sexta-feira, dezembro 21, 2012

PAPAI NOEL FOI PRESO



PAPAI NOEL FOI PRESO!!!!!!!!!!!!!!


Desde tenra idade que Doro guardava consigo uma das mais fortes imagens de toda sua existência: os festejos natalinos. Como sempre fora desprovido de qualquer possibilidade para participar dos eventos de fim de ano, claro, o pai era um broco das costas ocas que só se ocupava em ganhar dinheiro para assar e comer; a mãe, coitada, dividida entre a fileirinha dos quinze filhos e a igreja, pudera, sobrava neres de nada mesmo para o Doro alimentar suas fantasias infantis. Mesmo assim, ainda hoje sonha com Papai Noel, banquete de natal, reunião de família às vésperas do dia da religiosidade cristã, essas baboseiras todas ditas por ele mesmo.

Certo dia, porém, Doro invocou-se, resolveu ele mesmo fazer o seu próprio natal pela primeira vez na vida. Encarou a mulher, nossa, como sempre incrédula; os filhos, meia dúzia de bruguelinhos com os olhos bem abertos para a banda dele; e, ao lado, sempre broncas e broncas e mais tivesse no mundo de estrupício estaria ali, nas cercanias de sua inditosa existência.

Pois foi com esse panorama que ele franziu o cenho, coçou o cavanhaque, apertou o nariz, pigarreou e uma luzinha de eureka brilhou das catracas do seu quengo.

- Mulé, vou fazê o nosso natá!

- Lá vem ess´ome cum invenção de novo!

- Verdade, vou fazê pela premêra veizi a filicidade da gente e dum bucado de criança no mundo!

- Ih! Tem coisa!

E tinha mesmo. Toda razão do mundo para Marcialita que já desconfiava do salseiro que seria toda aquela invencionice do sujeito.

Dinheiro que era bom, nada. E agora? Como fazer? Doro não se apertava nunca mediante qualquer que fosse a adversidade e colocava suas doidices com bastante – e bote muito além do bastante nisso, demais até – criatividade.

Primeiro, passou uns dias só trancado, fazendo um cosimento nuns trapos e retalhos que recolhia por todo canto onde passasse, só na concentração dos intentos.

Nem vou falar, vocês já adivinham, né?

Já tratavam o desmiolado por gari de tanta coisa imprestável que arregimentava, tudo um verdadeiro lixo, mesmo.

Depois se apossou dumas ferragens velhas, misturando um resto de velocípede aposentado armado em cima de uns pedaços duma bicicleta destroçada, tudo num trabalho de soldador engenhoso, resultando num bregueço lá que num tinha quem adivinhasse. Parecia mais que o cara estava fazendo um excelente trabalho de funilaria, preparando no meio das tranqueiras, alguma coisa por serventia. E parece que vai servir mesmo, ninguém sabe ainda.

Imaginem mesmo o rebuliço.

Quando o mondrongo do negócio estava pronto, ele começou a pintar dando uma cara multicolorida para o invento.

Com a pintura pronta daquilo, se armou de cordas, barbantes e cabos de aço não se sabendo ao certo para quê, só se sabia mesmo das marteladas, suadas, enganchadas e presepadas noite adentro para concluir algo longe de se imaginar o que pudesse ser.

Os vizinhos reclamavam que não podiam dormir com a barulheira dele, sendo interpelado diversas vezes pelos educados soldados da patrulha militar local. Com isso foi persuadido a respeitar o silêncio alheio, senão seria trancafiado em nome da paz pública.

Assim foi mais jeitoso até quando deu por pronto, escondeu o que fazia de todo mundo e saiu recolhendo os guenzos vira-latas mais maltratados que encontrava na redondeza. Uns oito pulguentos estropiados que levou tudo para a sua residência. Um escarcéu!

- Ô, homi, bota essis viralata para fora! -, reclamava Marcialita.

- Calma, muié, vancê vai gostá.

- Isso num é cachoro, homi, é uma fábrica de carrapato, quero isso não aqui!

- Calma, muié, cum certeza vancê vai gostá.

E nesse chove num molha, Marcialita matou uns três de chutes, sem contar mais uns cinco que morreram de fome, tendo Doro de arregimentar mais cachorros para o seu intento, mesmo sob os reclamos mais retumbantes da vizinhança que não aguentava mais. E, dessa vez, trouxe uns quinze, quase de matar a mulher do coração e de impaciência os irascíveis sofredores das imediações.

- Prá quê tanto cachorro, hem? Num basta tu aqui im casa?

- Calma, muié, calma.

Marcialita abufelou-se e amarrou os filhos no cós da saia, zarpando para longe dali.

Aí Doro trabalhou em paz e deixava estampada aquela cara de satisfação, só entristecida com as intervenções das autoridades policiais que agora estavam curiosas para saber no que aquilo ia dar por fim.

Livre da forma como ficou, Doro apoderou-se das outras dependências da casa, principalmente a cozinha onde ele começou a fazer uns cozimentos com açúcar e outros ingredientes peguentos no maior meladeiro.

Não deu outra! Uma explosão do botijão de gás! Ele coçou o quengo e constatou suas limitações com o trato de fogo e fogão naquelas horas. Ôxe, um desmantelo mesmo.

Pacientemente, depois da explosão e do entra e sai de gente até de um olho só para testemunhar o sucedido, ele removeu o resto das coisas que ainda julgava por comestíveis e que estavam apregadas nos mais diversos recantos das paredes, provando do resultado o que parecia até gostoso, vez que ele mesmo saboreava com certo deleite, quando não fazia uma careta inchada depois.

Uns dias mais, Doro se acorda feliz!

- É hoje!

Era 24 de dezembro de um ano lá pra trás.

Ele começou seu expediente derrubando um pedaço do muro do quintal e escondendo tudo com uma lona plástica preta para que ninguém visse o que estava fazendo.

Findada a destruição, escondeu-se dentro do quartinho e só se via o zoadeiro dele remanejando coisas daquele local pro quintal.

Nem se comesse bosta de cigano da muita dava para se adivinhar o que ele se propunha a fazer. Mas tome teitei.

Passou toda manhã, transcorreu toda tarde e quando anoiteceu, Doro estava todo aprontado com a cara de toda satisfação da vida.

Às vinte horas em ponto, Doro arrebenta a lona do muro do quintal e sai berrando:

- Jingle bell! É Natal! Hô hô hô!!!!

Quando vi o estardalhaço, nossa! Fui o primeiro contemplado com a surpresa. Diga-se: a coisa mais tresloucada que já vira na vida. Um monstro! Aquilo nunca fora papai Noel, parecia mais assombração de esquálido e feioso ser dos quintos dos infernos. Eu só identifiquei o Doro pela fala e pela maneirice de seus jeitos.

Imaginem uma coisa estupidamente extravagante e duplicadamente horrorosa! Imaginaram? Multipliquem por mil e ainda será pouco para dar uma ideia rala da estripulia dele.

Pois bem, ele fez um ar de riso para mim, meteu a mão no saco e entregou-me um pacote dizendo que tinha um panetone dentro. Na verdade, era um cuscuz com meio mundo de coisa que nem tive coragem e muito menos atrevimento nem de cheirar quanto mais de digerir.

Aos pulos e aos gritos Doro chamava as crianças do lado e danou-se a entregar um nego-bom que ele mesmo fizera para a alegria delas. Alegria, agora; depois vocês vão ver a desgraça.

Quando fez as entregas ali, deu umas palavras de ordem de comandante daquela doidice e partiu com seu hô hô hô.

A catrevagem toda resultou num trenó; as renas, os guenzos; a vestimenta, uma tristeza de dar dó; os presentes, nego-bom e outras guloseimas enjoativas. E o barulho, ensurdecedor. Lá vai aquela desgraça rua afora se passando por papai Noel.
Resultado: dois problemas gravíssimos! Saúde e segurança públicas. Cadeia.

Até então ele não havia inaugurado os serviços cinco estrelas duma delegacia. E ainda insistia que era o papai Noel. Pode?

Acusação: a primeira, por causa da assombração. Todo mundo se cagou de medo, principalmente as criancinhas. Num ficou um pé de gente na rua por onde ele passou.

A segunda: caganeira. Os bruguelos que comeram o nego-bom que ele distribuiu, estavam todos hospitalizados com uma diarreia braba, morre mais num morre. Uma correria dos diabos. Verdadeiro infanticídio em massa.

Mediante esse rebuceteio todo, tive que intervir em seu favor.

De cara o delegado ameaçou que não haveria na face da terra advogado capaz de retirar o sujeito daquelas ferrenhas grades. Deu trabalho. Não era só o delegado, a população toda duvidava quem tivesse o desplante de requisitar alvará de soltura para ser tão perigoso que se tornara o inimigo público número 1 daquele lugar.

Deu trabalho, mas deu mesmo!

Por sorte, as criancinhas depois de quinze dias de medicadas, se salvaram daquele troço todo. Sorte das grandes. Apenas se intoxicaram em demasia. Ainda bem.

Consegui que fosse relaxada a prisão dele e quando instei sobre o ocorrido, ele com a maior cara lisa, ainda balbuciou:

- Hem, hem, as criancinha nem pudero vê papai Noé direito.

É mole? Tava ele já enganchado numa beldade todo libidinoso parecendo mais que nada tinha acontecido. Pode? Bié, bié, glup, glup!!





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