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sexta-feira, setembro 25, 2020

FAULKNER, MARIE UNDER, FELÍCIA HEMANS, CARMELA GROSS, EOS & PAULO CAVALCANTI

 


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA (TRÍPTICO DGF) – UMA: SABE AQUELA... DA ESCALADA DA VIDA - Fui ao fundo do poço, fiz minha catábase. Sim. E com os versos de Carlos de Oliveira: pelo cascalho interno da terra, / onde o esqueleto da vida / se petrifica protestando. / Como um rio ao contrário, de águas povoadas / por alucinações mortas boiando levadas / para a alma da terra, / procuro os úberes do fogo. Dos umbrais de mim, cenas de filmes e contas nos dedos, andaços e enlevos às desoras. Quando dei por mim naquelas funduras, a perda & a desolação anoitecida. Não sabia que em toda minha vida, das idas e vindas, entre érebros e báratros. Lá nas entranhas do mundo de mim, ouvi o Auto da Alma e a barca de Gil Vicente: À barca, à barca, mortais, barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Quase os mesmos efusivos alto-falantes dos protestos velados de Not about Nightingales, de Tenessee Williams. Para me proteger de não sei o quê, recitava os poemas da inocência e experiência de William Blake, sem que previsse me deparar Coleridge aos berros: Quem se vangloria de ter conquistado uma multidão de amigos nunca teve um. Vaguei na obscuridade, quis me livrar do passado, olhar para o amanhã e seguir, até ser alertado por William Faulkner: O passado nunca está morto. Nem sequer é passado. Ontem só acabará amanhã, e amanhã começou há dez mil anos. Só faltou dizer que o mundo é a Guernica de Picasso, logro da desconfiança.

 


DUAS PASSAGENS ALADAS DE UM ÚNICO AMOR - Imagem da artista multimídia Carmela GrossAonde cheguei era o último piso do fim, nada havia mais além; se epílogo ou posfácio, o derradeiro do limite. Só me restava a poemópera da anábase, como quem vai e volta, a recomeçar, tropeços na jornada, cochilos e visões. Três e tantos movimentos, pisadas e duas graças: nunca me dei por perdido, apesar de. Sucumbi ao amor, desespero da paixão: vertigens, duas ou poucas palavras, muitos textos e três passos para ascenção. Quantas inusitadas situações. Estava só no meio do caminho, muito por me sujeitar de quase não ouvir os versos de Uma canção de despedida de Felícia Hemans: Quando lágrimas repentinas caem sobre seus olhos / Ao som de uma melodia antiga; / Quando você ouve a voz de um riacho na montanha, / Quando você sente o encanto do sonho de um poeta; / Que assim seja! / Que minha memória fique com vocês, amigos! Porque ela era nua amanhecida Eos na carruagem púrpura alada dos arreios multicores para os sonhos intensos de amor infindo, até o reencontro no evento da luz.

 


TRÊS SOPAPOS NA CHEGADA - Imagem da artista multimídia Carmela Gross – Enfim, aqui estou, algum lugar dos caminhos. Eu vim de onde me fiz, a viagem de volta, tantos Brasís, quantos janeiros: trilhas desfeitas, rabiscos, recados indecifráveis, motores raivosos, céus esfumaçados, desídias, talhos, atalhos perdidos, interditos, superstições. (Dava para parafrasear Erasmo no seu Julio II excluído del reino de los cielos nos Escritos de crítica religiosa e política: Certamente não me surpreende que tão poucos cheguem aqui, se você chicotear assim eles assumem o comando da doidice. Apesar de tudo, ouso conjeturar que o país ainda tem cura de alguma forma, pois honra um esgoto tão imundo em virtude do mero título de presidente). Aqui estou e me tratam por necromante com tudo que passei, e para que transmita a verdade que querem ouvir. Apenas repito trecho dAs geórgicas de Virgílio: Não desejo abranger todas as coisas juntas em meus versos, não conseguiria, ainda que possuísse cem línguas e cem bocas, e uma voz de ferro. Prefiro invocar a Denúncia de Marie Under: Eu grito alto com a boca de todo o meu povo, / nossa terra está ferida por uma praga de medo e chumbo, / nossa terra está sombreada pela árvore da forca / nossa terra um cemitério comum, enorme de mortos. / Quem virá ajudar? Bem aqui, no presente, agora! / Porque o paciente está fraco, perdeu o controle. / Mas, como o canto dos pássaros, meu grito se desvanece / no vazio: o mundo é arrogante e frio. / O suspiro do velho, o choro do bebê - / todos correm para a areia, ilusão, falham? / Homens, mulheres gemem como cervos feridos / para aqueles que estão no poder, tudo isso é apenas um conto de fadas. /  Trevas são os olhos do mundo, seus ouvidos são surdos, / os poderosos perdidos na loucura ou na estupidez. / Compaixão só é sentida por aqueles a quem o sofrimento quebra, / e só os sofredores têm corações como você e eu. Voltei levando nos peitos, refém da viagem, vulnerável às circunstâncias, chuvas, quedas, labirintos e túneis sem fim... Quem dera fosse diferente embarque, desembarque: reificação de simulacros e sempresente. A cidade é o deserto e o difícil é chegar. Até mais ver.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


 A OBRA DE PAULO CAVALCANTI

[...] O que nos conforta é a grandeza da nossa autocrítica, no reconhecimento dos nossos erros. E até dos crimes cometidos em nome do socialismo. Vão-se esses erros e esses crimes. Menos os símbolos.

A obra do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti (1915-1995), fundador da Associação do Ministério Público de Pernambuco e da União Brasileira de Escritores (UBE-PE) e foi preso e aposentando compulsoriamente pelo AI-2, autor de obras como a trilogia O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas (1978/1980/1984), Nos tempos de Prestes (1981/1982); A luta clandestina (1984/1985); Homens e ideias do meu tempo (1993); Vale a pena (ainda) ser comunista (1994); História de um governo popular e Os equívocos de Caio Prado Júnior. Veja mais aqui e aqui.

 


 


quinta-feira, março 01, 2018

SIENKIEWICZ, BURFORD, CASTAÑEDA, MILLÔR, DELEUZE, BERGSON, TONINHO HORTA, RUTH KLIGMAN, HARBSMAIER, IKUKO KAWAI, MULHERES & INCLUSÃO

É DUM DIA PRO OUTRO QUE A GENTE VAI VIVENDO – Imagem: arte da pintora abstrata estadunidense Ruth Kligman (1930-2010). - UMA: DO MUITO QUE APRENDI PRO NADA QUE SEI - Muito aprendi na vida! O resultado? Qual Sócrates, aprendi nada de nada, desaprendi para aprender. Sim, tive que desaprender de tudo, nada do que tinham garantido por líquido e certo, apenas parecia, jamais seria verdadeiro. O que me deram por definitivo, era só efêmero. O que me disseram por eterno, era para lá de falso ou, no máximo, instantâneo, triz, já era, areia ou nuvem levada ao vento. O que me ensinaram, quando fui ver, era o contrário, quando muito apenas o que queriam que eu soubesse do que sabiam. Ou pior: que acreditasse na mentira que inventaram. Tive por mim que brincar de certo e errado, até saber que cara ou coroa é só jogo. Daí, tive que aprender a conviver com o paradoxal e a contradição: o que é, não é; o que não é, é; ou não, talvez. Desdenhei do ortodoxo, fui até onde deu a heterodoxia e nada me satisfez porque o defendido era só ilusão ideológica, prisão do maniqueísmo na fúria sectária. Até então o que havia decorado e aprendido, na prova dos nove, valia nada, zero na estaca. Tive que me refazer dentro do desconforme, e me reinventar fora dos moldes, ousar e renascer fora do convencionado. Por consequência, o que eu tinha por direito, foi tomado; o que tinha por meu, não era, sabia que nem nada nem ninguém poderiam ser de quem quer que fosse. Aí duvidei de tudo, graças a Deus! E não queria apenas mais o que ouvia meus ouvidos, ou o que tocava às minhas mãos, ou saboreava minha boca, ou cheirava meu olfato, sabia já a lição que os olhos me negavam, pois para que eu veja não preciso de olhos abertos e para que eu ouça não preciso ouvir o que dizem e para que eu diga não preciso falar e para que eu saiba dos cheiros não preciso senti-lo pelo nariz, foi o que me ensinou William Blake: Ver um mundo em um grão de areia e um céu numa flor selvagem, é ter o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora. Não preciso de nada, nem preciso ser nada, nem saber nada, sou o que me basta e voo além. OUTRA: ZÉ-CORNINHO & A COMADRE MORTE – Zé-Corninho parece que não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher e aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de menino, dizem que nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas esposas dele que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabe, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu de porta em porta até estrada afora quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta quando a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. (Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta: Foot on the road, Durandi Kid 1 & 2; da violinista japonesa Ikuko Kawai: Jupiter form de Symphony The Planett, Exodus & Sun Flower; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Tu não podes ver o que não podes explicar. Trata de esquecer de tuas explicações e começarás a ver. [...]. Trecho extraído da obra A erva do diabo: as experiências indigenas com plantas alucinógenas reveladas por Dom Juan (Record, 1968), do escritor e antropólogo estadunidense Carlos Castañeda (1925-1998). Veja mais aqui e aqui.

OUTRA PRO DIADevemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles, estaríamos hoje falando tupi-guarani, língua que não entendemos. Uma das muitas do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui.

SACADA: O QUE NÃO DIZ NADA, DORME! - Um behuana (nativo da atual Botsuana, na África meridional) perguntou um dia que eram aqueles objetos sobre a mesa. Quando lhe foi dito que eram livros, e que esses livros contavam novidades, levou um deles ao ouvido e, como não ouviu nenhum som, disse: “Este livro não está me dizendo nada”. Pondo-o de novo sobre a mesa, comentou: “Será que está dormindo?”. Extraído da obra Invention of writing (Unwin Hyman, 1988), de Michael Harbsmaier.

COISAS DO SER HUMANO - [...] Nenhuma divindade, ninguem mesmo, a não ser um invejoso, se compraz com a minha impotência e com o meu desgosto, e toma por virtude as lágrimas, os soluços, o temor e outras coisas do mesmo gênero que são o sinal de uma alma impotente; mas, pelo contrário, quanto maior é a alegria que nos afeta, maior é a perfeição a que passamos, isto é, tanto mais participamos , necessariamente, da natureza divina. Por conseguinte, usar as coisas e delas extrair o maior prazer possível (não, é claro, até a saciedade, pois isso já não daria prazer) -, eis o que é próprio do homem sábio...Os supersticiosos, que gostam mais de censurar os vícios do que ensinar as virtudes, e que não se aplicam a conduzir os homens pela Razão mas a contê-los pelo temor, de tal modo que evitem mais o mal do que amem as virtudes, não pretendem outra coisa senão tornar os outros tão infelizes como eles próprios são; deste modo, não é de admirar que eles sejam, o mais das vezes, insuportáveis e odiosos aos outros homens. Trecho extraído da obra Espinoza e os signos (Rés, 1989) do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995). Veja mais aqui.

DEPOIMENTO INCLUSÃOA inclusão é possível, sim, mas desde que todos se adaptem, pessoas com deficiência e sem deficiência. Não há dicotomia: nem só a sociedade se adapta ou só os portadores de deficiência. [...] É, principalmente, uma questão de educação, de formação. [...] Porque é difícil: o ser gumano não sabe lidar e não sabe tratar com o que não conehce; sua tendência é agredir. É também necessário estar sempre trabalhando poara o preparo emocional de todos, pois há uma tendência ao boicote, da pessoa portadora consigo mesma e dos outros em relação a ela. [...] Porque é conversando, abordando, falando que essas questões serão desmistificadas, e a sociedade poderá se tornar inclusiva. Trecho de Um depoismento sobre Inclusão, de Gabriela de Chevalier, portadora de hemiparisia, formada em História e Design & Estilo, extraído da obra Transversalidade e inclusão: desafios para o educador (Senac, 2009), organizado por Rosane Carneiro, Nely Wyse Abaurre, Monica Armon Serrão et al. Veja mais aqui e aqui.

A EVOLUÇÃO CRIADORA - [...] Todos os seres vivos estão ligados, e todos cedem ao mesmo formidável impulso. O animal tem a planta como ponto de apoio, o homem cavalga na animalidade, e a humanidade inteira, no espaço e no tempo, é um imenso exercito que galopa ao lado de cada um de nós, à frente e atrás de nós, numa arremetida capaz de vencer todas as resistências e de atravessar todos os obstáculos, talvez até a morte. [...]. Trecho extraído da obra A evolução criadora (Delta, 1964), do filosofo francês Henri Bergson (1859-1941), Prêmio Nobel de 1927. Veja mais aqui.

DEVEMOS SEGUI-LO - [...] Cina ainda era demasiado moço para que a vida para ele perdesse toda atração. E a filha de Timão, Antéia, acabou por deixá-lo totalmente escravizado. Anteia não era menos formosa que seu pai, em toda Alexandria. [...] Timão não permitia que ela vivesse encerrada em um gineceu, como as demais mulheres. Dera-lhe uma instrução tão alta quanto podia. [...] Era companheira de Timão em todas as elucubrações. [...] O velho sábio amava-a enternecidademente. [...] Quando Cina a viu, pela primeira vez, teve impetos de erigir para ela um altar no atrio de sua casa e sacrificar pombos em sua honra. Havia conhecido inúmeras mulheres em toda sua vida. Desde as jovens do norte, cujos cílios tinham a cor do trigo maduro, até as da Numídia, negras como as lavas. Mas, até ali, jamais havia encontrado tal beleza nem tão pura alma. Quanto mais a via, mais a admirava. Quanto mais a ouvia falar, mais supreendido ficava. De tal forma se sentia enfeitiçado pelo seu encanto que, às vezes, embora nãoa acreditasse em deuses, surpreendia-sae pensandop que talvez Anteia não fosse filha de Timão e sim de algum deus. [...] Anteia era diferente de outras mulheres. Desejou que fosse sua, para poder adorá-la. Para obter tal favor estava pronto a dar a própria vida. Para ele, valia mais ser pobre, junto dela, do que ser poderoso como César, sem ela. O amor apossou-se dele com a mesma força com que um remoinho se apoderava de quem se aproxima de seu circulo. De tal forma o dominava, que absorvera seus pensamentos, sua alma, seus dias e suas noites. Nada mais existia para Cina senão o amor por Anteia. Por fim, Anteia também se sentiu atingida pelo mesmo sentimento. [...]. Trecho do conto Devemos segui-lo, extraído da obra O faroleiro & outros contos (Delta, 1962), do escritor polaco & Prêmio Nobel de Literatura de 1905, Henryk Sienkiewicz (1846-1916).

DOIS POEMASESTRELA: Estrela / companheira / se és compassiva / conosco irás junto / este ano e vamos vê-la / na glacial distância inteira / brilhante viva / a teus pés muitos. O FOGO: Nestes dias de inverno / a lareira acendemos: / sçao dois seres somente / a fazer sacrifício. / O nosso combustível: / os jornais deste dia ; frio devem servir / colaunas de palabras / e homens no local / escuro onde arde o fogo. / E colhemos então / e gentilmente pomos / as estilhas de pau / que nos restam, até / havermos erigido / uma espécie de pira / e tumba para a coisa / pesada a levantamos / nos braços, oferenda / ou criança, e a pomos / sobre as barras de ferro / junto agora acendemos ; e a besta salta viva / e ficamos de pé / sangrando com a luz. Poemas do poeta modernista estadunidense William Burford.

CIRANDA FEMININA NA MATA SUL
Acontecerá nesta quarta, às 10hs, na Biblioteca Fenelon Barreto, o lançamento do livro Ciranda feminista na Mata Sul: uma luta em movimento, publicação desenvolvida sob a coordenação do SOS Corpo e promovida pela Articulação de Mulheres da Mata Sul, sob a condução de Eliane Nascimento, Alexsandra Bezerra e Maria Solange do Rego. Veja mais aqui.

Veja mais:
Crônica de amor para ela, Senhora Magdala de José Condé, Magdalena de Pablo Milanés & Joaquín Sabina, Fonte, a arte de Ruth Kligman & Todo dia é dia da mulher aqui.
O Trabalho da Mulher aqui.
Saúde da Mulher aqui.
Kid Malvadeza aqui.
Tzvetan Todorov, Oduvaldo Vianna Filho, Os epigramas de Marcial, Jacques Rivette, Frédéric Chopin & Artur Moreira Lima, Sandro Botticelli, Carmen Silvia Presotto & Egumbigos no país dos invisíveis aqui.
Antonio Gramsci aqui.
Fecamepa, Psicologia Escolar, Sonhoterapia, Direito & Família Mutante aqui.
O Monge & o executivo, Neuropsicologia, Ressocialização Penal &Educação aqui.
Sexualidade na terceira idade aqui.
Homossexualidade e Educação Sexual aqui.
Globalização, Educação & Formação, Direito Ambiental & Psicologia Escolar aqui.
Federico Garcia Lorca aqui.
Aids & Educação aqui.
Sincretismo Religioso aqui.
Racismo aqui.
Levando os direitos a sério de Ronald Dworkin aqui.
Ética & moral aqui.
A luta pelo direito de Rudolf Von Ihering aqui.
Abuso sexual, Sonhos lúcidos, Antropologia & Psicologia Escolar aqui.
Cândido ou o otimismo de Voltaire aqui.
A liberdade de Espinosa aqui.
Cantarau Tataritaritatá: vamos aprumar a conversa aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

A ARTE DE RUTH KLIGMAN
A arte da pintora abstrata estadunidense Ruth Kligman (1930-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

terça-feira, setembro 26, 2017

ÍTALO CALVINO, WILLIAM BLAKE, WORDSWORTH, SUZANA ALBORNOZ, SOLIDARIEDADE & LIBRAS NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A QUEM INTERESSAR POSSA – Aprendi a ver na escuridão, a luz restava dentro de mim como um minúsculo pavio aceso, mostrando o fim do túnel e emanando cores de todos os matizes que se fizeram reais além dos meus sentidos. Aprendi da luz todas as cores, e ao abrir os olhos entendi a importância do olhar: via a mim e todas as coisas, visíveis e invisíveis, a festa emanada do Sol. Aprendi a ouvir no silêncio, todos os tons e sons harmonicamente entrelaçados na vida: os passos rastejantes dos seres, o estalido dos ovos e das sementes, o nascimento dos frutos, as vozes mudas com seus dizeres, o canto dos pássaros, os ventos nos galhos pelo chão das poeiras, a corrente dos rios e as ondas do mar, a queda dos precipícios, o ápice das alturas, a música das esferas. Em mim tudo é vivo e comunga no infinitude. Aprendi a calar para saber tudo, foi quando compreendi que tudo me dizia respeito e se completava em mim para uma só unidade. Com isso, aprendi a espalmar as mãos mesmo diante das recusas ou desafetos, a abrir meus braços mesmo que houvesse hostilidade ou indiferença, a entender no outro o que em mim era insatisfação, porque também era minha e assim se fez para todos. Sou de mãos dadas com quem não sabe das ruas e seus movimentos, sou braços dados com quem não sabe a luz pra seguir, sou peito aberto a quem não sabe os caminhos aonde vão dar. Hoje ao meu ombro amparo a dor da infelicidade que pode ser do outro e agora também minha; a sua, quem sabe, sou solidário de antemão para que possamos encontrar uma forma de manifestar a satisfação de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com obras do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938): Concerto em fá maior na interpretação de Yuja Wang, Rapsody in blue na interpretação de Lola Astanova & All Star Orchestra, e Summertime com a All Virginia Orchestra; a cantora Gal Costa interpretando O amor, Força estranha, Açaí com Roupa Nova & o show Acústico MTV; o instrumentista, arranjador e compositor Marcos Nimrichter interpretando Libertango, Neptune, Deus fotte & Briguinha de músicos malucos no coreto & A taça; e a  atriz e cantora carioca radicada na Islândia, Jussanam, cantando Desafinado, O telefonema, Quer saber & Como nossos pais. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIASe as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito. Trecho do poema extraído da obra O matrimônio do céu e do inferno (Iluminuras, 1995), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui, aqui e aqui

INCLUSÃO SOCIAL DO SURDO - [...] O reconhecimento da LIBRAS como primeira língua da comunidade de surdos está amparada pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. A Lei foi criada devido à luta pela conquista de direitos dos surdos em espaços de cidadania a exemplo de: escola, sociedade, igreja e outros que os levem a adquirir independência. A inclusão leva a reconhecer a importância da LIBRAS no âmbito escolar, profissional e da sociedade em geral. [...] A gestão educacional pontuada para resultados eficazes passa pelo ensino e vivencia cotidiana, deparando-se no contexto analisado com professores que buscam sempre dar o melhor para seus alunos com a consciência de melhorar a técnica de ensino de Libras numa abordagem de qualificação, ao aperfeiçoamento a fim de que realize sua função da melhor maneira com o intuito de melhores resultados do educando. [...] É preciso fortalecer as conquistas e buscar novos rumos através de experiências mais concretas para a otimização de atividades educacionais no ensino sempre será um desafio. Espera-se que no futuro o valor das pessoas surdas, seja ainda mais reconhecido além de que a atuação atualmente delimitada ao contexto dos surdos, ainda possa ser mais efetivada de forma global e irrestrita. Que não fique somente nas legislações, posto que os mesmos já perderam muito do seu tempo sendo segregados durante anos a fio em escolas especializadas, que só serviram de pano de fundo para a grande discriminação que assola o país, além de não acrescentar nada ao processo de desenvolvimento do surdo enquanto pessoa ou como cidadão. [...]. Trechos extraídos do artigo Inclusão social do surdo: reflexões sobre as contribuições da Lei 10.436/2002 á educação, aos profissionais e á sociedade atual (E-Gov, 2012), da advogada e doutoranda em Direito Civil pela UBA, Laine Reis Araújo. Veja mais aqui e aqui.

EDUCAÇÃO LIBERTADORA - [...] No Brasil, como em quase todo mundo, a escola regular vem sendo o único meio de acesso à habilitação e ao diploma. E, assim sendo, é um importante meio de ascensão social, como também, ou principalmente, um meio certo de controle da ascensão social, embora não seja o único meio possível de acesso á educação e à cultura. Neste seu desempenho monopolizador da educação oficialmente reconhecida, a escola se alia à burocracia, e a sua aliança se exerce, muitas vezes, como domínio e duração desta sobre aquela. Em troca, os órgãos de planejamento do sistema educacional se limitam ao sistema escolar. Escola e burocracia interdependentes, a educação inibe incalculáveis chances de experimentar, revitalizar-se, superar-se [...]. Trecho da obra Por uma educação libertadora (Vozes, 1976), da educadora, professora, ficcionista, ensaísta, pesquisadora e intelectual engajada nos problemas ligados à educação e à condição feminina no mundo contemporâneo, Suzana Albornoz Stein. Veja mais aqui e aqui.

O VISCONDE PARTIDO AO MEIO – [...] Assim, entre caridade e terror decorriam as nossas vidas. O Bom (como era chamada a metade esquerda de meu tio, em contraposição ao Mesquinho, que era a outra), era, então, tido como santo. Os aleijados, os pobres, as mulheres traídas, todos os que tinham um pesar, corriam até ele. Poderia ter se aproveitado e se tornado ele o visconde. Ao contrario, continuava como vagabundo, circulando meio enrolado em seu manto negro, apoiado na muleta, com a meia branca e azul cheia de remendos, fazendo o bem tanto a quem lhe podia quanto a quem o expulsava com seus modos. [...]. Trecho extraído da obra O visconde partido ao meio (Cia. Das Letras, 1999), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PRENÚNCIOS DA IMORTALIDADEI - Houve um tempo em que a relva, a fonte, o rio, a mata / E o horizonte se vestiam / De uma luz grata, / — Visto que assim me pareciam —, / E da opulência que nos sonhos é inata. / Hoje está sendo tal como foi outrora;—/ Seja o que for, eu, / Na luz ou breu, / Eu não verei jamais o que se foi embora. II - O arco-íris vai, vem, / E a rosa nos faz bem; / Alegre, a lua nota / o céu está completamente nu; à luz / De estrelas, a água brota / E é belo o que ela reproduz; / A aurora é sempre um nascimento; / E contudo, eu sei muito bem / Que a glória passou por nós em algum momento. III - Agora, enquanto as aves cantam de contento / E enquanto o cordeirinho salta / Ao som do que o exalta, / A mim apenas veio uma ideia de dor: / Enunciei-o e de repente ela passou, / E me encho de alento: / Trombeteiam cascatas frente ao precipício; / Minha dor não mais matará o clima opulento; / Ouço o Eco que vem das grutas e ouço o Vento / Que encerra em si o sono tal como um resquício, / E alegre é a terra; / Todo o mar / Vem a se ufanar / E a Fera se aferra / Ao sono na serra;— / Você, Criança, / Menino pastor, grite até onde, Ó Criança, o grito alcança! IV - E vocês, Criaturas, eu escuto afinal / O que dizem entre vocês / E vejo o céu que frui também vossa altivez; / Meu ser em vosso festival, / Coroado, o total / De vossa dádiva — ah!, eu sinto… Ó mal!, / Fosse eu soturno enquanto / A Terra se adornasse, / Manhã de Maio face / A qual a infância nasce / No Mundo, / No vale remoto e fecundo;/ Enquanto o sol nos acalora / E o Bebê sobe aos braços da Mãe: — ouço agora! / Com alegria eu ouço, eu ouço! / — Mas uma, uma Árvore existe, / Uma Planície que em minh’alma inda persiste, / Lembrando o que se foi e hoje e me deixa triste: / E o Amor-Perfeito / Diz: Que foi feito / Do vislumbre visionário? / Dos sonhos? Do esplendor vário? / V - Nosso nascer não passa de sono e de oblívio: / A Alma que nasce com nós, nosso Astro Vital, / Vive longe de onde vive o / Trajeto de seu fanal; / Não no esquecimento inteiro / Nem na nudez por inteiro, / Mas, arrastando nuvens de glória, viemos / De Deus — nele vivemos —: / É o Céu que a nós circunda e a nossa meninice! / As sombras da prisão começam a cobrir / O Menino que cresce; / Mas ele vê a luz, sabe aonde ela vai ir / E sabe que ela o acresce; / A Juventude, em sacerdócio à Natureza, / Viaja ao Leste numa empresa / Guiada pela / Visão mais bela; / E ao largo o Homem vê que sua vida acaba / E que na luz do hábito ela enfim desaba. VI - A Terra enche o colo com prazeres seus; / A Terra possui ânsias que ela mesma mantém, / E, possuindo um algo maternal também, / E honesta em seu intuito, / A Terra, ama-de-leite, empenha-se / P’ra que o filho adotivo, a Humanidade, abstenha-se / De todos seus apogeus / E do que nele for trajetória e for muito. VII - Aprecie a Criança e a plêiade de encantos, / Tesouro de seis anos menor que um pigmeu! / Contemple a paz com que ele enfim adormeceu, / Preocupado co’os beijos de sua mãe, tantos!, / E as tantas bênçãos que seu pai lhe concedeu! / Veja, a seus pés, alguma tabela infantil, / Algum fragmento de seu sonho de ser humano, / Moldado graças a uma arte ainda pueril; / Um casamento ou um festival, / Um lamento ou um funeral; / E a isto ele é servil, / E nisto ele forma seu canto: / Assim afinar-se-á enquanto / Dialoga sobre o amor, o sucesso ou o dano; / Não demorará tanto / Até que largue isto / E de novo, e imprevisto, / Com alegria o Ator mirim faça outro ardil; / Enchendo pouco a pouco sua própria “farsa” / De Personagens, ‘té que a Vida fique esparsa / E, colocando-o na barca, a Vida o ressarça; / Como se imitar fosse / Tudo o que ele fosse. VIII - Você, cujo semblante exterior desmente / Teu valor inerente; / Você, grande Filósofo, que mantém ainda / A herança; você, que é a Visão entre a cegueira, / Que, surdo e mudo, lê a profundeza infinda / Sempre assombrada pela mente altaneira, — / Ó Vidente!, Ó Profeta! / Que a verdade afeta / E a quem nós procuramos de qualquer maneira, / Por toda a vida, presos no escuro da cova; / Você, sobre quem flui a Fonte da Existência / Que escraviza ao mesmo tempo que renova, / Algo impossível de se ignorar a presença; / A quem a cova / É cama solitária sem sentido ou luz / Do que lá fora luz, / Um lugar onde se descansa e onde se pensa; / Você, Criança, ainda ilustre na amplitude / Da aérea liberdade de tua atitude, / P’ra quê, com dores tão solenes, provocar / Os anos a te darem o que eles vão te dar, / Assim tão cega e santa imersa na batalha? / Não tarda e teu espírito cai no retardo / De uma rotina que imporá a ti um fardo / Que pese e quase como a vida se equivalha! IX - Alegria!, que em nós / Inda palpita / E repercute a voz — / E nos evita! / Pensar no meu passado faz com que em mim nasça / Uma bênção perpétua: não aquela graça / Que glorifica aquele a quem ela agracia — / Prazer e liberdade, o credo que perpassa / A Infância inteira, na labuta ou calmaria, / Pleno do tatalar da fé que se atavia:— / Nem por estes elevo / Canções de louvor e enlevo; / Mas pelas questões obstinadas / De senso e coisas externadas / Distantes de nós, sublimadas; /  Vagos temores da Criatura / Que vaga em meio a mundos não realizados, / Altos instintos onde a efêmera Figura / Treme tal como tremem os Sentenciados: / Por tais afetos prévios / E recordações breves, o / Que vierem a ser, sejam, / Pois são fontes de luz e nos clarejam, / Pois são pontos de luz de nosso olhar; /  Guarde a estima por nós, guardando o seu poder / De que a turba dos anos se encurte no Ser / Da Calmaria imorredoura: o despertar / P’ra vida eterna: / O que a surdez e a insânia que às vezes governa, / O Pai, o Filho / E o que vê na alegria um odioso empecilho, / Não poderão matar nem retirar o brilho! / Assim, sendo o clima propício, / Por distantes que estejamos, / Sentimos sempre aquele mar sem fim ou início / Que nos trouxe aonde estamos, / E vemos sempre a Infância que brinca na areia, / E ouvimos sempre o som do mar que assenhoreia. X - Pois cantem, Aves, cantem canções de contento! / E que o Cordeiro salte, / Alegre, ao som que o exalte! / Nossas vozes serão uma só em pensamento, / Você que brinca ou flauteia / E que tem na sua veia / O agrado que Maio alardeia! / Pois muito embora a glória, que antes cintilara, / Tenha tornado-se distante e coisa rara, / E embora nada traga novamente a hora / Do esplendor no relvado, ou da flor que vigora; / Nós não vamos chorar; iremos / Achar forças no que tivemos / Um dia; no afeto primeiro /  Que ainda se mantém inteiro; / No pensamento que consola / E medra quando a dor desola; /  Na fé que enxerga além da morte / E na sabedoria do que nós vivemos. XI - E vocês, Bosques, Fontes, Picos, Matagais, / Não previram que o amor já não seria mais! / E entanto, o coração de meu coração sente / O poder de vocês; eu abandonei somente / Um prazer p’ra viver vosso ciclo usual. / Amo o rio que em seu canal se convulsiona, / Mais do que quando, assim como ele, eu fui frugal; / A luz da Aurora é pura e, como habitual, / Emociona; / As nuvens que rodeiam o pôr-do-sol ganham / O tom-de-cor daquele olhar que mantivera / Vigília sobre nossa tênue Primavera; / Outras raças têm sido, e outras glórias se apanham. / Graças ao coração, que fizemos morada, / Graças a todo o seu temor, carinho e encanto, / Sei que da flor mais simples pode ser gerada / Meditação profunda demais para o pranto. Poema extraído da obra Memórias de Infância (Poems -  Dell Publishing, 1960), do poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850). Veja mais aqui e aqui.

UM POEMA EM CADA ÁRVORE
Realizou-se no último domingo, dia 24/09, no Passeio Público de Curitiba, o evento Um poema em cada árvore, promovido pelo grupo Escritibas Na Rua, com o objetivo de proporcionar um espaço de leitura poética para as pessoas que freqüentaram o parque, expondo o trabalho de escritores independentes pela passagem comemorativa do Dia da Árvore. Marquei presença com o meu poema Colhendo sonhos nos galhos da vida e Sonhar marés da poeta Luciah Lopez. Veja mais aqui.

Veja mais:
O pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) aqui, aqui e aqui.
A música de George Gershwin aqui, aqui e aqui,
A literatura de Luis Fernando Veríssimo aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, setembro 19, 2012

MARIE DARRIEUSSECQ, SUBIRATS, BLAKE, JORGE DE SENA, PARACELSO, KLEE, ELLEN ARKBRO & LITERÓTICA

XIMÊNIA, A PRINSPA DO COITÉ


Luiz Alberto Machado


Ximênia, menina do mato, moreninha brejeira, matutinha acesa com olhos bem vivos dos dias reais de sol, nasceu nos rincões do cafundó de Judas, lá na beira das matas, morros e grotões, no meio da vida com seus rios, árvores, brejos, aves e bichos.

Nasceu filha de Zé-do-pente, um bóia-fria que não tinha paradeiro, e Judinalva, uma ticoqueira das plantações de cana.

O pai saía de casa e só voltava seis meses depois. Agora mesmo, por causa da entresafra canavieira ali, está no sul, cortando cana para buscar seu sustento.

A mãe quando não tinha serviço na roça, lavava roupa das famílias ou servia de faxineira nas casas onde fosse requisitada.

Avós? Parentes? A sua árvore genealógica parava nos pais, vez que os avós maternos e paternos eram todos ignorados na certidão de nascimento.

Moravam ali, nem Ximênia sabia onde era. Cresceu danadinha a dar carreira na rodagem, a pular corda, porteira, mata-burro e idade. E quanto mais crescia mantinha aquela ingênua infantilidade de promissora parideira.



Moça feita, taluda, uma maravilha! Reboladeira, perna torneada, quartuda, jeitão faceiro, quanta faceirice! O olhar penetrante, peitinhos miúdos e duros, e aquele aroma feminil contagiando o ar e o coração dos matutos. 

De manhã, acordava embalada com a voz do locutor de sua predileção no rádio. Como suspirava.

No mormaço da tarde, folheava revistas gastas com as fotos dos galãs de seus devaneios.

No breu da noite, fixada nas novelas da única televisão local, acompanhando um a um todos os capítulos de todas as novelas mais dramáticas e depois se deitava com o sonho de ver-se contemplada pela visita inesperada do seu príncipe encantado que viria, não se sabe de onde, montado no seu cavalo branco.

Esse príncipe fabricado nas suas idéias reunia todas as belezuras fisionômicas e corporais dos seus ídolos mais devotados. O mais lindo de todos os homens, o mais corpulento, espadaúdo, gigantesco em fortaleza e lindo de morrer. E esse seu Apolo perseguia seus mais demorados sonhos e fantasias nas horas minguadas de toda sua existência. Coitada, como esperava. Nem aceitava namorar com ninguém, alegando que o seu namorado morava longe e qualquer dia a levaria dali.

Os enamorados se enciumavam e zangados já taxavam por fantasminha essa sua fixação oculta.

Os anos se passaram, Ximênia esborrava a casa dos vinte e já beirando os trinta desabrochava em maior e cada vez mais formosura. E quando ela botava o pé na rua, parecia que o sol brilhava mais espetacular e todas as coisas se tornavam verdadeiros encantamentos fantásticos. Não havia quem não se encantasse com o seu fascínio. E ela sonhando com aquele lindão que viria fazê-la feliz remexendo as entranhas por baixo do seu vestido de chita, carregando essa idéia fixa guardada na calcinha, descontrolando sua tremedeira e vitalidade, descortinando seus mistérios de águas caudalosas e profundas.

Sonhava tanto de ficar com a fonte molhadinha, com os bicos dos peitos duros feito um pitoco proeminente a querer saltar fora, com as pernas inquietas e trepidantes e resfolegando abrasada.

Já mais de trinta anos de espera e a fantasia não dava um por cento sequer de descontos, mantida a todo custo em sua carne, alma e desejos.

Vão-se os dias e as noites e ela delirantemente apaixonada por uma idéia que só existia no que era de seu. E era o mais importante justo porque era só seu. Sabia que existia em qualquer lugar ignoto e, desesperada, chegava a se perguntar a razão de ainda não ter vindo alentar sua agonia.

Tanto esperou de quase ficar mais que impaciente, endoidada, rezando a todo instante para que seu salvador aparecesse e, cada vez mais, pedir, suplicar, implorar aos céus e a tudo que fosse possível. Elegia tudo como santificado, desde galho, árvores, passarinhos, cruzes, sinais, tudo, e nada dele apontar no horizonte.



Aquilo já transfigurava seu modo de ser, a ponto de só de pensar nele já alcançava múltiplos orgasmos, embolando na cama afogueada. E foi justo num desses momentos de delírio exagerado, ninguém em casa, eis que de fora ouviram-se os gemidos aperreados dela.

Nessa hora alguém acudiu e ela ao tentar abrir os olhos no meio do espasmo, enxergara aquele que visitara sempre e a todos os momentos, os seus pensamentos. Ela, então, fora de si e incontida de felicidade agarrou-se com força naquele que a socorria no meio da mais insana das loucuras de amor e, despudoramente, integralmente, enlouquecidamente fez-se de comida boa regada pelo prazer.

Nesse dia fez-se festa no seu coração, no seu corpo todo e em sua alma. Foram momentos de delícia em que ela conseguiu mergulhar na mais das exageradas entregas.

Quando veio a si, horas e horas depois, certificou-se que esse príncipe sonhado, não passava de um cabôco brôco das grotas vizinhas, um xucro atarracado que sequer passara, nem de longe, pela sua preferência, mas, mesmo assim, não conseguia se arrepender. Estava feito, estava tratado. Tinha que casar, era a ordem dali. E assim foi numa tarde de domingo sem muita graça, levada pela simplicidade e penúria para o altar da capelinha do Padre Bidião que, em nome do pai, do filho e do Espírito Santo, deu posse abençoada ao nubente cristão de sua mais nova propriedade. E assim foi que Ximênia, a ditosa prinspa do coité, se encontrava de agora e para todo o sempre, com juramento de fidelidade e doação até que a morte os separasse, casada com Zé Bilola, um matuto ogro das brenhas mais fechadas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo, aqui e aqui.


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DITOS & DESDITOS - A medicina se fundamenta na natureza, a natureza é a medicina, e somente naquela devem os homens buscá-la. A natureza é o mestre do médico, já que ela é mais antiga do que ele e ela existe dentro e fora do homem. A natureza é a causa e a cura das doenças. Só a dose faz o veneno. O que Deus quer são nossos corações e não as cerimônias, já que com elas a fé nele perece. Se queremos buscar a Deus, devemos buscá-lo dentro de nós mesmos, pois fora de nós jamais o encontraremos. Todos são interligados. O céu e a terra, ar e água. Todos são, uma só coisa; não quatro, e não duas, e não três, mas um. Se não estiverem juntos, há apenas uma peça incompleta. Pensamento do médico e alquimista suíço Paracelso (1493-1541). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A arte não existe para produzir o visível, e sim para tornar visível o que está além. A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver. Um olho vê, o outro sente. O objeto expande-se além dos limites da sua aparência pelo conhecimento que temos de que ele significa mais do que o que vemos exteriormente, com os nossos olhos. A gente encontra o próprio estilo, quando não consegue fazer as coisas de outra maneira. O pior acontece quando a ciência é considerada uma forma de arte. Pensamento do poeta e pintor suíço Paul Klee (1879—1940). Veja mais aqui e aqui.

 

MÚSICAA música combina pensamento e sentimento de uma forma que é totalmente impossível de separar no produto final. Pensamento da compositora de vanguarda sueca Ellen Arkbro, que trabalha em grande parte no temperamento intencional e seu instrumento principal é o órgão de tubos, e ela também compõe para metais e ventos.

 

ADEUS AO PARAÍSO - [...] O século XX, com suas inacabáveis paisagens de ruínas e genocídios, com suas diversas ameaças de destruição global, pôs fim às representações clássicas do progresso moral da humanidade. Seu lugar foi ocupado por grande variedade de metáforas degradadas e ícones propagandísticos, assim como pelas incontáveis expressões de fundamentalismos escatológicos que coroaram o fim do século. Ao mesmo tempo, a filosofia e a literatura modernas substituíram o progresso civilizatório em direção ao reino ideal de lugar nenhum, a utopia do retorno da Idade de Ouro, pelo seu contrário: o futuro como catástrofe. Do futurismo às utopias revolucionárias modernas, seus sinais do progresso se confundiram, ao mesmo tempo, com uma nova ordem civilizatória global os sistemas totalitários modernos. [...] O diálogo de linguagens e funções diferentes articula em torno da arte uma comunidade, social e culturalmente descontínua. E o faz de maneira aberta, transparente. E isso quer dizer que a arquitetura é concebida como meio de integração da diversidade lingüística de uma comunidade e de suas expressões espontâneas e cotidianas. Cultura popular, arte popular, museu aberto, seriam as categorias apropriadas para definir esse centro... Tudo isso está presente nele. Mas não é o aspecto mais importante a definir seu projeto artístico. Muito mais intenso é o novo vínculo que essa arquitetura estabelece entre cultura e cidade, sob a interação de linguagens locais, regionais e internacionais. O relevante nesse conjunto arquitetônico é que ele contempla as novas condições de produção e comunicação da megalópole pós-industrial, sem com isso abandonar aquele espírito da utopia, do jogo e da liberdade que um dia também distinguiu as vanguardas da América Latina. [...]. Trechos extraídos da obra A penúltima visão do paraíso - Ensaios sobre memória e globalização (Studio Nobel, 2001), do filósofo espanhol Eduardo Subirats.

 

OBVIEDADES - [...] Então a faca afunda. O manobrista lhe dá dois empurrões para fazê-lo cruzar a casca, após o que, é como se a lâmina longa derretesse em afundando para o cabo através da gordura do pescoço. A princípio o javali não não percebe nada, fica alguns segundos deitado para pensar um pouco. Se! Ele então entende que está sendo morto e uiva em gritos abafados até não poder mais. [...] Eu sei até que ponto esta história será capaz de semear problemas e angústias, até que ponto não vai perturbar as pessoas. Confio que o editor que concordar em levar em carregar este manuscrito se exporá a problemas infinitos. A prisão provavelmente não será para ele não poupado, e quero pedir desculpas a ele imediatamente pelo inconveniente. [...] peço ao leitor, ao leitor desempregado em particular, que me perdoe por estes palavras indecentes. Mas, infelizmente, não serei indecente neste livro; e Peço a quem possa se ofender com isso que gentilmente com licença. [...] Eu não podia mais comer um sanduíche de presunto, me dava náuseas, uma vez até vomitei na praça [...] Você tinha que ver como eu comia, essas maçãs. Eu nunca tive tempo suficiente na praça para comê-los bem, para mastigá-los bem, fez muito suco na minha boca, esmagou sob meus dentes, ficou com gosto! Meus poucos minutos de descanso na praça com meu maçãs, entre os pássaros, era, por assim dizer, a felicidade da minha vida. Eu queria verde, natureza. [...] Eu entendo o quão chocante e desagradável deve ser ler uma jovem que se expressa assim, mas devo dizer também que agora não sou mais exatamente o mesmo que antes, e que esses tipos de considerações começam a escapar. [...] Na praça sempre encontrava botões de ouro, era primavera de novo, e mastiguei-os lentamente em segredo, achei que tinham gosto de manteiga e prado [...] Quando chegou o verão não encontrei tantas flores e caí na grama de maneira bem idiota, e no outono descobri as castanhas [...] descasquei-as facilmente, dourei-as, as minhas unhas ficaram muito duras e mais corte do que antes. Meus dentes eram muito fortes também [...] eu constantemente tinha com fome, eu teria comido qualquer coisa. Eu teria comido cascas, frutas blets, bolotas, minhocas. [...] Eu estava descansando. Fiquei na minha cama e não tive mais dores nas costas. eu tinha menos de inchaço no rosto. Obriguei-me a encontrar uma figura humana, dormi muito, penteava o cabelo. Meu cabelo estava quase todo no ralo mas eles estavam recuando agora. Cortei minhas unhas, raspei minhas pernas e Eu vi meus seios desinflarem, ficarem visíveis de mês para mês, não havia mais do que as manchas escuras nos mamilos [...] eu tinha engordado muito, ficando ali sem mover. [...] Foi assim que por trás das vidraças lascadas da pia encontrei livros, e então eu encontrei em todos os lugares, uma infecção, foi até no meu colchão. Tentei comê-los, no começo, mas realmente estava muito seco [...] comecei a ler todos os livros que encontrei, foi passando o tempo e esqueça a fome porque rapidamente chegamos ao fim dos cadáveres [...] Ouvi um grito do lado do banco. Yvan estava de pé, ele estava levantando sua rosto para a lua e ele balançou o punho para ela. Isso me chocou. E então Ivan caiu de quatro. Suas costas arquearam. Suas roupas rangiam o tempo todo longos e longos cabelos grisalhos eriçados através da lágrima, seu corpo alargou e também rachou nos ombros e nas mangas. O rosto de Yvan era tudo distorcido, comprido e anguloso, brilhava com baba e dentes e seu cabelo tinha empurrou até cobrir completamente seus ombros, grossos [...] Suas mãos estavam enrolada no chão, como se cortada, enterrada, agarrada ao chão, cheia de nós e garras [...] Algo gritou em seu corpo, subiu para ele barriga como quando sinto o cheiro da morte. [...]. Trechos extraídos da obra Truismes (P.O.L, 1996), da escritora e psicanalista francesa Marie Darrieussecq. Veja mais aqui.

 

O AMOR - O amor não busca agradar a si mesmo, nem destina qualquer cuidado a si próprio, mas se dá facilmente ao outro e constrói um Paraíso no desespero do Inferno. Não revele aos amigos os seus segredos, porque você não sabe se algum se tornará seu inimigo. Não cause ao seu inimigo todo o mal que lhe possa fazer, porque você não sabe se ele se tornará um dia seu amigo. Aqueles que reprimem o desejo assim o fazem porque o seu desejo é fraco o suficiente para ser reprimido. Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito. Uma verdade que é dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar. A abelha atarefada não tem tempo para a tristeza. A ave constrói o ninho; a aranha, a teia; o homem, a amizade. O homem não tem um corpo separado da alma. Aquilo que chamamos de corpo é a parte da alma que se distingue pelos seus cinco sentidos. A energia é a eterna alegria. Exuberância é beleza. A simpatia é o coração a sorrir no rosto. O caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria. Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito. Toda pergunta que pode ser concebida tem uma resposta. É justo que assim deva ser: é do homem a dor e o prazer Aquele que quer fazer o bem ao próximo, deve fazê-lo em termos particulares. O bem geral é a alegação do patife hipócrita e adulador. A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê. Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano! Texto do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui e aqui.

 

POEMA - Falareis de nós como de um sonho. Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos. Paisagens deslizando na distância. Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente. Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis. E as tempestades, as desordens, gritos, violência, escárnio, confusão odienta, primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam - apenas uma angústia melancólica, sobre a qual sonhareis a idade de oiro. E, em segredo, saudosos, enlevados, falareis de nós - de nós! - como de um sonho. Poema do poeta, dramaturgo e crítico português Jorge de Sena (1919-1978). Veja mais aqui e aqui.

 


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá
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