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domingo, maio 17, 2026

JAMAICA KINCAID, LULJETA LLESHANAKU, PHILIPPE VAN PARIJS & SURUBIM FELICIANO DA PAIXÃO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Mana (2026), Bouquet (2024) & Bouquet II (2025), da pianista e compositora francesa Chloé Antoniotti.




Mostruário dos autos-de-fé, releituras de Canetti... - Houve um tempo o bulício festivo da passarinhada despertando na escuridão, o que se adivinhava da claridão de um céu azul, quando ainda madrugava no chuvoso frio e se rendia à disposição de que dali, mais alguns instantes, tudo seguiria na vigília do trâmite das horas e a surpresa das escolhas diárias inadiáveis. Sim, houve um tempo e existir sempre foi a aventura de surfar pelos devires. O dia raiava afugentando os fantasmas que rondavam à noite, como se deles a culpa com a cabeça a prêmio, por uma condenação desde a supremacia do primeiro humano sobre outro, para uma escalada milenar de chacinas, que ganharam força no medievo concílio de Verona e todas as sucessivas regulações das bulas papais. Ali estava sujeito a imolações, vivissecções, esquartejamentos, plena lassidão do próprio delírio, pro epítome da desgraça nos testemunhos de Goya. Mesmo assim sobrevivia matinal entre os escombros das conflagrações repassadas, escapando emergencialmente das hostilidades e combates dagora, na expectativa de todas as inescapáveis guerras vindouras, enquanto a máquina vomitava o que sobrou de seus reféns. E tudo se repetia ruidosamente por séculos ad infinitum, para o estrondoso amém nas raivosas preces das escatologias teológicas – descaminhos de outros breus desmesurados em pleno meio dia, enodoando idas e vindas. Quantos não sucumbiram às pandemias e aos genocídios, com as dores da decadência no estado de vigilância, quem não acossado a se esconder com a autópsia das memórias adoecidas, dissecando obsessões no que pudesse de sanidade mental: o mundo na cabeça sem mundo nem cabeça. E chegava o mormaço da tarde, sabedor quando mais ignorava, pensava relevando o que sequer cogitasse e dizia o que nem imaginou ter calado. Assim caía a noite com um clarão ao ouvido e a vida a reboque no jogo dos grandes olhos azuis de uma Anna – ah, mimosa Gulck, escultural Justine, o sonho clamando por reminiscências imprecisas do que se viu imperfeito no acervo das ideias: a confissão de que tinha algo a dizer com a incontornável insolência do controverso, a uma testemunha auricular que emergia do coração secreto do relógio e a consciência das palavras mudas na província do homem. E ambicionava Shangri-La e a Lua Azul no vale do Himalaia encontrava o Sol no coração e saísse da Kali, seguisse pra Dvapara, atravessasse Treta para esbarrar à Satya Yuga, com os nomes extintos dos antepassados. E se fazia outro dia e agora era um sonho de olhos abertos: o recomeço, como se inaugurasse a eternidade e nela toda estreia. E mais outro como se tivesse hora marcada e precisasse reaprender a se maravilhar para a derrota da morte escandalosa, surpreendida com uma obra póstuma. Sim, Canetti. Um estrambote, ato de meninice: Dava língua pra ela. E as mãos com os polegares em cada canto da testa, dedos abanando como orelhas mangadoras: Uh! Tá pra tu?! Até mais ver.

 

Honoré de Balzac: Como é natural destruir o que não podemos possuir, negar o que não entendemos e insultar o que invejamos!... Por trás de toda fortuna existe um crime... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Cacá Diegues: Temos sido testemunhas de um inimaginável retrocesso em curso. É como se estivéssemos vendo todas as históricas conquistas civilizatórias e humanistas irem para o lixo, refundando-se a barbárie... Veja mais aqui & aqui.

Mary Cassatt: Aceitar algo nos termos de outra pessoa é pior do que ser rejeitado... As mulheres devem ser alguém e não algo... O mundo me bastará no futuro... Veja mais aqui & aqui.

 

ESPERANDO POR UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou esperando por um poema, \ algo bruto, não elaborado ou fora de controle, \ algo imperturbável por maldições, um corvo branco \ liberado da escuridão. \ Palavras que vêm naturalmente, sem mirar em nada, \ uma bala sem um alvo, \ tiros de advertência para o céu \ em terras recém-ocupadas. \ Um poema que vai bem no meu peito \ e até chegar \ Vou ouvir meus filhos brigando no próximo quarto \ e lançar meu olhar para baixo na mesa \ em um copo vazio de leite \ com um traço de branco ao longo de sua borda \ minha garganta envolta em prata \ um guardanapo em um anel de guardanapo \ esperando que os hóspedes atrasados cheguem...

Poema da poeta albanesa Luljeta Lleshanaku, autora das obras Fresco: Selected Poems (New Directions, 2002); Haywire: New and Selected Poems (Bloodaxe Books, 2011), entre outras.

 

AGORA VEJA ENTÃO - [...] A casa, a casa de Shirley Jackson, ficava numa colina, e de uma janela a sra. Sweet podia ver as estrondosas águas do rio Paran que se despejava furioso e veloz do lago, um lago feito pelo homem também chamado Paran; e olhando para cima, ela podia ver ao seu redor as montanhas chamadas Bald, Hale e Anthony, todas partes da cordilheira Green Mountain; ela também podia ver o corpo de bombeiros onde às vezes comparecia a uma assembleia civil e ouvia seu representante dizer alguma coisa que poderia afetá-la seriamente e o bem-estar de sua família ou ver os bombeiros extirpando os caminhões e desmantelando várias partes deles e remontando essas partes para então polir todos os caminhões e conduzi-los pela cidade com um bocado de comoção antes de devolvê-los ao corpo de bombeiros e eles faziam a sra. Sweet se lembrar do jovem Héracles, que muitas vezes fazia esse tipo de coisa com seus caminhões de bombeiro de brinquedo; mas ainda agora quando a sra. Sweet olhava por uma janela na casa de Shirley Jackson, seu filho não fazia mais isso. E dessa janela mais uma vez, ela pôde ver a casa onde morava o homem que inventou a câmera rápida mas ele já estava morto agora; e ela pôde ver a casa, a Casa Amarela, que Homero havia restaurado com tanto cuidado e amor [...]. Trecho extraído da obra Agora Veja Então (Companhia das Letras, 2021), da escritora antiguana Jamaica Kincaid, que ainda se expressa: A amizade é algo simples, e ainda assim complexo; a amizade é superficial, algo natural, algo que se dá por garantido, mas por baixo dessa superfície podem-se encontrar mundos. Veja mais aqui.

 

RENDA BÁSICA - [...] Tornar uma economia mais produtiva (numa interpretação sensata) de forma sustentável não é melhor alcançado ativando obsessivamente as pessoas e prendendo-as em empregos que detestam e dos quais não aprendem nada. [...]. Trecho extraído da obra Basic Income: A Radical Proposal for a Free Society and a Sane Economy (Harvard University Press, 2019), do filósofo e economista belga Philippe van Parijs, que no seu artigo Basic Income: A simple and powerful idea for the twenty-first century (Social Justice Ireland - Redesigning Distribution, 2005), defende que: […] Lutar por esses ou outros caminhos em busca de maior segurança de renda não deve, é claro, fazer com que se negligencie a importância primordial de proporcionar a todas as crianças educação básica de qualidade e a todas as pessoas cuidados básicos de saúde de qualidade. Mais importante ainda, para que o modelo defendido aqui se torne uma realidade generalizada, as lutas mais difíceis e cruciais podem precisar ser travadas em temas aparentemente muito remotos: garantir a eficiência e a responsabilidade da administração pública, regular a migração, conceber instituições eleitorais adequadas e reestruturar os poderes das organizações supranacionais. Mas essas muitas lutas podem ganhar direção e força se forem guiadas por uma visão clara e coerente das principais instituições distributivas de uma sociedade justa e libertadora. [...].

 

O FANTASTICO CAVALO AZUL DE SURUBIM DA PAIXÃO

A minha tribo quando entra na aldeia \ Índio não faz cara feia \ Não deixa a frexa cair \ Tupi tupi or not tupi \ Tupi tupi or not tupi \ Não sei se vou não sei se estou não sei se fico \ Nada ainda exprico nessa frase or not tupy \ Tupi tupi or not tupi \ Tupi tupi or not tupi \ Ser ou não ser tupi \ Ser ou não ser tupi \ Ser ou não ser tupi \ Ser ou não ser tupi...

Imagem & versos da canção Tupy or not Tupy, do compositor, artista visual, cirandeiro e zelador Surubim Feliciano da Paixão (1940-1991), que atuou na companhia Teat(r)o Oficina e da Uzyna Uzona, em São Paulo, desde 1979, participando do Forró Avanço no Circo da companhia, comandado por Verônica Tamaoki; compôs a música para o filme Rei da Vela, autor das gravuras de Mistério Gozósos (1983). Veja mais aqui & aqui.

 

Olegário Mariano aqui.

Eva Rolim Miranda aqui.

Armando Lôbo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Márcia Meira Basto aqui

Fernando Spencer aqui & aqui

Biarritzzz - Beatriz Rodrigues aqui

Juareiz Correya aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mércia Albuquerque Ferreira – Lady Tempestade (1934-2003) aqui

José Cláudio aquí, aquí, aquí & aquí.

Mitsy Queiroz aqui.

 


sexta-feira, julho 30, 2021

ATTILA JÓZSEF, DOSTOIEVSKI, LOUJAIN ALHATHLOUL, IZA COSTA & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQP – Más notícias do Fecamepa... - Ao som dos álbuns Mensageiro (2014) e O convertido (2013), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro Adelmo Arcoverde. – O Norte queima: aos cinquenta graus bafejam as águas quentes do império. O Sul congela e lá se vão estátuas que se dissolvem com o piscar de olhos ao primeiro raio solar. Estou de frente pro Leste e às minhas costoestes a mata é só carbono, não sei como será possível sobreviver, porque o meu país sucumbe à fraude Coisonária em plena festa do Fecamepa e a esperança é um pássaro extinto que, mesmo assim, teima em voar no meu coração entoando aquele verso escatológico do Jayme Griz. Quase me rendo ao desespero, não fosse a linda ativista saudita Loujain Alhathloul a me surpreender: Todos nós temos que perceber que criticar alguns fenômenos em nosso país não significa odiá-los, desejar o mal para eles, nem é uma tentativa de abalar seu equilíbrio, é o oposto total. Qualquer cidadão pode ficar chateado com alguns incidentes que ocorrem por aqui, mas isso é apenas um sinal direto do interesse na melhoria de seu próprio país e da esperança de vê-lo como um líder global. Continuo muito otimista quanto a um futuro brilhante para meu país e seus cidadãos. Eu vou vencer. Não imediatamente, mas definitivamente. Vê-la é o mesmo que ressuscitar num amanhecer ainda escuro. E não satisfeita, recitou-me Attila József: Quando nasci tinha uma faca na mão. / Dizem: é poesia. / Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca. / Nasci para ser homem. / Alguém soluça uma felicidade apaixonada. / Dizem: é amor. / Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas! / Só contigo eu brinco. / Não recordo nada e também nada esqueço. / Dizem: como é possível? / O que deixo cair mantém-se sobre a terra. / Se o não encontro, tu o encontrarás. / A terra me aprisiona, o mar me dilacera. / Dizem: um dia morrerás. / Mas dizem-se tantas coisas a um homem / que nem sequer respondo. Assim, o seu beijo me tocou arrepiando a alma para, entre o verdadeiro e o escatológico, sonhar e fazer.

 


A solidão de Dostoievski – Imagem: arte da desenhista, pintora, professora e gravurista Iza Costa (1942-2021). – Não era eu, mas aquele a quem senti doer na pele o pai alcoólatra, a engenharia entediante, a enfermidade militar – precisava ser gente e deixara o exército para vê-lo assassinado. O único prêmio foi esbanjar a herança com a poesia de Puchkin, a prosa de Balzac, leituras de Fourier, e ouvir de Necrasov: Você sabe o que escreveu? Nem eu sabia, era só gente pobre, os mesmos dos contos d’O Dobro. Senti na pele a sua prisão por traição, condenado à morte. No local da execução, a sentença para ouvi-lo dizer: Não me restava mais que um minuto de vida! Ah, não! Mas, uma bandeira branca e a comutação da pena: trabalhos forçados na Sibéria - triturando pedras, carregando rochas, a epilepsia. As visões de quantos ali desencarnavam, outros enlouqueciam, as cicatrizes das lembranças. Havia Maria, sim, aquela que era Dimitrieva Isaieva, esperou por ela, a desilusão ao vê-la enviuvar: seria a chance de ser feliz, pensara, não era, um desgosto - era ela, o filho e o amante. Chegou a vez de Humilhados e ofendidos. Por remissão, o elogio de Tolstoi: Recordação da casa dos mortos. E o passeio do leão enjaulado pela tardia, com tantos episódios violentos e torturas íntimas no campo de batalha, os pesadelos patológicos e o intolerável sofrimento, o desespero pela salvação, a pobreza e o Livro de Jó, as almas aflitas, a revista censurada, o infortúnio e a perda de memória. Na solidão estava Polina abandonada e morta de fome. A salvação no jogo e lá se foi a esposa que não mais era, o irmão e a depressão: Vivo como um mendigo. Era a vez de O jogador e, depois, Crime e castigo. Não fosse a taquígrafa Ana, a que era Grigorieva Snitquin, jamais haveria a autobiografia lúgubre: Notas do inferno, cartas de além túmulo, o exílio dos credores. Precisava da terra, do seu chão para se salvar da doença sagrada e escrever a vida. O retorno e O idiota e, depois, Os possessos. Foi-se o primeiro filho, segurou como pode o segundo, o sentimento de culpa, os tormentos: base indispensável para O eterno marido e Os irmãos Karamazov. Parecia mais um fanático monge esfarrapado, e a hemorragia na vida lôbrega e desequilibrada: um extravagante contraditório, um intolerante com a indecência de dizer a verdade, as matérias da alma, as confissões, a incontinência verbal. Ouvi-lo dizer: Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos... Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão... A maior felicidade é quando a pessoa sabe por que é que é infeliz. Bem, com ele as inquietações: se Deus existe, não sei; só do amor entre todos! Um raio de Sol, a doença e a morte.

 


Seiscentos&sessenta&seis... – Só sei da vida e quando fui em Floresta pela primeira vez, nem era ainda o Eixo Leste da transposição do Velho Chico, vi na cabeça o navio e o dedo do poeta na única nuvem dos meus avós maternos que já se foram para nunca mais. Dez ou cinco anos atrás, nem lembro direito quando fui de novo e passeei pela margem direita do Pajeú, comendo tomate e melancia, ouvindo os lamentos dos praieiros que fugiam do meu rio no meio do sul da mata. Daquela nuvem eles riam porque eu estava noutra tarde da Pracinha do Diário e ali, o então profeta, começou a me dizer de pedra e de trivialidades por cima e por baixo doutras arestas e era como se eu para lá retornasse seiscentas e sessenta e seis milhões de vezes e soubesse da vidarte na caleidoscopia aplicada e o barulho da queda que vinha de lá do farol de Olinda e ficou como se dois olhos não lembrassem. Seiscentas e outras tantas vezes, meus avós no coração. Com isso tudo, então, segui a teia do Eclesiástico (Autor, 2021), o poemevangelho de Gentil Porto Filho: ... velozes de dia, lentos à noite / recordes de velocidade / recordes de luxúria / recordes de cochilo e insônia / vivendo para bater recordes / conforme as oportunidades / desrespeitando ciclos e estações / sem coordenadas xyt / casas de praia no campo / jangadas e cavalos a postos / horas e dias que passam / uma hora de dois dias / um dia de duas horas / ontem mesmo durou duas horas / hoje, dois dias / se eu fosse sincero, diria uma vida inteira etc... na última linha só me restava saudar o poeta e celebrá-lo desde o Livro Fechado, desdantes! A vida, apesar de tudo, o que nos cabe. Até mais ver.

 

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segunda-feira, janeiro 25, 2021

ORHAN PAMUK, PEPETELA, ROBERT BURNS, SÉRGIO FERRAZ, MARTA ROCA & EVGENIYA ABRAMOVA

 

 

TRÍPTICO DQC: SENTIDOS DO SER & OS MISTÉRIOS DO ESPELHO - Ao som do concerto ao vivo do violonista e compositor Yamandú Costa, em Boulder, Colorado (2016). – De manhazinha me achava pronto para ganhar o mundo, protagonista de um filme em cartaz tantas vezes visto e revisto e veja só o que me aconteceu. Sabe aquele dia em que tudo pode acontecer e dá-se assim mesmo, de levar um bocado de tempo pensando como é que não tomei a iniciativa certa, evitando o desagradável e ficado na cama com a sensação de ter perdido o que podia ser a chance de ouro e dali em diante tudo seria diferente, né não? Poderia, suponho: encontrar uma cartela de prêmio extraviada e ficar rico de uma hora para outra, ou cair num buraco de sair pelos esgotos me relando de quase morrer no Japão, qual. Ou dar de cara com uma sensual ET tarada que zarpasse comigo para galáxias distantes dessa loucura toda ou ficar quieto na parada da condução, encostado num poste e dois carros se chocarem no cruzamento e um deles me alcançar desavisado estendido lá longe entre a vida ou a morte, foi assim mesmo. Ou aparecer ressurreto Jesus aos brados contra os equívocos cristãos, insistindo em negar ter sido mais de três vezes: não sou, nunca fui, nem serei; ou ser levado pela desobediência civil de uma turba desvalida de squatters e okupas com máscara do Fawkes e palavras de ordem da memória ceciliana do Lima Barreto e das notas de Chomsky, contra a gentrificação e o desperdício descartável do consumo desenfreado, e a favor do amor livre, nenhum governo e coisa tal! Ou sei lá mais o quê, afinal, ou se mete pro que der e vier, ou deixa correr que não estou nessa de sair à toa. Dúvida cruel, devires. Quantas: faço ou não; desfaço ou deixo ao deus dará. Encruzilhadas, vórtices. Uma hora tem que desenganchar e tem que ir ou se mandar sem saber qual a da vez, assim: ou se mete de cara para ver no que vai dar, ou fica chocando à espera do que jamais advirá, ou. Opto sempre pela iniciativa e lá vou eu. Enfim, desci a ladeira no meio da nublada quietude: será que estão todos ainda dormindo e nem sei que horas são, ou todos fugiram e me deixaram sozinho, sei lá. Um pé de gente para dar bom dia, não havia. Um passo pra frente e as coisas ficando para trás e vice-versa. Mal cheguei à esquina, era como se via satélite fosse o tráfego de tudo, tráfico de sonhos e desejos. Aos borbotões os que vão e os que seguem pelo lado oposto, cada um se valendo do que há no bolso, compromisso ou passeio. Seguia acenando a quem avistasse reconhecido, que eram pouquíssimos ou ninguém, pensei que era. Nessa andança deu para notar que além de ser uma paisagem desbotada ou invisível, sou também indesejável ou ignorado, ô gente hostil para lá e para cá; sigo, então, acolá. O que presencio não é lá muito diferente de uma guerra como se ao redor fosse só desmoronamento, sofreguidão. Se de um lado há quem olhe pro chão e são muitos catando lá o que se possa imaginar; de outro, os de cara pra cima também em demasia, acho que à cata de algo que evidencie uma mudança repentina daqui e dacolá. Quase não distingo nada no meio da confusão que é a vida indo quando não voltando. Se há algo real só a escolha, ou sim ou não. Quase nem dá para ouvir no meio da algaravia o que reclamou Fernando Sabino: O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Quanto mais olvidar daquela do Neruda sobre escolhas e consequências, avalie. Poderia ter ficado em casa e me poupado disso. E para falar a verdade, nem saí e fiquei aqui inventando toda essa história para você. Vamos nessa.

 

 

DOIS: VOLTA DOÍDA AO PASSADO – Imagem: Andrei Bordeianu/Alamy Stock, ao som da Sonata para violín y piano em Sol menor, de Claude Debussy, com a violinista espanhola Marta Roca Alonso, no Salón de Honor, Centro Cultural Kirchner, Buenos Aires, 2017. – Voltei quase trinta anos depois e aqui estou na pele de Ka pela Neve (Companhia das Letras, 2006), do escritor turco e Prêmio Nobel de 2006, Orhan Pamuk. O retorno selara meu exílio. As ruas sujas pela fuligem do canavial e monturo de dejetos serviam para as ondas de gente num mar revolto. As calçadas estavam tomadas por mendigos, feirantes e sulanqueiros, gritaria de ambulantes e volantes sonoras, pastores irados, liquidações e ofertas, santinhos e flâmulas, noticiários e tragédias, vexames e filas. Quase não era a mesma, não fosse a providencial reconstrução após a trágica enchente de poucos anos atrás, tornando as casas com aparência de banheiros sanitários hoteleiros ou sarcófagos suntuosos que, para os moradores, significavam a última moda da arquitetura. Quase não reconheço mais ninguém; parente algum e muitos do convívio sepultados, outros escaparam e pouquíssimos resistiam naquele ar viciado de gente que nunca vi mais gordo e eu estrangeiro em meu próprio chão. É tempo de eleições e pandemia, as pessoas tristalegres se aglomeram no comércio, praças e eventos diuturnos, indiferentes à tragédia. Foi decepcionante vê-los de passagem como incólumes sonâmbulos erguendo bandeiras religiosas tão torpes e ideias políticas totalitárias, como se não vivesse o presente e o tempo regredisse para as trevas de cinco décadas atrás: ... sentiu o mesmo tipo de culpa e vergonha que sentia quando jovem, ao sair de reuniões políticas. Aquelas reuniões políticas o perturbavam não apenas porque ele era um rapaz de alta classe média, mas também porque as discussões eram cheias de atitudes infantis e exageros. Pessoas como eu só encontram a paz quando estão lutando por uma causa. Os jovens agora contaminados pela sofrência brega e o rebolado da funkada, pareciam suicidas como portadores da boa nova tão antiga e da mudança retrógrada, quando, na verdade, refaziam os horrores do passado para o pior. Diante de tudo isso havia em mim nesse reencontro aquele sentimento de Pepetela: A dor muito prolongada faz-nos cruéis e indiferentes à crueldade, o que é ainda pior. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. O que importa é mudar a ovalidade do mundo sem dele fugir. Esta cidade não mais reconhecida, não poderia ser aquela que tanto amei e em que vivi superando adversidades e correndo atrás do tempo perdido. Era outra, tão estranha quanto cosmopolita e desenganada.

 


TRÊS: QUINTESSÊNCIA – Imagem: da artista russa Evgeniya Abramova, ao som da Cello Sonata in C major, Op. 119, de Prokofiev, na interpretação do pianista Victor Asuncion e do violoncelista Brannon Cho, no Queen Elisabeth International Cello Competition (2017) – A cena é ela, à meia luz, não sei qual seria o seu papel naquela hora. Sempre dela e as outras tantas que povoam nela em meu ser asfixiado pela solidão. A minha salvação é ela Ïpek, aquela da minha paixão perdida e que será aquela que me alimenta de venturas e prazeres, de loucura inusitada, de transcendências e voragens. Ela chega silenciosa na cadência dos seus passos e me abraça como se o amanhã não mais existisse e só nos restava uma última hora e nada mais. Beijou-me com a urgência dos desencontrados e rolamos todos os pisos e tetos, e nos desnudamos de todas as vésperas e impedimentos, e nos fizemos inteiros maiores que a imensidão. Assim ela em mim e eu nela, tudo o que quisermos na inexistência dos limites. E só há o que de mim pra ela e dela pra mim, o acasalamento perfeito e divino. Depois do amor, abraçados no meio do silêncio. E inescrupulosamente desejei seu semblante fresco e toquei seus lábios no Jogo da Amarelinha de Cortázar, aproveitando cada detalhe de sua majestosa candura. Ouvi-la sussurrar Balzac: Ah, o amor é um mistério, que só tem vida no fundo dos corações... e abri bem os olhos e ela era Ana de Robert Burns: Ai, vinho que ontem bebi / Escondido numa choupana,/ quando em meu peito senti / os negros cabelos de Ana! / O judeu já no deserto / que bebia o que Deus mana / não sabia o mel oferto / nos lábios ardentes de Ana! / Reis, tomai o Leste e o Oeste, / desde o Indo até o Savana, / mas dai ao corpo que as veste / as formas trementes de Ana! / Encantos desdenharei / de imperatriz ou sultana / pelo prazer que darei / e tomarei só com Ana. / Vai-te, faustoso deus diurno! / Vai-te, pálida Diana! / Suma-se o claror noturno, / quando eu me encontro com Ana! / Venha a noite em negro manto! / Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos! / Só com, penas de anjo o encanto / direi dos gozos com Ana. Quem dera a vida fosse somente nela. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE SÉRGIO FERRAZ



Há um vasto caminho pela frente. A criação musical é como um oceano sem fim. Quanto mais mergulho nele, sinto que ainda posso ir mais fundo. Quero também estreitar relações com músicos do sul do Brasil, fazer novas parcerias, novos grupos. Estou a toda hora tendo ideias, espero ter tempo para por isso tudo em prática.

A arte do violinista, violonista, guitarrista e compositor Sérgio Ferraz, que é bacharel em música pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e iniciou seus estudos desde cedo Conservatório Pernambucano de Música, por volta dos anos 1980. Integrou os grupos Alma em Água, Sonoris Fábrica e Quarteto Romançal. Lançou os álbuns: Segundo romançário (2010), em parceria com Antonio Madureira; Sonoris Fábrica (2011), Dançando aos pés de Shiva (2012), A sublime ciência e o soberano segredo (2013), Concerto armorial (2014) e Flutuando sobre as ondas (2015). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

quarta-feira, setembro 02, 2020

SHAKESPEARE, BALZAC, ALDIR BLANC, CITTABELLA & COISAS DO RECIFE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... O REINO DE DUAS CARAS - O Fecamepa vai firme e forte, mesmo com a censura do Nassif & outra aqui e acolá, o reino do imbrochável Coisonário segue mitômano e peçonhento, a comandar a patetada ministerial desqualificada: uma Doidamares endemoninhada (gente, sei que ela é infeliz, mas alguém tem que dá uma picada aprumada para derreter o queijo dela; sei que quem for precisará estar munido de uma bravura indômita, vez que ela não é tão feia, mas é do mal, carece de antídoto e muita coragem, periga virar depois uma besta fera do estopô calango, destá); um MalthusGuedes que para se manter bailando desvairada para os ricos, precisa matar os pobres; o suspeitíssimo boiadeiro dendroclasta SavoRiconarola abrindo a porteira da destruição dos ecossistemas; e outros tantos desclassificados alienígenas que afundam a patriamada na desgraça cloroquínica & outros quetais inventados nos costados endoidecidos deles, enquanto chafurdam na punheta coletiva dos seus mandos, mudando a geografia e até o alinhamento dos planetas na sua sanha estupidológica, para fabricar a sua pseudologia absolutista. Sabia, a história se repete, já advertira Balzac que, como sempre, para cada caso: Há duas histórias: a história oficial mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos e que é uma história vergonhosa. No caso do aldrabão dos coisominions, como diria Macbeth de Shakespeare: uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa. Agora, Brasil, durma com um barulho deste!!! Vambora, gente!

DUAS CRATERAS E NÃO É NA LUA - Aqui a coisa está empenada demais, verdadeira Cittabella: se a gente escapa da abissal pandemia, despenca no desgoverno. Não dá outra, ou lá ou loa e muitos. Revivemos aquela remota e ignota Cidade dos Buracos, antes tida como de localização desconhecida, agora comprovadamente aqui, tenho certeza e bato no peito: Brasilzilzilzilzil. A respeito alerta a escritora e tradutora italiana Lia Wainstein (1919-2001), no Viaggio in Drimonia (Milão, 1965), que precisamos, a exemplo dos habitantes de Cittabella, nos familiarizar com as diferentes espécies de buracos. Os mais comuns e menos preocupantes são do tamanho de uma caçarola. Os redondos, com bordas denteadas, resultado de um súbito colapso da camada superior – cor de berinjela – que repousa sobre uma camada mais mole, marro-terrosa. Observa ela que Quando chove, os buracos se transformam em pequenas poças lodosas, onde não é raro encontrar uma pobre borboleta com as asas presa na lama. Os habitantes de Cittabella caminham enfiando os pés nos buracos, de maneira desajeitada, ou dando passos largos e cuidadosos para não quebrar as bordas. Adverte, porem, que, por ordem de perigo, vêm certos buracos enormes e profundos que podem facilmente engolir duas casas. Ensina a escritora que O povo de Cittabella é conhecido por seu modo de andar peculiar: caminham sempre como se estivessem procurando alguma coisa. Fazem isto por vários motivos: porque estão num bairro cujos buracos não lhes são familiares; ou porque estão procurando (sobretudo para satisfazer suas famílias ansiosas) por algum primo do interior recém-chegado e que parece ter desaparecido; ou porque o cocheiro perdeu mais uma junta de cavalos. Neste último caso, é melhor desistir logo da busca, pois essa tarefa é raramente coroada de sucesso. Lições estas inestimáveis para quem vive driblando constrangedoras situações aversivas como estas que mergulhamos já faz uns cinco anos e, desde março, em dose dupla. Vamos nessa, ora se.

TRÊS PINOTES & UMA ATITUDE ESTOICA - Outrora quisera mais tempo para viver, hoje não mais, idade indefinível, dúvidas além da conta. Não tenho mais jeito, a experiência do silêncio me livra hoje de bons bocados e mais nada para fazer, nem um minuto a mais nem a menos. Recolho as raízes do meu chão, estão em mim no meio dos detritos que sobraram de espécies que se podiam chamar de humanas, ramagem por meus ossos, músculos e o que aperta e dói aqui, o que se ausenta e sinto falta. Este memento mori, não apenas jogos de palavras, coisas que nem se sabe e feitas assim do nada, e disso tento tirar todo proveito para redimir as omissões de antes, desavergonhado compasso escancarado às grandes ventanias do destino. Sigo pálpebras atentas para a descoberta no que encontro e no que perdi, ouvido no ar e nenhum comedimento. Sei que o que é primário não será nunca secundário, embora deixe tanto para depois, a posteriori, sensatez indefesa para judiciosa reflexão. Tenho o temperamento generoso em alta densidade geográfica, sempre procuro algum olhar perdido na minha notoriedade precária senão prejudicada, criada no dedo e sempre assim solícito, pudera, reputação carente na minha militância ginocrata, porque sei que ao encontrá-la ela bailará linda Frances Charlotte Greenwood nua e eclipsada no meu corpo para alcançar minha alma e me fazer recitar Lamas do saudoso Aldir Blanc: Ter coragem de olhar / pela última vez / e mentir calmamente: / quem sabe?... Talvez... / como se a última vez / ficasse pra outra vez... e me salvará como se não houvesse mais jeito de morrer, a saber que sou juiz que não me interrogo lá muito bem, apesar de rigoroso e um tanto polido, perdoará a rir comigo da minha própria careta. Até mais ver

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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COISAS DO RECIFE
[...] A cidade acordava com os pregões dos vendedores ambulantes, os chamados balaieiros, que ofereciam de tudo; frutas, verduras, peixes, guloseimas, quinquilharias e serviços, desde o conserto em panelas e bacias até amolação de facas e tesouras. Muito pregões eram familiares a vários bairros da cidade, alguns alegres e zombeteiros, outros pungentes e nostálgicos: “Eu tenho a lã de barriguda para travesseiro”, gritava com voz arrastada o mulato já avançado em anos. O outro, mais moço, anunciava em tom festivo para assanhar a meninada: “Chora menino pra chupar pitomba!” [...].
Vozes tipos da cidade: o ambulante do desaforo, extraído da obra Coisas do Recife (Bagaço, 2004), do jornalista Fernando Menezes, contando sobre as equinas, assombrações, escola de cinema, referência cultural, artes plásticas, usos e costumes, música, vozes e tipos, brinquedos populares e a cozinha pernambucana. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

segunda-feira, maio 20, 2019

BALZAC, MARQUES REBELO, RENINA KATZ, NINA BECKER & DAS ARENGAS NO RACHÃO


DAS ARENGAS NO RACHÃO - Nicolito é o apelido de João Uóxito Conceição da Silva, homônimo do maior cantor brega da redondeza, filho de dona Josefa da Conceição e de pai ignorado no registro, mas tido por ditos e provados ser um tal de Zé Marreta que era tão fã do dito crooner de sucessos - razão pela qual, apesar das raivas e desencontros, o famigerado intérprete da lubrificação das gaias musicadas foi devidamente laureado -, tinha lá duas paixões na vida: Lauritilia e sua cadela Xola. Não sabia ele por que cargas d’água era surpreendido a todo momento e nas horas mais indevidas pela amada, isso se tivesse largado do trabalho e resolvesse tomar umas e outras com os pariceiros calungas e os da laia de porqueiras, ou caísse na gandaia dos arrasta pés por rabos de saias perdidas, ou no jogo de porrinhas entre pitacadas e pinoias, fosse pronde fosse, ela chegava gasguita, mãos no quarto, batendo o pé e com a cara de poucos amigos, esporrenta de arrear a lenha nos seus costados de safadezas, a levá-lo aos puxões de orelhas direto para seu cafofo, lá tratado na maior rédea curta, para acabar jogado a um canto do chão, agarrado com alisados na cadelinha, apertando cada vez mais o seu juízo pouco. Peraí, Lauritilia, meu amor. Muxoxos e desavenças. No meio disso, Nicolito ficava com aquela cara de interrogação, desconfiado, cismando: Como é que ela adivinhava onde estava toda vez que saísse da pisada, não havia como saber, nem mesmo passava na ideia queimando nas catracas do tino, ao chegar de sopetão na casa dela e ela não estava, deitava no sofá aos cochilos até o dia amanhecer e ela, chegando de farras e copos, surpreendida com a presença dele, arreliar que não gostava de surpresa e que ele fizesse a fineza de avisar quando fosse dar as caras, ao que ele passou na lata os três anos de convivência e da sua fidelidade repassando às mãos dela amada todos os ganhos e afetos, e ela nem aí, a casa era dela e como dona a lei tinha que ser como queria e dito e falado, ponto final e que ele se mandasse dali já e só aparecesse quando ela autorizasse, nada mais que isso. Nicolito saía cabisbaixo revoltado com o circuito no quengo para amarrar o bode por meiotas e lapadas de cana, a repetir que qualquer sujeito só vale pelo que tem, pois quando ele se danava lascado com o espinhaço no pesado, e no final de semana, apurado no bolso das caranhas pra ela, é toda dente aberto fazendo pinto na feira, carinhos e vuque-vuque, mas quando liso apertado, sem um tostão no bolso, é logo enjeitado de ficar no castigo da punheta, isto se quiser tê-la quando ela der na telha de querer e nada mais. Tampo cheio das biritas, arengas com um e outro, aqui e acolá, corno uma porra! Zé do Mé exige respeito, aqui é ambiente familiar, radiola de ficha às alturas, ele se arreta arrepiando o pentelho, manda tudo para a puta que pariu, trocando as pernas, vendo alma pelos escuros, alisando Xola, oxe, essa cachorra por aqui! Como é que pode? Ela me achou, me acha sempre essa danada, dentes no coarador. Dali a pouco, dava fé, Lauritilia com maus bofes: Vai pra onde, traste! Vou me danar no mundo! Amanse as gaias, safado! Tou puto! Ela deixa de mão, se dane peste! Ele enfia o dente nas talagadas de dois dedos, chega dá um palmo de copo na vira-virou e pei pou uh rá, cambaleia, teve um estalo: É a Xola o alcaguete! Cadê-la? Sumiu-se de novo, foi com a dona. E era mesmo, nem contava com isso. Ah, como não pensei nisso, é aquela cachorra quem me caça e diz pra ela. Fica fulo, maldiz da vida, e ao primeiro desafeto uma mãozada praguejando: Corno é a sua mãe! Mais chatos engrossam o caldo tomando as dores, enchem-lhe de porradas, dele cair roto na sarjeta. A polícia aparece, só dá ele. No outro dia, esporro do delegado: Lauritilia deu parte dele. Ameaça em riste: se se aproximar duzentos metros da casa dela, meto-lhe na cadeia pro resto da vida, seu fresco da gaia mole. Perdeu o dia, a carona, vai pro fiado do Rachão onde ofendidos, pilantras e gaiúdos vão afogar mágoas, passar rasteira e botar em dia o chapéu de otário; enche o tampo praguejante, xinga deus e o mundo, tabefe rola aos empurrões, esquenta o pé da orelha, quebra o pau da venta, mão fechada dormente, perde três dentes, safanões de entortar o gogó, chute nos colhões, pesadas de bico nas canelas, envergada na costela, teibei, até uma navalha abrir-lhe o bucho dos seus bofes pularem fora de dor para nunca mais. Assim foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nascera ali, numa casinha de três cômodos, atrás de um armazém que prosperara. Ali perdera o pai, que era embarcadiço, conhecera o mundo a pasmo, outras gentes. Os japoneses comiam arroz com pauzinhos; os chineses adoravam filhotes de ratos fritos na manteiga; num lugar não sabia onde, os indígenas matavam os pais quando estes ficavam velhos; na África, as mulheres é que trabalhavam, os homens ficavam dormindo em casa, bebendo, fumando e se abanando por causa do calor! Deixava-a falar e ela falava muito. [...] Eu olhava seu corpo, não respondi. Mas sentia que ela fugiria mesmo, um dia, para nunca mais. Não sei por quê, nada fazia para prendê-la. Aceitava a idéia de fuga como um acontecimento que não podia deixar de ser. As mãos dela eram quentes, apertavam. Os seus olhos eram bem o chamado do mar, o chamado das ondas do mar, o chamado das ondas de um mar desconhecido, verde, fundamente verde, misterioso. [...] - Não devia ter vindo. Eu tremi e paramos numa pequena ponte, como se, muda e previamente, tivéssemos combinado parar, não ir para a frente, ficarmos ali para sempre pregados. A lua é paz, é pálida, e nós tão pálidos. As horas correm, o barulho do rio correndo tinha uma tristeza de morte. [...]
Trechos do conto extraído da obra Stela me abriu a porta (Globo, 1942), do escritor e jornalista brasileiro Marques Rebelo (1907-1973). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Enquanto eu viver, não estou acabada. Essa é uma atitude otimista, à medida que imagino que eu possa me aperfeiçoar como pessoa. Se alguém ainda está num processo de aperfeiçoamento, não está acabado.
A arte da gravurista, desenhista, aquarelista, ilustradora e professora Renina Katz, integrante da primeira geração de grandes gravadoras brasileiras que concedeu uma entrevista (Estudos Avançados, 2003), à crítica e historiadora de arte, Radhá Abramo. Veja mais aquiaqui e aqui.

A MÚSICA DE NINA BECKER
A arte da premiada cantora, compositora e cenógrafa Nina Becker, que deu início à sua carreira como editora de arte de filmes e na Orquestra Imperial, que lançou em 2010 os discos Azul, com faixas autorais e parcerias, e Vermelho, com improvisos e intensidade, gravado ao vivo. Em 2014, lançou o álbum Minha Dolores – Nina Becker canta Dolores Duran. Em seguida, lançou o seu quarto álbum Acrílico (YB Music, 2017), reavivando sons da década de 1960 e com repertorio quase inteiramente autoral. Merece registo que, em 2009 foi eleita como melhor cantora pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e destacada como artista mais influente da sua geração pela revista Bravo! Veja mais aqui.
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A OBRA DE HONORÉ DE BALZAC
Todo aquele que contribui com uma pedra para a edificação das ideias, todo aquele que denuncia um abuso, todo aquele que marca os maus, para que não abusem, esse passa sempre por ser imoral.
A obra do escritor do Realismo francês Honoré de Balzac (1799-1850) aqui, aqui, aqui & aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...