segunda-feira, maio 06, 2019

MARIO QUINTANA, WALTER SMETAK, HUMBERTO DE CAMPOS, ANNETTE MESSAGER &PRIMEIRA CARTA DE MAIO.


PRIMEIRA CARTA DE MAIO - O que tinha em mente, rabiscar, nada mais abissal. Recorrera da vitalidade escassa, desenhava palavras no papel em branco, o recomeço de sempre, caligrafia insegura, nada mais habitual. Escrevia. Um passo em frente, parecia andar para trás. Reescrevia, rasurava. Escritura de diário, algo parecido com o que se espreme de si em letras grandes, como imaginar o sacrifício próprio ou alheio. Garranchos ilegíveis e tortos que emergiam das linhas da mão, pelos cantos dos olhos até o solado do pé, como se fossem braçadas para sair do lodaçal, passadas trôpegas. Tinha visto apenas brechas, dia após dia, horas minguantes engolindo o que aparecesse pela frente e a desconhecer o dia, o mês que corria, qual ano, marionete solta aos sobressaltos em piso falso. Havia de ter algo por fazer como se fosse partir de vez, varrer a vida como algo que se pudesse ler que nunca entendeu direito com o que faz bem à saúde, o desafio de tatear a asfixia dos apuros, ruínas desanimadoras, perturbadores destroços de enlouquecer. Dá-se aos reparos, enfim, a vida como se fosse um mata-borrão depois de esquecido em lugar algum no mundo com o peso da idade na procissão dos dias. Se teimava em caminhar, tombava, tropeçava, rastejava, correções a sota-ventos, barlaventos, quando não se apoiava sobre os cotovelos, ah, a vida o que seria, lembranças dos bons tempos de entusiasmo, nada mais ilustrativo e nunca mais dormir sonhando com coisas de tempos atrás. Era o que podia. Ainda via um pouco da transpiração por realizar algo que se parecesse memorável, senão rajadas de desandares com o quanto se podia ter feito de insignificante ou grandioso, nada, vendavais. O dia seguinte, quantos embaraços, revertérios, não esperava pelo milagre de herdar uma fortuna já que não tinha parentesco próximo nem distante, órfão do nada, jamais, em nenhum outro lugar a esperança, se não se conseguisse qualquer desapontamento. O destino qual porto, quem se atreveria fazer ou se entregar, viva ou morra, era a ordem e tudo passava pelo erro da sorte. Era a hora da terra firme até o fim dos dias, quisera. Nada a fazer além da assinatura de sobrevivente náufrago. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Desfilou ontem pela cidade, comemorando o aniversário da Revolução Feminina de 1952, a Academia Feminina de Guerra, cujo garbo fez estremecer todos os rapazes de família. Levado por minha tia Clara, cuja cunhada é tenente-coronel do 4º Batalhão, fui para Avenida nº 8, que se achava toda enfeitada. Em determinado momento, senti que uns olhos negros e ardentes procuravam os meus. Eram da dra. Ester de Souza, engenheira do comando aéreo Corcovado-Itatiaia e que mamãe considera uma das moças do Rio de Janeiro mais capazes de amparar um rapaz como eu! Será, porém, para casar ou quererá, ela, abusar de mim. [...] Ah, se as mulheres soubessem quanto sofre um pobre rapaz honesto, e como lhe bate o coração ao saber que vai, enfim, dormir sozinho ao lado de uma criatura de outro sexo, entregando-lhe a sua pureza e sua fragilidade. [...].
Trechos da crônica Feminismo triunfante, extraída da obra Sombras que sofrem (Mérito, 1961), do escritor e jornalista Humberto de Campos (1886-1934).

A MÚSICA DE SMETAK: IMPREVISTO
Se é do eu / é céu / se é do ego / é cego.
Vivemos uma época tão problemática e tão apocalíptica. É preciso uma orientação. Salve-se quem souber, porque poder, ninguém poderá mais. O fim da fala ainda não é o início do silêncio. Sempre sou a gota que volta ao oceano. É a obra que fica. O autor é aquele que vai embora.
O catálogo Smetak Imprevisto, publicado durante a exposição realizada em 2008, no Museu de Arte Moderna, São Paulo, reúne a obra criadora do professor, músico e pesquisador suíço Walter Smetak (1913-1984), com Sound Sculptures, M2005: Symphonic Work, Egg Experience, e Smetak para quem souber, por Augusto de Campos; Smetak e a nova objetividade brasileira, por Felipe Chaimovich; Imagem e som, por Solange Farkas; O visionarismo descompositoros, por Bené Fonteles; além de bicéfalos, ovinhos, choris, andarilho, bimono, imprevistos, Pindorama, amém, vina de duas cabaças, mimento, máquina do silêncio, quebra-galho, fecundação cósmica, mulher faladora, salvadura, o inca, caossonância, boré, anjo soprador, guerreiro, bis-nadinha, colóquio, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE ANNETTE MESSAGER
Ser artista significa sararmos continuamente as próprias feridas e, simultaneamente, abri-las de novo no processo.
A arte da premiada artista visual francesa Annette Messager. Veja mais aqui.
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A OBRA DE MÁRIO QUINTANA
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
A obra do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996),...