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quinta-feira, setembro 20, 2018

EDNA MILLAY, PERSE, HUIZINGA, LÉVI-STRAUSS, ELEAZAR DE CARVALHO & TANIA BRITTO


A FOGUEIRA DAS ESCOLHAS - Imagem da artista visual Tania Britto. - Acordar e o primeiro pensamento aos pesadelos terríveis ou sonhos de amanhã, quem sabe qual na corda bamba, se na rede dos desejos tudo é sempre o que vem de jamais chegar ou já foi para nunca mais, só esperança retardatária no agora é tarde e Inês está pra lá de morta faz tempo. Melhor abrir os olhos bem devagar, o dia nem bem amanhecido, ainda o friínho da madrugada, tudo às claras, mas nem tanto, alguma sombra da escuridão emerge pelos cantos escondendo possíveis fantasmas jamais revelados, nem dá pra ver direito outro dia talvez no alvoroço dos pássaros, e tudo poderá acontecer de uma hora pra outra, ou não, o tédio de uma rotina; ou mantê-los fechados ou quase, demorar as pálpebras cerradas pra ver se pega o cochilo perdido e voltar a pensar nas coisas, fantasias desejadas, e descansar de um lado pra outro, pra ver se algo de repente muda tudo, não sei, nem sempre é possível verificar direito o que está acontecendo. Melhor levantar porque acordou Maria Bonita para fazer o café e a polícia ainda dorme ausente, só mais tarde é que o burburinho vai misturar buzinadas e sirenes e motores e passadas e vexames e corre daqui pra acolá, dali pra lá, pra direita ou esquerda, pra lá ou pra cá, pra frente ou pra trás, não há como repassar, só retornar e começar tudo de novo, da estaca zero; e se perder a viagem, não esquenta, pega a próxima ou desiste e vai pra outro lugar. Tudo pronto pra andar, um, dois, passo a passo, pula academia ou finge balançar o esqueleto; e se ficar, tudo pode passar e não terá outra vez; e se for, não vá se arrepender, aprenda como se fosse a primeira vez, passou batido, já era, não é mais, nem tudo volta ou vai duma vez, assimile. Relógio não para, o tempo mudou, não há que esperar coisa ruim nem por milagres que caiam do céu assim do nada, seguir adiante, às piruetas, mesmo que pareça não sair do lugar; não adianta se não sabe de cor, a refazer as pegadas, algum rastro pode desencaminhar e aí era ontem a mesma coisa, só achar o caminho de volta se puder ou pegar o atalho, passar pelo beco, sair na transversal só pra mudar o trajeto que dá no mesmo entre risos e fracassos, nem sempre alegria, nem sempre impune com as reladas de venta, sempre imprevisível, quase possível ou impossível, na vera: quase acusação, quase indefensável; qualquer dúvida olha pra trás e dobra a esquina pra surpresa, ou nada demais, era só expectativa e deu na mesma coisa do labirinto quase desvelado, mas não vá à toa, leme qualquer na bússola para não escarnecer da sorte, porque mesmo à deriva ninguém escapa das lâminas da escolha e o feito está feito, favas contadas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do maestro e compositor Eleazar de Carvalho (1912-1996): Sympnhony 1 Mahler & òpera Tiradentes – Abertura, 3º & 4º atos & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Se queremos, pois, salvar esta civilização, se não a queremos submersa em séculos de barbarismo, mas antes consolidar os tesouros da sua herança em alicerces novos e mais estáveis, torna-se, sem dúvida, necessário que todos os viventes compreendam bem até que ponto a decadência já avançou [...] embora seja verdade que a sociedade vai tomando este rumo, isto é, a direção de maior controle técnico no exercício do poder e do cálculo prudente dos efeitos desejados, o tipo humano tornou-se ao mesmo tempo mais e mais indisciplinado, mais pueril, mais suscetível a reações do sentimento, e os nossos governantes não são homens de aço [...]. Trechos extraídos da obra Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo (Armênio Amado, 1944), do professor e historiador neerlandês Johan Huizinga (1872-1945), defendendo uma nova cultura no solo da humanidade para uma regeneração interior do individuo, uma modificação do habitus espiritual do homem. Veja mais aqui.

DE PERTO E DE LONGE – [...] Queria mostrar que não existe um fosso entre o pensamento dos povos chamados primitivos e o nosso. Quando, em nossas próprias sociedades, observávamos crenças ou costumes estranhos, que contrariavam o senso comum, nós os explicávamos como vestígios ou lembranças de formas arcaicas do pensamento. Parecia-me, ao contrário, que essas formas de pensamento estão sempre presentes, atuantes entre nós. Muitas vezes lhes damos livre curso. Elas coexistem com formas de pensamento que se apoia no testemunho da ciência; são igualmente contemporâneas. [...]. Trecho extraído da obra De perto e de longe (Cosac Naify, 2005), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui.

AMERS – [...] Aquela que se derrama em meu ombro esquerdo e enche a enseada do meu braço, feixe odorante e lasso, não atado (e tão sedosa foi a história, a meu tato, dessas têmporas venturosas), Aquela que repousa sobre a anca direita, a face cerrada contra mim (e grandes vasos assim viajam, em seu suporte de um lenho muito tenro e em sua sela de feltro branco), Aquela que se anima no sonho contra o remontar das sombras (e estendi o tendal contra o borrifo do mar e o rocio noturno, a vela é enfunada para o mais claro das águas), Esta, mais doce que doçura ao coração do homem sem aliança, me é carga, ó mulher, mais leve que carregamento de espécies, de arômatas — semente muito preciosa e frete incorruptível no barco dos meus braços. [...]. Trecho extraído da obra Amers – Marcas marinhas (Ateliê, 2003), do poeta francês Saint-John Perse (1887-1975).

TRÊS POEMAS - O AMOR NÃO É TUDO - O amor não é tudo: nem carne nem / bebida, nem é sono, lar da gente, / nem a tábua lançada para quem / se afunda e volta e afunda novamente. / O amor não pode encher o pulmão forte, / pôr osso no lugar, tratar humores, / embora tantos dêem a mão à morte / (enquanto o digo) só por desamores. / Bem pode ser, na hora mais doída, / ou da minha franqueza arrependida, / buscando alívio à dor, seja capaz / de vender teu amor por minha paz / ou trocar-te a lembrança pelo pão. / Bem pode ser que o faça. Acho que não. OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA - Eu morrerei, mas / isso é tudo que farei pela Morte. / Eu a ouço tirando o cavalo da baia; / escuto as pisadas no chão do celeiro. / Ela tem pressa; tem negócios em Cuba, / negócios nos Bálcãs, muitos chamados a fazer nesta manhã. / Mas eu não vou segurar a rédea / enquanto ela ajusta as correias. / Ela que monte sozinha: / não lhe darei apoio na subida. / Embora ela fustigue meus ombros com o chicote, / não vou dizer para onde a raposa fugiu. / Com seu casco em meu peito, não vou contar onde / o garoto negro está escondido no pântano. / Eu morrerei, mas isso é tudo que farei pela Morte. / Não estou em sua folha de pagamentos. / Não contarei a ela o paradeiro de meus amigos, / nem o de meus inimigos. / Ainda que me prometa muito, / não darei o endereço de ninguém. / Acaso sou um espião na terra dos vivos / para entregar pessoas à Morte? / Irmão, a senha e os planos de nossa cidade / estão seguros comigo. Jamais, por minha culpa, você será derrotado. PRIMAVERA - Por qual propósito, Abril, de novo retornas? / A Beleza não é suficiente. / Não podes me acalmar com a vermelhidão / Das folhinhas unidas se abrindo. / Eu sei o que sei. / O sol queima a nuca quando observo / Os espinhos do croco. / O cheiro de terra é bom. / É aparente que não há a morte. / Mas o que isso significa? / Não apenas sob a terra os cérebros / São comidos por vermes. / A vida em si / Não é nada, / Uma taça vazia, lance de escadas sem tapetes. / Não basta todo ano, descendo o morro, / Abril / Chegar como um tolo, balbuciando e espalhando flores. Poemas da poeta e dramaturga estadunidense Edna St. Vincent Millay (1892-1950) que também usou o pseudônimo em prosa de Nancy Boyd. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Tania Britto. 
Veja mais aqui.

AGENDA
VI Festival de Teatro Pontal do Paraná & muito mais na Agenda aqui.
&
Quem olha pros outros não vê a si mesmo, Cecília Meireles, Rubem Alves, Henri Focillon, Imre Kertész, Neurofilosofia, Deborah Poynton & Luciah Lopez, Almeida Prado, Viviane Hagner, Hans-Joachim Koellreuter & Ophélie Gaillard aqui.
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Sou da terra e a ela me dou, Luis Fernando Veríssimo, Martin Buber, Inclusão Escolar & Maria Teresa Eglér Mantoan, Biblioteca Fenelon Barreto & CED Dimensão, Baden Powell de Aquino, Alina Ibragimova, Antônio Meneses, Maria João Pires & Pi-Hsien Chen aqui.


quinta-feira, maio 24, 2018

SEFÉRIS, LÉVI-STRAUSS, ANAÏS NIN, BOURDIEU, LOURDES RAMALHO, JOHN SILVER, FILÓ MACHADO & MARIA DAPAZ


CARTA NA PEDRA - Imagem: Pintura rupestre do beijo no Boqueirão da Pedra Furada, Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí, Brasil (2010) © Palê Zuppani - Rabisco sonhos na face da pedra, a minha estela e sintonia. Pra que serve, não sei, nem sabe ela às orlas das passagens ou a ornar jardins floridos. Sei e rola ribanceira como eu nos meus dias e noites, água que leva e lava, areia pra se esconder, como se fosse a memória do pedregulho, e o seu desgaste lento enquanto envelheço grão de areia ao convívio entre seixos e lascas, tanto faz, tanto fez. A pedra sou eu e ela comigo, horas e ventos. Dela preparo a mim mesmo, aprendizagens. No sapato incomoda como a culpa assombrosa ou a topada no dedo inflamado, e quase nem sei seus vagares e cismas, fazem parte da escória de tudo como eu que não lhe sou alheio. Lá está ela aqui comigo e em qualquer parte ou lugar, como se coração indiferente de ontem ou amanhã. Ela voa na fúria de quem dela se vale para abrir o talho na testa do desafeto ou de outrem, destroça vidraça e pingueira na telha quebrada. Lá está ela pro tombo no meio do caminho, não há quem segure destronado na vertigem abissal. Nem sei que são da litosfera, se calhau ou pepita, se água-marinha, topázio, turmalina, nem distingo direito cascalho de ametista, o que é da fraga pro diamante ou rubi, o que é rebo pra safiras ou esmeraldas, se esteatita que é a de sabão do artesanato de Ouro Preto, ou a de Roseta milenar, ou as dimensionadas nos tornos, serras, plainas e polidoras, como as britadas de granitos, basaltos, mármores, calcários e arenitos, diabásios e ardósias, o quartzo opalescente ou concreto armado, se é da Lua com sua energia feminina, ou as que nascem nos rins ou vesícula pra espremer de dor, ou se de uma estrela que não sei de onde. Não sou lapidário nem sei fundição, muito menos do corte das gemas; não sei como lavra porque não tenho martelo e bigorna, só interditos e esconjuros; só sei que delas não há fonte pra brotar, nem semente, e jazem longe sem sangue heroico, se penedo ou joia, sequer soube, assim são. Elas são testemunhas, quando não a nossa própria expressão no precipício da vida e suas comoventes miragens, o seu impreciso destino e até nunca mais. É nela que faço o poema amanhã apagado pelos ventos do tempo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, arranjador, instrumentista e produtor, Filó Machado: Origens, Canto Fatal e álbum solo; da cantora e compositora Maria Dapaz: Brincar de ser feliz, Metade e Ensaio; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sempre a meio-caminho entre o esquema e a anedota, o gênio do pintor consiste em unir conhecimento interno e externo, ser e devir, produzir, com seu pincel, um objeto que não existe como objeto e, todavia, sabe criar sobre a tela: síntese exatamente equilibrada de uma ou várias estruturas artificiais e naturais e de um ou vários fatos naturais e sociais. [...]. Pensamento extraído da obra O pensamento selvagem (Papirus, 1989), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui.

VIOLÊNCIA SIMBÓLICA - [...] Falar de dominação, ou de violência simbólica, é dizer que, salvo uma revolta subversiva que conduza à inversão das categorias de percepção e de avaliação, o dominado tende a assumir a respeito de si mesmo o ponto de vista dominante: através, principalmente, do efeito de destino que a categorização estigmatizante produz, e em particular do insulto, real ou potencial, ele pode ser assim levado a aplicar a si mesmo e a aceitar, constrangido e forçado, as categorias de percepção direitas (straight, em oposição a crooked, tortas), e a viver envergonhadamente a experiência sexual que, do ponto de vista das categorias dominantes, o define, equilibrando-se entre o medo de ser visto, desmascarado, e o desejo de ser reconhecido pelos demais [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

ELENA – [...] Ante esse reconhecimento de timidez, ela foi imensamente tocada pela ternura, uma ternura que nunca experimentara antes. A força dele estava se curvando perante ela, hesitando antes da efetivação do sonho que havia crescido entre eles. A ternura engolfou-a. foi ela quem se deslocou até ele e ofereceu sua boca. Então ele a beijou, com as duas mãos sobre os seus seios. Ela sentiu seus dentes. Ele beijou o pescoço onde as veias palpitavam, e a garganta, com as mãos em voltado corpo. Ela foi dominada pelo desejo de ser inteiramente possuída. Enquanto a beijava, ele a despiu. As roupas caíram em volta dela, e eles ainda estavam juntos de pé se beijando. Então, sem olhar para ela, ele a carregou para a cama, com a boca ainda em seu rosto, garganta e cabelos. [...] Agora nu, ele estava estirado por cima dela em todo comprimento. Ela desfrutou o peso dele por cima de si, desfrutou ser esmagada sob o corpo dele. Queria que ele ficasse grudado nela da boca aos pés. Arrepios percorriam seu corpo. Ele sussurrava de vez em quando, disse-lhe para erguer as pernas como ela nunca havia feito, até os joelhos tocarem o queixo; sussurrou para que ela se virasse, e esparramou as mãos por seu traseiro. Descansou dentro dela, deitou-se de costas e esperou. [...] Escorregou cama abaixo até a boca alcançar o pênis. Começou a beijar em volta. O pênis sacudia levemente a cada beijo. [...] A mão permaneceu sobre Elena enquanto ela moveu-se para cima e para baixo e depois tombou, tombou com um suspiro de prazer insuportável, tombou sobre a barriga dele e ali permaneceu, de olhos fechados saboreado o deleite [...] abriam um novo livro e liam juntos, com as mãos acariciando um ao outro. Beijavam-se em cima de gravuras eróticas. As bocas coladas juntas caíam por cima de enormes bundas empinadas de mulheres, pernas abertas como um compasso, homens acocorados como cachorros, com membros imensos, quase arrastando no chão. [...] pareceu a ela que o prazer que sentia com as arremetidas do pênis transmitia-se à boca. Abriu-a, e a língua projetou-se como na gravura, como se ela quisesse o pênis na boca ao mesmo tempo. Elena correspondeu loucamente durante dias, quase como uma mulher a ponto de perder o juízo. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

COMENTÁRIOS - Já escurecera na sacada / junto a nós uma urgência esvoaçava / nos dois corações, bem aninhada, / uma confissão correspondida. / Vã, murchou a voz. Enxame de erros / nossos lábios, e nas profundezas / do corpo, Deus, só estava acesa / nossa espera da benção pedida. / Dentro da casa os sonhos zumbiam / e da luz da tarde até o ímã / dos cabelos teus, tudo trazia / à memória o anjo inalcançável / de para com os anéis subitâneos / de chofre caídos, dos abanos / no pensamento que, o mesmo orando, / líamos, evangelho inefável. / Mulher que na minha alma te hospedas / tua surpresa é o que me resta / formosa mulher amada, nesta / tarde que absurdamente definha, / e os teus olhos de círculos negros / e a noite e seu calafrio ligeiro… / Quimera, espada do meu silêncio, / curva-te e entra outra vez na bainha. Poema do poeta simbolista grego da geração neogrega de 1930, Giórgos Seferiádhis ou simplesmente Giórgos Seféris (1900-1971). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE LOURDES RAMALHO
A professora, poeta, dramaturga e pesquisadora Lourdes Ramalho é autora de extensa obra teatral premiada nacional e internacionalmente. Em 1974 ela lançou a premiada Fogo-fátuo e, em 1975, a premiada As velhas. Em 1976, foi a vez da premiada peça teatral A Feira. A partir das década de 1990 ela passou a enfatizar uma dramaturgia pautada na Literatura de Cordel, entre elas Romance do Conquistador. Em 2005, foi reinaugurado o Centro Cultural Lourdes Ramalho, em sua homenagem, como, também, em 2011, foi homenageada com a 2ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade: Lourdes Ramalho e o Teatro Popular, organizada pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ela também é autora de textos dedicados ao público infantil, alguns deles reunidos na obra Teatro Infantil: coletânea de textos infanto-juvenis (RG, 2004), da obra Raízes ibéricas, mouras e judaicas do Nordeste (Ed. Universitária, 2002), Teatro (quase completo) de Lourdes Ramalho – Vols. I e II (EdUfal, 2011) e do livro de poesias Flor de cacto: viagem ao ignoto (EdUEPB, 2012).


Tarde Literária da Illuminare na Biblioteca Pública Viriato Corrêa (SP) & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual britânico John Silver.
Veja mais aqui.
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A arte de Maria Dapaz aqui, aqui e aqui
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Elogio ao contribuinte, Apesar de tudo de Georges Didi-Huberman, a escultura de Edward Hodges Baily & a arte de Kênia Bastos aqui.
 

quinta-feira, novembro 09, 2017

KRISHNAMURTI, LÉVI-STRAUSS, ROSELI NASCIMENTO, ERNST FUCHS, SEBASTIÃO VILA NOVA & CACHOEIRINHA

RESPEITE O SANTO – Zé-Corninho andava inheto, irreconhecível. Empanzinado de beber à farta, lamentava sua sorte pela má escolha. Que é que há, homem? A mulher é só desculpa na hora do bem-bom. Quando não é dor de cabeça, é mal-estar, coisa ruim, quebranto, coisa inventada dos pantins de mulher que não quer cumprir com a obrigação do casório. Antes era um fogo no rabo, uma quentura na bacorinha, vixe! Tempos bons, chega eu ia doido voando pra casa só pensando nas traquinagens. Não há nada melhor que uma mulher fogosa, da gente se derreter todo depois de tocar fogo numa peiada bem dada. Oxente, coisa mais maior de grande. Três anos nessa pisada: no quarto, na sala, debaixo da mesa, pelos cantos, na pia, na lavanderia, atrepado num pé de pau, plantando bananeira, de costa, de banda, de todo jeito, ô presepada boa, não há nada melhor que uma safadeza passando dos limites. Assim, com uma animação nostálgica, evocava os tempos bons em que ela, tipuda e jeitosa, se enroscava toda nas loucuras de satisfazer seu macho com competência e dedicação. Agora não, tudo cada dia mais longe, mais cansado. Adular de todo jeito não adiantava nada, só um beijo chocho, aquela coisa aguada, chega dá vontade de desistir de tudo e partir pra outra. Mas como sou persistente, chego junto, marco presença, sapeco cutucada da macheza e ela nem nem. Deu de dizer que se dedicava ao santo da devoção pra gente melhorar de vida. Concordei, ora, dois, três dias depois, eu lá no calcanhar pra ver se ela dava sinal de vida: Respeite o santo, homem! Quando eu me aprumava naquelas carnes gostosas: Hoje não que iniciei uma novena. Dez dias depois, eu fungando no cangote dela: Hoje não que eu me confessei ontem pra hoje ganhar a bênção. Uma semana nisso e eu em cima, encarcando aquelas saliências carnosas que sempre foram meu prazer e ela com a saída de que o santo exigia dela abstinência sexual. Como? Isso mesmo! Você faz a promessa e eu que pago o castigo? Quer ou não quer melhorar de vida? Claro que quero, mas qualquer coisinha de aconchego uma vez na vida, ajuda no jejum. Ah, hoje não, estou com uns desarranjos nas partes pudendas de danar. Não precisa se mexer, nem fazer nada, é só dar uma brechinha nas coxas, um fiapinho de nada, eu vou lá, tuf tuf, você está liberada da função. Assim o santo castiga! Ai meu santo devotado, essa mulher complica demais. E toda noite ela sai perfumada, arrumada, toda emperiquitada, reboladeira, apetitosa e dizendo que vai rezar pro santo! Eu curtindo aperto, morrendo na mão, imaginando coisas e coisas. Ainda ontem mesmo ela saiu com um batom vermelho vivo nos beiços, toda pintada dos pés às cabeça, decotada, penteada, cheirosa, acochada de mostrar os possuídos todos espremidos de quase soltar fora, salto alto, embecada e frochosa, vixe quanta provocação! Mulher quando quer endoida um homem, viu? E eu que sou de carne e osso não escapo: morro lascado de tesão e aperreio. E ela: Vou pra missa rezar pela gente. Ah, mas quando ela voltar... quando ela voltar... jurei pra mim mesmo que de hoje não passa: Vou pegá-la de quatro, aquela vaca. Desejava possuí-la como quisesse, era sua, todinha sua, afinal. Ah se vou. Lá vinha ela, tarde da noite. Quando aprumei o bote, ela foi logo: Nem venha com essa cara de tarado que estou morta de cansada! Pelo amor de Deus, mulher! Pode ir guardando esse mondrongo horroroso pra lá que hoje não tem nem com milagre do céu, estou morta, vou dormir. E não adiantava eu rogar por todos os santos nem por padroeiro que fosse, ela não cedia e eu morria na mão, com o juízo torto e a secura na carne. Estou a ponto de endoidar, não consigo mais trabalhar, não consigo fazer mais nada, só essa danada me fazendo subir pelas paredes, triscar fogo pelos cantos. Na maior agitação da minha doidice, lá vinha ela toda reboculosa: Vou pra missa. Aquietei e apenas disse: Está certo. Deixei a danada sair, lá se foi toda faceira rebolando um charme que me deixava a ponto de comer merda e rasgar dinheiro. Deixei ela distanciar e quando ia lá longe, dei por mim: Vou atrás dela. E fui. Andei que só a má notícia, cheguei à igreja e ela não estava. Cadê-la? Pra onde foi? Que terá acontecido? Aí quando venho de volta pra casa, já desencantado da vida, dei de cara no ponto do ônibus com ela agarrada num sujeito, aos beijos e de língua, pode? Ah, esfreguei bem olhos, não acreditei no que estava vendo, é ela, isso mesmo, é ela. E o cara que está pendurado no pescoço dela, deixe ver... filho da puta... é o cobrador do ônibus. Isso mesmo, vou pegá-los no flagra. Quando resolvi atravessar a rua, nem deram conta da minha presença, fui atrapalhado pelo ônibus que parou pra pegar os passageiros. Esperei ele sair e quando procurei por eles o lugar mais limpo. Olhei pro ônibus, lá estavam lá, dentro dele, agarrados, se beijando. Puta que pariu! Nem pra flagrar aqueles porras eu sirvo. E agora? Não volto mais pra casa. Aliás, a casa é minha, boto ela pra correr, humilhada, jogando tudo dela na rua pra todo mundo saber. Melhor não. Ah, já sei, vou lá, dou uns tapas no cara pra mostrar que sou muito macho e para ele aprender a não mexer com mulher direita; depois, pego ela pelo pinguelo e dou-lhe uma pisa de peia pra ela aprender a não fazer pouco de homem da minha qualidade. Eita! Isso mesmo. Peraí. Não sei pra onde foram, nem sei onde o cabra safado mora. Só sei que vou dar uma pisa nos dois, isso mesmo, nos dois, boto ele pra correr e depois fodo ela todinha só pra mostrar quem é que manda! É isso. Ou melhor, não vou fazer nada disso, vou é acabar com tudo. É melhor. Mas aí eu sou o burro, ela que tem que pagar por tudo, ela e aquele metido a besta. Bem, não sei mesmo o que fazer, resolvi tomar uma, estou bicado, melhor se estivesse estibado pra ir buscar aquela safada de volta, mas estou liso, sem um tostão furado no bolso. Até a meota vou deixar no prego, vai ter zoada, mas vou. Sei não, não sei mais o que fazer, eu só queria ser feliz até o fim dos seus dias, só isso. Não deu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, pianista e maestro russo Igor Stravinsky (1882-1971): Rite orf Spring & Symphonis of Winds; da pianista portuguesa naturalizada brasileira, Maria João Pires: Concerto para piano nº 17 de Mozart & Sonata nº 32, op. 111, de Beethoven; do compositor, professor e regente João Guilherme Ripper: Canntiga e Desafio & Jogos Sinfônicos; e da pianista argentina Martha Angerich: Concerto nº 1 in E minor, op. 11, de Chopin & Concerto nº 3 de Rachmaninoff. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A mente tem muito pouca chance de ser livre; não está apta a ponderar, a sentir, a descobrir, pois as religiões organizadas pelo mundo afora, com suas crenças dogmáticas pelo mundo afora, mutilaram nosso pensamento; as superstições e tradições enclausuraram e condicionaram a mente. São hindus, cristãos, muçulmanos ou pertencem a alguma outra crença organizada que lhes impuseram desde a infância e, desse modo, vivem dentro desse limitado círculo, maior ou menor. [...] Como pode ser livre o homem que leva quarenta anos numa profissão? Olhem o que acontece com o médico. Depois de sete anos ou coisa assim na universidade, pelo resto da vida será um clínico geral ou um especialista e acabará escravo da profissão. Naturalmente que sua margem de liberdade é muito pequena. E o mesmo acontece com os políticos, os reformadores sociais e as pessoas idealistas que perseguem um objetivo na vida. [...] Nossas mentes são simples máquinas. Aprendemos uma profissão e, para todo o sempre, tornamo-nos escravos dela. [...]. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui.

UM MITO JIVARRO – [...] Os Jivaro contam em um de seus mitos que o Sol e a Lua, que eram humanos, viviam antigamente na Terra e dividiam a mesma casa e a mesma mulher. Ela se chamava Aoho, isto é, Engole-vento, e gostava do abraço quente do Sol, mas tinha medo do contato com Lua, cujo corpo era muito frio. Sol resolveu fazer ironias sobre essa diferença. Lua, humilhado, subiu para o céu agarrando-se a um cipó, e ao mesmo tempo soprou sobre Sol, eclipsando-o. quando os dois maridos desapareceram. Aoho se sentiu abandonada. Tentou seguir Lua até o céu, levando um cesto cheio da argila que as mulheres usam para fazer cerâmica. Lua percebeu, e para se ver livre dela de uma vez por todas cortou o cipó que unia os dois mundos. A mulher caiu com o seu cesto, a argila se espalhou sobre a Terra, e hoje pode ser encontrada em vários lugares. Aoho se tranmsformou no pássaro que tem o seu nome, e a cada lua cheia, pode-se ouvir o seu lamento, chorando pelo marido que a abandonou. Mais tarde, o Sol também subiu para o céu, usando um outro cipó. Mas, mesmo lá no alto, a Lua continua a fugir dele, os dois nunca caminham juntos e não podem se reconciliar. Por isso o Sol só pode ser visto de doa, e a Lua de noite. [...]. Trecho da obra A oleira ciumenta (Brasiliense, 1986), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui.

O MUNDO DA FICÇÃO - Toda obra de ficção encerra dentro de si uma estrutura social. Pois a estrutura da ação romanesca é, de qualquer modo, uma estrutura de convivência: a estrutura das relações interpessoais dos personagens. E essa estrutura é necessariamente social [...] o mundo da ficção é organizado por personagens e situações; em segundo lugar, pelas normas representadas através de crenças, valores, atitudes e sentimentos. Mas são precisamente os valores, as crenças, os sentimentos e as atitudes, todos estes espelhando a ordem normativa, que tendem à coerência sem a qual a estrutura social da ficção não existiria. O universo social da obra de ficção tende a ser um universo siclamente organizado, por mais caótica ou fantástica que se nos apresenta trama de situações. [...]. Trecho de A sociedade real da ficção: uma definição sociológica do romance e da obra de ficção em geral, extraído da obra A realidade social da ficção (FJN/Massangana, 2005), do sociólogo Sebastião Vila Nova.

RIACHÃO DO GAMA, CACHOEIRINHA – Em 1863, Cachoeirinha era um povoado na freguesia de São Bento, onde desemboca o riachão do Gama, afluente do Una. Sua denominação se deve à existência de uma pequena cachoeira a aproximadamente 700m da cidade. O distrito foi criado no dia 12 de maio de 1874 e aos 22 de novembro de 1892, em reunião do Conselho Municipal de São bento, foi discutida e aprovada a lei de divisão do Municipio em dois distritos: o sede e o povoado de Cachoeirinha. A Lei estadual 3309, de 17 de dezembro de 1958, criou o município de Cachoeirinha, desmembrando-se do de São Bento do Una. Sua instalação ocorreu em 1º de março de 1962. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo distrito de Cabanas. Anualmente, no dia 21 de novembro, comemora a sua emancipação política, em conformidade com a Enciclopedia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

POEMA DE ROSELI NASCIMENTO
Dois corpos
(em chamas)
Fez-se a nudez
Ávidos
À
Vida
Em um mergulho
Solar
Poema da poeta Roseli Nascimento (Cadernos Negros, 1992). Veja mais aqui.

Veja mais:
As muitas do Zé Corninho aqui e aqui.
A literatura de Dinah Silveira de Quirós aqui e aqui.
A poesia de Guillaume Apolinaire aqui e aqui.
A poesia de Dylan Thomas aqui e aqui.
A poesia de Torquato Neto aqui.
A literatura de Imre Kertész aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor austríaco Ernst Fuchs (1930-2015).
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