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domingo, fevereiro 21, 2021

D’ANNUNZIO, VIVAN SUNDARAM, CASTELNUOVO-TEDESCO, FRANK BRUNNER & BELLA KAHUN

 

 

TRÍPTICO DQC: Abri os olhos e a vida às minhas mãos. – Ao som da Fantasia op. 145, do compositor italiano Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968), na interpretação da violonista Antonina Ovchinnikova e da pianista Daria Kovaleva, no Wiener Musikakademie, 2015 – Da janela: minhas mãos no trajeto das estrelas, as estradas da imensidão. Um raio rasga o céu: é Apophis. E tudo estremece, enlouqueço. A fé que nunca tive, iconoclasta dou por feito: não há o que idolatrar, nem douro pílulas, a tragédia não tem fim. Olhos abertos, sou mamulengo – para onde os dedos vão um mundo se constrói: em cada um deles outros de mim mesmo e o que não tenho; em cada um deles a face oculta dos meus sonhos quase tosco avoengo. E se a aceleração de Yarkovsky o desviou, a desgraça é mais que evidente: o meu coração é o alvo e o mundo quase não mais se queimam tudo. Minha aflição é labareda no rio para afogar dendroclastas e afins. Ouço na minha agonia o poeta francês Raymond Queneau (1903-1976): O homem dissipa a sua angústia inventando ou adaptando desgraças imaginárias. A história é a ciência da infelicidade dos homens. O humor é uma tentativa para libertar os grandes sentimentos da sua parvoíce. Sorrio, mesmo que tardio. Ao ver-me atônito sequer me reconheceu, deu-me por titeriteiro aos distirambos como se não soubesse que estou na carroça do Juazeiro.

 


DOIS: Sou outro não-eu: fiz do outro o que sou – Imagem da artista indiana Vivan Sundaram. – Como não vi desde ontem o de sempre não sei o que virá. Sequer adivinho, nem tento. Apenas vi dois olhos e neles pude ao entendimento: sucumbência recorrente, piso falso, ermo para todo lado e nenhum trinco sequer para me segurar. Nesse trâmite Gabrielle D’Annunzio me diz: Nunca é tarde para tentar o desconhecido. Nunca é tarde para ir mais além. Devíamos sempre aprender a amar-nos é o único romance que dura a vida inteira. A paixão, tal como a arte, vive só para si: a arte para a arte, a proeza para a proeza, a coragem para a coragem, o amor para o amor, a embriaguez para a embriaguez, o prazer para o prazer. Quem disse que a vida é um sonho? A vida é um jogo. As grandes doenças da alma, bem como aquelas do corpo, renovam o homem e as convalescências espirituais não são menos agradáveis nem menos miraculosas do que as físicas. Se ainda não sei o que fazer assim tão sozinho, já era tempo, quase tarde demais: eu voo.

 


TRÊS: A cantora Kantocu dos Tasvirs – Imagem: arte do quadrinista estadunidense Frank Brunner. – Como ela nunca mais, aqueles dois olhos são meus, mesmo que o meu mundo tenha desabado pelas sombras do Karagöz. Ainda aos meus ouvidos o que ela cantava lá longe e desapareceu abrindo caminho com um som estridente, a se perder pelas silhuetas de todos os meus fantasmas soltos na escuridão. A mim sequer restava acrobata ilusionista Hokkabaz, errando a fonte de luz e a fonte dos desejos, atravessando as desditas de Hacivat com o desaparecimento do Hayali dos tasvirs. Se fosse ela Anaïs Nin: A vida se expande ou se encolhe de acordo com a nossa coragem. Você não encontra amor, encontra você. Tem um pouco a ver com o destino, a sorte, e o que está escrito nas estrelas. O amor nunca morre de morte natural. Morre porque não sabemos reabastecer sua fonte. Ele morre de cegueira e erros e traições. Morre de doença e feridas; morre de cansaço, de covinhas, de manchas. Quem dera fosse ela, não era, e eu assim tão só. Até mais ver.

 

BELLA KAHUN



Eu consegui criar gosto de verdade sobre essa coisa de criar uma identidade artística.

A arte da cantora Bella Kahun, que já lançou o álbum Crua (PE Squad, 2020), com singles que seguem uma trilha do R&B, MPB, jazz e bolero, dialogando com uma nova cena da música brasileira que transita entre o acústico, eletrônico, boêmio, global e regional. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, março 14, 2019

CARLOS HEITOR CONY, RICHARD MAURICE BUCKE, LAURE ALBIN GUILLOT, LUANA MENEZES & BOM DIA


BOM DIA - Bom dia. Mesmo que o amanhecer se pareça ao dia de ontem e anteontem, a semana passada, o mês que ainda lembre ou o ano que não é mais, e seja como tudo já visto e sem esperança, bom dia. Mesmo que se sinta só sem sobrenome ou parente e sem o menor sinal de qualquer herança ou ancestral familiar, apenas um sobrevivente hóspede indesejável no meio da pior das impressões com a reputação na lama e exposta ao opróbrio, bom dia. Mesmo que o seu retrato seja para todos o do mais infeliz Cagliostro e tudo seja só desfavor e corra em segredo de justiça com os semáforos vermelhos como um xeque mate que coíba todas as possibilidades e alternativas de sua longa caminhada, bom dia. Mesmo que tenha chegado à conclusão de que nada mas nada mesmo seja mais possível, não obstante, nenhum reconhecimento confirme o desprezo para que assim tudo lhe seja escasso, estreito e em conta gotas, tudo perdido e sem solução, sorria e bom dia. Mesmo que esteja com as mãos vazias, o coração aos prantos e sem ter o que fazer e lhe recusem a seguir seu caminho em severa reclusão e, com efeito, se oponham em compará-lo ao pior do que seja e tenha de renunciar às suas aspirações, para que lhe reste apenas um epitáfio qualquer, bom dia. Sorria, mesmo que tudo se pareça tão inedecifrável quanto cabalístico de tão intrincado conflito na maior ameaça de guerra, e tenha esgotada toda a paciência do mundo com tudo de mais fantasioso que se pareça, sorria e cante Chaplin enquanto ingênuos sectários imponham a sua exclusão na mais cruel das culpas segregadoras. Sorria, mesmo que tenha descido ao inferno de Rimbaud e não lhe reste mais nada, chão algum sob os pés, horizonte algum às vistas, leia os Ombros de Drummond, a Linha Reta de Pessoa ou Os Ocos de Eliot e sorria, porque, acima de tudo, apesar de todos os pesares e com tudo às avessas, tudo está em suas mãos e pode mudar a qualquer momento, a vida não para, ainda há tempo, nunca é tarde. Então, sorria e bom dia. Amem e amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o número de pessoas com experiências de consciência cósmica é maior no mundo moderno do que o era no mundo antigo. Este fato, relacionado com a teoria gemi da evolução psíquica, tende a confirmar de maneira definitiva a conclusão segundo a qual é certo que a consciência de si apareceu entre os melhores espécimes de nossa raça ancestral em sua fase primordial, e tornou-se progressivamente universal evidenciando-se cada vez mais cedo no indivíduo. Atualmente ela se apresenta, em média, por volta dos três anos. A consciência cósmica se universalizará até que a raça inteira possua esta faculdade. A mesma raça e não mais a mesma, pois a raça da consciência cósmica não será mais a raça que existe atualmente, da mesma maneira que a raça atual não é igual àquela que existia antes da evolução da consciência individual. A verdade simples é que, durante milênios, em meio à multidão de seres comuns, “apareceu por intervalos” o início ainda bem frágil de uma nova raça; caminhando sobre a terra e respirando conosco e ao mesmo tempo caminhando sobre uma outra terra e respirando um ar diferente do qual conhecemos pouco ou absolutamente nada, mas que constitui, no final das contas, nossa vida espiritual, da mesma maneira como sua ausência seria nossa morte espiritual. Esta nova raça está em vias de ser gerada de nós mesmos, e em um futuro próximo ocupará e possuirá a terra. [...]
Trecho extraído da obra Consciência cósmica: um estudo na evolução da mente humana (Renes, 1982), do psiquiatra canadense Richard Maurice Bucke (1837-1902), definindo uma forma de consciência mais elevada do que a que possui homem. Veja mais aqui.

MANGA ROSA & LUANA MENEZES
Parto para buscar a dignidade e o reconhecimento que almejo e mereço. Parto com uma admiração enorme por quem aqui fica e tenta, sem cessar, fazer a roda da cultura girar. Mas parto, principalmente, com uma vontade urgente de gritar para que Natal valorize os artistas incríveis que fazem dessa terra sua morada.
O monólogo Manga Rosa (2014), da atriz e pesquisadora Luana Menezes, que é fundadora da Bololô Cia. Cênica e integrante da Arkhétypos Grupo de Teatro, é inspirado nos diários da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977), contando a história de uma mulher que pôs fogo na própria casa, degusta os sabores da sua intimidade: o amargor de ser mulher em qualquer época, o gosto de cinzas (gosto de quem já ardeu) que fica na boca, o mel dos prazeres e da liberdade conquistada à ferro e fogo. A peça teatral transita entre a autoficção e a fábula, embriagando-se com o vinho, o sexo, o amor e os encontros, percorrendo o lugar de encontro das mulheres deslumbradas e destroçadas, apaixonadas e criadoras, no qual elas desnudam sua pele, sua escrita, seus desejos e suas vozes se confundem e se costuram suculentamente sob a sombra frondosa do erotismo e da poesia. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962), uma artista que se tornou figura profissional e institucional que dominou a arena fotográfica francesa, praticando vários gêneros, incluindo retrato, nus, paisagem, natureza morta e, em menor grau, fotografia documental. Tecnicamente inigualável, ela elevou a prática a um certo elitismo, usando os novos meios de distribuição da imagem para fornecer ilustrações e imagens publicitárias para a indústria impressa e editorial que a fizeram notavelmente uma das primeiras na França a considerar o uso decorativo da fotografia através de sua pesquisa formal sobre o infinitamente pequeno. Com a fotomicrografia, que ela renomeou como “micrografia”, apresentando novas perspectivas criativas na combinação de arte e ciência. Por essa razão ela tornou-se uma das personalidades mais ativas das áreas fotográficas e culturais da época. Veja mais aqui & aqui.
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A obra do escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony (1926-2018) aqui, aqui & aqui.
 

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

ANAÏS NIN, ANNE CAUQUELIN, JOEL-PETER WITKIN, ACORDES DE ZÉ CELSO & O DESPACHO DAS PEDREIRAS


O DESPACHO DAS PEDREIRAS - Um pandemônio ocorreu naquela manhã pelas bandas das Pedreiras. O zoadeiro se dera porque no cruzamento principal do bairro ribeirinho, um despacho tinha de tudo: carne defumada, galinha preta, farofa, cachaça, velas, santo de barro, fumaça de incenso, brebotes e o escambau. Quem era doido de passar? Vôte! Macumba pesada na encruzilhada, tinham certeza todos dali. É que exatamente nesse entroncamento, já houvera muitos envultamentos e sortilégios, diziam, uma maldição. Entre temerosos e crédulos, o que dá no mesmo, todos toravam aço e se agoniavam da sina: Teve gira nessa pega. E agora? No desespero, só havia uma solução, convocar a maior autoridade nesses assuntos: Sebastião Esprita. Não demorou muito, chegou ele para socorrer. Encarou a troçada: Ah, nada, isso é oferenda aos ancestrais e santos da devoção dos fiéis do catimbó, nada demais. O povo estremeceu e logo muitos reclamaram: Tais brincando, meu? Rapaz, não te mete na bronca alheia, isso dá atraso de vida. E ele com aquela mansidão peculiar: Gente, o medo não existe, a gente que cria. E caía às gaitadas expondo o dente de ouro com aquele ar de quem sabe das coisas e sempre arrumando um jeito de resolver o que fosse pra sair do aperto, douto que era de escapar ileso de qualquer perigo. Ah, isso é um santo de pau oco! Tá enrolando a gente, viagem perdida. A-há! Xá, comigo, isso é coisa de Exu, se vocês querem, resolvo isso em dois tempos, peraí. Pois desfaço tudo e volta tudinho pro espírito ruim que emborcou esse negócio aqui, destá. E danou-se a desfazer o troço já que tinha estreita intimidade com as coisas sobrenaturais, tendo até quem garanta o compadrio dele com o criador. Não era de errar na dose nem no remédio, prescrevia receituário em tacos de papel ou pules de bicho, com uma garrancheira triste e ilegível, dos da botica terem dor de cabeça para adivinhar e traduzir o quê que droga de nove era aquilo que desescreveu pros enfermos solicitantes. Conhecia todas as Escrituras sagradas e profanas, e guardava conhecimento profundo sobre religiões, das leis de Deus e dos homens, coisas do outro mundo e ocultidões irreveláveis, afora ser um poliglota insuperável de idiomas inventados e línguas desaparecidas, ensinando o bêabá com palavras edificantes e pregando com invulgar competência, baixando espíritos, dando passes e curando doente e são de nó pelas costas. Por via de dúvidas, portava um revólver nos quartos escondido pelo paletó bufento que ninguém sabia que cor que era de tão surrado, acaso esgotassem seus recursos mediúnicos, além de um par de algemas nos bolsos e um molho de dinheiro na algibeira: Ninguém é besta de sair à toa, né? Era um curioso benfeitor, posto que se fazia de engenhoso com muitos prodígios e milagres que já obrara praquela gente de boa fé e idiotas sossegados da região. Entre as suas práticas estavam a de estancar sangue efusivo dos escravos da cana, desencantamento da perna cabeluda, a poesia do senador-presidente, a salvação da lavoura nas enchentes de antigamente e de agora, a água milagreira do Cocão do Padre, as duas mil caveiras de Japaranduba, a ressurreição das almas de Catuama, o aterro do açude de Santa Luzia, a cura de Frei Damião, as duzentas mil mortes nas caldeiras da usina, os dois milhões de acidentes da BR 101-Sul, o incêndio das barracas de fogos de artificio, o deslizamento das barreiras de Bigode, a safra da fruteira de Paul, a farra de Cantochão, os afogamentos do Una e Pirangi, a falência de Serro Azul, o êxodo de Santantoin das Trempes, o aluamento de Vênus, o extermínio dos bichos da mata de Xareta, a derrocada de Sapucaia, a febre dos esquálidos, a prenhez das parideiras, o peixe dos pescadores, a salvação dos pecadores, a adimplência dos trambiqueiros, a menstruação das piniqueiras, a saúde dos doentes, o perdão dos capatazes, os tons dos bordões, o êxito dos caçadores, o refúgio dos ladrões e a porratoda do que aparecesse pela frente. Pois nessa hora, não teve dúvidas, ele tomou uma meiota de cachaça duma vez só, fez quatro nas pernas, espritou-se todo arrepiado, pinotou, plantou bananeira, fez que ia e não foi, deu uma doidice, engrolou a língua, sapecou gestos obscenos e benzeduras, deu estrimilique e caiu duro no chão. Dali a pouco ele se levantou, bateu a poeira da roupa e disse: Pronto, podem trabalhar em paz. E foi-se. Mal deu as costas, o povo começou a se agitar com o acometimento de um e outro cair em maledicências, da gritaria arrastar as vítimas de carro de mão pro hospital regional. Oxe! Que é que é isso, gente? Aí ele aumentou a dose: respirou fundo, fechou os olhos e levitou na frente de todo mundo, subindo mais de metro a girar e falando coisas que não dava pra ninguém entender. Não deu outra, logo os acamados se levantaram e vieram se ajoelhar onde ele fazia a sua performance de escolhido dos deuses. Tudo voltou à paz, ainda bem. Houvesse o que fosse, ele intervinha e resolvia em poucos minutos, isso por décadas, o que lhe crescia na reputação. De tanto salvar gente, bichos, coisas e desejos, um dia deu ele de morrer e virar um inesquecível fantasma do bem que passa o dia brincando com as crianças ou evitando algum desavisado de acidentes ou situação difícil. Por isso até hoje o povinho dali recorre dos seus préstimos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] o fragmento é a forma mais comum pela qual o implícito se manifesta. Daí decorre seu uso frequente em poesia, quando a imposição discursiva, o corpo fixo e estrito da linguagem estão suspensos. Daí também decorre seu uso não menos frequente em pintura: o detalhe incongruente, insignificante em si, surge não se sabe de onde, e até mesmo as interpretações mais aguçadas não conseguem enquadrá-lo inteiramente. O paradoxo do fragmento deriva do fato de ele ser ao mesmo tempo único, fechado em si mesmo como um porco-espinho, e reflexo do conjunto que ele condensa e traz à luz. De certo modo, ligado e desligado; nisso, ele atua no limite entre aparição e desaparição – aparição enquanto corpo bem definido, desaparição enquanto se deixa reabsorver pelo conjunto de que é signo. Ao marcar o interstício imperceptível entre um todo – o mundo – e aquilo que o acompanha sem ruído nem existência – o vazio -, o fragmento deriva do corpo e do incorporal, sempre no limite de voltar a ser sem consistência, ou de apresentar em um único ponto e em um só momento, estoico, a consistência do todo. [...] aquilo que chamo de momento estoico aflora aqui, a nosso alcance, com a condição de haver uma inversão ou uma abolição da perspectiva – aquilo que o ciberespaço, mas também o big nothing, nos ensinou a fazer. Desse modo, assim como o fragmento é a forma literária por meio do qual o implícito se manifesta, e assim como o implícito é a forma familiar do virtual e do exprimível, a paisagem é, para nós, a figura familiar do incorporal, do lugar e do vazio.
Trecho extraído da obra Frequentar os incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea (Martins Fontes, 2008), da filósofa, romancista, ensaísta e artista francesa Anne Cauquelin. Veja mais aqui.

ACORDES DE ZÉ CELSO
O musical Acordes (2012), do dramaturgo e ator José Celso Martinez Corrêa, pelo Teatr®o Oficina Uzyna Uzona, é uma versão de “A peça didática de Baden-Baden sobre o Acordo”, de Bertolt Brecht, abordando sobre o altruísmo humano. O espetáculo foi acusado por crime de desrespeito a objeto religioso, com pena prevista de detenção de um mês a um ano ou multa, por conta da cena de decapitação de um boneco representando o papa. A ação proposta em juízo foi julgada extinta pelo juiz José Zoéga Coelho. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A FOTOGRAFIA DE JOEL-PETER WITKIN
A arte do fotógrafo estadunidense Joel-Peter Witkin. Veja mais aqui & aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A obra da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977).
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quinta-feira, maio 24, 2018

SEFÉRIS, LÉVI-STRAUSS, ANAÏS NIN, BOURDIEU, LOURDES RAMALHO, JOHN SILVER, FILÓ MACHADO & MARIA DAPAZ


CARTA NA PEDRA - Imagem: Pintura rupestre do beijo no Boqueirão da Pedra Furada, Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí, Brasil (2010) © Palê Zuppani - Rabisco sonhos na face da pedra, a minha estela e sintonia. Pra que serve, não sei, nem sabe ela às orlas das passagens ou a ornar jardins floridos. Sei e rola ribanceira como eu nos meus dias e noites, água que leva e lava, areia pra se esconder, como se fosse a memória do pedregulho, e o seu desgaste lento enquanto envelheço grão de areia ao convívio entre seixos e lascas, tanto faz, tanto fez. A pedra sou eu e ela comigo, horas e ventos. Dela preparo a mim mesmo, aprendizagens. No sapato incomoda como a culpa assombrosa ou a topada no dedo inflamado, e quase nem sei seus vagares e cismas, fazem parte da escória de tudo como eu que não lhe sou alheio. Lá está ela aqui comigo e em qualquer parte ou lugar, como se coração indiferente de ontem ou amanhã. Ela voa na fúria de quem dela se vale para abrir o talho na testa do desafeto ou de outrem, destroça vidraça e pingueira na telha quebrada. Lá está ela pro tombo no meio do caminho, não há quem segure destronado na vertigem abissal. Nem sei que são da litosfera, se calhau ou pepita, se água-marinha, topázio, turmalina, nem distingo direito cascalho de ametista, o que é da fraga pro diamante ou rubi, o que é rebo pra safiras ou esmeraldas, se esteatita que é a de sabão do artesanato de Ouro Preto, ou a de Roseta milenar, ou as dimensionadas nos tornos, serras, plainas e polidoras, como as britadas de granitos, basaltos, mármores, calcários e arenitos, diabásios e ardósias, o quartzo opalescente ou concreto armado, se é da Lua com sua energia feminina, ou as que nascem nos rins ou vesícula pra espremer de dor, ou se de uma estrela que não sei de onde. Não sou lapidário nem sei fundição, muito menos do corte das gemas; não sei como lavra porque não tenho martelo e bigorna, só interditos e esconjuros; só sei que delas não há fonte pra brotar, nem semente, e jazem longe sem sangue heroico, se penedo ou joia, sequer soube, assim são. Elas são testemunhas, quando não a nossa própria expressão no precipício da vida e suas comoventes miragens, o seu impreciso destino e até nunca mais. É nela que faço o poema amanhã apagado pelos ventos do tempo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, arranjador, instrumentista e produtor, Filó Machado: Origens, Canto Fatal e álbum solo; da cantora e compositora Maria Dapaz: Brincar de ser feliz, Metade e Ensaio; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sempre a meio-caminho entre o esquema e a anedota, o gênio do pintor consiste em unir conhecimento interno e externo, ser e devir, produzir, com seu pincel, um objeto que não existe como objeto e, todavia, sabe criar sobre a tela: síntese exatamente equilibrada de uma ou várias estruturas artificiais e naturais e de um ou vários fatos naturais e sociais. [...]. Pensamento extraído da obra O pensamento selvagem (Papirus, 1989), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui.

VIOLÊNCIA SIMBÓLICA - [...] Falar de dominação, ou de violência simbólica, é dizer que, salvo uma revolta subversiva que conduza à inversão das categorias de percepção e de avaliação, o dominado tende a assumir a respeito de si mesmo o ponto de vista dominante: através, principalmente, do efeito de destino que a categorização estigmatizante produz, e em particular do insulto, real ou potencial, ele pode ser assim levado a aplicar a si mesmo e a aceitar, constrangido e forçado, as categorias de percepção direitas (straight, em oposição a crooked, tortas), e a viver envergonhadamente a experiência sexual que, do ponto de vista das categorias dominantes, o define, equilibrando-se entre o medo de ser visto, desmascarado, e o desejo de ser reconhecido pelos demais [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

ELENA – [...] Ante esse reconhecimento de timidez, ela foi imensamente tocada pela ternura, uma ternura que nunca experimentara antes. A força dele estava se curvando perante ela, hesitando antes da efetivação do sonho que havia crescido entre eles. A ternura engolfou-a. foi ela quem se deslocou até ele e ofereceu sua boca. Então ele a beijou, com as duas mãos sobre os seus seios. Ela sentiu seus dentes. Ele beijou o pescoço onde as veias palpitavam, e a garganta, com as mãos em voltado corpo. Ela foi dominada pelo desejo de ser inteiramente possuída. Enquanto a beijava, ele a despiu. As roupas caíram em volta dela, e eles ainda estavam juntos de pé se beijando. Então, sem olhar para ela, ele a carregou para a cama, com a boca ainda em seu rosto, garganta e cabelos. [...] Agora nu, ele estava estirado por cima dela em todo comprimento. Ela desfrutou o peso dele por cima de si, desfrutou ser esmagada sob o corpo dele. Queria que ele ficasse grudado nela da boca aos pés. Arrepios percorriam seu corpo. Ele sussurrava de vez em quando, disse-lhe para erguer as pernas como ela nunca havia feito, até os joelhos tocarem o queixo; sussurrou para que ela se virasse, e esparramou as mãos por seu traseiro. Descansou dentro dela, deitou-se de costas e esperou. [...] Escorregou cama abaixo até a boca alcançar o pênis. Começou a beijar em volta. O pênis sacudia levemente a cada beijo. [...] A mão permaneceu sobre Elena enquanto ela moveu-se para cima e para baixo e depois tombou, tombou com um suspiro de prazer insuportável, tombou sobre a barriga dele e ali permaneceu, de olhos fechados saboreado o deleite [...] abriam um novo livro e liam juntos, com as mãos acariciando um ao outro. Beijavam-se em cima de gravuras eróticas. As bocas coladas juntas caíam por cima de enormes bundas empinadas de mulheres, pernas abertas como um compasso, homens acocorados como cachorros, com membros imensos, quase arrastando no chão. [...] pareceu a ela que o prazer que sentia com as arremetidas do pênis transmitia-se à boca. Abriu-a, e a língua projetou-se como na gravura, como se ela quisesse o pênis na boca ao mesmo tempo. Elena correspondeu loucamente durante dias, quase como uma mulher a ponto de perder o juízo. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

COMENTÁRIOS - Já escurecera na sacada / junto a nós uma urgência esvoaçava / nos dois corações, bem aninhada, / uma confissão correspondida. / Vã, murchou a voz. Enxame de erros / nossos lábios, e nas profundezas / do corpo, Deus, só estava acesa / nossa espera da benção pedida. / Dentro da casa os sonhos zumbiam / e da luz da tarde até o ímã / dos cabelos teus, tudo trazia / à memória o anjo inalcançável / de para com os anéis subitâneos / de chofre caídos, dos abanos / no pensamento que, o mesmo orando, / líamos, evangelho inefável. / Mulher que na minha alma te hospedas / tua surpresa é o que me resta / formosa mulher amada, nesta / tarde que absurdamente definha, / e os teus olhos de círculos negros / e a noite e seu calafrio ligeiro… / Quimera, espada do meu silêncio, / curva-te e entra outra vez na bainha. Poema do poeta simbolista grego da geração neogrega de 1930, Giórgos Seferiádhis ou simplesmente Giórgos Seféris (1900-1971). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE LOURDES RAMALHO
A professora, poeta, dramaturga e pesquisadora Lourdes Ramalho é autora de extensa obra teatral premiada nacional e internacionalmente. Em 1974 ela lançou a premiada Fogo-fátuo e, em 1975, a premiada As velhas. Em 1976, foi a vez da premiada peça teatral A Feira. A partir das década de 1990 ela passou a enfatizar uma dramaturgia pautada na Literatura de Cordel, entre elas Romance do Conquistador. Em 2005, foi reinaugurado o Centro Cultural Lourdes Ramalho, em sua homenagem, como, também, em 2011, foi homenageada com a 2ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade: Lourdes Ramalho e o Teatro Popular, organizada pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ela também é autora de textos dedicados ao público infantil, alguns deles reunidos na obra Teatro Infantil: coletânea de textos infanto-juvenis (RG, 2004), da obra Raízes ibéricas, mouras e judaicas do Nordeste (Ed. Universitária, 2002), Teatro (quase completo) de Lourdes Ramalho – Vols. I e II (EdUfal, 2011) e do livro de poesias Flor de cacto: viagem ao ignoto (EdUEPB, 2012).


Tarde Literária da Illuminare na Biblioteca Pública Viriato Corrêa (SP) & muito mais na Agenda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual britânico John Silver.
Veja mais aqui.
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A arte de Maria Dapaz aqui, aqui e aqui
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Elogio ao contribuinte, Apesar de tudo de Georges Didi-Huberman, a escultura de Edward Hodges Baily & a arte de Kênia Bastos aqui.
 

quarta-feira, março 07, 2018

ANAÏS NIN, REICH, JOYCE, QUESADO, SAVIANI, ELIANE RODRIGUES, EDUCAÇÃO & REPRESSÃO SEXUAL, FREYARAVI & LUCIAH LOPEZ

FREYARAVI & A SALVAÇÃO DO CATIVEIRO – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. - Errava caeté por terras distantes, atraído pelo clima e abundância de frutas e caças, ao deus dará. Já me acostumava com aquelas paragens até então pacatas e apaziguadoras, quando senti presságios no ar. Deu-me a impressão de que me observavam às escondidas, perseguido pelo matagal. Fique à espreita e logo percebi a presença hostil pelas cercanias. Não demorou muito, surgiram de esconderijos inesperados, muitos índios a me atacar. Lutei com eles o que pude e logo chegaram outros com seus soberbos cavalos e investindo contra mim. Fiz-me afoito, sozinho, a responder seus golpes, eram muitos e cada vez mais, não conseguia suplantá-los e tentei fugir sem obter êxito, pois me feriram e, na queda, logo me cercaram e me capturaram com suas flechas pro cativeiro, amarrado e conduzido para a ocara, em meio de gritos de vitória dos guerreiros. Fui exposto como prêmio e logo fizeram fogueiras e passaram a cantar e danças, saboreando caças moqueadas, regadas a uma bebida que parecia um vinho de mel. Por conta dos ferimentos, desfaleci; e ao recobrar os sentidos, aprisionado e ferido, recebia cuidados de uma bela índia. Logo me afeiçoei a ela por sua forma carinhosa de me tratar. Ouvia sua voz me falar, mesmo sem entender direito, mas que me dizia ter ela nascido dos rios caingangues. Linda e cheia de encantos, durante o dia cuidava de mim. Logo ouvi alguém chamá-la: Yaravi! Esse o nome dela e, pelo visto, reprovavam o tratamento a mim dispensado. Ela sumiu com os demais, ao final da tarde retornou e me segredou cuidadosamente, pelo que pude entender, que durante a noite voltaria. Logo anoiteceu e enquanto a tribo toda festejava a minha captura, um vulto de mulher surgiu na escuridão. Não pude identificar nem fazer menção de qualquer gesto, vez que ferido ainda me condoía. Ela fez sinal de silêncio, tocou-me e nada mais vi. Só dei por mim muito tempo depois dentro de um quarto em ruinas, acompanhado de uma deusa que me curava com um ritual carregado de orações. Quando os primeiros raios de Sol surgiam, ela desaparecia como por encanto. E já manhã ensolarada, chegava Yaravi com mantimentos para me alimentar. Depois de me assistir na primeira refeição do dia, ela se despedia prometendo retornar mais tarde. E só na escuridão da noite, a deusa reaparecia para os seus rituais, sumindo na madrugada. Várias luas se passaram e todos os dias eu ouvia lá longe os festejos da tribo. A deusa reapareceu de repente e me fez levantar: Vamos, teremos guerra e preciso de você. Durante os folguedos tribais, a fumaça das fogueiras atraiu bandeirantes que tencionavam invadir a tribo para escravizá-los. Travou-se combate, as flechas e lanças de nada serviam diante das armas de fogo dos invasores. Foi aí que tomei partido pelos aborígenes e providenciei estratégias de defesa ao ataque inopinado. Luta renhida se fizera, porém, felizmente, nossa coragem e bravura forçaram os inimigos a abandonar a luta, fugindo aos bandos. Quando deram pela minha presença no combate, logo me renderam. Na manhã seguinte, Yaravi teve a coragem de pedir a seu pai que me concedesse a liberdade, alegando minha participação na luta contra os forasteiros. Os guerreiros se reuniram em assembleia, deliberaram sob os mais calorosos protestos e aquiescências, concedendo-me, por fim, a satisfação do seu pedido, sob a condição de que eu acompanhasse a tribo. E assim fui salvo. Por meus feitos a partir de então, fui adquirindo notável influência, acabando por me tornar conselheiro entre eles. Em noite festiva agradeci a Yaravi por ter-me salvo, porém meu gesto de gratidão estava transformado em amor. Ela olhou-me diante da confissão feita, trêmula e, meia sem jeito, abraçou-me afetiva e demoradamente. Pude, então, tomar ciência de que aquela índia era a mesma pessoa da deusa que me aparecia durante a noite. Quis saber dela, respondeu-me: Freyaravi. E fizemos nosso pacto de amor e nunca mais desgrudei dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial com a cantora, compositora e instrumentista Joyce: Feminina, Revendo amigos & Ao vivo; da pianista Eliane Rodrigues: Momentos musicais, Étude op 25 Chopin & Pour le piano Debussy; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Toda educação, sistemática ou não, expressa uma visão de mundo que reflete a realidade socioeconômica e política em que está inserida. Pensamento extraído da tese de doutoramento em Filosofia, sobre a temática Valor e educação (PUC, 1983), do professor José Misael Ferreira do Vale.

EDUCAÇÃO – [...] o homem necessita produzir continuamente sua própria existência. Para tanto, em lugar de se adaptar à natureza, ele tem que adaptar a natureza a si, isto é, transformá-la. E isto é feito pelo trabalho. Portanto, o que diferencia o homem dos outros animais é o trabalho. Trecho extraído da obra Pedagogia histórico-critica: primeiras aproximações (Cortez & Autores Associados, 1991), do filósofo e pedagogo Dermeval Saviani. Veja mais aqui.

REPRESSÃO SEXUAL - [...] A repressão da sexualidade natural da criança, e em particular da sexualidade genital, torna-as apreensiva, tímida, obediente, cheia de medo da autoridade. “Simpática” e “bem comportada”, no sentido autoritário; paralisa as suas tendências rebeldes já que a revolta desperta a ansiedade; engendra, ao inibir a curiosidade sexual da criança e as suas relações sexuais, um abaixamento generalizado das suas faculdades mentais e do seu sentido crítico. Em resumo, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar um individuo que poderá adaptar-se à sociedade autoritária e que a ela se submeterá apesar de todo o sofrimento e humilhação que é vítima. [...]. Trecho da obra Psicologia de massa do fascismo (Escorpião, 1974), do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957). Veja mais aqui.

A FAMÍLIA E A FUNÇÃO SOCIAL DA REPRESSÃO SEXUAL – A unidade da célula familiar apoia-se na obediência das crianças a seus pais. Já vimos que as crianças, ao aprenderem a obedecer aos pais, aprendem a obedecer de um modo geral. Os resultados obtidos pela educação familiar são transferidos para todas as situações onde o adulto se encontra diante de um superior hierárquico. Ora, a repressão sexual faz parte da educação familiar. Os pais castigam os filhos que se masturbam e vigiam a hora a que sua filha volta para casa. Para se adaptarem ao meio familiar, os hovens têm portanto que recalcar a sua sexualidade (inversamente, a afirmação destas necessidades sexuais é revestida de um significado de revolta contra os pais. Quando uma jovem volta para casa às seis horas da manhã desafia os pais). É castigando os filhos que os pais lhes ensinam a obedecer e obtem deles a renuncia ao prazer sexual. [...] Isto implica que a ansiedade associada à expressão de desejos sexuais está ligada à angustia suscitada por todas as tendências rebeldes, já que a sexualidade e as veleidades da rebeldia são indistintamente reprimidas pelos educadores. [...] A criança acaba por ter medo desses sexuais e dessas tendências à revolta, e impede-os de se manifestarem. [...]. Trecho de A repressão sexual (Martins Fontes, 1972), de Michel Cartier.

OS OLHOS ALONGADOS DE ANITA – [...] Os olhos alongados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, mas como os olhos dos tigres, pumas e leopardos, com as duas pálpebras juntando-se preguiçosa e lentamente; e estas pareciam levemente unidas próximo do nariz, tornando-se mais estreitas, com um relance lascivo e obliquo pendendo dos olhos, como o olhar de relance de uma mulher que não quer ver o que estão fazendo em seu corpo. Tudo isso dava a ela um ar de quem estava fazendo amor [...] Anita estava se vestindo em meio a uma profusão de flores; e, para deleite dos admiradores sentados à sua volta, estava pintando o sexo com batom, sem permitir que eles fizessem qualquer movimento em sua direção. [...] ela apenas ergueu a cabeça e sorriu para ele. Estava com um pé apoiado sobre uma mesinha, o requintado vestido brasileiro estava levantado e, com as mãos cheias de joias, retomou a pintura do sexo, rindo da excitação dos homens à sua volta. O sexo dela era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já houvesse visto, e o pelo em volta era abundante, encaracolado, negro acetinado. Eram aqueles lábios que ela pintava como se fossem uma boca, muito requintadamente, de modo que ficaram como uma camélia vermelho-sangue aberta à força, mostrando o botão interior, o cerne mais pálido e de pétalas mais delicadas da flor. [...] Depois é que se seguia a performance pela qual Anita era famosa em toda a América do Sul, quando os recônditos camarotes do teatro, no escuro, com as cortinas semicerradas, enchiam-se de homens da sociedade de todo o mundo. As mulheres não eram levadas àquele espetáculo de variedades de alta classe. Ela havia se vestido de novo com o traje de saia rodada que usara no palco durante as canções brasileiras, mas não estava de xale. O vestido não tinha alças, e os seios fartos e abundantes, comprimidos pelo corpete justíssimo, avolumavam-se para cima, oferecendo-se quase que por inteiro ao olhar. Nesse traje, enquanto o resto do show continuava, ela fazia a ronda dos camarotes. Lá, mediante solicitação, ajoelhava-se diante de um homem, desabotoava as calças dele, pegava o pênis com as mãos cheias de jóias e, com um toque de bom gosto, uma destreza, uma sutileza que poucas mulheres já desenvolveram, chupava-o até satisfazê-lo. As duas mãos eram ativas como a boca. A delícia daquilo quase privava os homens dos sentidos. A elasticidade das mãos; a variedade de ritmos; a mudança entre um aperto de mão em todo o pênis e o mais leve toque na ponta, entre a pegada firme de todas as partes e o mais leve roçar dos pêlos em volta – tudo isso por uma mulher excepcionalmente linda e voluptuosa, enquanto a atenção do público estava voltada para o palco. Ver o pênis entrar na boca magnífica, entre os dentes brilhantes, enquanto os seios arfavam, dava aos homens um prazer pelo qual pagavam generosamente. A presença dela no palco preparava-os para a aparição nos camarotes. Ela provocava-os com a boca, os olhos, os seios. E, para satisfazê-los, junto com a música, as luzes e a cantoria, havia uma forma de entretenimento excepcionalmente picante em um camarote escuro e com as cortinas semicerradas acima da platéia. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

BEIJO DE MULHER – Beijo de mulher medrosa / dado escondido, às escuras, / é a melhor das aventuras / que a alma do homem goza. / Convém que o beijo se tome / depois de renhida luta, / que é como se fosse fruta / comida por quem tem fome. / O beijo é concedido / com liberdade e franqueza / é como uma sobremesa / depois de um jantar sortido. / Mas o beijo que enamora / e provoca mais desejo / é quando a dona do beijo / soluça, suspira e chora. / Porém o melhor sabor / é quando a mulher nos nega: / porque então a gente pega / e beija seja onde for... Quadras do poeta paraibano Luís Dantas Quesado (Luiz Siqueira Dantas – 1850-1930), considerado o maior glosador do Brasil de todos os tempos.

PRÊMIO HERMILO BORBA FILHO DE LITERATURA
A Biblioteca Fenelon Barreto informa aos interessados que estão abertas até o próximo dia 09 de março de 2018, as inscrições nas categorias de conto, poema ou romance, do Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Maiores informações aqui.

Veja mais:
Errâncias de quem ama, promessas da paixão, A origem das estrelas & os Bororos Orientais, a música de o Richard Strauss & Leonie Rysanek, o teatro de Oscar Wilde, a escultura de Sonia Ebling de Kermoal, a arte de Dorothy Lafriner Bucket & Todo dia é dia da mulher aqui.
Origem da Vida & Programa Tataritaritatá aqui.
A Pesquisa, Michel Randan, Arthur Koestler, Alan Watts, A ignorância, a Natureza Humana & Metodologia Científica aqui.
Carl Gustav Jung, Pierre Weil & Tagore aqui.
Jorge de Sena, Habermas, Trova & Trovadorismo aqui.
Nietzsche, Oniomania & Shopaholic, Noam Chomsky, Madame de Staël, Flimar & Djavan aqui.
O Apocalipse da Atualidade, Heidegger, Carl Rogers, Konrad Lorenz & Ubiratan D’Ambrósio aqui.
José Saramago, Rogel Samuel & Programa Tataritaritatá aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás aqui.
Dos temores da infância aos arroubos juvenis aqui.
O verbo no coração do silêncio aqui.
O trauma da moça aqui.
É pra ela, Carlos Gomes & Silviane Bellato, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Piet Mondrian, Edwin Landseer & A lenda Mundurucu Quando mandavam as mulheres aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar, Pedofilia, Liderança & Psicose Puerperal aqui.
O pensamento de Darcy Ribeiro aqui.
Direito Autoral, Psicologia Social, Trabalho & Doenças Ocupacionais aqui.
Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido & da Autonomia aqui.
As trelas do Doro: vai tomar no quiba, porra aqui.
Contribuições da Filosofia Greco-Romana para a Psicologia & I FLIC de Cambuquira aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.

ARTE DE LUCIAH LOPEZ
As pedras (resignadas) criam limo
e nas asas das andorinhas, o vento faz cafuné!
A tampa do mundo se abre, e,
eu vejo o céu___________ o mesmo céu
que embalou "il sommo poeta"
A Terra, exilada dos meus pés tenta dormir
resfolegando ...
E a Grande Mãe, pisca seu olho esquerdo
contraindo o canto dos lábios
num meio riso (cúmplice?!) deixando no ar
só a ideia e o começo da história.
É mesmo supra-sumo!!
Poema Passa tempo, antologia poética Conexão III (Feira do Poeta de Curitiba), organizada por Elciane Goedert & Amauri Nogueira com o poema Fonte, da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...