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segunda-feira, março 18, 2019

ERIK SATIE, MALLARMÉ, SUZANNE VALADON, KATHARINE BRUSH, SÍLVIO HANSEN & ÚNICO AMOR



ÚNICO AMOR – A vida de Honfleur, para quem veio criança órfã de lá de Pont-l’Evêque, criado pelo tio boêmio que inventava navios inúteis e carros bonitos para ninguém guiar. Herdou dele a fantasia, afora a imaginação aos voos com as leituras de Andersen. Aprendeu piano, sem quase saber do pai, de Olga ou Conrad, seus irmãos. Adolescente em Paris ingressou no conservatório para ser humilhado pelos professores: um metro e sessenta centímetros de mediocridade e preguiça, sujeito imprestável sem o menor senso de ridículo. Procurava emprego se apresentando como Gymnopedista. Enfim, conseguiu emprego de pianista no Chat Noir, morando em um quarto pequeno de Montmarte. Depois, no Auberge du Clou, conheceu Claude e, em seguida, Maurice. Para eles expôs o que havia de insólito, ilógico, ambivalente, enigmático, irreverente, mordaz místico, todo seu teatro do absurdo no minimalismo musical, repetitivo. Surgia Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera, uma obra com título estranho derivado do antigo festival grego Gymnopaedia, dedicado ao deus Apollo, no qual jovens nus dançavam ao som da música de flauta e lira. Na sua loucura hermética fundou sua própria igreja, L'Eglise Métropolitaine d'Art de Jésus Conducteur: era o único membro e excomungava quem discordasse. Compôs as Trois Gnossiennes, um conjunto de composições para piano. De repente, alguém chegou à sua vida como a tempestade. Era a vizinha, uma paixão. Ao primeiro contato com ela, pediu-lhe a mão em casamento. Nem sabia quem era. E ela, uma bela filha duma lavadeira de pai desconhecido, acrobata desde menina com sequelas da queda. A enfeitiçante boniteza dela estava exposta como garçonete em cafés e modelo para pintores como Renoir, Tolouse-Lautrec, Degas, Puvis de Chavannes. Era a Biqui dele, a musartista, que reluzia como a rainha da boêmia no Société Nationale des Benaux-Arts. Era caprichosa, extravagante, carregava cenouras e cuidava de gatos e de uma cabra num escritório. Era levada pela estética de Pont-Aven e a má reputação dos bares. Ele a amava, o amor e a descoberta: ela pintava e fez o retrato do amado. Idílio infinito, avassalador. Durou seis meses apenas, o coração partido, a solidão e mais de trezentas cartas de amor, o único amor dele, Biqui, ah Biqui. Ela casou-se com outro. Ele então se mudou com sua irreverência e excentricidade para o subúrbio, caminhando longamente, nove quilômetros todos os dias para tocar em Montmartre. Escrevia e caricaturava a si e aos outros. Rascunhava e da sua caligrafia autobiográfica surgiu Mémoires d'um Amnésique, Escritos em forma de Grafonola e Cahiers d'un Mammifére, um livro com poemas, canções e relatos que revelam sua irônica verve. Ficou famoso por suas estranhezas: possuía doze ternos de cinza de veludo idênticos e colecionava guarda-chuvas e cachecóis: Embora sejam falsas as nossas informações, nada podemos garantir. Era maníaco por comida branca, sempre um prato com ovos, arroz, coco, nabo, peixe, queijo. Detestava o sol, na solidão e maturidade. Foi, então, que ingressou na Paris Schola Cantorum e estudou contraponto e orquestração. As suas partituras continham anotações com instruções na interpretação, todo mundo espantado. Inventou a música ambiente, usada como mobília, neutralizando os ruídos da rua com seus naturais e estranhos silêncios e barulhos: a sua musique d'ameublement. O público atento à performance e ele nervoso: Falem alguma coisa! Mexam-se! Não fiquem aí parados só escutando! Não era piada e ninguém entendeu. Ele aboliu as estruturas sofisticadas e complexas, despojando-se em forma simples, o seu minimalismo: Vexations, trinta e dois compassos repetidos oitocentas e quarenta vezes. Escreveu a comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, platitudes e lugares-comuns. E compôs a ópera Geneviève de Brabant. Na amizade se avalia da de Pablo, grandes amigos, corroborou na revolução cubista. E Jean. O trio trabalhou no ballet Parade, pro Ballet Russo de Diaghilev. Ao compor a música inovadora, incorporou sirene, tiros de pistolas e uma máquina de escrever. Um escândalo por explorar o mundo dos sonhos e do subconsciente, não menos pelo cenário e vestuário de Pablo, como pelo argumento escrito por Jean: o surrealismo para Appolinaire. Com o drama sinfônico para quatro sopranos e pequena orquestra, Socrate, textos platônicos e extrema austeridade: a mudança de estilo que ganhou desprezo. Para críticos e compositores, sua obra não passava de miniaturas musicais com harmonias estranhas, escalas pouco convencionais e ausência de virtuosismo instrumental, justamente por possuir recursos técnicos insatisfatórios e sua deficiente formação de compositor e pianista. Era escárnio. Mas ele sabia das suas debilidades. O Gymnopédiste estava enclausurado por quase quinze anos sem compor, regressou à vida noturna parisiense com sua Música de Mobiliário. E vieram Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço e Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira. Vagava incansável: inundado por uma solidão glacial que enche a cabeça de vazio e o coração de tristeza. Ah, Biqui, a vida entre os guarda-chuvas, lenços, colarinhos, tiras de papel, desenhos, partituras, dois pianos desafinados e amarrados por cordas, a pobreza, a cirrose e nada mais, até se render à morte, enquanto ela navegava pelo céu de Montmartre com outros amores. Dele apenas anotações em pedaços de papel: O meu nome é Erik Satie, tal como todas as outras pessoas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Servia coristas e estudantes, matronas jovens e alegres, jovens amantes ainda mais alegres, uma senhora que se divorciara de quatro maridos, outra que havia apunhalado alguém, a noiva mais ou menos secreta de um nome dos mais distintos e o cérebro de um bando de contrabandistas de álcool. Via coisas... Viu uma face amarela, onde a tinta secara. Viu quatro equimoses minúsculas, tais como poderia ter sido deixadas por dedos sobre um braço. Viu uma rapariga bater em outra, sem ser por brincadeira. Viu um maço de cartas que um homem preferira não ter escrito, guardado, escondido, no fundo de uma bolsa de brocado [...].
Trecho do conto Night Club (Ediouro, 2004), da escritora estadunidense Katharine Brush (1902-1952).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não se pode fazer nada muito bem a não ser com muito amor.
A arte da  pintora francesa pós-impressionista Suzanne Valadon (1865-1938), único amor do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925). Sobre o romance de ambos, o cineasta canadense Tim Southam dirigiu Satie & Suzanne (1994), contando as memórias agridoces do compositor com a sua amada, num café parisiense, enquanto as águas do rio Sena transbordavam.
A pintora foi uma personalidade marcante na cena artística parisiense antes do cubismo, tendo sido acrobata, garçonete e modelo dos pintores Renoir, Degas e Toulouse-Lautrec.
Foi a primeira mulher admitida na Société Nationale des Beaux-Arts. Sobre sua vida foi publicada a obra Suzanne Valadon (Martins Fontes, 1989), de Jeanne Champion e, também, Suzanne: of love and art (1959), de John Storm com ilustração da própria artista. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE ERIK SATIE
A música do compositor e pianista francês Erik Satie (1866-1925) está no cenário da vanguarda parisiense do início do século XX, sendo ele o precursor dos movimentos minimalista, do teatro do absurdo, da música repetitiva e do ragtime, este último um estilo pré-jazz. Ele exerceu influência até tornar-se cult entre os contemporâneos Debussy e Ravel, mudando o curso da história da música. É autor de obras como Gymnopédies ou Três Peças em Forma de Pera (1888), Gnossiennes (1890), Sonatina Burocrática, Vestido de Cavalo, A Bela Excêntrica, Esboço, Provocações de um Gordo Bonachão de Madeira, Canções, Socrate, Jack in the Box e da ópera Geneviève de Brabant, entre outras. É também autor da comédia lírica em um ato A armadilha de Medusa, de 1913, precursora do teatro dadaísta e do teatro do absurdo, bem como portadora da verdadeira música do surrealismo, carregadas de platitudes e lugares-comuns. Veja mais aqui.
&
A arte do artista visual Sílvio Hansen aqui, aqui, aqui e aqui.
&
A obra do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

segunda-feira, janeiro 02, 2017

NIETZSCHE, SUZANNE VALADON, VAUGHAN WILLIAMS & FECAMEPA


DO QUE FOI PRO QUE É QUASE NADA - Primeiro a índia caeté, Iangaí, do Recife ao São Francisco, o reino alvoradinha. Depois o branco peró chegou no litoral impondo um deus que os protegia domesticando mameluco, para invadir a Mata Atlântica com sua alma assassina e ambição exploradora pelo agreste e sertão. Aos carões da força das armas e do dinheiro subjugaram tudo e trouxeram escravo o negro africano. Da metrópole todas as ordens pra colônia, os sabidos que prosperavam no gigante tratado por anão. Deu-se então a maior fodelança e nada mais que intrigas, traições, roubalheiras. Comprou-se caro o império de mentira até enraizar uma república de interesses escusos e chegar no século XX como o maior representante de bananas. Morenos engravatados assumiam currais longínquos em todas as localidades dos pontos cardeais, autoproclamando-se caciques dos destinos e salvadores dos seus bolsos e dos interesses públicos mais privados. A eles todo o poder sobre os fatos, a justiça, os recursos e a vida da mundiça servil de Maria-vai-com-as-outras. De fato, uma república de bananas e de pinóias que ostentava a sua democracia não cumprida e de fachada. Pilhérias pras manchetes, escândalos pras cucuias, conluios pra enganar os bestas. Não há quem identifique a bandeira de Castro Alves, muito menos o Fado Tropical ou as Querelas, porque sobram gatunildos e ladronácios pra fazer das ruas o esgoto geral. Do que foi pro que é, pense, é quase nada. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui. 

 Curtindo o álbum The Lark Ascending (Decca, 1985), do compositor inglês Vaughan Williams (1872-1958), com Academy of St. Martin in the Fields and Iona Brown and Sir Neville Marriner.

Veja mais sobre:
O Sol nasce para todos aqui.

E mais:
Dos dias, a mulher, Albert Einstein, Viktor Frankl, Henri Matisse, Gilberto Gil, Mark Twain, Milos Forman, Rita Guedes, Natalie Portman, Naoki Urasawa, Kátia Velo & Alfredo Rossetti aqui.
Cleópatra & Todo dia é dia da mulher aqui.
Gaia – Mãe Terra, Isaak Azimov, Caetano Veloso & Teresa Filósofa aqui.
Michel Foucault, A poesia dos deuses, Antropologia Jurídica, Educação Ambiental, Fecamepa & Psicologia Social aqui.
Os seios da mulher amada aqui.
Junichiro Tanizaki, Sandra Werneck, Louis Jean Baptiste Igout, Asha Bhosle, Heloisa Maria, Márcio Baraldi, Lucy Lee, Vilmar Lopes, Raimundo Fontenele, Internet & Inclusão, A mundialização da cultura & a Gestão do Capital Humano aqui.
A deusa Inanna & a mulher suméria, Poema em voz alta, Mallarmé, Paul Cézanne, Marquês de Sade, Pasolini, Karina Buhr, Maryam Namazie, Leroy Transfield, Frederico Barbosa, Olivia de Berardinis & Mozart Fernandes aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
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DESTAQUE: CONSIDERAÇÕES EXTEMPORÂNEAS DE NIETZSCHE
[...] A espécie humana, porem, é uma coisa tenaz e persistente, e não quer após milênios, nem mesmo após centenas de milhares de anos, ser observada em seus passos – para diante e para trás -, isto é, não quer, de modo nenhum, ser observada como um todo por esse pontinho de átomo infinitamente pequeno, o individuo humano. [....].
Trecho da obra Considerações extemporâneas (Abril, 1978), ), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


quinta-feira, setembro 24, 2015

A ARTE NA SAÚDE, MOZART, FITZGERALD, ARENDT, ALMODÓVAR, GILBERTO TELLES, GILDA ABREU, VALADON.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O PAPEL DA ARTE NO DIREITO À SAÚDE – A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, foi uma resposta às tragédias promovidas pelas duas grandes guerras que ocorreram na primeira metade do século XX, - muito embora, ainda hoje, o ser humano utilize o expediente lamentável da guerra. Esses direitos foram contemplados na condição de garantia fundamental e direito natural definidos pela escala evolutiva e histórica da humanidade, e que se tornaram a principal proteção da dignidade humana e sua integridade física, moral e mental. Assim, o ser humano passou a ser robustecido por direitos civis, sociais, políticos e difusos nas dimensões sociais, jurídicas, econômicas, políticas, antropológicas e psicológicas, entre outras. Esses direitos tornaram-se indispensáveis e necessários para a existência humana, assegurando a dignidade, a igualdade e a liberdade humanas, objetivando o combate à violação de direitos e crueldade totalitária. Assim, passou-se a compreender a dignidade designa o conjunto de condições favoráveis de caráter moral, física e espiritual à vida do cidadão, sendo, pois, prerrogativa de todo ser humano. Entre esses direitos está o direito à vida e, por consequência, à saúde, o mais básico de todos os direitos por ser um pré-requisito da existência humana, assegurando-se um nível mínimo de vida, compatível com a dignidade, incluindo, assim, o direito à alimentação adequada, à moradia, ao vestuário, à educação, ao meio ambiente equilibrado, à informação, ao conhecimento, à cultura e ao lazer, entre outros indispensáveis à qualidade de vida do ser humano. Por essa razão, esse direito compreende o bem-estar e a saúde plena, bem como à prevenção de doenças e ao cuidado e tratamento daqueles que são vitimados por quaisquer enfermidades ou infortúnios. É no reconhecimento desse direito que o papel da arte pode e deve ser fundamental, tanto na prevenção e promoção da saúde por meio da utilização dos mais diversos recursos e técnicas de expressão disponíveis para interação, relações e difusão do conhecimento, como no cuidado e tratamento na utilização, por exemplo, do Psicodrama, Sociodrama e de outras atividades identificadas como terapêuticas, em conjunto com outras intervenções necessárias ao restabelecimento e ao bem-estar físico, moral, social, ecológico e espiritual do ser humano. Esta é a condução adotada pelos Doutores da Alegria e de outras manifestações artísticas que definiram a sua função artística em prol do outro e do melhor desenvolvimento das relações humanas. Este foi o pensamento básico que tive ao desenvolver as atividades acadêmicas de pesquisa no projeto A contribuição do teatro no desenvolvimento da linguagem da criança, sob a perspectiva sócio-histórica, procurando agora aprofundar as intervenções tanto na esfera preventiva e de promoção da saúde, como na educação, no cuidado e no tratamento de enfermidades. Afinal, levo sempre comigo o lema proposto por Milton Nascimento/Fernando Brant: Todo artista tem de ir aonde o povo está. E veja mais aqui, aqui e aqui. 

 Imagem: Female nude, da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938).


Curtindo Laudate Dominum, do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), com a ex-regente e renomada soprano Claudia Riccitelli, conducts León Halegua, The Orquestra Sinfônica & Coral da Hebraica, São Paulo.

A ARTE PARA SALVAR O MUNDO – O livro O cuidado com o mundo: diálogo entre Hannah Arendt e alguns de seus contemporâneos (UFMG, 2004), da professora e pesquisadora Doutora em Filosofia, Sylvie Courtine-Denamy, trata sobre dizer o mundo e a língua como pátria, estrangeiro no mundo, um mundo fora dos eixos, responder pelo mundo, a pol´tica como vir-a-ser-mundo, uma política nova pra um mundo novo, por amor ao mundo e a arte para salvar o mundo. Da obra destaco a última parte, a arte para salvar, da qual destaco o trecho: Educar por amor ao mundo: a permanência do mundo repousa, então, na natalidade, na renovação incessante das gerações, no nascimento de homens novos que tenham cuidado com o mundo. Ou seja, que sejam capazes de renová-lo através de sua ação, suceptiveis assim a dar inicio a algo novo [...] Que é melhor citar os poetas do que escrever sobre eles, tarefa entre todas a mais complicada, é o que Arendt havia compreendido muito bem. Como já vimos, a arte, o fenômeno do Belo não se extraem da categoria da verdade e da faculdade do conhecimento, mas da significação – Bedeutung, a mais goethiana das palavras [que] retornam sem cessar nos escritos de Benjamim – e da faculdade de pensar. [...] Tal como os bardos da Grécia antiga, convencidos de que os deuses só enviavam infortúnios e males aos mortais para que, dos mesmos, fossem compostas histórias e cantos, convencidos, enfim, de que a poesia nasce do desespero, esses grandes poetas compreenderam, então, que cabia a eles salvar o mundo, fazendo-lhe o seu elogio. Nem tanto para justificar a criação divina, mas para se opor a tudo que fosse fonte de insatisfação da condição humana, como se o elogio tirasse sua força das feridas mesmas: O Happy Grief! [...] Para manifestar o cuidado com o mundo, ocupando-se dele e assim salvando-o da ruina, os homens disporiam, então, de duas faculdades bem distintas: a ação política e o trabalho com a palavra, tanto pela forma do testemunho quanto pela forma do poema. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON – O livro O estranho caso de Benjamin Button (Presença, 2009), do escritor e roteirista estadunidense Francis Scott Fitzgerald (1896-1940), conta a historia de um homem que nasce com aparência envelhecida e por isso, ao pensar que é um monstro, seu pai o abandona. Ele é criado num lar assistencial de idosos e que ninguém acredita na sua sobrevivência, ocorrendo um fato curioso, a cada ano que passa ele vai ficando mais jovem enquanto os outros envelhecem. Da obra destaco o trecho: [...] Uma imagem grotesca surgiu, com terrível clareza, diante dos olhos do homem torturado, uma imagem de si mesmo a caminhar pelas ruas cheias de gente da cidade com aquela pavorosa aparição a andar silenciosamente ao seu lado. “Não posso. Não posso”, gemeu. O que diria às pessoas que parassem para lhe falar? Teria de apresentar este... aquele septuagenário: “Este é o meu filho, nasceu esta manhã, cedo”. Depois o velho apertaria o cobertor em volta do corpo e seguiriam o seu caminho, passando pelas lojas movimentadas, pelo mercado de escravos — durante um sombrio momento, Mr. Button desejou veementemente que o filho fosse preto —, passando pelas casas luxuosas do bairro residencial, passando pelo lar dos velhos... — Então! Controle-se! — ordenou a enfermeira. — Ouça — avisou, de súbito, o velho —, se pensa que vou a pé para casa embrulhado neste cobertor, está redondamente enganada. — Os bebês sempre usam cobertores. Com uma risadinha maliciosa, o velho levantou um pequeno cueiro branco. — Olhem! — exclamou a voz de cana rachada. — Isto é o que tinham para mim. — Os bebês sempre usam isso — sentenciou a enfermeira, presumidamente. — Pois bem — respondeu o velho —, este bebê não vai usar nada dentro de cerca de dois minutos. O cobertor dácomichão. Podiam ter-me dado, ao menos, um lençol. — Não o tire! Não o tire! — apressou-se Mr. Button a dizer. Depois voltou-se para a enfermeira e perguntou: — O que é que eu faço? — Vá à baixada e compre algumas roupas para o seu filho. A voz do rebento de Mr. Button seguiu-o pelo corredor afora: — E uma bengala, pai. Preciso de uma bengala. Mr. Button bateu brutalmente com a porta de saída... [...]. A obra foi adaptada para o cinema, pela qual ganhou diversos prêmios com direção de David Fincher, lançado em 2008. Veja mais aqui.

ELA E O DESEJO INDA OUTRA VEZ – No livro Hora aberta – poemas reunidos (Vozes, 2003), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles, destaco, inicialmente, o soneto Inda outra vez: Inda outra vez, beijar-te, como outrora, / ao sol dos dias flóridos de outono, ; quando a tua alma, tímida e sonora, / sorria alegre, sem vaidade e entono. / Inda outra vez, possuir-te no abandono / dos campos, sob o céu em plena flora, / e nos teus olhos pálidos de sono, / pousar minhalma sonolenta agora. / Inda outra vez, falar-te, com desejo, / sentindo a tua alma sôfrega e faminta, / entrar-me pela boca por um beijo. / E, sonhando, outra vez, ter-te nos braços, / tentando reavivar a chama extinta / do antigo e ardente amor feito em pedaços. Também o soneto Desejo: Alma de Messalina, alma sedenta sois. / Em vossa artéria, ardente, a lascívia circula / deixando em fogo a carne e indo lançar, depois, / a sensação na vossa intrínseca medula. / O amor vos encendeia os olhos (esses dois / reflexos de volúpia) e em vossa alma acumula / a sede do prazer insaciável, pois / vai despertando em vós libidinosa gula. / Alma de sensitiva, o vosso corpo explode / em sísmico tremor; uma explosão sacode / o vosso seio, quando a minha mão o toma. / Quando eu o tomo, assim em minhas mãos, sacode-o, / em lúbrico delírio, um misto de amor e ódio / e um fluxo de luxúria ao vosso olhar assoma. Por fim, o soneto Ela: Ela surgiu, qual Vênus, de alva espuma, / da espuma de meu sonho alcandorado, / do sorriso suavíssimo de alguma / onda inquieta de um mar esverdeado. / Ela vibrou em mim. Foi como um brado / que se eleva pelo ar, depois se esfuma, / deixando um som sereno, envolto numa / deliciosa impressão de ser amado. / E ela é bravia como um mar sem calma, / serena como um pensamento langue, / alegre e triste como uma saudade; / ela canta e suspira na minhalma, / ela geme, sorrindo, no meu sangue / num paradoxo de felicidade. Veja mais aqui e aqui.

BONEQUINHA DE SEDA DO ÉBRIO - A atriz, cineasta, cantora, escritora e radialista brasileira nascida na França, Gilda de Abreu (1904-1979), começou sua trajetória como atriz de teatro na comédia romântica Bonequinha de Seda, em 1933. Neste mesmo ano, casou-se com o cantor e compositor Vicente Celestino, com quem, em 1946, tornou-se uma das primeiras mulheres no Brasil a dirigir filmes, obtendo sucesso retumbante com o melodrama O Ébrio, contando a ascensão e decadência de um cantor de sucesso decepcionado sentimental e tragado pelo alcoolismo. Em 1934, ela atuou no musical A canção brasileira. A partir de 1936, integra a Companhia dos Irmãos Celestinos. Em 1937, atua na peça teatral Alegria, de Oduvaldo Vianna. Em 1947, ela dirigiu os dramas Pinguinho de Gente e Coração Materno, este último atuando como roteirista. Em 1951, realiza o documentário Chico Viola não morreu, sobre a vida e canções de Francisco Alves. Além disso, era autora das peças teatrais Aleluia, A mestiça, Arcad de Noé e Alma de Palhaço, entre outras, afora ser autora de diversos livros e radionovelas, bem como cantora lírica e de operetas. Veja mais aqui.

DE SALTO ALTO – O filme Tacones lejanos (De salto alto, 1991), do cineasta, ator e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, conta a história de uma famosa cantora pop que há quinze anos abandonou a filha para investir na carreira. De volta à sua terra natal, surpreende-se ao descobrir que a filha é agora uma estrela de TV e que está casada com seu antigo amante. A mistura de gêneros pós-moderna com a extravagância das cores e a excentricidade dos objetos de cena, fazem as marcas profundas das características do cineasta com ampliação por territórios até então inexplorados, como um drama psicológico com uma narratiza eletrizada, comicidade melodramática com intriga policial e sobrepondo histórias pela difícil convivência entre mãe e filha, o destino, as paixões fulminantes, as irrupções cômicas, tramas e subtramas na maior irreverência. O destaque do filme vai para a atriz e cantora espanhola Victoria Abril. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do escultor português Arlindo Rocha (1921-1999)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...