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domingo, outubro 24, 2021

LEYLA PERRONE-MOISÉS, ABDULRAZAK GURNAH, GAVIN BRYARS, HELENO ALFONSO & ROGEL SAMUEL

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre as mutamorfoses e obsolescência... Ao som do album The Fifth Century (ECM, 2016), do compositor ingles Gavin Bryars, com o coral The Crossing & quarteto de saxofones PRISM, condução de Donald Nally. - Onde estou e pronde voo nenhuma liga, o tempo assina outra, como se minhas digitais dissolvessem a cada instante e desexistisse de vez no caos. Quase dou fé de que inexisto mesmo e tudo não passasse de um sonho por outro sonhado. Assim lá vou eu nas experiências alucinatórias do que se pode entender por mundo contemporâneo: o volátil, o volúvel, a interdição, os simulacros, o terror incógnito, consumo e descarte, os equívocos e segredos recônditos, as distorções e os mal-entendidos de mortos-vivos, os pós-o-quê com todos os pós-ismos tudo ou quase tudo só artifício. Meio atordoado no meio disso tudo, eis que o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah alerta ao meu ouvido: Foi assim que pessoas como você e eu conhecemos tanto do mundo: lendo sobre isso de pessoas que nos desprezavam... Às vezes, acho que meu destino é viver nos escombros e na confusão de casas desmoronadas. Concordei com o dito e sua presença, ali mesmo era como se eu estivesse metido em carne viva na real Das Leben auf der Praça Roosevelt, da Dea Loher, e me sentisse em casa no reduto miserável das Marias e o mudo Mundo cantarolando Oh! Vos omnis quitransits per viauatendite; atenditeet videte teunsi est dolorsieut dolor meo, e isso depois de muito presenciar acasalamentos de extraterrestres com as insones transeuntes tontas e a loucura de gente que vive só com a roupa do corpo, no meio dos gestos de Aurora provocando desafios a Bingo, enquanto a mãe amargurada com seu choro insistente pelo policial em coma e a memória do filho morto batendo no submundo a denunciar ali não haver vida, nunca foi, qualquer outra coisa que fagulha no meu peito de indignação. E me veio o professor beninense Olabiyi Babalola Yai para cochichar no desalento da minha dor: Os homens são mais eles mesmos quando vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e viver as dos outros. E naquele estado em que estava jamais poderia concordar com isso, mas o poeta Rogel Samuel me recitou: todo amor é assim, plágio / cópia de cópia de si, no mesmo / sim na sua visibilidade... Quanto mais eu relutava só ouvia a escritora argentina Beatriz Sarlo quase berrando ao meu ouvido: Tem um momento de coincidência entre o que você necessita e o que a vida lhe oferece. Você tem que estar acordado para agarrar essa chance. A coragem aparece quando não há mais solução. Acredito que o crime é igualmente horrível, sejam 10 ou 30 mil... Tento ficar a par de tudo que ocorre no presente - para alguns apenas o futuro do pretérito; outros, só o passado mesmo e de novo -, e posso dizer umas duas ou três coisas outras, não mais que isso, que no meio das mutamorfoses e a obsolescência já sei que não basta apenas dar enter, porque tantos delírios pseudo-intelectuais com suas masturbações e impulsos neognósticos sobrando entre anoréxicos e voyeuristas, craquers, hackers e biomakers na boa, extremófilos e intimistas surfando comigo de mãos dadas com todo mundo pela sci-art e o nano-mundo, atravessando o universo escuro e a extremofilia, teratologias biotecknicas, contatos em níveis nanométricos, territórios do perigo e conflitos, afora polimórficas possibilidades, eita! Ufa! Sei e todos estão carecas de saber que a Terra é redonda e insistem em cagar pelos quatro cantos do mundo. Não sei pra quê tanta lei, apensar da compulsoriedade jamais será cumprida. Por isso chamo de gato ao gato e ao governante de patife, porque estamos na primavera de Ginsberg pelo mote recolhido por Paulo Cavalcante no arremate: De circunlóquios eu nada sei. O caso conto, como o caso foi. Na minha frase de dura lei, o ladrão é ladrão, o boi é boi. E ponto final. Ou melhor, reticências...

 


Pássaro preto, traquinagens da infância... - Imagem: Kein Nachwuchs fir den Champion oder Der Junge der New Jersey erschoB VON Israel Horowitz, in Hörspielle im Westdeustschen Rundfunk 2, Halbjahr 1987. - Era eu apenas um menino da beira do rio, travesso solto na buraqueira, proutras paragens eu ia a me divertir levantando as saias das moças, ou me deitando no chão para ver-lhes as intimidades das calcinhas estufadas, quando não brechando sua nudez pelas fechaduras do quarto ou do banheiro, afora futucar com tudo que me aparecesse pela frente. E meu pai ocupado com as gaiolas da coleção e, entre elas, a da sua estimação: a graúna, o brilho sedoso de sua plumagem negra. Desde que a vi pela primeira vez, sonhei que era a morte, o corvo de Poe que, de repente, se tornara penas brilhantes e com o poder mágico, a me prometer antevisões do futuro, a me aconselhar com orientações para fazer isso ou aquilo e era só sonho. Não só, mesmo. Ao amanhecer, de soslaio, mantinha distância dela, queria aproximação nenhuma. E de tanto temê-la, um dia a soltei aproveitando o descuido paterno. Ela voou longe na fuga, mas retornou e me caçou, pegou-me pelo bico e voamos com a suíte L'Oiseau de feu (1919) de Stravinsky. Foi uma grande viagem e me largou longe, no pico de uma montanha que se transformou num palácio abandonado. Depois, deu-me uma chave para que abrisse a primeira porta: cavalos para minha diversão. Outra chave e no quarto, arreios e selins. Outras mais a cada dia, eram sete: e moças ousadas e sedutoras, mulatinhas safadas a me dengar e eu aos regalos no meio de espadas - Para quê tantas? -, um rio de prata e um rio de ouro. Só não sabia, depois de tudo, do castigo: a graúna vingativa tirou-me a roupa, largou-me no deserto e deu-me uma varinha de condão. Errei sozinho e uma princesa à beira do fogo parecia me esperar, não sabia, mas o pai dela adoeceu e para sua cura só três pássaros de plumas. Usei da varinha: os três pássaros foram encontrados e trazidos a ele que logo se restabeleceu, dando uma festa de três dias, nos quais findei nos braços dela que se deleitava como se fosse a demi-mondaine Méry Laurent – aquela mesma atriz nua Vênus Anadyomene do Théâtre des Variétés, e que fora antes Anne ou Rose ou Suzanne ou mesmo Louviot e que a mãe havia vendido sua virgindade debutante para Canorbert por 500 francos ao mês, afora amantes outros ricaços e da vanguarda francesa, até tornar-se musa da minha paixão Mallarmé no quadro de Manet e Nana de Zola. De repente adúlteros flagrados na noite por minha filha Genevieve, não sabíamos o que fazer, mãos e sexo na botija, completamente desnorteado porque ela se transformara noutra pessoa e o escritor estadunidense Roger Shattuck (1923-2005), me falou de seu Conhecimento proibido (Companhia das Letras, 1998) para me contar que ela era apenas uma senhora vitoriana – na verdade e para meu espanto era a mula sem cabeça -, e relutava agora contra a teoria de Darwin: Descender de macacos! Meu caro, esperamos que não seja verdade, mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!... Não era mais aquela, nunca foi, só pode ser outra. E mais insistia na sua Planolândia, como uma senhora de bem, patriota roxa e acima de todos e quaisquer pecados ou suspeitas, e eu fisgado pela veemência de seus seios fartos no desatento desabotoado de sua blusa justa colada naquela excelsa arquitetura de fêmea e a libido acesa e incontrolável com o lascão da saia exaltando suas coxas volumosas e eu clamando pelo amor de Deus para ela se acalmar e poder reconduzi-la à alcova.

 


Apenas escrevo... Imagem: Comovida medida de distância (1988), da videoartista palestina, Mona Hatoum. - Onde estive já não faz o menor sentido, embora não haja como apagar porque o caos piorou o mundo e persistem as cavilações de nem sei quem, talvez de mim mesmo, outros são os motivos e ignoro por completa ausência de significado. Disparo intuições, uma das pernas dos óculos se quebrou e eu precisava ler e reler, agora apenas esperar com os trechos de um poema do livro Oropa França e Bahia (Edizioni della Meridiana, 2004), do poeta Heleno Alfonso Oliveira (1941-1995) na memória : É ser e remar / Na mesma zoada / Na onda arrastada / Do mar sem raiz. / E Deus não se rima / Bem perto ressoa / Ao centro da alma / Perdida e à toa / Enquanto me vejo / Cantando Marina / Cantando Pessoa / Bem fora do templo... E pelos lapsos do esquecimento, o poema suspenso, só conseguia me lembrar doutra parte: Sem um amparo / Sigo a Sophia. ; Luz de Apolo / Dança de Baco? E uma voz feminina com todo seu perfume aprazível invadiu o ambiente. Quem era? Só muito depois pude ver, era a escritora Leyla Perrone-Moisés: A literatura nasce da literatura. Cada obra nova é continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea... A função revolucionária da literatura não consiste em emitir mensagens revolucionárias, mas em levantar uma dúvida radical sobre o determinismo da história. E mais me falou d’ As Sombras de Olinda (Caminho, 1997), do Clarindo, Clarindo (1990) e do póstumo Se era vera la notte (2003), daquele que um dia dissera: Florença é uma manhã de dezembro / onde cheguei gritando do meu Hades. E já outra, quase irreconhecível camaleoa que sequer adivinhava o nome e propósitos, mas que se fizera mais que felicíssima amante, a me premiar o que da vida mais apetece na festa do seu corpo. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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segunda-feira, fevereiro 12, 2018

ZÉ DA LUZ. LOU SALOMÉ, KANT, DARWIN, ANTÔNIO MARIA, COSTA-GAVRAS, TOMIE OHTAKE, LEONARDO KOSSOY & DERY NASCIMENTO.

QUASE NADA PRA DIZER – Imagem: arte da artista plástica nipo-brasileira Tomie Ohtake (1913-2015). – UMA: SAUDADES, DERY NASCIMENTO (1968-2018) - A vida tem dessas coisas! A cada três horas um novo capítulo e o paroxismo com toda chatura nos intervalos comerciais, uma alfinetada insistente nos quibas e trololó pra se engalobar (como seria salutar se alguém fritasse nessa hora: Cala boca, trepeça!). A gente nem se dá conta que morre a cada dia, afinal a gente nasce pra morrer mesmo, esse o riscado e é preciso aprender a conjugar o verbo direitinho. Sem essa taboada, a gente vive na corda bamba pra tirar o atraso como se desse sentido pra boiar nas ondas dos dias, larali laralá, dois pra lá & trocentos pra cá, ou vice-versa que é mais certo e é assim que o samba vai ao ritmo do paradoxo, pisadas no calo do dedo do pé, ai, chutes na canela, ui, vai na força de vontade, zis leões rugindo no maluvido e o mundo cheio de nó pelas costas, sempre a insistir, persistir e, se der – ninguém dos vizinhos ou entre os amigos comeu bosta de cigano pra adivinhar o que é que vai dar depois dali e avisar pra gente - perseverar, de repente: ué! Já era. Vai ver perdeu a hora, passou batido. E foi? Se liga, meu. Tô ligado – em quê mesmo, hem? Sei lá, bola pra frente. Às vezes, aliás, sempre aquela astúcia de dar o toque na intenção do arrodeio, mas cadê pernas? Respira, senão desmonta e a queda livre vai dar de pés juntos, aí acabou-se o que era doce. Nem carpideiras pra consolo. Muitas soube de lambaios que viraram tabuleiro de pirolito no meio de uma saraivada de bala por rajadas de metralhadora, oxe, pelo jeito não escapava, qual, taí vivinho da silva, parece mais nem houve nada de tão ileso. Doutra feita, quantos de boa índole, assim, sem mais nem menos, dá um tropicão, teibei, prazo de validade vencido e já registrado num carrancudo atestado de óbito, com missa de sétimo dia acertada. Como é? Isso mesmo! Parece mais que o céu anda levando logo as boas almas pro seu time e deixar só as trepeças ruins pra torrar o mundo e a humanidade. Duvida? Saudades, Dery. DUAS: DA IMPRENSA & DOS NOTICIÁRIOS – Fogo morro acima, água ladeira abaixo, entra ano e sai ano, a eloquência parece mais hipocrisia. A imprensa anuncia a menor inflação da história e tudo sobe, alardeia a retomada “histórica” (sic, parece mais aquela do milagre de 70) da economia superavitária com a indústria e o comercio vendendo tudo e a gente só sacando crise, crise e crise, com um rombo de bilhões de dólares no déficit público. Que droga é nove? Orwell, Huxley? Vamos lá: as forças armadas subindo o morro dos bandidos nas periferias do Brasil, ora, ora, culatra da braba, os principais e maiores estão em Brasília, sobretudo nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. E mais: agora é pra valer, qualquer ilação vira convicção e isso, pra acusação, sem provas nem nada, exige-se justiça e pei buft: condenação certa, o que tem suas vantagens: boato com cachete denorex ganha patamar de sofisma que, pra quem não sabe, dá pra verossimilhança uma certidão da verdade ou xeque mate jurídico. Ou seja: o que é não é e fica sendo, entendeu? Quantas heurísticas, tantas hermenêuticas. Na dúvida, aparecem os felizardos – tem gente que mente que o cu apita! Enquanto isso era uma vez uma reputação! No meio de cobra criada, quem não é sabido, é alesado. Um recado: quem conhecer alguém preso cumprindo pena em qualquer penitenciária, avisa que tem ministro do STF que é só um bom papo e dindim e o alvará de soltura sai na hora. Uma coisa boa, acho, pelo menos acabará com a superlotação prisional, né não? TRÊS: PRA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE - Pra quem tanto foi, perdeu a viagem e voltou com mala e cuia, cada partida é um ponto de chegada! Dumas coisas aprendi nas quebradas: quem faz a mala também desiste! Quem casa sabe que o amor não é bem assim e o buraco que era por certo ali é mais embaixo. Quando não é uma coisa, é outra; cuspiu pra cima quem não sai do lugar, finda gongado com o cuspe na cara. Afora isso, nem todo domingo é de páscoa, nem toda segunda é ressaca, nem toda terça é carnaval, nem toda quarta é de cinzas, nem toda quinta é de finados, nem toda sexta é santa, nem todo sábado é Zé-pereira. Por isso a gente sente falta dos mortos, eram mais divertidos. Eu queria era saber o que não sei, aó saberia tudo, ou nada. Que coisa! Brincando de ordenar os termos: que a vida tem valia se a gente é quem faz. Moral da história: duvido, graças a Deus. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Frevo & Folia Caeté mais homenagem ao compositor e maestro Dery Nascimento (1968-2018): Suite Palmares 1 e 2, Qualquer coisa que se pareça com algo 68, Quando o pensamento via, Reencontro, Cais dos meus sonhos & Pianarei com Hermeto & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais da homenagem aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se parte de um pensamento já fundamentado, apesar de não mais ter sido desenvolvido, que um outro nos deixou, pode-se esperar ser possível leva-lo, através da reflexão, mais além do que que o perspicaz homem, a quem se deve a primeira centelha dessa luz, o levou. [...]. Trecho extraído da obra Prolegômenos (Abril Cultural, 1980), do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Veja mais aqui.

COISA COM COISA - [...] Posso me aventurar a manifestar minha convicção sobre o grande valor destes estudos [...] Como de cada espécie nascem ainda mais indivíduos dos que podem sobreviver, e como, em consequência disso, há uma luta pela vida, que se repete frequentemente, segue-se que todo ser, se varia, por débil que esta possa ser, de algum modo proveitoso para ele sob as complexas e às vezes variáveis condições da vida terá maior probabilidade de sobreviver e de assim ser naturalmente selecionado. Segundo o poderoso princípio da hereditariedade, toda variedade selecionada tenderá a propagar sua nova e modificada forma. [...] Trecho extraído do livro A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida (Escala, 2009), do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809 — 1882). Veja mais aqui.

DE AMOR E EROTISMO – [...] no amor, são dois mundos estranhos que se encontram, dois contrários; dois mundos entre os quais não existe e nunca poderão existir essas pontes lançadas entre nós, nem aquilo que aparentemente nos está ligando: algo semelhante, familiar e que nos dá a sensação de caminharmos para nós mesmos e em nossos próprios domínios quando dele nos aproximamos. Não é por acaso que, às vezes, o amor e o ódio se assemelham e tendem, por conseguinte, a se alternar na tempestade da paixão. [...]. Também se diz, e não sem razão, que o amor concede sempre a felicidade, mesmo o amor infeliz; isso com a condição de darmos a essa máxima um sentido suficientemente desprovido de sentimentalidade e, por isso, sem levar em conta o parceiro amoroso. Pois, ainda que pareçamos completamente repletos dele, estamos de fato repletos do nosso próprio estado que, como acontece em todos os estados de embriaguez, nos torna incapazes de nos interessarmos objetivamente por qualquer coisa. O objeto amado limita-se, por isso, a ser o desencadeador de nossa agitação. E o faz do mesmo modo que um som ou um perfume, vindos do mundo exterior e lembrando a existência de mundos plenos, podem vaguear num sonho noturno. [...] Um laço aceito para uma vida inteira só é estabelecido ao preço do apagamento de um afeto anterior, do surgimento de uma vontade posterior e destinada a durar, daquilo que se sabe suficientemente rico para conseguir em tais sacrifícios. Porque o que aí se quer vivido até o fim é uma vida que requer a mesma proteção, as mesmas atenções e o mesmo espírito de sacrifício que o filho engendrado pelos corpos. No fundo, isso não é mais nem menos que aquilo que implicitamente se pretende de quem quer que sededique, contra ventos e marés, a um serviço, a uma causa, a que coraria como jamais antes se tivesse se tornado um desertor no exato momento em que foi colocado em perigo [...]. Trechos extraídos da obra Reflexões sobre o amor e O erotismo (Landy, 2005), da escritora russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Veja mais aqui.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORTE - [...] A lamentação da perda de um amigo ou de um parente de sangue é a simples lamentação da presença, da falta, em todos os sentidos, material, que o morto começou a fazer aos que ficaram. Tanto isto é uma indiscutivcl verdade, que o tempo vai desabituando-nos a viver sem os nossos mortos mais queridos, substituindo-os por vivos que, ao nosso afeto, assumem grande importância, causando mesmo a nova impressão de que, se não existissem precisariam ser inventados e, se morressem, seria impossível resistir à sua perda. [...] Dissemos que o que se lamenta na morte do outro é a perda de sua presença. No entanto, o que devia ser mais deplorável, o que mais apropriadamente devia ser considerado perda são os dons e as competências que se levam para o túmulo. São as habilidades intransmissíveis, como por exemplo: o pianista que morre e não deixa para o filho o poder dos seus dedos sobre o teclado. O cantor que sai da vida, sem legar a voz a um irmão ou a um amigo [...] No entanto, estas são as coisas que deviam ser mais pranteadas: o poder, a arte, a magia, o atletismo, que cada um leva para o túmulo. [...] Extraído de Pernoite: crônicas(Martins Fontes/Funarte, 1989), do poeta, radialista e compositor pernambucano Antônio Maria (1921-1964). Veja mais aqui.

A TERRA CAIU NO CHÃOVisitando o meu sertão / Que tanta grandeza encerra, / Trouxe um punhado de terra / Com a maior satisfação. / Fiz isso na intenção, / Como fez Pedro Segundo, / De quando eu deixasse o mundo / Levá-lo no meu caixão. / Chegando ao Rio, pensei / Guardá-lo só para mim / E num saquinho de brim / Essa relíquia encerrei! / Com carinho e com cuidado / Numa ripa do telhado / O saquinho pendurei... / Uma doença apanhei / E, vendo bem próxima a morte, / Lembrando as terras do norte, / Do saquinho me lembrei. / Que cruel desilusão! / As traças, sem coração, / Meteram os dentes no saco, / Fizeram um grande buraco / E a terra caiu no chão. Do poeta Zé da Luz (Severino de Andrade Silva, 1904 —1965). Veja mais aqui e aqui.

CLAIR DE FEMME, DE COSTA GRAVRAS
O filme Clair de femme (Um Homem, uma Mulher, uma Noite, 1979), dirigido pelo cineasta grego Costa-Gavras, conta a história de um capitão que perdeu sua esposa vítima de câncer e uma linda mulher que perdeu sua filha em um acidente de carro, que se conhecem por uma noite e se separarão para nunca mais se encontrar. Destaque para a atuação da atriz austríaca Romy Schneider (1938-1982). Veja mais aqui.

Veja mais:
O milagre do amor na festa do dia e da noite, Oscar Wilde, a música de Richard Strauss & Inga Nielsen, Violante Placido & a arte de Luciah Lopez aqui.
A vida que sou na alma do Recife, a literatura de Osman Lins, a música de Marlos Nobre, a arte de Cícero Dias & André Cunha aqui.
O teatro e a poesia de Bertolt Brecht aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Quarta-feira do Trâmite da Solidão aqui.
Mais que nunca é preciso cantar aqui.
Bertolt Brecht, Boris Pasternak, Vanessa da Mata, Bigas Luna, Francesco Hayez, Penélope Cruz & Abigail de Souza aqui.
Clarice Lispector, Luis Buñuel, Björk, Yedda Gaspar Borges, Brunilda, Vicente do Rego Monteiro, Téa Leoni, Doro & Absurdo aqui.
O amor é o reino da surpresa aqui.
O príncipe de Maquiavel aqui.
Personalidade, Psicopatologia & Anexim do Umbigocentrismo, um ditado impopular aqui.
A entrega total do amor aqui.
Psicologia da Personalidade aqui.
Psicanálise aqui.
Boi de fogo aqui.
Poetas do Brasil, Gregório de Matos Guerra, Sheryl Crow, Dalinha Catunda, Yedda Gaspar Borges, Iracema Macedo, Fidélia Cassandra, Jade da Rocha, Psicodiagnóstico, Controle & Silêncio Administrativos aqui.
Eliete Cigarini, Abuso Sexual, Condicionamento Reflexo & Operante aqui.
Poetas do Brasil, Satyricon de Petrônio, Decameron de Boccaccio, Jorge de Lima, Laura Amélia Damous, Sandra Lustosa, Arriete Vilela, Sandra Magalhães Salgado, Celia Lamounier de Araújo & Simone Moura Mendes aqui.
Anna Pavlova, a Psicanálise de Freud & Adoção aqui.
A magia do olhar de quem chega aqui.
A mulher chinesa aqui.
Tarsila do Amaral, Psicopatologia & Transtornos de Consciência, Direito, Consumidor & Internet aqui.
José Saramago, Hannah Arendt, Luís Buñuel, Sérgio Mendes, Catherine Deneuve, Frederico Barbosa, Barbara Sukova, Os Assassinos do Frevo & Gilson Braga aqui.
Skinner, Walter Smetak, Costa-Gavras, Olga Benário, Kazimir Malevich, Irene Pappás, Camila Morgado & Pegada de Carbono aqui.
Marcio Baraldi & Transversalidade na Educação aqui.
Padre Bidião & as duas violências aqui.
A literatura de Rubem Fonseca aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o banguelo vê esmola grande fica mais assanhado que pinto no lixo aqui.
Big Shit Bôbras & o paredão: quem vai tomar no cu aqui.

ONLY YOU, DE LEONARDO KOSSOY
Arte fotográfica que reúne fotografias, vídeos e instalações do fotógrafo Leonardo Kossoy, baseado no livro homônimo (G. Ermakoff Casa, 2015), de Roberto Tejada, Fernando Azevedo & Leonardo Kossoy, contando a história de um homem e uma mulher desempenhando alegorias incidentais da vida a dois.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

SANTA FOLIA, CHAUÍ, DARWIN, JAMES JOYCE, RODIN, MATISSE, GRAÇA GRAÚNA, CIKÓ, IRINA COSTA, ACERVUM & MUITO MAIS!!!

FOLIA TATARITARITATÁ: SANTA FOLIA (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) Era início dos anos 1990, quando o parceriamigo Cikó Macedo me entregou uma melodia para apreciar. Dei uma arrumada e emplacamos a primeira parceria: Sede. Essa canção foi incluída no álbum Edição Extraordinária que ele gravou com Zé Linaldo Martins. Tempos depois ele me entregou um frevo. Tome tempo, um ano, dois. Quase todo dia eu pegava na melodia e dava uma sapecada na letra. Não gostava, lata do lixo. Queimei as pestanas para letrar a frevada boa. Enganchei de não gostar de nada que colocava ali. Deixei de mão. O tempo passava e eu sem acertar a mão na roda. Veio, então, a Copa do Mundo de 1994 e resolvi assistir Brasil e Holanda – o único jogo que vi da seleção no certame. Fiquei puto com a escalação, time retrancado, jogando na defesa. E quando vi o cansado Branco na lateral esquerda, no lugar de Leonardo que foi expulso contra os Estados Unidos, aí que perdi todas as esperanças de que chegasse a ser campeão. O jogo estava zero a zero, logo 1x0 pro Brasil, E mais um, 2x0. Mal comemorava quando vi quando o locutor da televisão falar 2x2. Oxe? O Brasil fez dois a zero agorinha?! Pois foi. Comemorava o segundo gol do Brasil, quando a Holanda fez dois somente na comemoração do segundo. Pode? Pois foi, o time dormiu e eles aproveitaram o cochilo. Coisas do Brasil, né? Aí que me desinteressei e fiquei tomando umas e outras, torcendo escondido, roendo as unhas, deu de aparecer uma no campo adversário. Eu já estava arretado com o cara quando ele pega a bola pra bater. Pra mim, aí fodeu. Esculhambei o cara e tudo. Na verdade, o cara mancava em campo. Mas era falta a favor do Brasil. Resolvi relaxar e tomar mais uns goles. Quando o tal do Branco deu um chute, um teiaço – como a gente dizia nas peladas do campinho de barro da Cohab I -, Romário e o zagueiro holandês saíram da bola e ela foi descansar no fundo das redes: Brasil 3x2 na Holanda. Gente, a inspiração bateu na hora! Escrevi a letra da música do Cikó que ficou Santa Folia: Quero ver o frevo na praça / Pra massa viver feliz / Segura a graça / Na raça / Na taça esse triz / Quero pular feito louco / Tão broco de endoidecer / Hoje a folia começa / E vai amanhecer./ E nessa noite vadia / Eu sinto essa fantasia / Esse momento mais terno / Até o sol raiar / E nessa vida eu queria / Pra reforçar no meu dia / A vontade mais certa da gente brincar / Que não fique tarde / Pra toda verdade / Poder ainda vir nos alcançar / A nossa santa folia no ar / E muito mais se quiser / A noite é festa pra se pular / Nos braços de uma mulher! Esse frevo foi incluído no álbum De janeiro a janeiro (1996), do Cikó Macedo. (Veja o clipe aqui). Em 2010, ele me enviou uma leva de temas para frevo, ao todo nove melodias. Até hoje não consegui dar por fechado. Se com um eu passei um tempão, imagine nove. Deus dará e ainda fecharei tudinho. E vamos aprumar a conversa aqui.

Veja mais:

PICADINHO
Imagem: Odalisque relaxing in a chair, do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Salt (Righteous Babe, 2004), do cantor, guitarrista, compositor e produtor musical estadunidense Arto Lindsay.

EPÍGRAFEStruuggle for life, expressão extraída do livro A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida (Escala, 2009), do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809 — 1882), referindo-se à condição de que todos os seres lutam pela vida, sobrevivendo os mais aptos, tornando-se corrente como luta pela vida. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REPRESSÃO SEXUAL – No livro Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida (Brasiliense, 1991), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí, encontro que: A repressão sexual pode ser considerada como um conjunto de interdições, permissões, normas, valores, regras estabelecidas histórica e culturalmente para controlar o exercício da sexualidade, pois, como inúmeras expressões sugerem, o sexo é encarado por diferentes sociedades (e particularmente a nossa) como uma torrente impetuosa cheia de perigos [...] As proibições e permissões são interiorizadas pela consciência individual, graças a inúmeros procedimentos sociais (como a educação, por exemplo) e também expulsas para longe da consciência, quando transgredidas porque, neste caso, trazem sentimentos de dor, sofrimento e culpa que desejamos esquecer ou ocultar. Veja mais aqui e aqui.

ULISSES – No livro Ulisses (Civilização Brasileira, 1966), escritor irlandês James Joyce (1882-1941) – presente que ganhei do poeta Afonso Paulo Lins -, destaco o trecho que: [...] A verdade, cospe-a fora. Eu o quereria. Eu tentaria. Não sou um bom nadador. Agua fria fofa. Quando eu metia a cara nela na bacia de Clongowes. Posso ver não! Quem está atrás de mim? Fora, rápido, rápido. Vês a maré enchendo de todos os lados rápido, laminando rápido os bancos de areia castanha-decaucoloridas? Se eu tivesse terra debaixo de meus pés. Quero que seja sua vida ainda sua, a minha seha minha. Um homem afogado. Seus olhos humanos berram para mim no horror de sua morte. Eu... Com ele juntos no fundo... Eu não podia salvá-la. Águas: morte amarga: perdida. Uma mulher e um homem. Vejo a saiota dela. Arregaçada, aposto. O cão deles equipava por um minguante banco de areia, trotando, fungando por todos os lados. Procurando algo perdido em vida passada. [...]. Veja mais aqui e aqui.

DA HUMANIDADE LEVADA PELAS ÁGUAS – Entre as poesias da escritora Graça Graúna, destaco o poema Da humanidade levada pelas águas (Em memória de Aylan Kurdi): Viver é perigoso, / o poeta dizia. / Assim mesmo insistimos / em fazer a travessia. / Viver é perigoso, / mas seguimos / vestidos de coragem / na ânsia de encontrar / o olhar generoso / o abraço apertado / a mão amiga / que acolham os nossos sonhos... / Em meio à travessia / a humanidade / é levada pelas águas / e tudo que me fica / é uma tênue esperança / que se alastra pelo mundo / nos sonhos do pequeno anjo / de asas partidas. / Apesar das muralhas / e dos arames farpados, / o direito à Paz nos aproxima. / Viver é perigoso, / mas insistimos... Veja mais aqui e aqui.

MADEMOSIELLE GEORGE - A atriz francesa Marguerite-Joséphine Weymer, mais conhecida como Mademoiselle George (1787-1867), tornou-se a mais brilhante da cena francesa, começando na Comédie Fraçaise, na qual seu tio era secretário e seu pai era o diretor, atuando a partir dos cinco anos no drama e na ópera cômica. Na adolescência já era dotada de sensibilidade apurada, de uma maravilhosa e sonora voz, alcance e som, flexível e poderosa, estreando profissional em 1802, com Clitemnestra. Deu-se inicio ao triunfo geral torcendo que aliada à sua beleza como a sua voz, com dicção apurada e elegante, chegando ao auge com sua atuação Amenaide. Finalmente ela conseguiu o papel de Idame, o Órfão da China. Foi nessa época que ela se tornou a amante do Primeiro Cônsul Napoleão Bonaparte que lhe deu o apelido de Georgina, e tornou-se amiga de Alexandre Dumas e Victor Hugo. Ao ser abandonada pelo amante, seguiu para Rússia, onde sua vida entrou numa nova fase de honras, glória e riqueza. Seguiram-se inúmeros sucessos e ao retornar à França foi coroada de êxito. Veja mais aqui.

IT’S A WONDERFUL LIFE – O filme It's a Wonderful life (A felicidade não se compra, 1946), dirigido por Frank Capra, conta a história de um espírito desencarnado, candidato a anjo que, para ganhar suas asas, recebeu a missão de ajudar um valoroso empresário que se encontrava com grave problema financeiro, provocado por desonesto banqueiro e tinha a intenção de se suicidar. O aspirante a anjo foi encontrá-lo na véspera do Natal, à noite, prestes a saltar de uma ponte nas águas geladas que corriam embaixo. Fazendo-se visível e identificando-se, falou de sua missão e, sem nenhuma pretensão de demovê-lo da ideia, comentou que seria um desperdício, porque ele vinha sendo importante para muita gente. Ante o ceticismo de seu protegido, que se sentia um fracassado, o amigo espiritual mostrou-lhe várias situações que teriam acontecido se não fosse sua interferência. A morte do irmão, a tristeza da esposa, a situação lastimável de sua cidade entre outras. O destaque do filme fica por conta da atuação da atriz estadunidense Donna Reed (1921-1986). Veja mais aqui.

REVISTA ACERVUM - Está no ar a atualização da Revista Acervum – Suplemento Nacional de Literatura & Artes, editada pelo jornalista Mhario Lincoln. Esta edição é especial Luis Augusto Cassas, encartando a Revista Poética Brasileira com destaques para Jamerson Belfort, Osmarosman Aedo, Mariana Felix, Izau Neto, Luciah Lopez, entre outros. Traz ainda a entrevista com o poeta Eloy Melônio. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do escultor e pintor francês Auguste Rodin (1840-1917). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à cantora portuguesa nascida em Angola e radicada no Brasil, Irina Costa. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aquiaqui.

 Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Ayn Rand, Elisa Lucinda, Lenine, Alina Zenon, Enrique Simonet, Paula Burlamaqui & muito mais aqui.


domingo, abril 12, 2015

KIRAN DESAI, ELIZABETH SIDDAL, MÉSZARÓS & ALMODÓVAR

 


A SOLIDÃO DE LIZZIE - Lizzie era Elizabeth, uma leonina educada pelos próprios pais: ela vivia no seio de uma família em Hatton Garden. Lizzie também era Eleanor, a que trabalhou numa loja de chapelaria e confecções numa jornada extenuante, o que debilitou sua saúde. Tornou-se modelo para os Pré-Rafaelitas: a sua beleza na simplicidade. E foi a musa Viola pra cena da Twelfth Night de Deverell: uma rainha magnificamente alta – na época ser modelo era ato desonroso e sinônimo de prostituição. Como era bela com seus olhos azul-esverdeados, pálpebras faustosas, tez brilhante e cabelos dourados cobres, ela foi Sylvia para a Valentine de Hunt. Aí largou o emprego na chapelaria e passou a trabalhar numa fábrica em horário parcial enquanto modelava. Daí foi a Ophelia de Millais e quase morre congelada, sucumbindo a uma severa gripe. Foi Beata Beatrix para Rossetti – o primeiro amor. Foi artista com seu autorretrato, afora esboços, desenhos, aquarelas e pintura à óleo, Beyond Ophelia. A sua sedução era o seu tipo esguio, esbelto com cabelo avermelhado – quando ser ruiva era sinal de suicídio social à época. Era independente e desenhava suas próprias roupas nada convencionais e feitas pelo espalhafato dela mesma. Suas vestes inspiradoras influenciaram a ponto de se tornarem padrão para uma jovem progressista. Logo expôs Clerk Saunders. Ela foi poeta e o amor pela poesia nasceu desde muito jovem ao descobrir Tennyson num pedaço de jornal que tinha sido usado para embrulhar manteiga: os versos melancólicos de amores perdidos e a impossibilidade do amor verdadeiro. Ela foi a Dove de Rossetti e uma vida antissocial. A musa tornava-se uma mulher de classe, beleza e lazer às pinceladas e poses. A influência mútua entre ambos era afinal tumultuada e problemática. Tornaram-se mitos e boêmios, fora das normas. E ela liberava sua bandeira desafiando a nomenclatura social. Ela recebeu críticas das cunhadas só porque seus pais eram da classe trabalhadora, razão pela qual nunca fora apresentada aos sogros, o que a levou às desconfianças e a períodos doentios e depressivos. Ela foi então para Paris ressentida pela doença. Estava muito frágil quando seguiu para Nice para cuidar da saúde. Definitivamente casou-se e viveu uma longa lua de mel com a companhia de dois cachorros recolhidos das ruas, num casamento com apenas duas testemunhas. Ela era Regina Cordium. E engravidou, mas sofreu uma morte fetal: a depressão pós-parto. Apareceu o láudano para suportar a depressão. Novamente engravidou e o amor sucumbiu definitivamente. Uma overdose de láudano a deixou inconsciente e uma carta de suicídio aos 32 anos de idade. A mulher pioneira se foi com um poema enterrado entre os cabelos acobreados e que reluziam como o fogo. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Perdoa-me por ter transformado minha vida em um sonho de amor!... Verso do poema A passagem do amor, da poeta e modelo britânica Elizabeth Eleanor Siddal (1829-1862), autora dos versos: Todas as mudanças passam por mim como um sonho, \ eu não canto nem rezo; \ E tu és como a árvore venenosa \ Que roubou minha vida... É também autora do poema A luxúria dos olhos: Não me importo com a alma da minha Senhora, \ embora eu adore seu sorriso; \ não me importa onde estará o objetivo da minha Senhora, \ quando sua beleza perder seu encanto. \ Sento-me aos pés da minha Senhora, \ Olhando através de seus olhos selvagens, \ Sorrindo ao pensar em como meu amor irá desaparecer \ Quando sua beleza estelar morrer. \ Não me importa se minha Senhora reza \ Ao nosso Pai que está no Céu \ Mas de alegria as pulsações rápidas do meu coração tocam \ Pois a mim seu amor é dado. \ Então quem fechará os olhos da minha Senhora \ E quem cruzará suas mãos? \ Alguém ouvirá se ela gritar \ Para as terras desconhecidas? Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O presente muda o passado. Olhando para trás você não encontra o que deixou para trás... Escrever, para mim, significa humildade. É um processo que envolve medo e dúvida, especialmente se você está escrevendo honestamente... Pensamento da escritora indiana Kiran Desai, que no seu livro The Inheritance of Loss (Grove Press, 2006), ela expressa que: […] Poderia a realização ser sentida tão profundamente quanto a perda? Romanticamente, ela decidiu que o amor certamente deveria residir na lacuna entre o desejo e a realização, na falta, não no contentamento. O amor era a dor, a antecipação, o recuo, tudo ao redor, menos a emoção em si. [...] A tristeza era tão claustrofóbica. [...] Uma jornada uma vez iniciada, não tem fim [...]. Também no seu livro Hullabaloo in the Guava Orchard (Grove Press, 2009) ela expressa que: […] Então, se ela tiver cumprido todos os requisitos para um caráter sólido e realizações impressionantes, se seus pais tiverem concordado em pagar todas as contribuições financeiras necessárias, se os adivinhos tiverem decidido que as estrelas são sortudas e os planetas são compatíveis, todos podem rir de alívio e erguer seu rosto pelo queixo e dizer que ela é exatamente o que eles estavam procurando, que ela será uma filha para sua casa. Esta, afinal, é a família do menino. Eles têm direito ao seu senso de orgulho. [...] Era uma coisa terrível estar acordado enquanto algumas pessoas voavam, carregando o mundo sobre suas cabeças, e outras dormiam, reivindicando-o debaixo de seus pés. [...].

 

INFÂNCIA, IMAGEM E LITERATURA: UMA EXPERIÊNCIA PSICOSSOCIAL – O projeto de extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, aprovado pelo Núcleo de Projetos de Extensão (NPE), do Centro Universitário Cesmac, desenvolvido pelos graduandos dos cursos de Psicologia, Jornalismo e Publicidade da entidade, e orientado pelo Professor Ms Cláudio Jorge Gomes de Morais, dentro das atividades desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa de Psicologia Social e Formação Humana, realizará nesta sexta feira, 17 de abril, a partir das 9hs, atividades na comunidade do Jacaré (AL), dentro do desenvolvimento do respectivo projeto. LEMBRETE: hoje para as crianças de todas as idades é dia do Programa Brincarte do Nitolino, a partir das 10hs, com apresentação de Ísis Corrêa Naves no Projeto MCLAM. Veja detalhes do projeto e do programa aqui, aqui e aqui. E muito mais aqui.

Imagem: Female Nude Reading (San Diego Museum of Art), do pintor do Abstracionismo e Cubismo francês Robert Delaunay (1885-1941). Veja mais aqui.

Ouvindo a ópera em cinco atos – uma tragédia lírica - Les Danaides (1784), do compositor operístico italiano Antonio Salieri (1750-1825), com a cantora lírica e soprano espanhola Montserrat Caballé e a Orchestra e Coro della RAI di Roma Gianluigi Gelmetti (1983) – O enredo dessa ópera é baseado nos personagens mitológicos Danaus e Hipermnestra da tragédia grega.



HIPERMNESTRA Imagem: Hipermnestra  & Liceu. - Na mitologia grega, Hipermnestra ou Amimone era uma Danaide, filha mais velha entre as cinquenta filhas – as Danaides - de Danaus e casada com Liceu. Egito, irmão gêmeo de Danaus, possuía cinquenta filhos que exigiram que o tio desse suas cinquenta filhas para casarem. Danaus, então, entregou a cada uma das filhas uma adaga para que matassem seus maridos enquanto dormissem. Todas cometeram o assassinato atendendo ao pai, exceto Hipermnestra que poupou o seu marido porque ele havia respeitado a sua virgindade. O pai em represália trancafiou-a, enquanto as demais filhas enterraram a cabeça dos seus maridos no pântano de Lerna, resultando no nascimento do monstro denominado a Hidra de Lerna. Como punição pela traição o pai entregou a filha inconfidente à corte dos argivos, porém Afrodite intercedeu em seu favor e a salvou. Tempos depois o pai perdoou a filha e permitiu-lhe que permanecesse casada com Liceu que lhe sucedeu o trono. As demais quarenta e nove Danaides se casaram com vencedores de diversas competições que foram organizadas pelo pai. Veja mais aqui e aqui.

A ORIGEM DAS ESPÉCIES – O livro A Origem das Espécies, no meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza (Lello & Irmão, 2003), do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809 — 1882), encontrei a seguinte observação do autor: [...] Ninguém se pode admirar que haja ainda tantos ponto s obscuros relativamente à origem das espécies e das variedades, se refletirmos na nossa profunda ignorância sobre tudo o que se prende com as relações recíprocas dos inúmeros seres que vivem em redor de nós. Quem pode dizer a razão por que tal espécie é mais numerosa e mais espalhada, quando outra espécie vizinha é muito rara e tem um habitat muito restrito? Estas relações têm, contudo, a mais alta importância, porque é delas que dependem a prosperidade atual e, creio firmemente, os futuros progressos e a modificação de todos os habitantes da Terra. Conhecemos ainda bem pouco das relações recíprocas dos inúmeros habitantes da Terra durante os longos períodos geológicos passados. Ora, posto que numerosos pontos sejam ainda muito obscuros, se bem que devem ficar, sem dúvida, inexplicáveis por bastante tempo ainda, vejo-me, contudo, após os estudos mais profundos e uma apreciação fria e imparcial, forçado a sustentar que a opinião defendida até a pouco pela maior parte dos naturalistas, opinião que eu próprio partilhei, isto é, que cada espécie foi objeto de uma criação independente, é absolutamente errônea. Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente. Veja detalhes aquiaqui, aqui e aqui.

A EDUCAÇÃO PARA ALÉM DO CAPITAL – Na obra A educação para além do capital (Boitempo, 2005), do filósofo húngaro e um dos mais importantes intelectuais marxistas da atualidade István Mészarós, destaco o seguinte trecho: [...] O impacto da lógica incorrigível do capital sobre a educação tem sido grande ao longo do desenvolvimento do sistema. Apenas as modalidades de imposição dos imperativos estruturais do capital no domínio educacional mudaram desde os primeiros dias sangrentos da "acumulação primitiva" até ao presente, em sintonia com as circunstâncias históricas alteradas, como veremos na próxima secção. É por isso que hoje o significado da mudança educacional radical não pode ser senão o rasgar do colete-de-forças da lógica incorrigível do sistema: através do planeamento e da prossecução consistente da estratégia de quebrar a regra do capital com todos os meios disponíveis, assim como com todos aqueles que ainda têm de ser inventados neste espírito. [...] A educação institucionalizada, especialmente nos últimos cento e cinquenta anos, serviu – no seu todo – o propósito de não só fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista mas também o de gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes, como se não pudesse haver nenhum tipo de alternativa à gestão da sociedade ou na forma "internacionalizada" (i.e. aceite pelos indivíduos "educados" devidamente) ou num ambiente de dominação estrutural hierárquica e de subordinação reforçada implacavelmente. A própria História tinha que ser totalmente adulterada, e de facto frequentemente falsificada de modo grosseiro, para este propósito. [...] As determinações abrangentes do capital afetam profundamente cada domínio singular com algum peso na educação, e de forma alguma apenas as instituições educacionais formais. Estas últimas estão estritamente integradas na totalidade dos processos sociais. Elas não podem funcionar adequadamente, exceto se estiverem em sintonia com as determinações educacionais abrangentes da sociedade como um todo. [...] É neste espírito que se podem reunir todas as dimensões da educação. Os princípios orientadores da educação formal devem desta forma ser destrinçados do seu envolvimento com a lógica de conformidade impositiva com o capital, movendo-se ao invés disso na direção de um intercâmbio ativo e positivo com práticas educacionais mais amplas. Eles precisam muito um do outro. Sem um intercâmbio progressivo consciente com processos de educação abrangentes como "a nossa própria vida" a educação formal não pode realizar as suas muito necessárias aspirações emancipadoras. Se, entretanto, os elementos progressistas da educação formal forem bem sucedidos em redefinir a sua tarefa num espírito orientado em direção à perspectiva de uma alternativa hegemônica à ordem existente, eles podem dar uma contribuição vital para romper a lógica do capital não só no seu próprio limitado domínio como também na sociedade como um todo. Veja mais detalhes aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, & aqui.

O ATENEU – Da belíssima obra O ateneu (1888 – Ática, 1996), do escritor do Realismo brasileiro Raul Pompeia (1853-1895), destaco os seguintes trechos: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida. [...] Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovelo espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobrolho carregado. Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquilo; era um de profundis. Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos, enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da história, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóis de ouro destronados e incinerados... Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra. Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo — o funeral para sempre das horas. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O BATIZADO DA VACA – Hoje é o Dia Nacional do Humorista e, nesta ocasião, nada melhor que homenagear um dos maiores – senão o maior – nome do humor brasileiro: o ator, diretor, compositor, escritor e comentarista brasileiro Chico Anysio (1931-2012), trazendo a sua hilariante obra O batizado da vaca (Sabiá, 1972): O lugar era tão bonito, o clima tão bom, as flores tão rosas e as vacas tão bovinas, que o chefe da família achou que valeria a pena comprar ali uma fazenda. Consultou a família que, de pronto, foi contra. Isto colaborou demais para que o chefe da família entrasse, imediatamente, em conversações com o proprietário de uma, que se queria desfazer da fazenda, por achar que ela estava num lugar que não era lá essas coisas, o clima era idiota, as flores não fugiam daquela variedade: rosas, rosas, rosas, e as vacas, coitadas, eram simplesmente bovinas — numa total falta de imaginação. Vá-se querer que as vacas tenham isso! O negócio foi fechado por um dinheiro grande, e a família tomou posse da propriedade dois dias depois, data que coincidia com a véspera do fim das férias. A fazenda ficava num vale e era separada em duas partes por um córrego como o que só corre na infância dos escritores. Tinha matas e vacas, rosas e charcos, galinhas e caseiros. — Uma idiotice, comprar essa fazenda — vaticinou a esposa, numa contrariedade de quem faz doze pontos. — Comprar terra sempre é bom negócio — vibrou o chefe da família, puxando o ar, a encher o peito com um cheiro de estrume que vinha do estábulo. — Olhe em volta. Até onde a vista alcança, tudo é nosso. Está vendo o abacateiro? É nosso; Aquele caqui chocolate? É nosso. A carreira de jabuticabeiras? Nossa. O mato, a casa, a cocheira, o estábulo, o caminho, tudo é nosso. Esse céu, que cobre a fazenda, é o único pedaço de céu que é nosso, porque o da cidade é do governo. Aqui, mandamos nós, porque aqui tudo é nosso! — Pra quê? — sintetizou a mulher, numa pergunta de esposa. — Ora — explicou admiravelmente o chefe da família —, para ser nosso. Nossa terra, nosso chão, nosso cantinho, nossas rosas!— e pegou numa, furando o dedo. Durante o curativo no dedo magoado um dos trabalhadores da fazenda aproximou-se com uma notícia muito importante: a fazenda acabava de crescer de valor pelo nascimento de uma bezerrinha. — Viu? — comentou, vitorioso, o chefe da família, batendo nas costas da esposa, de modo a fazê-la cuspir a primeira jabuticaba que tentava comer. — Nasceu uma vaquinha! A notícia correu para os demais da família ao mesmo tempo em que, para os pais, corriam os filhos, estes, sim, felizes, ao saber do nascimento da novilha. — É menino ou menina? — perguntou um menino que, de tão longos cabelos, nem se sabia se era menino ou menina. — Não é assim que se fala, menino — esclareceu o pai. — A pergunta é: bezerra ou bezerro? É uma bezerrinha. — Vamos ver? Vamos ver? — gritavam os filhos a sugestão lógica das crianças que nunca viram vaca a não ser nos desenhos das latas de leite em pó. Foram. A vaca não deixou que se aproximassem da cria, que ficou sendo observada a distância pela família encantada e pelo caseiro indiferente e até um pouco irritado por haver uma vaca a mais no seu mundo. — Quem é o pai? — perguntou a moça mais taluda. — Um boi desses — errou o pai. — Um touro!— corrigiu o caseiro, sabedor ele de que o boi é um touro que já era; boi é um touro que perdeu os documentos. — Pois é — emendou o pai na mesma veemência —, um tourão danado desses. Olha a carinha dela. Os olhinhos ainda estão fechados. — Vamos batizar!— gritou um menino. — Boa ideia — concordou o chefe da família. — Quem vai escolher o nome? — Eu. Eu. Eu. Eu — disseram, um a cada vez, os quatro filhos do casal. E começou a discussão sobre o nome a ser posto na recém-nascida que, indiferente a tudo, mamava na mãe, provando, assim, que ela (a mãe) não era tão vaca quanto julgavam. — Aretha Franklin! — Janis Joplin. — Jimi Hendrix — sugeriu o mais velho —, porque, até que me provem o contrário, essa vaquinha é touro; deixa levantar que vocês vão ver. — É fêmea, que o caseiro viu — afirmou o pai, voltando-se para o caseiro, na indagação do que já afirmara: — O senhor não viu? — Vi. É fêmea. E tome de gritar nome: Califórnia, Disneylândia, Erva Maldita, Otorrinolaringologia... Havia os nomes sugeridos a sério e os de gozação. Todos os que citei eram os a sério. Finalmente, o bom senso ajudou a solucionar o impasse. Foi a esposa quem sugeriu o nome que lhe pareceu o mais indicado para a novilhazinha que mamava no seio vaquerno: Long Island. — Desculpe — desculpou-se o caseiro por não entender. — Long Island — repetiu a mulher com uma naturalidade de quem fala "mococa". — A senhora podia escrever? — pediu o caseiro, confessando-se incapaz de decorar aquilo. Arranjaram uma pequena tábua onde, com um prego, o chefe da família escreveu: LONG ISLAND, tabuazinha que, com o auxílio de um arame, ficou presa no pescoço da novilha para que ninguém, na fazenda, esquecesse que aquela jovem bovina atendia pelo nome de Long Island, nome que fica muito bem para parque de diversões, mas que não é dos mais adequados para quem tem cara de Mimosa, Formosa, Maravilha ou Vaquinha — modo, inclusive, que melhor ajuda o reconhecimento da peça. Acabadas as férias, a família voltou à sua poluição metropolitana e só pôde retornar à fazenda dois anos depois. Tudo continuava como dantes, com exceção de uma ou outra coisinha em pior estado, uma das quais o geral. — Caseiro! — chamou o chefe da família, que não sabia que o caseiro tinha nome: José Caseiro da Silva. — Pronto, doutor — obedeceu o caseiro meia hora depois, com a presteza de um favor bancário. — Como vai a novilha? — Está uma vaca! — elogiou o caseiro de um modo que soou ofensa aos ouvidos da família. — Já dá leite? — perguntou um dos filhos. — Dá, né? — respondeu o caseiro estranhando a pergunta, pelo fato de saber (ele é acostumado, porque vive ali) que as vacas não dão outra coisa senão leite. — Pois eu quero beber um copo de leite da novilha — ordenou a esposa do chefe, madrinha de batismo da vaquinha. E o caseiro, sem que a família ouvisse, comandou a um seu auxiliar que tirasse um pouco de leite da vaca "Tabuleta". Veja mais aqui.


TALK TO HER – O poético e encantador filme Tal to her (Fale com ela, 2002), escrito e realizado pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar com participação de Caetano Veloso na trilha sonora, traz um debate acerca de questões que envolvem as temáticas do coma e do estupro, ao narrar a história de um enfermeiro que mora em frente a uma academia de balé, apreciando uma das dançarinas. Ela se envolve num acidente de carro e ferida é internada no hospital onde ele trabalha, passando a ter cuidados extremos com ela. O filme ganhou o Oscar de melhor roteiro original (2003) e venceu a categoria de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro (2003). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

 

IMAGEM DO DIA:
The Elder (1681, The Versailles Park and Gardens), do escultor francês Pierre Le Gros (1666-1719). Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Ganhar o mundo no rumo das ventas, O mito e a política de Jean-Pierre Vermant, a literatura de Cesare Pavese, a pintura de Eugène Delacroix & Caroline Vos, a música de Wagner & Hélène Grimaud aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein, o Teatro Futurista de Filippo Marinetti, a literatura de Azar Nafisi, a pintura de Eugène Delacroix, a música de Nelson Freire, a fotografia de John De Mirjian, Augustine de Charcot, a arte de Stéphanie Sokolinski, a cangaceira Dadá & Maria Iraci Leal aqui.
Do espírito das leis, de Montesquieu aqui.
Caxangá, a literatura de Cervantes & Lima Barreto, o Abstracionismo & Vassili Kandinsky, a música de Sainkho Namtchylak, o cinema de Anthony Minghella & Gwyneth Kate Paltrow, a pintura de Guido Cagnacci, a arte de Adelaide Ristori & Clara Sampaio aqui.
A poesia de Gabriela Mistral & William Wordsworth, a literatura de Gregório de Matos Guerra & Ana Miranda, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Irène Jacob, a música de Ravi Shankar & a pintura de Almada-Negreiros aqui.
Brincarte do Nitolino & Lendas do Nordeste, Buda, O caso Anna O de Freud & Bertha Pappenheim, A fenomenologia de Edmund Husserl, a poesia de Basílio da Gama, o teatro de Edmond Rostand, a pintura de Sergei Semenovich Egornov, a música de Steve Howe & a arte de Anne Brochet aqui.
O que deu, deu; o que não deu, paciência, fica pra outra, A teoria das emoções de Jean- Paul Sartre, a literatura de Dyonélio Machado, O fim da modernidade de Gianni Vattimo, a pensamento de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Laurence Revey, a pintura de Fernando Rosa & Jonas Paim, a fotografia de Faisal Iskandar & O sisifismo na segunda de outra semana aqui.
Para quem vai & para quem vem, A filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, a Fenomenologia & o fenômeno de Armando Asti Vera, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Djavan, a fotografia de Gal Oppido, a pintura de João Evangelista Souza, A pancada insólita se alastra na culatra: viver, a arte de Luciah Lopez & Elciana Goedert aqui.
Se o sonho pra se realizar está custoso demais, paciência..., As origens da vida de Jules Carles, Elementos da dialética de Alexander Soljenítsi, a poesia de Gilka Machado, a música de Álbaro Henrique, a fotografia de Camila Vedoveto, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, As torturas prazerosas de Quiba, Aos futuros poetas de J. Martines Carrasco, a arte de Fernando de La Rocque & Fernando Nolasco aqui.
Quando a poluição torna o ar irrespirável, a vida vai pro beleleu, O mundo de Albert Einstein, a literatura de Imre Kertész, a Educação de Dermeval Saviani, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Mafalda Veiga, A pluralidade cultural de Manuel Diégues Júnior, a fotografia de Eustáquio Neves, a pintura de Evelyn Hamilton, a fotografia de Cida Demarchi & Os erradios catimbós de Afredo aqui.
Quem, nunca aprendeu a discernir entre o que é e o que não é, jamais aprenderá a votar, a literatura de Marguerite Duras & Stanislaw Ponte Preta, o pensamento de Friedrich Nietzsche, O combate à corrupção, a música de Miriam Ramos, o Conhecimento de Cipriano Carlos Luckesi, a arte de Lenora de Barros, a fotografia de Ed Freeman, Luciah Lopez & O amor é tudo no clarão dos dias e na escuridão das noites aqui.
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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...