segunda-feira, dezembro 17, 2007

PROEZAS DO BITIROALDO



Imagem: The Kiss, 1908, do escultor abstrato romeno Constanti Brancusi (1876-1957).

VII

Quando Cupido Acerta no Alesado, Deus Faz, o Diabo Ajunta


Por causa dos aprontamentos sem medidas do desditoso o destino resolveu se vingar e tomar as rédeas de sua vida, providenciando umas lapadas punitivas nos costados do insolente.
- Tome! Acho é pouco! Ô coisa boa!!!! Toma, bandido, num era isso que tu queria! -, torciam todos os desafetos, engrossando a trupe dos do contra.
Depois de haver mordido a orelha da tia Nevinha, fazer buraquinhos na caçola da avó, tripudiado com a irmã, uma martelada na cabeça de Ciço Pacaru, furar o olho da professora substituta pela ausência da musa Ilmena, tocar fogo na saia de Zefinha Dentuça, rasgar o sutiã da Chica Doida deixando amostrada com os seios à mostra; usar estilingue na canela das meninas do bairro; espragatar caçotes na beira dos esgotos; e chantagear pelo telefone putarias com a balconista gostosona da banca de revista defronte da sua casa; aí, sim, veio enfim, o enterro de volta: caiu da goiabeira, quase quebrando o pescoço, visto que ele havia pulado com um guarda-chuva, se fazendo por pára-quedista, depois que fora descoberto por Ternência, a curiosidade dele espionando o banho dela.
Quase uma fatalidade este acidente. Foram dezoito horas desmaiado num balão de oxigênio sem poder mexer nem os cílios. Ainda vieram recaídas todas pela terceira vez consecutiva, de sarampo, febre tifo, frieira, peste bubônica, meningite, amidalite, hepatite, varíola, dengue hemorrágica, rubéola, difteria, poliomielite, bronquite crônica, catapora, aftas, caxumba e, de quebra, uma coqueluche que parecia não ter mais fim. Quase morre e deixaria sem graça a nossa história.
Felizmente, depois de dar muito trabalho a um montão de gente, recuperou-se e retornou às mais sórdidas brincadeiras, mais despropositais que sua própria vinda a este mundo, mais intratável que o seu enfezamento na perícia de desmanchar as mais inocentes confabulações das dondocas da vizinhança, com adiantamentos insolentes e impropérios indelicados.
Para quem nasceu num dia 29 de fevereiro, plena terça-feira gorda de Zé-Pereira, de um vento ruim, com uma caganeira sem precedentes, a pica tapada e os planetas desalinhados, tudo viria acontecer sendo fruto de um karma imensurável.
Com todo ocorrido, ele nem ai pra isso, indene, todo beiçudo e de nariz arrebitado.
Foi crescendo, escapando e aprontando as mais cabeludas das doidices. Sujeito assim, todos previam, não teria um futuro promissor. Tantas fez que seria redundante e cansativo enumerá-las agora.
Dessa forma chegou aos dez ou doze anos de idade, ainda uma criança com um bigodinho ralo embaixo da venta, jeitão de adulto em tudo e a manemolente maneira de querer enrolar todos, claro.
Já se achava emancipado, dono do próprio nariz, tantos sofrimentos tivera.
O instinto sexual brotando e com ele as bolinagens com a tia ou na tesão louca por possuir a professora.
Agora era de fato e, com firmeza, batera o centro da maloqueragem e se enturmava com os seus amigos de bairro.
Aprendeu coisas de arrepiar cristão por se fazer acompanhar dos mais inveterados dos sujeitos de uma trupe intrépida que morava pela redondeza.
Sempre se fazia acompanhar de mais velhos, nunca meninos de sua idade, por isso, desde o seu aniversário que tencionava mudar de vida.
Foi aí que tomou o primeiro gole, bateu a primeira bronha, criou topete e galanteava a merendeira da escola, as raparigas da zona, a tia Nevinha e as meninas de seu convívio.
Logo, às escondidas, teclava no telefone e quando a bonitona balconista da banca de revista atendia o orelhão ele deitava safadeza.
- Gostosa, eu quero pegar nos seus peitos, enfiar minha pica na sua bunda, gozar na sua boceta e trepar adoidado com você, gostosona!
Depois de assanhar a gostosona ia para frente da banca e ficava zarolho de tanto olhar para ela.
Com os parceiros aprendera esta e outras tantas putarias e quando alguma dúvida se insurgia, recorria aos veteranos Zé Infeliz, Quibe Azedo, Biu Banana-Preta, Porta-Velha, Beiço de Bunda, Picolé de Asfalto, Cagaião, Pedim-do-padre, Zé Borná, Gineteiro, Rolivânio, Penisvaldo, Urinácio, Bicho-ruim-de-tanger, Papa-surra, Zé Corninho, Bico de Bule, Rolha-de-poço, Zito Quejeirinho e Marquim Leorel.
O Biu-banana-preta tinha um carinho especial pelo Birito e foi quem lhe ensinou bater uma punhetinha. Pederasta velho também ensinou ao menino como introduzir o prazer num orifício de gente.
O pior: num é que o danado só vivia de pêia dura atrás do povo?
Nenhuma quenga queria tê-lo na cama, traumatizando o coitado pelo rejeitamento e nem se avexando com o opróbrio.
Arrodiando o quarteirão encontrou-se com uma porca e com ela iniciou-se sexualmente.
Num se apertava, logo encontrava uma saída para suas sandices.
O Biu-banana-preta quase teve um troço quando soube disso:
- Onde já se viu, se aproveitar duma porca? E eu aqui, menino? Fico aonde? Como é, hem?
O pirôbo ensinou mais ainda, conduzindo o agora rapazola pelo umbral do gozo, batizando o neófito na perdição, cigarro, foda e enrolação.
A mangação dos outros não poupou nem sua paixão platônica por Chica Doida, chegando aos ouvidos dela o envolvimento dele com a porca e com o fresco. Quase se mata de tanto arrependimento.
Zé Infeliz solidário, levou-lo para uma cachaçada e o instruiu de como proceder para se tirar proveito das coisas na vida. É preciso muita confidência.
Aluno número um, nota dez nas catrevagens, Birito guardou o conselho e investiu tudo na conquista de Chica Doida.
Quando ela aparecia o coração dele queria pular fora, visando não afiançar aquela paquera. Branco da cor de nada, ele tentava dizer algum gracejo, não saindo palavra alguma mencionável para lisonjeá-la. Era um caso sério.
Noites e dias a imagem dela invadindo seus pensamentos, marretando seu coração. Tudo fez para namorá-la e só recebia desdém nas fuças. Ela não se dava conta do seu desmedido amor, sua existência aperreada, nem ele conseguia balbuciar qualquer que fosse a intenção de tê-la ao seu lado. Deixava escapar a oportunidade, sempre permitindo que passasse em branco pela sua presença.
Tomava uma, duas, tres, várias, criando coragem depois de meio grogue e chegando na Chica Doida, falando-lhe namoro.
Nessa hora ela abriu os olhos, espantou-se, fitando-lhe por uns quinze minutos, muda, estarrecida e imóvel. Ele, então, derramou verbo desconexo, mais esdrúxulo quanto inócuo. Ela arregalando os olhos e inerte. Baboseiras muitas, imbróglios inenarráveis, despautérios hilariantes foram derramados melosamente de supetão ali na sua presença.
Poupando seu esgoelamento ela assentiu o romance. Ele caiu duro. Isso é lá jeito de aceitar! Ela riu e foi embora.
- Ela aceitou! Ela aceitou! Vou comê-la logo! Vou comê-la!
Saiu gritando Biritoaldo com todas as forças pulmonares a todos os ouvidos dos amigos.
Chica Doida indiferente, nem deu conta da felicidade dele.
Dez semanas se passaram e ele nada de esfriar a chama que lhe queimava o peito. Finalmente, ela concedeu que ele se aproximasse, sentiu-lhe o cheiro e arrepiou-se. Segurando na mão dela, não se atrevendo a um cheiro sequer. Ela suspirava, ele respeitava como se fosse ma dama prestes a ser desposada. Imaginou-se formalmente se apresentando aos pais dela pedindo-lhes a mão em casamento.
Chica, ora, só pensava em sarrar.
Organizou noites adentro discurso que faria, assumindo precocemente um noivado sério, ela não, enquanto ele não apertava as carnes dela, sonhava com outras mãos em devaneios libidinosos.
Biritoaldo fazia de tudo com as putas da zona, com galinhas, com porcas, jumentas e outros bichos, mas com Chica não, seria sua futura esposa, virgem e santa dona do seu coração.
Três anos se passaram nessa molenga.
Chica não resistiu nem quinze dias e presenteou-lhe umas duas de quinhentos adornando sua cabecinha doida, um par de chifres bem botados.
Todo mundo se ria da inocência dele e ela se deliciando num sarro pesado com os amigos de seu convívio. De mão em mão passava impune e deliciosa, minando com prazeres as safadezas deles. Da turma só não tirou uma casquinha com o Biu-banana-preta por não ser ele afeito ao produto e o Bicho-ruim-de-tanger porque só vivia bebo de pau encolhido. O resto todo lavava a jega, até o sacristão Targino Tadeu fora abordado pelos encantos da danada.
Birito, por outro lado, fazia juras exacerbadas; escrevia versos, copiando estrofes inteiras de canções do populário daquelas de dor profunda de cotovelo, lubrificadoras de gaia, para numa intempestuosa confissão de amor extremo, relatasse à sua deusa a paixão devastadora que lhe corroia por dentro. Nem Romeu e Julieta eram tão românticos quanto o sentimento dele por ela. Paixão dessas parecida com a de Abelardo e Heloísa, daquelas avassaladoras como a de Dante por Beatriz. Só que ele suspirava, ela, necas fora daquela baboseira.
Todos os dias ele deixava com a empregada dela, Madalena, vários bilhetinhos com declarações rasgadas.
Na cabeça dele um malabarismo doido de emoções sonhadas na praia, no cinema, nas ruas de Paris, navegando águas de Veneza, na praia de Boa Viagem, em Recife; na Lagoa do Mundaú, de Maceió; nos Jardins de Alá, em Salvador; na rua de Tambaú, em João Pessoa; panoramas múltiplos, imaginando-se casado, filhos lindos, ela do lado vinte e quatro horas por dia, pro resto da vida, absorto, horas num devaneio agudo e patético.
A zombaria dos outros já estava ficando freqüente, ele nem ligava, agora tratava de se comportar, tornar-se um homem, arrumar um emprego, ganhar dinheiro, ficar rico e viver, somente, para sua querida amada e idolatrada Chica, nada mais.
Esquecera tudo, somente ela dava-lhe razão para viver, nada mais. O amor carregava a sua vida.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo.


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