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quinta-feira, fevereiro 21, 2019

ANAÏS NIN, ANNE CAUQUELIN, JOEL-PETER WITKIN, ACORDES DE ZÉ CELSO & O DESPACHO DAS PEDREIRAS


O DESPACHO DAS PEDREIRAS - Um pandemônio ocorreu naquela manhã pelas bandas das Pedreiras. O zoadeiro se dera porque no cruzamento principal do bairro ribeirinho, um despacho tinha de tudo: carne defumada, galinha preta, farofa, cachaça, velas, santo de barro, fumaça de incenso, brebotes e o escambau. Quem era doido de passar? Vôte! Macumba pesada na encruzilhada, tinham certeza todos dali. É que exatamente nesse entroncamento, já houvera muitos envultamentos e sortilégios, diziam, uma maldição. Entre temerosos e crédulos, o que dá no mesmo, todos toravam aço e se agoniavam da sina: Teve gira nessa pega. E agora? No desespero, só havia uma solução, convocar a maior autoridade nesses assuntos: Sebastião Esprita. Não demorou muito, chegou ele para socorrer. Encarou a troçada: Ah, nada, isso é oferenda aos ancestrais e santos da devoção dos fiéis do catimbó, nada demais. O povo estremeceu e logo muitos reclamaram: Tais brincando, meu? Rapaz, não te mete na bronca alheia, isso dá atraso de vida. E ele com aquela mansidão peculiar: Gente, o medo não existe, a gente que cria. E caía às gaitadas expondo o dente de ouro com aquele ar de quem sabe das coisas e sempre arrumando um jeito de resolver o que fosse pra sair do aperto, douto que era de escapar ileso de qualquer perigo. Ah, isso é um santo de pau oco! Tá enrolando a gente, viagem perdida. A-há! Xá, comigo, isso é coisa de Exu, se vocês querem, resolvo isso em dois tempos, peraí. Pois desfaço tudo e volta tudinho pro espírito ruim que emborcou esse negócio aqui, destá. E danou-se a desfazer o troço já que tinha estreita intimidade com as coisas sobrenaturais, tendo até quem garanta o compadrio dele com o criador. Não era de errar na dose nem no remédio, prescrevia receituário em tacos de papel ou pules de bicho, com uma garrancheira triste e ilegível, dos da botica terem dor de cabeça para adivinhar e traduzir o quê que droga de nove era aquilo que desescreveu pros enfermos solicitantes. Conhecia todas as Escrituras sagradas e profanas, e guardava conhecimento profundo sobre religiões, das leis de Deus e dos homens, coisas do outro mundo e ocultidões irreveláveis, afora ser um poliglota insuperável de idiomas inventados e línguas desaparecidas, ensinando o bêabá com palavras edificantes e pregando com invulgar competência, baixando espíritos, dando passes e curando doente e são de nó pelas costas. Por via de dúvidas, portava um revólver nos quartos escondido pelo paletó bufento que ninguém sabia que cor que era de tão surrado, acaso esgotassem seus recursos mediúnicos, além de um par de algemas nos bolsos e um molho de dinheiro na algibeira: Ninguém é besta de sair à toa, né? Era um curioso benfeitor, posto que se fazia de engenhoso com muitos prodígios e milagres que já obrara praquela gente de boa fé e idiotas sossegados da região. Entre as suas práticas estavam a de estancar sangue efusivo dos escravos da cana, desencantamento da perna cabeluda, a poesia do senador-presidente, a salvação da lavoura nas enchentes de antigamente e de agora, a água milagreira do Cocão do Padre, as duas mil caveiras de Japaranduba, a ressurreição das almas de Catuama, o aterro do açude de Santa Luzia, a cura de Frei Damião, as duzentas mil mortes nas caldeiras da usina, os dois milhões de acidentes da BR 101-Sul, o incêndio das barracas de fogos de artificio, o deslizamento das barreiras de Bigode, a safra da fruteira de Paul, a farra de Cantochão, os afogamentos do Una e Pirangi, a falência de Serro Azul, o êxodo de Santantoin das Trempes, o aluamento de Vênus, o extermínio dos bichos da mata de Xareta, a derrocada de Sapucaia, a febre dos esquálidos, a prenhez das parideiras, o peixe dos pescadores, a salvação dos pecadores, a adimplência dos trambiqueiros, a menstruação das piniqueiras, a saúde dos doentes, o perdão dos capatazes, os tons dos bordões, o êxito dos caçadores, o refúgio dos ladrões e a porratoda do que aparecesse pela frente. Pois nessa hora, não teve dúvidas, ele tomou uma meiota de cachaça duma vez só, fez quatro nas pernas, espritou-se todo arrepiado, pinotou, plantou bananeira, fez que ia e não foi, deu uma doidice, engrolou a língua, sapecou gestos obscenos e benzeduras, deu estrimilique e caiu duro no chão. Dali a pouco ele se levantou, bateu a poeira da roupa e disse: Pronto, podem trabalhar em paz. E foi-se. Mal deu as costas, o povo começou a se agitar com o acometimento de um e outro cair em maledicências, da gritaria arrastar as vítimas de carro de mão pro hospital regional. Oxe! Que é que é isso, gente? Aí ele aumentou a dose: respirou fundo, fechou os olhos e levitou na frente de todo mundo, subindo mais de metro a girar e falando coisas que não dava pra ninguém entender. Não deu outra, logo os acamados se levantaram e vieram se ajoelhar onde ele fazia a sua performance de escolhido dos deuses. Tudo voltou à paz, ainda bem. Houvesse o que fosse, ele intervinha e resolvia em poucos minutos, isso por décadas, o que lhe crescia na reputação. De tanto salvar gente, bichos, coisas e desejos, um dia deu ele de morrer e virar um inesquecível fantasma do bem que passa o dia brincando com as crianças ou evitando algum desavisado de acidentes ou situação difícil. Por isso até hoje o povinho dali recorre dos seus préstimos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] o fragmento é a forma mais comum pela qual o implícito se manifesta. Daí decorre seu uso frequente em poesia, quando a imposição discursiva, o corpo fixo e estrito da linguagem estão suspensos. Daí também decorre seu uso não menos frequente em pintura: o detalhe incongruente, insignificante em si, surge não se sabe de onde, e até mesmo as interpretações mais aguçadas não conseguem enquadrá-lo inteiramente. O paradoxo do fragmento deriva do fato de ele ser ao mesmo tempo único, fechado em si mesmo como um porco-espinho, e reflexo do conjunto que ele condensa e traz à luz. De certo modo, ligado e desligado; nisso, ele atua no limite entre aparição e desaparição – aparição enquanto corpo bem definido, desaparição enquanto se deixa reabsorver pelo conjunto de que é signo. Ao marcar o interstício imperceptível entre um todo – o mundo – e aquilo que o acompanha sem ruído nem existência – o vazio -, o fragmento deriva do corpo e do incorporal, sempre no limite de voltar a ser sem consistência, ou de apresentar em um único ponto e em um só momento, estoico, a consistência do todo. [...] aquilo que chamo de momento estoico aflora aqui, a nosso alcance, com a condição de haver uma inversão ou uma abolição da perspectiva – aquilo que o ciberespaço, mas também o big nothing, nos ensinou a fazer. Desse modo, assim como o fragmento é a forma literária por meio do qual o implícito se manifesta, e assim como o implícito é a forma familiar do virtual e do exprimível, a paisagem é, para nós, a figura familiar do incorporal, do lugar e do vazio.
Trecho extraído da obra Frequentar os incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea (Martins Fontes, 2008), da filósofa, romancista, ensaísta e artista francesa Anne Cauquelin. Veja mais aqui.

ACORDES DE ZÉ CELSO
O musical Acordes (2012), do dramaturgo e ator José Celso Martinez Corrêa, pelo Teatr®o Oficina Uzyna Uzona, é uma versão de “A peça didática de Baden-Baden sobre o Acordo”, de Bertolt Brecht, abordando sobre o altruísmo humano. O espetáculo foi acusado por crime de desrespeito a objeto religioso, com pena prevista de detenção de um mês a um ano ou multa, por conta da cena de decapitação de um boneco representando o papa. A ação proposta em juízo foi julgada extinta pelo juiz José Zoéga Coelho. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A FOTOGRAFIA DE JOEL-PETER WITKIN
A arte do fotógrafo estadunidense Joel-Peter Witkin. Veja mais aqui & aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A obra da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977).
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segunda-feira, outubro 08, 2018

GISMONTI, ANNE CAUQUELIN, MAURÍCIO SILVA, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO & ADMMAURO GOMMES.


O QUE FAZ O AMOR - Imagem: arte do artista Maurício Silva. - Auguste chegou menino em Alagoinhanduba como se estivesse em Montpellier. O que mudou de mesmo, à primeira vista, foi o frio da vida encolhida pro calor de esquentar a alma num quenturão brabo. Afora isso, a chatura de sempre dos pais e da irmã, a fuga com o irmão pro meio do mundo. Depois, nada de mais. Quanto mais crescia, mais se afastava de tudo: arengas, intrigas. Vivia para lá de chateado. A saída: olhos pregados nos livros, não fazia outra coisa senão ler o que lhe caísse às mãos. Era o primeiro da turma até adolescer como um chato de galocha na sala de aula do colégio. Aprontou de tudo: enfrentou mestres, desacatou autoridades, pintou e bordou. Pra ele o mundo todo estava de pernas pro ar, de cabeça pra baixo. Havia de organizar tudo. E tome providência. Ao dar conta da beleza de Caroline, logo se enrabichou pras bandas dela. Mais teimava, reclamando da avareza dos familiares: não aceitava jamais a sua miséria. Aproveitou-se da ocasião, casou-se com a bela amada e rompeu todas as relações tempestuosas com os miseráveis de casa. O irmão dera no pé. Pra onde? Quem sabe, perdeu-se nas veredas da vida. E ele vivia agora das aulas particulares de Matemática e dos cuidados da esposa. Seu temperamento forte não evitou outras inimizades, angariou desafetos pra onde ia, até sucumbir numa crise mental, depressão melancólida. Isso não poupou a convivência com Caroline, findando, então, no fundo do poço: separou-se desempregado. Os brutos, os bichos, todos amavam, tudo é amor, ele não. Aliás, não mais. Não visse ele Clotilde dobrar a esquina, jamais se salvaria da profunda prostração. Rendeu-se ao amor, o que nunca soubera. Arregaçou as mangas, estufou o peito, ajustou a fivela na cintura, agora vai. Ah, Clotilde. Cadê-la? Agora sim, aprumou. Vasculhou céus e mundos por ela. Achou. E ela: Não. Não era possível que isso acontecesse com ele, não podia, penava demais. Obstáculos não lhe aplacavam, esforços hercúleos dispendidos, Clotilde não era livre, o marido condenado na prisão, ela fiel e Auguste desabando de tão gamado. Impôs suas ideias, a sua positiva filosofia por ela apreciada, nada foi suficiente para demovê-la da fidelidade. Era pouco e mais fez: criou um novo calendário, classificou todas as ciências e fundou a sua própria religião para que ela pudesse ceder aos seus rogos sentimentais. Deu-lhe o catecismo criado por sua própria fé religiosa, ali estava todo seu pensamento sobre a vida e o mundo, pronto, entregue. Ela não cedeu. E o pior, sem mais nem menos, morreu. Assim. Sozinho, sem parentes, aderentes nem ninguém, fez-se desconhecido diante do seu Deus, a carregar anos de solidão, indefeso de amor pela amada que o abandonou fatidicamente. E dele, destroços de si, tudo desaparecia nele para nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Em uma sociedade de comunicação, a criação artística é a atividade mais requisitada, mais demandada, e talvez a única que convem perfeitamente à circulação de informações sem conteúdos específicos – capaz de, por isso mesmo, assegurar o funcionamento das redes em seu aspecto exclusivo de redes. Assim, a visualização do próprio sistema está assegurada, um benefício ético: a igualdade de todos os intervenientes designados como criadores. Por meio dessa prática universalista, a comunicabilidade da arte, que Kant considerava um dever, torna-se regra. Outro beneficio, desta vez político: ao se internacionalizar, a arte torna-se o signo de uma vontade de reunião, de concórdia, da qual os regimes políticos não podem escapar. A imagem simbólica de uma nação se encontra tomada por esse imperativo – por isso posicionamentos de um “Estado cultural”. [...] o contraponto dessa política, contudo, é uma impressão confusa, uma incompreensão no que diz respeito ao público – onde está o artista, onde está a arte? – e ao mesmo tempo – o que parece contrário ao principio de comunicabilidade universal – seu distanciamento
Trecho extraído da obra A arte contemporânea: uma introdução (Martins Fontes, 2005), da filósofa, romancista, ensaísta e artista francesa Anne Cauquelin.

A ARTE DE MAURÍCIO SILVA
A arte do artista Maurício Silva. Veja mais aqui.

AGENDA
Catálogo de Ângulos de Vital Corrêa de Araújo & Vate Vital de Admmauro Gommes & muito mais na Agenda aqui.
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RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor, arranjador, cantor & multinstrumentista Egberto Gismonti: Em família, Live at BMW Jazz Festival, Live in The Freiburg Festival & Solo piano Argentina & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

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sábado, fevereiro 25, 2012

DRUMMOND, MOACYR SCLIAR, CASSIRER, ANNE CAUQUELIN, ZIPEY, CIDINHA MADEIRO & LITERÓTICA



Arte da ilustradora e artista coreana Zipey Yang Se Eun.

LITERÓTICA: APRONTAÇÃO – Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela vem com assombro pro meu bem-me-quer. E me faz de chofer toda gostosinha tirando a calcinha pra me provocar. E: - qualé, que é que há? -, grita intrigada com manha cismada, querendo aprontar. Eu fico de cá, só no encalço, apertando seu laço, seu sal se pisando. Continua bancando maior enredeira, toda presepeira no flerte enrolado. Jeito caçoado se achega mansinha, fingindo que é minha e que também não. Eu que sou enrolão sei desse expediente, de fingir que se sente e que sente demais. Deu passo pra trás, se faz desleixada com a cheba minada, apertando entre as pernas. É trapaça eterna que faz toda pilha, ela emborca a vasilha toda mandona. E com cara pidona, prometo a munheca e o ferro na boneca no maior caqueado. Chamo no cabo, arreia a catimba, chupa minha bimba na maior diversão. Que degustação! E não tem apelo, eu seguro os cabelos e tome pencó. Bateu no gogó, ela me devorando toda se babando, esborra o chamegado. Aprumo ajeitado, ela quer que eu suste, eu boto sem cuspe até o talo. Engole o gargalo e mais se atrepa, em mim se estrepa e voa aprumado. E com avoado vem toda esbelta feito asa delta cavalgar de montão. Me faz corrimão, sua mala e bocado, mastro desfraldado, consolo e redenção. Me faz seu pirão, o seu de-comer, a razão de viver e doce predileto. Juro que eu não presto, sou profanação, seu bicho de estimação, sua terrina e rito de passagem. Sou sua pilhagem, sua refeição, sua extrema-unção, seu viveiro, seu claustro. Sou seu repasto, medonha agonia, até a luz do dia me fez coroado. Sou deus destronado, sua gota e quebranto, sou até o seu santo caído e safado. Sou enfim seu reinado, espinho na roseira, alma maloqueira que lhe faz só mulher. E nesse trupé, ela goza devassa, em estado de graça e seja o que deus quiser. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - A primeira faculdade com a qual o homem opõe-se às coisas, tanto quanto ser independente, é a faculdade de desejar. Ao desejar, o homem não aceita simplesmente a redalidade das coisas, porém, istyo sim, as constrói para si mesmo. No desejo move-0se a primeira consciência primityiva: a capacidade para configurar o ser. Pensamento do do filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945). Veja mais aqui e aqui.

ARTE CONTEMPORÂNEA - [...] Em tal sociedade, o imperativo de ter de ser criativo, de ter de produzir arte, abate-se sobre os decisores: políticos eleitos, administradores encarregado de resolver os problemas urbanos, sociais, de integração das diferenças étnicas dentro de um vasto lugar comum. [...] A arte é o local de reunião simbólica, unificador das diferenças, que deve exercer a função de ligação e servir de substituto a uma coesão difícil de ser conseguida; em suma, deve tomar o lugar do consenso político. Essa operação de reunificação não data de hoje: a atividade artística sempre foi requisitada pelo poder para dar visibilidade aos conceitos que lhe servem de princípios. [...] Assim como falta a ligação entre uma orientação política e sua visibilidade pública, da mesma maneira os estereótipos intervêm agora em seu lugar: um parque público, a instalação de um ecomuseu, o lançamento de uma empreitada artística de grande porte  quem não tem seu festival de verão ou de outono? Pouco importa o conteúdo da empreitada, contanto que ela exista e que o evento seja elogiado. [...] As obras de arte vêem-se, então, não somente confrontadas com a estrutura da comunicação do mercado – no qual os artistas, a despeito de não controlarem as regras, podem, no entanto, gerir o uso e nutrir seu trabalho, como vimos – como também com essa extensão totalizante de uma atividade no domínio da arte, extensão para cima e para baixo [...]. Trecho extraído da obra A arte contemporânea: uma introdução (Martins Fontes, 2005), da filósofa, romancista, ensaísta e artista francesa Anne Cauquelin. Veja mais aqui e aqui.

SONHOS TROPICAIS - [...] o que me espera, neste país? E então o telefone soará. Mas não serei eu, Oswaldo. Tu sabes que não serei eu. Quem será então? Ligação internacional: a mulher dele. Melhor: quase ex-mulher. Processo de divorcio em andamento. Incompatibilidade de gênios. “Ele s[o pensa na carreira, na tese. Não passo de um objeto. E já teve caso com duas alunas...” (Caso com duas alunas: picante, hein, Oswaldo?) Mas a mulher, ou quase ex-mulher, telefonará assim mesmo. O pretexto será um problema qualquer com a filha de ambos, uma garota d quinze anos muito problemática (drogas? Drogas). Na verdade, ela quererá se queixar: você viajou, não avisou nada, se o seu pai não tivesse me dado o telefone desse apart-hotel eu nem saberia onde você está, você fugiu para o Brasil, o pretexto é a tese, mas eu sei que você quer mesmo o Carnaval, as mulheres fáceis. Ele ouvirá em silencio. Finalmente ela se interromperá, ofegante/ ele então tentará ponderar algo – você está errada, eu vim a trabalho – mas então ela começará a chorar. Começará a chorar, e graças à comunicação via satélite, seus soluções atravessarão o espaço em velocidade fantástica; [...]. Trechos da obra Sonhos tropicais (Companhia das Letras, 1992), do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011). Veja mais aqui e aqui.

POEMAS - MULHER ANDANDO NUA PELA CASA – Mulher andando nua pela casa / envolve a gete de tamanha paz. / Não é nudez datada, provocante. / É um andar vestida de nudez, / inocência de irmã e copo d’água. / O corpo nem sequer é percebido / pelo ritmo que o leva. / Transitam curvas em estado de pureza, / dando este nome à vida: castidade. / Pelos que fascinavam não perturbam. / Seios nádegas (tácito armistício) / repousam de guerra. Também eu repouso. NOCORPO FEMINO, ESSE RETIRO – No corpo feminino, esse retiro / - a doce bunda – é ainda o que prefiro. / A ela, meu mais íntimo suispiro, / pois tanto mais a apalpo quanto a miro. / Que tanto mais a quero, se me firo / em unhas protestantes, e respiro / a brisa dos planetas, no seu giro / lento, violento... então, se ponho e tiro. / a mão em concha – a mão, sábio papiro, / iluminando o gozo, qual lampiro, / ou se, dessedentado, já me estiro, / me penso, me restauro, me confiro, / o sentimento da morte eis que adquiro: / de rola, a bunda torna-se vampiro. NO MÁRMORE DE TUA BUNDA – No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. / Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence. / Tu a levaste contigo. Poemas extraídos da obra O amor natural (Record,1996), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui.

Arte da ilustradora e artista coreana Zipey Yang Se Eun.


CIDINHA MADEIRO – A homenageada da vez, tanto é uma aplaudida Musa Tataritaritatá, como também uma festejadíssima personalidade da campanha Todo dia é dia da mulher. Trata-se, simplesmente, da alagoana Cidinha Madeiro.

 Ela é médica.

 Ela é crítica literária.

 Ela é fotógrafa.

Além de tudo isso, é um ser humano fascinante.

 Uma amiga.

 Uma pessoa daquelas que a gente quer sempre ter do lado.

Tudo isso e muito mais: ela é Cidinha Madeiro.

Aqui a nossa homenagem.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...