta, em seu rugido, na música celestial que a solidão do oceano me dá... \ Renascido entre nós, cessando de reivindicar esta masturbação, \ entrego-me contigo para desfrutar desta vida terrena. \ Não escrevo mais... Vamos aproveitar? \ Dê-me a sua mão, pegue a minha, vamos rabiscar... Estou de volta, aqui.

Poemas da escritora e pintora argentina Carolina Sampaoli (María Carolina López Sampaoli).

 

O MISTÉRIO DO TEMPO – [...] Se você se apaixonar, será uma pessoa que estará apaixonada pelo resto da vida [...] O perdão, que te leva de volta à pessoa que você era e te permite redefini-la. A esperança, que existe em um futuro em que você é novo. O perdão e a esperança são milagres. Eles te permitem mudar de vida. Eles são viagem no tempo [...] Não quero parecer pessimista. Só o faço porque vejo o quão erradas foram minhas escolhas. Não faça assim. Não entre acreditando que você é um nó em um grande empreendimento, que seu passado e seu trauma definirão seu futuro, que os indivíduos não importam. A coisa mais radical que já fiz foi amá-lo, e eu nem fui a primeira pessoa nesta história a fazer isso. Mas você pode acertar, se tentar. Você terá esperança e foi perdoado. Perdão, que te leva de volta à pessoa que você era e te permite redefini-la. Esperança, que existe em um futuro no qual você é novo. Perdão e esperança são milagres. Eles permitem que você mude sua vida. Eles são viagem no tempo. [...] A vida é uma série de portas batendo. Tomamos decisões irrevogáveis todos os dias. Um atraso de doze segundos, um deslize, e de repente sua vida toma um novo rumo. [...] Você não pode tornar a vida à prova de traumas, e não pode tornar seus relacionamentos à prova de mágoas. Você tem que aceitar que causará danos a si mesmo e aos outros. Mas você também pode errar feio e não aprender nada com isso, exceto que estragou tudo. O mesmo acontece com a opressão. Você não ganha nenhum conhecimento especial sendo marginalizado. Mas você ganha algo ao sair da sua mágoa e examinar os andaimes da sua opressão. [...] O perdão e a esperança são milagres. Eles permitem que você mude de vida. São viagens no tempo. [...] Tudo o que já aconteceu poderia ter sido evitado, e nada disso aconteceu. A única coisa que você pode consertar é o futuro. [...]. Trechos extraídos da obra The Ministry of Time (Avid Reader Press/Simon & Schuster, 2024), da escritora e editora inglesa Kaliane Bradley (Kaliane Mong Huxham Bradley).

 

SIMBIOSSEXUALIDADE – [...] os participantes deste estudo descreveu um desejo por uma dinâmica, algo maior do que a soma das partes de um casal. [...] a simbiosexualidade oferecerá apoio a esta minoria sexual tanto nas comunidades especificamente formadas para apoiar pessoas - pessoas com orientações sexuais e de relacionamento marginalizadas (como a comunidade poliamorosa) e na comunidade tradicional configurações da comunidade [...] Concepções e suposições dominantes sobre sexualidade e desejo, incluindo mononormatividade, políticas de respeitabilidade em comunidades poliamorosas e concepções atuais de desejo no discurso ocidental, contribuem para a invisibilidade simbiossexual. Essa invisibilidade prejudica diversos grupos de minorias sexuais, especialmente mulheres e minorias de gênero dentro desses grupos. [...] A possibilidade de um poder erótico intensificado advindo da consciência e da abertura a múltiplas fontes de prazer, e até mesmo a múltiplas pessoas, ao mesmo tempo, não é nova no discurso sobre sexualidade [...] a simbiossexualidade permanece não reconhecida nas arenas científicas. Adotar o conceito de simbiossexualidade pode facilitar a expansão de conceituações teóricas sobre desejo e orientação sexual no campo da sexualidade humana. [...] Talvez, para alguns indivíduos, combinar desejos que se complementam ou atender a múltiplos desejos simultaneamente aumente a energia erótica e o prazer. Além disso, assim como as narrativas do Oriente Médio e dos povos indígenas sobre sexualidade e desejo oferecem diferentes concepções de desejo, talvez o reconhecimento do desejo simbiossexual possa facilitar as percepções individuais e acadêmicas de diferentes formas ou qualidades de desejo e atração. [...] Espero que o reconhecimento da simbiosexualidade possa oferecer validação e apoio a essa minoria sexual. [...] As premissas e concepções culturais dominantes sobre desejo e sexualidade funcionam para ignorar, obscurecer e/ou desvalorizar a simbiosexualidade. A mononormatividade (especificamente, a suposição da "correção" da dinâmica sexual e de relacionamento entre duas pessoas) contribui amplamente para o desvalor e o descrédito da simbiosexualidade. [...] Oferecer uma nova linguagem pode promover a autocompreensão e a autorrealização, o que, para alguns, pode incluir a adoção do termo simbiossexual ou a recuperação da identidade de unicórnio como descritiva de uma pessoa empoderada que experimenta desejo simbiossexual e prazer sexual com casais. [...]. Trechos extraídos do estudo Symbiosexual Attraction: An Integrated Mixed-Methods Study (PubMed/National Library of Medicine, 2024), da professora antropóloga e socióloga estadunidense, Sally W. Johnston, do Programa de Estudos sobre Mulheres, Gênero e Sexualidade, da Faculdade de Artes e Ciências daUniversidade de Seattle, que ainda acrescenta: Precisamos repensar a natureza da atração e do desejo humanos como experiências apenas individuais. Também precisamos desafiar o estigma e a discriminação contra essa atração dentro da comunidade poliamorosa. Espero que este trabalho reduza o estigma em comunidades monogâmicas e não monogâmicas e expanda as conceituações de desejo nos estudos sobre sexualidade. Explica a professora que o conceito de simbiosexualidade surgiu de observações em discursos culturais e acadêmicos de que algumas pessoas são atraídas pelos relacionamentos entre outras pessoas, em vez de pelos próprios indivíduos. Apesar disso, o fenômeno permaneceu amplamente inexplorado, com a maioria das discussões sobre atração humana se concentrando na dinâmica individual. Indivíduos que sentem essa atração são às vezes chamados de "unicórnios" — um termo que descreve alguém disposto a se envolver em relacionamentos românticos ou sexuais com casais já estabelecidos.

 

A ARTE DE ORIANA DUARTE

[...] O trabalho com a escrita de si me levou a perder o preconceito e, mais do que preconceito, eu era muito reativa com o dizer-se, o lançar-se à própria história e às próprias aflições e instigações. Mas, a gente está viva, tá entendendo? Então, vamos olhar um pouco para essa vida, e o que essa vida nos proporciona. Então, eu perdi a vergonha de assumir que a vida é a mola dessas proposições todas. [...] Nesses anos que antecedem minha tensão com o corpo, vivi um luto muito dramático, que foi a perda da minha mãe, muito jovem, vivi o acompanhar do corpo que vai perdendo a vida, numa situação realmente limite, e é algo que é muito chocante. De fato, eu precisava ativar o corpo para poder viver a morte. Por exemplo, a Selvagem Sabedoria mesmo, a experiência de você estar lidando com uma cobra, viver trancada uma semana com a cobra só sentindo medo, sem conseguir fazer nada com essa cobra a não ser sentir medo. E tem uma imagem o tempo inteiro na sua cabeça, que é uma imagem que suscitava uma imagem da arte, um palimpsesto da arte. [...]. Como se só a arte pudesse estar ali convivendo com o medo [...] Uma fala que se posiciona no sistema, seja contra, seja a favor, seja escapando completamente... Eu estou no escape, estou cortando, eu estou transversalizando esse sistema. Que é o que mais incomoda, que é o que eu mais gosto também, que é de incomodar, que é uma atitude política. [...]. 
Trechos da entrevista concedida pela artista e professora Oriana Duarte (Oriana Maria Duarte de Araújo), que realiza suas pesquisas visuais e teóricas com foco principal voltado para o corpo humano, em especial o corpo feminino, investigando seu potencial simbólico e representativo dos pontos de vista de gênero e de modos de vida. A entrevista foi concedida para o estudo O discurso político do autorretrato em Oriana Duarte (Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, 2020), de Ana Carolina Magalhães Salvi. A artista é autora das obras Dos heteróclitos como categoria de ação (Bienal de São Paulo, 2002), Usei meu corpo: das vísceras fiz sopa, dos membros fiz pontes (Congresso ABRASSE, 2008), Salto no Escuro: curadoria de arte como experimento (Funcultura, 2011), Plus Ultra: o corpo no limite da comunicação (PUC-SP, 2012), Nós, errantes: as travessias plus ultra de uma Artista Atleta (EdUFPE, 2913) e O entre arte e filosofia: um pensar sobre estilo de existência e vida de artista (Ecossistemas Artisticos – ANPAP, 2014). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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sábado, abril 08, 2023

NNEDI OKORAFOR, CARLO ROVELLI, ANNIE VIVANTI, CHAMFORT & CAPOEIRAS

 

 Ao som do concerto Syllableaves para Theremin e Orquestra, pelo Gävle Symfoniorkester, dirigido por Fredrik Burstedt no Konzerthaus Gävle (Suécia, 2010) e Fantasias para Theremin e Quarteto de Cordas (2015), ambos da musicista alemã Carolina Eyck. Imagem: Mandala lírica (Acervo ArtLAM).

 

MANDALA LÍRICA – Outoninverno, o calor do nublado no meio de dias curtos e tanto a fazer. No meu sobrenome sabia: o frio vai durar toda vida e ainda não era o meu prazo. Era como se estivesse em YZ Ceti b contemplando a órbita de uma estrela anã vermelha. Umas passadas a mais e, do outro lado do muro, zuniam as balas do sectarismo messiânico com todos os seus próceres et caterva dedado por Lukács. Logo me distanciei e na boca de um túnel negro algo estranho e logo percebi que não era o gênio maligno de Descartes - quem dera a dúvida hiperbólica, ou que fosse pelo menos a dúvida cética, ora, e a metafísica nas raízes à mostra no chão, a física ao tronco e as ciências escapulindo pelos galhos! Mas não, não era. E como aprendi que um mais um são três, o poeta sorriu atrás do muro para dizer: Mácula acumula e como micula. Ora, eu também, meu! E sorrio. Tudo que vem logo vai. Nem deu tempo findar a frase e da boca do túnel surgiu Rufus – ah, não pode ser! E o pior: devidamente acompanhado duma dupla maligna breganeja e escatológica - Little Boy & Fat Man. Um trio nada agradável, eu previa. Queria lá fazer cócegas na cauda dum dragão, oxe! Tá doido, é? Bafejaram em uníssono: Bem, isso é tudo! Não, não era. Neguei o quanto pude! Contudo, a besta furiosa com seus comparsas queria mesmo era me torrar. Sou lá Daghlian ou Stolin, meu? Cai fora! Cuspi alerta: a minha chave de fenda é meu corpo fechado, espero. E, para me lascar, não era mesmo. Tentei escapar e uma das serpentes de Tirésias se aninhou ao redor dos meus pés. Ela fitou-me e senti logo que havia sido condenado pelo Basilisco de Roko, Singleton. Agora deu! Só me faltava essa! O quarteto logo me acuou na tentativa de me aprisionar no cérebro de Matriosca do Bradbury e já adivinhava: hoje cessará e logo será ontem, não sei amanhã. Procurei canto para me socar, mão aos olhos aprontando pra carreira e tudo estreitava. Qual é? Onde estou eu, afinal? Senti-me póstumo e pra não arrear de vez puxei conversa com os algozes, parecia mais que eu falava era grego. Não adiantou, mesuras inúteis. Encostado na parede, pressentia dali sangue na canela até o pescoço. Estava rendido, deveras. Matutei no cúmulo da fuga: uma carta na manga. Respirei fundo, pneuma no sangue: fui pro tudo ou nada e à forra, perdido por um ou por mil, tanto faz. Não me acovardei, centupliquei-me - afinal a lição: o que não me liquida me fortalece. Saquei e foi tiro e queda: as marteladas de Nietzsche! Dessa me safei, foi por pouco. Mais uma. Será que terei outra chance? Ah, deixa pra lá. O que vale é que cá estou no meio do caminho entre o micro e o macro, assobiando os acordes do meu theremin imaginário. Até mais ver.


Imagem: A vida e os sonhos renascem muitos... (Acervo ArtLAM).

 

DITOS & DESDITOS –O dia mais perdido de todos é aquele em que não se riu. O amor, tal como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes. O amor é como as epidemias: quanto mais o tememos, mais expostos a ele estamos. Amar é uma necessidade do coração; fazer amor é uma ocupação do espírito. As paixões fazem o homem viver, a sua sabedoria apenas o faz durar. A palavra mais acertada que já foi dita sobre celibato e matrimônio é esta: qualquer partido que escolhas tu te arrependerás. Quem não tem caráter não é homem, é coisa... Pensamento do dramaturgo e escritor francês Nicolas de Chamfort (Sébastien-Roch Nicolas – 1840-1794).

 

ALGUÉM FALOU: Eu quero investigar o que me assusta e me preocupa. Você fez o que você fez, você não fez o que você não fez, e agora você está pronto para julgamento. As pessoas podem ser todas as espécies de implacáveis e podem ser todos maravilhosos. Confie em si mesmo para que os erros que você fizer sejam os que foram feitos e não algo que você fez porque você estava com medo de fazer o que queria fazer. Possua seus erros, então você pode possuir seus sucessos. A alegria no que faço está em fazer isso. E então há a parte em que as pessoas vão ver o que eu ofereci e gostei ou elas vão ver o que eu ofereci e desejo que elas não puderam fazer... Pensamento da cineasta, roteirista e escritora estadunidense Jennifer Lynch.

 

A TRISTEZA DURA PARA SEMPRE...

São vastas extensões de trigo sob céus tempestuosos e não tive dificuldades para expressar a tristeza e a extrema solidão... Tanto na vida como na pintura, posso muito bem ficar sem Deus; mas não posso, sem sofrer, ficar sem algo que é maior do que eu, que significa a minha vida inteira: a força de criar... Há leis de proporção, de luz, de sombra e de perspectiva, que é preciso conhecer para desenhar um motivo; se essa ciência nos falta, arriscamos travar eternamente uma luta estéril e não conseguimos nunca criar.

Pensamento do pintor do pós-impressionismo holandês, Vincent van Gogh (1853-1890). (Imagem acervo ArtLAM: A mulher contempla a cadeira de van Gogh). Veja mais aqui e aqui.

 

QUEM TEME A MORTE - [...] Criaturas defeituosas e imperfeitas! Isso é o que nós dois somos, oga! Isso é o que TODOS nós somos! [...] Ser algo anormal significava servir ao normal. E se você recusasse, eles te odiavam... e muitas vezes os normais te odiavam mesmo quando você os servia [...] Eu era jovem, mas odiava como um homem de meia-idade no final de seu auge. [...] Nunca saberemos exatamente por que somos, o que somos e assim por diante. Tudo o que você pode fazer é seguir seu caminho até o deserto, e então continuar porque é assim que deve ser.[...]. Trechos da obra Who Fears Death (DAW, 2014), da premiada escritora e educadora nigeriana-americana Nnedi Okorafor (Nnedimma Nkemdili Okorafor ou também conhecida como Nnedi Okorafor-Mbachu).

 

ORDEM DO TEMPO - [...] As crianças crescem e descobrem que o mundo não é como parecia dentro das quatro paredes de suas casas. A humanidade como um todo faz o mesmo. [...] A diferença entre passado e futuro... causa e efeito... memória e esperança... arrependimento e intenção... nas leis elementares que descrevem os mecanismos do mundo, não existe tal diferença. [...] O mundo é feito de eventos, não de coisas. [...]. Trechos extraídos da obra The Order of Time (Riverhead, 2018), do físico e cosmologista italiano Carlo Rovelli.

 

QUEM SABE...

A longa noite me negou refrigério, / Alfin a aurora nasceu. / No leste, o céu é tingido de ouro, / E toda estrela está morta. / Quem sabe se é verdade que existe um Deus lá em cima! / Um Deus que ama e conforta! / - Penso em você que não me ama mais, / E para minha falecida mãe...

Poema extraído da obra Lírica (BiblioLife, 2009), da poeta italiana Annie Vivanti (1866-1942). (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui.

 

UNA-SE, O RIO É SEU...

Pela Serra do Quati ouvia o canto repetititvo: cáa-poera, Capoeirã! Oxe e tome bis com o refrão: Quando não é mata cortada, é roça tomada pelo mato. O rio é seu, una-se... (Tributo ao Município de Capoeiras – Pernambuco. Imagem: Valuna: Capoeiras – Acervo ArtLAM).

Veja mais aqui, aqui & aqui.



 


domingo, fevereiro 21, 2016

ADÉLIA PRADO, CHARLOTTE ROCHE, NOEMI JAFFE, SATIE, LUXEMBURG, BROWNMILLER & LITERÓTICA



ERA A VEZ DELA... – Não sei o teu nome, minha cúmplice da noite em todos os alcoices, bordéis e lupanares de hoje, muito menos tua cor, minha sacerdotisa egípcia no transe hipnótico da dança do vente. Pra quê saber disso, minha ilha ninfa, já que me vanglorio por ter estado em teu corpo por mais de zilhões de vezes? Os homens nominam tudo, não sabem o prazer do inominável. Minha encantada Aspásia, pra mim tudo teu, minha Semíramis do trono da babilônia, cantada apaixonadamente por Valery. Para mim nada me é mais importante, és minha índole fenícia, moça bem feita de corpo. És minha Nefertiti, deusa mulher de longa cauda a me deixar absorto. És minha Messalina da língua que me envolve todo. Minha Cleópatra dos desejos desenfreados. Minha Jesabel, prostituta linda de Tiro, minha mucama das ancas voluptuosas, minha pajem da boceta gostosa, minha gueixa trepadora, minha meretriz devassa, minha freira sedutora, minha rameira de pernas abertas, minha puta, puta minha. Deusa-rainha minha, sou teu rio a desaguar e a tomar o teu cinto de Afrodite que me faz entorpecer. Sou teu Baal, és minha Anat, concubina minha, para me saciar se jogando na noite. Vou usurpar o teu cofre com a chave exata. Enquanto um de teus olhos me desnuda, o outro me abre fendas. Uma de tuas pernas me agarra, a outra quer me botar de lado. E quando te saciar, serei teu Sansão, serás minha Dalila, a mulher do vale de Soreque. E mesmo que me envolvas os sete tendões frescos ainda secos, esporrarei nas tuas entranhas com o que há de melhor em mim. E mesmo que me aprisiones com as cordas novas que não há de ter feito obra alguma, te esfolarei por trás, égua minha, até os grunhidos máximos da dor e do prazer. E mesmo que teças as sete tranças da minha cabeça com urdidura de teia e firmá-las com pino de tear, empurrarei na tua boca o meu sêmen para engolir tudo que for meu até nada sobrar. E mesmo que me raspes as tranças, mesmo que me subjugues, me vaze os olhos e me prenda com duas cadeias de bronze e mesmo que eu vire um moinho no cárcere e te sirva de diversão, mesmo assim lamberei e chuparei teu tesouro imaculado até que desfaleças inteira ao meu lado, porque meu cabelo novamente crescerá e apalparei tuas colunas e te derrubarei e te emprenharei na sepultura entre Zorá e Estaol, no sepulcro do meu Pai Manoá e serás eternamente minha mulher, puta minha, mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Estou cansado de sempre morrer com o coração partido... Por que atacar a Deus? Ele pode ser tão miserável quanto nós... Nunca escrevi uma nota que não tivesse a intenção de dizer...

Pensamento do compositor e pianista francês Erik Satie (Éric Alfred Leslie Satie – 1866-1925). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU

Todos os homens mantêm todas as mulheres em estado de medo... As mulheres, como classe, jamais subjugaram outro grupo; jamais marchamos para guerras de conquista em nome da pátria. Jamais estivemos envolvidas na anexação do território de um país vizinho ou na luta por mercados estrangeiros em terras distantes. Esses são jogos que os homens jogam, não nós. Não queremos ser nem opressoras nem oprimidas. A revolução das mulheres é a revolução final de todas... Somos irrevogavelmente contrários à representação do corpo feminino sendo despido, amarrado, estuprado, torturado, mutilado e assassinado em nome do entretenimento comercial e da liberdade de expressão...

Pensamento da jornalista e escritora estadunidense Susan Brownmiller, que na sua obra In Our Time: Memoir of a Revolution (The Dial Press, 1999), assinalou que: […] Se as condições forem favoráveis, se a raiva de um número suficiente de pessoas atingir o ponto de ebulição, essa paixão explosiva poderá desencadear uma transformação social. […]. Veja mais aqui.

 

ZONAS ÚMIDAS - [...] Tudo que é sexy — cabelo despenteado, alças que caem do ombro, um brilho suado no rosto — está um pouco torto, sim, mas palpável. [...] É uma invenção da qual me orgulho muito: o bombom de sexo memorável. [...]. Trechos extraídos da obra Feuchtgebiete (DuMont Buchverlag GmbH, 2008), da escritora inglesa Charlotte Roche (Charlotte Elisabeth Grace Roche).

 

POEMA - Deus não me dá sossego. É meu aguilhão. Morde meu calcanhar como serpente, faz-se verbo, carne, caco de vidro, pedra contra a qual sangra minha cabeça. Eu não tenho descanso neste amor. Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa. Quero de novo o ventre de minha mãe, sua mão espalmada contra o umbigo estufado, me escondendo de Deus. Poema da poeta, professora, filósofa e escritora Adélia Prado (Adélia Luzia Prado de Freitas). Veja mais aqui.

 

O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO – [...] E assim as pessoas acreditam que o mundo existe para o ‘eu’, que, felizmente, não chega remotamente perto da verdade plena. O mundo não existe para o I. Não existe para nada. existe para continuar a existir. Mas saber isso não muda nada para todos os que eu vagueio pelo mundo. [...]. Trecho extraído do livro O que os cegos estão sonhando? - Diário de Lili Jaffe 1944-1945 (34, 2012), da escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe, autora dos livros Todas as coisas pequenas (Redra, 2005), Do princípio às criaturas (USP, 2008), Folha Explica Macu­naíma (Publifolha, 2001), entre outros. Veja mais aqui.

 

TEORIA DOS JOGOS – Trata-se de uma teoria que surgiu por meio de uma carta do político britânico James Waldegrave (1715-1763), propondo uma estratégia mista para duas pessoas em um jogo, aproveitada pelo matemático e economista francês Cournot (Antoine Augustin Cournot – 1801-1877), autor da obra Researches into the Mathematical Principles of the Theory of Wealth, publicada em 1838, estabelecendo os princípios dessa teoria, uma solução que era, na verdade, uma versão prévia e restrita do que se tornaria a teoria do equilíbrio, proposta pelo matemático estadunidense John Forbes Nash Jr (1928-2015). No entanto esta teoria passou mesmo a existir a partir dos estudos do físico-matemático húngaro John von Neumann (1903-1957) e doutros desenvolvidos pelo matemático francês Émile Borel (1871-1956). Mas foi com a publicação do livro The Theory of Games and Economic Behavior (1944), numa parceria de Neumann com o economista austríaco Oskar Morgenstern (1902-1977), que se delinearam as bases do método para encontrar soluções ótimas para jogos de duas pessoas de soma zero. E com o experimento denominado de Dilema do prisioneiro, em 1950, de Merri Flood e Melvin Dresher, desenvolveu-se uma estratégia ótima para jogos com diversos jogadores, envolvendo situações de jogos cooperativos e não-cooperativos, além duma série de jogos como os da forma extensiva, repetidos, do jogador fictício e o valor de Shapley, afora outros conceitos de solução do equilíbrio perfeito em sub-jogo, de informação completa, de jogos Bayesianos, estendendo-se à Biologia com a estratégia evolucionária estável, os conceitos de equilíbrio correlato e conhecimento comum, até o modelo dinâmico da teoria dos jogos evolucionários, em 2005, ampliando-se aplicação da teoria para os campos da filosofia e da ciência política, utilizando-se do Dilema do Prisioneiro, da Caçada ao Veado e do jogo da barganha de Nash. Como aspectos gerais da teoria estão as instruções que são responsáveis por definir e enquadrar o ambiente da experiência; a randomização para evitar que diferenças como personalidade, riqueza ou a altura a que o participante começa a experiência afetem sistematicamente a experiência, validando-se uma variedade de procedimentos; o anonimato que corresponde à associação aleatória de participantes para uma experiência, sem contato visual e mantidos em silêncio durante a sua aplicação, para evitar que ocorra influência da percepção não associada ao objetivo do estudo na tomada de decisão; os incentivos reduzindo a variância dos resultados, quando comparado com a sua não utilização; e a questão crucial da satisfação dos participantes para evitar a decepção, considerando-se os principais conceitos e aplicações. Ou seja: os jogadores, as estratégias e recompensas são conceitos fundamentais que definem os participantes, as escolhas e os resultados finais, a parti do Equilíbrio de Nash, do Dilema do Prisioneiro e do Olho por olho (Tit-for-Tat), com suas aplicações práticas na Economia, Biologia, Filosofia, Ciências Sociais e na vida real, por meio de jogos cooperativos e não-cooperativos, forma normal (matrizes, jogos simultâneos) e extensiva (árvores, jogos sequenciais).

REFERÊNCIAS

CONWAY, J. A Gamut of Game and Theories. Mathematics Magazine, pp. 5–12, 1978.

_______. On Numbers and Games, Second Edition. A. K. Peters, Natick, 2000.

ETESSAMI, K. Algorithmic Game Theory and Aplications. Lecture Notes, School of Informatics, The University of Edinburgh, Scotland, UK, 2004.

HART, S. Games in Extensive and Strategic Forms. Capítulo 2 in: Hand-book of Game Theory, vol. 1, R. J. Aumann e S. Hart (Org), Elsevier Science Publishers, 1992.

HONIG, C. Aplicações da Topologia à análise. IMPA/CNPq, Rio de Janeiro, 1986.

SARTINI, B. et all. Uma introdução a teoria dos jogos. Bienal SBM/UFBA, 2004.

 


MARGARETHE VON TROTTA
– A atriz, diretora, roteirista, realizadora e escritora alemã Margarethe Von Trotta, na sua exitosa carreira, atuou em dois filmes que envolviam personagens da mais alta importância tanto para a história da humanidade, como para a realidade da mulher contemporânea. O primeiro deles é o premiado filme Rosa Luxemburg (1986), em que ela dirigiu contando a história da filósofa e economista marxista polaco-germana, além de ter sido uma importante mulher para a história alemã e da humanidade. O segundo que ela dirigiu foi o também premiado filme Hannah Arendt (2013), contando a biografia da filósofa alemã. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


AS PAIXÕES DA ALMA, DE RENÉ DESCARTES  - [...] considero que não notamos que haja algum sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma do que o corpo ao qual está unida, e que, por conseguinte, devemos pensar que aquilo que nela é uma paixão é comumente nele uma ação; de modo que não existe melhor caminho para chegar ao conhecimento de nossas paixões do que examinar a diferença que há entre a alma e o corpo, a fim de saber a qual dos dois se deve atribuir cada uma das funções existen­tes em nós. [...] que tudo o que existe em nós, e que não concebemos de modo algum como passível de pertencer a um corpo, deve ser atribuído à nossa alma. [...] a morte nunca sobrevêm por culpa da alma, mas somente porque alguma das principais partes do corpo se corrompe; e julgue­mos que o corpo de um homem vivo difere do de um morto como um relógio, ou outro autômato (isto é, outra máquina que se mova por si mesma), quando está montado e tem em si o princípio corporal dos movimentos para os quais foi instituído, com tudo o que se requer para a sua ação, difere do mesmo relógio, ou outra máquina, quando está quebrado e o princípio de seu movimento pára de agir. [...] enquanto vive­ mos, há um contínuo calor em nosso coração, que é uma espécie de fogo aí mantido pelo sangue das veias, e que esse fogo é o princípio corporal de todos os movimentos de nossos membros. [...] todas as paixões consiste apenas no fato de disporem a alma a querer coisas que a natureza dita serem úteis a nós, e a persistir nessa vontade, assim como a mesma agitação dos espíritos que costuma causá-las dispõe o corpo aos movimentos que servem à execução dessas coisas. [...] E agora que as conhecemos todas, temos muito menos motivo de as temer do que tínhamos antes; pois verificamos que são todas boas por natureza e que só devemos evitar o seu mau uso ou os seus excessos, contra os quais os remédios que expliquei poderiam bastar, se cada um tivesse cuidado bastante para praticá-los. Mas, como incluí entre esses remédios a premeditação e a indústria pela qual se podem corrigir os defeitos naturais, exercitando-nos em separar em nós os movimentos do sangue e dos espíritos dos pensamentos aos quais costumam estar unidos, confesso que há poucas pessoas que se tenham suficientemente preparado dessa maneira contra todas as espécies de recontros, e que esses movimentos excitados no sangue pelos objetos das paixões seguem primeiro tão prontamente das simples impressões que se fazem no cérebro e da disposição dos órgãos, ainda que a alma não contribua para tanto, de qualquer maneira, que não há nenhuma sabedoria humana capaz de resistir-lhes quando não estamos para isso bem preparados. Assim, muitos não poderiam abster-se de rir, quando lhes fazem cócegas, embora não colham daí nenhum prazer; pois a impressão da alegria e da surpresa que outrora os fez rir pelo mesmo motivo, estando desperta em sua fantasia, faz com que seus pulmões sejam subitamente inflados, contra a vontade, pelo sangue que o coração lhes envia. Assim, os que têm, por natureza, forte pendor para as emoções da alegria e da compaixão, ou do medo, ou da cólera, não podem impedir-se de desmaiar, ou de chorar, ou de tremer, ou de ter o sangue todo agitado como se tivessem febre, quando a sua fantasia é fortemente tocada pelo objeto de alguma dessas paixões. Mas o que se pode sempre fazer em tal ocasião, e que eu julgo poder apresentar aqui como o remédio mais geral e o mais fácil de praticar contra todos os excessos das paixões, é, sempre que se sinta o sangue assim agitado, ficar advertido e lembrar-se de que tudo quanto se apresenta à imaginação tende a enganar a alma e a fazer com que as razões empregadas em persuadir o objeto de sua paixão lhe pareçam muito mais fortes do que são, e as que servem para dissuadir muito mais fracas. E quando a paixão persuade apenas de coisas cuja execução sofre alguma delonga, cumpre abster-se de pronunciar na hora qualquer julgamento e distrair-se com outros pensamentos até que o tempo e o repouso tenham apaziguado inteiramente a emoção que se acha no sangue. E, enfim, quando ela incita a ações no tocante às quais é necessário tomar uma resolução imediata, é mister que a vontade se aplique principalmente a considerar e a seguir as razões contrárias àquelas que a paixão representa, ainda que pareçam menos fortes: como quando se é inopinadamente atacado por algum inimigo e a ocasião não permite que se empregue algum tempo em deliberar. Mas o que me parece que os que estão acostumados a refletir sobre as suas ações podem sempre fazer é, quando se sentirem tomados de medo, esforçarem-se por desviar o pensamento da consideração do perigo, representando-se as razões pelas quais há muito mais segurança e mais honra na resistência do que na fuga; e, ao contrário, quando sentirem que o desejo de vingança e a cólera os incitam a correr inconsideradamente para aqueles que os atacam, lembrar-se-ão de pensar que é uma imprudência o perder-se, quando é possível sem desonra salvar-se, e que, se a partida é muito desigual, vale mais efetuar uma honesta retirada ou tomar quartel do que expor-se brutalmente a uma morte certa. AS PAIXÕES DA ALMA – O livro As paixões da alma, filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650), trata de temas como das paixões em relação a um sujeito como ação a qualquer respeito, o corpo e a alma, o calor e o movimento, o princípio de todas as funções, o movimento do coração, as causas da diversidade, as funções da alma, a vontade, a percepção, imaginação, a definição das paixões da alma, a sede das paixões, do número e da ordem das paixões e a explicação das leis primitivas, a admiração, a estima ou o desprezo, a generosidade e orgulho, a humildade e a baixeza, a veneração e o desdém, o amor e o ódio, o desejo, a esperança e o temor, o ciúme, a segurança e o desespero, a irresolução e a coragem, a ousadia, a emulação, a covardia e o pavor, o remorso, a alegria e a tristeza, a zombaria, a inveja e a piedade, a satisfação de si mesmo e o arrependimento, o favor e o reconhecimento, a indignação e a cólera, a gloria e a vergonha, o fastio, o pesar e a alegria, as seis paixões primitivas, o espanto, para que servem todas as paixões, afeição, amizade e devoção, do agrado e do horror, prazer físico e dor, o movimento do sangue e os espíritos, das ações dos olhos e do rosto, das mudanças de cor, dos tremores e da languidez, desmaio, riso, indignação, o choro, os gemidos e as lágrimas, suspiros, das emoções interiores da alma, das paixões particulares, da estima e do desprezo, humildade virtuosa e viciosa, o desdém, do uso da troça, o justo e injusto, compaixão, compulsão, arrependimento, do favor e da ingratidão, da cólera, da impudência, do fastio e do pesar, do júbilo e o remédio geral contra as paixões. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
DESCARTES, René. As paixões da alma. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


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