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terça-feira, setembro 26, 2017

ÍTALO CALVINO, WILLIAM BLAKE, WORDSWORTH, SUZANA ALBORNOZ, SOLIDARIEDADE & LIBRAS NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A QUEM INTERESSAR POSSA – Aprendi a ver na escuridão, a luz restava dentro de mim como um minúsculo pavio aceso, mostrando o fim do túnel e emanando cores de todos os matizes que se fizeram reais além dos meus sentidos. Aprendi da luz todas as cores, e ao abrir os olhos entendi a importância do olhar: via a mim e todas as coisas, visíveis e invisíveis, a festa emanada do Sol. Aprendi a ouvir no silêncio, todos os tons e sons harmonicamente entrelaçados na vida: os passos rastejantes dos seres, o estalido dos ovos e das sementes, o nascimento dos frutos, as vozes mudas com seus dizeres, o canto dos pássaros, os ventos nos galhos pelo chão das poeiras, a corrente dos rios e as ondas do mar, a queda dos precipícios, o ápice das alturas, a música das esferas. Em mim tudo é vivo e comunga no infinitude. Aprendi a calar para saber tudo, foi quando compreendi que tudo me dizia respeito e se completava em mim para uma só unidade. Com isso, aprendi a espalmar as mãos mesmo diante das recusas ou desafetos, a abrir meus braços mesmo que houvesse hostilidade ou indiferença, a entender no outro o que em mim era insatisfação, porque também era minha e assim se fez para todos. Sou de mãos dadas com quem não sabe das ruas e seus movimentos, sou braços dados com quem não sabe a luz pra seguir, sou peito aberto a quem não sabe os caminhos aonde vão dar. Hoje ao meu ombro amparo a dor da infelicidade que pode ser do outro e agora também minha; a sua, quem sabe, sou solidário de antemão para que possamos encontrar uma forma de manifestar a satisfação de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com obras do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938): Concerto em fá maior na interpretação de Yuja Wang, Rapsody in blue na interpretação de Lola Astanova & All Star Orchestra, e Summertime com a All Virginia Orchestra; a cantora Gal Costa interpretando O amor, Força estranha, Açaí com Roupa Nova & o show Acústico MTV; o instrumentista, arranjador e compositor Marcos Nimrichter interpretando Libertango, Neptune, Deus fotte & Briguinha de músicos malucos no coreto & A taça; e a  atriz e cantora carioca radicada na Islândia, Jussanam, cantando Desafinado, O telefonema, Quer saber & Como nossos pais. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito. Trecho do poema extraído da obra O matrimônio do céu e do inferno (Iluminuras, 1995), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui, aqui e aqui

INCLUSÃO SOCIAL DO SURDO - [...] O reconhecimento da LIBRAS como primeira língua da comunidade de surdos está amparada pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. A Lei foi criada devido à luta pela conquista de direitos dos surdos em espaços de cidadania a exemplo de: escola, sociedade, igreja e outros que os levem a adquirir independência. A inclusão leva a reconhecer a importância da LIBRAS no âmbito escolar, profissional e da sociedade em geral. [...] A gestão educacional pontuada para resultados eficazes passa pelo ensino e vivencia cotidiana, deparando-se no contexto analisado com professores que buscam sempre dar o melhor para seus alunos com a consciência de melhorar a técnica de ensino de Libras numa abordagem de qualificação, ao aperfeiçoamento a fim de que realize sua função da melhor maneira com o intuito de melhores resultados do educando. [...] É preciso fortalecer as conquistas e buscar novos rumos através de experiências mais concretas para a otimização de atividades educacionais no ensino sempre será um desafio. Espera-se que no futuro o valor das pessoas surdas, seja ainda mais reconhecido além de que a atuação atualmente delimitada ao contexto dos surdos, ainda possa ser mais efetivada de forma global e irrestrita. Que não fique somente nas legislações, posto que os mesmos já perderam muito do seu tempo sendo segregados durante anos a fio em escolas especializadas, que só serviram de pano de fundo para a grande discriminação que assola o país, além de não acrescentar nada ao processo de desenvolvimento do surdo enquanto pessoa ou como cidadão. [...]. Trechos extraídos do artigo Inclusão social do surdo: reflexões sobre as contribuições da Lei 10.436/2002 á educação, aos profissionais e á sociedade atual (E-Gov, 2012), da advogada e doutoranda em Direito Civil pela UBA, Laine Reis Araújo. Veja mais aqui e aqui.

EDUCAÇÃO LIBERTADORA - [...] No Brasil, como em quase todo mundo, a escola regular vem sendo o único meio de acesso à habilitação e ao diploma. E, assim sendo, é um importante meio de ascensão social, como também, ou principalmente, um meio certo de controle da ascensão social, embora não seja o único meio possível de acesso á educação e à cultura. Neste seu desempenho monopolizador da educação oficialmente reconhecida, a escola se alia à burocracia, e a sua aliança se exerce, muitas vezes, como domínio e duração desta sobre aquela. Em troca, os órgãos de planejamento do sistema educacional se limitam ao sistema escolar. Escola e burocracia interdependentes, a educação inibe incalculáveis chances de experimentar, revitalizar-se, superar-se [...]. Trecho da obra Por uma educação libertadora (Vozes, 1976), da educadora, professora, ficcionista, ensaísta, pesquisadora e intelectual engajada nos problemas ligados à educação e à condição feminina no mundo contemporâneo, Suzana Albornoz Stein. Veja mais aqui e aqui.

O VISCONDE PARTIDO AO MEIO – [...] Assim, entre caridade e terror decorriam as nossas vidas. O Bom (como era chamada a metade esquerda de meu tio, em contraposição ao Mesquinho, que era a outra), era, então, tido como santo. Os aleijados, os pobres, as mulheres traídas, todos os que tinham um pesar, corriam até ele. Poderia ter se aproveitado e se tornado ele o visconde. Ao contrario, continuava como vagabundo, circulando meio enrolado em seu manto negro, apoiado na muleta, com a meia branca e azul cheia de remendos, fazendo o bem tanto a quem lhe podia quanto a quem o expulsava com seus modos. [...]. Trecho extraído da obra O visconde partido ao meio (Cia. Das Letras, 1999), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADE – I - Houve um tempo em que a relva, a fonte, o rio, a mata / E o horizonte se vestiam / De uma luz grata, / — Visto que assim me pareciam —, / E da opulência que nos sonhos é inata. / Hoje está sendo tal como foi outrora;—/ Seja o que for, eu, / Na luz ou breu, / Eu não verei jamais o que se foi embora. II - O arco-íris vai, vem, / E a rosa nos faz bem; / Alegre, a lua nota / o céu está completamente nu; à luz / De estrelas, a água brota / E é belo o que ela reproduz; / A aurora é sempre um nascimento; / E contudo, eu sei muito bem / Que a glória passou por nós em algum momento. III - Agora, enquanto as aves cantam de contento / E enquanto o cordeirinho salta / Ao som do que o exalta, / A mim apenas veio uma ideia de dor: / Enunciei-o e de repente ela passou, / E me encho de alento: / Trombeteiam cascatas frente ao precipício; / Minha dor não mais matará o clima opulento; / Ouço o Eco que vem das grutas e ouço o Vento / Que encerra em si o sono tal como um resquício, / E alegre é a terra; / Todo o mar / Vem a se ufanar / E a Fera se aferra / Ao sono na serra;— / Você, Criança, / Menino pastor, grite até onde, Ó Criança, o grito alcança! IV - E vocês, Criaturas, eu escuto afinal / O que dizem entre vocês / E vejo o céu que frui também vossa altivez; / Meu ser em vosso festival, / Coroado, o total / De vossa dádiva — ah!, eu sinto… Ó mal!, / Fosse eu soturno enquanto / A Terra se adornasse, / Manhã de Maio face / A qual a infância nasce / No Mundo, / No vale remoto e fecundo;/ Enquanto o sol nos acalora / E o Bebê sobe aos braços da Mãe: — ouço agora! / Com alegria eu ouço, eu ouço! / — Mas uma, uma Árvore existe, / Uma Planície que em minh’alma inda persiste, / Lembrando o que se foi e hoje e me deixa triste: / E o Amor-Perfeito / Diz: Que foi feito / Do vislumbre visionário? / Dos sonhos? Do esplendor vário? / V - Nosso nascer não passa de sono e de oblívio: / A Alma que nasce com nós, nosso Astro Vital, / Vive longe de onde vive o / Trajeto de seu fanal; / Não no esquecimento inteiro / Nem na nudez por inteiro, / Mas, arrastando nuvens de glória, viemos / De Deus — nele vivemos —: / É o Céu que a nós circunda e a nossa meninice! / As sombras da prisão começam a cobrir / O Menino que cresce; / Mas ele vê a luz, sabe aonde ela vai ir / E sabe que ela o acresce; / A Juventude, em sacerdócio à Natureza, / Viaja ao Leste numa empresa / Guiada pela / Visão mais bela; / E ao largo o Homem vê que sua vida acaba / E que na luz do hábito ela enfim desaba. VI - A Terra enche o colo com prazeres seus; / A Terra possui ânsias que ela mesma mantém, / E, possuindo um algo maternal também, / E honesta em seu intuito, / A Terra, ama-de-leite, empenha-se / P’ra que o filho adotivo, a Humanidade, abstenha-se / De todos seus apogeus / E do que nele for trajetória e for muito. VII - Aprecie a Criança e a plêiade de encantos, / Tesouro de seis anos menor que um pigmeu! / Contemple a paz com que ele enfim adormeceu, / Preocupado co’os beijos de sua mãe, tantos!, / E as tantas bênçãos que seu pai lhe concedeu! / Veja, a seus pés, alguma tabela infantil, / Algum fragmento de seu sonho de ser humano, / Moldado graças a uma arte ainda pueril; / Um casamento ou um festival, / Um lamento ou um funeral; / E a isto ele é servil, / E nisto ele forma seu canto: / Assim afinar-se-á enquanto / Dialoga sobre o amor, o sucesso ou o dano; / Não demorará tanto / Até que largue isto / E de novo, e imprevisto, / Com alegria o Ator mirim faça outro ardil; / Enchendo pouco a pouco sua própria “farsa” / De Personagens, ‘té que a Vida fique esparsa / E, colocando-o na barca, a Vida o ressarça; / Como se imitar fosse / Tudo o que ele fosse. VIII - Você, cujo semblante exterior desmente / Teu valor inerente; / Você, grande Filósofo, que mantém ainda / A herança; você, que é a Visão entre a cegueira, / Que, surdo e mudo, lê a profundeza infinda / Sempre assombrada pela mente altaneira, — / Ó Vidente!, Ó Profeta! / Que a verdade afeta / E a quem nós procuramos de qualquer maneira, / Por toda a vida, presos no escuro da cova; / Você, sobre quem flui a Fonte da Existência / Que escraviza ao mesmo tempo que renova, / Algo impossível de se ignorar a presença; / A quem a cova / É cama solitária sem sentido ou luz / Do que lá fora luz, / Um lugar onde se descansa e onde se pensa; / Você, Criança, ainda ilustre na amplitude / Da aérea liberdade de tua atitude, / P’ra quê, com dores tão solenes, provocar / Os anos a te darem o que eles vão te dar, / Assim tão cega e santa imersa na batalha? / Não tarda e teu espírito cai no retardo / De uma rotina que imporá a ti um fardo / Que pese e quase como a vida se equivalha! IX - Alegria!, que em nós / Inda palpita / E repercute a voz — / E nos evita! / Pensar no meu passado faz com que em mim nasça / Uma bênção perpétua: não aquela graça / Que glorifica aquele a quem ela agracia — / Prazer e liberdade, o credo que perpassa / A Infância inteira, na labuta ou calmaria, / Pleno do tatalar da fé que se atavia:— / Nem por estes elevo / Canções de louvor e enlevo; / Mas pelas questões obstinadas / De senso e coisas externadas / Distantes de nós, sublimadas; /  Vagos temores da Criatura / Que vaga em meio a mundos não realizados, / Altos instintos onde a efêmera Figura / Treme tal como tremem os Sentenciados: / Por tais afetos prévios / E recordações breves, o / Que vierem a ser, sejam, / Pois são fontes de luz e nos clarejam, / Pois são pontos de luz de nosso olhar; /  Guarde a estima por nós, guardando o seu poder / De que a turba dos anos se encurte no Ser / Da Calmaria imorredoura: o despertar / P’ra vida eterna: / O que a surdez e a insânia que às vezes governa, / O Pai, o Filho / E o que vê na alegria um odioso empecilho, / Não poderão matar nem retirar o brilho! / Assim, sendo o clima propício, / Por distantes que estejamos, / Sentimos sempre aquele mar sem fim ou início / Que nos trouxe aonde estamos, / E vemos sempre a Infância que brinca na areia, / E ouvimos sempre o som do mar que assenhoreia. X - Pois cantem, Aves, cantem canções de contento! / E que o Cordeiro salte, / Alegre, ao som que o exalte! / Nossas vozes serão uma só em pensamento, / Você que brinca ou flauteia / E que tem na sua veia / O agrado que Maio alardeia! / Pois muito embora a glória, que antes cintilara, / Tenha tornado-se distante e coisa rara, / E embora nada traga novamente a hora / Do esplendor no relvado, ou da flor que vigora; / Nós não vamos chorar; iremos / Achar forças no que tivemos / Um dia; no afeto primeiro /  Que ainda se mantém inteiro; / No pensamento que consola / E medra quando a dor desola; /  Na fé que enxerga além da morte / E na sabedoria do que nós vivemos. XI - E vocês, Bosques, Fontes, Picos, Matagais, / Não previram que o amor já não seria mais! / E entanto, o coração de meu coração sente / O poder de vocês; eu abandonei somente / Um prazer p’ra viver vosso ciclo usual. / Amo o rio que em seu canal se convulsiona, / Mais do que quando, assim como ele, eu fui frugal; / A luz da Aurora é pura e, como habitual, / Emociona; / As nuvens que rodeiam o pôr-do-sol ganham / O tom-de-cor daquele olhar que mantivera / Vigília sobre nossa tênue Primavera; / Outras raças têm sido, e outras glórias se apanham. / Graças ao coração, que fizemos morada, / Graças a todo o seu temor, carinho e encanto, / Sei que da flor mais simples pode ser gerada / Meditação profunda demais para o pranto. Poema extraído da obra Memórias de Infância (Poems -  Dell Publishing, 1960), do poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850). Veja mais aqui e aqui.

UM POEMA EM CADA ÁRVORE
Realizou-se no último domingo, dia 24/09, no Passeio Público de Curitiba, o evento Um poema em cada árvore, promovido pelo grupo Escritibas Na Rua, com o objetivo de proporcionar um espaço de leitura poética para as pessoas que freqüentaram o parque, expondo o trabalho de escritores independentes pela passagem comemorativa do Dia da Árvore. Marquei presença com o meu poema Colhendo sonhos nos galhos da vida e Sonhar marés da poeta Luciah Lopez. Veja mais aqui.

Veja mais:
O pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) aqui, aqui e aqui.
A música de George Gershwin aqui, aqui e aqui,
A literatura de Luis Fernando Veríssimo aqui, aqui e aqui.
A música de Gal Costa aqui e aqui.
A arte musical de Jussanam aqui e aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
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TODO DIA É DIA DE INCLUSÃO & LIBRAS


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

CONVITE, BAUMAN, STANISLAW, GERSHWIN, HÖLDERLIN, OSWALD, ALMÓDOVAR, LUCÉLIA, LUCIAH & MUITO MAIS!!!!



CRÔNICA DE AMOR POR ELA: CONVITE - Plena tarde e o céu inteiro na pradaria: um mar espalmado que se resume ao rumor da nudez inundando todas as súplicas dos meus quereres tostados de fogo ardente. À espreita vou requestado com toda luxúria de minha alma herege confiscar toda mansa fragrância do seu milagre fabuloso, da sua majestosa divindade nua, feita para amar, para apertar com jeito, para vibrar em mim danada do céu queimando a lenha do que se faz predador e presa entre nós. Tudo é demasiado próximo no hálito quente da sua sedução a céu aberto e entregando todo o tesouro do coração, todas as posses, suplícios, encantos e eu possesso aos bocados, desesperado e faminto de emoções poderosas a morder com trela a tarde da primavera no ninho do seu corpo nu que me embriaga com o veneno da paixão. Aceito o convite e ébrio dou fé do olhar ardente na insônia de quem ama devendo o beijo, o abraço e a garanhagem libertadora. E estendida sobre o meu desejo traz o colo e sua macia tepidez para a incursão de nossa refrega a transpor toda doçura e vício na vertigem de nossas entregas. Esta a canção que afaga o dorso nu num duelo de dentes cerrados e se faz servidão na ponta dos seios duros e tomada pela pele acetinada que eterniza minha loucura em êxtase enquanto transgredimos de nós, das regras, da arena no êxodo do mundo, duelando com o passado de vigília e arrependimentos, duelando com a vida pelo que já foi e o que virá das venturas e destroços que se redimem no ardor do incenso de seu corpo que governa e que se faz tarde nas minhas mãos errantes. E do seu corpo roubo a paz que se faz tisana alquímica no meu estertor, sorvo seu sexo dando vazão a minha agonia gulosa que faz abluções no charco empoçado de delícia nas entrepernas e que se faz contenda tirânica na nossa luta corporal munida de armas das carícias até sermos derrotados, vencidos pela vida. Só o amor resiste aos escombros. E renascinzas, o amor assim é na entrega servil dos amantes. (Luiz Alberto Machado. Veja o vídeo deste poema aqui e mais aqui & aqui).

VEJA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:

PICADINHO


Imagem: Eve, do pintor do maneirismo italiano Girolamo Francesco Maria Mazzola (1503-1540), mas conhecido como Parmigiano. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Kiri sings Gershwin (EMI, 1987), com músicas do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938), na interpretação da soprano Kiri Te Kanawa. Veja mais aqui e aqui.

EPÍGRAFE – O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa, recolhida do livro Reflexões (Relume-Dumará, 1994), do poeta lírico e romancista alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

A PÓS-MODERNIDADE - No livro O mal-estar da pós-modernidade (Zahar, 1998), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, encontro que; [...] A multiplicidade de estilos e gêneros já não é uma projeção da seta do tempo sobre o espaço da coabitação. Os estilos não se dividem em progressistas e retrógrados, de aspecto avançado e antiquado. As novas invenções artísticas não se destinam a afugentar as existentes e tomar-lhes o lugar, mas se juntar às outras, procurando algum espaço para se mover por elas próprias no palco artístico notoriamente superlotado. Num cenário em que a sincronia toma o lugar da diacronia, a co-presença toma o lugar da sucessão e o presente perpetuo toma o lugar da história, (já não trata mais) de missões, de advocacia, de profetização, de uma e única verdade firmada para estrangular as pseudoverdades. Todos os estilos, antigos e novos, devem provar seu direito a sobreviver. [...] Quando a competição domina, há pouco espaço para [...] a confraria de ideias, escolas disciplinadas e disciplinadoras [...] Há pouco espaço, portanto, para normas e cânones coletivamente negociados e coletivamente proclamados. Toda obra de arte recua diante do quadrado e não pensa em criar família [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MENINO PRECOCE – O livro Garoto linda dura (Autor, 1966), do escritor, radialista, jornalista e compositor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta, 1923-1968), reúne crônicas do autor, entre as quais destaco Menino precoce: Diz que era um menino de uma precocidade extraordinária e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato, pois não existia nada mais chato que menino precoce e velho assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com as nossas idades; do contrário, enchemos o próximo. Mas deixemos de filosofias sutis e narremos: diz que o menino era tão precoce que nasceu falando. Quando o pai soube disso não acreditou. O pai não tinha ido à maternidade, no dia em que o filho nasceu, não só porque não precisava, como também porque tinha que apanhar uma erva com o Zé Luís Magalhães Lins, para pagar a délivrance que era quase o preço de um duplex, pois a mulher cismou de ir para casa de saúde do Guilherme Romano. Mas isto também não vem ao caso. O que importa é que o menino já nasceu falando. Quando o pai soube da novidade, correu à maternidade para ouvir o que tinha o menino a dizer. Chegou perto da incubadeira e o garoto logo se identificou com um “oba”. O cara ficou assombrado e mais assombrado ficou quando o nenenzinho disse: - Papai vai morrer às 2 horas! – dito o que, passou a chupar o bico da mamadeira e mais não disse nem lhe foi perguntado. O cara voltou para casa inteiramente abilolado. Sem conter o nervosismo, não contou pra ninguém a previsão do menininho precoce, mas ficou remoendo aquilo. Dez e meia, 11, meio-dia... e o cara começou a suar frio. Uma da tarde, o cara já estava praticamente arrasado e quando passou da hora prevista um minuto ele começou a se sentir mais aliviado. E estava dando o seu primeiro suspiro, quando ouviu um barulho na casa do vizinho. Uma gritaria, uma choradeira. Correu para ver o que era: o dono da casa tinha acabado de falecer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

MÚSICA DE MANIVELA & CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA – O livro Pau Brasil (1925), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954), reúne poemas do autor, entre os quais, destaco inicialmente Música de manivela: Sente-se diante da vitrola / e esqueça-se das vicissitudes da vida / na dura labuta de todos os duas / não deve ninguém que se preze / descuidar dos prazeres da alma / discos a todos os preços. Tanto o Canto do regresso à pátria: Minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar / Os passarinhos daqui / Não cantam como os de lá / Minha terra tem mais rosas / E quase que mais amores / Minha terra tem mais ouro / Minha terra tem mais terra / Ouro terra amor e rosas / Eu quero tudo de lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte pra São Paulo / Sem que veja a Rua 15 / E o progresso de São Paulo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A CASA DE ANAÏS NIN – A peça teatral A casa de Anaïs Nin (Casa de Prostituição de Anaïs Nin), de Francisco Azevedo, conta a história da paixão que envolveu os escritores Anaïs Nin e Henry Miller. Tive a oportunidade de assistir a peça no Teatro Alfa Real, em São Paulo, no ano de 1998, com direção de Ticiana Studart e atuação inesquecível da atriz Lucélia Santos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CARNE TRÊMULA – O filme Carne trêmula (1997), dirigido pelo cineasta, ator e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, conta a história uma prostituta que tem um filho em um ônibus, quando tentava chegar na maternidade, e ali mesmo lhe dá o nome de Victor. Após vinte anos, esse menino se torna um homem, que está começando sua vida adulta e tenta se encontrar com uma desconhecida, que uma semana antes teve relações sexuais com ele dentro de um banheiro. Quando telefona, ela não tem ideia de quem ele é e mesmo dizendo, ela pede que ele não ligue mais. Apesar deste corte, ele não desanima e consegue ir até o prédio dela. Pensando ser outra pessoa, ela abre a porta através do porteiro eletrônico, mas quando o vê fica bastante irritada, pois para ela foi uma transa, quando estava "doida", mas para ele foi a primeira vez. Ela decide expulsá-lo, ameaçando-o com uma arma. Os dois brigam e acontece um tiro acidental, que não fere ninguém, mas chama a atenção de uma vizinha, que alerta a polícia. Ao ver os dois policiais, ele se apavora e chega a ameaça-la colocando o revólver em sua cabeça. Eles se envolvem numa briga, a arma dispara, mas desta vez a bala atinge um deles que fica paralítico. A história se desenrola com destaque para a atriz espanhola Penélope Cruz Sanchez. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da soprano sul-coreana Sumi Jo.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à maravilhosa pessoa, poeta e blogueira Luciah Lopez. Veja aqui, aqui e aqui.

DIA INTERNACIONAL DO OBRIGADO
 

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

sábado, setembro 26, 2015

GERSHWIN, HEIDEGGER, ELIOT, VERÍSSIMO, LUCINDA, GÉRICAULT & SANDRA REGINA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE PERTO NINGUÉM É NORMAL – Estava eu devida e confortavelmente aboletado e mais que maravilhado no maior estado de graça com a competência e dedicação da professora Janne Eyre, quando me passou pela memória um trecho duma canção de Caetano Veloso: - De perto ninguém é normal! Nada mais teibei na constatação que isso! E eu lá num misto entre curioso e espantado com um clássico caso de lobotomia acidental, ocorrido em 1848, e denominado de Caso Gage, envolvendo o operário estadunidense Phineas Gage (1822-1861). Seguinte: o cara era um daqueles sujeitos bem quisto por todos. Pai de família correto, empenhado profissionalmente, atencioso e cordial com conhecidos e desconhecidos, moral irrepreensível e amado por todos, mesmo levando em consideração a nossa peculiar superestimação nas qualidades de qualquer vítima do mais pavoroso infortúnio. No amiudado: o melhor cara do mundo, um santo em pessoa que desfilava dando até pra imaginar a existência duma a auréola beatífica na cabeça dele. É isso. E isso até o dia em que ele saiu de casa cantarolando Cotidiano de Chico Buarque, não antes dar o costumeiro beijo de despedida na mulher – só que nem ela nem ele sabiam que poderia ser o último ou quase o último da vida deles -, e sair entre assobios e bom dia na saudação com todos do trajeto de seu lar pro trabalho. Era um dia de branco como outro qualquer. Organizou-se para o desempenho de suas funções profissionais, apropriou-se dos apetrechos laborais e foi de corpo e alma para mais um dia de labuta. Eis que a certa altura dos afazeres, dominando por completo o seu metier, altivo senhor da situação, manipulava ele explosivos solfejando uma cantiga de memória, quando, inadvertidamente, negligencia lá um procedimento corriqueiro pra ele e quase sem nenhuma valia na hora e por isso, sem mais nem menos, provoca um pipoco do estopô calango, de todo mundo correr e esperar baixar a poeira para ver o que havia sucedido. Ocorre que num revestrés do muito arretado, uma barra de metal atinge sua face esquerda e perfura o seu cérebro, especificamente o lobo frontal. Um acidente grave, mas ele sobrevive, graças! Corre corre da pega, levaram-no pro hospital ainda com o barrete enfiado na cara, conseguindo, enfim, com meticuloso trabalho médico retirar-lhe o entrave sem causar-lhe danos mais profundos e deixá-lo vivinho da silva pra contar história. E contou mesmo. Ficou caolho, mas não quis ser pirata. Feioso, assumiu a feiúra e, quase um Charlie Chaplin, ele não só contou como se tornou autor e protagonista ao mesmo tempo da própria história. Bem. É que passado alguns dias ele começou a apresentar sinais de violência progressiva nunca antes verificado no seu comportamento do dia a dia. Passou a se irritar com facilidade, sua moral abalada foi decaindo vertiginosamente, tornou-se irresponsável com uma irreverencia nunca vista e perdeu completamente o interesse pelas coisas espirituais. Quer dizer, esse não era mais o Phineas Gage que todo mundo estava acostumado a conviver. Era outro depois do acidente. E muito diferente. Era tão outro que, não sendo besta que nem eu, tirou proveito da sua sina e começou a dar espetáculos, apresentando-se como o cara que bateu as botas e foi pro Hades, encarou a morte e disse pra ela esperar por ele noutra que agora ele queria mostrar como se safar dum baque raçudo e tataritaritatá. Virou a maior atração do momento, o roliúde mesmo. Mas o que me chamou muito mais minha atenção, não foi o caso em si. Foi tomar conhecimento das mudanças comportamentais e de personalidade previstas quando da ocorrência de danos ou lesões do lobo frontal do cérebro humano. Entre as consequências desses danos ou lesões, pode acontecer a procura pela satisfação imediata. Êpa! Quem não está? Conheço um punhado de gente com isso. Outra: tendência a culpar os outros por seus problemas. Cuma? Tá piorando. Ora, ora, isso é mais comum que fazer qualquer conta daquela bem grandona e, no final, dá tudo errado. Mais outras: perda do sentido moral, irresponsabilidade, indisciplina, perda do sentido moral, perda das ligações sociais... Vixe! Tá parecendo mais com os Fabos que viraram políticos no Brasil. Mais: incapacidade de analise e de avaliação correta... danou-se! O que tem de analfabeto funcional por aí não tá no gibi. E mais: perda de sensibilidade e noção dos limites, como apresentação de agressividade, antipatia, hostilidade... Ave! Tô perdido. Mas tem mais: capacidade diminuída para cálculos matemáticos e de memória, em especial eventos recentes, afora a apatia e indiferença perante a situação pessoal. Lascou. Minha nossa! Aí cheguei pra professora e perguntei: - Professora, a senhora tirou meu retrato, foi? E ela, coitada, com a sua inocente forma de ser, virou-se pra mim interrogativa: - Por que? Ué, isso aí sou eu cagado e cuspido, ora. E mais: conheço uma tuia de gente que é assim mesmo, talqualzinha. Será que tá todo mundo com o lobo frontal danificado? Nossa! Ela sorria com o meu exagero, levando na conta do amostramento, apenas. Mas não era só isso. Ué, reveja uma por uma das consequências e diga se não é a certidão da gente hoje! Pra quem, como eu, é do tempo em que neurose era pior que a frebe do rato - (sic), não é febre, é frebe mesmo, aquela que é pior que câncer, aids e todas as maledicências de Pandora juntas num balaio só –, imagine nesse tempo umbigocentrista de oniomania! Eu mesmo já assumi publicamente: não tenho a menor sanidade mental. E ponto final. Veja mais aqui.


Imagem: Three Lovers (1817-20), do pintor e litógrafo francês Théodore Géricault (1791-1824)


Curtindo Rapsody in Blue (1924), do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938), with Eastman Rochester Symphony Orchestra, Eugene List & Howard Hanson, Antal Doráti, Minneapolis Symphony Orchestra. Veja mais aqui.

O NADA E O TÉDIO - No livro Que é metafísica? (Livraria Duas Cidades, 1969), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), encontro o trecho que o autor fala a respeito do nada e o tédio: [...] Primeiramente e o mais das vezes o homem somente então é capaz de buscar se antecipou a presença do que busca. Agora, porém, aquilo que se busca é o nada. [...] Seja como for, nós conhecemos o nada, mesmo que seja apenas aquilo sobre o cotidianamente falamos inadvertidamente. Podemos até, sem hesitar, ordenar numa definição este nada vulgar, em toda palidez do óbvio, que tão discretamente ronda nossa conversa: o nada é a plena negação da totalidade do ente. [...] A totalidade do ente deve ser previamente da para que possa ser submetida enquanto tal simplesmente à negação, na qual, então, o próprio nada se deverá manifestar. [...] Tão certo como é que nós nunca podemos compreender a totalidade do ente em si e absolutamente, tão evidente é, contudo, que nos encontramos postados em meio ao ente de algum modo desvelado em sua totalidade. E está fora de dúvida que subsiste uma diferença essencial entre compreender a totalidade do ente em si e o encontrar-se em meio ao ente em sua totalidade. Aquilo é fundamentalmente impossível. Isto, no entanto, acontece constantemente em nossa existência. Parece, sem dúvida, que, em nossa rotina cotidiana, estamos presos sempre apenas a este ou àquele ente, como se estivéssemos perdidos neste ou naquele domínio do ente. Mas, por mais disperso que possa parecer o cotidiano, ele retem, mesmoque vagamente, o ente numa unidade de totalidade. Mesmo então e justamente então, quando não estamos propriamente ocupados com as coisas e com nos mesmos, sobrevem-nos este em totalidade, por exemplo, no tedio propriamente dito. Este tédio ainda está muito longe de nossa experiência quando nos entedia exclusivamente este livro ou aquele espetáculo, aquela ocupação ou este ócio. Ele desabrocha se a gente está entediado. O profundo tédio, que como névoa silenciosa desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivela todas as coisas, os homens e a gente mesmo com elas, numa estranha indiferença. Este tedio manifesta o ente em sua totalidade. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.


ELA – No livro O nariz e outras crônicas (Ática, 2003), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo, encontro a deliciosa crônica Ela: Ainda me lembro do dia em que ela chegou lá em casa. Tão pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos. Nosso Filho – Naquele tempo só tinha o mais velho – ficou maravilhado com ela. Era um custo tirá-lo da frente dela para ir dormir. Combinamos que ele só poderia ir para o quarto dos fundos depois de fazer todas as lições. - Certo, certo.- Eu não ligava muito para ela. Só para ver um futebol ou política. Naquele tempo, tinha política. Minha mulher também não via muito. Um programa humorístico, de vez em quando. Noites Cariocas… Lembra de Noites Cariocas? - Lembro vagamente. O senhor vai querer mais alguma coisa? E me serve mais um destes. Depois decidimos que ela podia ficar na copa. Aí ela já estava mais crescidinha. Jantávamos com ela ligada, porque tinha um programa que o garoto não queria perder. Capitão Qualquer Coisa. A empregada também gostava de dar uma espiada. José Roberto Kely. Não tinha um José Roberto Kely? - Não me lembro bem. O senhor não me leva a mal, mas não posso servir mais nada depois deste. Vamos fechar. - Minha mulher nem sonhava em botar ela na sala. Arruinaria toda a decoração. Nesa época já tinha nascido o nosso segundo filho e ele só ficava quieto, para comer, com ela ligada. Quer dizer, aos pouco ela foi afetando os hábitos da casa. E então surgiu surgiu um personagem novo nas nossas casas que iria mudar tudo. Sabe quem foi? - Quem? - O Sheik de Agadir. Eu, se quizesse, poderia processar o Sheik de Agadir. Ele arruinou o meu lar. - Certo. Vai querer a conta? - Minha mulher se apaixonou pelo Sheik de Agadir. Por causa dele, decidimos que ela poderia ir para a sala de visitas. Desde que ficasse num canto, escondida, e só aparecesse quando estivesse ligada. Nós tinhamos uma vida social intensa. Sempre iam visitas lá em casa. Também saíamos muito. Cinema, Teatro, jantar fora. Eu continuava só vendo futebol e notícia. Mas minha mulher estava sucumbindo depois do Sheik de Agadir, nao queria perder nenhuma novela. - Certo. Aqui está a sua conta. Infelizmente temos que fechar o bar. - Eu não quero a conta. Quero outra bebida. Só mais uma. - Está bem… Só mais uma. - Nosso filho menor, o que nesceu depois do Sheik de Agadir, não saía de frente dela. Foi praticamente criado por ela. É mais apegado à ela do que a própria mãe. Quando a mãe briga com ele, ele corre pra perto dela pra se proteger. Mas onde é que eu estava? Nas novelas. Minha mulher sucumbiu às novelas. Não queria mais sair de casa. Quando chegava visita, ela fazia cara feia. E as crianças, claro só faltavam bater em visita que chegasse em horário nobre. Ninguém mais conversava dentro de casa. Todo mundo de olho grudado nela. E então aconteceu outra coisa fatal. Se arrependimento matasse… - Termine a sua bebida, por favor. Temos que fechar. - Foi a copa do mundo. A de 74. Decidi que para as transmissões da copa do mundo ela deveria ser bem maior. E colorida. Foi a minha ruína. Perdemos a copa, mas ela continua lá, no meio da sala. Gigantesca. É o móvel mais importante da casa. Minha mulher mudou a decoração da casa para combinar com ela. Antigamente ela ficava na copa para acompanhar o jantar. Agora todos jantam na sala para acompanhá-la. - Aqui está a conta. - E, então, acontecu o pior. Foi ontem, hora do Dancin´Days e bateram na porta. Visitas. Ninguém se mexeu. Falei para a empregada abrir a porta, mas ela fez “Shhh!” sem tirar os olhos da novela. Mandei os filhos, um por um, abrirem a a porta, mas eles nem me responderam. Comecei a me levantar. E então todos pularam em cima de mim. Sentaram no meu peito. Quando comecei a protestar, abafaram o meu rosto com a almofada cor de tijolo que minha mulher comprou para combinar com a maquiagem da Júlia. Só na hora do comercial, consegui recuperar o ar e aí sentenciei, apontando para ela ali, impávida no meio da sala: “Ou ela, ou eu!”. O silêncio foi terrível. - Está bem… mas agora vá para casa que precisamos fechar. Já está quase clereando o dia… - Mais tarde, depois da Sessão Coruja, quando todos estava dormindo, entrei na sala, pé ante pé. Com a chave de parafuso na mão. Meu plano era atacá-la por trás, abri-lá e retirar uma válvula qualquer. Não iria adiantar muita coisa, eu sei. Eles chamariam um técnico às pressas. Mas era um gesto simbólico. Ela precisava saber quem é que mandava dentro de casa. Precisava sabe que alguém não se entregava completamente a ela, que alguém resistia. E então, quando me preparava para soltar o primeiro parafuso, ouvi a sua voz. “Se tocar em mim você morre”. Assim com toda a clareza. “Se tocar em mim você morre”. Uma voz feminina, mas autoritária, dura. Tremi. Ela podia estar blefando, mas podia não estar. Agi depressa. Dei um chute no fio, desligando-a da tomada e pulei para longe antes que ela revidasse. Durante alguns minutos, nada aconteceu. Então ela falou outra vez. ” Se não me ligar outra vez em um minuto, você vai se arrepender”. Eu não tinha alternativa. Conhecia o seu poder. Ela chegara lá em casa pequenininha e aos poucos foi crescendo e tomando conta. Passiva, humilde, obediente. E vencera. Agora chegara a hora da conquista definitiva. Eu era o único empecilho à sua dominação completa. Só esperava om pretexto para me eliminar com um raio catótico. Ainda tentei parlamentar. Pedi que ela poupasse a minha vida. Perguntei o que ela queria, afinal. Nada. Só o que ela disse foi “Você tem 30 segundos”. - Muito bem. Mas preciso fechar. Vá para casa. - Não posso. -Por quê? - Ela me proibiu de voltar lá. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK – No livro Poesia (Nova Fronteira, 1981), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965), encontro o belíssimo poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, numa tradução de Ivan Junqueira: Sigamos então, tu e eu, / Enquanto o poente no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa; / Sigamos por certas ruas quase ermas, / Através dos sussurrantes refúgios / De noites indormidas em hotéis baratos, / Ao lado de botequins onde a serragem / Às conchas das ostras se entrelaça: / Ruas que se alongam como um tedioso argumento / Cujo insidioso intento / É atrair-te a uma angustiante questão... / Oh, não perguntes: "Qual?" / Sigamos a cumprir nossa visita. / No saguão as mulheres vêm e vão / A falar de Miguel Ângelo. / A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas, / A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega / E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo, / Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta, / Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés, / Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou, / E ao perceber que era uma tenra noite de outubro, / Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu. / E na verdade tempo haver á / Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça, / Roçando suas espáduas na vidraça;/ Tempo haverá, tempo haverá/ Para moldar um rosto com que enfrentar / Os rostos que encontrares; / Tempo para matar e criar, / E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos / Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão; / Tempo para ti e tempo para mim, / E tempo ainda para uma centena de indecisões, / E uma centena de visões e revisões, / Antes do chá com torradas. / No saguão as mulheres vêm e vão / A falar de Miguel Ângelo. / E na verdade tempo haverá / Para dar rédeas à imaginação. / "Ousarei" E . . "Ousarei?" / Tempo para voltar e descer os degraus, / Com uma calva entreaberta em meus cabelos / (Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!") / - Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo, / Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete apruma / (Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas!") / - Ousarei / Perturbar o universo? / Em um minuto apenas há tempo / Para decisões e revisões que um minuto revoga. / Pois já conheci a todos, a todos conheci / - Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes, / Medi minha vida em colherinhas de café; / Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono / Sob a música de um quarto longínquo. / Como então me atreveria? / E já conheci os olhos, a todos conheci / - Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase; / Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete, / Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede, / Como então começaria eu a cuspir / Todo o bagaço de meus dias e caminhos? / E como iria atrever-me? / E já conheci também os braços, a todos conheci / - Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados / (Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam / Com sua leve penugem castanha!) / Será o perfume de um vestido / Que me faz divagar tanto? / Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam. / E ainda assim me atreveria? / E como o iniciaria? / ....... Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas / E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos / De homens solitários em mangas de camisa, à janela debruçados? / Eu teria sido um par de espedaçadas garras / A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares. / ...... E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem! / Por longos dedos acariciados, / Entorpecidos... exangues... ou a fingir-se de enfermos, / Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado. / Após o chá, os biscoitos, os sorvetes, / Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise? / Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado, / Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada) / servida numa travessa, / Não sou profeta - mas isso pouco importa; / Percebi quando titubeou minha grandeza, / E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu sobretudo. / Enfim, tive medo. / E valeria a pena, afinal, / Após as chávenas, a geléia, o chá, / Entre porcelanas e algumas palavras que disseste, / Teria valido a pena / Cortar o assunto com um sorriso, / Comprimir todo o universo numa bola / E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação, / Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos, / Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei." / - Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro, / Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer / Não é nada disso, em absoluto". / E valeria a pena, afinal, / Teria valido a pena, / Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio, / Após as novelas, as chávenas de chá, após / O arrastar das saias no assoalho / - Tudo isso, e tanto mais ainda? - / Impossível exprimir exatamente o que penso! / Mas se uma lanterna mágica projetasse / Na tela os nervos em retalhos... / Teria valido a pena, / Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às  pressas, / E ao voltar em direção à janela, dissesse: / "Não é absolutamente isso, / Não é isso o que quis dizer, em absoluto." / Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo. / Sou um lorde assistente, o que tudo fará / Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas, / Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil manuseio, / Respeitoso, contente de ser útil, / Político, prudente e meticuloso;/ Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso; / As vezes, de fato, quase ridículo / Quase o Idiota, às vezes. / Envelheci... envelheci... /Andarei com os fundilhos das calças amarrotados. / Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego? / Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei. / Ouvi cantar as sereias, umas para as outras. / Não creio que um dia elas cantem para mim. / Vi-as cavalgando rumo ao largo, / A pentear as brancas crinas das ondas que refluem / Quando o vento um claro-escuro abre nas águas. / Tardamos nas câmaras do mar / Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas / Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

POESIA, TEATRO, CINEMA & TELEVISÃO - A poeta, jornalista, cantora e atriz Elisa Lucinda, começou sua carreira no teatro em 1986, no Rio de Janeiro, trabalhando em peças como Rosa, um musical brasileiro e Nukowski, bicho solto no mundo. A partir daí, passou a desenvolver sua carreira por meio dos inúmeros espetáculos e recitais em teatros, escolas e empresas. No cinema, ela estreia no filme Barrela (1990), depois participou do elenco de A causa secreta (1994), O testamento do senhor Nepomuceno (1997), A morte da mulata (2001), Seja o que Deus quiser (2002), As alegres comadres (2003), Gregório de Matos (2003) e foi premiada na película A ultima estação (2012). Ela fundou e mantem a Casa-Poema, em Itaúnas, no Espírito Santo, uma instituição socioeducativa de capacitação de profissionais através da poesia falada, expressão e formação cidadã. Também desenvolve em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o projeto Palavra de Polícia, Outras Armas, ensinando poesia falada aos profissionais de segurança com os princípios dos direitos humanos. Criou a Companhia da Outra, grupo teatral em parceria com Geovana Pires, desenvolvendo sua linguagem de teatral através da poesia. Por toda sua trajetória, aplausos de pé pra essa atriz de teatro, cinema e televisão. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O NÃO SEI DAS MULHERES – O filme It (O não Sei que das Mulheres, 1927), é um longa metragem mudo comédia romântica, produzido e dirigido por Clarence G. Badger e Josef von Sternberg, baseado no romance escrito por Elinor Glyn, contando a história de uma jovem moça que se apaixona pelo filho do seu empregador, que se torna gerente e herdeiro da maior loja do mundo. Como eles pertencem a classes sociais diferentes, pra decepção dela, ele está apaixonado por uma socialite. Ela consegue ganhar a atenção dele, mas logo o esbofeteia quando ele tenta beijá-la e vai embora por isso. A história vai se desenrolando que os desencontros entre eles, até que numa viagem a trama chega ao ápice. O destaque do filme vai para a atriz estadunidense Clara Bow (1905-1965), que se tornou a estrela de maior magnitude, sendo conhecida como It Girl. Veja mais aqui.

VISITA INTIMA - Acontecerá no próximo dia 03 de outubro, a partir das 15hs, no Auditório da Biblioteca de São Paulo (BSP), o lançamento do livro Visita íntima, da poeta, compositora e blogueira Sandra Regina, pela Editora Reformatório e com apresentação de Luiz Alberto Mendes. Segundo release do evento, "Visita íntima" é um convite às sensações, aos desejos de plenitude cabíveis ou não no corpo físico. Poemas que versam sobre esperas, contatos e ausência. Amores incondicionalmente presos às convicções libertárias, com duração limitada e restrições. Os poemas são apresentados como um roteiro, um guia. E vão revelando a dor e solidão de quem vive à mercê das visitas que lhe são feitas, alguém que vive à espera do ser amado enclausurado numa cela, seja de uma cadeia, ou na imposta pelos limites do tempo/espaço. Ela edita os ótimos blogs Feita em versos e De tudo fica um conto. Imperdível. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Medusa, do artista multimídia e fotógrafo Sérgio Valle Duarte.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...