
RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá prévia do
Revellon de Ano Novo com especiais Clássicos do
Frevo com a Orquestra de Rua Recife Olinda & O melhor do frevo ao vivo &
muito mais! Para conferir é só ligar o som e curtir.
PENSAMENTO DO DIA – [...] essa sociedade é irracional como um todo.
Sua produtividade é destruidora do livre desenvolvimento das necessidades e
faculdades humanas; sua paz, mantida pela constante ameaça de guerra; seu
crescimento, dependente da repressão das possibilidades reais de amenizar a
luta pela existência. [...] Em
virtude do modo pelo qual organizou a sua base tecnológica, a sociedade
industrial contemporânea tende a tornar-se totalitária. Pois totalitária não é
apenas uma coordenação terrorista da sociedade, mas também uma coordenação
técnico-econômica não-terrorista que opera através da manipulação das
necessidades por interesses adquiridos. Impede, assim, o surgimento de uma
oposição eficaz ao todo. Não apenas uma forma específica de governo ou direção
partidária constitui totalitarismo, mas também um sistema específico de
produção e distribuição que bem pode ser compatível com o ‘pluralismo’ de
partidos, jornais, ‘poderes contrabalançados’ etc. [...] Como um universo tecnológico, a sociedade
industrial desenvolvida é um universo político, a fase mais atual da realização
de um projeto histórico específico – a saber, a experiência, a transformação e
a organização da natureza como o mero material de dominação. Ao se desdobrar, o
projeto molda todo o universo da palavra e da ação, a cultura intelectual e
material. No ambiente tecnológico, a cultura, a política e a economia se fundem
num sistema onipresente que engolfa ou rejeita todas as alternativas. O
potencial de produtividade e crescimento desse sistema estabiliza a sociedade e
contém o progresso técnico dentro da estrutura de dominação. A racionalidade
tecnológica ter-se-á tornado racionalidade política [...] É uma cultura antiquada e ultrapassada, e
somente sonhos e regressões infantis podem recuperá-la. Mas essa cultura é
também, em alguns de seus pontos decisivos, pós-tecnológica. Suas imagens e
posições mais avançadas parece sobreviverem à sua absorção em comodidades e
estímulos administrados; continuam assombrando a consciência com a
possibilidade de seu renascimento na consumação do progresso técnico. São a expressão
da alienação livre e consciente das formas estabelecidas de vida com a qual a
literatura e as artes se opuseram a essas formas até mesmo onde as adornaram.
[...]. Trechos extraídos da obra A ideologia da sociedade industrial: o
homem unidimensional (Zahar, 1982), do sociólogo e filosofo alemão
pertencente à Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse (1898-1979).Veja mais
aqui e aqui.
MUTAÇÃO HOJE EM DIA - As últimas duas décadas de nosso século vêm registrando um estado de profunda
crise mundial. É uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos
os aspectos de nossa vida — a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente
e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões
intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes
em toda a história da humanidade. Pela primeira vez, temos que nos defrontar
com a real ameaça de extinção da raça humana e de toda a vida no planeta. Estocamos
dezenas de milhares de armas nucleares, suficientes para destruir o mundo
inteiro várias vezes, e a corrida armamentista prossegue a uma velocidade incoercível. [...] Os custos dessa loucura
nuclear coletiva são assustadores. [...] Enquanto isso, mais de 15 milhões de pessoas — em sua maioria crianças
— morrem anualmente de fome; outros 500 milhões de seres humanos estão
gravemente subnutridos. Cerca de 40 porcento da população mundial não tem
acesso a serviços profissionais de saúde; entretanto, os países em
desenvolvimento gastam três vezes mais em armamentos do que em assistência à
saúde da população. Trinta cinco por cento da humanidade carece de água
potável, enquanto metade de seus cientistas e engenheiros dedica-se à
tecnologia da fabricação de armas. [...] A civilização continua a crescer quando sua resposta bem-sucedida ao
desafio inicial gera um ímpeto cultural que leva a sociedade para além de um
estado de equilíbrio, que então se rompe e se apresenta como um novo desafio.
Desse modo, o padrão inicial de desafio-e-resposta é repetido em sucessivas
fases de crescimento, pois cada resposta bem-sucedida produz um desequilíbrio
que requer novos ajustes criativos. [...] Os economistas tendem a dissociar a economia do contexto ecológico em
que ela está inserida e a descrevê-la em termos de modelos teóricos simplistas
e altamente irrealistas. A maioria de seus conceitos básicos, estreitamente
definidos e usados sem o pertinente contexto ecológico, já não são apropriados
para mapear as atividades econômicas num mundo fundamentalmente interdependente
[...] Esses valores levaram a uma
exagerada ênfase na tecnologia pesada, no consumo perdulário e na rápida
exploração dos recursos naturais, tudo motivado pela persistente obsessão com o
crescimento. O crescimento econômico, tecnológico e institucional
indiferenciado ainda é visto pela maioria dos economistas como o sinal de uma
economia "saudável", embora esteja causando hoje desastres
ecológicos, crimes empresariais generalizados, desintegração social e uma
probabilidade sempre crescente de guerra nuclear [...] Quando adotamos uma perspectiva ecológica e usamos os conceitos apropriados
para analisar processos econômicos, torna-se evidente que nossa economia, nossas
instituições sociais e nosso meio ambiente natural estão seriamente desequilibrados.
Nossa obsessão com o crescimento e a expansão levou-nos a maximizar um número
excessivo de variáveis por períodos prolongados — pnb, lucros, o tamanho das
cidades e das instituições sociais, etc. —, e o resultado foi uma perda geral de
flexibilidade. [...] O
restabelecimento do equilíbrio e da flexibilidade em nossas economias, tecnologias
e instituições sociais só será possível se for acompanhado por uma profunda mudança
de valores. [...] Enquanto a
transformação está ocorrendo, a cultura declinante recusa-se a mudar,
aferrando-se cada vez mais obstinada e rigidamente a suas idéias obsoletas; as
instituições sociais dominantes tampouco cederão seus papéis de protagonistas
às novas forças culturais. Mas seu declínio continuará inevitavelmente, e elas
acabarão por desintegrar-se, ao mesmo tempo que a cultura nascente continuará
ascendendo e assumirá finalmente seu papel de liderança. Ao aproximar-se o
ponto de mutação, a compreensão de que mudanças evolutivas dessa magnitude não
podem ser impedidas por atividades políticas a curto prazo fornece a nossa mais
robusta esperança para o futuro. Trechos da obra O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente
(Cultrix, 1991). do físico e
escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui e aqui.
ÓRFÃOS DO ELDORADO – [...] Abandonar Florita? Como eu
podia abandonar a interprete dos meus sonhos, as mãos que preparavam minha
comida, e lavavam, passavam, engomavam e perfumavam minha roupa: gostei dela
desde o dia em que a vi no meu quarto: a moça de rosto redondo, lábios grossos
e cabelo escorrido, cortado em forma de cuia, o olhar terno e triste que foi
adquirindo malicia e duraza no convívio com Armando. Florita sentia ciúme de
mim por eu ter dormido com ela uma única vez na rede: a brincadeira que ela me
ensinou, dizendo: Faz assim, pega aqui, aperta minha bunda, não faz assim, põe
a língua pra fora e agora me lambe: a brincadeira que foi a despedida da minha
juventude virgem e me castigou com a temporada na pensão Saturno e quatro ou cinco
anos de desprezo de Armando. Pensei em tudo isso [...]. Trecho extraído da
obra Órfãos do Eldorado (Companhia
das Letras, 2008), escritor,
tradutor e professor Milton Hatoum. Veja mais aqui.
MAR DE SARGAÇOS - Criar
é não se adequar à vida como ela é,/ Nem tampouco se grudar às lembranças
pretéritas / Que não sobrenadam mais. / Nem ancorar à beira-cais estagnado, / Nem
malhar a batida bigorna à beira-mágoa./ Nascer não é antes, não é ficar a ver
navios, / Nascer é depois , é nadar após se afundar e se afogar. / Braçadas e
mais braçadas até perder o fôlego. / ( Sargaços ofegam o peito opresso ), / Bombear
gás do tanque de reserva localizado em algum ponto / Do corpo / E não parar de
nadar, / Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar. / Plasmar / bancos
de areia, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías, / espumas e salitres,
ondas e maresias. / Mar de sargaços / Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem,
o mapa, / o astrolábio de sete faces, / O zumbido dos ventos em redemunho, o
leme, as velas, as cordas. / Os ferros, o júbilo e o luto. / Encasquetar-se na
captura da canção que inventa Orfeu / Ou daquela outra que conduz ao mar
absoluto. / Só e outros poemas / Soledades / Solitude, récif, étoile. / Através
dos anéis escancarados pelos velhos horizontes / Parir, / desvelar, desocultar
novos horizontes. / Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea. / E,
mormente, / remar contra a maré numa canoa furada / Somente / para martelar um
padrão estoico-tresloucado / De desaceitar o naufrágio. / Criar é se
desacostumar do fado fixo / E ser arbitrário. / Sendo os remos imatérias. / (Remos
figurados / no ar / pelos círculos das palavras.). Poema do poeta Wally Salomão (1943 – 2003).
A ARTE DE PORTINARI
Veja mais:
A literatura de Lima Barreto aqui.
A arte de Guido Cagnacci aqui.
&
A ARTE DE
SIQUEIROS
A arte do
pintor mexicano David Alfaro Siqueiros
(1896-1974). Veja mais aqui.