quarta-feira, outubro 30, 2013

FUNÇÕES DO SUPEREGO E MECANISMOS DE DEFESA



FUNÇÕES DO SUPEREGO E MECANISMOS DE DEFESA*


FUNÇÕES DO SUPEREGO E MECANISMOS DE DEFESA - O presente trabalho de pesquisa aborda a questão das funções do superego e dos mecanismos de defesa, em atendimento às exigências da disciplina História da Psicologia.
Justifica-se pela importante contribuição freudiana aos estudos psicológicos, a partir da identificação do id, do ego e do superego para a formação da personalidade e de como os mesmos processam mecanismos que são benéficos e, ao mesmo tempo, maléficos para o indivíduo.
Objetiva, portanto, investigar as funções do superego e no processo de identificação dos mecanismos de defesa, seus procedimentos e entendimentos dos estudiosos em Psicanálise.
A metodologia aplicada no presente estudo se caracteriza como uma pesquisa descritiva e bibliográfica, baseada em livros, revistas especializadas e sites da internet.
Por essa razão, na primeira parte do trabalho será abordada a temática das funções do superego, analisando as conceituações dadas por Freud e o desenvolvimento da fundamentação teórica para o assunto dada por outros autores.
Em seguida, na segunda parte do trabalho, tratar-se-á a questão atinente à identificação dos mecanismos de defesa, seu processamento e o entendimento dos estudiosos na contemporaneidade a respeito do assunto.

FUNÇÕES DO SUPEREGO - Efetuando uma revisão da literatura a respeito do tema do superego, encontrou-se que, segundo Freud (1980, p. 111), é “[...] o máximo assimilado psicologicamente pelo individuo do que é considerado o lado superior da vida humana”. Assim, é o herdeiro do Complexo de Édipo e, para esse autor, trata-se de uma das instâncias da personalidade que possui o papel de consciência moral, julgador e de censor do ego delegadas das instâncias sociais, possuindo a função de auto-observador da formação de ideais.
É oriunda do termo freudiano Über-Ich, como uma instância separada e, ao mesmo, dominadora do ego e que, conforme Freud (1980), é o instrumento utilizado como medida para observação do próprio ego.
Por essa condução, entende-se tratar-se de um dos três construtos freudianos, juntamente com o id e ego, que possibilitam o entendimento acerca da dinâmica do desenvolvimento afetivo e sexual.
A constituição do superego, conforme recolhido de Freitas (2013), tem seu processo inicial a partir das resoluções conflituosas oriundas das questões edípicas que ocorrem na fase fálica, na faixa etária entre os cinco ou seis anos de idade.
Assim, a sua constituição é definida pela interiorização das interdições e exigências parentais.
Nesse processo de constituição, expressa Cardoso (2013) que serão adquiridos pelo superego certos aparatos que adquiridos com a ocorrência do complexo de Édipo, bem como de outros subsídios que são capturados das atitudes dos pais, das pessoas, das falas e das imagens incorporadas no universo infantil.
Resta entendido que o superego é constituído no período de latência quando surgem as atitudes e comportamentos de moralidade, vergonha ou repulsa.
Tendo-se por base os estudos de Freitas (2013), Madrid (2012) e Cardoso (2013) é possível entender que o superego é um elemento estrutural do aparelho psíquico.
Nesse sentido, Freud (1980) identifica que a manifestação do superego ocorre pela herança proveniente do conflito edípico, por ocorrência do fato de renuncia por parte da criança aos progenitores, sendo objeto de amor àquele do sexo oposto, e objeto de ódio o do mesmo sexo.
A representação do superego, conforme Freud (1980) se dá pela apresentação da autoridade parental no processo de evolução infantil, pela ocorrência dos afetos e manifestações de amor e carinho, bem como das repreensões e punições que provocam sentimentos de angústia. Essas proibições, interdições e punições são internalizadas com a renuncia da satisfação edipiana, ocorrendo uma substituição da instância parental pelo processo de identificação.
Tal fato, conforme Freitas (2013), deixa evidenciado que a formação do superego se dá a partir do modelo entendido do superego dos pais. E nesse contexto, o seu aparecimento se dá a partir da substituição interna dos progenitores tanto como proteção e amor, como punição ou ameaça, para introduzir uma noção de errado ou certo. Assim, o superego atua como a autoridade moral tanto sobre o pensamento como sobre as ações do indivíduo.
Entende Madrid (2012) que a identificação desses conflitos edípicos são construídos pela idealização dos pais como modelos referenciais que se tornam fonte de imitação pela criança que, ao mesmo tempo, possibilita a busca noutras pessoas por meio de reforços que visam a manutenção desses ideais.
Para Gazzaniga e Heatherton (2005, p. 473) o superego é a “[...] internalização dos padrões de conduta sociais e parentais desenvolvendo-se durante a fase fálica”, acrescentando que “[...] é a estrutura rígida da moralidade ou consciência humana”.
Já no dizer de Schultz e Schultz (2012, p. 376), o superego é o “[...] aspecto moral da personalidade, produto da internalização dos valores e padrões recebidos dos pais e da sociedade”.
Assim sendo, para esses autores, o superego representa a moralidade e está sempre em conflito com o id ao inibi-lo de sua completa satisfação.
Por outro lado, com base em Freud (1980), esse construto é construído a partir da insatisfação do id ao se transformar em ego para mediar a realidade.
Nessa condução, evidencia Davidoff (2001, p. 507) que o superego:
[...] funciona independente, lutando pela perfeição e admirando o idealismo, o auto-sacrifício e o heroísmo. O superego influencia o ego para atender os objetivos morais e forçar o id a inibir seus impulsos animais. Quando o ego comporta-se moralmente, o superego é satisfeito. Quando as ações ou os pensamentos do ego vão contra os princípios morais, o superego gera sentimentos de culpa.
Tem-se, portanto, a dimensão que o superego possui com relação ao id e ao ego, tanto nos processos de repressão como nos de reprovação.
O funcionamento do superego, no dizer de Freitas (2013), se expressa por meio de um procedimento de articulação com o que se convenciona cultural e socialmente por meio de introjeções que se formam a partir dos interditos provocados pelas limitações, proibições e autoridades oriundas da fonte paternal e da sociedade.
É o que dimensiona Andriatte e Gomes (2000, p. 36), ao mencionar que:
O superego será concebido como uma instância responsável, ao mesmo tempo, por diversas funções e é em seu seio que Freud vai tentar integrar as várias dimensões que balizara anteriormente. Vai terminar por atribuir ao superego três funções: a auto-observação, a consciência moral e a “base de apoio” dos ideais. Na apresentação formal do superego, este será concebido como uma instância de observação, como uma parte separada do ego, que exerce vigilância sobre a outra.
Assim sendo, o superego é regido pela moral e agindo como agente repressor que se vale de repreender a não resolução dos impulsos sexuais ocorridos na fase fálica e pela sublimação da não satisfação dos impulsos pré-genitais, definindo-se a fase de latência como aquela que emerge na faixa entre 5 a 10 de idade. Como resultado disso, dá-se a passagem do complexo de Édipo que o sentimento de culpa é internalizado.
Há que se entender, conforme Andriatte e Gomes (2000) que o desenvolvimento do superego é bastante distinto entre os gêneros, uma vez que é rigoroso e feroz por causa da ameaça de castração vivida na fase edípica masculina, enquanto que nas meninas essa castração ocorre muito antes dessa fase, tornando-as muito menos implacáveis e opressivas.

MECANISMO DE DEFESA - Encontrou-se em Gazzaniga e Heatherton (2005, p. 473)que “[...]  os mecanismos de defesa são estratégias mentais inconscientes que a mente utiliza para se proteger da angústia.
Já para Fiori (2003) são processos psíquicos cuja finalidade é afastar um evento gerador de angústia da percepção consciente. Assim, tratam-se de processos inconscientes que são utilizados pelo ego com o objetivo de proceder o completo afastamento de mal-estar ou angústia pelo ego.
No dizer de Schultz e Schultz (2012, p. 377), os mecanismos de defesa são “[...] comportamentos que representam negações inconscientes ou distorções da realidade, mas que são adotados para proteger o ego contra a ansiedade”. Esses mecanismos de proteção são desenvolvidos pelo ego, consistindo nas negações inconscientes ou distorcidas da realidade.
Na expressão de Freud (1980), as defesas são constituídas pelo propósito de completo afastamento dos perigos, sendo de suma importância para o ego e que são bem-sucedidas em parte na sua tarefa.
Nesse sentido, os mecanismos de defesa freudianos, segundo Schultz e Schultz (2012) são negação, deslocamento, projeção, racionalização, formação de reação, regressão, repressão e sublimação.
A negação, segundo Schultz e Schultz (2012), compreende a existência de uma ameaça externa ou de um acontecimento traumático. Para Gazzaniga e Heatherton (2005) recusa do reconhecimento e fonte de ansiedade.
O deslocamento, segundo Schultz e Schultz (2012), compreende a transferência dos impulsos do id de uma ameaça ou de um objeto não-disponível para um objeto disponível. Gazzaniga e Heatherton (2005) assinalam tratar-se mudar a atenção da emoção de um objeto para outro.
A projeção, para Schultz e Schultz (2012), é a atribuição de um impulso perturbador a outra pessoa. Entretanto, no dizer de Freud (1980), incluem-se na projeção a representação incômoda de uma pulsão interna que é suprimida, tendo, em seguida, seu conteúdo deformado e, posteriormente, ocorre o retorno para o consciente sob a forma de uma representação ligada ao objeto externo. Assim sendo, esse mecanismo ocorre em todos os momentos da vida, sendo essencial no estágio precoce de desenvolvimento por sua contribuição ao distinguir a si mesmo, fortificando-o e estabelecendo esquema corporal.
A racionalização, conforme Schultz e Schultz (2012), é a reinterpretação do comportamento para torná-lo mais aceitável e menos ameaçador. Gazzaniga e Heatherton (2005) identificam ser a invenção de uma razão ou desculpa aparentemente lógica para um comportamento que de outra forma seria vergonhoso.
A formação de reação, para Schultz e Schultz (2012), é a expressão de um impulso do id, que é o oposto do que impulsiona a pessoa. Para Gazzaniga e Heatherton (2005), afasta um pensamento desagradável ao superenfatizar seu oposto.
A regressão, no dizer de Schultz e Schultz (2012), é o retorno a um período anterior, menos frustrante da vida, acompanhado da exibição de um comportamento dependente e infantil característico desse período mais seguro.
A repressão, conforme Schultz e Schultz (2012), é a negação da existência de um fator provocador da ansiedade, ou seja, a eliminação involuntária de algumas lembranças ou percepções da consciência que provoquem desconforto. Assim, a resistência e a repressão são dois mecanismos básicos da mente humana frente aos conflitos. A resistência é o que impede ou dificulta a recordação de um trauma, o qual se tornou inconsciente devido à repressão. Para Gazzaniga e Heatherton (2005), exclui da consciência a fonte da ansiedade.
A sublimação, segundo Schultz e Schultz (2012), é a alteração ou o deslocamento dos impulsos do id desviando a energia instintiva para os comportamentos socialmente aceitáveis. Ocorre, portanto, o abandono do alvo da sublimação para construção de um novo alvo, valorizado tanto pelo ideal de si mesmo como pelo superego.
Nesse sentido, Gazzaniga e Heatherton (2005) assinalam tratar-se de canalizar impulsos socialmente inaceitáveis para comportamentos construtivos, até admiráveis.
Tem-se, pois, com base em Fiori (2003) que esses mecanismos são tidos como operações de proteção por parte do ego para sua segurança e que são encarregados na defesa das instâncias da personalidade com relação a um conflito que possa ocorrer.
Distinguindo os mecanismos de defesa das resistências, Fiori (2003) deixa evidenciado que as resistências incorporam noções concernentes às defesas empregadas na transferência na defesa do indivíduo.
Com a abordagem acerca das funções do superego e dos mecanismos de defesa, passa-se, então, para as considerações finais do presente trabalho.

CONCLUSÃO - O presente trabalho inicialmente abordou as funções do superego.
Nesse sentido, observou-se que as ideias freudianas acerca do superego não restaram pacificadas entre outros psicanalistas posteriores que, inclusive, combateram e até aprofundaram seus pensamentos.
Com essa pesquisa identificou-se que a dimensão do superego é sumamente importante para o desenvolvimento das funções educativas da criança, por ser identificado como o veículo transmissor e consolidador da cultura.
Por conclusão, observou-se que o superego se desenvolve na criança a partir do modelo de superego dos seus pais, perpetuando-se nas transmissões das tradições e valores.
Em seguida tratou acerca dos mecanismos de defesa tendo-se o entendimento de que se tratam de recursos defensivos com relação ao perigo. Entretanto, também ficou evidenciado que esses mecanismos também podem ser transformados em perigos ao se constatar o ônus que pesa sobre a economia psíquica com as restrições do ego e o dispêndio dinâmico da manutenção deles.
Observou-se com este estudo que Freud elaborou um conceito para esses mecanismos sem que tivesse realizado investigações necessárias, exceto com relação à repressão, tendo-se, posteriormente, por intermédio da Melanie Klein e da Ana Freud, maior aprofundamento acerca do desvendamento desses mecanismos.
Nesse sentido, ficou o entendimento de que esses mecanismos compõem os procedimentos do ego no desempenho de suas tarefas, notadamente evitando o desprazer, a ansiedade e o perigo, incidindo diretamente sobre as representações ideativas das pulsões.
Por conclusão, entende-se que tais mecanismos são formas de adaptação como, também, representam patologia e conflito por suas utilizações ineficazes pela ocorrência interna e externamente da não adaptação à realidade.

REFERÊNCIAS
ANDRIATTE, Aparecida; GOMES, Leda. Viver e morrer: um embate entre o ego e o superego. Psicologia: Teoria e Prática, 2000, 2 (1): 32-51.
CARDOSO, Marta. O superego: em busca de uma nova abordagem. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Disponível em http://www.psicopatologiafundamental.org/uploads/files/revistas/volume03/n2/o_superego_em_busca_de_uma_nova_abordagem.pdf. Acesso em 16 out 2013.
DAVIDOFF, Linda. Introdução á Psicologia. São Paulo: Pearson Makorn Books, 2001.
FIORI, Wagner da Rocha. Teorias do Desenvolvimento: Conceitos fundamentais: modelo
psicanalítico. São Paulo: Cortez, 2003.
FREITAS, Hellen Cristina Queiroz. Formação do superego e suas funções. Webartigos. Disponível em http://www.webartigos.com/artigos/a-formacao-do-superego-e-suas-funcoes/42819/#ixzz2hsCZqkgI. Acesso 16 out 2013.
FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
MADRID, Nuria. Superego: apetite de vingança, princípios do direito e sentimento do sublime. Ethic@, Florianópolis, v. 11, n. 3, p. 203 - 225. Dez. 2012.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sidney. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cengage Learning, 2012.

* Trabalho desenvolvido para a disciplina História da Psicologia, ministrada pela Profª Fátima Pereira, na Faculdade de Psicologia do Centro Universitário CESMAC.  Veja mais psicologia aquiaqui e aqui.  E mais  Temas de Psicologia.  

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