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domingo, outubro 03, 2021

PAUL TILICH, DAVID MAMET, STEVE REICH & INCLUSÃO NA BIBLIOTECA.

 

 

TRÍPTICO DQP – Aporias entre o céu e a terra... - Ao som de Music for 18 Musicians (2011), do compositor estadunidense Steve Reich - Com o tempo dei de adormecer e, ao despertar, não saber em que espaço ou tempo esteja. Ou estou elouquecendo, tomara. Quem sabe, começando a caducar, pudera. Desta feita, não adiantou solfejar canção que fosse, estava como se tivesse envolvido na pele da trama de Oleanna (1992), do dramaturgo estadunidense David Mamet, e a sua filha Clara – face inspiradora nos lábios obscenos e voluptuosos - era a Carol a me seduzir na cena, como se fosse possível a duas pessoas estranhas conviverem juntas, avalie. E ela estivava nua numa cena escura do palco e se parecesse inteiramente com a atriz francesa Sophie Marceau, aquela mesma que povoava meus sonhos recorrentes e a nos engalfinhar nas onze histórias d’O vampiro e a polanquinha (1992) de Dalton Trevisan. Eu me levantei da poltrona, pisei o assoalho solitário por fragmentos de devaneios que surgiam do nada para orbitar minha existência insistentemente e me levasse a sucumbir no delírio onírico que se transformara em um filme, era só na minha cabeça e eu, um professor, ela minha aluna insinuante e linda, bálsamo para minha alma. Era teatro em toda parte com câmaras ligadas para qualquer projeção em que ela me acusava de assédio sexual, com suas frustrações por não entender o assunto dado em sala de aula e todos os dias ela lá. A desgraça é finalmente a dizer da tentativa de estupro e perco a cabeça. Depositei o que restava de mim sobre os braços à mesa, ela silenciosa, tocou-me e abri os olhos de repente e vi-a cantatriz encantadora, a me dizer Kierkegaard: Aquele que não se torna só consigo mesmo, ainda que mantenha silêncio, não o terá. O silêncio só é possível para aquele que, em verdade, torna-se só consigo mesmo. Olhei-a profunda e demoradamente, aquela tentação poderosa e eu me continha com todas as forças. Levantei-me, dei-lhe as costas e me distanciei o máximo que pude. Entre as coxias o filósofo alemão Paul Tilich (1886-1965), a me dizer que a solitude: é a glória de estar sozinho. Parei diante dele para ouvi-lo: O primeiro dever do amor é ouvir. A vida é dura... e nem sempre é justa. Mas isso não quer dizer que ela não possa ser boa, gratificante e prazerosa. Ainda há muitas razões para dizer sim à vida. Refleti um pouco e me conduzi para a saída do prédio, parturejar ideias no meio de demofóbicos, misóginos, quando não antrófobos com seus estressados bichinhos de estimação. Dei vazão às minhas bricolagens aporéticas. Ela seguia-me e era como se fosse a primeira promessa e o que não deu certo, o alivio da incolumidade. Não olhei para trás e segui: para quem vem ou vai: aporias entre o céu e a terra. Semáforos de sempre, vida adiante.

 


Mil dias depois da esculhambação... - Os tempos mudaram e tudo ficou muito assustador. Passou uma severa turbulência, a ponto de desnortear de sequer perceber janeiro com a posse “decente” e proclamadora do Coisonário, que se dizia Caminho da Prosperidade. Sabia que não era nada disso, nem foi, nem será; tudo fora muito bem manipulado nos últimos cinco anos, para consolidar o que já desconfiava. Do primeiro dia, entre o risível e o trágico, passou-se a vigir que se podia peidar à vontade, cagar só dia sim dia não, porque o ambiente ficou inflamável e encolheu a escola para pouquíssimos e começou o pipocado da festa dos ruralistas e assemelhados do Agro pop de agrotóxicos e pesticidas sem ambiente dos grandes da fraude piramidal e bleque-fridei, talkei? Com elas, outras determinações: não atrapalhe nem amole o professor ou o motorista que investiram no dólar e preferiram vender vacina com os pastores e a mãe num negócio da China, apadrinhado pelo Centrão nas relações exteriores e que não se teria mais shiTrump para pedir penico pro golpe no sonho do capitólio daqui. Também não se procurasse saber onde estivesse porque era frio de lascar de repente e um calor da peste, desabando com a prevaricação na fivela da Lava Jato e o juiz nem era herói e vazou e o racismo virou praga com sufocamento em Manaus e se o rio secou pro apagão da QAnon, era a vez da pandemia e uma quarentena interminável tomou conta de vez. Aí a coisa empenou: deu de tudo com homenagens sinistras de torturadores e milicianos, ofertas com embalagens de luxo e que não era uma novela, e que se saiba de antemão: os deuses surdos também se tornaram cegos e premiaram o primeiro baba-ovo. Aí avacalhou tudo pra passar a boiada geral, no atacado e no varejo: rachadinha, Bebiano, deseducação, Queiroz, brasileiros canibais viajando, Kassio Nunes, goldemshauer, nazismo comunista e KGB, Tonho da Lua, foro mais privilegiado de sempre, Goebbels, drones, inflação pro império milionário, inauguração de trecho de rodovia, troca-troca nos ministérios, recondução do Aras feito guenzo da cristomania e todas as sequelas no asfalto com a tempestade de poeira e a gasolina nas alturas da Prevent e se tudo ficou caro de uma hora para outra, era que uma savana emergia n o voto impresso e no pega pra capar findou na fronteira dos USA, como se Maia segurasse tudo, de chorar com o rabo de arraia do Lira que levou o hospital numa banda metaleira feito plano hap de saúde hip de vida hop e quem hup não se fez por amigo da primeira-dama, juntou caixa de papelão no quintal quando deveria ter uma goiabeira pra Jesuisis & Doidamares – e o Doro que coisou e tem andado um bocado arrependido quer encará-la: Ela dá cloro e pano! E partiu arretado para arregaçar nos guardados dela. E daí? Do zero-um pro dois, três, até o quatro lavando a jega e mais se enfeiou no torrão com o lixo nas calçadas, folhas, flores, frutos, o tráfico nos condomínios e favelas, carros e casas sujas, a fumaça do bueiro da usina, a catinga pútrida e a brutalidade de gente com suas pseudofamílias nas arengas e estupros coletivos, crucifixo no pescoço, rezas altas e aos gritos pelos sete pecados capitais, pelos dez mandamentos, quando tudo era inferno, nenhuma humanidade, a sociedade doente, uma escória feita de vermes - quem não em estado de choque nos sete de setembro e o desfavorável porque ficou inviável com o Agro que é pop ou pqp e teve Dia D para tocar fogo, aproveitando para o perdão das dívidas evangélicas, regulamentação da agiotagem, leilão com liquidação de tudo na maior promoção, as comunidades terapêuticas no comando do golpe para namorar a Cloroquina toda tarada e, na cara dela, se agarrar com Ivermectina safada para duas de quinhentos com nota de duzentos falsa – quem viu, não sei porque se passou por mito e quem não pagou mico de guardar a mamadeira de piroca, as controvérsias das fardas do que fizeram das forças armadas tão desarmadas e das milícias neonazifascistas que sobraram dos trezentos e não sei quantos milhões de cem reais que são na gripezinha e no mimimi da entubação dos influenciadores que não querem ninguém em casa para sair furtivo como cosplei de rato com pizza no bico. Eita! E daí, meu? Presse desgoverno, qual legado? O bizarro delírio das conspirações e feiquenios, tragicômico Brasil que não foi nem nunca será para coisonários que batem cabeça demais: são feito couro de pica e mentem que o cu apita. No fim da festa, mil dias de uma voz que se apagou de nenhuma saudade na barbárie da tevê desumana com o horror extra dos rugidos da covardia e sacanagem, com o que engana de zap-zap e o que resta das promessas e do tédio: a falsificação como originalidade. Outras aporias, tudo muito imperdoável. E persigo sobrecarregado de ocorrências e interrogações no meio da nossa segregação, driblando o certo e o errado e vice-versa, as pessoas obtusas viraram pragas e quase ninguém consegue ver a realidade encoberta por um punhado substancial de velhas mitologias de agora, um inferno para lá de dantesco.

 


Inclusão, enfim, ah!... - Minha vida braços abertos: nenhuma fórmula, nem tendência ou convenção. Experimentos e incertezas, a impermanência. E sou a minha língua e voz, modulações obscuras e à deriva, nenhuma mensagem nem sentido, despsicologizado entre o insulto e o inusitado, como se o prazer no fundo do oceano para que ninguém veja ou ouça ou sinta. Se não tenho para onde ir no meio dessa sensaboria, vou pra biblioteca. E lá, cedinho, de um dos livros que saquei numa das estantes, escapou a cena e eu espanquei o pobre de Baudelaire: Só é igual a outro aquele que disso dá prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la. Na surpresa do fato, o agradável ficou por conta de chegada da professora Roselene Santos com o projeto Inclusão e Espaços Publicos, e alunos das escolas CAIC-José do Rego Maciel, Aloisio Sebastião e Lar Heleninha. Ela e a professora Rosielma Santos trouxeram duas deficientes visuais que leram meu cordel em braile e eu fiquei maravilhado com uma menina solta a tagarelar altiva na dinâmica com Thayná Mikaele, Thays Leandro, Tamires Milena e Rayane da Silva, todas acompanhadas dos pais Adilson Leandro e Josenilda Maria. E rolou poesia, cantoria e dinâmicas; cá comigo era Paulo Freire: A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades. E Boaventura de Souza Santos: Temos direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. O universalismo que queremos hoje é aquele que tenha como ponto em comum a dignidade humana. A partir daí, surgem muitas diferenças que devem ser respeitadas. E era Carlos Drummond de Andrade: Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar. E era Emma Thompson: Ser deficiente não deve significar ser desqualificado de ter acesso a todos os aspectos da vida. E era Salvador Allende: Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos. E era José Saramago: Há que deixar as pessoas serem como são. Vivendo em suas diferenças e a partir de seus próprios pressupostos culturais. E nisso, a até então tímida assistente social Chiara Santos se mostrou esfuziante aos meus olhos fascinados com a conversa encetada, enquanto a encantadora Sil Neves conversava com Zé Ripe sobre a Academia. Ah, que bom! Assim o mimético ali e a minha diegese. E é só o começo, quem frágil e excluído, afinal. Do lado de fora outros adultos embotados seguiam catatônicos na sua normose, além da memória porque duas mulheres falavam de suas dores, talvez Medeia, uma delas – tudo é possível e a se repetir ao infinito no meio de um cruel vodu eternamente implacável e a iminência da queda: uma vaca mugiu pelas ruas, um pai foi nocauteado pelas dívidas, um vira-lata latiu com criaturas invisíveis e era outra temporada, o isolamento e o solipsismo pelas frestas das coisas decadentes, os oitenta tiros em Evaldo Pereira e a comemoração tímida de Marta artilheira de todas as copas. Eu preciso sonhar para não sucumbir ao descartável, quantos embates e discordâncias, desenquadrado e contra a corrente. Como assim? Não é nenhuma fábula pinçada do cotidiano às portas fechadas. Sou corpo estranho, talvez, ainda tenho o futuro nas mangas, posso sacá-lo e ainda rir do mundo: apenas celebrar a vida. Até mais ver.

 

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sexta-feira, janeiro 22, 2021

KOBO ABE, JORGE IBARGÜENGOITIA, GRAMSCI, STRINDBERG, CHIHARU SHIOTA & JULIANA NOTARI

 

 

TRÍPTICO DQC: PAISAGENS DO SILÊNCIO - Ao som de Tout un monde lointain...(1967/70), do compositor francês Henri Dutilleux (1916-2013), inspirada na poesia de Charles Baudelaire, na interpretação performática da violoncelista alemã Konstanze von Gutzeit & Orchestra of the University of Music, conductor Nicolás Pasquet (Weimar, 2016). – A minha solidão e todo um mundo distante... Todas as belezas e a paixão... Todo universo...  e a vida sempre por um triz... A esta hora as cores do poente ardem nos meus olhos e o mundo que a morte e o azul e a ausência em si resume no vivo clarão das horas estivais. Os sonhos partiram em caravana e estou daqui a ver os que se matam no tédio cruel de singulares jogos. Sou hóspede da noite que já se avizinha num país sem igual, o Sol morre no céu nebuloso e o egoísmo humano é descoberto no paroxismo dos seus concretabstratos invadindo todos os meus sentidos entre ruinas e desgraças, como quem órfão paterno não perdoa a mãe pelas segundas núpcias e odeia os credores infames da minha saúde debilitada. Fui deserdado e passo por todas as farsas ímpias, abrindo caminho ao coração e perplexo com a degradação ultrajante das cidades com suas fachadas de banheiro para descaracterizá-las em nome do moderno dos submersos em seus labores desumanos e os excluídos que nadam nos horrores. É tudo muito deprimente, enquanto os remorsos roem como vermes a vida dos donos insaciáveis que saem dos seus suntuosos escritórios como uma manada de demônios com força e virulência para a todos com a espuma do ódio envenenado e assim beberem todo sangue do mundo que é para eles a infame carcaça da carniça. Para minha surpresa aparece Gramsci que parecia mais ler meus pensamentos: Somos criadores de nós mesmos, da nossa vida, do nosso destino e nós queremos saber isto hoje, nas condições de hoje, da vida de hoje e não de uma vida qualquer e de um homem qualquer. Do outro lado, Strindberg: A verdade é sempre desaforada. Com o amor não se brinca sem castigo. Logo desaparecem para que minha alma seja um sepulcro em que habita um reles cenobita e anseio flor nova no chão estragado por chuvas e trovões dos infernos no castigo do orgulho a quem despenca da vergonha e da glória. E quando eu me perder na universal memória saberei que o tempo é curto, a arte é longa, nas fundas solidões do meu coração tambor.

 


DOIS: O TESOURO DA PEDRA, O SIMULACRO DO RISCO - Imagens: Wall (2010), da artista japonesa Chiharu Shiota, ao som do álbum Finding Gabriel (Nonesuch, 2019), do pianista estadunidense Brad Mehldau ‎– Noite alta e na parede das profundezas erguerei os meus clamores e ninguém me livrará do maldito cativeiro. Sou mártir sem culpa, dócil condenado, o meu suplício choca os mortos e a farsa que sou se ocupa com tolices e culpas, erros e sovinices que sequer tenho. O escritor japonês Kobo Abe (1924-1993) me chama a atenção: A liberdade não consiste só em seguir a sua própria vontade, mas às vezes também em fugir dela. O mais assustador do mundo é descobrir o anormal naquilo que está mais próximo de nós. Sim, eu sei do homem livre amigo do mar espelho da alma, a desvendar o fundo sorvedouro humano, são meus irmãos com seus fogos de diamante e no íntimo tesouro guardado nos segredos de cada um. Sim, eu sei com a minha índole libertina, talvez ouse além do destino humano e me embebedo a arder de essências confundidas de óleo de coco, almíscar e alcatrão, florão das minhas noites. Quando não estou aqui encerrado, lá estou acenando para ciganos em viagem num céu sem destino, quisera poder segui-los, outras são as condições. Só não quero encontrar rosas frias, só a flor vermelha do ideal. Ao poeta das anemias as graças de hospital e o inferno de amigos povoado, não poderão jamais satisfazer um sonho como o meu do fundo do abismo em que agora sucumbo no nosso penoso holocausto. Mesmo que eles se indignem comigo pelos repudiados hemistíquios dos meus versalexandrinos, porque doído sou cru e maldito, caí na esbórnia afogueado pelo que comi e bebi, o absinto, o haxixe e o ópio, santa boemia na melancolia de Paris, porque o poeta é o albatroz exilado na terra e impedido de voar na ambição de decifrar o segredo da dor da vida anterior, me ensina a arte de evocar as horas mais ditosas. Mas o final do episódio apenas eterniza que quem ama corre o risco de não ser feliz.


 

TRÊS: ELA DENTRO D’ÁGUA, A POESIA DE TUDO – Imagens: Becoming Light (2005), do videoartista estadunidense Bill Viola, ao som Alcaline, le concert (2016), do trompetista, pianista, compositor, arranjador e professor franco-libanês Ibrahim Maalouf, no Trianon, em Paris. - Quando ela vem do céu ou do inferno dentro do vestido ondeante e nacarado, chega como quem dança lânguida amante tonada luz incandescente nos meus olhos sequiosos dela. Ela chega pro meu voo ascensional pelos límpidos espaços para entender a linguagem da flor e da matéria bruta. Leva-me ao templo das cores, sons e perfumes no regaço do linho e do cetim, a natureza toda é ela bela como um sonho de pedra e inspira o poeta e nem sei o que é rir ou chorar. Ela sorri sem medo, solitária e calma ao meu amor profundo e a sua beleza é sua e sempre quase vinho, beleza de Fortuna encantada, joia fulgente dos meus poemas, verdadeiro desacato e a persigo como um cão, recitando Jorge Ibargüengoitia (1928-1983): Ó doce luxúria da carne! Refúgio dos pecadores, conforto dos aflitos, alívio dos doentes mentais, diversão dos pobres, diversões dos intelectuais, luxo dos idosos. A arte de amar se reduz a dizer exatamente o que exige o grau de embriaguez do momento. E ela sorri mergulhando fundo todas as águas oceânicas para me guardar ao seio generoso de Cibele, a loba terna que afaga o meu coração abismado por florescente dama com seus olhos de fogo, o seu ser dotado de realeza, blasfêmia da arte, divina mulher. Sou cativo da sua face sincera que vive o que será amanhã como agora, amanhã e depois e sempre; na sua nudez que me diz não ser vedado amar, súcubo encanto e foi lá que vivi volúpias e mergulhei na imagem que o olhar beija e o coração abraça, sua voz é música, seu hálito é perfume e o amor para meus olhos, ação para meus braços, e percorrer devagar seus flancos espreguiçada no meu peito aos pés de uma colina, confidente de sonho infinito. Para o meu amor ela está sempre nua e faíscam joias do seu corpo recostado para que eu a possua repetindo Sed non satiata e a sua carne de tigresa domada e olhar fixo e contemplo seu esplendor de graças, o sorriso esguio: a volúpia me chama, a paixão me coroa na minha solitude a levar meu nome aos mais longínquos anos. Enfim, sobre seu ventre danço amorosamente para nela infundir o meu veneno com as frases roubadas das Flores do Mal. Até mais ver.

 

A ARTE DE JULIANA NOTARI



“Na cidade, imersos nesta conjuntura de sociedade neoliberal e neste mundo precário onde todos lutam pela sobrevivência e o tempo se torna dinheiro, me emocionam gestos e pequenas atitudes de pessoas que eu não imaginaria que teriam tal sensibilidade, a gente vive tão pressionado por este sistema capitalista que a sensibilidade vira essa poesia que há no ser humano. Na natureza, ela vem dos animais e das árvores, principalmente quando estou só”

A arte de Juliana Notari, doutoranda e mestre em Artes Visuais pelo PPGARTES/UERJ, graduada em Artes Visuais pela UFPE (2003) e que trabalha com as mais diversas linguagens (instalações, performances, vídeos, fotografias, desenhos e objetos) com abordagem multidisciplinar. A sua pesquisa visual tem criado um corpo de trabalhos que encaram suas singularidades, transitando por entre a biografia, o confessional, a catarse ou práticas relacionais, com ênfases e modos de operação diversos, traumas, desejos, fantasias e medos que são recolocados em suas obras instaurando relações entre subjetividades que, por sua vez, configuram o eixo central da obra da artista. Veja mais aqui e aqui.


 


domingo, agosto 30, 2020

BAUDELAIRE, GAUTIER, DÉLIA FISCHER, MONTESSORI, ANGELI, SÉRGIO GODINHO & BETH DA MATTA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... LEVIANDADE DEMAIS... - Apesar dos milhares de mortos diários e do estouro de casos de reinfecção, a vida parece normalizada para muitos indiferentes. Depois de quase seis meses enclausurado, saio às ruas e as pessoas para lá para e para cá, como se nada de extraordinário acontecesse no planeta. Fiéis de todos os credos saúdam entre si e não uns aos outros, o que me chamou atenção, uma discussão entre rivais religiosos. Longe de mim os donos do que dizem não mais que farsa do berço ao túmulo, os que governam sobre aqueloutros nem tão incautos assim, teimosos que são sabidos e submetem a quem do mando a caolhice para a verdade mais absoluta. Assim o fazem como se donos de tantos outros, a se acharem doutos do destino alheio para obediência e temor dos subalternos. É assim e definem o que é permitido ou proibido de sua crença furiosa com seus castigos. Faça não, senão eles inventam no exótico de suas excentricidades sofismáveis o que possa caber no entendimento das verossimilhanças mais esdrúxulas. Ah, são eles lá coisonários e se acusam de infames, sequer ouviram Maria Montessori: As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. E guerras fazem com o seu embusteiro e apoplético credo, jurando ao deus para que haja um céu pros seus escolhidos e um inferno pros desafetos. Assim, só os asseclas e só eles são os irmãos da verdade, em fé e vida, para o bem e o certo, os demais excluídos que fervam nas caldeiras demoníacas das desgraças escatológicas. Enquanto isso, explodem escândalos no noticiário com seus guias e mentores, nem se dão conta, os seus mesmo que cometam crimes cabeludos, são santos e absolvidos na fé exclusiva. Pois é, a vida passa sob todos os seus juízos sectários, incapazes da diferença. A vida passa, eu sei, vou com Théophile Gautier: Nascer é apenas começar a morrer. E viver, uma dança transformadora e muito longe disso tudo. Vou nessa.

DOIS ESTALOS E UM MONTE DE IDEIAS – No meu recolhimento de sempre, ouvia uma bela música, imagens tantas surgiram por cenário e me davam um futuro possível da conquista embalado pelos tons. No começo um tanto disformes, depois tomavam corpo e se apresentavam reais à palma da mão. Sabia de Charles Baudelaire: A imaginação é positivamente aparentada com o infinito. Como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o. A canção instrumental me embalou numa viagem imagética interminável até outra canção soar com afago: era Délia Fischer cantando bonito o Meu tempo (Tempo mínimo, 2019) e a me dizer amável & linda: Exatamente, a minha busca é essa. Busco a música, tem um acorde aqui, uma levada lá. Fico querendo entrar na música como um todo. Me vejo a cada dia mais aberta para interpretar e buscar uma visão própria, que tenha a minha marca. E do seu talento desde o Duo Fênix vou curtindo umas e tantas interpretações, a vida é outra que não esta de tanta calamidade, uma vida feita de sonhos em que viver em paz e com todos é fundamentalmente possível. Nessa também vou.

TRÊS ESTALOS & UM OUTRO OLHAR PARA AS COISAS – Ah, os meus dias, persigo tão desajeitado quanto distraído, e algo me chama atenção nas entrelinhas das coisas, isso sempre e a ponto de atentar para mínimos detalhes entre o fecundo e o necessário. É nessa hora que ouço a troça de Angeli: Quando a gente vai ficando velho, percebe que a adolescência é mais longa do que se espera. Sequer senti o tempo passar tão rapidamente, nem o envelhecimento. Ainda ontem eu pulava o muro do quintal para pegar a bola que pulou fora e a vizinha nua se bronzeando na grama, aos gritos com minha intromissão. Quantas de anteontem ou do mês passado, acho, sei lá, um dia desses aí e nem lembro. Mesmo com as dificuldades motoras, as dores nos quartos e coluna, aqueles esquecimentos imprevisíveis, mesmo assim o coração assobia como se menino entre pássaros e flores no quintal, com o Sérgio Godinho poeticamente cantando: Sem cordas que os amarrem a descoberta de novos campos. Sem memórias, livres correm velozes ou a passo, por dias soltos. Bonito esse seu Primeiro dia, assim voo e vivo. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nossa história precisa ser reescrita. Como artista e cozinheira, abri uma nova pesquisa que é a comida brasileira a partir dos índios, que têm muitas técnicas que foram apagadas da história. Aqui já havia a prática do pirão, bebida fermentada e o domínio da mandioca, por exemplo, antes dos europeus chegarem. Os povos indígenas foram muito silenciados. Há pouco conhecimento sobre sua cultura. Após essa experiência de descolonização, estou em reconciliação com quem sou de fato.
A arte da artista plástica e performática, curadora e gestora pública Beth da Matta (Judith Elizabeth da Matta Ribeiro), que também possui formação em Gastronomia e é atual diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM). Veja mais aqui & aqui. E mais aqui.


sexta-feira, junho 05, 2020

EDITH AZAM, EMMA AMOS, TAMIKA MALLORY, NINA RIZZI, CHAIRIM ARRAIS & PALLY SIQUEIRA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: NÃO CONSIGO RESPIRAR - Nesse tempo indigesto de tanger manada com apito de cachorro, tem quem fique engasgado e em tempo de estuporar a caixa dos peitos, assim como eu, ora, ora. Sei que voltou a ter vigência aquela de que abaixo do queixo tudo é perna, mas não estão livrando nem a cara para a canelada, meu! Está tudo muito irrespirável para quem nunca se enquadrou nos moldes políticos para ocupação de cargos públicos, quanto mais num reino de critérios para lá de escusos como este, que não dá para fungar quanto mais encher o pulmão numa poluição sem precedentes. Ora, basta considerar que para ocupar qualquer ministério do planalto, basta ter farda e dar continência, pois para a pasta da saúde, pelo visto, não precisa de formação médica; para a educação, basta ser escroque que não saiba ler nem escrever; pro meio ambiente, que seja um simples dendroclasta burocrático; que procurador se digne a chalerar na defesa do maioral; que a representação da mulher seja feita por uma machista, ou que o representante dos descendentes palmarinos seja um antipatizante racista. Time deste é o mesmo que premiar predador de motosserra no Dia Mundial do Meio Ambiente, diga lá se não é? Só sendo. Como se, na vergasta do carrasco, a gente repetisse Baudelaire: está-me empurrando, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão: "Vai, anda, burrico! Vai, sua, escravo! Vai, vive, maldito!” Assim não tem quem consiga respirar com um joelho desse na goela, né?! DOIS: OU SAI PRA VIDA OU SEGURA A ESPERANÇA PELO RABO – Ficar só no eita com os apupos internacionais e as lapadas do noticiário, não dá em nada. É como se entrar em combate só com nota de repúdio, braços cruzados e bunda na poltrona: xô, pra lá! Nem ficar de queixo caído porque, apesar dos escândalos e arbitrariedades, ninguém faz nada e passa a bola pro outro escapulindo o procto da reta, no cúmulo da desonra. Ah, não, se não tiver iniciativa de ação, nem só com indignação se questiona direito. O pior é a constatação de Lorca martelando no juízo: O mais terrível dos sentimentos é o sentimento de ter a esperança perdida. Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo. Como não me preocupei de nascer, não me preocuparei de morrer. Ao poeta a dor da reação depois de morto. Para mim, viver é ação enquanto é tempo. TRÊS: SE VIVO, NÃO É PARA DEFUNTAR – Cá com meus botões, conversada pelos cotovelos naquela do Rubião: Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo. Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas, o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa. Principalmente quando a gente dá de cara ao que foi reduzida uma considerável parcela da humanidade: quem não se arrumar nos ajeitados com o negacionismo de terraplanista, que vá se catar nas quenturas dos quintos dos infernos e passe bem! Tem quem se preste a tal, e como tem! Eu que não vou nessa digo e repito reiteradamente: vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Queria garantir que as vozes das mulheres negras fossem defendidas, exaltadas e que nossos problemas fossem resolvidos, mas isso não poderia acontecer a menos que sentássemos à mesa [...] Eles estão com raiva e existe uma maneira fácil de impedir; prenda os policiais. Denuncie os policiais. Denuncie todos os policiais. Não apenas alguns deles, não apenas aqui em Minneapolis. Denuncie-os em todas as cidades da América onde nosso povo está sendo assassinado [...] Apresentar uma oportunidade para as pessoas não apenas ficarem tristes e frustradas, mas sentirem que há poder em números e em ser organizado [...]. Trechos do discurso da ativista estadunidense Tamika Mallory, que foi uma das principais organizadoras da Marcha das Mulheres de 2017, defendendo o controle de armas, o feminino e o movimento Black Lives Matter.

A POESIA EDITH AZAM
I - Eu morro de amor e pombas, / Eu morro de memória e invenção, / Eu morro das lágrimas de um narciso, / mas o céu uma vez, / mas o céu uma vez ... / Estou cansado das urtigas azuis, cansado das estátuas que suam, / cansado do horror dos porões e dos cheiros dos túneis, / Estou cansado de te amar, especialmente quando você não me ama, / Estou cansado do meu cérebro, estou cansado de não estar. / Eu morro na gargalhada do vento, / Eu morro de mordida e alegria, / Eu morro até perder a cabeça / mas o céu uma vez, / mas o céu uma vez ... / Eu morro em violetas selvagens, / Eu morro no coração de um esquimó, / Eu morro de amor no gelo, / Eu morro e gostaria de me esconder. / mas nas minhas veias, céu. / Rachadura desses sofrimentos que engolimos, desses sofrimentos que nos estrangulam / Eu quebrei nos portões da consciência Eu quebrei meu irmão queimado / e eu morro de tanto medo que tremo / Eu nunca entendo nada sobre o riso de pássaros zombando / crack do meu crack não-suicida em bilhões de lascas / Eu cortei minha respiração em papel carbono / finalmente cortei as âncoras e as tintas meu sangue / Cortei pedaços de vidro e fiz versos amassados, depois esfreguei meu corpo / e eu tenho isso em todo lugar no meu rosto, eu tenho igualmente no meu coração para que você nunca esqueça / e que ninguém cancelará que estou cansado de você. / Eu sinto o céu quebrar ... / Eu morro de amor e pombas, / Eu morro de embriaguez e de invenção, / Eu morro em uma batida de asas, / mas o céu uma vez, mas, / Céu uma vez, mas o, / Céu uma vez, mas céu, / uma vez, mas o céu uma vez, / uma vez, mas o céu uma vez, / mas o céu na cara porque eu não terminei de te amar, / porque a vida das rosas é preciosa para mim; / também por causa das noites nas estrelas, as horas inteiras perto de você: / mas o céu uma vez, / Céu no vazio de seus braços, / Céu todo contra mim: / e nas minhas veias...
II – Um tolo fala por mim sozinho. / um tolo fala só por mim, diz o que sinto falta de dizer - / falar em voz alta tão alta, eu me sinto quadrado - / fale em voz alta e eu repito / Repito suas palavras mandíbulas - / Eu repito - / cuspir ossos - / Eu repito - / cuspir ossos - / agravar - / agravar empurra os limites - / a implicação é tremenda - / tremor perfeito - da falta de dizer - / a falta de dizer - / a falta de dizer que me mantém de pé - / Eu fico em silêncio. / Eu grito o choro branco, a flecha. / esmague o sol nas suas mãos: / a linha da frente cruza - / Repito as palavras mandíbulas - / as palavras, que me dizem tudo sobre mim, / Eu a devolvo em uma mastigação selvagem - / um tolo fala por si mesmo e isso me queima / um louco fala por si e por mim? / e repito por dentro / Repito e tudo dentro de mim, / divisões e quadrados - / o crack é a falta de dizer - / a escassez de dizer me perturba - / Eu queimo dentro da minha cabeça, atrás do meu rosto / há um golpe de bastão - / o grito de um louco que se queima - / sim doloroso - / sim doloroso - / o louco grita, grita - / dentro de mim um louco que explode / que range de deficiência em todo lugar / a falta de dizer / a falta de dizer / a falta de dizer!
III – É um bloco de anotações antigo / Eu levo de volta para você. / Muitas vezes na cabeça: seu nome. / Gire continuamente, / é fofo, / e água Perrier, bolhas - / há esquilos no parque, / esquilos, / o clima… / Eu escrevo, / Eu li poesia e... / Eu tento refletir em boa cópia. / Eu reflito: já é algo. / Então, esse bloco de anotações antigo, / essas coisas que eu quero perto de você. / Eu tenho a marca no meu pulso, / age como um leve sorriso. / Ninguém fala à mesa, / na mesa, não há conversa. / Os almoços à mesa são glaucosos, / e então... é mais profundo que isso - / é o jeito de murmurar oito minutos / a almôndega; / é a cabeça que treme; e depois, / O corpo inteiro; / é quem gagueja / é o outro que provoca; / sou eu ... não estou mais com fome. / Então eu volto a ler - / Eu te amo - / Medicamentos, medicamentos ... / Tenho medo de tomar remédios, / medicamentos, meu estômago cai: / e depois o mesmo quando escrevo para você: me repito 100 vezes / ainda cai em mim: / Perrier em cima da mesa / clique em bolhas de clack. / Eu penso na sua voz: / ao telefone. / Eu acho que, / Eu não penso mais. / Não sei que horas são / não é tarde. / Eu ouço um CD: / de Mauricette - / Eu quero estar perto de você, / também quer carne vermelha / Eu te amo. / Não diga nada, eu sei ... / não diga nada… / As bolhas de Perrier ... / Eu te amo: faz bolhas ... / O que eles chamam de Moise aqui / hoje ele teve visões: / ele me repetiu 5 vezes: / Eu vi um hotel no meu quarto. / Eu vi um hotel / no meu quarto. / Eu vi / um hotel / no meu quarto. / Eu vi um hotel no meu quarto. / Eu vi um hotel no meu quarto. / Cinco vezes ele me disse. / Cinco vezes eu não sabia o que responder - / A mesma coisa no bar: eu não sabia dizer nada. / Quando a menina me contou sobre sua vida: / Eu não disse nada. / Eu não respondo. / Em breve. / Sobras - / Eu avanço na minha cabeça para curar sua queimadura - / Eu digo coisas ao meu psiquiatra, / Perrier em cima da mesa... / Eu tento dizer a ele... / meu psiquiatra tem olhos azuis / ela olha para mim: não ouso. / Eu olho para o pé da mesa. / Eu digo coisas olhando / sempre sempre / o pé da mesa - / meus olhos não têm mais coragem. / Meus olhos estão completamente cheios de eletricidade - / À noite tenho garganta seca. / Medicamentos, medicamentos ... / Levanto-me para desligar o aquecimento, / isso faz meu remédio vacilar. / Clique nas bolhas do clack ... / depois volto para a cama: / Eu te amo - / Para dormir, coloquei os tampões. / Pressione-os bem fundo na cabeça: / é dito… / dizem que eles absorvem os ruídos e então, / pesadelos, / mas ontem à noite eu sei, / meu vizinho olhou para M6, / e na minha cabeça quando eu dormi, / uma mulher atirou machados. / Eu odeio a mulher do parafuso: / Eu sei que está enrolado no meu crânio, / Tenho pena dela, / isso me dá nojo. / Tem um cadeado no coração.
EDITH AZAM - Poemas da escritora francesa Edith Azam, autora de obras como Un objet silencieux (Le suc et l'Absynthe, 2006), Opium le ciel et vent (Le suc et l'Absynthe, 2006). Létika Klinik (Le dernier télégramme, 2007), Mercure (Castell, 2007), Tellement belle garçon belle (Le frisson esthétique, 2007), Tiphasme est Phasme (Inventaire / Invenção, 2007), Amor barricade amor (atelier de l'agneau 2008) e Le Paradis une fois, La voix, Qui passe (edições do soir au matin, 2009).
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DOIS POEMAS DE NINA RIZZI
AINDA A QUEDA DO CÉU - oi, mãe te escrevo do norte, tô na Amazônia / na vinda cruzei o interior do ceará / e passei em frente um rio chamado chorozinho / parece uma metáfora tão triste pra estes tempos / sei que não é boa hora pra falar de tristezas / que deveria te escrever e acalmar seu coração de mãe / que é importante amar e rir e gozar e espalhar flores / eu lembro a vendedora de flores que você foi / ainda sinto o cheiro das roupas da lavadeira que você foi / lembro o cheiro gostoso da doceira que você foi / sim eu sei que a alegria é uma resistência eu sei sim / mas mãe, eu fico aqui olhando as rasuras / eu conto doismilidezenove três anos de golpe / quinhentos e dezenove anos de golpe / eu ouvi aqui que cada dormente é uma alma / dormente, mãe, são aqueles paus que ficam debaixo / dos trilhos das ferrovias e os indígenas iam à noite arrancar / os dormentes porque a estrada de ferro era construída / em suas terras e então os donos do poder colocavam coisas / pra dar choques nos indígenas e de manhã / eles estavam agarrados nos dormentes / todos mortos / cada dormente uma alma, mãe / e agora eu te escrevo essa cartinha e tem uma tv ligada / e o governador tá falando de boca cheia que precisam desapropriar / as terras indígenas porque eles não plantam e as pessoas precisam comer / e ele tem sangue nas mãos e no bigode, mãe / os padres e as caravelas de há quinhentos e dezenove anos / são a bancada evangélica e da bala de hoje / ah sim, mãe vou te contar uma coisa bonita / um feitiço indígena os cabelos de betânia o cheiro dos cabelos de Betânia / todas essas mulheres juntas e nadando fundo contando suas histórias / e foi muita sorte eu ter conseguido ver o rio madeira porque / a construção da hidrelétrica fez tudo desbarrancar / não seria mesmo lindo se o rio lavasse tudo, mãe?
CECILIANA - escorre o óleo do mundo — lima / de rícino, refino / mínima grama ou toda / canteiro, fecundo / a poesia é de quem / precisa, disse o carteiro / lhe ria. além a lama / ternas de exílio e poda / te revisito, o mundo — olha / entre as pernas.
NINA RIZZI - Poemas da historiadora, tradutora e poeta Nina Rizzi, (Campinas/SP, 1983), autora de obras como Tambores pra N'zinga (Orpheu/Multifoco, 2012), Caderno-goiabada (Ellenismos, 2013), Susana Thénon: Habitante do Nada (Ellenismos, 2013), A Duração do Deserto (Patuá, 2014), e Geografia dos ossos (Douda Correria, Portugal). Ela edita o blog NinaaRizzi. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Estou frustrada pelo fato de estar presa a mais pinturas... Estou produzindo sem motivo. Ninguém nunca os viu.
EMMA AMOS – A arte da pintora e gravadora afro-americana pós-moderna Emma Amos (1937-2020). Veja mais aqui.
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A ARTE DE CHAIRIM ARRAIS
Ui, eu não sou a favor das cotas! Não acho que obrigando editoras a publicar quadrinho nacional é sinônimo de coisa boa no mercado. Mas, a possibilidade de auxílios e outros meios de ajuda às editoras eu acho interessante para editoras que publiquem uma certa porcentagem de produto nacional. O mercado de quadrinhos no Brasil é complicado, até porque, nós mesmo, artistas e leitores não nos ajudamos muito, né? Sempre discuti que quando você vai à banca, vê um quadrinho nacional desconhecido e um americano ou um mangá, com qual deles você gasta seu dinheiro? Não generalizando, mas a maioria deixa o brasileiro criando pó nas bancas. Acho que não apenas o governo deveria fazer algo, mas nós também, nos ajudar mais, apreciar mais o que fazemos, dando valor ao nosso próprio trabalho e de amigos brasileiros.
CHAIRIM ARRAIS - A arte da quadrinista e ilustradora Chairim Arrais, que lançou o RED+18 Além do Vermelho, e edita os blogs Chairim, Chairim-Arrais e Loja Integrada. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da atriz e artista plástica Pally Siqueira, que estuda psicologia e já atuou no filme Big Jato, de Chico de Assis, e já atuou em novelas da Rede Globo.
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Orquestra de Rua Recife Olinda aqui.
Dicionário Poético Militante (NEP/MMM, 2018), do poeta e jornalista Marcelo Mário de Melo aqui.
Exposição Em-Cantos de Palmares, do artista plástico José Durán y Duran aqui.
A obra de José Arlindo Gomes de Sá aqui e aqui.
Tempo de Resistência: lembranças do período mais negro da História do Brasil (2003), dirigido por André Ristum e baseado no livro homônimo de Leopoldo Paulino (Oswaldo Cruz, 2001) aqui.
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Cambão Torto, Amaraji aqui.


quinta-feira, abril 09, 2020

SVETLANA ALEKSIÉVITCH, ROBERTO ARLT, ANDREA DWORKIN, LORNA SIMPSON, LAÍS DOMINGUES, NANÁ SODRÉ & LUIZ MARINHO


A VIDA PASSA E VOU VIVENDO - UMA: APRENDENDO NO TEATRO DA VIDA – Lá em casa tinha muitas estantes com livros, muitos. Como eu vivia entre o quintal, a escola e o escritório do meu pai, no dia que eu saí desse trajeto numa fugida da boa, fui parar na Biblioteca Fenelon. Era o que eu mais queria, estava nos meus planos e lá tive a primeira sensação de menino que ganha um castelo de brinquedos e cheio de guloseimas. Nossa! Fiquei um tempão só correndo os olhos para muitas aventuras. Jessiva me pegou pela mão e me revelou toda a magia fantástica de viajá-los. Nada melhor para um fujão reincidente. Foi numa fuga desta que dei de cara pela primeira vez com a obra de Maria Clara Machado: Aprendi que amadurecer dói, mas o fruto pode ser bom. Na hora, ainda menino, não entendi muito esta frase. Só com o tempo, na idade que hoje, dela constato: Verifiquei na pele que o começo da velhice não é obrigatoriamente o abandono da criatividade. Sou prova viva disto, atesto. DUAS: PARA QUEM VIVEU A VIDA TODA NO MUNDO DA LUA, NENHUMA REALIDADE É DESESPERADORA – Logo que aprendi a ler estreitei o convívio com os livros, maior viagem. Como eu disse: a minha vida era entre os meus amigos invisíveis do quintal, os livros das estantes de painho e a adoração pela professora do primário. Adorava contar histórias pros amigos invisíveis e pras coleguinhas da rua, inventando outras tantas na hora e dizendo que era de um livro tal. Inventava muitas, era assim que seduzia tias, madrinhas e vizinhas, o meu álibi. Hoje sei o que queria dizer Charles Baudelaire: A imaginação é positivamente aparentada com o infinito. Ainda hoje, a minha forma de mentir porque ainda não morri. TRÊS: ATÉ QUE NEM TANTO NOSTÁLGICO ASSIM - Como falei de infância, imaginações e mentiras, uma pasta dos meus arquivos caiu-me ao pé. Doeu. Pasta volumosa. Sabia do recheio, mas não lembrava. Fui ver: fotos, recortes de jornais, publicações, rascunhos, cartas, coisas de ontem e do tempo do ronca. Um bocado de fotografias. Por isso que Eadweard Muybridge sempre disse ao meu ouvido: Somente a fotografia conseguiu dividir a vida humana em uma série de momentos, cada um com o valor de uma existência completa. É, ainda estou vivo e nem morri mesmo, hehehehehe! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxiliares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso… [...]. Trecho extraído da obra Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 2016), da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, que desabafou após o seu lançamento: A Humanidade não estava pronta. Eu não sou jornalista. Não permaneço no nível da informação, mas exploro a vida das pessoas, sua compreensão da vida. Também não faço o trabalho de um historiador, porque tudo começa, para mim, no ponto de término da tarefa do historiador: o que se passava pela cabeça das pessoas após a batalha de Stalingrado ou após a explosão de Chernobyl? Eu não escrevo a história dos fatos, mas a história das almas. Veja mais aqui.

VIDA & MORTE - [...] É assombroso entender que o lugar onde uma mulher mais está em perigo é, de fato, sua própria casa. [...] Quase tudo o que sabemos agora sobre como ajudar as pessoas que foram torturadas em prisões em situações de repressão política vem do que aprendemos estudando o que é feito com mulheres espancadas — porque no lar a situação é praticamente a mesma. [...] Há uma ideologia para romantizar aquilo que diz que o uso da força é uma expressão de forte sentimento a uma mulher: quando um homem usa várias gradações de força contra ela, o que ele está fazendo é expressar seu profundo desejo por ela. [...] O problema da liberdade humana nunca foi considerado do ponto de vista da vida de uma mulher. [...] As mulheres nunca serão livres a menos que não sejam mais tratadas como objetos, o que inclui objetos sexuais. [...]. Trechos extraídos da obra Life and Death (Free Press, 1997), da escritora estadunidense Andrea Dworkin (1946-2005).

O TEATRO DE ROBERTO ARLT
O teatro completo do dramaturgo, escritor e jornalista argentino Roberto Arlt (1900-1942). Veja mais aqui.
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A ARTE DE NANÁ SODRÉ
Nós somos ancestrais, intuição, isso é poder.
NANÁ SODRÉ - A arte da atriz, professora, diretora e produtora cultural Naná Sodré, fundadora do grupo e espaço cultural O Poste Soluções Luminosas. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista multimídia afro-americana, Lorna Simpson. Veja mais aqui.
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A ARTE DE LAÍS DOMINGUES
A arte da artista visual Laís Domingues que trabalha com fotografia, vídeo e bordado. Ela desenvolve o projeto Bordando o Feminino, intercâmbio cultural com as bordadeiras de Passira, no agreste pernambucano. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
O TEATRO DE LUIZ MARINHO
A arte do teatrólogo Luiz Marinho (1926-2002), com sua obra voltada para os costumes recolhendo histórias, situações e personagens do convívio cotidiano e familiar aqui e aqui.
A literatura de Djanira Silva do Rego Barros aqui.
A obra do professor, advogado de formação, teatrólogo, ator e animador cultural Miguel Jasseli (1902 - 1964) aqui.
A poesia do poeta popular João José da Silva aqui.
Pesadelo: rememorando uma prisão política, de José Nivaldo aqui.
A música de Félix Porfírio aqui.
Os quadrinhos de Sandro Marcelo aqui.
A cidade, a urbanização e as enchentes aqui.
A cantiga do mamoeiro aqui.
Rio Formoso aqui & aqui.
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OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...