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segunda-feira, janeiro 11, 2016

CONVITE, BAUMAN, STANISLAW, GERSHWIN, HÖLDERLIN, OSWALD, ALMÓDOVAR, LUCÉLIA, LUCIAH & MUITO MAIS!!!!



CRÔNICA DE AMOR POR ELA: CONVITE - Plena tarde e o céu inteiro na pradaria: um mar espalmado que se resume ao rumor da nudez inundando todas as súplicas dos meus quereres tostados de fogo ardente. À espreita vou requestado com toda luxúria de minha alma herege confiscar toda mansa fragrância do seu milagre fabuloso, da sua majestosa divindade nua, feita para amar, para apertar com jeito, para vibrar em mim danada do céu queimando a lenha do que se faz predador e presa entre nós. Tudo é demasiado próximo no hálito quente da sua sedução a céu aberto e entregando todo o tesouro do coração, todas as posses, suplícios, encantos e eu possesso aos bocados, desesperado e faminto de emoções poderosas a morder com trela a tarde da primavera no ninho do seu corpo nu que me embriaga com o veneno da paixão. Aceito o convite e ébrio dou fé do olhar ardente na insônia de quem ama devendo o beijo, o abraço e a garanhagem libertadora. E estendida sobre o meu desejo traz o colo e sua macia tepidez para a incursão de nossa refrega a transpor toda doçura e vício na vertigem de nossas entregas. Esta a canção que afaga o dorso nu num duelo de dentes cerrados e se faz servidão na ponta dos seios duros e tomada pela pele acetinada que eterniza minha loucura em êxtase enquanto transgredimos de nós, das regras, da arena no êxodo do mundo, duelando com o passado de vigília e arrependimentos, duelando com a vida pelo que já foi e o que virá das venturas e destroços que se redimem no ardor do incenso de seu corpo que governa e que se faz tarde nas minhas mãos errantes. E do seu corpo roubo a paz que se faz tisana alquímica no meu estertor, sorvo seu sexo dando vazão a minha agonia gulosa que faz abluções no charco empoçado de delícia nas entrepernas e que se faz contenda tirânica na nossa luta corporal munida de armas das carícias até sermos derrotados, vencidos pela vida. Só o amor resiste aos escombros. E renascinzas, o amor assim é na entrega servil dos amantes. (Luiz Alberto Machado. Veja o vídeo deste poema aqui e mais aqui & aqui).

VEJA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:

PICADINHO


Imagem: Eve, do pintor do maneirismo italiano Girolamo Francesco Maria Mazzola (1503-1540), mas conhecido como Parmigiano. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Kiri sings Gershwin (EMI, 1987), com músicas do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938), na interpretação da soprano Kiri Te Kanawa. Veja mais aqui e aqui.

EPÍGRAFE – O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa, recolhida do livro Reflexões (Relume-Dumará, 1994), do poeta lírico e romancista alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

A PÓS-MODERNIDADE - No livro O mal-estar da pós-modernidade (Zahar, 1998), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, encontro que; [...] A multiplicidade de estilos e gêneros já não é uma projeção da seta do tempo sobre o espaço da coabitação. Os estilos não se dividem em progressistas e retrógrados, de aspecto avançado e antiquado. As novas invenções artísticas não se destinam a afugentar as existentes e tomar-lhes o lugar, mas se juntar às outras, procurando algum espaço para se mover por elas próprias no palco artístico notoriamente superlotado. Num cenário em que a sincronia toma o lugar da diacronia, a co-presença toma o lugar da sucessão e o presente perpetuo toma o lugar da história, (já não trata mais) de missões, de advocacia, de profetização, de uma e única verdade firmada para estrangular as pseudoverdades. Todos os estilos, antigos e novos, devem provar seu direito a sobreviver. [...] Quando a competição domina, há pouco espaço para [...] a confraria de ideias, escolas disciplinadas e disciplinadoras [...] Há pouco espaço, portanto, para normas e cânones coletivamente negociados e coletivamente proclamados. Toda obra de arte recua diante do quadrado e não pensa em criar família [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MENINO PRECOCE – O livro Garoto linda dura (Autor, 1966), do escritor, radialista, jornalista e compositor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta, 1923-1968), reúne crônicas do autor, entre as quais destaco Menino precoce: Diz que era um menino de uma precocidade extraordinária e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato, pois não existia nada mais chato que menino precoce e velho assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com as nossas idades; do contrário, enchemos o próximo. Mas deixemos de filosofias sutis e narremos: diz que o menino era tão precoce que nasceu falando. Quando o pai soube disso não acreditou. O pai não tinha ido à maternidade, no dia em que o filho nasceu, não só porque não precisava, como também porque tinha que apanhar uma erva com o Zé Luís Magalhães Lins, para pagar a délivrance que era quase o preço de um duplex, pois a mulher cismou de ir para casa de saúde do Guilherme Romano. Mas isto também não vem ao caso. O que importa é que o menino já nasceu falando. Quando o pai soube da novidade, correu à maternidade para ouvir o que tinha o menino a dizer. Chegou perto da incubadeira e o garoto logo se identificou com um “oba”. O cara ficou assombrado e mais assombrado ficou quando o nenenzinho disse: - Papai vai morrer às 2 horas! – dito o que, passou a chupar o bico da mamadeira e mais não disse nem lhe foi perguntado. O cara voltou para casa inteiramente abilolado. Sem conter o nervosismo, não contou pra ninguém a previsão do menininho precoce, mas ficou remoendo aquilo. Dez e meia, 11, meio-dia... e o cara começou a suar frio. Uma da tarde, o cara já estava praticamente arrasado e quando passou da hora prevista um minuto ele começou a se sentir mais aliviado. E estava dando o seu primeiro suspiro, quando ouviu um barulho na casa do vizinho. Uma gritaria, uma choradeira. Correu para ver o que era: o dono da casa tinha acabado de falecer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

MÚSICA DE MANIVELA & CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA – O livro Pau Brasil (1925), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954), reúne poemas do autor, entre os quais, destaco inicialmente Música de manivela: Sente-se diante da vitrola / e esqueça-se das vicissitudes da vida / na dura labuta de todos os duas / não deve ninguém que se preze / descuidar dos prazeres da alma / discos a todos os preços. Tanto o Canto do regresso à pátria: Minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar / Os passarinhos daqui / Não cantam como os de lá / Minha terra tem mais rosas / E quase que mais amores / Minha terra tem mais ouro / Minha terra tem mais terra / Ouro terra amor e rosas / Eu quero tudo de lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte pra São Paulo / Sem que veja a Rua 15 / E o progresso de São Paulo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A CASA DE ANAÏS NIN – A peça teatral A casa de Anaïs Nin (Casa de Prostituição de Anaïs Nin), de Francisco Azevedo, conta a história da paixão que envolveu os escritores Anaïs Nin e Henry Miller. Tive a oportunidade de assistir a peça no Teatro Alfa Real, em São Paulo, no ano de 1998, com direção de Ticiana Studart e atuação inesquecível da atriz Lucélia Santos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CARNE TRÊMULA – O filme Carne trêmula (1997), dirigido pelo cineasta, ator e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, conta a história uma prostituta que tem um filho em um ônibus, quando tentava chegar na maternidade, e ali mesmo lhe dá o nome de Victor. Após vinte anos, esse menino se torna um homem, que está começando sua vida adulta e tenta se encontrar com uma desconhecida, que uma semana antes teve relações sexuais com ele dentro de um banheiro. Quando telefona, ela não tem ideia de quem ele é e mesmo dizendo, ela pede que ele não ligue mais. Apesar deste corte, ele não desanima e consegue ir até o prédio dela. Pensando ser outra pessoa, ela abre a porta através do porteiro eletrônico, mas quando o vê fica bastante irritada, pois para ela foi uma transa, quando estava "doida", mas para ele foi a primeira vez. Ela decide expulsá-lo, ameaçando-o com uma arma. Os dois brigam e acontece um tiro acidental, que não fere ninguém, mas chama a atenção de uma vizinha, que alerta a polícia. Ao ver os dois policiais, ele se apavora e chega a ameaça-la colocando o revólver em sua cabeça. Eles se envolvem numa briga, a arma dispara, mas desta vez a bala atinge um deles que fica paralítico. A história se desenrola com destaque para a atriz espanhola Penélope Cruz Sanchez. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da soprano sul-coreana Sumi Jo.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à maravilhosa pessoa, poeta e blogueira Luciah Lopez. Veja aqui, aqui e aqui.

DIA INTERNACIONAL DO OBRIGADO
 

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

quinta-feira, setembro 24, 2015

A ARTE NA SAÚDE, MOZART, FITZGERALD, ARENDT, ALMODÓVAR, GILBERTO TELLES, GILDA ABREU, VALADON.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O PAPEL DA ARTE NO DIREITO À SAÚDE – A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, foi uma resposta às tragédias promovidas pelas duas grandes guerras que ocorreram na primeira metade do século XX, - muito embora, ainda hoje, o ser humano utilize o expediente lamentável da guerra. Esses direitos foram contemplados na condição de garantia fundamental e direito natural definidos pela escala evolutiva e histórica da humanidade, e que se tornaram a principal proteção da dignidade humana e sua integridade física, moral e mental. Assim, o ser humano passou a ser robustecido por direitos civis, sociais, políticos e difusos nas dimensões sociais, jurídicas, econômicas, políticas, antropológicas e psicológicas, entre outras. Esses direitos tornaram-se indispensáveis e necessários para a existência humana, assegurando a dignidade, a igualdade e a liberdade humanas, objetivando o combate à violação de direitos e crueldade totalitária. Assim, passou-se a compreender a dignidade designa o conjunto de condições favoráveis de caráter moral, física e espiritual à vida do cidadão, sendo, pois, prerrogativa de todo ser humano. Entre esses direitos está o direito à vida e, por consequência, à saúde, o mais básico de todos os direitos por ser um pré-requisito da existência humana, assegurando-se um nível mínimo de vida, compatível com a dignidade, incluindo, assim, o direito à alimentação adequada, à moradia, ao vestuário, à educação, ao meio ambiente equilibrado, à informação, ao conhecimento, à cultura e ao lazer, entre outros indispensáveis à qualidade de vida do ser humano. Por essa razão, esse direito compreende o bem-estar e a saúde plena, bem como à prevenção de doenças e ao cuidado e tratamento daqueles que são vitimados por quaisquer enfermidades ou infortúnios. É no reconhecimento desse direito que o papel da arte pode e deve ser fundamental, tanto na prevenção e promoção da saúde por meio da utilização dos mais diversos recursos e técnicas de expressão disponíveis para interação, relações e difusão do conhecimento, como no cuidado e tratamento na utilização, por exemplo, do Psicodrama, Sociodrama e de outras atividades identificadas como terapêuticas, em conjunto com outras intervenções necessárias ao restabelecimento e ao bem-estar físico, moral, social, ecológico e espiritual do ser humano. Esta é a condução adotada pelos Doutores da Alegria e de outras manifestações artísticas que definiram a sua função artística em prol do outro e do melhor desenvolvimento das relações humanas. Este foi o pensamento básico que tive ao desenvolver as atividades acadêmicas de pesquisa no projeto A contribuição do teatro no desenvolvimento da linguagem da criança, sob a perspectiva sócio-histórica, procurando agora aprofundar as intervenções tanto na esfera preventiva e de promoção da saúde, como na educação, no cuidado e no tratamento de enfermidades. Afinal, levo sempre comigo o lema proposto por Milton Nascimento/Fernando Brant: Todo artista tem de ir aonde o povo está. E veja mais aqui, aqui e aqui. 

 Imagem: Female nude, da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938).


Curtindo Laudate Dominum, do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), com a ex-regente e renomada soprano Claudia Riccitelli, conducts León Halegua, The Orquestra Sinfônica & Coral da Hebraica, São Paulo.

A ARTE PARA SALVAR O MUNDO – O livro O cuidado com o mundo: diálogo entre Hannah Arendt e alguns de seus contemporâneos (UFMG, 2004), da professora e pesquisadora Doutora em Filosofia, Sylvie Courtine-Denamy, trata sobre dizer o mundo e a língua como pátria, estrangeiro no mundo, um mundo fora dos eixos, responder pelo mundo, a pol´tica como vir-a-ser-mundo, uma política nova pra um mundo novo, por amor ao mundo e a arte para salvar o mundo. Da obra destaco a última parte, a arte para salvar, da qual destaco o trecho: Educar por amor ao mundo: a permanência do mundo repousa, então, na natalidade, na renovação incessante das gerações, no nascimento de homens novos que tenham cuidado com o mundo. Ou seja, que sejam capazes de renová-lo através de sua ação, suceptiveis assim a dar inicio a algo novo [...] Que é melhor citar os poetas do que escrever sobre eles, tarefa entre todas a mais complicada, é o que Arendt havia compreendido muito bem. Como já vimos, a arte, o fenômeno do Belo não se extraem da categoria da verdade e da faculdade do conhecimento, mas da significação – Bedeutung, a mais goethiana das palavras [que] retornam sem cessar nos escritos de Benjamim – e da faculdade de pensar. [...] Tal como os bardos da Grécia antiga, convencidos de que os deuses só enviavam infortúnios e males aos mortais para que, dos mesmos, fossem compostas histórias e cantos, convencidos, enfim, de que a poesia nasce do desespero, esses grandes poetas compreenderam, então, que cabia a eles salvar o mundo, fazendo-lhe o seu elogio. Nem tanto para justificar a criação divina, mas para se opor a tudo que fosse fonte de insatisfação da condição humana, como se o elogio tirasse sua força das feridas mesmas: O Happy Grief! [...] Para manifestar o cuidado com o mundo, ocupando-se dele e assim salvando-o da ruina, os homens disporiam, então, de duas faculdades bem distintas: a ação política e o trabalho com a palavra, tanto pela forma do testemunho quanto pela forma do poema. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON – O livro O estranho caso de Benjamin Button (Presença, 2009), do escritor e roteirista estadunidense Francis Scott Fitzgerald (1896-1940), conta a historia de um homem que nasce com aparência envelhecida e por isso, ao pensar que é um monstro, seu pai o abandona. Ele é criado num lar assistencial de idosos e que ninguém acredita na sua sobrevivência, ocorrendo um fato curioso, a cada ano que passa ele vai ficando mais jovem enquanto os outros envelhecem. Da obra destaco o trecho: [...] Uma imagem grotesca surgiu, com terrível clareza, diante dos olhos do homem torturado, uma imagem de si mesmo a caminhar pelas ruas cheias de gente da cidade com aquela pavorosa aparição a andar silenciosamente ao seu lado. “Não posso. Não posso”, gemeu. O que diria às pessoas que parassem para lhe falar? Teria de apresentar este... aquele septuagenário: “Este é o meu filho, nasceu esta manhã, cedo”. Depois o velho apertaria o cobertor em volta do corpo e seguiriam o seu caminho, passando pelas lojas movimentadas, pelo mercado de escravos — durante um sombrio momento, Mr. Button desejou veementemente que o filho fosse preto —, passando pelas casas luxuosas do bairro residencial, passando pelo lar dos velhos... — Então! Controle-se! — ordenou a enfermeira. — Ouça — avisou, de súbito, o velho —, se pensa que vou a pé para casa embrulhado neste cobertor, está redondamente enganada. — Os bebês sempre usam cobertores. Com uma risadinha maliciosa, o velho levantou um pequeno cueiro branco. — Olhem! — exclamou a voz de cana rachada. — Isto é o que tinham para mim. — Os bebês sempre usam isso — sentenciou a enfermeira, presumidamente. — Pois bem — respondeu o velho —, este bebê não vai usar nada dentro de cerca de dois minutos. O cobertor dácomichão. Podiam ter-me dado, ao menos, um lençol. — Não o tire! Não o tire! — apressou-se Mr. Button a dizer. Depois voltou-se para a enfermeira e perguntou: — O que é que eu faço? — Vá à baixada e compre algumas roupas para o seu filho. A voz do rebento de Mr. Button seguiu-o pelo corredor afora: — E uma bengala, pai. Preciso de uma bengala. Mr. Button bateu brutalmente com a porta de saída... [...]. A obra foi adaptada para o cinema, pela qual ganhou diversos prêmios com direção de David Fincher, lançado em 2008. Veja mais aqui.

ELA E O DESEJO INDA OUTRA VEZ – No livro Hora aberta – poemas reunidos (Vozes, 2003), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles, destaco, inicialmente, o soneto Inda outra vez: Inda outra vez, beijar-te, como outrora, / ao sol dos dias flóridos de outono, ; quando a tua alma, tímida e sonora, / sorria alegre, sem vaidade e entono. / Inda outra vez, possuir-te no abandono / dos campos, sob o céu em plena flora, / e nos teus olhos pálidos de sono, / pousar minhalma sonolenta agora. / Inda outra vez, falar-te, com desejo, / sentindo a tua alma sôfrega e faminta, / entrar-me pela boca por um beijo. / E, sonhando, outra vez, ter-te nos braços, / tentando reavivar a chama extinta / do antigo e ardente amor feito em pedaços. Também o soneto Desejo: Alma de Messalina, alma sedenta sois. / Em vossa artéria, ardente, a lascívia circula / deixando em fogo a carne e indo lançar, depois, / a sensação na vossa intrínseca medula. / O amor vos encendeia os olhos (esses dois / reflexos de volúpia) e em vossa alma acumula / a sede do prazer insaciável, pois / vai despertando em vós libidinosa gula. / Alma de sensitiva, o vosso corpo explode / em sísmico tremor; uma explosão sacode / o vosso seio, quando a minha mão o toma. / Quando eu o tomo, assim em minhas mãos, sacode-o, / em lúbrico delírio, um misto de amor e ódio / e um fluxo de luxúria ao vosso olhar assoma. Por fim, o soneto Ela: Ela surgiu, qual Vênus, de alva espuma, / da espuma de meu sonho alcandorado, / do sorriso suavíssimo de alguma / onda inquieta de um mar esverdeado. / Ela vibrou em mim. Foi como um brado / que se eleva pelo ar, depois se esfuma, / deixando um som sereno, envolto numa / deliciosa impressão de ser amado. / E ela é bravia como um mar sem calma, / serena como um pensamento langue, / alegre e triste como uma saudade; / ela canta e suspira na minhalma, / ela geme, sorrindo, no meu sangue / num paradoxo de felicidade. Veja mais aqui e aqui.

BONEQUINHA DE SEDA DO ÉBRIO - A atriz, cineasta, cantora, escritora e radialista brasileira nascida na França, Gilda de Abreu (1904-1979), começou sua trajetória como atriz de teatro na comédia romântica Bonequinha de Seda, em 1933. Neste mesmo ano, casou-se com o cantor e compositor Vicente Celestino, com quem, em 1946, tornou-se uma das primeiras mulheres no Brasil a dirigir filmes, obtendo sucesso retumbante com o melodrama O Ébrio, contando a ascensão e decadência de um cantor de sucesso decepcionado sentimental e tragado pelo alcoolismo. Em 1934, ela atuou no musical A canção brasileira. A partir de 1936, integra a Companhia dos Irmãos Celestinos. Em 1937, atua na peça teatral Alegria, de Oduvaldo Vianna. Em 1947, ela dirigiu os dramas Pinguinho de Gente e Coração Materno, este último atuando como roteirista. Em 1951, realiza o documentário Chico Viola não morreu, sobre a vida e canções de Francisco Alves. Além disso, era autora das peças teatrais Aleluia, A mestiça, Arcad de Noé e Alma de Palhaço, entre outras, afora ser autora de diversos livros e radionovelas, bem como cantora lírica e de operetas. Veja mais aqui.

DE SALTO ALTO – O filme Tacones lejanos (De salto alto, 1991), do cineasta, ator e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, conta a história de uma famosa cantora pop que há quinze anos abandonou a filha para investir na carreira. De volta à sua terra natal, surpreende-se ao descobrir que a filha é agora uma estrela de TV e que está casada com seu antigo amante. A mistura de gêneros pós-moderna com a extravagância das cores e a excentricidade dos objetos de cena, fazem as marcas profundas das características do cineasta com ampliação por territórios até então inexplorados, como um drama psicológico com uma narratiza eletrizada, comicidade melodramática com intriga policial e sobrepondo histórias pela difícil convivência entre mãe e filha, o destino, as paixões fulminantes, as irrupções cômicas, tramas e subtramas na maior irreverência. O destaque do filme vai para a atriz e cantora espanhola Victoria Abril. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do escultor português Arlindo Rocha (1921-1999)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, julho 23, 2015

OSMAN LINS, LEVERTOV, JURANDIR FREIRE, ALMODOVAR, BORGHETTI, CÉDRIC, LASZLO & REINO DOS SONHOS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? REINO DOS SONHOS - Mais que a noite, tivera a chance de sonhar: era ela como se fora Hythloday a me levar no passeio pelos prazeres de Amaurotum na opacidade onírica. E fez-se festa em plena orgia sem reconhecer-lhe a face de camaleoa nua e linda com as mãos repousando sobre meu ventre. Um não sei quê de redemoinho me levava ao suplício de Tântalo: tanto mais eu me aproximava dela, mais ela se afastava até a próxima esquina a me dizer no olhar: a cada um o que é seu. Ninguém pode fugir nem ao amor, nem à morte; ela se desfazia a cada instante, invisível por vezes, pedras na vidraça e somam-se quereres e privações que eram de ontens e nem são mais que amanhãs. Aí que está o busílis: parecia-me saindo do Livro dos Sonhos de Borges, na catarse do Agá de Hermilo: uma tábula rasa para se tornar o além-do-homem de Nietzsche. Virei de catâmbrias, parecia reviver a Gréia: não reconhecia a sua face ao sabê-la rente linda camaleoa nua no meu presente sonial, almejando o alvo no futuro de uma ilusão, os conflitos entre o desejo e a realidade. Ipso facto, errei da sorte, às escapadelas a dar azo ao desiderato, mesmo que eu saiba que talvez seja um logro jamais realizável e que se tornará possível porque tudo que é pode não ser agora, ser depois. O mentir exige memória e eu busquei sobrepujar o insensato mesmo que me visse entre as nuvens de um céu sem estrelas a me despencar entre os arranha-céus no abismo do dia não amanhecido. Até aí morreu o Neves por me acostumar às quedas livres pelas abissais do inopinado e com o desencanto da desilusão, singro novos mares que me fazem da camaleoa uma sereia desejada. Sem dizer a água vai e eu vou corrente abaixo levado à toa e nu da cintura pra baixo até me deparar atônito com o incêndio das adversidades na navalha do tempo. O fogo purifica tudo e eu renasço Fênix pra ser Sísifo noitedia. Recolho-me na tebaida onde o insólito me espreita para desvelar o que não consigo ver. Tintim por tintim sou mergulhado num cabalístico movimento agitado em que não sou e sendo ao mesmo tempo tudo e inominado e sem identidade. Emerjo de mim e tudo sou pra nada feito diante do karma que me diz de mim e o que fui no que serei. Indo à canossa do fundo do poço, reduzo-me ao pó sem cobrar desmerecido. Nem todos podemos tudo e eu me falho de mim, subtraído e reiterado. Volto à vaca-fria como se o insensato me dissesse algo que não pude inferir no meio de toda incoerência. E deixo o boi voar, asas à imaginação para que o desespero tome tento e eu perceba além do visível. Não sei o que diga nas minhas errâncias a me segurar no que possa alcançar na minha inútil persistência. Trinta e seis razões eu teria para abdicar da dor, abjurar da fé, renunciar de tudo. A talho de foice eu persevero e na resiliência sou pó ao vento, do ar às águas. Entendo do riscado: vou da semente à raiz, raiz ao fruto, fruto à semente. Aqui já não está quem falou: cônscio do universo, pronto pra seguir adiante. Vender-me por prato de lentilhas como sempre fiz e fui, não mais: não há valia para apreço, vale nada, só a mão espalmada à ternura do afeto. Imperativo categórico: minhas sórdidas vestes me diz quem sou, nada mais tenho e terei de mim só o que tenho e sou. Dou de ombros: sou o que menos sei de mim ao saber nada do que sou. Até lá muitas águas passarão debaixo da ponte: o que fui, nada mais serei. O rei está nu e não há nada que lhe desmascare o embuste. Ramos de oliveiras nas mãos, sigo sempre adiante. Enforquei o último desejo nas tripas da última vontade. Invisto no amanhã: nada sei o que será, apenas vou. Não me dou por achado: a dúvida é a certeza que prospera ao fogo da existência. O fogo, reitere-se, purifica tudo: renasço a cada instante que morro. De noite todos os gatos são pardos e eu fecho os olhos para aguçar a compreensão. Orvalho não enche poço, mas de pingo em pingo mato a sede. Sua alma, sua palma: eu sou as minhas mãos. Sou manhã que se faz tarde pruma noite madrugar noutro amanhecer. Ouço o galo cantar me chamando pra viver o mundo dos efeitos. Nada será como antes, já não preciso ver além do que aprendo ao compreender que tudo gira no que sou tudo de todos. Horagá: sou o que vai na volta do que já foi para novamente ser o que será. Ora, direis, ouvir estrelas! Chega! A camaleoa linda e nua não está ao meu lado, está presente na satisfação do desejo de viver. Só, o meu navio a sorte inventa e a vida é o reino dos sonhos. (Reino dos Sonhos, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.



[...] O anonimato pelo qual tanto lutamos destituiu a privacidade de seu estatuto privilegiado de foyer ascese. A intimidade familiar, conjugal ou amorosa deixou de ser o lugar onde elaborávamos nossas experiências morais pelo exercício do bem-dizer que para ser verdadeiro ou indicativo da boa vida requeria o testemunho e a aquiescência do outro, tendo como juiz os ideais comuns. Na contramão dessa ascese, equipamos nossas casas e vidas de modo a afastar o próximo e tornar sua palavra absolutamente irrelevante. Continuamos, entretanto, fetichizando a falta do que só tinha sentido num mundo que desapareceu. Mantemos uma imagem de felicidade oca e que é puro teatro de sombras do que já foi. Queremos conciliar um ideal de felicidade base ado na parceria e um código moral que fez de nossos corpos, sexos e amores referentes de mercadorias com a etiqueta “pessoal”. O problema dos lugares-comuns é que, muitas vezes, são verdadeiros. Ninguém que se sente ou se acredita muito infeliz pode ter tempo ou disponibilidade emocional para pensar nos outros. A degradação do público e do privado não nos deixa outra saída exceto a de pensarmos obsessiva e inutilmente em nosso mal-estar. Não se trata de nostalgia passadista ou de querer reabilitar o “lar doce lar” que, aliás, nunca foi tão doce. A sugestão é a de que pensemos em novas modalidades de interação nas quais as singularidades subjetivas possam apoiar-se na presença dos outros. Penso que o rumo produtivo, se quisermos recuperar o papel da palavra iniciadora na democracia, consiste em trilhar outras sendas. Um novo caminho capaz de empolgar a todos na permanente construção dos ideais democráticos, em especial as novas gerações, deve reinventar de alto a baixo o quadro institucional em que aprendemos a subjetivar-nos. Penso, concretamente, na problematização de teias interativas ou experimentos de convivialidade que tendem a ser suprimidos ou recalcados de nossa memória histórica. Penso que devemos levar a sério questões como vínculos de amizade, hospitalidade, cortesia, honra, lealdade e fidelidade, assim como a questão do reencantamento ou paixão pelo mundo. Não para reeditar essas formas de vida moribundas, o que seria farsesco, mas para repensá-las, renová-las e, quem sabe, voltar a reintroduzir na vida pública e pessoal o entusiasmo pela criação de um mundo comum que deixou de existir. Imaginar uma vida pessoal sem a guarita da família consumista ou os dilemas da intimidade burguesa; imaginar um mundo de afetos liberado do despotismo sentimental do amor-paixão romântico; imaginar uma sociedade em que o sexo nem seja marca do pecado nem mercadoria no sórdido comércio de serviços para maiorias e minorias; imaginar redes de convivência que retomem o que de melhor existiu nas experiências da philia, da amicitia ou comunitas antigas; imaginar que o progresso e o maravilhoso das descobertas científico-tecnológicas podem existir sem o jogo da cupidez e a exploração das vida dos outros; imaginar, por fim, que os ideais de comunidades anarquistas, de sociedades socialistas ou dos experimentos da contracultura dos anos 60-70 não são imagens de mundo que a história ridicularizou ou desmascarou como diversão de desocupados ou sonhos totalitários de burocratas corruptos, pois bem, imaginar tudo isso pode dar trabalho. Pode mesmo exigir uma dedicação ao outro e a nós que desaprendemos a ter, tal a dependência que criamos das técnicas e dos artefatos do mercado como meios de solucionar até as mais delicadas “intermitências do coração”. Mas iniciar é propor o inusitado. Pela palavra, podemos criar o “não ainda” e antecipá-lo de diversas maneiras. Por exemplo, podemos imaginar um mundo onde nossos filhos visitem os atuais shopping-centers, não como centro de compras mas como museus do desperdício e da insensatez, e terminada a visita possam dizer o que pensamos tantas vezes quando saímos de palácios aristocráticos: como aquela gente pôde pensar que precisava de tudo aquilo para viver e ser feliz? [...]. Veja mais aqui.

AVALOVARA – O livro Avalovara (1973 - Companhia das Letras, 1995), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978), é uma obra de arquitetura narrativa, construído a partir de um palíndromo latino (sator arepo tenet opera rotas), dentro de uma espiral a partir dos quais vão sendo desenvolvidos todos os capítulos do livro. A sua estrutura e o seu enredo está baseado no Quadrado Sator, no qual as narrativas se intercalam, explorando os formatos do quadrado e da espiral. Da obra destaco os trechos: [...] Surge onde, realmente – vindos, como todos e tudo, do princípio das curvas -,esses dois personagens ainda larvares e contudo já trazendo, não se sabe se na voz, seno silêncio ou nos rostos apenas adivinhados, o sinal do que são e do que lhes incumbe? A porta junto à qual se contemplam ou avaliam, face a face, rodeados de sons, cheiro de pó e obscuridade, é limiar de quê? Ingressam ambos na sala e talvez, ao mesmo tempo, no espaço mais amplo, conquanto igualmente limitado, do texto que os desvenda e cria. [...] As cortinas ocultam duas janelas amplas, com persianas de madeira e vidraças. Permanece fechada a janela ante a qual ficam as descoradas poltronas de damasco, a mesinha de centro e o sofá com forro de veludo ouro. A outra, aberta, ilumina a longa mesa posta: sobre pequenas toalhas ovais – vermelhas, azuis e verdes -, entre a louça e os talheres, dois castiçais, uma garrafa de vinho e o vaso com dálias amarelas. Palavra e corpo, o rosto – fogo e seda – junto ao meu: [...] Afago seus cabelos, fartos, fortes, duas cabeleiras confundidas. Que liga esta hora à visão da Cidade descendo sobre o vale com um pássaro? Uma explosão longínqua faz tilintarem os pingentes(faltam alguns) nos lustres de cristal. Também ouço o mecanismo, lento, cor de mel e aço, do alegre vestido, alça-se um perfume lancinante. Os motivos geométricos, os animais e as ramagens dos dois imensos tapetes diluem-se num rosa meio encardido. Retirado o pêndulo, poderiam esconder-se uma criança e seu cão na caixa de madeirado relógio. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

escritora e tradutora estadunidense de origem britânica e ligada à Geração Beat, Denise Levertov (1923-1997), destaco três poemas, o primeiro deles Ao leitor: Enquanto você lê, um urso branco tranquilamente / faz xixi, tingindo de açafrão / a neve / e enquanto você lê, os deuses / repousam entre as trepadeiras: olhos de obsidiana / observam a reprodução das folhas, / e enquanto você lê / o mar está virando as suas páginas negras / virando / as suas páginas negras. Também o poema Viver: O fogo na folha e na grama / tão verde parece cada verão o último verão. / O vento soprando, as folhas / vibrando sob o sol, / cada dia o último dia. / Uma salamandra vermelha / tão fria e tão / fácil de pegar, em devaneio / move suas delicadas patas / e longo rabo. Deixo / minha mão aberta para que ela se vá. / Cada minuto o último minuto. Por fim, o poema Um começo de dia:

Osman Lins (1924-1978), conta a história de uma jovem filha do delegado do município que se apaixona por um artista de circo que percorre o interior nordestino, aplicando golpes nos habitantes das cidades, e se envolvendo com uma infinidade de mulheres, inclusive casadas. Procurado por um famoso matador da região, que jurou acabar com aquele que se aproveitou de sua mulher, a filha do delegado passa a ajuda-lo a escapar da cadeia, induzindo o seu pai a permitir regalias ao preso, mesmo ela sendo noiva de um advogado. O relacionamento entre ela o noivo agrada ao pai por representar segurança e estabelecimento para a jovem filha. Contudo, ela se apaixona pelo artista de circo preso, assumindo riscos e subvertendo valores vigentes em seu meio. A história vai se desenrolando com imprevistos acontecimentos, debulhando problemas dos valores da sociedade patriarcal. O texto foi transformado em especial na Rede Globo e, depois, adaptada para o cinema em 2003, como uma comedia romântica dirigida por Guel Arraes. Veja mais aqui e aqui.


IMAGEM DO DIA
Foto: Seated nude (1931), do pintor, fotógrafo e escultor húngaro Laszlo Moholy-Nagy (1895-1946)

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Imagem: Eiry Reading (2011), do artista plástico Mike Todd.
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