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segunda-feira, junho 03, 2024

JUDITH MALINA, RACHEL BLOOM, HAL FOSTER & RIO UNA!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Kiribasáwa Yúri Yí-Itá (“A Força que vem das Águas” - 2021), do grupo de cantoras e artesãs do norte do Pará, Suraras do Tapajós, oriundo da Associação Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, uma organização que reúne integrantes de várias etnias e idades, por meio da música do carimbó e suas raízes sertanejas, africanas e indígenas.

 

AINDA É CEDO E AMANHÃ TARDE DEMAIS... - Era a primeira vez e o amor desafinado respirava a noite intrínseca, a vida erguia o desastre e o que fora soterrado pela areia do tempo. A mutilada chance nas dores partidas pelos pedaços de sonhos súbitos e a mão arruinada levitava a desgraça apodrecida impressa nos muros do Recife. Quase nem deu para ouvir Hélène Cixous: As pessoas não te veem, / Te inventam e te acusam... Eu também transbordo; ... meu corpo conhece músicas inéditas... Quantos prodígios ignorados e o que se toma por inquestionável, os meios precários de tão impacientes: o dia perdeu as horas e a data estômago a dentro. O que tinha lembrado e o esquecido acendendo a distância perdida, um alvo móvel na direção: lugares decadentes e inútil espera, só uma ou outra surpresa pro desânimo, com seus espasmos fustigantes pelo que dizia Paulina Chiziane: O meu vício chama-se questionar, incomodar. Questionem tudo o que vos oferecem como perfeito... Era o lenocínio das mundividências e tudo se escondia no nada. Coisas de nunca. A nervura dos trajetos e o que de palpável se fizera dos gestos erráticos na veemência da ignorância renitente. Ainda deu pra ouvir Anthony Braxton: Aprendi ao longo do tempo que nem todos estão interessados nos tipos de coisas que me fascinam... Só estremecimentos e o que se sucedia do inexplicável tão fútil se parecera. Momentos espalhados e o que importava a indiferença, latejavam esperanças gastando as brechas restantes nas curvas inclinadas das grandes escuridões. Alguém veria e era o amor, aprendia sozinho: os olhos mergulhados no futuro. E mais aprendia o deserto adivinhando clareiras onde sequer existiam. Era o poeta e a metáfora do espelho: quem devia esta vida pra outra, o porquê dos quando. E sonhou perder-se na noite e roubou as estrelas, degelou os polos, inundou a terra, bebeu os rios e evaporou os mares. Findava só vendo o que fez porque ainda era cedo e amanhã será tarde demais. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ESPLENDOR - O esplendor nunca é simples. \ Vem à luz \ Quando as 1000 coisas \ se agitam contra a alma, \ Cintilando os arredores\ Para que a mente cega\ possa ver o que está sempre lá, \ Obscurecido pelos costumes. \ O esplendor só ocorre \ quando cada uma das 1000 coisas \ está precisamente no lugar.

HÁ TEMPO - Porque somos mortais. Existe \ Morte porque não somos \ Nada. Existe amor \ Porque somos loucos \ E queremos ser felizes para sempre.

Poemas da atriz, dramaturga e escritora alemã Judith Malina (1926-2015). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

QUERO ESTAR ONDE AS PESSOAS NORMAIS ESTÃO – [...] A depressão, por exemplo, não se parece com esta palavra estéril da sala de espera do hospital: depressão. Parece que meu interior está ficando cinza, o que faz as árvores ficarem cinzentas, o que faz toda a vida ficar cinza, que é a cor que todos nós eventualmente nos tornamos, porque tudo leva ao nada. [...] Minha mãe sempre comparou pensamentos ruins a um pássaro em um celeiro. Se um pássaro voar para dentro do celeiro, você pode reconhecer que há um pássaro no celeiro, mas não precisa fazer um ninho para ele de repente. “Basta deixar o pássaro voar e ele eventualmente voará para fora.” Que é, em essência, terapia cognitivo-comportamental [...] Eu sou um garoto do teatro. Isso significa que estou desesperado para ser o melhor, desesperado para agradar, desesperado para nunca decepcionar ninguém. Não há espaço para fracasso, porque fracasso é igual a fraqueza, o que é igual a morte [...] O que eu mais amava no teatro era que ser um garoto do teatro era uma explicação fácil para o motivo pelo qual eu não me encaixava. [...]. Trechos extraídos da obra I Want to Be Where the Normal People Are (Grand Central Publishing, 2020), da atriz, humorista, cantora e compositora estadunidense Rachel Bloom. Veja mais aqui.

 

O QUE VEM DEPOIS DA FARSA? - [...] Uma política da pós-verdade é com certeza um enorme problema, mas uma política da pós-vergonha também é. [...] Se tudo isso parece terrivelmente sombrio, é porque é mesmo. Em muitos aspectos, olhamos para um mundo que fugiu ao nosso controle – não só política como também tecnologicamente. E essa situação extrema provocou formulações extremas por parte de artistas e críticos. [...] O padrão da tragédia seguida pela farsa tem, ainda, certa lógica: a história preserva uma narrativa mesmo que anticlimática. No entanto, talvez essa coerência fosse uma ilusão e, mais uma vez: o que poderia vir depois da farsa, afinal? Necessariamente nada. Paliativos como “o arco do universo moral se inclina em direção à justiça” ou “devemos trabalhar para uma união mais perfeita da nação” já não tranquilizam ninguém. Nada está garantido; tudo é luta. De novo, de um ponto de vista particular, já não está claro se a arte pode depender de seu passado, e seu presente também parece institucionalmente tênue. [...] Tal é a oportunidade no período presente de convulsão política: transformar a emergência disruptiva em mudança estrutural ou, pelo menos, pressionar as brechas na ordem social em que é possível resistir ao poder e reelaborá-lo. [...] Há muito a ser debatido em termos de táticas e efeitos. Contudo, um resultado desses desdobramentos é decerto uma volta inesperada do museu e da universidade como possíveis locais de resgate da esfera pública, em que, ao menos em princípio, podem-se expressar críticas e se propor alternativas. Eles emergiram como pontos de pressão para artistas ou críticos ativistas que têm se empenhado em explorar as tensões entre os compromissos públicos dessas instituições e os interesses privados que as dirigem. [...]. Trechos do prefácio da obra O que vem depois da farsa? (Ubu, 2021), do crítico de arte e historiador estadunidense Hal Foster (Harold Foss Foster) que trata sobre terror e transgressão, vestígio traumático, O kitsch de Bush, Estilo paranoico, Coisas selvagens, Conspiradores, Plutocracia e exibição, Deuses-fetiche, Belo hálito, Greve humana, Exibicionistas, Caixas cinza, Underpainting, Mídia e ficção, A pianola, Olho-robô, Telas estilhaçadas, Imagens de máquina, Mundos-modelo, Ficções reais, entre outros assuntos. Ele também é autor das obras What Comes After Farce? Art and Criticism at a Time of Debacle (2020), O retorno do real (Cosac Naify, 2014) e O complexo arte-arquitetura (Cosac Naify, 2015), entre outras. Veja mais aqui.

 

VIDA, DE JAYME GRIZ

Olores do cosmos \ música das esferas \ loucura do infinito \ E enquanto isto, \ a vida \ nas suas secretas e misteriosas fontes, \ vibra \ estremece, \ se agita, \ e continua... \ largando cada alfar do peito antigo, \ um soturno grito! \ Brado velho, antigo, imemorial, \ cheio de estranha e absurda finalidade: \ Eternidade! \ Eternidade! \ Eternidade!

Poema Vida, extraído da obra Rio Una – poemas (Diário da Manhá, 1951), do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

&

Palmares conta a sua história... – Semana Palmares de 03 a 07/06 – E no próximo dia 06 de junho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto – Palmares – PE, acontecerá a palestra Arte em Palmares: do Club Litterario ao século XXI, que ministrarei para o público em geral, especialmente nos horários: 9h – para alunos da Escola Municipal Jayme de Castro Montenegro; 14h – para alunos do Ginásio Municipal dos Palmares; e às 19h – para alunos da Escola Estadual Galtemir Lins. Promoção da Biblioteca Fenelon Barreto & Amigos da Biblioteca, com apoio da Semed-Palmares, Observatório de Linguagens, IbaValeUna & Academia Palmarense de Letras (APLE). Estão todos convidados.

 

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Crônica de amor por ela aqui.

 


sexta-feira, julho 30, 2021

ATTILA JÓZSEF, DOSTOIEVSKI, LOUJAIN ALHATHLOUL, IZA COSTA & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQP – Más notícias do Fecamepa... - Ao som dos álbuns Mensageiro (2014) e O convertido (2013), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro Adelmo Arcoverde. – O Norte queima: aos cinquenta graus bafejam as águas quentes do império. O Sul congela e lá se vão estátuas que se dissolvem com o piscar de olhos ao primeiro raio solar. Estou de frente pro Leste e às minhas costoestes a mata é só carbono, não sei como será possível sobreviver, porque o meu país sucumbe à fraude Coisonária em plena festa do Fecamepa e a esperança é um pássaro extinto que, mesmo assim, teima em voar no meu coração entoando aquele verso escatológico do Jayme Griz. Quase me rendo ao desespero, não fosse a linda ativista saudita Loujain Alhathloul a me surpreender: Todos nós temos que perceber que criticar alguns fenômenos em nosso país não significa odiá-los, desejar o mal para eles, nem é uma tentativa de abalar seu equilíbrio, é o oposto total. Qualquer cidadão pode ficar chateado com alguns incidentes que ocorrem por aqui, mas isso é apenas um sinal direto do interesse na melhoria de seu próprio país e da esperança de vê-lo como um líder global. Continuo muito otimista quanto a um futuro brilhante para meu país e seus cidadãos. Eu vou vencer. Não imediatamente, mas definitivamente. Vê-la é o mesmo que ressuscitar num amanhecer ainda escuro. E não satisfeita, recitou-me Attila József: Quando nasci tinha uma faca na mão. / Dizem: é poesia. / Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca. / Nasci para ser homem. / Alguém soluça uma felicidade apaixonada. / Dizem: é amor. / Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas! / Só contigo eu brinco. / Não recordo nada e também nada esqueço. / Dizem: como é possível? / O que deixo cair mantém-se sobre a terra. / Se o não encontro, tu o encontrarás. / A terra me aprisiona, o mar me dilacera. / Dizem: um dia morrerás. / Mas dizem-se tantas coisas a um homem / que nem sequer respondo. Assim, o seu beijo me tocou arrepiando a alma para, entre o verdadeiro e o escatológico, sonhar e fazer.

 


A solidão de Dostoievski – Imagem: arte da desenhista, pintora, professora e gravurista Iza Costa (1942-2021). – Não era eu, mas aquele a quem senti doer na pele o pai alcoólatra, a engenharia entediante, a enfermidade militar – precisava ser gente e deixara o exército para vê-lo assassinado. O único prêmio foi esbanjar a herança com a poesia de Puchkin, a prosa de Balzac, leituras de Fourier, e ouvir de Necrasov: Você sabe o que escreveu? Nem eu sabia, era só gente pobre, os mesmos dos contos d’O Dobro. Senti na pele a sua prisão por traição, condenado à morte. No local da execução, a sentença para ouvi-lo dizer: Não me restava mais que um minuto de vida! Ah, não! Mas, uma bandeira branca e a comutação da pena: trabalhos forçados na Sibéria - triturando pedras, carregando rochas, a epilepsia. As visões de quantos ali desencarnavam, outros enlouqueciam, as cicatrizes das lembranças. Havia Maria, sim, aquela que era Dimitrieva Isaieva, esperou por ela, a desilusão ao vê-la enviuvar: seria a chance de ser feliz, pensara, não era, um desgosto - era ela, o filho e o amante. Chegou a vez de Humilhados e ofendidos. Por remissão, o elogio de Tolstoi: Recordação da casa dos mortos. E o passeio do leão enjaulado pela tardia, com tantos episódios violentos e torturas íntimas no campo de batalha, os pesadelos patológicos e o intolerável sofrimento, o desespero pela salvação, a pobreza e o Livro de Jó, as almas aflitas, a revista censurada, o infortúnio e a perda de memória. Na solidão estava Polina abandonada e morta de fome. A salvação no jogo e lá se foi a esposa que não mais era, o irmão e a depressão: Vivo como um mendigo. Era a vez de O jogador e, depois, Crime e castigo. Não fosse a taquígrafa Ana, a que era Grigorieva Snitquin, jamais haveria a autobiografia lúgubre: Notas do inferno, cartas de além túmulo, o exílio dos credores. Precisava da terra, do seu chão para se salvar da doença sagrada e escrever a vida. O retorno e O idiota e, depois, Os possessos. Foi-se o primeiro filho, segurou como pode o segundo, o sentimento de culpa, os tormentos: base indispensável para O eterno marido e Os irmãos Karamazov. Parecia mais um fanático monge esfarrapado, e a hemorragia na vida lôbrega e desequilibrada: um extravagante contraditório, um intolerante com a indecência de dizer a verdade, as matérias da alma, as confissões, a incontinência verbal. Ouvi-lo dizer: Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos... Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão... A maior felicidade é quando a pessoa sabe por que é que é infeliz. Bem, com ele as inquietações: se Deus existe, não sei; só do amor entre todos! Um raio de Sol, a doença e a morte.

 


Seiscentos&sessenta&seis... – Só sei da vida e quando fui em Floresta pela primeira vez, nem era ainda o Eixo Leste da transposição do Velho Chico, vi na cabeça o navio e o dedo do poeta na única nuvem dos meus avós maternos que já se foram para nunca mais. Dez ou cinco anos atrás, nem lembro direito quando fui de novo e passeei pela margem direita do Pajeú, comendo tomate e melancia, ouvindo os lamentos dos praieiros que fugiam do meu rio no meio do sul da mata. Daquela nuvem eles riam porque eu estava noutra tarde da Pracinha do Diário e ali, o então profeta, começou a me dizer de pedra e de trivialidades por cima e por baixo doutras arestas e era como se eu para lá retornasse seiscentas e sessenta e seis milhões de vezes e soubesse da vidarte na caleidoscopia aplicada e o barulho da queda que vinha de lá do farol de Olinda e ficou como se dois olhos não lembrassem. Seiscentas e outras tantas vezes, meus avós no coração. Com isso tudo, então, segui a teia do Eclesiástico (Autor, 2021), o poemevangelho de Gentil Porto Filho: ... velozes de dia, lentos à noite / recordes de velocidade / recordes de luxúria / recordes de cochilo e insônia / vivendo para bater recordes / conforme as oportunidades / desrespeitando ciclos e estações / sem coordenadas xyt / casas de praia no campo / jangadas e cavalos a postos / horas e dias que passam / uma hora de dois dias / um dia de duas horas / ontem mesmo durou duas horas / hoje, dois dias / se eu fosse sincero, diria uma vida inteira etc... na última linha só me restava saudar o poeta e celebrá-lo desde o Livro Fechado, desdantes! A vida, apesar de tudo, o que nos cabe. Até mais ver.

 

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E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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sexta-feira, fevereiro 07, 2020

COLERIDGE, ASTRID LINDGREN, BAJADO, QUESTÃO DE ARTE & NITOLINO NA FEARPINHA



A SOLIDÃO DE COLERDIGE - Sempre escapei por pouco, não havia outro jeito, a sorte assim, desde sempre. Na minha imaginação infantil mórbida, brincava sozinho. Inventava histórias dos livros lidos, era a forma de não me sentir rejeitado pelos outros da minha idade, adorado pelas tias e parentes que não tinham tempo para brincar. Meu pai logo se foi para nunca mais. Um tio me levou e eu com mendigos, severa disciplina, apetite enganado. Nas horas de folga nadava no New Rider ou pelas ruas sombrias, era o meu mundo de fantasia, quanta separação, ausência, distância. Já autoproclamado poeta na biblioteca de Cheapside, ouvia as vozes de sereia das musas: todos os meus paradoxos na cauda dos lunáticos. Era por pouco e escapava da escola para me alistar no regimento dos dragões: o mais desastrado cavaleiro. Tornei-me ordenança por causa de uma frase latina. Foi no aparecimento de Sarah, a imoral de Bath no sarcasmo de Byron. Era a Sara do meu sonho de embarcar para a América e lá a minha república platônica, o meu primeiro livro e a Terra Prometida. Eu e ela embalados na cabana de Nether Stowey. Ela resiliente à beira da pobreza, era quem amei logo com urgência e pensava nela com indescritível ternura. Para ela O beijo naqueles adoráveis lábios e o sopro do amor na minha senhora, era o alento da vida, a companheira ideal para um homem. Eu amava, era amado e feliz. Ela escrevia poemas enquanto eu lutava pela sobrevivência. Para nada deram os dez números do The Watchman e o sermão no púlpito unitário. Novos fracassos acumulados e alguns anjos disfarçados em socorro. Confundido como contrabandista ao perambular pela costa do Canal da Mancha, periogoso revolucionário enquanto uma poesia simples e mágica era apenas o que eu queria. Sucumbi ao ópio e ao reumatismo, sonhando Xanadu e ir para Malta para que me deixassem em paz no meu profundo abismo pantisocrático. Era, porém, o espinho na carne e o láudano para alívio, porque o indissolúvel tornou-se insurportável, gangrenando a tranquilidade. Na fuga o carinho de Dorothy da alma ansiosa e eletrômetro perfeito do seu gosto. Ao meu lado, outra Sara, a de Asra, a curvilínea animada e atraente ao redor da lareira, o meu desejo desesperado pela musa extrovertida, a ruiva luz de fogo, o exotismo da quentura da sua pudenda muliebria, e a longa entrada de beijo do amor verdadeiro. Assim era. Por pouco, escapei: um deus em ruínas e meus inconsistentes ideais, a armadilha da hipocrisia retórica. Fiquei mudo, sentimentos dilacerados nas horas sombrias da noite de insônia. Qual Sara, não sabia. Ora uma, ora outra. Nunca ganhei dinheiro suficiente, as minhas muitas enfermidades, e ela, uma, a primeira, o queijo tostado, as cartas distantes, a casa fedia a enxofre, quantas privações, provações. Fugia e afundava em Spinoza, eu era um sapo em uma rocha. Na real, a imponência destruida, cristabel e os meus desvarios. A outra e um sorriso, o encanto. Falido e a viver em vão, escapou-me a vida e me esvaí areia pelas mãos. Mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A menina que eles viram era assim: tinha cabelo cor de cenoura e usava duas tranças bem apertadas, que ficavam espichadas para os lados. Seu nariz parecia uma batatinha bem pequena, e era todo pintado de sardas. Debaixo de seu nariz havia uma boca realmente bem larga, com dentes brancos e fortes. A roupa que ela estava usando era muito engraçada. A própria Píppi é que tinha feito. No começo, ela pretendia fazer um vestido azul, só que o pano azul era muito pequeno, não dava para fazer o vestido, por isso Píppi tinha costurado pequenos quadrados vermelhos em vários lugares. Suas pernas compridas e magricelas estavam cobertas por um par de meias compridas, uma marrom, outra preta. Além disso, ela estava usando uns sapatos pretos com exatamente o dobro do tamanho de seus pés. O pai de Píppi tinha comprado aqueles sapatos para ela na América do Sul, para que a filha não precisasse se preocupar com a questão quando crescesse, e eram os únicos sapatos que a menina gostava de usar. [...]. Trecho extraído da obra Píppi Meialonga (Companhia das Letrinhas, 2016), da escritora sueca Astrid Lindgren (1907-2002), que assim se expressou sobre livros na infância: Uma infância sem livros não seria infância. Seria como ser trancada fora do lugar encantado onde você pode ir e encontrar o tipo mais raro de alegria. Veja mais aqui e aqui.

A BALADA DO VELHO MARINHEIRO, COLERIDGE
I – É um velho Marinheiro / E aborda um desses três. / “Por tuas barbas grisalhas e pelo fulgor dos teus olhos, / Diz por que é que me deténs! / A casa do noivo está aberta de par em par / Estão já os convidados o banquete preparado, Ouvem-se as vozes festivas, E eu sou parente chegado.” / Prende-o na mão descarnada e assim começa a falar: / “De certa vez um navio…” “Basta, barbudo, és tonto, / Larga-me, tira essa mão!” / A mão solta-se de pronto. / Com a luz dos olhos o prende; imóvel o Convidado / Escuta como um menino de três anos de idade: / Assim faz o Marinheiro / O que tinha na vontade. / Levantou-se atrás de nós um vento sul de feição, / Seguiu-nos o Albatroz; / E depois dia trás dia para comer ou para brincar, / Vinha ter com os marinheiros que o chamavam de alta voz. / Entre névoa ou entre nuvens sobre os mastros, sobre os cabos, / Nove noites foi pousar. / Entretanto a noite inteira entre o branco nevoeiro, / Brilhava o baço luar.” / “Deus te defenda, Marujo de todos os inimigos! / Porquê esse olhar atroz?” / “Com o arco e uma seta / Eu matei o Albatroz.”
II - Era à direita agora que o sol se levantava, / Também de dentro do mar; / Sempre em névoa oculto à esquerda inclinava o vulto / Para de novo ao mar voltar. / Continuava soprando o vento sul de feição, / Mas já sem ave ditosa que viesse ao pé de nós; / Para comer ou para brincar, / Não mais tornaria a vir aos apelos de alta voz. / Água, água a toda a volta / e as pranchas a encolher; / Água, água a toda a volta, / E nem gota para beber. / O oceano apodrecia: / Meu Deus, meu Deus e que isto se haja podido passar! / Viam-se ali rastejar seres de lama com patas / Por sobre a lama do mar! / Pela noite à roda, à roda à roda em tonta ciranda, / Dançava o corpo-santo; / Entretanto a água ardia como luz de bruxaria / Em azul e verde e branco. / A uns em sonho aparecia o Espírito que infligia / Este tormento profundo: / Desde a terra da neblina vinha no nosso encalço / A nove braças de fundo. / E a língua toda ela de secura e de míngua / Mirrava até à origem. / Não podíamos falar. Seria o mesmo que estar / Sufocados com fuligem. / Ai de mim, novos e velhos todos eles me fulminavam / Com olhar ameaçador: / Ao pescoço em vez da cruz / O Albatroz me vieram pôr.
III - Foi um tempo desolado. / Tínhamos os olhos vidrados e a garganta ressequida. / Desolado! Desolado! / O olhar vidrado e sem vida. / Foi então que de repente no céu para Ocidente, / Vi qualquer coisa sumida. / Primeiro parecia mancha depois parecia bruma, / Vinha cada vez mais perto, / E acabou por ganhar forma, / Uma forma, eu estou certo. / Mancha, bruma, forma, é certo! / E mais e mais se acercava: / Como querendo escapar a um espírito do mar / Ia e vinha e mergulhava. / Com os lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Perdidos, mortos de sede e todos emudecidos, / Sem poder rir nem chorar! / Mordi o braço e chupei sangue do braço chupei / Para lhes dizer: Vela à vista! E duas vezes gritei. / Com os lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Eles me ouviram dizer: / Louvado Deus! E mostraram a alegria num esgar. / E todos ao mesmo tempo contendo um fundo alento, / Mais pareciam beber. / Cada um por mim passou / Sibilando como a seta e o Arco que a tinha lançado.
IV - “Tenho-te medo, Marujo! / Tenho medo, tenho medo da tua mão a descarnar! E tu és alto e macilento / E sulcado como a areia em que o mar foi quebrar. / Tenho-te medo, Marujo e aos teus olhos faiscantes, / Tenho medo à tua mão que mirrou e escureceu!” / Não, Convidado, não temas, / Que este corpo não morreu. / Ninguém, mais ninguém, eu só, / Só num vasto mar sem fim. / E jamais houve um santo / Que se apiedasse de mim. / Os vivos louvados sejam / E todos mortos jaziam. / Entanto juntos comigo / Mil seres de lama viviam. / Olho a podridão do mar, / Logo os olhos se desviam; / Olho o podre do convés, / Aí os mortos jaziam. / Olhando para lá da sombra vi as serpentes marinhas: / Moviam-se ao longo de linhas / Cujo rasto alvejava. / De cada vez que se erguiam uns brancos flocos caíam / E eram luz encantada. / E para cá dessa sombra via os seus ricos enfeites: / Azul, negro aveludado e ainda lustro esverdeado. / Enroscavam-se e nadavam, / E a luz que no mar deixavam / Era um feixe delineado todo a fogo dourado. / Felizes seres viventes! Sua beleza ninguém / Poderia descrever; / Do coração me brotou uma nascente de amor / E abençoei-os sem saber: / De mim se apiedou o meu santo protetor / E abençoei-os sem saber. / Nesse instante eu orei: / Como se fosse de chumbo, / Desprendeu-se o Albatroz / E sumiu-se no profundo.
V - Ah o Sono, o sono é doce / E é amado em todo o mundo. / Mãe do Céu seja louvada! / Mais doçura que essa boda, / Mais doçura e alegria / Sinto em ir até à igreja / Numa boa companhia. / Ir em boa companhia / E depois todos rezarem / E ante Deus-Pai se curvarem; / Tanto os velhos e os meninos como os bons amigos nossos / E as donzelas e os moços. / Adeus, adeus Convidado; / Ainda te quero dizer / Que apenas sabe rezar aquele que sabe amar / Tanto o homem e a ave como qualquer outro ser. / E para rezar melhor deve amar com muito amor / Tanto os seres das alturas como os ínfimos da lama, / Que Deus que nos ama a nós / Todos fez e todos ama. / Foi-se embora o Marinheiro velho de olhar cintilante / E barbas brancas do tempo; / Foi-se embora o Convidado, / Sem ter ido ao casamento. / Foi-se embora aturdido, / Foi-se embora transtornado: / Acordou ao outro dia / Mais grave e mais avisado.
SAMUEL TAYLOR COLERIDGE – Poema extraído da obra S. T. Coleridge - Poemas e excertos da biografia literária - Texto Poético Bilíngue (Nova Alexandria; 1995), do poeta, crítico e ensaísta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), traduzido por Paulo Vizioli. O poeta teve o seu relacionamento com Sarah Fricker (1770-1845) que com ele viveu longos anos entre ausências e pobreza, retirou o "H" de seu primeiro nome para agradar seu marido, dando-lhe constantes apoios como seu vício espiral fora de controle, simpatizava com seu ideal filosófico de pantisocracia e atuva suas várias paixões com outras mulheres. Para ela, escreveu o poema O beijo, em cujo fragmento expressava: [...] Muito bem aqueles lábios adoráveis divulgam / Os triunfos da abertura aumentaram, / Ou justo! Ou gracioso! Eu ofereço a eles que provem / Como passivo ao sopro do amor [...]. Havia uma outra na paixão do poeta, a Sarah Hutchinson (1775-1835), cunhada do seu amigo poeta Wordsworth, um objeto duradouro da paixão não correspondida e a quem ele escrevia sob o codinome anagramático de Asra e oriundo do grego antigo como vagina, a pudenda muliebria, como presente para ela por meio de um desejo físico inextricavelmente emaranhado. Além delas, a sua amiga e companheira literária, Dorothy Wordsworth, para quem escreveu cartas sobre o seu mundo íntimo e revelando seus conflitos domésticos, descrita por ela como a "irmã requintada" de Wordsworth, de temperamento atraente e educada,que aprendeu a sublimar seus próprios desejos e inclinações, tornando-se uma companheira mais "adequada" para ele. Veja mais aqui.

QUESTÃO DE ARTE
[...] nos tornamos mais humanos à medida que nos fazemos mais artistas, e que as conquistas do homem contemporâneo passam necessariamente pela consciência desse incalculável legado. Um legado que, como nenhum outro, só nos engrandece e orgulha por suas conquistas, intenções e realizações. Talvez seja esse o único patrimônio que o homem jamais renega ou rejeita e que nos identifica, aproxima e universaliza.
QUESTÃO DE ARTE – Trecho extraído da obra Questão de arte: O belo, a percepção estética e o fazer artístico (Moderna, 2004), da professora e pesquisadora Cristina Costa, que trata contos de fadas, estética e inteligência, arte e vida social, fenomenologia e arte, o prazer do belo e o desenvolvimento da sensibilidade, a diferença entre o belo e o bonito, a relatividade do gosto, o artista moderno, a crítica a arte, o amador e o profissional, a revolução tecnológica, o ingênuo e o autodidatismo, a arte do inconsciente, o aprendizado para o arte e para o público, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do artista plástico Bajado - Euclides Francisco Amâncio (1912- 1996) aqui
A poesia do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981) aqui, aqui & aqui.
A literatura de Frederico Spencer aqui.
A Loja de Répteis de Pedro Severien aqui.
A arte do humorista e consultor Murilo Gun aqui.
A música de Dery Nascimento (1968-2018) aqui & aqui.
A fotografia de Natali Paiva aqui.
Vitória de Santo Antão aqui.
&
Nitolino na Fearpinha, Literatura & Teatro infantis aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


segunda-feira, outubro 01, 2018

ÍTALO CALVINO, NIETZSCHE, JOAN BAEZ, GAGNEBIN, JAYME GRIZ & GALINHA D’ÁGUA


GALINHA D’ÁGUA – Imagem: foto de Ed Machado/Folha de Pernambuco - Galinha d’água e a infância na beira do rio do lado de cá, o outro lado distante ao alcance dos olhos: eu sorria o que era triste e nem sabia. Deste lado, a margem é estranha: coisos e coisas pra lá e pra cá, horrível barbárie em plena avenida dias e noites. É do lado de cá que é tudo muitas vezes deprimível, quase sempre tão devastador o veneno letal da estupidez que não diz mais nada além da vigência do atraso: há quem ria de menos, quem chore de mais, dez vezes eu contei os velhos tratados como trapos catingosos e só tivessem que morrer logo para nos deixar em paz, oh não, meus avós, sábios e mausoléus. As praças são lixeiras e o lixo viveiros exaltados das novas mortes nas promoções das vitrines e o glamour dos quinquênios menores que o triz se muito ou não mais que isso, meninos enterrados vivos, meninas que soletram o ganha-pão na condução entupida de lêmures que não sabem da vida no sabor de morrer a cada instante entre mães que adolescem chorosas e parem seus filhos que as guerras engolem com seus escravos insones sem saber o que fazem a cochilar entre a ordem e a punição, esfaqueando os consaguíneos por não terem nenhum afeto, fratricidas quais parricidas genocidas de agora, nenhuma raiz e nem nada: são só mortos de si pros outros que mandam a lei. É tudo duro de murro, cruel demais. Os pais pensam vivos que não sabem o futuro de ontem, hoje só falam ameaças e os temores plantados atrás de uma luz com a voz da escatologia: somos todos quase mortos sobrando nas bordas das calçadas tomadas pela vigilância dos donos dos muros, onde ninguém é de ninguém e sem saber quem seria por nós. Ninguém mais que a pedra e a água a ricochetear poucos metros na força do muque e do pulso, ah como sou falho de tantos fracassos com todos meus erros do lado de cá pro lado lá, porque o lado de lá é tão longe, quase inacessível que se faz, mas tão perto de mim, olhos e mãos a me ensinar da esperança que nunca morreu nem morrerá porque é de lá que aqui as mulheres fazem bonito na praça do Derby de mãos dadas e elas ao meu lado a me levar menino que sempre fui a sonhar tão estrangeiro de sempre vou com seus passos tomando de lá da Boa Vista até a Guararapes do Oiapoque ao Chuí do planeta em ebulição por todas as ruas, em cima da ponte, nos para-choques, retrovisores, janelas, bustos e testas, à margem de nada e ao lado de tudo, lindo demais e em mim, tornando possível o sonho de um país melhor no Recife com todos os cheiros dos sargaços que não esqueci, e elas falavam e me diziam de tudo que são e somos, eu já sou com elas pisando firme tagarelas, a me fazer tão mulher no que sempre soube de mãe e irmãs e tias e todas, como fizeram bonito no meu coração, como se minhas filhas voassem pra mostrar que o sábado será um domingo de toda semana por meses de anos e décadas e séculos e milênios vindouros ao som de batuques da dança de alma nua, descalças guerreiras, peito pras causas que minhas e dos meus que são todos e a me levar adiante, na onda que o frevo faz fora do carnaval, a ferver nas palpitações do peito com outras cantigas no arrepio da pele, o rubor que incendeia as cabeças para acordar o Brasil adormecido em berço nem tão explêndido assim e jamais, mas que é o nosso Brasil que a gente pode fazer muito melhor. Ah, como elas dançam e cantam bonito na minha alegria apaixonada por elas e descem do palco porque a festa seguirá sozinha e não terá mais fim pra me fazer mais menino que sabe que é delas a nossa redenção. Do outro lado que aspiro a lição: pra chegar lá tem de fazer todo dia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora estadunidense Joan Baez: Concert Live, Norway Live, Fare thee well abschiedstour & Honors and Impersonates & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Poderíamos também dizer que a luz branca da razão, do esclarecimento, transforma-se na escura luz devorada da onipotência: ao querer se livrar do medo pelo domínio total (e totalitário) sobre o real, a razão do esclarecimento não pode mais tolerar nada que lhe escapa, nem deuses, nem estrelas, nem sonhos. [...] Trechos da obra Sete aulas sobre linguagem, memória e história (Imago, 1997), da professora, filósofa e escritora suíça Jeanne Maria Gagnebin.

SOBRE A VERDADE E A MENTIRA – [...] somente pela teia rígida e regular do conceito o homem acordado tem certeza clara de estar acordado, e justamente por isso, chega às vezes à crença de que sonha, se alguma vez aquela teia conceitual é ragada pela arte [...] então a cada instante, como no sonho, tudo é possível! [...]. Trecho extraído da obra Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral – Obras incompletas (Nova Cultural, 1987), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui e aqui.

CIDADES INVISÍVEIS – [...] Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável – árvore e pedra são apenas aquilo que são. Finalmente, a viagem conduz à cidade Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras. [...] Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar – entrar na viela com carroça; urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte. [...] O olhar percorre as ruas como se fossem página escrita: a cidade diz tudo o que você deve penar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes. [...]. Trecho extraído da obra Cidades invisíveis (Companhia das Letras. 1990), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui e aqui.

PROGRESSO - Um zum-zum! / Um zum-zum! / Um zum-zum esquisito / que espanta até os bichos nas tocas!/ Um zum-zum que lembra coisas medonhas! / Coisas infernais!/ Coisas diabólicas! / E o zum-zum cresce, / aumenta / e apavora o povaréo enorme! / - Minha Nossa Senhora, é o fim do mundo! / - Misericórdia! Misericórdia! / - Reza, povo, reza! / - Valei-nos! / Nosso padrinho / Padre Cícero / do Joazeiro! / Nada de fim do mundo, meu povo! / Não é o fim do mundo não! / É o bicho homem vencendo a Natureza!/ Corta o espaço azul do céu / rápido, / barulhento, / um fantástico passará de ferro, / o primeiro avião!... Poema do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981), publicado no Jornal A Pilhéria, em 15 de fevereiro de 1930, extraído da obra A imagem e seus labirintos: o cinema clandestino do Recife 1930-1964 (Nektar, 2014), de Paulo Carneiro da Cunha Filho. Veja mais aqui.

AS MULHERES FAZEM BONITO: #ELE NÃO
As mulheres de Recife #Ele Não

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...