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sábado, setembro 05, 2026

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto na área! Vasculhou-se de onde era que vinha aquela catinga horrível incomodando todos dali. Caçaram, pelejaram, vasculharam e só deram conta do sucedido quando avistaram uma tuia de urubu-de-cabeça-preta atrepado aos giros sobre uma casa, a última do arruado do Barão, só pessoas dele moravam naquela redondeza. E depois delas, temores quando anoitecia, a rodagem dava pro cemitério. Vixe! Mau agouro! Oxe, larga de ser frouxo! Quem mora aí? Ah, um que era tido por estranho mudo, há décadas perdidas na memória. Ninguém sabia o seu nome, nem parentes, nem conhecidos, apenas que era cheleléu do Barão. E que saía de casa antes do amanhecer e só retornava tarde da noite. Isso até a morte do influente poderoso – há uns 10 ou mais anos atrás. Depois do desencarne do onipotente, via-se ele toda noitinha, aboletado na cadeira à porta de casa. Não conversava com ninguém e só saía de casa para comprar mantimentos, logo retornava e se trancava novamente. Viam-no vez em quando na padaria, no açougue, no supermercado, ou pela beira do rio. E davam-no por álalo, porque ao ser saudado, apenas balançava a cabeça anuente com um sorriso receptivo. É aí mesmo a fetidez! E agora? Chutes e mãozadas botaram a porta abaixo: a inhaca tomou conta. Danou-se! Foi difícil adentrar, o corpo jazia no chão escuro, ao lado da cama, envolto por várias folhas de papel e outras espalhadas pelo chão. Era uma casa simples, sala, quarto, cozinha e banheiro, poucos utensílios: um fogão de duas bocas, acoplado a um diminuto botijão de gás, um prato, talher, uma garrafa térmica, uma cadeira de balanço e outra plástica, uma foto do barão na parede, um rádio de pilha e um amontoado de volumes, com encadernação artesanal, lendo-se na capa: Diário do Barão. Eram muitos tomos pelos cantos da sala, pelo quarto e empilhados na parede da cozinha, às centenas. Todos iguaizinhos e com a mesma inscrição na capa. Ao folheá-los, manuscritos com uma caligrafia bem desenhada, datas – dia, mês e ano - e narrativas registrando o dia-a-dia. Eita! Ninguém estava interessado em saber o que continha naqueles rabiscos. Saíram procurando por parentes ou conhecidos, vasculharam documentos, nada. Por fim, sacudiram-no numa cova rasa no canto do muro lá do cemitério. Pronto. E a casa dele? Deixa pra lá, os que ficaram para herdeiros do barão a qualquer momento vão arrumar um jeito. E a casa abandonada ali ficara. Um ou outro curioso surrupiava um exemplar para saber o que tinha. Logo o converseiro nasceu, a curiosidade aguçou. Rapaz, tu lesse aquele? É bronca! O barão era virado, hem? Oxe, meu pai contava muitas e boas dele! E em pouco tempo a coleção  sumiu. E a arenga: Quem tem um livro daquele? Quem sabe! Rapaz, é mesmo? Tudinho aos detalhes! Tá doido? Quero nem saber! Os anos se passaram e de boca em ouvido, dizem, toda a hestória das coisas tidas e idas em Alagoinhanduba. Valha-me!.. Até mais ver.

 

Georges Bataille: A necessidade de se desviar, de ser destruído, é uma verdade extremamente íntima, distante, apaixonada, turbulenta... Um beijo é o começo do canibalismo... Na verdade, temos apenas duas certezas neste mundo - que não somos tudo e que morreremos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Heather Thomas: Aprendi a me ouvir, a prestar atenção ao que meu corpo dizia e a respirar conscientemente. Eu também estava lidando com uma doença crônica. Lutei para aceitar tudo o que fazia parte da minha vida, dentro e fora da narrativa oficial. Assim como eu, essa narrativa estava sempre em revisão, assumindo novas formas... Veja mais aqui & aqui.

Jared Diamond: É impressionante que os nativos do continente americano não tenham desenvolvido nenhuma doença epidêmica devastadora para transmitir aos europeus, em troca das muitas doenças epidêmicas devastadoras que receberam do Velho Mundo... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

OS USOS DA TRISTEZA - Uma vez, alguém que amei me deu \ uma caixa cheia de escuridão. \ Levei anos para entender \ que isso também era um dom.

EXCETO PELO CORPO - Com exceção do corpo \ de alguém que você ama, \ incluindo todas as suas expressões \ em privado e em público, \ As árvores, em minha opinião, \ são as \ formas mais belas da Terra. \ Embora, reconhecidamente, \ se isto fosse uma competição, \ as árvores ficariam em \ um distante segundo lugar.

Poemas da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver – 1935-2019). Veja mais aqui.

 

RACISMO & RESILIÊNCIA - […] Atenção: este livro contém material que os leitores podem considerar perturbador e chocante, podendo causar tristeza, angústia ou desencadear memórias traumáticas, especialmente para os povos aborígenes e para aqueles que sobreviveram a abusos, violência ou traumas na infância. [...] Quando você apanha, isso te afeta profundamente. Tira sua autoestima, sua confiança, seu amor-próprio e sua autovalorização. Mas, mais importante ainda, tira sua voz. [...] Entrei para a polícia por vários motivos: primeiro, para ver se conseguia entrar, e mais importante, porque tinha visto como a polícia maltratava o meu povo e ingenuamente pensei que, se entrasse, conseguiria acabar com isso. [...] Quando entrei para a polícia, tinha a ideia de que poderia mudar a atitude da comunidade aborígine em relação à polícia. Mal sabia eu que só conseguiria fazer isso depois de mudar a atitude da polícia em relação aos aborígenes [...] A dor e o sofrimento das gerações roubadas são transmitidos de geração em geração. Minha avó viveu esse medo, meu pai experimentou o medo e eu temi a experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Black and Blue: A Memoir of Racism and Resilience (‎Bolinda, 2022), da escritora aborígene australiana Veronica Gorrie (Veronica Heritage-Gorrie), autora de trabalhos como When Cops Are Criminals (2024) e Nullung (2021).

 

PÓS-HUMANO - […] O que é necessário é uma transformação radical, seguindo as bases do feminismo, do antirracismo e do antifascismo... [...] O conceito de ser humano hoje está em discussão. Aliás, não tenho certeza se existe um consenso sobre o que significa ser humano [...] Não acredito que o pós-humanismo seja algo que virá no futuro. Não é ficção científica. [...] E também não sou um transhumanista do Vale do Silício que acredita que somos capazes de fazer o upload da nossa consciência para um computador e nos transformarmos em super-humanos. Acredito que o pós-humanismo seja, na verdade, um índice para descrever o estágio em que nos encontramos agora. Nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão ligados a conceitos antigos do ser humano [...] Estamos repensando os parâmetros da nossa humanidade. Encontramo-nos numa fase de crítica ao antropocentrismo, à ideia de uma espécie central que controla todas as outras. Pós-humano não é um conceito excelente. Pessoalmente, não gosto dele, mas, no momento, não temos um termo melhor para designar todas as pesquisas e experiências realizadas em universidades e centros culturais que se concentram em novas formas de pensar sobre o que estamos nos tornando. Desenvolvemos novas possibilidades fascinantes, como, por exemplo, a manipulação genética, mas nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão atreladas a conceitos antigos do ser humano. Precisamos ser corajosos e discutir juntos, de forma democrática e crítica, o que queremos nos tornar. O que somos capazes de nos tornar. [...]. Trechos da entrevista (CCCBLab, 2019), concedida pela filósofa e teórica feminista italiana Rosi Braidotti, que no seu livro El conocimiento posthumano (GEDISA, 2019) aborda questões contextuais acerca do retorno virulento de atitudes patriarcais e supremacistas brancas, examinando as implicações da virada pós-humana para a teoria e a prática feministas. Ela define a virada pós-humana como uma convergência entre o pós-humanismo, por um lado, e o pós-antropocentrismo, por outro, e analisa sua complexa relação e impacto conjunto, afirmando que a produção acadêmica pós-humana dominante negligenciou a teoria feminista, quando, na verdade, o feminismo é um dos precursores da virada pós-humana, por meio de diversos movimentos sociais e tradições políticas. Ela é autora de obras como Posthuman Feminism (Polity Press, 2022), The Posthuman (2013) e  Nomadic Subjects (1994). Veja mais aqui & aqui.

 

CHACRINHA, O VELHO GUERREIRO

Cheguei, baixei, saravei! Eu vim para confundir, não para explicar!...

Sentença do saudoso comunicador e apresentador do rádio e da TV, Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, simplesmente Abelardo Barbosa – 1917-1988), que revelou inúmeros artistas como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas, entre outros. Ele depois de falsificar a data de nascimento, ingressou no Tiro de Guerra, em Recife, quando atuou como baterista e percussionista do grupo Bando Acadêmico. Cursou Medicina e, depois de uma malograda turnê por conta da 2ª guerra mundial, voltou para o Rio Janeiro, onde se tornou locutor da Rádio Tupi e daí foi para a televisão. Era chamado de “Velho Guerreiro”, por conta da homenagem feita a ele por Gilberto Gil, como também de Papa da Comunicação, alcunha dada pelo filósofo francês Edgar Morin. Ele iniciou sua carreira no rádio com o programa Rei Momo na Chacrinha, em 1943, e fez muito sucesso na televisão com os programas Buzina do Chacrinha, Cassino do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha, até o final da década de 1980. Foi homenageado pela escola de samba Império Serrano no carnaval de 1987, com o enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica, se trumbica", e pela escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, no carnaval de 2018, com o enredo “Vai para o trono ou não vai?”. Outra homenagem foi a música Roda e Avisa, de Jota Michiles e Edson Rodrigues, gravada por Alceu Valença. Ele participou de diversos filmes, entre eles Três Colegas de Batina (1962), A opinião pública (1967), Pobre Príncipe Encantado (1969), Já não se faz amor como antigamente (1976) e As Aventuras de um Paraíba (1982). Além destes, ele foi tema do documentário Alô, Alô, Terezinha! (2009), dirigido por Nelson Hoineff. Veja mais aqui.

 


A MÚSICA DE MOACIR SANTOS – Homenagem ao arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006), pela sua trajetória musical iniciada ainda menino órfão e que, durante décadas, finalmente perseguiu sua arte para alcançar aplausos no exterior. Confira aqui.

 


PAULO FREIRE – O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) é uma das mais importantes personalidades da educação planetária, tendo sua obra atravessado fronteiras e estudada nos mais diversos países. Sua proposta de educação dialógica e problematizadora tem sido relevante na construção de uma postura crítica ante a realidade. Veja a dimensão de sua filosofia aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – Por iniciativa das professoras Fátima Portela & Myrelly, os alunos do 9º ano da Escola Caic - José do Rego Maciel, de Palmares (PE), realizaram atividades que envolveram a elaboração e realização de xilogravuras, trava-língua, apresentações de cordel, embolada, dança de roda, parlendas, entre outras. Confira aqui.

 


BARÃO DE ALAGOINHANDUBA – (Imagem: Acervo ArtLAM) – A personagem do Barão de Alagoinhanduba é uma das mais relevantes no território de Alagoinhanduba e arredores regionais, não só pela sua preponderante participação no desenvolvimento da cidade, como o envolvimento com a política, a ordem, segurança e desenvolvimento, responsável pelos mais inusitados e extravagantes acontecimentos da localidade. Confira aqui.

 


CAOSMOSE & O POEMA NASCE NO VISINVISÍVEL... – Série ArtLAM elaborada com pigmentos naturais, acrílica e lã de aço em papel Canson A4, para a exposição coletiva Gentamiga Ateliê, realizada entre os dias 21 a 30 de setembro, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Palmares (PE), por ocasião de lançamento do livro-catálogo do Gentamiga Ateliê (CriaArt, 2026), com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau e Renata Sant’anna. A série reúne os trabalhos intitulados Pulsações caósmicas, Fluxo dos devires, Pulsações do efêmero, Ensaio de múltiplas dimensões, Trâmite dos simulacros & platitudes, Arrostar aporias, Celebração autopoiética e Limiar da loucura poética. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio da Costa Nick – 1897-1983).

Veja mais aqui.

 




domingo, outubro 03, 2021

PAUL TILICH, DAVID MAMET, STEVE REICH & INCLUSÃO NA BIBLIOTECA.

 

 

TRÍPTICO DQP – Aporias entre o céu e a terra... - Ao som de Music for 18 Musicians (2011), do compositor estadunidense Steve Reich - Com o tempo dei de adormecer e, ao despertar, não saber em que espaço ou tempo esteja. Ou estou elouquecendo, tomara. Quem sabe, começando a caducar, pudera. Desta feita, não adiantou solfejar canção que fosse, estava como se tivesse envolvido na pele da trama de Oleanna (1992), do dramaturgo estadunidense David Mamet, e a sua filha Clara – face inspiradora nos lábios obscenos e voluptuosos - era a Carol a me seduzir na cena, como se fosse possível a duas pessoas estranhas conviverem juntas, avalie. E ela estivava nua numa cena escura do palco e se parecesse inteiramente com a atriz francesa Sophie Marceau, aquela mesma que povoava meus sonhos recorrentes e a nos engalfinhar nas onze histórias d’O vampiro e a polanquinha (1992) de Dalton Trevisan. Eu me levantei da poltrona, pisei o assoalho solitário por fragmentos de devaneios que surgiam do nada para orbitar minha existência insistentemente e me levasse a sucumbir no delírio onírico que se transformara em um filme, era só na minha cabeça e eu, um professor, ela minha aluna insinuante e linda, bálsamo para minha alma. Era teatro em toda parte com câmaras ligadas para qualquer projeção em que ela me acusava de assédio sexual, com suas frustrações por não entender o assunto dado em sala de aula e todos os dias ela lá. A desgraça é finalmente a dizer da tentativa de estupro e perco a cabeça. Depositei o que restava de mim sobre os braços à mesa, ela silenciosa, tocou-me e abri os olhos de repente e vi-a cantatriz encantadora, a me dizer Kierkegaard: Aquele que não se torna só consigo mesmo, ainda que mantenha silêncio, não o terá. O silêncio só é possível para aquele que, em verdade, torna-se só consigo mesmo. Olhei-a profunda e demoradamente, aquela tentação poderosa e eu me continha com todas as forças. Levantei-me, dei-lhe as costas e me distanciei o máximo que pude. Entre as coxias o filósofo alemão Paul Tilich (1886-1965), a me dizer que a solitude: é a glória de estar sozinho. Parei diante dele para ouvi-lo: O primeiro dever do amor é ouvir. A vida é dura... e nem sempre é justa. Mas isso não quer dizer que ela não possa ser boa, gratificante e prazerosa. Ainda há muitas razões para dizer sim à vida. Refleti um pouco e me conduzi para a saída do prédio, parturejar ideias no meio de demofóbicos, misóginos, quando não antrófobos com seus estressados bichinhos de estimação. Dei vazão às minhas bricolagens aporéticas. Ela seguia-me e era como se fosse a primeira promessa e o que não deu certo, o alivio da incolumidade. Não olhei para trás e segui: para quem vem ou vai: aporias entre o céu e a terra. Semáforos de sempre, vida adiante.

 


Mil dias depois da esculhambação... - Os tempos mudaram e tudo ficou muito assustador. Passou uma severa turbulência, a ponto de desnortear de sequer perceber janeiro com a posse “decente” e proclamadora do Coisonário, que se dizia Caminho da Prosperidade. Sabia que não era nada disso, nem foi, nem será; tudo fora muito bem manipulado nos últimos cinco anos, para consolidar o que já desconfiava. Do primeiro dia, entre o risível e o trágico, passou-se a vigir que se podia peidar à vontade, cagar só dia sim dia não, porque o ambiente ficou inflamável e encolheu a escola para pouquíssimos e começou o pipocado da festa dos ruralistas e assemelhados do Agro pop de agrotóxicos e pesticidas sem ambiente dos grandes da fraude piramidal e bleque-fridei, talkei? Com elas, outras determinações: não atrapalhe nem amole o professor ou o motorista que investiram no dólar e preferiram vender vacina com os pastores e a mãe num negócio da China, apadrinhado pelo Centrão nas relações exteriores e que não se teria mais shiTrump para pedir penico pro golpe no sonho do capitólio daqui. Também não se procurasse saber onde estivesse porque era frio de lascar de repente e um calor da peste, desabando com a prevaricação na fivela da Lava Jato e o juiz nem era herói e vazou e o racismo virou praga com sufocamento em Manaus e se o rio secou pro apagão da QAnon, era a vez da pandemia e uma quarentena interminável tomou conta de vez. Aí a coisa empenou: deu de tudo com homenagens sinistras de torturadores e milicianos, ofertas com embalagens de luxo e que não era uma novela, e que se saiba de antemão: os deuses surdos também se tornaram cegos e premiaram o primeiro baba-ovo. Aí avacalhou tudo pra passar a boiada geral, no atacado e no varejo: rachadinha, Bebiano, deseducação, Queiroz, brasileiros canibais viajando, Kassio Nunes, goldemshauer, nazismo comunista e KGB, Tonho da Lua, foro mais privilegiado de sempre, Goebbels, drones, inflação pro império milionário, inauguração de trecho de rodovia, troca-troca nos ministérios, recondução do Aras feito guenzo da cristomania e todas as sequelas no asfalto com a tempestade de poeira e a gasolina nas alturas da Prevent e se tudo ficou caro de uma hora para outra, era que uma savana emergia n o voto impresso e no pega pra capar findou na fronteira dos USA, como se Maia segurasse tudo, de chorar com o rabo de arraia do Lira que levou o hospital numa banda metaleira feito plano hap de saúde hip de vida hop e quem hup não se fez por amigo da primeira-dama, juntou caixa de papelão no quintal quando deveria ter uma goiabeira pra Jesuisis & Doidamares – e o Doro que coisou e tem andado um bocado arrependido quer encará-la: Ela dá cloro e pano! E partiu arretado para arregaçar nos guardados dela. E daí? Do zero-um pro dois, três, até o quatro lavando a jega e mais se enfeiou no torrão com o lixo nas calçadas, folhas, flores, frutos, o tráfico nos condomínios e favelas, carros e casas sujas, a fumaça do bueiro da usina, a catinga pútrida e a brutalidade de gente com suas pseudofamílias nas arengas e estupros coletivos, crucifixo no pescoço, rezas altas e aos gritos pelos sete pecados capitais, pelos dez mandamentos, quando tudo era inferno, nenhuma humanidade, a sociedade doente, uma escória feita de vermes - quem não em estado de choque nos sete de setembro e o desfavorável porque ficou inviável com o Agro que é pop ou pqp e teve Dia D para tocar fogo, aproveitando para o perdão das dívidas evangélicas, regulamentação da agiotagem, leilão com liquidação de tudo na maior promoção, as comunidades terapêuticas no comando do golpe para namorar a Cloroquina toda tarada e, na cara dela, se agarrar com Ivermectina safada para duas de quinhentos com nota de duzentos falsa – quem viu, não sei porque se passou por mito e quem não pagou mico de guardar a mamadeira de piroca, as controvérsias das fardas do que fizeram das forças armadas tão desarmadas e das milícias neonazifascistas que sobraram dos trezentos e não sei quantos milhões de cem reais que são na gripezinha e no mimimi da entubação dos influenciadores que não querem ninguém em casa para sair furtivo como cosplei de rato com pizza no bico. Eita! E daí, meu? Presse desgoverno, qual legado? O bizarro delírio das conspirações e feiquenios, tragicômico Brasil que não foi nem nunca será para coisonários que batem cabeça demais: são feito couro de pica e mentem que o cu apita. No fim da festa, mil dias de uma voz que se apagou de nenhuma saudade na barbárie da tevê desumana com o horror extra dos rugidos da covardia e sacanagem, com o que engana de zap-zap e o que resta das promessas e do tédio: a falsificação como originalidade. Outras aporias, tudo muito imperdoável. E persigo sobrecarregado de ocorrências e interrogações no meio da nossa segregação, driblando o certo e o errado e vice-versa, as pessoas obtusas viraram pragas e quase ninguém consegue ver a realidade encoberta por um punhado substancial de velhas mitologias de agora, um inferno para lá de dantesco.

 


Inclusão, enfim, ah!... - Minha vida braços abertos: nenhuma fórmula, nem tendência ou convenção. Experimentos e incertezas, a impermanência. E sou a minha língua e voz, modulações obscuras e à deriva, nenhuma mensagem nem sentido, despsicologizado entre o insulto e o inusitado, como se o prazer no fundo do oceano para que ninguém veja ou ouça ou sinta. Se não tenho para onde ir no meio dessa sensaboria, vou pra biblioteca. E lá, cedinho, de um dos livros que saquei numa das estantes, escapou a cena e eu espanquei o pobre de Baudelaire: Só é igual a outro aquele que disso dá prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la. Na surpresa do fato, o agradável ficou por conta de chegada da professora Roselene Santos com o projeto Inclusão e Espaços Publicos, e alunos das escolas CAIC-José do Rego Maciel, Aloisio Sebastião e Lar Heleninha. Ela e a professora Rosielma Santos trouxeram duas deficientes visuais que leram meu cordel em braile e eu fiquei maravilhado com uma menina solta a tagarelar altiva na dinâmica com Thayná Mikaele, Thays Leandro, Tamires Milena e Rayane da Silva, todas acompanhadas dos pais Adilson Leandro e Josenilda Maria. E rolou poesia, cantoria e dinâmicas; cá comigo era Paulo Freire: A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades. E Boaventura de Souza Santos: Temos direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. O universalismo que queremos hoje é aquele que tenha como ponto em comum a dignidade humana. A partir daí, surgem muitas diferenças que devem ser respeitadas. E era Carlos Drummond de Andrade: Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar. E era Emma Thompson: Ser deficiente não deve significar ser desqualificado de ter acesso a todos os aspectos da vida. E era Salvador Allende: Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos. E era José Saramago: Há que deixar as pessoas serem como são. Vivendo em suas diferenças e a partir de seus próprios pressupostos culturais. E nisso, a até então tímida assistente social Chiara Santos se mostrou esfuziante aos meus olhos fascinados com a conversa encetada, enquanto a encantadora Sil Neves conversava com Zé Ripe sobre a Academia. Ah, que bom! Assim o mimético ali e a minha diegese. E é só o começo, quem frágil e excluído, afinal. Do lado de fora outros adultos embotados seguiam catatônicos na sua normose, além da memória porque duas mulheres falavam de suas dores, talvez Medeia, uma delas – tudo é possível e a se repetir ao infinito no meio de um cruel vodu eternamente implacável e a iminência da queda: uma vaca mugiu pelas ruas, um pai foi nocauteado pelas dívidas, um vira-lata latiu com criaturas invisíveis e era outra temporada, o isolamento e o solipsismo pelas frestas das coisas decadentes, os oitenta tiros em Evaldo Pereira e a comemoração tímida de Marta artilheira de todas as copas. Eu preciso sonhar para não sucumbir ao descartável, quantos embates e discordâncias, desenquadrado e contra a corrente. Como assim? Não é nenhuma fábula pinçada do cotidiano às portas fechadas. Sou corpo estranho, talvez, ainda tenho o futuro nas mangas, posso sacá-lo e ainda rir do mundo: apenas celebrar a vida. Até mais ver.

 

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segunda-feira, janeiro 13, 2020

PAULO FREIRE, KHATIA BUNIATISHVILI, SIDARTA RIBEIRO, CHRISTINE WALTERS, RAFAEL ROCHA & ARTE PERNAMBUCANA


ERA UMA VEZ OS LIVROS DE UMA ESCOLA... - Bastou o Coisonário dizer que o livro é um montão de amontoado, muita coisa escrita para se ler, e foi o suficiente para a farra dos camirangas carniceiros. Entre eles, a urubutinga Maria das Calamidades Calamares atacar com suas garras, mandando jogar os livros comunistas de ciência no lixo mesmo, agora só publicações evangélicas passariam a existir. Para os catartídeos do ódio, um prato cheio. E o negócio pegou feio a ponto da diretora de uma escola e candidata a prefeita simpatizante da legenda do Coiso, a doutora Katavanir de tal-sei-lá-das-quantas-mais, mandar ver no agouro, demitir o bibliotecário da sua escola e sacudir fora todo acervo da biblioteca. Desfolharam-se as árvores da sabedoria, da coisa toda ficar séria e feder além da conta. Ela, nem aí, ainda berrou: Ou vira lixo ou papel higiênico, pronto, resolvido. E, assim, de chapa, espalhou-se a má notícia e os necrófagos bibliófobos mandaram ver: derrama de volumes em Belém do Pará, em Santo Antônio de Jesus, na Praia do Dendê de Teolândia, em Ouro Branco, na Estação do Forró de Salgueiro, na BR 156 do Amapá, na Perimetral Oeste de Caxias do Sul, em lixeiras de Bragança Paulista e Ribeirão Preto, na rodovia de acesso de Rincão, no Uberaba de Curitiba, no lixão de Iporá e por aí vai mundão afora. Vixe! Livro virou urubu quando morre: nem as formigas comem. Até o Ministério do FNDE providenciou descarte num monturo de terreno baldio, nada mais nada menos que quase três milhões daquelas brochuras didáticas, desfazendo-se de opúsculos inservíveis e depositados num armazém alugado dos Correios de Cajamar, sob a condição de que esses alfarrábios perderam a validade. Hem? Afora outros tantos milhões nunca usados, trancados em salas, sob a pecha de desatualizados, ociosos, defasados, irrecuperáveis, antieconômicos ou em desuso, servindo só para urubus leitores. Valei-me! Que coisa! Foram disparadas denúncias que nenhuma autoridade nem polícia apuraram no devido, valendo-se a dita cuja diretora de uma satisfação pública, só no deboche: A coisa toda tava empestada de mijo de rato! Óóóóóóóóó! Quer dizer: quem pegasse naquilo ou limpasse o rabo, morria na hora? Óóóóóóóóó! A coisa tomou termômetro! Nada, era só desculpa de amarelo para comer barro. E a peitica ficou no puxa-encolhe. O que ninguém sabe é que o Coisonário é apenas um ventríloquo do Urubu de Malasarte. É? Eita! E urubu sabe como é, né? Serve-se só de carniça e, como disse Darwin, se diverte na podridão. É isso aí. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O sonho é essencial porque nos permite mergulhar profundamente nos subterrâneos da consciência. Experimentamos no transcorrer desse estado uma colcha de retalhos emocionais. Pequenos desafios, modestas derrotas e vitórias cotidianas geram um panorama onírico que reverbera as coisas mais importantes da vida, mas tende a não fazer sentido globalmente. Quando a existência flui mansa é difícil interpretar a algaravia simbólica da noite. Por outro lado, não se pode negar nem às pessoas ricas o direito ou a sina de serem atormentadas por pesadelos recorrentes, de íntimo significado. Mas para quem sobrevive à margem do bem‑estar, para quem verdadeiramente teme dia e noite pela própria vida, para bilhões que não sabem se amanhã terão o que comer, vestir ou onde dormir, sonhar é quase sempre lancinante. Na vida do sobrevivente de guerra, do presidiário ou do mendigo, o sonho é um tobogã de afetos em tons gritantes de vida e morte, prazer e dor nos extremos desejantes. [...] A rotina do trabalho diário e a falta de tempo para dormir e sonhar, que acometem a maioria dos trabalhadores, são cruciais para o mal‑estar da civilização contemporânea. É gritante o contraste entre a relevância motivacional do sonho e sua banalização no mundo industrial globalizado. No século xxi, a busca pelo sono perdido envolve rastreadores de sono, colchões high‑tech, máquinas de estimulação sonora, pijamas com biossensores, robôs para ajudar a dormir e uma cornucópia de remédios. A indústria da saúde do sono, um setor que cresce aceleradamente, tem valor estimado entre 30 bilhões e 40 bilhões de dólares.3 Mesmo assim a insônia impera. Se o tempo é sempre escasso, se despertamos diariamente com o toque insistente do despertador, ainda sonolentos e já atrasados para cumprir compromissos que se renovam ao infinito, se tão poucos se lembram que sonham pela simples falta de oportunidade de contemplar a vida interior, quando a insônia grassa e o bocejo se impõe, chega‑se a duvidar da sobrevivência do sonho. E, no entanto, sonha‑se. Sonha‑se muito e a granel, sonha‑se sofregamente apesar das luzes e dos ruídos da cidade, da incessante faina da vida e da tristeza das perspectivas. [...]. Trechos extraídos da obra O oráculo da noite: A historia e a ciência do sonho (Companhia das Letras, 2019), do neurocientista, biólogo, neurobiólogo e professor Sidarta Ribeiro, tratando sobre o sonho e ancestral, psicanálise e deuses vivos, sonhos únicos e típicos, primeiras imagens, evolução do sonhar, a bioquímica onírica, a loucura, dormir e lembrar, a reverberação de memórias, genes e memes, dormir para criar, sono rem, desejos, emoções e pesadelos, o oráculo probabilístico, a saudade e a cultura, sonho e destino, entre outros assuntos.

DESTAQUE: A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER - [...] a leitura critica da realidade, dando-se num processo de alfabetização ou não e associada sobretudo a certas práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica [...] da importância do ato de ler, que implica sempre percepção critica, interpretação e "re-escrita” do lido [...] A forma como atua uma biblioteca popular, a constituição do seu acervo, as atividades que podem ser desenvolvidas no seu interior, e a partir dela, tudo isso, indiscutivelmente, tem que ver com técnicas, métodos, processos, previsões orçamentárias, pessoal auxiliar, mas, sobretudo, tudo isso tem que ver com uma certa política cultural. [...] A mesma compreensão mágica da palavra escrita, o mesmo elitismo reacionário minimizador do Povo, mas o mesmo espírito crítico-democrático de que tanto precisamos neste país de tão fortes tradições de arbítrio. O Brasil foi "inventado” de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em outros termos. [...]. Trechos extraídos da obra A importância do ato de ler: em três artigos que se completam (Cortez, 1989), do educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

A MÚSICA DE KHATIA BUNIATISHVILI
Você não tem garantia de que tudo ficará bem, mas sente uma enorme liberdade para criar. Quando criança descobri que muitos dos artistas de quem eu gostava dividiram opiniões em sua época. Hoje ninguém duvida mais deles e de como transformaram a história da música. Eu me acostumei com a controvérsia. As pessoas que prestam atenção a meu físico e minhas roupas tentam me colocar numa caixa. Se eu mudar, significa que os machistas ganharam.
KHATIA BUNIATISHVILI – A arte virtuosista e voluptuosa da consagrada pianista franco-georgiana Khatia Buniatishvili, com suas interpretações dramáticas e decotes profundos. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Meu trabalho é melhor descrito como uma experiência. A arte é uma expressão pessoal. Não sou uma artista treinada, por isso corro riscos que a maioria dos artistas pode não se sentir à vontade. O medo não controla o resultado do que está sendo criado. Divertir-se e deixar que os que estão ao meu redor vivenciem o processo criativo cria uma obra de arte final memorável, capturada em uma pintura, vídeo, música e fotografia. Minha visão da performance art combina todos os meios artísticos em um cenário majestoso é uma questão de tempo e continua a construir uma equipe sólida para realizá-la.
CHRISTINE WALTERS - A arte da artista e performer estadunidense Christine Walters que combina música e pintura em shows apoteóticos por todo planeta. Veja mais aqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
Imagem: arte do artista plástico Rafael Rocha.
A literatura de Osman Lins aqui, aqui & aqui.
A música de Antônio Nóbrega & Quinteto Armorial aqui & aqui.
Roda de Teatro de Rua do Recife aqui.
A poesia viva do Recife aqui.
A Revolução Pernambucana de 1817 & Ana Lins aqui.
Carnaval pernambucano aqui & aqui.
Os fantasmas e o incêndio da biblioteca de Alagoinhanduba aqui & aqui.




quinta-feira, setembro 19, 2019

PAULO FREIRE, LOUZEIRO, MARIA CECÍLIA MANSUR, SARAH HARVEY & A VIDA E O VIVER


A VIDA E O VIVER – A vida dá muitas voltas, feliz de quem entra na onda e consegue sair dela. O que hoje é tido no maior valor, amanhã poderá não ter a menor valia. Ou, o ínfimo de agora, fortuna amanhã. Nunca se sabe. Cada coisa possui razão de ser; de onde menos se espera, acontece. Como diz o escritor estadunidense John Gardner (1933-1982): “Por trás de todo problema existe uma oportunidade brilhantemente disfarçada”. Vale o olhar da descoberta e as lições advindas das experiências. Nada mais. O que virá depois, nunca se sabe, realmente. Algumas ideias chegam promissoras e, parecem, prontas pro sucesso; muitas – ou quase todas -, ao contrário, fadadas ao fracasso. Para alguns, êxito é pura sorte; para outros: resultados da determinação. Cada qual sua sina de Perseu diante da Medusa: ou prospera degolando a cabeça de todas as adversidades, ou se petrifica diante do primeiro obstáculo. Aos que venceram, louros; aos derrotados, o amargor da decepção. Todos seguem para novo desafio. Alguns compram na esquina, embora não saibam sequer ser e ter. Entretanto, a vida, na vera, é outra coisa. Talvez a coragem para arrebentar as redomas intransponíveis, tirar a corda do pescoço, livrar-se da espada de Dâmocles, arrancar as mordaças da resignação, abrir as vistas vendadas pelo sectarismo, sair daquela do sal se pisando, deixar de pagar pato indébito, saber ralar no trampo, sentir o gosto ruim das derrocadas. Quantas tempestades, mínimas bonanzas; quantos aperreios de arrancar os cabelos, quantas noites em claro, quantos trejeitos dos que são do contra suplantando os cacoetes dos que estavam a favor, quantas portas na cara, quantos planos abortados, quantas somas noves fora nada, quantas projeções invalidadas, quantos nocautes de última hora. Se não aprender, refazer a lição. O usual é: se há perigo iminente, abandonar do navio, o último que apague a luz - a covardia, ou esperteza, como expediente de fuga. Há outra coisa: é como a semente não saber da raiz; a raiz, o tronco; o tronco desconhecer dos galhos; os galhos não enxergarem folhas, flores e frutos. E, ao primeiro vendaval, sair fora – quem é doido para experimentar dos segredos dos abismos, da valia das quedas, o gosto da perda, a dor de aprender os mistérios do visinvisível ao nosso redor. Para quem persevera tudo é imprevisível; dar ou não certo, quem sabe; persistir segurando a primavera nos dentes, seja para o que for, saberá: uma esperança e o desconforto da dúvida. Todavia, quem desiste, nunca saberá o gosto de qualquer vitória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Nada ou quase nada existe em nossa educação, que desenvolva no nosso estudante o gosto da pesquisa, da constatação, da revisão dos “achados” — o que implicaria no desenvolvimento da consciência transitivo-crítica. Pelo contrário, a sua perigosa superposição à realidade intensifica no nosso estudante a sua consciência ingênua. A própria posição da nossa escola, de modo geral acalentada ela mesma pela sonoridade da palavra, pela memorização dos trechos, pela desvinculação da realidade, pela tendência a reduzir os meios de aprendizagem às formas meramente nocionais, já é uma posição caracteristicamente ingênua. Cada vez mais nos convencemos, aliás, de se encontrarem na nossa inexperiência democrática, as raízes deste nosso gosto da palavra oca. Do verbo. Da ênfase nos discursos. Do torneio da frase. É que toda esta manifestação oratória, quase sempre também sem profundidade, revela, antes de tudo, uma atitude mental. Revela ausência de permeabilidade característica da consciência crítica. E é precisamente a criticidade a nota fundamental da mentalidade democrática. [...] A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa. [...] Trechos extraídos da obra Educação como prática da liberdade (Paz e Terra, 1967), do educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] Como fugir das pás do moinho? Como interromper a correnteza do rio? Era impossível. [...] Um dia na solitária, no descampado de silêncio, patas do cão sem nome arranhando as pedras, teve um desejo invadindo-lhe o corpo, dominando-o até atingir os olhos rasos de lágrimas. Gostaria de ser um cão, como esse, sem dono e sem companhia. Ir por aí. Pelos caminhos e gramados. Perder-se onde o sol tira faíscas da areia, derrama ouro na grama e as borboletas ganham o mel e as flores [...] Volta à cela, apaixonado com a ideia de tornar-se pintor [...] O ódio não termina nunca. E aqui é a vasilha onde todo o ódio do mundo se junta. Adeus traços suaves e inteligentes de Picasso, adeus formas angulosas e dramáticas de Portinari. Não serei pintor. Sou a própria pintura. O ser descomunal de Goya. [...]. Trechos extraídos da obra Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (Círculo do Livro, 1987), do escritor e roteirista José Louzeiro (1932-2017). Veja mais aqui e aqui.

GOSTÔSA & MARIA CECÍLIA MANSUR
Uma cybergirl subverte todas as mesmices reinventando a si mesma a partir do seu desejo. Na sua trajetória, emerge de um lugar de onde queriam que ela nunca tivesse saído.
MARIA CECÍLIA MANSUR – A arte da atriz Maria Cecília Mansur, que atua nas áreas de teatro, dança e cinema. Gostôsa (2017), um espetáculo baseado na obra Monólogo, de Simone Beauvoir, que se define como inspiração para o corpo erótico diverso, dotado de história, de individualidade, de experiências e contextos singulares, do universo feminino e suas questões, pretendendo desconstruir padrões estéticos e desvelar a experiência da mulher com o próprio corpo. O trabalho aponta para situações comuns a muitas mulheres e toca em temas tabus como: o prazer feminino, a submissão, a idealização da mulher, os padrões femininos de beleza, a maneira de sentir e se expressar em relação ao ser amado. A montagem propõe levantar as questões contextuais pertinentes, abrindo espaços compartilhados de comunicação e manifestação da voz feminina, ainda reprimida em muitos extratos da sociedade, uma vez que o modo como a mulher vê, percebe e sente a realidade é diferente dos homens. O intuito é revelar às mulheres como elas são e podem ser essencialmente gostosas, com todas as suas peculiaridades, ampliando possibilidades de discussões sobre o ser feminino, suas lutas diárias e sua diversidade. Além disso, permite que mulheres e homens tomem consciência do quão normatizado e padronizado é olhar de cada um, diante de questões como erotismo, sexualidade, nudez e libertação, ingredientes matizados com a interpretação e a discussão sobre as questões do universo feminino. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Minhas pinturas de figuras flutuantes são predominantemente autorretratos. Eu pretendo criar pinturas que despertam uma sensação de bem-estar e prazer, enquanto simultaneamente sugiro noções de insegurança, fantasia e sexualidade. Inteiramente suspensas pela água, as formas humanas são fragmentadas pela ondulações e redemoinhos criados pela água, abstraindo-os e, muitas vezes, com resultados implausíveis, como o aparecimento de desfiguração ou distorção. Fico cada vez mais empolgada com os elementos abstratos desses trabalhos e com a interação entre luz, cor e água, padrões emergentes que estão se tornando mais aparentes e dominantes, chamando a atenção não apenas para o principal ponto focal da forma humana, mas também para as áreas circundantes, que têm igual significado
A arte da fotografa britânica Sarah Harvey. Veja mais aqui & aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...