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sábado, agosto 08, 2026

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Fábula hodierna... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascínio por Pandora que se assanhava toda por Epimeteu que paquerava Io que sonhava com o primeiro. O vértice do quarteto oscilava circulante, quem o alvo virava e o outro alheio girava a roda viva vagava e demorou pra dar certo a dança do amor. Não foi bem assim, mais ou menos, o resumo da ópera. Os irmãos eram ferreiros empregados na oficina do poderoso tirano Barão. E pelo façanhoso labor, eles conquistaram tanto a estima do déspota, como da população sempre agraciada por ações levadas e tidas por heroicas. As irmãs órfãs de mães diferentes carregavam o materno luto de terem sido ceifadas misteriosamente, suspeitando-se remoção de óbices diante das ameaças que representavam para o próprio desumano Barão. Nem se conheciam direito: uma fugiu quando a outra ainda crescia. Por conta da situação de abandono das meninas, elas foram providentemente apadrinhadas pelo influente, deixando-as no convívio da distinta Baronesa Puxencolhe, um álibi, afastava qualquer suspeita. Até aí, tudo bem. A mais velha, Io, ao debutar ganhou uma festa dionisíaca, Beltane – um carnaval fora de época e sem data fixa em Alagoinhanduba, realizada conforme a veneta do autocrata, no qual premiava homenageados, anunciava decisões e benfeitorias, condenava desafetos (quem caísse na antipatia de suas raivosas psicoses era introduzido num manequim de vime, o famoso crematório e saudava queimadas), às brasas escaldantes, aos ruídos atroadores do corifeu aeropagita dos horríveis rituais dos Bitus com todos os Sibitos, Rebitos & outros Priquitos animando a função estrambólica, entoando solfejos regados a urros, espasmos, tosses, esturros, estaladas de língua, peidos, arrotos, sovacadas, toc toc, marcação de pés nas pisadas e fricção dos instrumentos inusitados e fumegantes: Vamos tocar fogo! Foda-se! O evento infernal era colorido com a dança das parcas, das fúrias, das ninfas e das harpias. As erínias atiçavam os esponsais levados pelas eumênides, as moiras conduziam a maratona das lampadofórias, as górgonas abriam as narrativas de Hesíodo, os espetáculos de Ésquilo encenando a titanomaquia e o confronto olímpico, os louvores do centauro Quirão, os plangentes e denunciadores ditirambos de Frínico, e o povo ouriçado com as atrações de suas ordálias, Panem et circenses, tudo presidido pelo convidado juiz, o eminente famigerado doutor Teje-preso, gestor das pendengas. Era o maior regabofe e os dois acoloiados combinavam: Qual o crime deste? Não fui com a cara. Sacrifiquem! Em polvorosa, a multidão embriagava-se com o festival de horrores. Posso sacrificar todos? Deve! E enquanto o juiz sentenciava, o Barão dava uma escapulida, livrando-se da vigilância ciumenta da consorte e, às escondidas, encontrava Io na penumbra, prometendo-lhe presente desejado, pelo qual ela se viu ultrajada, maculada pelo asqueroso abuso, condenada a ser perseguida e tão marcada de jamais esquecer em toda sua vida de fugitiva eterna. A mais nova, Pandora, também de mãe apedrejada por suposta ordem do próprio Barão, tornara-se a queridinha da madrinha. Ao debutar, os olhos do usurpador caíram sobre sua graça, malogrando a cada investida. E ao flagrá-la receptiva com um sujeito desconhecido, logo interviu: Ah, minha afilhada preferida! Ô padrinho. Quem é esse? Sou, Epimeteu, seu servil, majestade. Ah, tenho que lhe premiar pelos bons serviços; por isso, você terá a mão dessa minha protegida e a cerimônia será amanhã na abertura dos festejos de Beltane, meus presentes de núpcias! Epimeteu não cabia em si e logo correu para dar as boas novas ao irmão, Prometeu: Cuidado, nunca aceite presentes do Barão, são de grego, todos. Está com ciúmes, você tem uma caidinha pela Pandora! Não é isso. Quase se estranharam às ofensas, mas deixaram pra lá, porque logo amanheceria e era o dia da festa. Feliz Epimeteu dava tudo que tinha até ficar de mãos vazias, o coração inchado de amor. No final da tarde, ele lá, os esponsais foram convocados ao tablado nobre, o juiz os declarou marido e mulher por força da sua lei, e o Barão os presenteou: para ele, uma salamandra de fogo – Que coisa mais bonitinha! E, pra ela: um jarro hermético para sacralizar o matrimônio eterno e que nunca deveria ser aberto. Quando os dois felicitaram os presentes aos beijos, o Barão cobrou: A jus primae noctis. Hum? Desconsolados, depois dessa noite o casal perdeu paz. Foi durante o cerimonial que o Barão já refeito de sua arrogância flagrou a aproximação de Prometeu e Io e partiu para desavença. Estava furioso porque Prometeu desconfiava do seu fatum e tinha caído nas graças de todos dando com a língua nos dentes, a ponto de ser mais bem quisto que o próprio absolutista, o que seria um desagravo funesto, e, ainda por cima, Io era desertora: Aquela vaca me paga! E veio o traiçoeiro golpe: Hefesto aprisionou Prometeu no rochedo do Cáucaso, lá no monte Etna na inóspita Cítia, estraçalhando aos poucos seu fígado de herói decaído, enquanto Argos Panoptes vigiava com seus 100 olhos, e assumia a paternidade da prisioneira sacerdotisa Io, martirizando-a num cativeiro com o ataque de insetos picantes. Foi preciso a intervenção de Heracles na agonia dos vitimados e fuga dos casais pelo Bósforo, Ilíria, Trácia, Micenas, Eubeia, Síria afora até sumirem para lugar incerto e não sabido e serem esquecidos pela fúria do ditador. Anos se passaram e no apogeu doutra festa, fez-se escuridão: Pandora abriu o jarro. Curiosa: será o fim do mundo? O diabo veio cobrar a conta. A praga e a revolta da pilombeta, a escuridão contaminava, atormentados pelo beijo homicida do amor letal. O tempo passa rápido e o esquecimento, a vida muda muito, as histórias ficam. Até mais ver.

 

Martha Nussbaum: Ao contarmos histórias sobre a vida de outros, aprendemos a imaginar o que outra criatura poderia sentir em resposta a diversos acontecimentos. Ao mesmo tempo, identificamo-nos com essa outra criatura e aprendemos algo sobre nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charles Bukowski: Todos nós vamos morrer, todos nós — que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados por trivialidades; somos consumidos pelo nada... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Fernando Arrabal: À luz da questão chamei imagens/fantasmas - o que estava vendo e me senti apaixonado pelo resultado final... Turbulência mais uma vez me cercou tanto que eu poderia ter algumas utopias... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Se te pareço noturna e imperfeita \ Olha-me de novo. Porque esta noite \ Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. \ E era como se a água \ Desejasse \ Escapar de sua casa que é o rio \ E deslizando apenas, nem tocar a margem. \ Te olhei. E há tanto tempo \ Entendo que sou terra. Há tanto tempo \ Espero \ Que o teu corpo de água mais fraterno \ Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta \ Olha-me de novo. Com menos altivez. \ E mais atento.

Poema extraído da obra Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), da escritora e dramaturga Hilda Hilst (Hilda de Almeida Prado Hilst – 1930-2004), destacando em sua lírica o amado e a amada, dos quais nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro. Veja mais aqui.

 

MOMENTO CERTO - […] A beleza da escrita é que você compete consigo mesmo, não com outra pessoa. [...] A inveja é algo muito feio e muito perigoso. Você precisa se proteger dela todos os dias. [...] Ele queria todos os prêmios e elogios para si, mas não queria trabalhar para conquistá-los. Ela se perguntava quantas pessoas como ele existiam no mundo, invejando os outros pelo que tinham e não podiam... […] A angústia é algo maravilhoso para os escritores e levará você a escrever seus melhores livros. Mas a felicidade o deixará preguiçoso e acomodado. Você se esquecerá de suas prioridades e ficará aí parado, sem fazer nada... [...]. Trechos extraídos da obra The Right Time (Palgrave Macmillan, 2017), da escritora estadunidense Danielle Steel (Danielle Fernandes Dominique Schuelein-Steel), autora de obras tais como: The Duchess (2017), Against All Odds (2017), Steel, Friends Forever (2012), Happy Birthday (2011), The Wedding (1997), The Gift (1994), No Greater Love (1991) e Wanderlust (1986), entre outros.

 

A CIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO - [...] Nossos cérebros produzem 20 watts de potência a qualquer momento. Em todo o mundo, isso representa mais de 155 bilhões de watts de capacidade humana para resolução de problemas, conexão e inovação. Imagine o que poderíamos alcançar se pudéssemos acessar esse poder coletivo? Imagine os projetos que poderíamos realizar, as criações que poderíamos conceber, os problemas que poderíamos resolver, como poderíamos transformar nossos mundos para melhor? Como espécie, nunca nos deparamos com problemas tão complexos ou difíceis quanto os que enfrentamos agora. Recorrendo à neurociência, podemos identificar estratégias que nos permitam reunir nossa capacidade cerebral e desenvolver soluções à altura desses desafios – juntos. [...]. Trecho do ensaio The Science of Collective Working - The interconnected working methods of the future and how we can harness the power of collective intelligence (Selfridges Group, 2023), da neurocientista, escritora, radialista e pesquisadora britânica Hannah Critchlow, que sobre inteligência coletiva e o pensamento de "nós" expressa: […] Quando fazemos a transição do pensamento centrado no 'eu' para o centrado no 'nós', nossa visão de mundo se transforma, nossa imaginação se liberta e cada um de nós é capaz de contribuir com sua perspectiva única para o acervo de inteligência da humanidade. [....] Estamos em um momento crucial de nossa evolução. A abrangência e a complexidade dos problemas que enfrentamos... exigem o engajamento de todas as mentes. Sobre o cérebro, o destino e o livre-arbítrio: As pessoas nascem com um cérebro que molda sua percepção e aquilo que estão biologicamente programadas para considerar gratificante... Nossos cérebros apresentam falhas que levam a suposições e erros... Sobre o cérebro no século XXI e a incerteza: É fundamental encararmos a incerteza e a ambiguidade com uma mentalidade voltada para as possibilidades — em vez de medo ou pessimismo — e enxergarmos oportunidades nessas situações... Embutido em nossos cérebros, existe um mecanismo extraordinário conhecido como plasticidade sináptica.... Ela é autora das obras Consciousness: A Ladybird Expert Book (2018) e The Science of Fate: The New Science of Who We Are - And How to Shape our Best Future (2019) e sua pesquisa acadêmica tem se concentrado em neurociência celular e molecular.

A ARTE DE ONILDO ALMEIDA

[...] Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e toda feira é igual. Mas, na verdade, não é. A de Caruaru, quando você procura uma coisa no comércio que não encontra, vai para a feira. É uma feira que tem tudo [...].

Trecho da matéria entrevista da jornalista Cibelle Tenório, Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo (Agência Brasil, 2025), com o compositor, poeta, músico e radialista Onildo Almeida, que lançou os álbuns A feira de Caruaru nº 2 (1957), Casamento antigo (1957) e Zé Dantas e Vaquejada (1962), autor de mais de 530 canções escritas e gravadas por diversos artistas, com gêneros que vão desde o forró, xaxado e xote, interpretadas por Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. Veja mais aqui.


 

TUNGA, TUNGANDO A VIDA – Destaque da trajetória do premiado O escultor, desenhista e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016), um dos artistas mais emblemáticos e representativos da arte contemporânea. Trata-se de uma síntese de sua vida, principais obras, prêmios nacionais e internacionais, exposições no Brasil e no mundo. Confira aqui.


O PLANETA & A QUESTÃO AMBIENTAL – Os debates atinentes à temática do planeta e a questão ambiental na contemporaneidade transitam entre as reflexões que incidem sobre crescimento econômico e a sustentabilidade socioambiental, a governança global, as mudanças climáticas e a transição energética, justiça socioambiental e a conservação, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, notadamente a respeito da sobrevivência humana, o equilíbrio ambiental e as projeções escatológicas de extinção diante ação predatória humana. Nesta postagem reflexões de Lorraine Daston, Alexandria Villaseñor, Tim Marshall, Carlo Rovelli, Caroline Dean, Carolyn Porco, Sophia Kianni, Jamie Margolin, Xiye Bastida, Kaka Werá, entre outros. Veja aqui.


NITOLINO NO VALUNA - Uma historieta infanto-juvenil que marca o início das aventuras do Nitolino, na companhia de Pai Lula & toda trupe Falange, Falanginha, Falangeta, pelo Valuna. O objetivo da turma é chegar na Serra do Quati, local indicado como a nascente do Rio Una. Acompanhe aqui.



 

CONSTISTÓRIA, POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS (Imagem: Acervo ArtLAM) – Da série Colam, uma reunião do meu trabalho autoral, unindo arte visual e musical, por meio de poemagens & versagens construídas com as obras O Livro das Janelas e da Crônica de Amor, com o tema musical Nênia de Abril. Verifique aqui.


AS TRELAS DO DORO (Imagem: arte de Rollandry Silvério) – Reunião das principais presepadas do arteiro Doro, dando conta de suas iniciativas mais extraordinárias, situações mais periclitantes e propósitos malabaristas, ocorridos desde a sua participação no Big Shit Bôbras, no Fecamepa com sua candidatura a presidente e do seu exótico cotidiano na cidade de Alagoinhanduba. Observe aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui & aqui.



 



domingo, novembro 06, 2022

VICTORIA CAMPS, CECÍLIA MEIRELES, GUY GAVRIEL KAY, DAREL, DUANE MICHALS & ELIANA YUNES

 

 Ao som do álbum Prelude in C minor, do violonista paraguaio Augustin Barrios Mangoré (1885-1944), na interpretação da violonista russa Valeria Galimova.

 

TRÍPTICO DQP: - Ráfagas et escâncaras (inspirado no livro homônimo inédito de Vital Corrêa de Araújo) – Lá estava eu às voltas com as diatribes do estoico Epictetus: Tudo isso é nada: estou preparado para coisas grandes. Para quem foi escravo ele foi longe demais, até as nove sentenças. Não estava tão à toa e foi por ele que fui levado a passar as vistas pelas considerações do Bernardo de Claraval – o tal doctor Meliflus que foi o último guia pelo paraíso nos cantos trigésimo primeiro e terceiro da Comédia de Dante. Depois pela novela enciclopédica das maravilhas de Ramon Llull – o libertino de jogral que ao ter tido sabe-se lá quando umas visões místicas tornou-se o beato doctor Inspiratus que influenciou Leibniz -, isso até me deparar com as devastadoras sátiras de Gregório Boca de Guerra. A sensação era de que fui atirado longe, quase perto da fechadura na constelação de Orion, com o peso na cacunda de haver cometido o dobro de uns quinze ou mais pecados capitais, sem me conformar por não ter abusado mais que isso. Apesar disso nem capitulei porque na verdade vivia como no centro das cenas do teatro de Beckett ou dum filme de Arrabal, e todos ao meu lado como na pintura desfigurativa de Bacon e no meio duma performance das transfigurações de Olivier de Sagazan que me disse imediatamente: É permanentemente como numa forma de cambalhota assim, vês? De passos largos. Vi e não era nada às claras no meio da umbrosa tragédia cotidiana, na qual reiterava Duane Michals: Vivemos em uma cultura onde aquele que grita o mais alto recebe mais atenção. Não é no vulgar, não é no choque que se encontra arte. E não é o excessivamente bonito. Está no meio; está em nuance. Foi precisa a simpática recepção da Victoria Camps: ...porque são as situações adversas que testam o significado da felicidade e a capacidade do indivíduo de encaixá-las em sua própria vida. Sim. Fui à forra e nem tinha para onde ir, apenas a sensação de que venci com muitos a primeira etapa para dar risada dos despautérios porque desgraça pouca é bobagem, enquantoutros asseclas do século sigiloso andam esperneando pelo que nem sabia direito para entender, coisas da estupidez fanática deles, o que perdeu a graça: a piada além de imitar piorou a vida.

 


Alagoinhanduba... - A cidade do meu exílio se parece muito com aquela dos traços de Darel Valença Lins. Poderia ser qualquer Macondo, Pasco do Cerro, Antares, Itabira ou rincão ignorado desses onde o diabo perdeu as botas, porque a minha sombra arquetípica é indecisa: um misto entre o inescusável e a desventura. Só conversa fiada, uma vez que na horagá esta minha cidade parece que teve tanta personalidade quanto um rolo de papel higiênico já inutilizado, isso mesmo. A sensação que ficou é de que seja o lugar ideal para se pegar uma bronquite, por exemplo; isto na baixa, pois há quem reclame ter saido de lá com alma de leproso ou coisa que valha. Pior: se não for o cu do mundo, está perto, porque parece que assim foi feita e com couro de tecido chué. Careca de saber aquilo que dissera Guy Gavriel Kay: Todas as estradas são escuras. Só no final há uma esperança de luz... A coragem residia em lutar para tentar ultrapassar esse medo, em erguer-se para fazer o que tinha de ser feito. De fato, longe de mim tal sortilégio, melhor mesmo é nada de contar vantagem, sai mais em conta, porque já falou Joel Pinheiro da Fonseca: Dar ao indivíduo aquilo que ele quer não é receita para sua felicidade. É sua destruição. Cá me previno e não é porque não fui embora que será o fim do mundo. Pelo jeito que as coisas vão, só dá pra querer que dure um pouquinho mais a festa esperançosa de dias melhores que virão, oxalá.

 


Novembroutro... - Quarenta anos se passaram, infortúnios e mazelas, ainda não aprendi direito, tarde demais. É que despontei pro anonimato justo quando queria reconhecimento e dei de cara com o que disse Gertrude Stein: Não sei como meus leitores conseguem entender o que escrevo. Depois de algum tempo, nem eu mesma sei o que queria dizer. Nem eu, pudera. Estudei que só e não sei qual a equação disso ou a raiz quadrada daquilo, tempo precioso que poderia ter sido aplicado noutra coisa de melhor serventia e me passei, como sempre. Ouso desagradar leitora: só joio, mais nada. Tenho imaginação sim, tanto é que todas as mais lindas mulheres passaram pela minha mão e nem precisei agradecer nem me desculpar por isso nem por nada, pois sempre achei que os outros se divertiam às minhas custas e pelas costas, seja lá quem fosse. Menti um pouco e nunca fui de caçadas, nem pra guerra nem candidato pruma eleição no raio que partiu a doidice toda. Nunca me importei mesmo, o que detesto é a prova dos nove ou o flagra da pinoia. Uso daquela do James Callaghan: Uma mentira pode correr meio mundo antes mesmo que a verdade consiga calçar as botas. Mesmo assim não hesitei nem me abstive de rascunhar garranchos, só inutilidade de dentes e cabelo caírem, memória fraca hoje em dia. Certa estava Cecília Meireles: Tudo é mistério nesse reino que o homem começa a desconhecer desde que o começa a abandonar. Não foi nem será fácil, deixo muito a desejar - como se as palavras saíssem na marra, quando na verdade, levo surra delas cada vez que me meto a escrevinhar minhas garatujas. Ora, sou lá congenitamente incapaz de uma frase refinada ou dizer a verdade, o melhor é seguir à risca a lição de Henry Miller: Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe. Destá. Vou no bambo, vai que acerto, coisa rara essa; mas quando erro pelo menos posso fingir que não sou tão idiota. Quando eu morrer que falem mal à vontade, nunca me incomodei porque é tudo verdade e será a vez que não invejarei o morto: estarei em dia com a ignorância alheia. Pois é, eu vivo e digo: viva ainda hoje que amanhã pode ser ilegal, viu? Até mais ver.

 


Ler não é decodificar um texto apenas, mas assenhorar-se do que pode ou não afetar seu leitor, possibilitando que compare e lucidamente corresponda ao lido, seja com ações interiores em sua subjetividade, ou externas, na coletividade de que participa. Ler não é automático, displicente, nem pode ser ingênuo: a leitura exige discernimento, não importa se de uma criança aprendiz ou de um leitor experiente. E em nenhum caso, o resultado é único ou tranquilo, mas exige coerência entre ler e viver. Ou não faria sentido... ler!

Trecho do texto de apresentação da obra A Falta que faz a Leitura: Saberes em diálogo (IIL-PUC-RJ, 2022), organizada professora e pesquisadora Eliana Yunes. Veja mais Educação & Livroterapia aqui & aqui.

 



domingo, setembro 18, 2022

RITA RUDNER, INGRID JONKER, GRACE AGUILAR, MARIA CASADEVALL & NEIA GABINETARTE

 

 Ao som dos álbuns Nature (2020), Advice From a Caterpillar (2014) e a Live vanuit het Plein Theater Amsterdam (2020), da clarinetista holandesa Fie Schouten.

 

TRÍPTICO DQP: - Os sonhos renascem muitos… - Naquela manhã chovia torrencialmente e o rio ameaçava transbordar como no dia em que nasci. Eu vi, fui embora aos dois anos de idade... Ali minha mãe dissera o mesmo da do Sonho de Kurosawa. O meu quintal crescera naquele exílio, árvores imensas e, lá no fundo, a estrada de Badalejo. Embaixo do arco-íris as raposas não acasalavam, apenas o pife do Papafigo soava de não sei onde, trazendo todos os meus mortos em desfile. Eles ignoravam minha presença ali, parecia, pelo menos não tive que pedir perdão pelo degredo nem por nada. Quando se foram me vi nos labirintos de Borges: O sonho não passa de um mistério. E lá longe os estrépitos de Água Preta. No meio apareceu Deus que encarei como se fosse Shakespeare e só queria ser eu mesmo. Baixei as vistas e ao revê-lo era Esther Vilar com um meio sorriso: Ainda jogamos hoje os mesmos jogos da nossa infância? Claro que não. E mesmo, enquanto crianças, não tínhamos sempre as mesmas brincadeiras, brincávamos até nos apetecer. Não sabia como respondê-la, queria naquele dia fosse apenas uma criança, nada mais. E eu me reconciliasse: era a vida, os sonhos renasciam muitos...

 


O banquete do exílio... – Imagem do artista e ilustrador estadunidense Edward McGinnis – Atravessando as minhas proscrições de xexéu e meu desterro Arrabal, tudo ali me parecia como se eu cumprisse a maldição de Narciso na fonte, condenado ao Dorian Gray do retrato de Wilde no Reading. No meu desamparo foi Babette quem fez a festa e me acolheu: era apenas uma artista. E me contou a anedota do destino de Karen Blixen, e me chamou atenção para o que dissera António Agostinho Neto: Para alcançar a liberdade e sem o qual o comportamento do homem será o de quem sai de uma forma de discriminação para cair numa outra forma tão negativa como a primeira, uma simples inversão dos fatores intervenientes... Não entendia nada porque adolescia como quem perdia a inocência no seu decote. Logo chegaram os convidados do Discreto Charme de Buñuel e eram muitos e se pareciam meus algozes, eu só queria privar da intimidade dela. A primeira a se achegar atrapalhando todo meu intento foi Grace Aguilar, que logo me advertiu: Simpatia é o charme da vida humana. Poesia é um presente perigoso. Ao lado dela o antipático religioso francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) com seu ar severo: Entre todas as paixões da mente humana, uma das mais violentas é o desejo de conhecer... Eu não tinha nada a ver com tudo aquilo, apenas fora levado pela generosidade da anfitriã, um peixe fora d’água que sonhava pelas anáguas e momentos íntimos dela na sua solidão. Mais satírico de todos Julos Beaucarne me puxava insistentemente quebrando o encanto: Anarquista, estou até o fundo dos meus sons! Anarquista, na minha opinião, isso significa que outros caminhos ainda não exploram as portas que ainda não foram abertas. Isso é o que estou fazendo há cinquenta anos. E gargalhava desbragadamente. Todos me pareciam fantasmas famintos na noite longa, sequer eu tinha para onde ir. No meu flagelo ela então apareceu como se fosse Nix e me fez Erebus para que eu soubesse do caos de sua íntima clausura.

 


Neia GabinetArte... – Imagem do escritor e pintor sul-africano Breyten Breutenbach - Amanheci de pé diante da porteira e dentro do cercado a inquieta e sorridente Neia me recepcionava de braços abertos. Naquela placidez pude respirar fundo e reviver o gosto de sentir-me em casa, outra vez menino que se esgueirou pelo mundo com todos os esconjuros. Ofereceu-me água quente para o café solúvel e nos aboletamos numa poltrona amigável. Ela se parecia com a comediantescritora estadunidense Rita Rudner: Eu amo dormir. Você? Não é ótimo? Realmente é o melhor dos dois mundos. Você fica vivo e inconsciente... E depois de mostrar suas traquinagens artísticas, arrematou ainda incorporada: Os homens esquecem tudo; as mulheres se lembram de tudo. É por isso que os homens precisam de repetição instantânea nos esportes. Eles já esqueceram o que aconteceu. Já passava do meio dia quando me convocou a atravessar o pântano: Vamos! Desbravamos passagem escorregadia e me exigiu perícia às marqens do primeiro pequeno açude. Meus pés se encharcaram nas proximidades do segundo e dei graças quando venci o terceiro. Foi então ela colher goiabas, eu restabelecia a respiração. Que coisa! E seguimos pelo caos e atravessamos umbrais como se recitasse a Face do amor de Ingrid Jonker. Quando enfim divisamos a liberdade ensolarada, ela se parecia a linda atriz Maria Casadevall como Guia Turística da Usina de Arte e lá eu me perdi entre as obras de Regina Silveira, a Diva da Juliana Notari, Frida Baranek, Os cabanos da Liliane Dardot, Os mandacarus da caçamba de lixo de Paulo Bruscky, O hangar das Ligas de José Rufino, A cabeça bandeirante de Flávio Cerqueira, A árvore de Hugo França, o Átrium de Marcelo Silveira, Data Vênia e Casa imaginária de Ricardo Pessoa de Queiroz, o Jardim Botânico, a Escola de Música, as três lagoas, a torre da Rádio Catimbó e o Festival Gastrô que virá. Ali eu sei o que já foi dor hoje paragem arejada para saltar aos olhos e entender que a vida é outra. Ainda bem que não sou nada, era mais eu que nunca... Até mais ver.

[...] A educação, como um valor social, extrapola os interesses circunstanciais de grupos isolados e passa a ser uma preocupação da sociedade global. Por que a decadência do ensino? Por que a perda do status do professor? Por que, aos poucos, a educação deixou de ser prioridade nacional, apesar do discurso político? Há toda uma rede de fatores confluentes e que se interpenetram gerando uma rede de causas, fatos e efeitos... [...].

Trecho extraído da obra Avaliação educacional: teoria, planejamento e modelos (Ibrasa, 2000), do educador, professor e pesquisador Heraldo Marelim Vianna (1927- 2013). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



domingo, junho 05, 2022

JUDITH MALINA, MARIE NDIAYE, MARION ZIMMER BRADLEY, LUCIANO GARBATI, HÉLÈNE CIXOUS & PEREIRA DA COSTA

 

 

TRÍPTICO DQP: Uataçara uatá rame uataçába... (Imagem: AcervoLAM) - Ao som dos álbuns For Organ and Brass (Subtext Recordings, 2017) e Chords (Subtext Recordings, 2019), de Ellen Arkbro. – Despertei asfixiado por uma bomba de gás lacrimogêneo. Meu nome era outro e morria de tarde sacudido de cabeça pra baixo num buraco bem fundo, só as pernas de fora... Quem me reconheceria assim jamais. O que era de mim na grande indignação com as emboscadas dos nativos nas veredas da floresta, o meu povo morria comigo a cada instante. Por isso ressurreto entre claroscuros e quase nada ao entardecer na pele de ninguém autá, como se dizia na modinha popular de lá dos setecentos do Vocabulário de Pereira da Costa: Caranguejo anda ao atá / procurando sua estrada / vem seu mestre titio / faz dos caranguejos cambada... Outras eram as chuvas e trovoadas antes dos invernos das burundangas e, por incrível que pareça, me apareceu Gayle Forman para avisar que: Há uma diferença entre perder algo que você sabia que tinha e perder algo que você descobriu que você tinha. Um é uma decepção. O outro parece perder um pedaço de si mesmo. Era mesmo eu e meus muitos pedaços, um deles Barbara Pym: As pequenas coisas da vida eram muitas vezes muito maiores do que as grandes coisas. Era só o meu poente e antes que anoitecesse na pele de Reynaldo Arenas: Sempre considerei desprezível rastejar como se a vida fosse um favor. Se você não pode viver do jeito que você quer, não há sentido em viver... O que meu país se tornou, ah, o que sempre foi: um palmo a menos, um passo a menos na vida de cada dia. O caminheiro segue errante...

 


A trinitita da tragédia... - E se mortovivo era ou nem tanto, quase, algo me ofuscava: o caleidoscópio das tragédias no brilho atomsita achado no deserto de Trinity. E me assombrava com o vidro de alamogordo que não era nada mais que um resíduo vítreo que me deram de Hiroshima ou Nagasaki, e com os plastigomerados de Corcoran&Moore&Jazvac. Mas de repente, no meio de tanta incandescência, era ela que eu nem sabia para me dizer da Lemúria de Cervé: Na verdade, nem todos se perderam e jamais se perderão porque a continuidade da vida lhes veio em socorro e salvou para eles um remanescente da maior e mais nobre das raças que já existiram... Quem era? Só sei que se parecia com o Sol de tão brilhante, impressionantemente corpulenta e pele bronzeada, cabelos pretos, traços refinados, olhos castanhos claros e grandes, penetrantes e agudos escondidos num véu de fibra vegetal a proteger-lhes a face. Retirou o véu e pude ver a sua beleza realçada numa pequena protuberância no centro da fronte: ela fechava os olhos. Achegava-se acesa e fez uma incisão carinhosa no dedo indicador da minha mão direita e na dela, e atou-nos, mãos juntas, para que seu sangue fluísse no meu e nos tornássemos um só. E me ensinou ali a Lei do Sagrado Quatro e as lições do Livro de Dzyan. Foi preciso algum tempo para que eu tomasse pé da situação, ao sabê-la uma chumash, Gu Oficial, feita rainha Califa que governava ilha distante e queria que eu visse os escritos nas cataratas de Klamath e fôssemos para o cone do vulcão extinto do monte Shasta para encontrar os maias do Iucatão. Aí como se fosse a dramaturgatriz poeta teuto-americana Judith Malina (1926-2015) confidenciou: Não deixar esquecer, não contemporizar com o que não pode e não deve ser atenuado pelo passar dos anos... Nada entendia e ela rodopiava no ar e já era a escritora estadunidense Marion Zimmer Bradley (1930-1999): Nunca foi nem nunca será fácil trabalhar! Mas a estrada que está construída sobre a esperança é mais prazerosa ao viajante do que a estrada construída sobre o desespero, mesmo que ambas levem à mesma destruição... E cada vez mais rodopiava e mais e não me deixava esquecer o passado que queimava dentro do meu peito e mente como uma ferida aberta e sangue jorrando dos meus poros. As pedras estranhas luziam como uma ameaça pronta para me destruir. Ao que me fora dado, apenas segurei a mão dela com força, precisava me salvar. Ela virou-se para mim e mergulhei na sua imensidão.

 


O nome da maldição... - Imagem do artista argentino Luciano Garbati. - Quando dei por mim estava num imenso salão vazio. Ouvi passos e fiquei atento. Apareceu-me irresistível Eve Babitz como quem vinha pronta para o icônico xadrez de Duchamp: inebriante e gloriosa com balouçantes seios orgulhosos de festeirescritora nua que não tinha a mínima vergonha da luxúria e o sexo como uma forma de arte nos seus livros. Sentou-se à mesa feita Mathilde Reumaux – O alsaciano está morto, viva o alsaciano! A Alsácia mudou, a elasticidade deve mudar com ela -, no jogo de Arrabal: …o xadrez levou séculos para atingir as alturas da inteligência humana. E em apenas quatro horas mexendo as peças, seguindo as jogadas dela passei da ignorância absoluta ao domínio do jogo. Não sabia como, ela me enfeitiçava e o feitiço me ensinava. Era ela, disse-me: simplesmente, Medusa da Silva, órfã de nascença que havia vivido com a madrinha e fora, ainda jovem e bela, estuprada pelo tio desalmado. Por conta disso fora expulsa: a vaidade é um veneno. Nem a culpa sabia, maculou o nome da família e fora amaldiçoada. Nada entendia e a vida tornou-se uma balsa insuportável. Na sarjeta fora recolhida por Hesíodo que lhe restituiu a dignidade para ser louvada em frente ao Tribunal no Collect Pond Park. Foi nessa hora que inflou o peito para me dizer Hélène Cixous: Basta olhar diretamente para a Medusa para vê-la. E ela não é mortal. Ela é linda e está rindo... Os homens cometeram o maior crime contra as mulheres. Insidiosamente, violentamente, eles os levaram a odiar as mulheres, a serem seus próprios inimigos, a mobilizar sua imensa força contra si mesmos, a serem os executores de suas necessidades viris. Disse-me entre lágrimas. Era certo que havia dado a volta por cima e se tornado a ginasta campeã risonha Katelyn Ohashi para me contar nua Marie NDiaye: Parecia-me que meu talento estava gradualmente enfraquecendo. Por que eu não poderia ser uma bruxa decente?, eu me perguntava em tais ocasiões. Faltava-lhe vontade, entusiasmo, coragem? Era ela ali e a nudez da alma entre a alvorada e o crepúsculo o meio dia, tarde e meia, alta noite, madrugada: ontem nunca será amanhã. Eu sentia: era a minha cabeça que ela segurava. Se ela sempre fora a vítima de toda farsa, eu também inocente carregando culpas que jamais soubera. Simplesmente culpados por viver. Outrora soubesse a vida que se foi, se não sei claro qual escuro, já era tarde demais. Até mais ver.


A primeira regra de descoberta é ter cérebros e boa sorte. A segunda regra de descoberta é sentar-se apertado e esperar até conseguir uma ideia brilhante... Onde devo começar? Comece a partir da declaração do problema. ... O que posso fazer? Visualize o problema como um todo o mais claramente e tão vividamente quanto puder. ... O que posso ganhar fazendo... Para ensinar efetivamente um professor deve desenvolver um sentimento por seu assunto. Ele não pode fazer seus alunos sentirem sua vitalidade se ele não sentir isso sozinho. Ele não pode compartilhar seu entusiasmo quando ele não tem entusiasmo para compartilhar. Como ele faz o seu ponto pode ser tão importante quanto o ponto que ele faz: ele deve sentir-se pessoalmente para ser importante.

Pensamento do professor e matemático húngaro George Pólya (1887-1985). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...