Mostrando postagens com marcador Matisse. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Matisse. Mostrar todas as postagens

terça-feira, fevereiro 02, 2016

SANTA FOLIA, CHAUÍ, DARWIN, JAMES JOYCE, RODIN, MATISSE, GRAÇA GRAÚNA, CIKÓ, IRINA COSTA, ACERVUM & MUITO MAIS!!!

FOLIA TATARITARITATÁ: SANTA FOLIA (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) Era início dos anos 1990, quando o parceriamigo Cikó Macedo me entregou uma melodia para apreciar. Dei uma arrumada e emplacamos a primeira parceria: Sede. Essa canção foi incluída no álbum Edição Extraordinária que ele gravou com Zé Linaldo Martins. Tempos depois ele me entregou um frevo. Tome tempo, um ano, dois. Quase todo dia eu pegava na melodia e dava uma sapecada na letra. Não gostava, lata do lixo. Queimei as pestanas para letrar a frevada boa. Enganchei de não gostar de nada que colocava ali. Deixei de mão. O tempo passava e eu sem acertar a mão na roda. Veio, então, a Copa do Mundo de 1994 e resolvi assistir Brasil e Holanda – o único jogo que vi da seleção no certame. Fiquei puto com a escalação, time retrancado, jogando na defesa. E quando vi o cansado Branco na lateral esquerda, no lugar de Leonardo que foi expulso contra os Estados Unidos, aí que perdi todas as esperanças de que chegasse a ser campeão. O jogo estava zero a zero, logo 1x0 pro Brasil, E mais um, 2x0. Mal comemorava quando vi quando o locutor da televisão falar 2x2. Oxe? O Brasil fez dois a zero agorinha?! Pois foi. Comemorava o segundo gol do Brasil, quando a Holanda fez dois somente na comemoração do segundo. Pode? Pois foi, o time dormiu e eles aproveitaram o cochilo. Coisas do Brasil, né? Aí que me desinteressei e fiquei tomando umas e outras, torcendo escondido, roendo as unhas, deu de aparecer uma no campo adversário. Eu já estava arretado com o cara quando ele pega a bola pra bater. Pra mim, aí fodeu. Esculhambei o cara e tudo. Na verdade, o cara mancava em campo. Mas era falta a favor do Brasil. Resolvi relaxar e tomar mais uns goles. Quando o tal do Branco deu um chute, um teiaço – como a gente dizia nas peladas do campinho de barro da Cohab I -, Romário e o zagueiro holandês saíram da bola e ela foi descansar no fundo das redes: Brasil 3x2 na Holanda. Gente, a inspiração bateu na hora! Escrevi a letra da música do Cikó que ficou Santa Folia: Quero ver o frevo na praça / Pra massa viver feliz / Segura a graça / Na raça / Na taça esse triz / Quero pular feito louco / Tão broco de endoidecer / Hoje a folia começa / E vai amanhecer./ E nessa noite vadia / Eu sinto essa fantasia / Esse momento mais terno / Até o sol raiar / E nessa vida eu queria / Pra reforçar no meu dia / A vontade mais certa da gente brincar / Que não fique tarde / Pra toda verdade / Poder ainda vir nos alcançar / A nossa santa folia no ar / E muito mais se quiser / A noite é festa pra se pular / Nos braços de uma mulher! Esse frevo foi incluído no álbum De janeiro a janeiro (1996), do Cikó Macedo. (Veja o clipe aqui). Em 2010, ele me enviou uma leva de temas para frevo, ao todo nove melodias. Até hoje não consegui dar por fechado. Se com um eu passei um tempão, imagine nove. Deus dará e ainda fecharei tudinho. E vamos aprumar a conversa aqui.

Veja mais:

PICADINHO
Imagem: Odalisque relaxing in a chair, do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Salt (Righteous Babe, 2004), do cantor, guitarrista, compositor e produtor musical estadunidense Arto Lindsay.

EPÍGRAFEStruuggle for life, expressão extraída do livro A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida (Escala, 2009), do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809 — 1882), referindo-se à condição de que todos os seres lutam pela vida, sobrevivendo os mais aptos, tornando-se corrente como luta pela vida. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REPRESSÃO SEXUAL – No livro Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida (Brasiliense, 1991), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí, encontro que: A repressão sexual pode ser considerada como um conjunto de interdições, permissões, normas, valores, regras estabelecidas histórica e culturalmente para controlar o exercício da sexualidade, pois, como inúmeras expressões sugerem, o sexo é encarado por diferentes sociedades (e particularmente a nossa) como uma torrente impetuosa cheia de perigos [...] As proibições e permissões são interiorizadas pela consciência individual, graças a inúmeros procedimentos sociais (como a educação, por exemplo) e também expulsas para longe da consciência, quando transgredidas porque, neste caso, trazem sentimentos de dor, sofrimento e culpa que desejamos esquecer ou ocultar. Veja mais aqui e aqui.

ULISSES – No livro Ulisses (Civilização Brasileira, 1966), escritor irlandês James Joyce (1882-1941) – presente que ganhei do poeta Afonso Paulo Lins -, destaco o trecho que: [...] A verdade, cospe-a fora. Eu o quereria. Eu tentaria. Não sou um bom nadador. Agua fria fofa. Quando eu metia a cara nela na bacia de Clongowes. Posso ver não! Quem está atrás de mim? Fora, rápido, rápido. Vês a maré enchendo de todos os lados rápido, laminando rápido os bancos de areia castanha-decaucoloridas? Se eu tivesse terra debaixo de meus pés. Quero que seja sua vida ainda sua, a minha seha minha. Um homem afogado. Seus olhos humanos berram para mim no horror de sua morte. Eu... Com ele juntos no fundo... Eu não podia salvá-la. Águas: morte amarga: perdida. Uma mulher e um homem. Vejo a saiota dela. Arregaçada, aposto. O cão deles equipava por um minguante banco de areia, trotando, fungando por todos os lados. Procurando algo perdido em vida passada. [...]. Veja mais aqui e aqui.

DA HUMANIDADE LEVADA PELAS ÁGUAS – Entre as poesias da escritora Graça Graúna, destaco o poema Da humanidade levada pelas águas (Em memória de Aylan Kurdi): Viver é perigoso, / o poeta dizia. / Assim mesmo insistimos / em fazer a travessia. / Viver é perigoso, / mas seguimos / vestidos de coragem / na ânsia de encontrar / o olhar generoso / o abraço apertado / a mão amiga / que acolham os nossos sonhos... / Em meio à travessia / a humanidade / é levada pelas águas / e tudo que me fica / é uma tênue esperança / que se alastra pelo mundo / nos sonhos do pequeno anjo / de asas partidas. / Apesar das muralhas / e dos arames farpados, / o direito à Paz nos aproxima. / Viver é perigoso, / mas insistimos... Veja mais aqui e aqui.

MADEMOSIELLE GEORGE - A atriz francesa Marguerite-Joséphine Weymer, mais conhecida como Mademoiselle George (1787-1867), tornou-se a mais brilhante da cena francesa, começando na Comédie Fraçaise, na qual seu tio era secretário e seu pai era o diretor, atuando a partir dos cinco anos no drama e na ópera cômica. Na adolescência já era dotada de sensibilidade apurada, de uma maravilhosa e sonora voz, alcance e som, flexível e poderosa, estreando profissional em 1802, com Clitemnestra. Deu-se inicio ao triunfo geral torcendo que aliada à sua beleza como a sua voz, com dicção apurada e elegante, chegando ao auge com sua atuação Amenaide. Finalmente ela conseguiu o papel de Idame, o Órfão da China. Foi nessa época que ela se tornou a amante do Primeiro Cônsul Napoleão Bonaparte que lhe deu o apelido de Georgina, e tornou-se amiga de Alexandre Dumas e Victor Hugo. Ao ser abandonada pelo amante, seguiu para Rússia, onde sua vida entrou numa nova fase de honras, glória e riqueza. Seguiram-se inúmeros sucessos e ao retornar à França foi coroada de êxito. Veja mais aqui.

IT’S A WONDERFUL LIFE – O filme It's a Wonderful life (A felicidade não se compra, 1946), dirigido por Frank Capra, conta a história de um espírito desencarnado, candidato a anjo que, para ganhar suas asas, recebeu a missão de ajudar um valoroso empresário que se encontrava com grave problema financeiro, provocado por desonesto banqueiro e tinha a intenção de se suicidar. O aspirante a anjo foi encontrá-lo na véspera do Natal, à noite, prestes a saltar de uma ponte nas águas geladas que corriam embaixo. Fazendo-se visível e identificando-se, falou de sua missão e, sem nenhuma pretensão de demovê-lo da ideia, comentou que seria um desperdício, porque ele vinha sendo importante para muita gente. Ante o ceticismo de seu protegido, que se sentia um fracassado, o amigo espiritual mostrou-lhe várias situações que teriam acontecido se não fosse sua interferência. A morte do irmão, a tristeza da esposa, a situação lastimável de sua cidade entre outras. O destaque do filme fica por conta da atuação da atriz estadunidense Donna Reed (1921-1986). Veja mais aqui.

REVISTA ACERVUM - Está no ar a atualização da Revista Acervum – Suplemento Nacional de Literatura & Artes, editada pelo jornalista Mhario Lincoln. Esta edição é especial Luis Augusto Cassas, encartando a Revista Poética Brasileira com destaques para Jamerson Belfort, Osmarosman Aedo, Mariana Felix, Izau Neto, Luciah Lopez, entre outros. Traz ainda a entrevista com o poeta Eloy Melônio. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do escultor e pintor francês Auguste Rodin (1840-1917). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à cantora portuguesa nascida em Angola e radicada no Brasil, Irina Costa. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aquiaqui.

 Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Ayn Rand, Elisa Lucinda, Lenine, Alina Zenon, Enrique Simonet, Paula Burlamaqui & muito mais aqui.


quarta-feira, dezembro 31, 2014

PAULA SIMONETTI, LAUREN KATE, MARIANNE WILLIAMSON, JORDAN PETERSON, BASUKI & LITERÓTICA


 


CAPÉI, A DEUSA SELENE – A noite saiu do coco de Tucumã e a moça das águas da cachoeira, sozinha no fundo dos bosques, acendeu os vaga-lumes e à beira do lago sua imagem influenciou a natureza e regulou as marés, a germinação das sementes, o fluxo das mulheres, o nascimento das crianças e dos bichos e o brilho de certas pedras de cor. E a moça branca das águas da cachoeira vivia sozinha no fundo dos bosques, o meu amor proibido. Sua lágrima se fez Amazonas e alumiou meus versos de ermitão. E eu a segui até o terminadouro, navegante solitário, seguindo seus passos até me envolver em seu breu para nunca mais raiar o dia. Nela eu virei tetéu e se fez eterna guardiã para cantá-la: quero-quero e pra vigiar a volta do sol. E cantando comigo me fez Selenito, andejo da noite em que a coruja segura o ponta do céu como se o meu amor tivesse ido e se foi, o meu amor já se foi, já foi, foi... Era ela nua aos meus pés pagãos, um discípulo que dela se apropriou: ela diz que sou seu amor, ninguém sabe, desde então ela sempre me amou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui.

  


DITOS & DESDITOS - Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente esperando resultados diferentes. Não há progresso sem mudança de atitude. É melhor se arrepender de algo que você fez do que se arrepender de algo que não fez. O que define você é o que você faz quando se sente mais entediado... Pensamento do psicólogo, escritor e professor canadense Jordan Peterson, autor da obra Maps of Meaning: The Architecture of Belief (Routledge, 2000). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O amor é com o que nascemos. O medo é o que aprendemos. A jornada espiritual é o desaprendizado do medo e dos preconceitos e a aceitação do amor de volta em nossos corações. O amor é a realidade essencial e nosso propósito na terra. Estar consciente disso, experimentar o amor em nós mesmos e nos outros, é o sentido da vida. O significado não está nas coisas. O significado está em nós... Pensamento da escritora estadunidense Marianne Williamson. Veja mais aqui.

 

QUEDA - [...] A confiança é, na melhor das hipóteses, uma busca descuidada. Na pior das hipóteses, é uma boa maneira de morrer. [...] A única maneira de sobreviver à eternidade é poder apreciar cada momento [...] Você sabe que todo mundo adora odiar um casal feliz de pombinhos. [...]. Trechos extraídos da obra Fallen (Galera, 2010), da escritora estadunidense Lauren Kate, que na obra Torment (Ember, 2011), expressou que: [...] Às vezes, coisas bonitas surgem em nossas vidas do nada. Nem sempre conseguimos entendê-los, mas temos que confiar neles. Eu sei que você quer questionar tudo, mas às vezes vale a pena ter um pouco de fé. [...] O amor nunca morre [...] A solidão no meio de uma multidão era o pior tipo de solidão, mas ela não conseguia evitar. [...]. Já na obra Rapture (Delacorte, 2014), expressou que: [...] Quero que você saiba que eu faria tudo de novo. Eu escolherei você todas as vezes. [...]. E na Passion (Ember, 2012), expressou que: […] Amarei você de todo o coração, em cada vida, em cada morte. EU não estarei vinculado a nada além do meu amor por você [...]. Além disso é autora de frases como: A sabedoria segura uma vela para a experiência, mas você tem que pegar a vela e caminhar sozinho... O passado é importante por todas as informações e sabedoria que contém. Mas você pode se perder nisso. Você precisa aprender a manter o conhecimento do passado com você enquanto busca o presente...

 

EU NÃO VOU FALAR - vou falar sobre outra coisa \ nunca é isso \ não vou te falar \ Suficiente \ Eu vou te desenhar assim sutil \ paraíso de papel \ sem te contar sobre os piolhos ou os sonhos \ o olhar que se abre para uma breve infância \ vou falar \ sobre as redes \ os rosários \ talvez você não reze \ que você não balançou \ ontem \ Manhã \ nunca \ Não vou retomar a conta \ hematomas que desaparecem, mas para dentro \ explodir novamente no gesto das crianças \ de seus filhos e ad eternum \ Vou esquecer mais tarde quando estiver falando \ a ninguém \ por Picasso \ isso \ machuca \ não sua mão firme como \ a rigidez de um louco \ você virou o rosto e outro voltou \ de uma só vez, seu filho se tornou um homem \ Você não vai me dizer que eles são crianças \ vou falar sobre outra coisa \ embora eu volte \ para este alfabeto \ que só fala de você e da minha infância \ nada mais \ não diz o suficiente \ Não foi feito para dizer o suficiente \ Não vou falar do golpe e da marca \ a maneira como sua mão esmaga o gesto \ do seu filho como se ele fosse uma mosca de verão \ Vou falar sobre a maneira como sua mão \ surge de dentro do poema \ e desfaz. Poema extraído da obra En la boca de los tristes (Editorial Lo que Vendrá, 2014), da poeta e professora Paula Simonetti.

 

AS MULHERES DE BASUKI ABDULLAH

A arte do pintor e professor indonésio Fransiskus Xaverius Basuki Abdullah (Muhammad Basuki Abdullah - 1915- 1993), espancado até a morte por três agressores durante a invasão de sua casa em Jacarta.

 

SACADOUTRAS

 


Ouvindo Alô, Alô, Marciano, de Rita Lee (1947-2023), na voz da inesquecível Elis Regina.

Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
A coisa tá ficando ruça
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá pra atola, Alá
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Ui, gente fina é outra coisa, entende?
Down, down, down
High society
Down, down, down, down, down
High society
Hoje não se fazem mais countries como antigamente, não é?
High society, high society, high society, high society
Down, down, down
High society
Down, down, down, down down
High society
Ai que chique é o jazz, meu Deus
Down, down, down
High society
Down, down, down
Ah, Deus
(Alô, Alô, Marciano, Rita Lee e Roberto de Carvalho), Veja mais aqui.


Imagem: Nu allongé, do pintor francês Henri Matisse (1869-1954)

O SENTIMENTO TRÁGICO DE UNAMUNONão basta pensar, é preciso sentir nosso destino [...] A filosofia é um produto humano de cada filósofo, e cada filósofo é um homem de carne e osso que se dirige a outros homens de carne e ossos como ele. Faça o que fizer, filosofa, não apenas com a razão, mas com a vontade, com o sentimento, com a carne e com os ossos, com toda a alma e todo o corpo. Filosofa o homem. [...] A fé, a vida e a razão se necessitam mutuamente. O anseio vital não é propriamente problema, não pode adquirir estado lógico, não pode formular-se em proposições racionalmente discutíveis, mas se coloca a nós, como a nós se coloca a fome. Um lobo que se lança sobre a sua presa para devorá-la ou sobre a loba para fecundá-la também não pode colocar-se racionalmente, e como problema lógico, seu impulso. [...] Por minha parte, não quero celebrar a paz entre meu coração e minha cabeça, entre minha fé e minha razão; quero que combatam entre si. [...] Não faltará a tudo isso quem diga que a vida deve submeter-se à razão, ao que responderemos que ninguém deve o que não pode, e a vida não pode submeter-se à razão. “Deve, logo pode”, replicará algum kantiano. E contra-replicaremos: “Não pode, logo não  deve.” E não pode porque a finalidade da vida é viver, não compreender. [...] Aumentando o amor, esta ânsia ardorosa de ir mais longe e mais fundo vai-se estendendo a tudo o que se vê, a tudo o que se vai compadecendo de tudo. À medida que vais penetrando em ti mesmo, e mais fundo desces em ti mesmo, vais descobrindo a tua própria futilidade, que não és tudo o que não és, que não és o que gostarias de ser, que, em suma, não és mais do que uma ninharia. E ao tocares no teu próprio nada, ao não sentires o teu fundo permanente, ao não atingires nem a tua própria infinitude nem, mesmo, a tua eternidade, tendo lástima de todo o coração a ti próprio, inflamas-te em doloroso amor por ti mesmo, matando o que se chama amor-próprio, e não é mais do que uma espécie de deleite sensual de ti mesmo, algo assim como a carne da tua alma a gozar-se a si mesma. O amor espiritual a si mesmo, a compaixão que uma pessoa adquire para consigo própria, poderá, porventura, chamar-se de egotismo; mas é o que de mais oposto existe ao vulgar egoísmo. Porque deste amor ou compaixão de ti próprio, deste intenso desespero, porque, do mesmo modo que não eras antes de nasceres, também depois de morreres não serás, passas a ter compaixão, isto é, a amar todos os teus semelhantes e irmãos, em aparência miseráveis sombras que desfilam do seu nada ao seu nada, chispas de consciência que brilham um momento nas infinitas e eternas trevas. E dos demais homens, teus semelhantes, passando pelos que são mais semelhantes a ti, pelos que contigo convivem, vais-te compadecer de todos os que vivem, e até daquilo que, porventura, não vive, mas existe. Aquela longínqua estrela que brilha durante a noite, lá no alto, há-de apagar-se algum dia, e tornar-se-á pó, e deixará de brilhar e de existir. E, como ela, todo o céu estrelado. Pobre céu! E se é doloroso ter de deixar de ser algum dia, mais doloroso seria, talvez, continuar a ser sempre o mesmo, e só o mesmo, sem poder ser outro ao mesmo tempo, sem poder ser ao mesmo tempo tudo o resto, sem poder ser tudo. Se olhares para o universo do modo mais próximo e profundo que puderes olhar, que é em ti próprio; se sentires, e não só comtemplares, todas as coisas na tua consciência, onde todas elas deixaram a sua dolorosa marca, atingirás as profundezas do tédio da existência, o poço da vaidade das vaidades. E é assim como chegarás, a compadecer-te de tudo, ao amor universal. Para amares tudo, para teres compaixão de tudo, do humano e extra-hunamo, do que vive e não vive, é necessário que sintas tudo dentro de ti mesmo, que personalizes tudo. Porque o amor personaliza tudo quanto ama, tudo aquilo de que se compadece. Só nos compadecemos, isto é, só amamos, o que se nos assemelha, e assim aumenta a nossa compaixão, e com ela o nosso amor pelas coisas, à medida que descobrimos as semelhanças que têm conosco. Ou, melhor, é o nosso próprio amor, que por si só tende a crescer, o que nos revela essas semelhanças. Se consigo compadecer-me e amar a pobre estrela que um dia desaparecerá do céu, é porque o amor, a compaixão, me faz sentir nela uma consciência, mais ou menos obscura, que a leva a sofrer por não ser mais do que uma estrela e por ter de deixar de o ser, um dia. Pois toda a consciência o é de morte e de dor. Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer. O amor personaliza tudo o que ama. Só é possível apaixonarmo-nos por uma ideia personalizando-a. E quando o amor é tão grande e tão vivo e tão forte e transbordante que tudo ama, então, ele tudo personaliza, e descobre que o Todo total, o Universo, também é Pessoa. Tem uma Consciência, Consciência que, por sua vez, sofre, se compadece e ama, isto é, é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personalizando tudo o que ama, é o que chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus e sente que Ele se compadece dela, ama-o e sente-se amada por Ele, dando abrigo à sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, ao eternizar-se e tornar-se infinita, a própria felicidade. Deus é, pois, a personalização do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo. Consciência presa da matéria e esforçando-se por se libertar dela. Personalizamos o Todo para nos salvarmos do Nada, e o único mistério verdadeiramente misterioso é o mistério da dor. A dor é o caminho da consciência, e é por ela que os seres vivos atingem a consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber-se e sentir-se distinto dos outros seres, e só se consegue sentir essa distinção com o choque, com a dor maior ou menor, com a sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não é mais do que a consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo ao sentir que não sou os outros; saber e sentir até onde sou é saber onde deixo de ser, e a partir de onde não sou. E como saber que se existe não sofrendo nem muito nem pouco? Como voltar sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor? Quando se tem prazer, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, entramos noutra coisa, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, voltamos a nós próprios, a sermos nós, na dor. (Miguel de Unamuno y Jugo [1864-1936], O sentimento trágico da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1996). Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Falange, falanginha, falangeta, Lou Andres-Salomé, Kate Wilson Sheppard, Arthur Honegger, Daphne & Chloe, Louis Hersent, Luiz Eduardo Caminha & Programa Tataritaritatá aqui.

E mais:
Hannah Arendt, Eric Hobsbawm, História do Direito, Kaplan & a conduta na pesquisa aqui.
Norbert Elias & Princípios fundamentais de Filosofia aqui.
Pierre Bourdieu, Psicologia Escolar, Direito & Internet aqui.
Ainda assim é uma história de amor aqui.
Hoje PNE é o outro, amanhã pode ser você aqui.
O mundo parou pro coração pulsar aqui.
Com a perna na vida foi ser feliz como podia aqui.
A fúria dos inocentes aqui.
Celso Furtado & Economia Popular aqui.
A aprendizagem de Albert Bandura & Direito Autoral aqui.
Educação & a crise do capitalismo, Pedagogia do Sucesso, Formação do Pesquisador, EaD, A arte do guerreiro no planejamento e atendimento, Curriculo, Cultura & Sociedade aqui.
Da invasão da América aos sistemas penais de hoje, A viagem de Joan Nieuhof, A Pesquisa Histórica, Palmatres: a Guerra dos Escravos, A Guerra dos Cabanos & o Movimento camponês rebelde aqui.
Entrevista com a viúva autônoma Sandra da Silva, em Arapiraca-AL aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.




quarta-feira, fevereiro 13, 2008

BAUDELAIRE, ALCÂNTARA MACHADO, FEUERBACH, MATISSE, MIRCEA ELIADE, QUESTÃO AGRÁRIA & TOLINHO & BESTINHA




A arte do pintor francês Henri Matisse (1869-1954).


TOLINHO & BESTINHA - IV - Quando a lei do semideus é cachaça, tapa e gaia - Tolinho nunca foi de na hora agá do pega-pra-capar dar uma de ré-pra-trás, tá doido? Farrapar não fazia parte do seu glossário, podendo, no máximo, tapiar, enrolar, mas abrir-da-vela, ôxe, nem morto. Ele sempre foi do tipo de se atolar cobrindo até o cardan numa areia movediça, dando um boi para não se meter em bronca e uma boiada quando fosse compelido a se enfincar nela, num saindo sem antes fazer imensuráveis estragos na reputação dos envolvidos. Daí dizer que ele já cagou-fora-do-caco, nem mesmo o seu primo, o Lombreta-boca-de-frô, desde os tempos fagueiros da infância, seria capaz de conferir por elucidação. Agora, excetuando-se o pipôco de arrancar um colhão e a fuga de medo da feiosa, até então Tolinho nunca desfez palavra de rei. Tinha lá suas pacutias, mas dissesse o dito, tava feito. - Quando deus dé bom tempo e vergonha nos homens, eu indireito o rumo da venta na minha vida! -, arremedava todo azuretado. O Lombreta mesmo se ria e dava a maior corda para as pabulagens do alesado de quando vitimado dalgum enredo desproposital de abelhudo funesto, desbragava-se na maior das gargalhadas mangadeiras. Este testemunhou tantos infortúnios quanto presepadas malévolas que o fuleiro impunha aos de sua convivência de quase pocar o tampo do bucho de tão risível que resultava. É que Tolinho, quer queira, quer não, apesar de tudo, tinha lá seus códigos de honra um tanto reprováveis pela conduta usual. E enumerava um a um arrotando probidade: - Pirôbo é raça que mereci arrespeito, num inxeste na face da terra coiteiros meiores pra se fazer boi-de-fogo! Qué encrenca? Boate pra eles quaiquer enredo que o negoço fica dum jeito que o diabo gosta. Adispois, é só esperá a parma da mão e o couro ficar quente numa bravata! Outra? Muié é a meiór e a pió coisa que inxeste no mundo! A de casa é feito galinha de granja: insossa, chêrosinha e cheia de bronca; as da rua, feito galinha de capoeira: come merda, nojenta e tem uma carne boa, suculenta e tome-lá-dê-cá. Família? só presta pra tirar retrato, se der trela se mete até onde num é chamado e cheio de direito, tudo sócio nas benesses e pinoteiros na hora do vamos ver. Home só se tem dois tipos: os amigos pra gente caçoar, tirar proveito e tratar por camarada; e os inimigos, pra gente esfolar o gogó até num prestar mais pra nada num descarte. Pelo visto, o bicho era ineivado, viesse do jeito que fosse ele traçava no peito e na raça. Lombreta lá, só atocaiando o desfecho. Isso tudo Tolinho aprendera na escola da vida e no meio da safadeza até a metade do ginasial, vez que ele abominava o inventor de estudo, coisa que ele achava a mais sem graça de todas as coisas inventadas, desinventadas e por inventar na face da terra. - Estudá pra quê? A vida é a maior escola pra dar folgança na costela de quaiquer vivente! E nessa escola deu-se de enganchar as pernas nas coxudas insones mais desditosas das paragens. Era uma macacada triste a chavecada do sujeito no juízo das mariposas. Ôxe, parecia mais o Don Juan senão Casanova de sustância irrepreensível. Num tinha dia dele num bater umas três bronhas e ainda deixar umas cinco sedentas pulando de gôzo com a mão na cabeça, sem contar os pederastas destrambelhados que dormiam com o aro do bozó dilatado. Era. Tinha ocasião até dele se amigar com umas seis ao mesmo tempo, dando conta do recado sem pestanejar. E avalie que o cara era rancôlho, imagine se... Certa feita, a tuia de mocréias deu uma reviravolta na sua vida, uma ingrisiou com a outra, ficaram de mal, juraram desforra e ele costurando tudo na conversa. Nem diga: as seis, mais trombudas que barangas injuriadas, se juntaram num motim e, armadas de penico, bobes, lancheiras, tamancos, frasqueiras, prochetes, berilos, atacas, tarraxas, flandres, pinças, frascos, brebotes e tranqueiras, deixaram-no no canto da parede, exangue e com os olhos prontos para pular fora de tanto medo, findando entrincheirado a todo tipo de beliscada e sapecada de utensílios no quengo, do cara endoidar-se e aboletar-se numa maca hospitalar compulsoriamente por breves oito meses, estatelado. Sofreu na pele a desforra delas, jurando num querer vê-las nem pintadas em noite de correr bicho. Mas essa não foi a primeira e nem seria a única a desandar na sua vida. Ainda hoje o bicho anda enovelado com umas broncas assim de arrepender-se desde o dia que nasceu macho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui


PENSAMENTO DO DIA – [...] O homem cria Deus à sua imagem e semelhança. [...] O homem – este é o mistério da religião – projeta seu próprio ser fora de si e depois se faz objeto deste ser metamorfoseado em pessoa; pensa a si mesmo, porém como objeto do pensamento de outro ser, e este ser é Deus. [...]. Pensamentos extraídos da obra Essência do cristianismo (Vozes, 2003), do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), efetuando uma crítica da religião como alienação, sendo considerada uma obra clássica do humanismo e o mognum opus do seu autor. Veja mais aqui e aqui.

O MITOO mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do tempo, ab initio (desde o início). Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um Mistério, porque as personagens do mito na são seres humanos: são Deuses ou Heróis civilizadores, e por razão as suas gesta (ações memoráveis) constituem Mistérios: o homem não poderia conhecê-los se lhos não revelassem. O mito é, pois,a história do que se passou in illo tempore (naquele tempo), a narração daquilo que os Deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. "dizer" um mito é proclamar o que se passou ab origine (desde a origem). Uma vez 'dito', quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. 'É assim, porque foi dito assim', declaram os Eskimo netsilik (tribo de esquimós) a fim de justificarem a validade da sua história sagrada e de suas tradições religiosas. [...]. Trecho extraído da obra O sagrado e o profano: a essência das religiões (Martins Fontes, 1992), do filósofo, professor, cientista das religiões, mitólogo e romancista romeno Mircea Eliade (1997-1986), estudando a situação do homem em um mundo saturado de valores religiosos, tornando-se, por isso, numa introdução à história das religiões, um balanço dos conhecimentos nesse campo. Veja mais aqui.

O QUE É A QUESTÃO AGRÁRIA – [...] E enquanto milhões de hectares de terras férteis e bem localizadas são retidos improdutivamente, outros milhões são apropriados à custa de trambiques e violência, por grandes empresas capitalistas que, como já destacamos não são mais apenas os “velhos latifúndios”, mas também os bancos e as empresas multinacionais. Como resultado disso são expulsas do campo, a cada ano que passa, milhares de famílias, que não têm para onde se dirigir a não ser às favelas das periferias das cidades. Ë por isso que a reforma agrária aparece hoje como a única solução democrática possível para a questão agrária [...]. Extraído da obra O que é questão agrária (Brasiliense, 1980), de José Graziano, aborda aspectos gerais do desenvolvimento da agricultura brasileira recente, mostrando as principais características da questão agrária dos últimos anos e discutindo a retomada da reforma agrária como possível solução para a crise agrícola e agrária. Apresenta, ainda, as diferentes categorias de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, suas reivindicações e sua organização social.

A MULHER SELVAGEM E A PEQUENA AMANTE - Francamente, minha querida, você me cansa sem limites e sem piedade; dir-se-ia que, ao ouvi-la suspirar, você sofre mais do que as colhedoras sexagenárias ou as velhas mendigas que juntam as crostas de pão na porta dos cabarés. Se, pelo menos, seus suspiros exprimissem remorsos, eles lhe fariam alguma honra; mas eles só traduzem a saciedade do bem-estar e a indolência do repouso. E, depois, você não cessa de repetir-se em palavras inúteis: ‘Ame-me muito! Preciso tanto. Console-me aqui e acarinhe-me ali. Escute, eu quero tentar curá-la, nós acharemos, talvez, um modo por dois tostões, no meio de uma festa e sem ir muito longe. Consideremos, eu lhe peço, esta sólida jaula de ferro atrás da qual se agita, gritando como um louco, segurando as barras como um orangotango exasperado pelo exílio, imitando, com perfeição, ora os saltos circulares de um tigre ora os bamboleios estúpidos de um urso branco, esse monstro peludo cujas formas imitam vagamente as suas. Esse monstro é um desses animais a que chamamos geralmente de ‘Meu anjo’, isto é, uma mulher. O outro monstro, o que grita ensurdecedoramente, com um porrete na mão, é um marido. Ele prendeu a mulher legítima como uma fera e a exibe nos subúrbios nos dias de feira, com permissão dos magistrados, é óbvio. Atente bem! Veja com que voracidade (talvez não simulada) ela dilacera os coelhos vivos e as galinhas pipiladoras que lhe joga seu domador. ‘Vamos, não precisa comer todo o seu patrimônio num único dia’, e, com estas sábias palavras, arranca-lhe, cruelmente, a presa cujos intestinos desenrolados ficam pendurados nos dentes da besta feroz, da mulher, quero dizer. Vamos! Agora umas boas porretadas para acalmar! Pois ela fixa os terríveis olhos cobiçosos sobre a comida retirada. Grande Deus! O porrete não é um pau de comédia, você não ouviu o som das pancadas na carne, apesar dos pêlos postiços? Também, agora, os olhos saltam fora das órbitas, ela urra mais naturalmente. Em seu ódio, ela cintila toda por inteiro, como o ferro batido. Tais são os costumes conjugais desses dois descendentes de Adão e Eva, obras de suas mãos, ó Deus! Essa mulher é incontestavelmente infeliz, embora, depois de tudo, os prazeres tiritantes da glória não lhe sejam desconhecidos. Existem infelicidades mais irremediáveis e sem compensação. Mas no mundo onde ela foi jogada jamais pôde crer que a mulher merecesse outro destino, Agora, nós dois, cara preciosa! Ao ver os infernos que povoam o mundo, o que você quer que eu pense de seu inferno bonitinho, você que não repousa senão sobre tão macias almofadas quanto a sua pele, você que só come carne cozida e para quem uma criada hábil cuida de trinchar os pedaços? O que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que enchem seu peito perfumado, robusta coquete? E todas estas afetações aprendidas nos livros e essa infatigável melancolia, feitas para inspirar no espectador nenhum outro sentimento que não seja o de piedade? Em verdade, às vezes tenho vontade de lhe ensinar o que é a verdadeira infelicidade. Ao vê-Ia assim, minha bela delicada, com os pés na lama e os olhos voltados para o céu, como a lhe pedir um rei, dir-se-ia que se tratava de uma jovem rã que invocaria um ideal. Se você despreza o pequeno suporte (o que eu sou no momento, como você bem sabe) cuide do grou que a devorará, engolirá e a matará quando quiser. Mesmo sendo eu poeta, não sou um tolo, como você crê, e se você me cansar sempre e muito com suas preciosas choradeiras, eu a tratarei como mulher selvagem, ou a jogarei pela janela como uma garrafa vazia. Extraído da obra O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa (Martin Claret, 2010), do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867). Veja mais aqui e aqui.

É PRECISO OLHAR A VIDA COM OS OLHOS DE CRIANÇA - Criar é próprio do artista - onde não há criação,não existe arte. Mas seria um engano atribuir esse poder a um dom inato. Em matéria de arte, o autêntico criador não é apenas um ser dotado, é um homem que soube ordenar em vista de seus fins todo um feixe de atividades, cujo resultado é a obra de arte. É por isso que a criação, para o artista, começa pela visão. Ver já é uma operação criativa e que exige esforço. Tudo o que vemos na vida corrente sofre maior ou menor deformação gerada pelos hábitos adquiridos, e esse fato talvez seja mais sensível numa época como a nossa, em que o cinema, a publicidade e as grandes lojas nos impõem diariamente um fluxo de imagens prontas, que, em certa medida, são para a visão aquilo que o preconceito é para a inteligência. O esforço necessário para se libertar delas exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista, que deve ver a vida toda como quando criança; e a perda dessa possibilidade lhe tira a oportunidade de se exprimir de maneira original, isto é, pessoal. [...] Criar é exprimir o que temos dentro de nós. Todo esforço de criação autêntico é interior. Temos também de alimentar nosso sentimento, o que se faz com o auxílio dos elementos que tiramos do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho, por meio do qual o artista incorpora, assimila gradualmente o mundo exterior até que o tema que está desenhando se torne como uma parte de si mesmo, até que ele tenha o tema dentro de si e possa projeta-lo sobre a tela como sua própria criação. [...] É preciso um grande amor, capaz de inspirar e de sustentar o esforço continuo em direção á verdade, a generosidade conjunto e o despojamento profundo que implica a gênese de toda obra de arte. Mas o amor não está na origem de toda a criação? Trecho de Il faut regarder toute La vie avec dês yeux d’efants, extraído de Écrits et propôs sur l’art (Herman, 1972), do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Veja mais aqui e aqui.

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA - O trenzinho recebeu em Magoarí o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro. Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam : — Vai pisar no inferno! Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando. O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoarí. Porém, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Magoarí. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. 0 taioca guia dele só dava uma forga no bocejo para cuspir. Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: — O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu: — Não sei: nós estamos no escuro. — No escuro? — É. Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo: — Não tem luz? Bocejo. — Não tem. Cuspada. Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: — 0 vagão está no escuro? — Está. De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: — Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! E a luz não foi feita. Continuou berrando: — Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia. Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: — Que é que há? Baiano velho trovejou: — Não tem luz! Vozes concordaram: — Pois não tem mesmo. Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo. Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou: — Ele é pobre como a gente. Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos. — Foguetes também? — Foguetes também. — Be-le-za! Mas João Virgulino observou: — Isso custa dinheiro. — Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoarí, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: — Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse: — Quilo e meio de toicinho! Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. — Quantas reses, Zé Bento? — Eu estou na quarta, Zé Bento! Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. — Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu : — É por causa das trevas! O chefe do trem suplicava: — Calma ! Calma ! Eu arranjo umas velinhas. João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos. — Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole! 0 chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! 0 taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão. Tocando a sineta o trem de Magoarí fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe, muito pálido. Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Magoarí amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante da Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: — Qual a causa verdadeira do motim? O homem respondeu: — A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: — Quem encabeçou o movimento? Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: — Quem encabeçou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca. Extraído da obra Laranja da China (Civilização Brasileira, 1957), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

 A arte do pintor francês Henri Matisse (1869-1954).


Veja mais sobre
O encontro das sombras e olores, Cyro dos Anjos, Denis Diderot, Violeta Parra, Marieta Severo, István Szabó, Leo Putz, Erika Marozsán, Ida Rubinstein aqui.
E mais:
TOLINHO & BESTINHA
A Trupe do Fecamepa aqui.
Proezas do Biritoaldo Quando Risca Fogo, o Rabo Inflamável Sofre Que Só Sovaco de Aleijado aqui.
Painel das fêmeas, Lao Zi, Richard Flanagan, Heinrich Heine, Sally Nyolo, Fabiana Karfig, Gaspar Noé, Howard Rogers, Musetta Vander & Ação civil pública aqui.
Big Shit Bôbras: a chegada & primeira emboança aqui.
A Primavera de Ginsberg, Frederick Chopin, Valentina Igoshina, Paula Vogel, Jane Campion, Karl Briullov, Andréa Beltrão, Meg Ryan, Mademoiselle Dubois, Psicologia & Direitos Humanos, Cordel do Professor & Ísis Nefelibata aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá (Foto: Ísis Nefelibata).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...