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quarta-feira, junho 06, 2018

JUNG, VARGAS LLOSA, REXROTH, ROBBE-GRILLET, GAL COSTA, BENTHAM & NEWTON MESQUITA


ISSO É LÁ COISA QUE SE FAÇA, HOMEM! - Imagem: arte do artista plástico Newton Mesquita - Florilândio, o metido a Fulô das meninas, pensava que só ele era o sabido, o rei da cocada preta, arregaçava em todo o resto da humanidade, dele tratar feito um bando de jumentos levados na lábia, enrolava e saía invulnerado das suas presepadas. Quantas ele aprontou? Pintava e bordava arrotando vitória, nem, nem: Desarreda, mundiça, que lá vou eu. Gostava de passar calote aos trocados, dava cada salto solto, bastava aparecer qualquer abestalhado, era só dar o toque de arrodeio e sair lalarilará. E lá ia todo ancho. Tinha um papo de derrubar avião: quando não se vangloriava no amostramento, mendigava de dar pena pra ganhar a simpatia. Haja dissimulação, maior cara de pau. Se não fosse o barrunfado pra impressionar plateia, era autocomiseração por ter amado demais da conta e jamais fora amado no mesmo tanto. Ou seja, se não era o artista da hora, era o corno, dependia da ocasião e dos interesses dele. Ninguém acreditava nas suas estripulias, contudo, exitoso no fim das contas, sempre alguém era levado na conversa. Principalmente mulheres, o que mais lhe apetecia. Ah, alimentava um sonho: Seu Flor e suas duas maridas. Era. E quase conseguiu. Começou embromando a Lurdinaldina, a Lu Reboculosa, e nela impava e lavava a jega já de anos – era Fulô pra cá e pra lá, ais, uis; com o tempo, se viu enredado nos feitiços da Fatildita, a Fafá Virada, aos regalos e frouxidões – Fulô, mô fio, chegue, venha, venha mais, aiai. Ele só às gaitadas! Exibia as duas como troféu, uma não sabia da outra; soubessem, o pau cantava. Ele nem aí, julgando-se o irresistível que se safava de todas as broncas. Todo dia ele lá, tapiando uma e outra, altas horas da noite, tirando proveito da inocência delas, dia sim, dia não. Nem se lixava em precaução, confiava no taco e na sorte, se dizia corpo fechado. Um dia lá, as duas se toparam não sei onde e, no maior converseiro feminista desancando os machos da cidade, chegou o momento de uma elogiar seu próprio marido e a outra seguir no rastro na defesa do seu: Marido é o meu! Ora, o meu nem se fala! Cada uma delas rasgou enaltecimentos mais do tanto, que mais pareciam santos, a ponto de se desafiarem. No meio da disputa do quem é quem, um nome entrou na roda. Quem? Ué? Ele mesmo. Ih. O negócio fedeu. Como é mesmo? Certidão da lata dele lavrada, peraí, da arenga surgiu a sororidade e, no amiudado, se uniram para pegá-lo na virada: Vou acertar a tampa desse salafrário! Ele que se avie, desgraçado das costas ocas. Combinaram: a escolha do local e o dia aprazado. Só uma levava. Negócio fechado. Nem adiantou ele alegar compromisso inadiável, reuniões, negócios por fechar, obstáculos muitos e outras trampolinagens, foi na marra. Lá chegando, nem deu tempo de se sentar direito: deparou-se com as duas com as mãos no quarto. E agora? Açucareiros amargos pras bandas dele. Deu-lhe um ímpeto de avestruz, nem tinha pra onde correr, nem se esconder. Buraco no chão, não havia. E aí seu Flo-ri-lân-dio? Fu-lo-riiiiii-âaaaaan-diiooooooo, se explique! Seja homem, vá! Aquilo deu um arrepio dele sentir a morte tirar um fino nele. Fala, paspalho! Olhou prum lado, pro outro, todo mundo olhando, fez que ia, elas barraram, não foi; um sorriso amarelo, a cara amarrada delas. Fez que chamava o garçom, elas batiam o pé no chão, implacável olhar delas pra ele: E aí, como é, fajuto? Deu de ombros, coçou o bucho, fez cara lisa, mãos no quengo, pigarreou, alisou o bigode, apertou o queixo, enfiou o dedo numa orelha, conferiu os botões da camisa, arrumou o cinturão e as calças, ficou batendo no peito, se agachou e elas lá, impassíveis. Fez de tudo e como não tinha mais jeito, danou-se a chorar: A carne é fraca e o coração é bicho besta! Uma delas pegou-lhe pela beca: Por quê? Deu-lhe umas sacudidas: Vá, responda, seu safado! A outra veio, deu-lhe uns beliscões e depois o cobriram de tapas. Oi, oi, oi! Chute na canela, murro no espinhaço, puxada de cabelo, apertão nas ventas. Fala, seboso! Desembucha! E ele, aos prantos: A culpa é do amor. A outra: Como? Eu amo as duas. Cabra safado. E foi o maior teitei: cadeiras, cinzeiros, sapatos, toalhas, mesas, tudo pelos ares na direção dele. Fale, safado! Cínico! Filadaputa! O maior escarcéu e o cabra apanhando, teibei. O espetáculo passou pro prejuízo de outros, foi aí que interviram e as duas guerreiras prontas pra matar o cabra a pau, ainda deram-lhe oportunidade de falar, aos soluços: A culpa é minha, sou um cara que ama as duas. Foi pior, elas se enfezaram e partiram pra cima, apertaram seu gogó de quase matá-lo! Quem é você, seu cretino! Nojento! Cafajeste. Quem é você mesmo, hem? Ele grita esgoelado: Esse cara sou eu! Esse cara sou eu! Desculpa, perdão! Calhorda! Isso é lá coisa que se faça, homem! Aprenda, amaldiçoado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora Gal Costa: Acústico MTV, Fantasia, Profana, Estratosférica, As melhores & Caras e Bocas & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIACrie toda a felicidade que você for capaz de criar; remova toda a miséria que você for capaz de remover. Fazendo isto todos os dias você irá trazer algo de bom aos outros ou diminuir seus sofrimentos. Pensamento do filósofo e jurista britânico Jeremy Bentham (1748-1832). Veja mais aqui.

AS MANDALAS – [...] Enquanto as mandalas cultuais sempre apresentam um estilo especial e um número reduzido de temas típicos quanto ao conteúdo, as mandalas individuais utilizam uma quantidade ilimitada de temas e de alusões simbólicas, que denotam facilmente serem uma tentativa de expressar, quer a totalidade do indivíduo em sua mundividência interior ou exterior, quer o ponto de referência essencial interno do mesmo. Seu objeto é o si-mesmo em oposição ao Eu, que é apenas o ponto de referência da consciência, enquanto o si-mesmo inclui a totalidade da psique de um modo geral, ou seja, o consciente e o inconsciente. Não raro a mandala individual mostra uma certa divisão numa metade clara e outra escura, com seus símbolos típicos. Um evento histórico deste tipo é a mandala de Jacob Böhme, a qual se encontra em seu tratado Viertzig Fragen von der Seele. Ao mesmo tempo, é uma imagem de Deus e como tal é designada. Isto não é casual, na medida em que a filosofia indiana, a qual desenvolveu sobremaneira a ideia do si-mesmo, do atmã, ou purusha, não diferencia em princípio a essência humana da divina. De modo correspondente, a scintilla, a centelha da alma, a mais íntima essência divina do ser humano também é caracterizada por símbolos na mandala ocidental, símbolos que podem também designar uma imagem de Deus, isto é, a imagem da divindade que se desdobra no mundo, na natureza e no ser humano. [...]. Trecho extraído da obra Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Vozes, 2000), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui e aqui.

TIA JÚLIA E O ESCRIVINHADOR – [...] A família sabia de tudo desde o começo e tinha mantido uma atitude discreta pensando que era uma bobagem, uma coqueteria sem importância de uma mulher desmiolada que queria acrescentar ao seu prontuário uma conquista exótica, um adolescente. Mas como Tia Julia não tinha mais nenhum escrúpulo em se exibir por ruas e praças com o garoto e cada vez mais gente amiga e mais parentes descobriam esses amores ˗ até os meus avozinhos tinham se interado, por uma intriga de tia Célia ˗, e isso era uma vergonha, uma coisa que deveria estar prejudicando o rapazinho (quer dizer, eu), que, desde que a divorciada tinha lhe enchido a cabeça, provavelmente não tinha mais ânimo para estudar, a família resolvera interferir. [...] Tinha se aproximado dele, lívido, havia lhe mostrado o revólver, ameaçado dar-lhe um tiro se não revelasse onde estávamos eu e tia Julia. Morto de pânico (“até àquela hora eu só tinha visto revólver em filme, compadre”), Javier jurou e rejurou por sua mãe que não sabia, que não me via há uma semana. Por fim, meu pai havia se acalmado um pouco e deixado uma carta para que me entregasse em mãos. [...]. Trechos extraídos da obra Tia Júlia e o escrevinhador (Folha de São Paulo, 1977), do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Veja mais aqui.

DOIS POEMASAS VANTAGENS DE APRENDER: Eu sou um homem sem ambições / E poucos amigos, totalmente incapaz / De ganhar para viver, ficando / Mais velho, fugitivo de alguma maldição. / Sozinho, malvestido, o que isso importa? / À meia-noite eu preparo para mim uma caneca / De vinho branco quente com sementes de cardamomo. / Vestido com um robe cinzento rasgado e uma velha boina, / Eu me sento no frio e escrevo poemas, / Desenhando nus nas margens deformadas, / Copulando com imaginárias garotas / Ninfomaníacas de dezesseis anos. SONHO COM LESLIE - Você entrou em meu sono, / Chegou com seus imensos, / Luminosos olhos, / E cabelo castanho-claro, / Atravessando cinquenta anos, / Para cantar novamente para mim aquela canção / De Campion, que nós um dia tanto amamos. / Eu beijei sua garganta, que vibrava. / Não havia pista, no sonho / De que você foi há muito, muito / Uma nova visita, / Com a alegre Helen, a branca Iope e as demais — / Somente a paz / Do cair da tarde / Num misericordioso outono / Na juventude. / E eu me esqueci / Que eu era velho e você uma sombra. Poemas do poeta, tradutor e ensaísta crítico estadunidense Kenneth Rexroth (1905-1982). Veja mais aqui.

A ARTE DE ALLAIN ROBBE-GRILLET
O escritor e cineasta francês Alain Robbe-Grillet (1922-2008) é um importante representante do movimento de vanguarda denominado nouveau roman, que enfatizava a linguagem igualmente como arte da imagem e da palavra, visando a desconexão com as convenções do real, caracterizado pelo violento contraste em relação às narrativas que partem da dinâmica tradicional, numa ruptura da causalidade. No cinema ocorre a desconstrução da realidade com o enfrentamento da irredutibilidade do real imposta pela imagem, utilizando manipulações que exploram possibilidades na montagem, cromatismo, enquadramento, composição, entre outras técnicas.


A palavra fora do lugar: escritores refugiados e em risco & muito mais na Agenda aqui.
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Junho Violeta: todo dia é dia do idoso aqui, aqui, aqui e aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Newton Mesquita
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A terra que sou, a poesia de Federico Garcia Lorca, a arte de Vicente do Rego Monteiro & Mario Band's aqui.
 

quinta-feira, dezembro 14, 2017

BANDEIRA, MONTELLO, AMIEL, VIVEIROS DE CASTRO, GAL COSTA, KANDINSKY, MINAMI KEIZI, BETO GUEDES, CONFERÊNCIA DE CULTURA & CAETÉS

O QUE SEI DO QUE APRENDI - Imagem: Aviso em dois, do pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1944) - Há muito tempo que eu estudo, gosto de estudar desde menino quando atravessei a porta da escola pela primeira para o ensino primário. Quando meus pais me levaram ainda menino para estudar, era eu quem já queria estar lá, aliás, eu que peiticava para ir e me diziam que eu não tinha idade ainda. Um dia lá, finalmente, me disseram: vamos pra escola. E quando vi a professora Hilda ministrando suas aulas, meus olhos estavam vidrados e eu me encantei de viver encantado até hoje, querendo entender o mundo e instigado às descobertas. Queria saber tudo, coisa de menino. E nada foi sufuciente para aplcar minha sede por conhecimentos. Foi no ginasial que este encanto entrou em baixa, estava precoce adolescente, a escola não respondia às minhas indagações e outras eram as minhas curiosidades, coisas que corroboraram, talvez, as más escolhas, o que o seria de mim sem elas, erros são lições inestimáves, e mesmo desmotivado com asala de aula, nunca perdi a vontade de sempre querer aprender e construir meus saberes, afinal, todos nós precisamos de referências para o alcance de conhecimentos. E foram nos estágios compreendidos entre o ginasial, o colegial e a faculdade que conheci professores e professores, muitos, uma relação entre apreço e raiva, amor e ódio, alguns simpaticíssimos, dedicados, outros chatos de galocha, terroristas, ditatoriais, muitos; os que eram apenas transmissores, outros simples comunicadores, como aqueles que sabiam pra si e usavam do proselitismo dos insensíveis com a sua soberba, tornando a aula repetitiva e maçante, depositando seus saberes como verdade absoluta, fazendo da gente meros reprodutores da sua superficialidade. Estes, quase nem lembro, sumiram na fumaça do tempo. Outros não, conheci os que usavam da magia e do encanto, equilibrando a firmeza e a ternura, com a sua inquebrantável devoção entre lampejos intuitivos, informalidade, sempre visionários, contagiantes, estes os que marcaram e muito para o meu desenvolvimento e aprendizagem, estes que despertaram em mim o contínuo processo de resgate das dimensões humanas, da superação dos meus medos, ensinaram-me o respeito ao outro e a cultuar a paz, a medida equilibrada entre o sim e o não, ah, estes nunca esqueci, até tornei-me amigo por estarem sempre dispostos a me orientar e a debater comigo minhas inquietações e questionamentos. Pois é, existem professores e professores, todos importantes para minha formação. Todos me ensinaram que a escola é o mundo: o laboratório onde tudo acontece, tudo se constroi e se desconstroi, tudo é feito e desfeito, tudo segue adiante. Por isso, o mundo sempre foi o meu foco de estudo, buscando compreender a causa das coisas acontecerem, o porquê dos acontecimentos, problematizando como as contradições levam sempre a buscar e encontrar saídas. Fui aluno, tornei-me professor e resolvi ser eternamente discípulo para um dia, quiçá, alcançar a sabedoria do mestre. Nesse trâmite, vou aprendendo, inclusive, a aprender, enquanto isso, aprendi que ensinar é fazer uso da arte e da técnica do diálogo, conversar, debater, levantar problemas, questioná-los, pesquisá-los por zis metodologias de investigação, utdo para que o ensino se configure juntamente com a pesquisa e, sobretudo, engajado com a extensão: flagrando no mundo o material para meus estudos e salas de aula. Eterno aprendiz, porque para mim o melhor de aprender é o êxtase da descoberta! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial a voz da cantora Gal Costa & show ao vivo do cantor, compositor e milti-instrumentista Beto Guedes. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAPor ti mesmo, não te violentes e respeita em ti as oscilações do sentimento, de acordo com a tua vida e a tua natureza. Alguém, mais sábio do que tu, as fez assim. Pensamento do filósofo, poeta e crítico suíço Henri-Frédric Amiel (1821-1881).

PERSPECTIVISMO AMERÍNDIO - [...] a concepção, comum a muitos povos do continente, segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não-humanas, que o apreendem segundo pontos de vista distintos. [...] eles se dispõem, a bem dizer, de modo exatamente ortogonal à oposição entre relativismo e universalismo. Tal resistência do perspectivismo ameríndio aos termos de nossos debates epistemológicos põe sob suspeita a robustez e a transportabilidade das partições ontológicas que os alimentam. Em particular, como muitos antropólogos já concluíram (embora por outros motivos), a distinção clássica entre Natureza e Cultura não pode ser utilizada para descrever dimensões ou domínios internos a cosmologias não-ocidentais sem passar antes por uma crítica etnológica rigorosa. [...] não devemos esquecer que, se as pontas do compasso estão separadas, as hastes se articulam no vértice: a distinção entre Natureza e Cultura gira em torno de um ponto onde ela ainda não existe. [...] Trechos extrapidos da obra A inconstância da alma selvagem (Cosac & Naify, 2002), do antropólogo e professor Viveiros de Castro, também autor da obra O perspectivismo ameríndio não é uma cosmologia, mas “um corolário (etno)epistemológico do animismo (Mana, 1996), no qual o autor derruba o senso comum de que os povos indígenas são marcados pelo atraso em relação ao mundo ocidental, uma vez que essas sociedades sempre foram descritas como “primitivas” por carecerem de instituições modernas – como o Estado e a ciência.

CAETÉS – O município de Caetés surgiu de um povoado que se chamava São Caetano, até 1918. O topônimo mudou para Caetés por influência do jornalista, historiador e publicista da língua tupi, Mário Melo, alegando ser caetés uma corruptela de caá-etê, significando "mato real ou verdadeiro, mata virgem". Emancipou-se como município em 13 de dezembro de 1963, desmembrando-se do município de Garanhuns. Está incluído na área geográfica de abrangência do semiárido brasileiro, definida em 2005. É formado pelo distrito sede e pelos povoados de Ponto Alegre, Atoleiro, Barriguda, Bastiões, Vila Araçá, Várzea Comprida, Várzea Suja e Queimada Grande. Hoje tem se tornado um pólo na geração de energia eólica no país. Veja mais aqui.

UMA SOMBRA NA PAREDE - [...] Dou por mim andando por estas ruas estreitas, entre alas de velhas casas que o tempo preservou, e sinto que me reencontro, muitos anos depois de ter partido daqui para longes terras. De mim, para mim, repito o poeta que viveu emoção análoga à que estou vivendo agora, nesta volta ao chão natal: Pois do que por fora vi, / a mais querer minha terra / e a minha gente aprendi. Tenho novamente vinte anos, as mesmas namoradas, os velhos amigos, os mesmos sonhos, e este gosto de recriar a vida com minhas histórias, meus personagens e minhas emoções. [...] Nunca o vi tão feliz nem tão realizado. Ambos eufóricos, como desinteressados do tempo e da idade, cada qual com o seu mistério mal guardado, e sempre sobre as bênçãos do bom Deus, que continua a proteger-nos como seus filhos, até mesmo quando dá a impressão de que nos esquece, ou que estende até nós a piedade de sua indiferença. Trechos do romance do escritor, jornalista, professor e teatrólogo Josué Montello (1917-2006). Veja mais aqui.

O BICHO - Vi ontem um bicho / na imundície do pátio / catando comigo entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / não examinava nem cheirava: / engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem. Poema do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968). Veja mais aqui e aqui.

IV CONFERÊNCIA ESTADUAL DE CULTURA DE PERNAMBUCO
Participando da IV Conferência Estadual de Cultura de Pernambuco, no auditório da Faculdade de Pesquisas Aplicadas, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na última terça feira, 12 de dezembro, com o poeta e multiartista Fábio de Carvalho & do poeta e compositor Zé Ripe.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do quadrinista, jornalista e desenhista nipo-brasileiro Minami Keizi (1945-2009).
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terça-feira, setembro 26, 2017

ÍTALO CALVINO, WILLIAM BLAKE, WORDSWORTH, SUZANA ALBORNOZ, SOLIDARIEDADE & LIBRAS NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A QUEM INTERESSAR POSSA – Aprendi a ver na escuridão, a luz restava dentro de mim como um minúsculo pavio aceso, mostrando o fim do túnel e emanando cores de todos os matizes que se fizeram reais além dos meus sentidos. Aprendi da luz todas as cores, e ao abrir os olhos entendi a importância do olhar: via a mim e todas as coisas, visíveis e invisíveis, a festa emanada do Sol. Aprendi a ouvir no silêncio, todos os tons e sons harmonicamente entrelaçados na vida: os passos rastejantes dos seres, o estalido dos ovos e das sementes, o nascimento dos frutos, as vozes mudas com seus dizeres, o canto dos pássaros, os ventos nos galhos pelo chão das poeiras, a corrente dos rios e as ondas do mar, a queda dos precipícios, o ápice das alturas, a música das esferas. Em mim tudo é vivo e comunga no infinitude. Aprendi a calar para saber tudo, foi quando compreendi que tudo me dizia respeito e se completava em mim para uma só unidade. Com isso, aprendi a espalmar as mãos mesmo diante das recusas ou desafetos, a abrir meus braços mesmo que houvesse hostilidade ou indiferença, a entender no outro o que em mim era insatisfação, porque também era minha e assim se fez para todos. Sou de mãos dadas com quem não sabe das ruas e seus movimentos, sou braços dados com quem não sabe a luz pra seguir, sou peito aberto a quem não sabe os caminhos aonde vão dar. Hoje ao meu ombro amparo a dor da infelicidade que pode ser do outro e agora também minha; a sua, quem sabe, sou solidário de antemão para que possamos encontrar uma forma de manifestar a satisfação de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com obras do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938): Concerto em fá maior na interpretação de Yuja Wang, Rapsody in blue na interpretação de Lola Astanova & All Star Orchestra, e Summertime com a All Virginia Orchestra; a cantora Gal Costa interpretando O amor, Força estranha, Açaí com Roupa Nova & o show Acústico MTV; o instrumentista, arranjador e compositor Marcos Nimrichter interpretando Libertango, Neptune, Deus fotte & Briguinha de músicos malucos no coreto & A taça; e a  atriz e cantora carioca radicada na Islândia, Jussanam, cantando Desafinado, O telefonema, Quer saber & Como nossos pais. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIASe as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito. Trecho do poema extraído da obra O matrimônio do céu e do inferno (Iluminuras, 1995), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui, aqui e aqui

INCLUSÃO SOCIAL DO SURDO - [...] O reconhecimento da LIBRAS como primeira língua da comunidade de surdos está amparada pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. A Lei foi criada devido à luta pela conquista de direitos dos surdos em espaços de cidadania a exemplo de: escola, sociedade, igreja e outros que os levem a adquirir independência. A inclusão leva a reconhecer a importância da LIBRAS no âmbito escolar, profissional e da sociedade em geral. [...] A gestão educacional pontuada para resultados eficazes passa pelo ensino e vivencia cotidiana, deparando-se no contexto analisado com professores que buscam sempre dar o melhor para seus alunos com a consciência de melhorar a técnica de ensino de Libras numa abordagem de qualificação, ao aperfeiçoamento a fim de que realize sua função da melhor maneira com o intuito de melhores resultados do educando. [...] É preciso fortalecer as conquistas e buscar novos rumos através de experiências mais concretas para a otimização de atividades educacionais no ensino sempre será um desafio. Espera-se que no futuro o valor das pessoas surdas, seja ainda mais reconhecido além de que a atuação atualmente delimitada ao contexto dos surdos, ainda possa ser mais efetivada de forma global e irrestrita. Que não fique somente nas legislações, posto que os mesmos já perderam muito do seu tempo sendo segregados durante anos a fio em escolas especializadas, que só serviram de pano de fundo para a grande discriminação que assola o país, além de não acrescentar nada ao processo de desenvolvimento do surdo enquanto pessoa ou como cidadão. [...]. Trechos extraídos do artigo Inclusão social do surdo: reflexões sobre as contribuições da Lei 10.436/2002 á educação, aos profissionais e á sociedade atual (E-Gov, 2012), da advogada e doutoranda em Direito Civil pela UBA, Laine Reis Araújo. Veja mais aqui e aqui.

EDUCAÇÃO LIBERTADORA - [...] No Brasil, como em quase todo mundo, a escola regular vem sendo o único meio de acesso à habilitação e ao diploma. E, assim sendo, é um importante meio de ascensão social, como também, ou principalmente, um meio certo de controle da ascensão social, embora não seja o único meio possível de acesso á educação e à cultura. Neste seu desempenho monopolizador da educação oficialmente reconhecida, a escola se alia à burocracia, e a sua aliança se exerce, muitas vezes, como domínio e duração desta sobre aquela. Em troca, os órgãos de planejamento do sistema educacional se limitam ao sistema escolar. Escola e burocracia interdependentes, a educação inibe incalculáveis chances de experimentar, revitalizar-se, superar-se [...]. Trecho da obra Por uma educação libertadora (Vozes, 1976), da educadora, professora, ficcionista, ensaísta, pesquisadora e intelectual engajada nos problemas ligados à educação e à condição feminina no mundo contemporâneo, Suzana Albornoz Stein. Veja mais aqui e aqui.

O VISCONDE PARTIDO AO MEIO – [...] Assim, entre caridade e terror decorriam as nossas vidas. O Bom (como era chamada a metade esquerda de meu tio, em contraposição ao Mesquinho, que era a outra), era, então, tido como santo. Os aleijados, os pobres, as mulheres traídas, todos os que tinham um pesar, corriam até ele. Poderia ter se aproveitado e se tornado ele o visconde. Ao contrario, continuava como vagabundo, circulando meio enrolado em seu manto negro, apoiado na muleta, com a meia branca e azul cheia de remendos, fazendo o bem tanto a quem lhe podia quanto a quem o expulsava com seus modos. [...]. Trecho extraído da obra O visconde partido ao meio (Cia. Das Letras, 1999), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADEI - Houve um tempo em que a relva, a fonte, o rio, a mata / E o horizonte se vestiam / De uma luz grata, / — Visto que assim me pareciam —, / E da opulência que nos sonhos é inata. / Hoje está sendo tal como foi outrora;—/ Seja o que for, eu, / Na luz ou breu, / Eu não verei jamais o que se foi embora. II - O arco-íris vai, vem, / E a rosa nos faz bem; / Alegre, a lua nota / o céu está completamente nu; à luz / De estrelas, a água brota / E é belo o que ela reproduz; / A aurora é sempre um nascimento; / E contudo, eu sei muito bem / Que a glória passou por nós em algum momento. III - Agora, enquanto as aves cantam de contento / E enquanto o cordeirinho salta / Ao som do que o exalta, / A mim apenas veio uma ideia de dor: / Enunciei-o e de repente ela passou, / E me encho de alento: / Trombeteiam cascatas frente ao precipício; / Minha dor não mais matará o clima opulento; / Ouço o Eco que vem das grutas e ouço o Vento / Que encerra em si o sono tal como um resquício, / E alegre é a terra; / Todo o mar / Vem a se ufanar / E a Fera se aferra / Ao sono na serra;— / Você, Criança, / Menino pastor, grite até onde, Ó Criança, o grito alcança! IV - E vocês, Criaturas, eu escuto afinal / O que dizem entre vocês / E vejo o céu que frui também vossa altivez; / Meu ser em vosso festival, / Coroado, o total / De vossa dádiva — ah!, eu sinto… Ó mal!, / Fosse eu soturno enquanto / A Terra se adornasse, / Manhã de Maio face / A qual a infância nasce / No Mundo, / No vale remoto e fecundo;/ Enquanto o sol nos acalora / E o Bebê sobe aos braços da Mãe: — ouço agora! / Com alegria eu ouço, eu ouço! / — Mas uma, uma Árvore existe, / Uma Planície que em minh’alma inda persiste, / Lembrando o que se foi e hoje e me deixa triste: / E o Amor-Perfeito / Diz: Que foi feito / Do vislumbre visionário? / Dos sonhos? Do esplendor vário? / V - Nosso nascer não passa de sono e de oblívio: / A Alma que nasce com nós, nosso Astro Vital, / Vive longe de onde vive o / Trajeto de seu fanal; / Não no esquecimento inteiro / Nem na nudez por inteiro, / Mas, arrastando nuvens de glória, viemos / De Deus — nele vivemos —: / É o Céu que a nós circunda e a nossa meninice! / As sombras da prisão começam a cobrir / O Menino que cresce; / Mas ele vê a luz, sabe aonde ela vai ir / E sabe que ela o acresce; / A Juventude, em sacerdócio à Natureza, / Viaja ao Leste numa empresa / Guiada pela / Visão mais bela; / E ao largo o Homem vê que sua vida acaba / E que na luz do hábito ela enfim desaba. VI - A Terra enche o colo com prazeres seus; / A Terra possui ânsias que ela mesma mantém, / E, possuindo um algo maternal também, / E honesta em seu intuito, / A Terra, ama-de-leite, empenha-se / P’ra que o filho adotivo, a Humanidade, abstenha-se / De todos seus apogeus / E do que nele for trajetória e for muito. VII - Aprecie a Criança e a plêiade de encantos, / Tesouro de seis anos menor que um pigmeu! / Contemple a paz com que ele enfim adormeceu, / Preocupado co’os beijos de sua mãe, tantos!, / E as tantas bênçãos que seu pai lhe concedeu! / Veja, a seus pés, alguma tabela infantil, / Algum fragmento de seu sonho de ser humano, / Moldado graças a uma arte ainda pueril; / Um casamento ou um festival, / Um lamento ou um funeral; / E a isto ele é servil, / E nisto ele forma seu canto: / Assim afinar-se-á enquanto / Dialoga sobre o amor, o sucesso ou o dano; / Não demorará tanto / Até que largue isto / E de novo, e imprevisto, / Com alegria o Ator mirim faça outro ardil; / Enchendo pouco a pouco sua própria “farsa” / De Personagens, ‘té que a Vida fique esparsa / E, colocando-o na barca, a Vida o ressarça; / Como se imitar fosse / Tudo o que ele fosse. VIII - Você, cujo semblante exterior desmente / Teu valor inerente; / Você, grande Filósofo, que mantém ainda / A herança; você, que é a Visão entre a cegueira, / Que, surdo e mudo, lê a profundeza infinda / Sempre assombrada pela mente altaneira, — / Ó Vidente!, Ó Profeta! / Que a verdade afeta / E a quem nós procuramos de qualquer maneira, / Por toda a vida, presos no escuro da cova; / Você, sobre quem flui a Fonte da Existência / Que escraviza ao mesmo tempo que renova, / Algo impossível de se ignorar a presença; / A quem a cova / É cama solitária sem sentido ou luz / Do que lá fora luz, / Um lugar onde se descansa e onde se pensa; / Você, Criança, ainda ilustre na amplitude / Da aérea liberdade de tua atitude, / P’ra quê, com dores tão solenes, provocar / Os anos a te darem o que eles vão te dar, / Assim tão cega e santa imersa na batalha? / Não tarda e teu espírito cai no retardo / De uma rotina que imporá a ti um fardo / Que pese e quase como a vida se equivalha! IX - Alegria!, que em nós / Inda palpita / E repercute a voz — / E nos evita! / Pensar no meu passado faz com que em mim nasça / Uma bênção perpétua: não aquela graça / Que glorifica aquele a quem ela agracia — / Prazer e liberdade, o credo que perpassa / A Infância inteira, na labuta ou calmaria, / Pleno do tatalar da fé que se atavia:— / Nem por estes elevo / Canções de louvor e enlevo; / Mas pelas questões obstinadas / De senso e coisas externadas / Distantes de nós, sublimadas; /  Vagos temores da Criatura / Que vaga em meio a mundos não realizados, / Altos instintos onde a efêmera Figura / Treme tal como tremem os Sentenciados: / Por tais afetos prévios / E recordações breves, o / Que vierem a ser, sejam, / Pois são fontes de luz e nos clarejam, / Pois são pontos de luz de nosso olhar; /  Guarde a estima por nós, guardando o seu poder / De que a turba dos anos se encurte no Ser / Da Calmaria imorredoura: o despertar / P’ra vida eterna: / O que a surdez e a insânia que às vezes governa, / O Pai, o Filho / E o que vê na alegria um odioso empecilho, / Não poderão matar nem retirar o brilho! / Assim, sendo o clima propício, / Por distantes que estejamos, / Sentimos sempre aquele mar sem fim ou início / Que nos trouxe aonde estamos, / E vemos sempre a Infância que brinca na areia, / E ouvimos sempre o som do mar que assenhoreia. X - Pois cantem, Aves, cantem canções de contento! / E que o Cordeiro salte, / Alegre, ao som que o exalte! / Nossas vozes serão uma só em pensamento, / Você que brinca ou flauteia / E que tem na sua veia / O agrado que Maio alardeia! / Pois muito embora a glória, que antes cintilara, / Tenha tornado-se distante e coisa rara, / E embora nada traga novamente a hora / Do esplendor no relvado, ou da flor que vigora; / Nós não vamos chorar; iremos / Achar forças no que tivemos / Um dia; no afeto primeiro /  Que ainda se mantém inteiro; / No pensamento que consola / E medra quando a dor desola; /  Na fé que enxerga além da morte / E na sabedoria do que nós vivemos. XI - E vocês, Bosques, Fontes, Picos, Matagais, / Não previram que o amor já não seria mais! / E entanto, o coração de meu coração sente / O poder de vocês; eu abandonei somente / Um prazer p’ra viver vosso ciclo usual. / Amo o rio que em seu canal se convulsiona, / Mais do que quando, assim como ele, eu fui frugal; / A luz da Aurora é pura e, como habitual, / Emociona; / As nuvens que rodeiam o pôr-do-sol ganham / O tom-de-cor daquele olhar que mantivera / Vigília sobre nossa tênue Primavera; / Outras raças têm sido, e outras glórias se apanham. / Graças ao coração, que fizemos morada, / Graças a todo o seu temor, carinho e encanto, / Sei que da flor mais simples pode ser gerada / Meditação profunda demais para o pranto. Poema extraído da obra Memórias de Infância (Poems -  Dell Publishing, 1960), do poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850). Veja mais aqui e aqui.

UM POEMA EM CADA ÁRVORE
Realizou-se no último domingo, dia 24/09, no Passeio Público de Curitiba, o evento Um poema em cada árvore, promovido pelo grupo Escritibas Na Rua, com o objetivo de proporcionar um espaço de leitura poética para as pessoas que freqüentaram o parque, expondo o trabalho de escritores independentes pela passagem comemorativa do Dia da Árvore. Marquei presença com o meu poema Colhendo sonhos nos galhos da vida e Sonhar marés da poeta Luciah Lopez. Veja mais aqui.

Veja mais:
O pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) aqui, aqui e aqui.
A música de George Gershwin aqui, aqui e aqui,
A literatura de Luis Fernando Veríssimo aqui, aqui e aqui.
A música de Gal Costa aqui e aqui.
A arte musical de Jussanam aqui e aqui.
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TODO DIA É DIA DE INCLUSÃO & LIBRAS


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sábado, agosto 20, 2016

HOBSBAWM, LIPOVETSKY, GAL COSTA, MARTHA MEDEIROS, NGUYEN TUAN, LIPKING & GISELE LEMOS

ANDEJO DA NOITE E DO DIA - Imagem: The walking man (2011), by Shanna Bruschi – Caminheiro voo, andarilho errante. Não tenho onde cair morto, nem onde encostar a cabeça. Não me foi dado o privilégio de ter nas mãos uma das assinaturas do deus de tudo e todas as coisas nas escrituras pros donos da Terra. Quando cheguei já ocupavam tudo, não me sobrou nem areia nas unhas, andejo suspenso no ar: não tenho como pagar pedágio – pago assim mesmo, quer queira ou não, e pago tudo, até à revelia pela vida, pelo oxigênio, pela água, por ter nascido, por estar vivo – é tudo deles e eu sem, só tenho o que é de mim mesmo e que eu não sei, nem tenho nada, remorsos, dissabores. E se tenho vestes nem eram minhas e foram compradas nas feiras e que também são deles, os meus fazem festa comendo vidro de luzes no luxo dos magazines. Só me resta a carne cansada, os ossos doídos, o coração solitário e o olhar para ver o que enxergo no meio do turbilhão dos dias e das noites. Não posso parar, senão serei crucificado pelos credos dos muitos missionários que fazem a curadoria das cidades doentes e se dizem íntimos e portadores de um deus que não é o meu, nem de ninguém, só deles e que me xingam paranóicos sectários de fazer pichação incrédula por onde passo, mesmo quando Deus está comigo e não querem ver, sequer me fitar com suas exaltadas pregações aviltando tudo e todos. Não fujo de nada, pela justiça dos homens fui estornado, marginal condenado ao desterro; pela Justiça de Deus, pagar meus pecados, viandante pelas rodagens de barro batido por longas distâncias, estrangeiro de sempre. Fui tirado do seio da mãe pra aprender a viver conforme as razões de todos. Fui tirado da escola pro trabalho, o meu dever; a escola é pros que podem, os donos de cursinhos também são donos das universidades públicas, como posso me instruir se sou levado a viver atrepado nas árvores e a viajar na brisa quando meu corpo foi condicionado ao ventilador ou aparelho de refrigeração. E se como da fruta colhida no pé, meu corpo foi educado a saborear temperos, sais e açúcares, cozidos, assados, requentados, tudo envenenado e viro enfermo gemendo estrada afora. E se vou caminhante pensamentos suspensos na paisagem do lugar, é que meu corpo acomodado reclama o conforto de automóveis, aeronaves ou mecanismos de pressas, que nem posso ter a não ser tirando fino pra me desviar o caminho e cambaleio engolindo a poeira do asfalto. A tudo vejo e não me vêem: a vida passa, insone voo, a seguir sem adeus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O AMOR 
Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais entrará sorridente
Assim como está na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita. Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me para que a partir de hoje
A partir de hoje a família se transforme
E o pai seja pelo menos o Universo
E a mãe seja no mínimo a Terra, a Terra, a Terra
(O amor, de Caetano Veloso sobre poema de V. Mayakovsky), no álbum Gal Costa Acústico MTV (BMG, 2001). Veja mais aqui.

PESQUISA 
[...] não há como negar que o impacto das atividades humanas sobre a natureza, sobretudo as urbanas e industriais, mas também, como se acabou compreendendo, as agrícolas, aumentou acentuadamente a partir de meados do século. Isso se deveu em grande parte ao enorme aumento no uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural etc.), cujo possível esgotamento vinha preocupando os que pensavam no futuro desde meados do século xix. [...] Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como compradores de bens e serviços. Aí estava o seu problema central. [...].
Trecho da obra A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991 - Companhia das Letras, 2001), do historiador Eric Hobsbawm, contando em linguagem simples e envolvente, a história da "era das ilusões perdidas". Veja mais aqui.

LEITURA 
O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades. O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida. Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados. Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não volta para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo pois cremos que ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós. Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica. Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hetero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante deste sentimento, ter alguma certeza?  O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.
O amor e tudo que ele é, da escritora poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Uma nova modernidade nasceu: ela coincide com a "civilização do desejo" que foi construída ao longo da segunda metade do século XX. Essa revolução é inseparável das novas orientações do capitalismo posto no caminho da estimulação perpétua da demanda, da mercantilização e da multiplicação indefinida das necessidades: o capitalismo de consumo tomou o lugar das economias de produção. [...] Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um "consumator", informado e "livre", que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil. Quanto mais o hiperconsumidor detém um poder que lhe era desconhecido até então, mais o mercado estende sua força tentacular; quanto mais o comprador está em situação de auto-administração, mais existe extrodeterminação ligada à ordem comercial. O hiperconsumidor não está mais apenas ávido de bem-estar material, ele aparece como um solicitante exponencial de conforto psíquico, de harmonia interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoal bem como pelo sucesso das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias da felicidade e da sabedoria. O materialismo da primeira sociedade de consumo passou de moda: assistimos à expansão do mercado da alma e de sua transformação, do equilíbrio e da auto-estima, enquanto proliferam as farmácias da felicidade. Numa época em que o sofrimento é desprovido de todo sentido, em que os grandes referenciais tradicionais e históricos estão esgotados, a questão da felicidade interior "volta à tona", tornando-se um segmento comercial, um objeto de marketing que o hiperconsumidor quer poder ter em mãos, sem esforço, imediatamente e por todos os meios. A crença moderna segundo a qual a abundância é a condição necessária e suficiente da felicidade do homem deixou de ser evidente: resta saber se a reabilitação da sabedoria não recompõe por sua vez uma ilusão de outro gênero. Reinvestindo na dimensão do "ser" ou da espiritualidade, o neoconsumidor está mais bem inserido no caminho da felicidade que seus predecessores? A civilização consumista distingue-se pelo lugar central ocupado pelas aspirações de bem-estar e pela busca de uma vida melhor para si mesmo e os seus. [...] O descarte dos artigos já não é provocado pela mediocridade da fabricação, mas pela economia da velocidade, por produtos novos, mais eficientes ou que respondam a outras necessidades. [...].
Trecho extraído da obra A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo (Companhia das Letras, 2007), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, investigando a a felicidade, o bem-estar, a produção de sentidos, idéias e necessidades em torno da contemporaneidade do hiperconsumo, da hiperindividualização e do hiperdesejo. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do escultor vietnamita Nguyen Tuan.

Veja mais sobre o projeto de extensão Infância, Imagem e Literatura, Direito & Psicanálise, Décio Pignatari, Cora Coralina, Agostino Carracci, Led Zeppelin, Antunes Filho, Gênero & Sexualidade, Vera Fisher & Mariana Nogueira aqui.

DESTAQUE
A arte da psicóloga, professora de música e diretora do grupo Conto&Cena, Gisele Sant'Ana Lemos, editora dos blogs Biologia do Amor e Diana Balis, e coordenadora da Revista Poesia Legal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, do artista plástico estadunidense Jeremy Lipking.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...